Software como música (poesia, jornalismo…)

Tu já ouviu falar sobre o mais recente álbum da exótica baixinha aí de cima, né? Estamos falando do saudado disco “Biophilia“, lançado dia 11 de outubro, mas que causou frisson por também ser um aplicativo produzido especialmente para iPad. As dez músicas estão sendo lançadas, uma por uma, desde 27 de junho, quando a cantora islandesa se apresentou no Machester International Festival, na Inglaterra. Tratam-se de legítimos singles-programas, apps interativos com bem mais do que ‘só’ informações sonoras.

As músicas-aplicativos contêm jogos interativos, uma animação que ilustra os movimentos melódicos, partitura, letra, texto de apresentação e uma análise da musicóloga Nikki Dibben, tudo em inglês. É possível, por exemplo, que o ouvinte-interagente “toque” o baixo na segunda faixa, “Thunderbolt”, ou faça um remix da terceira, “Crystalline” [que ganhou um bonito clipe; toca e segue lendo]. Os créditos do arranjo são do estúdio de Scott Snibble, artista multimídia radicado nos Estados Unidos [que foi entrevistado pela revista select], e da dupla de designers franceses M/M Paris.

O conjunto de dez aplicativos tem a forma de uma constelação e se junta em um outro “aplicativo mãe”, gratuito, para formar uma galáxia tridimensional navegável. Para criar esse universo, além de utilizar o próprio aparelho da Apple, Björk se inspirou no livro “Musicophilia”, do neurologista britânico Oliver Sacks, que disserta sobre a empatia da mente pela música. No sistema dela, a empatia seria pela vida, pela natureza. Dá um rolê pelo video aí abaixo pra tu ter uma noção do negócio:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=dikvJM__zA4]

Como mostra essa matéria do jornal O Globo, “o projeto é mais um a se afastar do conceito tradicional de álbum, consagrado na segunda metade do século XX, mas em crise nesses tempos de mp3, iPods e torrents”. De fato, transformar ou adaptar as músicas para uma plataforma de interação é a grande sacada do lançamento de Bjork, que assim consegue chamar atenção para recursos informacionais e educativos para além da música, como ela mesmo explicou em entrevista ao Jornal da Tarde, de São Paulo:  “Procurei trabalhar com escalas, ritmos, acordes. Cada uma das músicas do disco aborda um desses elementos e os ilustra sempre da maneira mais simples possível para ensinar às crianças como música pode ser algo físico, tátil, em vez de teórico”.

Pode parecer mas “Biophilia” não é o primeiro disco-aplicativo criado. Salvo antepassados que desconhecemos (se souberem de algum, nos avisem por e-mail ou comentários), o título de pioneiro nesta área pertence ao duo Bluebrain e seu “The National Mall”, lançado em maio de 2011 também para IPad.

A proposta desse é bem distinta: cada uma das músicas só toca se você estiver no lugar certo – no caso, o parque National Mall, em Washington, EUA. Funciona como uma trilha sonora para diversos pontos do local: se, por exemplo, tu estiver subindo as escadas em direção ao Lincoln Memorial, uma grande estátua de Abrahan Lincoln [aqui] no centro do parque, “o som dos sinos aumenta ao ponto que, quando você está aos pés de Lincoln, eles estão envolvendo você”, disse Ryan Holladay, um dos Bluebrain em entrevista à revista Época. Como isso funciona? Simples: o GPS do iPhone avisa para o aplicativo a hora certa de tocar. Dá uma olhada aqui abaixo no vídeo-teaser do disco:

[vimeo http://vimeo.com/25374903]

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As iniciativas de Bjork e do Bluebrain são exemplos de uma certa “tendência” hoje no mundo digital: a de que os softwares sejam a fonte da música, não “apenas” programas. Para ficar num exemplo, pode ser que daqui em diante álbuns ou singles possam virar pop-ups em tablets, e não mais aquela história de um arquivo .rar ou .zip com todas as músicas comprimidas para download. Isso abre um espaço considerável para o remix, já que as novas formas rompem com a barreira de mera transposição de conteúdo e apostam na recriação do mesmo conteúdo para diferentes formatos.

Code is Poetry

Esta “tendência” potencializa a relevância do desenvolvedor na indústria de música, livros, jornais, revistas, e até na de filmes e séries. E também ajuda a colocar o antigo “nerd programador” em pé de igualdade com o “artista” , já que, afinal, ambos passam a ter participação igual na criação do produto/objeto artístico. Uma das frases de ordem mais vistas nos últimos tempos diz muito sobre esse novo status do programador/desenvolvedor:  “Código também é poesia“, que em uma variação em inglês, “Code is poetry”, virou lema do WordPress.org.

