BaixaCultura

14 anos de BaixaCultura

Acredita se quiser: setembro de 2022 é o mês em que completamos 14 (!) anos

Em 15 de setembro de 2008, o post que inaugurava esse espaço usava o documentário “Good Copy, Bad Copy” para fazer uma espécie de manifesto do que pensávamos sobre toda a questão da livre circulação de cultura na rede. Um trecho:

Os argumentos falaciosos [da Indústria Cultural que criminaliza o download] mascaram o problema do acesso com a histeria em torno da violação de direitos e do lucro indevido, sem nenhuma vergonha do anacronismo ademais antidemocrático (afinal, o acesso à cultura diz muito da qualidade de uma democracia) do tratamento dispensado a questões como a da cópia livre ou o sampler, essa técnica já secular.

Secular, pois é. Praticada na literatura desde Lautrèamont e, décadas depois, adotada por surrealistas, situacionistas, e uma pá de outros doidos defensores de que numa sociedade entupida de informação, a utilização de materiais pré-existentes pode ser bem mais subversiva do que produzir a partir dum vago princípio de originalidade.

Depois vieram dub, rap, hip hop, os soundsystems, respostas da periferia (econômica, mas também geográfica) ao caráter unidirecional da cultura pop. Respostas mais e mais ameaçadoras para a indústria à medida que a tecnologia digital se torna largamente acessível para qualquer um que queira produzir e compartilhar cultura. Nesse ponto, não apenas os modos de produção, mas também os de distribuição e consumo de produtos culturais necessitam de revisão.

A lógica industrial da cultura [a lógica cultural dominante ao longo do século 20] se baseia num esquema feroz de controle autoral (o copyright), mais ou menos feroz a depender do volume de grana envolvido [no Brasil, pelo menos, os contratos de edição de livro são bastante flexíveis se comparados aos acordos abusivos da indústria fonográfica]. Quando a tecnologia digital torna impossível esse controle, e aos lucros cada vez menores da indústria se equipara uma produção cultural descentralizada, diversificada e auto-gerenciada; quando a reação da indústria é uma dispendiosa campanha “contra a pirataria” por vezes redundando em leis ignorantes, é aí que o toque dado por Ronaldo Lemos em seu depoimento ao filme serve como uma luva: a sociedade é a grande concorrente da indústria.

De lá pra cá, tudo mudou na internet. Quase desnecessário dizer, mas gostamos da repetição: “Navegar na internet”, uma frase tão comum na época quanto a famigerada expressão “internauta”, era o hábito cotidiano de entrar em um site e, dele, pular para outro, e outro, e outro, até se perder, horas depois, em uma página em que não se sabia bem como se havia entrado. Flanêur digital era outra expressão utilizada para identificar esse caminhante sem rumo pela rede, que se perdia nas esquinas dos blogs como um andarilho pelas ruas das grandes cidades.

As plataformas digitais, e o Facebook em especial, mudaram esse movimento; trouxe a cidade inteira para o caminhante andar sem sair do lugar. Uma cidade construída por uma (ou poucas) empresa privada que, em cada movimento feito pelo seus habitantes, produz um dado, o qual, recombinado a outros milhares, torna-se extremamente rentável, preciso, invasor, gerando o que atualmente se define como “capitalismo de vigilância”, o modo de viver e ganhar dinheiro predominante na internet hoje – e o resto é história (parcialmente documentada aqui, aliás).

Para celebrar essa efeméride, estamos lançando este site novo. A proposta foi atualizar o visual, que desde 2012 era o mesmo, e facilitar o acesso ao que produzimos. O trabalho, que modéstia a parte achamos lindo, ficou a cargo do designer Gustavo Alencar. Ainda estamos fazendo ajustes e logo teremos novidades (A VOLTA DO BLOGROLL!). Se tiver alguma sugestão, crítica ou comentário só deixar aqui, falar no info@baixacultura.org e onde mais você quiser.

 

 

Comments:

  • Ale Abdo

    Ni! Parabéns pelo bravo, insistente e creio que recompensante trabalho 😀 Para honrar a pompa pampa da ocasião e do novo site, deixo aqui um poema que escrevera por aquela época (e publicara em copyleft na wiki Sexta Poética)…

    regem tolas coincidências astrofísicas
    o ritmo circadiano dos ecosistemas
    onde nós circunavegantes solares
    ciclicamente sobrevivemos

    sobressaem-se em efemérides como esta
    tantos sonhos e desejos mundanos
    quanto há dessas formas passageiras
    que a si mesmos chamam de humanos

    nós, que por um simples nome rogamos
    no som primeiro herdar o universo
    e então do nosso destino mestres
    fazer-nos puros como anjos

    mas que o final nos seja um espelho
    que traia nós narcisos a enxergar
    a esperança com que começamos
    num agá silencioso de humildade

    .~´

    • baixacultura

      Que maravilha, Abdo, gracias por todo o apoio e base nesses tempos.
      “que o final nos seja um espelho
      que traia nós narcisos a enxergar
      a esperança com que começamos
      num agá silencioso de humildade”

      baita!

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