A memória da música

Há alguns dias, o jornalista Pedro Alexandre Sanches [leia o livro, leia mesmo o livro] fez um comentário sobre dois [este e este] documentários recentes dedicados à música brasileira, e acabou levantando uma questão interessantíssima sobre o papel cultural do download e da pirataria.

O lance é que enquanto via os documentários Sanches se tocava duma coisa: há ali várias imagens que entraram pra história precisamente por não poderem ser vistas, imagens às quais o acesso era negado e das quais em alguns casos se dizia inclusive que haviam se perdido definitivamente. Dita por mim, essa constatação talvez não valha muito. Mas pense que Sanches é dono de um dos mais vastos repertórios musicais do atual jornalismo, e isso não quer dizer apenas que tenha ouvido todos os discos, mas também que possui rara compreensão cultural dos movimentos da música brasileira e que deve sempre ser ouvido, mesmo quando está errado. Se ele não viu, dificilmente alguém o fez. Acho que tu devia ler a íntegra do texto, mas repara nisso [grifos meus]:

enfim, a surpresa de simplesmente poder ver esses documentários me parece tão impactante quanto as histórias fabulosas, entre grimm, shakespeare e freud, que os celulóides desenrolam. e aí a pergunta que ribomba é: onde é que essas imagens andaram esse tempo todo?, como e por que é que o brasil as escondeu (e ainda esconde) por tantas décadas?

para que inventaram fita vhs, dvd, blu-ray, se não servem para trazer de volta um pouco do que há de mais precioso no nosso passado? para lançar dvd do show ao vivo do disco ao vivo do show do disco de estúdio, a voz do morto?

e ainda resmungam e não conseguem compreender como e por que é que tomaram conta do pedaço a pirataria (essa criminosíssima via de democratização da arte, da cultura, do entretenimento e das abobrinhas), o download e o youtube (sim, ali, no youtube, há fragmentos de quase tudo um pouco, aperitivos de secos & molhados, novos baianos & outros caetanos)? ãhã.

Discordo exclamativamente da postura do jornalista em relação à pirataria (“essa criminosíssima via de democratização” etc.). Não porque acredite que ela seja outra coisa que não ilegal. Isso é um fato, né? O que eu acredito é que são as leis que precisam se adequar à dinâmica e à urgência da democratização da cultura [inclusive daquela à qual nomeia “abobrinha”, o que a mim soa apenas patrulhesco]. Não é o Bataille quem diz que a verdadeira poesia existe fora das leis? Provavelmente diz em outro contexto, mas cabe certinho assim, descontextualizado, recontextualizado.

O que me interessa do comentário de Sanches é essa lembrança das mídias digitais como um espaço paradoxalmente adequadíssimo à memória da cultura, o benefício das novas mídias também pro passado cultural. O ineditismo das imagens que tanto surpreende o jornalista está relacionado a um fato pra lá de específico: num passado não tão distante, elas integravam o acervo das redes de TV. Como e se era possível acessá-las [se visitas ao acervo eram permitidas, se cópias dos programas eram disponibilizadas para venda] eu não sei. Só sei que as TVs estão onde sempre estiveram, no Rio e em São Paulo, e eu moro na putaquepariu! Agora, no não-lugar da rede, as imagens estão aí, ao alcance de qualquer pesquisa desleixada.

A minha, por exemplo, me levou ao encontro de ninguém menos que Jackson do Pandeiro e João do Vale dando uma canja no rastapé:

E que tal esse Erasmão?

[Penso ainda no primeiro vídeo e lembro de Marcelo Montenegro descrevendo João do Vale como o Muddy Waters do sertão, e lembro do nosso outro bluesman. Encontro-o assim, com seus óculos antigos, seu cigarro, sua mágoa e o violão, e divido contigo mais esse vídeo:]

[Reuben da Cunha Rocha.]

  1. Fiz um post tempos atrás falando dos “bluesman” brasileiro, especialmente o Cartola. Acho que a analogia cai bem para os nossos sambistas, com a vantagem de que, com relação às letras, eles dão um baile nos norte-americanos – principalmente o Cartola.

    Ps: Esse vídeo do Erasmo é uma daquelas pérolas do mal gosto que o tempo torna clássico.

  2. Olá, Reuben, tudo bem? Caí aqui sem querer, e fiquei felicíssimo de “ouvir” os comentários positivos que você me dedicou – obrigado! Ah, e quanto aos termos “criminosíssima” e “abobrinhas”, minha intenção era ser irônico mesmo.

    no caso de “criminosíssima”, eu queria zombar do fato (ridículo, mas importantíssimo) de as corporações quererem sempre criminalizar qualquer coisa que ameace aumentar o grau de liberdade de que nós, “pobres” “mortais”, dispomos. mas olhando agora noto que não ficou muito claro mesmo…

    Um abraço!

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