No caso de livros e revistas, em que é muito é mais comum vermos estes em formato de aplicativo do que como um próprio aplicativo, um trabalho interessante é o realizado no livro Our Choice, de Al Gore. A versão app foi publicada pela Push Pop Press, uma plataforma de publicação de livros digitais que quer revolucionar [todo mundo quer, meus caros] a publicação de livros na rede. Em Our Choice, o que vemos não é mais um e-book, mas outra coisa. Dá uma olhada no vídeo abaixo, em que Mike Matas, da PushPop e ex-Apple, apresenta o brinquedinho [a partir dos 35s]:

Assim escreveu o blogueiro Tiago Dória sobre o Our Choice:

O aspecto visual e tátil é bem explorado. Você pode ler os 19 capítulos do livro/aplicativo de forma não linear, arrastar ou maximizar as imagens. Em um mapa, o livro mostra a localização geográfica de diversas informações (localização de um país citado em um texto). O mais interessante são as animações e os infográficos, que intercalam os textos. Além de firulas na navegação, alguns são acompanhados de áudio para ajudar na compreensão (se você assoprar no microfone do iPad, alguns elementos na tela se mexem).

Desde o ano passado, o mesmo Doria tem  se perguntado: revistas podem se transformar em software? Exemplos como os apps da revista Select [somente para Ipad, infelizmente] e o da rede de TV CNN [também só para Iphones, maldita Apple!] não parecem (nem querem?) ser apenas transposição de conteúdos para um outro formato, mas uma outra coisa que ainda ninguém sabe o que é. Quando começarmos a pensar em softwares jornalísticos não somente para tablets e smartphones [da Apple!], mas também para desktops e notebooks, quem sabe daremos um passo adiante para um real “novo jornalismo” que se avizinha.

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O mundo está mergulhado em software - e faz tempo.

Os casos acima são apenas alguns exemplos de software como mídia (ou música, poesia, jornalismo); certamente existem outros tantos, e em breve vão existir ainda mais. São produtos em que a mídia, além de digitalizada, é “softwarizada”, programada mesmo.

Um dos maiores pensadores da cultura digital, o russo Lev Manovich, chama atenção para um fato que permeia a criação desses novos softwares: de que adiantaria digitalizar (por meio de um software) se não houvesse um programas para por ordem nos dígitos? Com um mundo mais digital, é provável que passem a existir programas cada vez mais avançados para, mais do que por ordem nos dígitos, criar com eles.

Como diz Manovich no livro “Software takes command“, publicado em 2008, “a escola e o hospital, a base militar e o laboratório científico, o aeroporto e a cidade – todos os sistemas sociais, econômicos e culturais da sociedade moderna – são acionados via software. O software é a cola invisível que une tudo e todos.”

A partir de seus estudos na Universidade da California San Diego, sobre o qual já falamos um pouco,  o pesquisador russo também propõe um campo de estudos para o software, os software studies, ou Estudos de software (em linha com os Estudos Culturais de origem inglesa), em que pretende investigar a relação do software com a cultura, arte e a sociedade.

Outro pesquisador percursor na área, o britânico Matthew Fuller, chegou a afirmar na primeira Oficina de Estudos de Software, em 2006, que “todo o trabalho intelectual é agora ‘estudo de software‘”. Manovich é um pouco mais focado, como dá para perceber  nas primeiras partes de seu livro, publicadas aqui abaixo, em tradução do blog do grupo de pesquisa Software Studies Brazil, coordenado por Cicero Silva, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora e um dos curadores do Festival Cultura Digital.

Embora os estudos do software envolvam todos os softwares, temos especial interesse pelo que chamo de software cultural. Esse termo foi usado antes de maneira metafórica (por exemplo, ver J.M. Balkin, Cultural Software: A theory of Ideology, 2003), mas neste artigo uso o termo literalmente para me referir a programas como Word, PowerPoint, Photoshop, Illustrator, AfterEffects, Firefox, Internet Explorer e assim por diante. O software cultural, em outras palavras, é um subconjunto determinado de softwares de aplicação destinados a criar, distribuir e acessar (publicar, compartilhar e remixar) objetos culturais como imagens, filmes, seqüências de imagens em movimento, desenhos 3D, textos, mapas, assim como várias combinações dessas e de outras mídias.

Uma das capas possíveis do livro de Manovich

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Uma questão que deriva dessa discussão é se o software pode ser aberto ou fechado, como bem aponta o professor Sérgio Amadeu em uma aula na Casper Líbero. Como são intermediários na nossa comunicação e na produção simbólica-cultural, eles condicionam e limitam nossas ações. Assim, “softwares fechados não possuem transparência e podem esconder fragilidades e possibilidades de intrusão e controle inaceitáveis para a sociedade em rede”, diz Amadeu. Já os softwares livres têm seu código-fonte disponível, o que permite adaptações para outras funções e/ou sistemas, além de, normalmente, serem transparentes com seus usuários.

