De e-livros e livros

É visível, a livre distribuição e consumo de literatura na rede ainda não alcançou a mesma dinâmica que o tráfego de arquivos de som e vídeo, e o que talvez à primeira vista possa não passar de um reflexo da frágil educação brazuca possui pra mim uma causa mais imediata e ao mesmo tempo de mais fácil remédio: o formato.

[Abro em meu computador a pasta de ibúks e reparo na profusão de peixes fora d’água, livros que são apenas isso, livros, mídias da idade da imprensa perdidas no espaço da tela, e não tenho paciência pro incômodo de lidar com aquelas páginas e volto a este texto.]

Há por um lado e evidentemente iniciativas como o Dossiê Deleuze, das quais não se poderia mesmo cobrar coisalém dos scans das obras [repara que estão lá inclusive os livros caprichados da editora 34, gloriosamente grátis], e é o caso na verdade de tirar o chapéu para a disposição de se catalogar e disponibilizar um acervo pirata tão variado e cuidadoso. 

Mas para mim o dossiê consegue funcionar apenas como espaço de referência, nunca de leitura integral, e a iniciativa assim me diz algo sobre o problema do formato, e me diz que o problema reside em etapas anteriores ao consumo das obras, reside na produção e na distribuição, os pontos do processo onde se encontram autores e editores. A escassa leitura de livros na rede fala portanto da indisposição dos autores de escreverem para esse espaço [e, ah, abandonarem as prateleiras e a longo prazo as traças], ou do desinteresse das editoras em explorarem esse tipo de produto.

Entre os escritores as excessões, e entre as excessões gostaria de destacar o poeta Marcelo Sahea, que estreou em 2001 com o e-livro ‘ejs [15 mil downloads em 1 ano, esgotado]. À estréia se seguiu carne viva, e-livro que depois virou livro e, esgotado, voltou ao formato original [download aqui], e de onde o poema visual que abre este texto foi tirado. Na sequência veio leve (2006), em livro, que Marcelo pretende jogar na rede assim que esgotar.

[Mas baixa lá o carne viva antes de continuarmos. É que talvez o livro ganhe uma reedição e saia do ar, e só volte quando novamente esgotado. “A idéia é deixá-lo acessível. Se não tem no mercado, tu baixa. Se tem, compra e me ajuda”, palavra do autor.]

O livro de Sahea tu lê assim que baixa, e até o fim. O formato das páginas é ideal [elas abrem inteiras na tela] e a metragem do livro, adequadíssima. Só a tua preguiça pode te impedir de lê-lo inteiro, de uma vez. Também a imaginação veloz e altamente visual do poeta transformam a obra num produto perfeito, a começar de que sei que Marcelo não se ofenderá com a palavra produto. Visual é mesmo uma boa palavra para o livro, objeto pensado para a visibilidade, prazer dos olhos.

Como também o são, no caso das editoras, os discos-para-ler da Mojo Books. O ponto de partida da editora [100% virtual] é a pergunta: se um disco fosse um livro, que história contaria? E independente da resposta a pergunta aponta para duas características de que todo o seu catálogo se beneficiará: a popularidade da canção e, ele novamente, o formato, nesse caso de cd.

Funciona assim: tu te cadastra pra baixar os livros [os singles, ou comix] e pra enviar material também. Nesse caso, escolhe um disco [ou música, para escrever um single] e segue as orientações [as obras não devem fazer qualquer referência direta aos discos e devem obedecer a um limite específico de caracteres, por exemplo].

Embora o trabalho da editora seja uma excelente lição sobre livros virtuais, é preciso dizer que frequentemente a qualidade dos produtos deixa a desejar. O ponto de partida sendo a música, ocorre o curioso efeito de por vezes os trabalhos enviados serem realizados por fãs das bandas, não por escritores. Por ouvintes afetuosos, mas sem grandes preocupações ou envolvimentos com a linguagem. Ainda assim, há experiências a serem conferidas, como a do graaaaande Gastão Moreira [VJ do tempo em que a MTV tinha música no M, depois piloto do Musikaos na TV Cultura] e da escritora Andréa del Fuego [de quem li Engano Seu e gostei].

E banda boa tem um monte também!

[Reuben da Cunha Rocha.]

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