Põe na conta do Reznor

A primeira coisa que fiz ao ficar sabendo do disco novo do Nine Inch Nails foi me irritar com o texto que me deu a boa nova.

É evidente que a segunda coisa foi baixar o disco lá na página oficial do NIN. E, bem, não gostaria de esconder a terceira de você, que foi descobrir que acabo de chamar de “disco novo do Nine Inch Nails” uma parada que foi lançada há quase um semestre.

Tenho repetido (normalmente pra mim mesmo, mas nem sempre) que apesar da relevante atuação de Ronaldo Lemos nas discussões relacionadas aos direitos autorais no Brasil eu acabo sempre escolhendo desconfiar de certo tom apaziguador-homem-de-negócios-esclarecido com que ele costuma apresentar o que pensa.

Lê lá o texto pra tu ter uma idéia.

A tentativa de inserir a iniciativa do Nine Inch Nails na tal lógica da “economia da dádiva”, a mesma lógica segundo a qual operam empresas que “remuneram seus funcionários acima de suas expectativas” como estratégia para que esses mesmos funcionários trabalhem mais ao se sentirem “presenteados”, a tentativa de inserção do NIN nessa lógica, eu dizia no início dessa frase enorme, só alimenta a desconfiança que nutro por esses papinhos reformistas.

É muito provável que a tal lógica se aplique ao In Rainbows, por exemplo, e preciso dizer que embora o disco me cause enorme felicidade (como todos os outros do Radiohead) eu mesmo nunca comprei a idéia de que o esquema “pague o quanto quiser” fosse revolucionário e doidão, e quanto a isso pra não esticar conversa digo apenas que 1) o download do In Rainbows não está mais disponível oficialmente e 2) a Rolling Stone do Maluf achou sensacional, consequentemente eu não posso achar também.

Quero crer que o caso do Nine Inch Nails seja mais rico e complicado que isso.

De início, ao invés de “pague o quanto quiser” há um belo “este é por nossa conta” (this one is on us) estampado no site da banda. Além disso, o estímulo à apropriação [mais que ao download, ao remix mesmo] é não apenas explícito, mas oficial. Fora aquele simpático parágrafo à direita, me estimulando a postar o disco aqui no blog, compartilhar com os amigos e dá-lo de presente a pessoas desconhecidas.

Tu acha pouco? The Slip está disponível em outros formatos além do MP3 (FLAC, M4A, talvez outro mais, não lembro), há instruções cuidadosamente didáticas sobre as vantagens e prejuízos de cada um dos formatos [o que de cara relativiza os argumentos sobre a falta de qualidade dos arquivos de áudio disponíveis na internet, e além do mais põe lenha nessa discussão aqui] e, “for those of you interested in physical products, fear not”, o disco foi lançado posteriormente em cd e vinil.

O que isso tudo quer dizer? Nem Trent Reznor tem certeza [mas repare na certeza, lá no fim da entrevista, de que as gravadoras “foram projetadas para sugar os músicos”]. Como para o Radiohead (embora com aparente mais coragem) e tantos outros, o que parece interessar é testar a mão, no sentido de descobrir o que fazer com a música que, afinal, ninguém deixará de criar porque as grandes gravadoras agonizam.

A mudança geral (“geral”, né) na mentalidade dos artistas em relação ao papel das gravadoras repercute com significativa diferença na situação de 1) pessoas que [como Reznor] em algum ponto de suas bem-sucedidas carreiras deixaram de ver sentido no modelo-padrão da indústria e 2) aquelas que, sem acesso ou sem interesse no Esquemão, já iniciaram suas carreiras de maneira independente. Embora seja provável que não haja distinções significativas nos modos de produção/criação dessas duas categorias, o uso da internet na distribuição e no consumo musical traz implicações bem distintas para, digamos, um baita compositor que mora em Alagoas, um dinossauro da música brasileiraum dos criadores mais significativos do rock industrial, esse gênero tão simpático à subversão.

[Digressão. Lobão costumava dizer que não havia grandes diferenças entre o que ganhava no independente e na época da gravadora, mas isso foi na fase relevante que precedeu a pavonada.]

Estas são todas questões devidamente abertas, casos não encerrados de uma história cultural em trânsito sobre a qual talvez a única certeza seja a de que ela não se fará sem tomada de posição. No fundo, The Slip é um entre muitos testemunhos do que há de mais legal nessa coisa toda, o fato de que, aconteça o que acontecer, ninguém vai deixar de criar por não saber ao certo o quanto irá ganhar com i$$o.

E, bem, eu não mencionei até aqui por imaginar que neste ponto do texto você já esteja ouvindo a nova empreitada de Trent Reznor comigo, mas The Slip é um puta disco. Tem bons níveis de eletrônica e ruído (embora por mim pudesse ter até MAIS), riffs simples, daqueles que Tom Morello costumava dizer serem os únicos capazes de fazer as pessoas pularem de verdade, uns bons temas instrumentais que de alguma forma ligam o álbum ao anterior, que aliás dá pra ouvir oficialmente também e é muito bom. Dá uma sacada no clima da coisa:

Dá pra ver mais trechos do ensaio aqui. E aqui, o canal oficial da banda no youtube.

Vê lá, cuida.

*

Em tempo. O Nine Inch Nails está em turnê pela América Latina com direito a show cancelado no Brasil e tudo, eu sequer mencionei isso no texto acima e pra compensar meu relaxo informativo compartilho essa bela imagem de palco do NIN:

Hmm. E que tal essa:

Hein?

[Reuben da Cunha Rocha.]

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