A discussão sobre software livre e proprietário nos faz retornar a questão do disco-aplicativo da Bjork: quem não tem um tablet ou smartphone da Apple pode brincar com as novas músicas da Björk? Oficialmente, não. As pequenas gravadoras Universal e Warner ainda não licenciaram o produto para outras plataformas, pois, claro, querem vender o máximo possível na Apple. Todavia, Bjork já declarou ter uma posição mais livre: “Eu não deveria dizer isso, mas eu confio que os piratas não vão ficar de mãos atadas. É por isso que, quando nós criamos os programas, quisemos ter certeza de que eles poderiam ser transferidos para outros sistemas”.

É mais uma rodada da discussão que volte e meia retornamos aqui: o artista/desenvolvedor quer que sua arte/produto seja o mais apreciada/difundida possível, mas quem detém os direitos de cópia desses produtos não. Como resolver esse embate? Cena dos próximos capítulos.

Crédito das imagens: 1,2, 3, 4, 5.

[Marcelo De Franceschi]

Arduíno, o documentário do hardware livre, leve e solto

Um dos conceitos menos famosos da cultura livre é o chamado “open source hardware” ou “hardware livre“. Nesta visão, o princípio de que o código fonte do software de um componente eletrônico seja regido por uma licença aberta vale também para o próprio objeto físico, como o diagrama dos circuitos de um brinquedo ou de um liquidificador. Assim, é permitido o uso, alterações, distribuições, montagens e (re)venda para toda a comunidade.

Como um bom exemplo de open source hardware, “apresentamos”  o Arduíno, ou melhor, um documentário sobre o projeto que já é bastante comentado e experimentado na internet. Em 30 minutos, o filme conta o desenvolvimento da homônima placa de controle, projetada na Itália em 2005. Um grupo ligado ao finado Interaction Design Institute Ivrea, um centro de ensino e pesquisa em design de interação, decidiu produzir uma placa que reduzisse os custos dos alunos referentes ao aprendizado de hardware nas aulas. Começaram com as placas Wiring, um pouco mais complexas.

Para ajudar os estudantes, eles planejaram uma placa que tivesse uma linguagem de programação de fácil compreensão. A  programação aqui não é só a de programas que rodassem no hardware, mas a do próprio programa do hardware – o software embutido ou firmware, no caso. Para isso, resolveram mixar duas linguagens de código aberto, a Processing e a Wiring, para que comunidades interessadas dessem continuidade ao projeto, já que eles sabiam que o instituto estava fechando por causa da falta de intere$$e da financiadora, a Telecom Italia.

Se todos os direitos de utilização do projeto fossem da instituição – que ia morrer -, poderia haver restrições legais quanto à utilização do projeto. Felizmente, não foi o que aconteceu. Com o hardware e o software definidos e devidamente liberados para reutilizações, surgiram artistas, designers, e artesãos de todos os tipos que botaram a mão na massa e construíram instrumentos eletrônicos, pequenos robôs e máquinas interativas. Protótipos, em suma.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=sLVXmsbVwUs&w=420&h=315]

Hoje, segundo o site oficial, o Arduino é um mini computador que “pode sentir o estado do ambiente que o cerca por meio da recepção de sinais de sensores e pode interagir com os seus arredores, controlando luzes, motores e outros atuadores.” Para se ter uma ideia, no doc isso aparece no projeto dos chocalhos digitais, que espalhavam ‘confetes’ em uma projeção numa festa, ou também, no caso de motores, no projeto Makerbot, impressoras 3D que pegam um modelo de um objeto disponível na internet e imprimem esse objeto. Objetos abertos, usáveis e modificáveis por qualquer um.

Aí está a grande questão levantada pelo documentário. “O atual problema que há é que, devido aos sistemas de padronização e patenteamento, muitas pessoas ficaram sem a possibilidade de aprender como as coisas funcionam” diz  o engenheiro e pesquisador David Cuartielles. Fechamento, só para ficar na cultura digital, efetuado pelos que mais enriqueceram com caros sistemas operacionais e tecnologias móveis, como Bill Gates com o Window$ e o falecido Steve Jobs com os iPhones, iPad e assemelhados,  cujas modificações ainda estão ao alcance de poucas pessoas entendidas.

O open source hardware diminui essa diferença, facilitando o aprendizado da programação de circuitos eletrônicos que cercam as nossas atividades.  Tendo noções de como são efetuados os controles dos circuitos e das programações, não seremos facilmente ludibriados e podemos inovar. Um grande exemplo de incentivo ao aprendizado é que até o Google já criou um produto baseado no open source hardware do Arduino. O buscador lançou o conjunto “Android Open Accessory” do seu sistema operacional aberto de smartphones, o Android, para que os usuários desenvolvam acessórios controlados pelo celular ou tablet.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=l2SG2fnUL5I&w=420&h=315]

