Mais do mesmo, mas diferente

De Nova York, o diretor canadense Kirby Ferguson tem revelado desde 2010 os segredos criativos da cultura pop através de uma série de vídeos chamada “Everything is a Remix” (Tudo é Remix). Muito popular na internet (ou em uma certa parte da internet) dos anos 2010, os vídeos ganharam em 2015 uma versão remasterizada e, ano passado, uma nova versão em quatro capítulos – não por acaso, remixada das anteriores.

O primeiro episódio dessa “nova temporada” (pode ser visto acima) foi lançado em setembro de 2021 e foca justamente no conceito de remix, com destaque para a música.

O segundo, apresentado no Youtube em dezembro de 2021, trata do principal símbolo da vitória do remix na produção e circulação cultural massiva hoje: os memes, estas bombas semióticas recombinantes que captam nossa atenção, nos fazem rir, sofrer, chorar. Em uma edição ágil, cheia de referências pop e uma narração informativa em off, Ferguson argumenta que tudo o que você faz e compartilha com o mundo na internet hoje é meme: roupas, tweets, sons, vídeos, tiktokers, gamers. No início do vídeo, a voz em off comenta: “mesmo que não se entenda exatamente o que se quer dizer com um meme, ele são profundos”, para logo contar a conhecida origem da popularização do termo no livro “The Selfish Gene” (“O Gene Egoísta”, 1976), do biólogo Richard Dawkins.

 

[Meme é uma palavra que designa “coisas imitadas”, originária do grego “mīmēma (μίμημα), por sua vez vinda de “mimeisthai” (μιμεῖσθαι, ‘imitar’), que foi usada por Dawkins para conceituar meme como a unidade básica da memória ou do conhecimento, aquilo que o ser humano transfere conscientemente para os seus descendentes – o equivalente cultural do gene da biologia, um segmento de uma molécula de DNA responsável pelas características herdadas de um ser humano.]


Depois, o vídeo fala de como hoje o cinema hollywoodiano está tomado de remakes, boa parte delas baseada na consagrada “jornada do Herói”, por sua vez inspirada pelas narrativas mitológicas antigas e recontadas para o século XX principalmente a partir de “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell, influência na narrativa de 10 entre os 10 filmes mais vistos hoje. Afinal, por que isso ocorre? No fim das contas, porque buscamos o familiar, personagens e histórias que de algum modo já conhecemos; usamos elementos “velhos” para entender os “novos” – a começar pelas próprias palavras, tradicionalmente formadas a partir de outras já existentes (entender a origem a história das palavras ajuda a entender o mundo, sério). Copiamos, depois criamos; a imitação precede a criação, como há milênios os povos do extremo oriente (especialmente os chineses) sabem com mais clareza do que os ocidentais, como contei em detalhes no último capítulo de “A Cultura é Livre” ao falar da influência do confucionismo na cultura chinesa. Um trecho do livro:

“Nessa filosofia, desde muito pequenas as crianças eram ensinadas a pensar a partir da memorização e da cópia dos clássicos, procedimento que, segundo seus mestres, incutiria nos jovens valores familiares, piedade filial e respeito ancestral (…). Quando essas crianças cresciam, elas se tornavam mais compiladores que compositores. Memorizavam tantas histórias clássicas que passavam a construir suas narrativas a partir de um extenso processo de copiar e colar (cut-and-paste) frases, trechos e passagens desses textos antigos. Se aos olhos de um ocidental, especialmente do século XX e XXI, isso seria visto como plágio, para os chineses da época era visto como um traço distintivo de intelectualidade e conhecimento cultural. “Quando autores chineses tradicionais tomam emprestado trechos de um texto preexistente e, principalmente, de um clássico, espera-se que o leitor reconheça a fonte do material emprestado instantaneamente. Se um leitor é infeliz o suficiente para deixar de reconhecer esse material citado, é culpa dele, não do autor”. (..). O pensamento de Confúcio manifestaria uma visão de que “a capacidade de fazer uso transformador de obras preexistentes pode demonstrar a compreensão e a devoção ao núcleo da cultura chinesa, bem como a capacidade de distinguir o presente do passado através de pensamentos originais” (p.209-210, “A Cultura é Livre”)

 

Vale a pena assistir a série, mesmo pra quem já viu muitas vezes a primeira versão de “Tudo é remix” como eu (escrevemos sobre ela aqui no BaixaCultura, lá em 2011, e usei inúmeras vezes em sala de aula para falar de remix e criação). Assim como o assunto que trata, essa segunda versão do filme também não tem nada de “original”, mas a nova combinação de referências faz com que ele seja fresh e educativo para todos aqueles que querem entender os mecanismos da criação – ou simplesmente criar. Mostra novamente, agora para a Geração Tik Tok, que desde sempre novas ideias só surgem ao se copiar de antigas. O terceiro episódio dessa nova série está prometido para março de 2022.

[Leonado Foletto]

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