Literatura Google Earth

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De vez em quando me deparo com algumas coisas na web que não consigo entender bem. Na maioria destas ocasiões, a minha perplexidade é um típico alarme de que algo novo está diante de mim: algo que até já tinha ouvido falar, mas não acreditei que fosse possível ver da maneira que me é mostrado, ou então algo que até mesmo já tinha visto, mas não havia tido o tempo necessário de compreender o grande lance por trás da idéia da coisa.  O meu exemplo preferido para estes casos incríveis de perplexidade, que nem é tão novo mas enfim, é o Google Earth. Pra mim, é a ferramenta mais magnífica que o Google já criou, muito embora ele nem tenha criado, mas potencializado em escala global algo que já existia secretamente nas melhores agências secretas estatais.

Ver todo planeta por meio do Google Earth é uma experiência  tão inacreditável que, tenho alguma certeza disso, ninguém ainda sabe mensurar o quanto isso vai ser um paradigma para a nossa existência. Pode até parecer entusiasmo exagerado, típico daqueles senhores que viram depois de velho a criação da internet, mas não consigo deixar de pensar em outra coisa quando vejo as possibilidades de inovação que o Google Earth potencializa.

Quer um exemplo? Aqui está, então. Nem é lá muito revolucionário, mas é como a ponta de um iceberg, para ficar numa metáfora que todo mundo entende  – se eles já conseguem fazer isso brincando, o que não farão daqui há alguns anos?

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O  site é We Tell Stories. Resumidamente, pode-se dizer que ele é uma série de seis histórias escritas por seis autores diferentes, cada uma usando mais ou menos alguma ferramenta da web. A que quero falar aqui é a primeira, contada em tags no Google Earth, por onde acompanhamos o movimento dos personagens nos locais por onde eles passam. Há a possibilidade de ver material adicional à história, como fotos dos locais por onde vamos seguindo os personagens. O conteúdo extra vai aparecendo na medida em que a história se desenvolve, ajudando a contextualizar tudo.

O nome desse primeiro livro – ou jogo virtual, ou as duas coisas ou ainda uma outra coisa que não sabemos ainda o que vai ser –  é “21 Steps“, escrita pelo britânico Charles Cumming. A história é inspirado num clássico thriller de Jon Buchan, The 39 Steps, que trata do aventureiro Richard Hannay, que retorna da África do Sul para Londres e está entendiado com sua  pacata vida na capital britânica. Até que, como todo bom trhiller, um assassinato acontece e tudo se modifica.

Podemos acompanhar a movimentação de Richard por Londres. Paramos para tomar um café com ele; vemos o que ele está pensando enquanto toma seu café. Lemos através das tags, como num livro, o que está acontencendo naquele local. Quando Richard resolve atravessar a rua e checar alguma coisa na British Library, seguimos ele. Lemos a descrição do ambiente enquanto vemos, de cima, o pátio da British Library. Notamos que ele resolveu subir as escadas correndo e acompanhamos seu movimento como um rastro azul; um marcador vermelho pára e mostra que ele resolve parar no segundo andar e verificar um computador. Na própria tag onde está a história vemos que a tela do computador está com uma estranha mensagem: “DO NOT BE LATE“. E assim Richard resolve investigar, e assim a história continua por mais uma dezena de capítulos.

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(em versão Google Maps)
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O projeto do We Tell Stories é idealizado pela Penguin Books, aquela mesma dos pockets baratos em inglês que encontramos em algumas livrarias brasileiras. Foi lançado em março do ano passado e teve alguma repercussão em blogs estrangeiros e nacionais, mas não muita. A idéia da coisa, pelo que entendi, é divulgar os livros clássicos por meio dessas versões digitais. Tudo pensado para cativar o novo público leitor que nasceu junto com a internet – e com isso ganhar dinheiro.

Outros livros que foram recontados para a web foram clássicos do porte de “Fairy Tales“, de Hans Cristian Anderson e “Hard Times“, de Charles Dickens. Nenhum de forma tão inovadora quanto “The 39 Steps”, é verdade. Mas parece uma idéia interessante só o fato de uma editora tradicional se propor a criar formas alternativas de cativar novos leitores.

É inevitável imaginar como seriam iniciativas parecidas com essa aqui no Brasil. Acompanharmos os movimentos de Bentinho e Capitú no Rio de Janeiro do final do século XIX  em “Dom Casmurro” , por exemplo; a saga de Baleia e cia no sertão nordestino de “Vidas Secas”, incluindo até mesmo cenas do clássico filme homônimo de Nélson Pereira dos Santos; seguir o caminho das viagens de “O Louco do Cati”, do gaúcho Dyonélio Machado, o on the road brasileiro; aliás, que tal acompanhar Kerouac e Dean Moriarty em suas perambulações pelos EUA e México no On the Road original?

[Leonardo Foletto]

  1. Cara, daonde que tu tira uma pauta dessas. Em pouco tempo, já sinto que o Baixa Cultura é referência.
    Lendo o teu post, lembrei da reportagem que escrevi para o Itaú Cultural sobre literatura hipertextual, embora tu vá além do que eu pesquisei na época. Em todo caso, não lembro se já te mostrei, tem um link pra essa reportagem (também feita em forma de hipertexto) no cabruuum.
    E a Penguim Books tá se tornando minha editora favorita. Se eu der as caras em Londres, vou querer visitar a sede.
    E che, to lendo um livro de crônicas brasileiras, o Boa Companhia, da Cia das Letras. Imagino que tu adoraria ler essas histórias que mostram o quanto a literatura brasileira é profunda (e leve). Algo que um cara do alto da ignorância do Harold Bloom não consegue captar.
    Abração!

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