No Brasil, existem vários sites dedicados a plataforma como o Arduino.com.br, o Arduino Brasil, e o ArduinoRS. O blog Planeta Sustentável, do chapa Thiago Carrapatoso, lembra que um dos grupos que estuda o Arduíno é o Garoa Hacker Clube, um hackerspace que funciona no porão da Casa de Cultura Digital – se você estiver pelos idos da Barra Funda, em São Paulo, vale dar uma passada à noite no porão, e, sem cerimônia, pedir explicação sobre as traquitanas que ali habitam, especialmente sobre a já citada Makerbot. Melhor ainda se for nas quintas-feiras, quando o Garoa organiza a Noite do Arduíno, para ajudar o pessoal a iniciar na programação. Outro trabalho importante sobre o Arduíno por aqui é o do físico Radamés Silva, mostrado no programa Olhar Digital.

Arduíno – o documentário” foi lançado em janeiro de 2011, sendo encomendado pelo LABoral Centro de Arte y Creación Industrial, um outro instituto dedicado a promover a interseção de cultura digital, arte e industrias criativas localizado em Gijon, Espanha. A direção é de Rodrigo Calvo Eguren e Raúl Díez Alaejos, que fizeram grande parte das filmagens durante o encontro Arduino Uno Punto Zero, ocorrido em Nova York em 2010. Não foi lançado com legendas em português, mas encontramos uma tradução aqui, revisamos e acoplamos no vídeo que tu pode ver aí embaixo.

A plataforma só não é o “exemplo perfeito” [como se existisse algum] de código aberto por conta dos fabricantes expressarem a vontade do nome Arduíno ser de uso único deles, como diz na página de Questões Frequentemente Perguntadas: “‘Arduino’ is a trademark of Arduino team and should not be used for unofficial variant”. Por isso surgiram alguns “clones” citados na página da wikipedia do projeto. Existem ainda alternativas de placas controladoras, mostradas nessa apresentação. Contudo, é inegável a popularidade do projeto e sua força na divulgação do conhecimento livre.

 

Ps.: Outros exemplos legais da utilização do Arduíno, explicados por gente que entende bem de Engenharia Eletrônica, podem ser vistos aqui.

[Marcelo De Franceschi]

Caiu na rede virou apócrifo

Caiu na rede é peixe, é pixel, é texto “lançado ao alto-mar das futuras combinações” como completaria o poeta Roberto Piva. Tantas recombinações que algumas vezes, intencionalmente ou não, alteram a atribuição ao primeiro mentor e redator do conjunto de ideias expressado.

Caiu na Rede, o livro da capa aí acima, se lançou nesse alto-mar das combinações infinitas com uma divertida tarefa:  compilar e discutir 67 textos apócrifos, aqueles de autenticidade diluída, repaginada ou mesmo roubada que certamente tu já deve ter tido contato via e-mail ou republicado em blogs e fóruns.

Na maioria das vezes, são crônicas singelas, indignadas, bem humoradas ou reflexivas, que não raro trazem uma “mensagem” que convida o leitor a passar adiante. Não demora muito e os atribuídos autores negam a responsabilidade da escritura – ou outros vêm reinvindicá-la. Um exemplo mais recente é o texto “A Vergonha” dado como de Luís Fernando Veríssimo, que refugou a benção.

A organizadora do livro, a jornalista Cora Rónai, tenta ir além da mera compilação de textos. Divide-os em oito tópicos, e em cada um deles produz um texto dando conta de entender como se dá o fetiche da transmutação de autores em cada agrupamento de casos. Duas justificativas para o fenômeno da troca de autor são ditos logo em “Os Veríssimos falsos”, o texto de apresentação do livro:

) a busca de um maior impacto pela adoração ao autor, pois deseja-se que a mensagem sejá espalhada através da credibilidade;
) é meio que o contrário do 1º), ou seja, um decaso com o autor, tanto o Anônimo quanto o Desconhecido, pois o que vale é a mensagem.

É claro que essa subjetividade de escolhas do leitor, potencializada agora aos milhões com a internet, não é coisa nova. Já em 1968, Roland Barthes, no ensaio “A Morte do Autor“, diz que um texto é feito de múltiplos textos e escritos, vindos não só de uma cultura, mas de diversas outras misturadas, relacionadas – e que essa multiplicidade se reúne não no autor, mas no leitor.

“O leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que  nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade  de um texto não está na sua origem, mas no seu destino“. Seriam alguns desses textos do livro dispensáveis da autoria fixa, como leis e textos publicitários? O corintiano Washington Olivetto apresenta nessa entrevista uma teoria discutível: “O autor dá muito certo quando certas coisas teoricamente ‘desaparecem’: aí todo mundo quer saber quem fez, e você fica conhecido”.

