Pausa para Laerte

Interrompemos a programação normal do blog para um comentário especial sobre um assunto “da moda”.

crossdressing laerte by Angeli

Semana passada saiu uma interessante entrevista do Laerte para o Ig Moda, na qual ele fala sobre Crossdressing – prática que adotou desde o fim 2008, quando começou a fazer uma série de tirinhas chamada Eu, Travesti. É fácil pensar que ele virou gay (é bissexual assumido já faz algum tempo) ou que ele está ridículo (alguém de outra cultura pode dizer que me visto de maneira ridícula, e vice-versa), ou que ele está com a cara de uma tia, dar risada e acabou. Mas, além desses julgamentos prontos, se se prestar mais atenção, pode se ver uma boa reflexão que ele está produzindo. Um conflito intelectual proporcionado não só em algumas pessoas, mas nele também.

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Tendo já contribuído bastante para a arte sequencial do Brasil, Laerte poderia se acomodar e continuar compondo qualquer besteira, da mesma maneira que inúmeros músicos depois do auge fazem. Entretanto, não é o que ocorre. Sua produção é contínua dos anos 1970 até hoje. Ele acaba de lançar um livro novo, “Muchacha”, que pode ser lido na íntegra em seu blog, o Manual do Minotauro, onde publica quase todos os dias. E como consequência direta de sua incursão pelo guarda-roupa feminino, já foi criado um blog inteiro só com incontáveis tirinhas sobre seu personagem crossdresser – Hugo/Muriel, que Laerte já assumiu como sendo seu alter-ego. A partir dele e de si próprio, Laerte está mixando dois gêneros e materializando questionamentos que uma minoria gostaria de poder expressar, ou expressa e não tem repercussão. Parece buscar inspiração na complexidade que é ser mulher, se afundando na lingerie feito Arnaldo Baptista, para tentar entender este universo oposto ao seu, enquanto usa sua notoriedade, talvez sem querer, para dar visibilidade à liberdade.

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Em época de que nada mais parece ser estranho, dá para se perguntar: quais artistas conseguem ainda provocar estranhamento hoje nas pessoas? Quem tenta “aplicar um golpe na lógica, o de implodir o senso comum” como ele disse em outra entrevista, sem parecer forçado? Quem as faz repensar, nem que seja por 10 segundos, o seu próprio comportamento – ou reprodução de comportamento?

Alguns demonstram sentir um desconforto ao olhar e saber que ele se veste com roupas femininas, como se o modo de se vestir estivesse protegido por alguma lei, uma propriedade estética, e qualquer infração a essa lei fosse um crime. Taí: só por causar este desconforto nessas pessoas já dá pra dizer que é instigante a opção de Laerte.

http://www.youtube.com/watch?v=x1cX4-hOP-8

[Marcelo De Franceschi]

  1. Olá… Eu não queria fugir do assunto, mas eu tenho uma pergunta: Quando o Iron Maiden fez aquelas músicas inspiradas em Aldous Huxley, Edgar Alan Poe e vários outros escritores, eles tiveram que pedir licença para alguém?

    Quando o Gessinger fez uma música com o mesmo nome de um livro do Moacyr Scliar, os EngHaw tiveram que pedir licença ao escritor?

    Pergunto isso por que procurei nos discos qualquer menção a direitos autorais e nunca encontrei nada.
    Eu gosto muito do blogue de vocês e acho mais do que pertinente essa discussão sobre direitos autorais. Acredito que uma obra pode e deve ser utilizada por outros artistas, até por que assim serve como divulgação.

    Acho muito legal quando os Engenheiros do Hawaii citavam Chico Buarque, Belchior e Sartre nas letras. Acho muito legal quando o Alan Moore cita Shakespeare nos diálogos de “Do Inferno”.

    Um amigo meu pretende escrever um livro de ficção e inserir nos textos trechos do Dream Theater, Iron Maiden, Mário Quintana, Belchior, Pink Floyd entre outros. Será que vão incomodar o cara em relação a esse lance de direitos autorais?

    Dizem que o Joe Satriani encheu o saco dos caras do Coldplay por causa de plágio. Até onde é homenagem ou simples referência e até onde é plágio? Será que isso não é um ranço do Joe Satriani?

  2. Adorei a “Pausa para Laerte”… me diverti imaginando algumas cenas inusitadas.. e confesso que até gostei da ideia de “crossdressing”. Em algumas situações é infinitamente mais simples se vestir como homem do que como mulher (festas, então, nem se fala).
    Na realidade, a moda feminina ultimamente tem pego carona no “crossdressing” e adaptado elementos masculinos nas produções e, em termos gerais, é bem aceito pelos fashionistas. Já o contrário, ainda sofre preconceitos.. mais ou menos “como se o modo de se vestir estivesse protegido por alguma lei”, tal como citado no texto.
    Mas não há como negar que o crossdressing se manifesta, por vezes veladamente, no mercado. Afinal, de onde saíram as calças jeans masculinas com lycra?? Do guarda-roupa feminino.

  3. Sendo um pouco mais vulgar: se a esposa do Laerte não faz objeção ap modo como ele se veste, quem somos nós para nos incomodarmos? O cara é o maior quadrinhista do Brasil, e sua produção atual é além de qualquer coisa que algum artista já tenha feito.
    Já pensaram em entrevistá-lo, a respeito de disponibilizar Muchca para leitura online? Tentem por e-mail, que eu me lembre ele é acessível.

    1. Francine,

      essa intertextualidade é o que turna tudo mais interessante né? Ela está sempre presente e é inevitável, já que nada surgiu do vácuo. Tudo tem uma referência, nem sempre visível, mas a inspiração em outra coisa é onipresente.

      Acho que os exemplos musicais que citou não houve complicações porque ou se utilizaram de pequenos trechos, ou tornaram a obra dos escritores ainda mais conhecidas, ajudando até na venda das obras. Talvez por isso, acreditamos que não vão incomodar teu amigo.

      Sandra,
      te agradecemos pelas observações das roupas. É como o Laerte disse na entrevista: “A moda não é uma ordem; é uma sugestão.”. Tem roupa pra tudo e cada um que se vista como acha que fica melhor. Os “puristas” conservadores vão reclamar, mas a diversidade e novos pontos de vistas felizmente aparecem.

      Bruno,
      até pensamos mas estavamos com pouco tempo entre uma postagem e outra. Quem sabe numa próxima.

      Obrigado a tod@s pelos comentários.

  4. Me tornei fã do Laerte lendo suas tiras no jornal Zero Hora, lá no final da década de 80.
    Confesso que tomei um susto ao vê-lo vestido daquele jeito pela primeira vez, mas aí eu matutei um pouco e deixei pra lá.
    Não importa que roupa ele use, ele continua sendo o Laerte.
    Valeu.

  5. Quite a few our weblog readers get hated my private internet page no longer working appropriately all through Traveler but seems fantastic inside Opera. Do you could have any kind of tricks to help fix this worry?

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