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sergio amadeu

Sérgio Amadeu é uma das figuras mais conhecidas no Brasil quando se trata de Cibercultura, Cultura Digital e ciberativismo, dentre inúmeros outros assuntos relacionados à estes três (enormes) guarda-chuvas. De modo que não cabe aqui muita apresentação sobre ele. Eu o conheci pessoalmente por ocasião da Campus Party deste ano, onde ele foi um dos organizadores, e quase sempre era encontrado liderando manifestações e/ou ou defendendo sua posição em debates (como na foto que abre esta postagem) por uma  internet livre.

Recentemente, Amadeu ministrou  uma aula na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), onde falou sobre a quebra do conceito de autoria e a “condição hacker” da sociedade contemporânea. Dessa aula saiu a matéria “Homem Coletivo“, no portal Ciência Hoje, reproduzida também no portal do Instituto Humanitas Unisinos.

Saliento aqui alguns trechos, mas é claro que a leitura completa da(s) matéria(s) é bastante recomendada. Traz algumas boas ideias para se pensar enquanto este patriótico feriadão inicia:

Software é mais parecido com uma música do que com uma turbina de avião: não tem existência física, portanto é imaterial e não é escasso”, diz o sociólogo. E completa: “Se me roubam o celular, eu perco aquele celular para sempre. Se copiam um software que inventei ou um CD que tenho, ambos se duplicam, mas aquilo continua sendo meu. É o que chamamos de ‘bens não rivais’. Portanto, diferentemente do que muitos dizem, pirataria não é crime.”

“O conceito de autoria foi totalmente modificado com a internet. Na cibercultura, a prática é recombinante, segue a tendência do remix. Tudo é produzido coletivamente. No mundo pós-internet, houve uma crise na propriedade”.

Na mesma matéria que o IHU reproduz, há uma indicação para uma entrevista dada por Sérgio Amadeu ao portal ainda em 2007. Nela, o sociólogo também diz coisas interessantes que merecem destaque aqui. Perguntado sobre o debate em torno da cultura livre e da ameaça da apropriação das artes e do conhecimento na era da informação, saiu-se com essa resposta:

Sérgio Amadeu – A questão é bastante complexa, mas nós temos uma situação em que a internet pôde avançar e recobrir o planeta exatamente porque toda a construção dela é baseada numa cultura de liberdade. Vários pesquisadores, entre eles o Manuel Castells, descrevem que na formação dessa grande rede das redes está presente, por exemplo, a cultura acadêmica estadunidense, baseada na ciência que parte do compartilhamento do conhecimento. Por outro lado, há na contracultura dos Estados Unidos o que chamamos de subcultura hacker, que também é baseada na liberdade, na idéia de que o que é bom precisa ser compartilhado. Essas culturas acabaram sendo decisivas para a escrita dos principais protocolos de códigos que compõem a internet. Por isso, a internet é uma grande rede que facilita o fluxo de informações e é algo que não está acabado, avançando, portanto, mediante reconfigurações e recombinações constantes. Os grandes grupos que se tornaram poderosos na economia industrial na área de entretenimento e telecomunicações, principalmente, estão percebendo que a internet está criando várias dificuldades para os seus modelos de negócios, exatamente porque não permite apenas a liberdade dos conteúdos, mas também a liberdade de criação tecnológica. Então, até 1992 não existia lobby ou o modo gráfico da internet. Isso foi criado em cima dos protocolos anteriores. Ninguém tem que pedir autorização para criar alguma tecnologia nova ou novas possibilidades de interação.

Essa liberdade de criação incomoda os velhos grupos, as velhas instituições do mundo industrial, que estão agora tendo que correr atrás dessa cultura de liberdade, querendo implantar uma cultura da permissão, ou seja, querendo controlar a rede. Controlar não só os fluxos de informação, mas também as possibilidades de criação e de recriação, o que implica a própria lógica da internet. Eu diria que a internet é uma obra inacabada, exatamente porque o terreno com que ela é construída é o terreno da liberdade. Nós estamos enfrentando vários problemas para manter a liberdade. Nos Estados Unidos, agora foi constituído um movimento chamado Save the internet com o objetivo de tentar garantir que as operadoras não possam, a partir do controle que elas fazem da infra-estrutura de telecomunicações, controlar igualmente os pacotes, os formatos que podem e que não podem passar pela rede. Em paralelo a essa batalha que está acontecendo nos Estados Unidos, há tentativas de vários países de criar tecnologias de controle ou criar leis nacionais para controlar a rede. E muitas, como no caso do Brasil, dessas leis querem acabar com o anonimato na rede, por exemplo. O objetivo da lei é exatamente implantar, dentro da internet, uma sociedade de controle absoluto, o que é um absurdo, pois impede que as pessoas possam criar dupla e múltiplas identidades e vai impedir que elas tenham liberdade de navegação, facilitando simplesmente que os grandes grupos de pesquisa possam ter identificados os rastros digitais. Ou seja, estão acontecendo várias batalhas, nas quais esses grupos do mundo industrial querem derrotar o que eu chamo de princípios da cultura hacker, os princípios que até hoje garantem o funcionamento livre da internet

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Sérgio Amadeu é também professor da pós-graduação da Cásper Líbero, em São Paulo. Neste segundo semestre, ele ministra a disciplina de Cibercultura e Comunicação em Rede, e aqui dá para ver todo o programa da disciplina, com ementa, tema de cada aula  e a bibliografia lida. É uma referência importante para quem quer saber mais sobre o assunto.

[Leonardo Foletto.]

Crédito: 1.


  1. Muito pertinente este texto, Leonardo. O controle sobre o anonimato na Internet é algo que me preocupa porque considero ele importante para a liberdade de expressão na Internet. Concordo com Amadeo quando diz que a Internet é o terreno da liberdade. Mas os mecanismos de controle estão se proliferando e tenho medo do que pode vir a acontecer.

  2. Silvana,
    Eu também temo, e por isso é que tento, de uma forma discreta até demais, pelo menos informar as pessoas sobre o que estão querendo fazer com a internet.

    Alan,
    Sérgio Amadeu é uma figura das mais importantes do movimento do software livre brasileiro, por ser muito lúcido naquilo que fala e que consegue extrapolar o lance político e ideológico presente nesse tema hoje em dia. Valeu pela indicação!

    Aracele,
    Fui falar do Sérgio no parágrafo acima e agora que me dei conta de que falei quase o mesmo que tu. Brigadaço pela parceria na “luta” e pelo comentário.

    abraços a todos

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