Uma constatação do livro é de que não há solução pros leitores nem pros autores: “O meio-de-campo da internet está tão embolado, e os apócrifos se espalham com tal velocidade, que qualquer tentativa de descobrir ou estabelecer autorias é, praticamente, uma batalha perdida“, diz Rónai nas primeiras das 158 páginas, muitas delas disponíveis no Google Books. Mas há tentativas de esclarecer, e ela mesmo indica o blog Autor Desconhecido, que depois migrou para um site, e a comunidade do orkut “Afinal, quem é o autor?”.

Na época de lançamento do livro (2005), foi criado também um blog para divulgar o conteúdo, que continha alguns dos textos publicados. De lá pra cá pouca coisa mudou e todos eles continuam sendo republicados, como se pode ver aí embaixo, com os textos linkados e separados pelos temas, incluindo poesia, tal qual o livro.

Até hoje surge gente trocando Jabores com Borges, Medeiros com Lispectors, Veríssimos com Drummonds de Andrade. E não há previsão que essa confusão cesse, por que como bem diz Godard, “com os celulares e tudo o mais, hoje todo o mundo é autor”. Ou seria que, sendo todo mundo autor, o autor está morto?

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Caiu na rede (índice com textos do livro)

Língua
O direito ao palavrão
Minha iNgUInorância é problema meu
Tipo Assim

Cotidiano
The summer is tragic!
Mamãe executiva
Na hora de cantar
Um dia de merda
Alguns motivos pelos quais os homens gostam tanto de mulheres!
Mulheres empresárias
Um dia de modess
Pedido de amigo
Orgasmo trifásico
Quem não tem namorado
A verdade sobre Romeu e Julieta
Casamento Moderno
Promessas matrimoniais
Desabafo de um marido
Marte e Vênus.

Celebridades
Ninguém mais
namora as deusas
Baba, Kelly Key
Duas vidas
No trabalho, e chocada

Diga não às drogras.

Moralizantes
Faz parte
Precisa-se de matéria-prima para construir um país
Ode aos gaúchos
Brasil e o mundo podem prejudicar a sua saúde
Por que no Brasil não há terrorismo.

Amor
A impontualidade do amor
Sobre o amor
Às vezes
Precisando de amor
As razões que o amor desconhece
Até a rapa
A dor que dói mais
Pot-pourri de assuntos.

A Vida, o Universo e tudo mais
Mulher, sua origem e seu fim
Bunda dura
Nada como a simplicidade
O velório
Dez coisas que levei anos para aprender
Oração dos Estressados
Quase
Marionete
Entrevista com Deus
Vida
Felicidade realista
Envelhecer
Solidão
O que faz bem à saúde
Como conseguimos sobreviver?.

Poesia
Não te amo mais
Trilogia sobre a arte de dar
A Morte Devagar
No caminho, com Maiakóvski
A pessoa errada
Há momentos
A orgulhosa
Instantes

Dos apócrifos
Precisa-se de matéria-prima para construir um país
Em trilha de paca, tatu caminha dentro
Eu não escrevi “Bunda dura”.
Quem copia o rabo amplia
Vaidade
Clonagem de textos
Presque
Apócrifos

[Marcelo De Franceschi]

Criminosos do Copyright

Cartaz Copyright Criminals 1

Lançado nos Estados Unidos no início deste ano no canal público PBS, “Copyright Criminals” é um documentário que destrincha uma técnica cada vez mais conhecida nestes tempos: o sampling, que poderia ser resumidamente explicado como o “ato de usar um trecho de uma produção como parte de uma produção própria“. Uma técnica que tem origem no início dos anos 1960, nas experimentações caseiras de malucos como William Burroughs e Brion Gysin, e entra na década seguinte como um dos elementos centrais do hip-hop, de onde desde então costuma ser mais associado.

O documentário trata de falar dos mais diversos aspectos da técnica, partindo dessa época de nascimento do hip hop, nos bairros negros da Nova York da década de 1970, chegando até a indústria milionária do rap deste anos 2000 (inclusive, como ilustração, há uma timeline do sampling feito pela produção do filme e disponibilizada no site da emissora PBS).

De um modo quase didático, primeiro o filme mostra algumas das, digamos, “vantagens sentimentais” do uso do sampling, como a potencialização da lembrança de músicas antigas e dos consequentes momentos em que elas foram escutadas, visto que a vida é (sempre foi) permeada de música. Isso tanto valoriza o que passou quanto traz a tona um repertório desconhecido pra pessoas que não viveram a época da música em questão, tornando-se assim um link divulgador de um contexto aplicado em um novo.

Aparece também o “outro lado”,  aquele que diz que o sampling pode ser considerado um modo “preguiçoso” de se produzir música – afinal, dizem, é muito fácil pegar algo que já está bom e por o próprio nome nisso do que compor esse trecho.  Nesse caso, joga-se os holofotes em artistas como Clyde Stubblefield, baterista de James Brown, considerado uma das pessoas mais sampleadas da história, mas que nunca ganhou nem mesmo crédito nestes trocentos samplers de sua rica batera funkeada.

