Tocaia por aí

Realizamos um Encontros Tocaia na sede da SobInfluencia, na Galeria Metrópole, centro de São Paulo, no dia dia 20/03 (imagem acima). Foi uma conversa aberta para pensar os tremores do nosso presente: o que significa hoje a forma política de uma prática radical? como sustentar um estudo coletivo, clandestino, desalinhado, antagonista e que seja também uma forma de vida?
A conversa é uma extensão dos debates propostos pela revista impressa e teve a participação de Acácio Augusto, Jean Tible, Bru Ferreira e Caio Netto. Entre outros temas, guardei umas falas de Acácio: “como sustentar um espírito coletivo, clandestino, desalinhado, antagonista, e que seja também uma forma de vida? Justamente: não dar uma forma política a uma prática radical é apostá-la como uma forma de vida, em que a prática radical não é uma excepcionalidade. Esse estudo coletivo clandestino precisa, primeiro, sempre ser feito à maneira de um diagnóstico — e não de um receituário, nem de uma profilaxia. Como qualquer pessoa que já fez uma consulta médica sabe, um diagnóstico é sempre provisório. Segundo, esse estudo/diagnóstico precisa ter sempre forma paródica, ou seja, mostrar o ridículo das solenidades. A gente precisa insistir — para dar um exemplo muito caricato — que o Trump é ridículo, que o Bolsonaro é ridículo. A gente precisa ser capaz de produzir um pensamento que, diante do soberano como bufão, parodie esse soberano.
“Terceiro e último: o tipo de pesquisa que invista de forma demolidora na verdade estabelecida, a favor de reintroduzir o discurso no campo da luta — ou seja, tudo aquilo que parece pacificado, que o direito já abençoou, precisa ser agitado por essa pesquisa. É preciso apontar: olha, aqui, onde parece haver um acordo, no fundo há uma luta reencenada. A forma que proponho — no sentido de que compartilho com as pessoas — seria o que gosto de chamar de uma antipolítica da abolição. Ou seja, o mundo não está precisando de novas coisas, nem de novos programas, nem de novas ideologias. A gente precisa operar num processo de desativação dos dispositivos, num processo de subtração. E se eu fosse tomar como exemplo a frase dos anarquistas gregos de 2008 em Atenas — “Nós somos uma imagem do futuro” —, eu diria que a imagem do futuro é a subtração. É isso: trabalhar na abolição disciplinada dos dispositivos.”

Por falar em Tocaia, de dezembro (lançamento da revista) até abril, tivemos mais alguns textos publicados somente online. O primeiro, de Allan de Campos, parte do bloqueio ao terminal da Cargill em Santarém pelos povos do baixo Tapajós para construir uma análise estrutural do agronegócio da soja: seus oligopólios transnacionais, seu financiamento público pelo BNDES, e os seus impactos sanitários devastadores — da contaminação por agrotóxicos às malformações congênitas, da dengue resistente à destruição dos territórios indígenas. O texto recusa o enquadramento da luta indígena como “excepcionalidade” e propõe entender a cosmopolítica dos povos do rio como materialismo radicalmente vivo, capaz de nomear o inimigo com mais precisão do que muita teoria urbana consegue.
O segundo texto, de Paul B. Preciado (publicado no Libération e traduzido para o Tocaia), e o terceiro, de Alana Moraes, se articulam de forma complementar em torno de uma pergunta urgente: de onde vem a aceleração que desorienta o presente e quais formas de resistência ela exige? Preciado rastreia a metodologia da aceleração nos textos de Nick Land e mostra como o aceleracionismo niilista de Land, passando pelo “Iluminismo Sombrio” e pelo hiper-racismo, tornou-se a filosofia prática de Trump, Vance, Musk e Bannon.
No terceiro texto, Alana Moraes, por sua vez, recusa o “pensamento crítico” como nova lança heróica e propõe outra forma de fazer política: a da bolsa e do cesto, das histórias coletivas, das tramas multiespécie — das mães que perdem filhos ao zapatismo, da Revolução Haitiana aos metalúrgicos do ABC. Contra as ficções do sujeito universal e da totalidade revolucionária, ela aposta nas autonomias que se tramam no chão dos territórios: “O que a luta dos povos e de todas as dissidências nos ensinam é que não há nada mais anti-revolucionário e conservador do que a reivindicação pela totalidade e suas instâncias de organização. Proclamar a vitória de “um só mundo” contra todos os outros é justamente o que tem feito o consórcio Estado-Capital, uma movimentação que só pode prosperar, entretanto, a partir de seu arsenal racial-colonial. Quem diz “um só mundo” precisa também dizer qual o mundo que realmente vale e quais os outros que precisam deixar de existir”.


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