Desta e outras histórias contadas ficam alguns questionamentos: usar determinado trecho de uma música e inserí-la em outro contexto, transformando do jeito que lhe parecer melhor, seria aprimoramento, progresso, regresso, roubo, criação ou o quê?

Questionamentos a parte, é claro que tem gente que não gosta que mexam com uma linha de suas músicas, especialmente quem as vê somente como mercadoria que vale X dinheiros no mercado. Visão esta que também é mostrada no filme, através de entrevista com alguns músicos e gravadoras que não aprovam quaisquer versões derivadas de “suas” canções.

copyright criminals 2

Como já falado aqui e sabido de muitos, os samplers são a base musical do hip hop, criado a partir das batidas do funk e da música de raiz negra em geral com o acréscimo dos vocais ritmados/rimados – o tal do rap, frequentemente relacionado como sinônimo de hip-hop, o que não é (entre nos links de cada uma das palavras para saber mais sobre suas diferenças).

Como toda essa importância, o hip-hop é bem representado em “Copyright Criminals” com os depoimentos de ícones como Public Enemy, Pete Rock, De La Soul e Prefuse 73. Eles falam principalmente do seu trabalho de mixers na recriação sobre criações alheias, e de como que, assim que passaram a chamar atenção com o dinheiro que geravam, tiveram sua existência notada pelos tais detentores dos copyrights das músicas, uma simpática coincidência motivada sabe se lá porquê, não?

Samplers cleared!

Desse sucesso do rap,  as “melodias emprestadas” tornaram-se “infrações de copyright”, o que fez surgir complicações judiciai$ com Djs que se utilizaram de trechos de canções de outros artistas. Não é demais dizer que muitos grupos mundialmente famosos se utilizaram de samplers, como os Beatles em Revolution 9, e muitos impérios se formaram se aproveitando de outras criações, como a Disney.

Injustiças a parte, é bom lembrar que o sampling virou um meio de subsustência pra artistas que vivem puramente disso. Não, não são os atuais barõe$ do rap. Um exemplo mais explícito são os londrinos do Eclectic Method, um trio de VJs que prefere não lançar sua produção. Isso porque tudo que eles “criam” é ao vivo, improvisando com imagens e sons de qualquer produção audiovisual. Há alguns remixes disponíveis pra download no site oficial deles e, nos canais Youtube e no Vimeo, algumas amostras do que é gerado no show deles:

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Analisando tudo, em “Copyright Criminals” também há os depoimentos de advogados, promotores e professores. Destaque para as falas de Jeff Chang – autor de Can’t Stop Won’t Stop: A History of the Hip-Hop Generation – e Siva Vaidhynathan – autor de “Copyrights & Copywrongs: The Rise of Intellectual Property and How It Threatens Creativity”, disponível aqui.

*

“Copyright Criminals” é uma realização de Benjamin Franzen, fotógrafo e videomaker radicado em Atlanta, e Kembrew Mcleod, professor de comunicação da Universidade de Iowa. Entramos em contato com os dois realizadores através do site para saber se eles possuíam um arquivo de legendas. Felizmente fomos atendidos e Mcleod, roteirista e produtor executivo, simpaticamente nos enviou as transcrições das falas. Então resolvemos sincronizar as falas em inglês e traduzir para o português, disponibilizando ambas para download nos links acima.

Kembrew também é autor do livro Freedom of Expression®: Overzealous Copyright Bozos and Other Enemies of Creativity lançado em 2005, e cujo capítulo 2 serviu de inspiração para boa parte do documentário, como já tinha alertado o Remixtures. A versão pirata de “Copyright Criminals” pode ser baixada em duas partes – aqui e aqui. Esperamos que as legendas em inglês também sirvam para outras traduções – espanhol, francês e qualquer outra língua que tu queira se botar a traduzir.

Enquanto faz o download, assista ao trailer do documentário aqui abaixo:

[Marcelo De Franceschi]

A Heroína do Domínio Público

O Centro de Estudos para o Domínio Público da Universidade de Duke, nos EUA, resolveu criar em 2006 uma simpática história em quadrinhos para tentar elucidar as tenebrosas fronteiras que separam o uso de material de domínio público daquele que tem uma “propriedade” intelectual, aqui especialmente focado na produção de documentários e nas leis dos Estados Unidos.

Para facilitar a didática, o desenhista Keith Aoki e os roteiristas/professores James Boyle e Jennifer Jenkins criaram a personagem Akiko – a Heroína do Domínio Público na imagem da capa que abre este texto –  uma documentarista que ousou captar a pulsação de um dia nas ruas de Nova York num documentário.

Mas nem tudo é tão fácil quanto parece, e Akiko vai se dar conta disso ao perceber que para tudo que sua câmera olha há uma restrição de nome “direito autoral”. Dentre várias perguntas e frases de ordem, ela questiona: “Quadros, música, escultura. Tudo isto está protegido pelos Direitos Autorais?“.

Diante da resposta positiva, ela prossegue com suas dúvidas, que se colocam cada vez mais imediatas para a produção do já citado documentário sobre Nova York. “Parece um Campo Minado. Tenho medo de descobrir o que está protegido por direitos de autor e o que não está da forma mais difícil: quando a distinção explodir na minha frente“.

Akiko fica então sabendo do triste óbvio: só não precisará se preocupar com direitos autorais se a obra que for usada estiver em domínio público, o que no caso americano significa 70 anos após a morte do autor, podendo chegar a até 95 anos após a publicação da obra em questão.

[Vale dizer que no Brasil, como comentamos no penúltimo post, este prazo também é de 70 anos, que inexplicavelmente deverá ser mantido mesmo com reforma da Lei de Direito Autoral. Para comparar, dê uma olhada nesta tabela que mostra os prazos do copyright em praticamente todo o planeta.]

É então que a HQ informa à documentarista que nem tudo está perdido: nos EUA, existe a questão do fair use, um dispositivo que deveria permitir a crítica, paródia, o comentário e o remix, usos efêmeros ou acidentais de obras protegidas por copyright – que, por sinal, não existe no Brasil e nem pretende existir com a reforma, ainda que alguns artigos tratem de usos semelhantes àqueles identificados no fair use americano.

Gravar programas na TV para ver depois (ainda) é considerado fair use

Mas para cortar a esperança nascente de Akiko, ela fica sabendo que o fair use norte-americano está cada vez mais bagunçado, um verdadeiro “jardim das delícias” da propriedade intelectual, nas palavras da história. Como o fair use é subjetivo, imagina-se que não é algo fácil distinguir o que seria um uso acidental de um uso proposital, por exemplo. Aí entra outra questão: a sabida e cada vez mais crescente queda de $$ das gravadoras/estúdios e afins fizeram com que estas, a fim de tirar o último centavo possível antes de sua queda, começassem a apertar o cerco aos tribunais sobre o que seria esse tal uso, complicando de vez aquilo que já era complicado.

A partir daí, desfilam na HQ casos de abuso do esquecimento do fair use, todos absurdos. O primeiro narrado é exemplar: trata dos problemas que o documentarista Jon Elser teve durante a gravação de “Sing Faster“, filme que narra a produção das óperas do “Ciclo do Anel“, de Richard Wagner, sob a perspectiva de quem trabalhava nos bastidores. Em determinado momento do filme, a câmera captava diversos trabalhadores jogando damas num bar, enquanto a ópera era executada no teatro. Havia uma televisão neste bar, que no exato momento da cena estava passando um episódio de Simpsons. A cena era curta (4 segundos!) mas nem por isso a Fox, dona dos direitos autorais dos Simpsons, deixou de querer cobrar 10 mil dólares pelo uso dos segundos do desenho no documentário. Jon Elser não aceitou pagar, pois a “cena” era um caso clássico de fair use. Mas, para evitar incomodação com a gigante e podero$a Fox e um atraso de anos de julgamento para o lançamento do filme, teve que retirar a cena.

[Detalhe: o criador dos Simpsons, Matt Groening, ficou sabendo do caso e não se importou com o uso de sua criação em outra. Quem se incomodou – e que sempre costuma se incomodar em casos desse tipo – foi quem explora comercialmente os direitos de reprodução da criação.

Outro caso desproporcional dos direitos de autor é relatado no prefácio à edição, escrito por Dave Guggenheim, produtor/diretor de, entre outros, “Uma Verdade Inconveniente“:

“O pior exemplo que eu posso dar aconteceu quando eu estava a fazer um filme chamado The First Tear, um documentário que acompanha cinco professores durante o primeiro e traiçoeiro ano a trabalharem numa escola pública. No clímax do filme, um professor, que está a levar os alunos pela primeira vez numa visita de estudo, ouve a canção “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin. É simultaneamente divertido e trágico observar o momento em que ele anuncia aos jovens “Esta é a melhor canção que alguma vez foi escrita”, ao mesmo tempo que aumenta o volume. O professor exulta de alegria, revelando-se pela primeira vez diante de seus alunos. (…)

Tudo no filme prepara este momento e quando o público vê a cena ri e chora, porque ao mesmo tempo é comovedor e trágico. Mas a maior parte do público não chega a ver esta cena no filme. No DVD, que ainda se encontra à venda, a cena foi omitida porque não consegui autorização para utilizar “Stairway to Heaven”. Graças a lacunas arcaicas, pude usar a canção num festival de cinema e na televisão pública americana, mas a partir do momento em que entraram em cena o uso com fins comerciais fui proibido de usá-la. Não porque não pudesse pagar para licenciar a canção, mas porque nunca consegui localizar os detentores dos direitos autorais ou seus representantes (que são vários, o que é outra triste história).

É diante desse “abuso comercial” por parte dos detentores de direitos autorais que Akiko transforma-se na Heroína do Domínio Público, fazendo algumas perguntinhas que vocês já devem ter vistos por aqui: “Nossa cultura esta a ser atacada por um incontrolável ‘monstro de direitos’. Como é que chegamos a este ponto? Para que serve este sistema? Serão os direitos de autor na verdade prejudiciais aos artistas?”


Há outros quantos exemplos de abusos do não uso do fair use na HQ, assim como mais explicações sobre creative commons, ambientalismo cultural e de outros casos que ilustram o crescimento da cruzada contra qualquer tipo de uso de material protegido por copyright – mesmo aqueles que, teoricamente, se encaixariam muito bem no fair use. A edição original em inglês da HQ, de 2006, está disponível para download grátis, assim como a em português (de Portugal, vale dizer), que ganhou a tradução em 2009 de uma aluna portuguesa da Duke, Ana Santos, e é a edição do qual tiramos as imagens da HQ para este post.

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Créditos de todas as imagens: 1.

(Além) Do Regime de Propriedade Intelectual

Quase sempre é bom conversar com quem tem mais estrada do que a gente. Criar rugas de tanto forçar o raciocínio para acompanhar quem fala e conta por onde esteve, tentando entender e depois talvez questionar, ouvir, ficar em silêncio por um tempo e formar uma visão melhor, ou mais dúvidas. Alargar os horizontes do pensamento.

No recém lançado livro “Do Regime de Propriedade Intelectual: Estudos Antropológicos” dá pra encontrar várias dessas pessoas. Uma compilação de 13 textos com as mais recentes pesquisas sobre esse campo que não deveria ter cercas, quiçá apenas demarcações. A organização é de Ondina Fachel Leal e Rebeca Hennemann Vergara de Souza, professoras integrantes do Grupo de Trabalho Antropologia da Propriedade Intelectual (ANTROPI), da UFRGS.

Os artigos vão além das áreas sempre abordadas quando se fala de propriedade intelectual. Mais do que cultura e software livre, direito autoral e música, também foram desbravados pelos pesquisadores temas que ainda nem nos atrevemos a falar: o patenteamento de medicamentos e suas conseqüências para a saúde pública – não só mundial, mas brasileira inclusive; e a regulação de produtos agrícolas por meio de certificações.  É de se ressaltar igualmente uma etnografia num camelódromo e uma análise de um movimento ambientalista de resistência da Costa Rica.

Lançado pela Tomo Editorial, o volume foi logo disponibilizado pra baixar, com o exagero de ter a marca gigante do Creative Commons em cada página. A iniciativa é condizente com o trato apresentado desde o começo do livro, como diz o professor da Universidade de Brasília, Pedro de Rezende: o usufruto e o gozo de criações do espírito, de obras cuja utilidade esteja ligada ao intelecto, presumem compartilhamento, pela ação do entendimento. E que tais criações presumem prévios compartilhamentos, pois não surgem do vácuo”.

Um conteúdo derivado de livros e novas pesquisas não deveria nunca ficar limitado apenas ao papel de novos livros, mas deveria ter – e está tendo – sua circulação facilitada através do compartilhamento gratuito, o que fatalmente potencializa novos entendimentos, pesquisas e o saudável e necessário diálogo do conhecimento. Ainda que isso seja uma obviedade, convém reforçar a ideia, porque as vezes se esquece que uma pesquisa sem diálogo é um monólogo estéril e pueril, não é mesmo?

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[Marcelo De Franceschi]

Os encartes da Apanhador Só

Os cinco pneus da bicicleta da banda gaúcha Apanhador Só têm rodado muito mais pelo Brasil desde o lançamento do primeiro cd. O quarteto liberou as 13 músicas em seu site oficial no dia 11 de abril – dez dias antes de fazerem um show de graça no Teatro Renascença, em Porto Alegre. Atualmente eles estão em São Paulo, mas um dos lugares por onde passaram foi Santa Maria, no bar Macondo Lugar em 26 de junho.

Até então não tínhamos nos surpreendido com a atitude deles de disponibilizar gratuitamente a produção – que já rendeu mais de 7 mil downloads feitos. O que nos chamou atenção – além da apresentação tranquila das belas faixas do disco, boa parte delas acompanhadas pelo coro que era entoado no recheado espaço – foi o acabamento dado ao suporte físico das 13 músicas. Mais precisamente o encarte do cd.

Ao custo de 15 reais, 15 cartões (ou cards), no lugar de um esperado encarte de abrir, vêm junto ao disco dentro da caixa de papelão envelopada por uma capa mais fina. Em cada quadrado, as letras das canções estão ali – escritas à mão pelos integrantes – mas do outro lado há ilustrações que auxiliam na assimilação das composições. Agrupados, formam um bonito mural, sem uma interpretação definida, mas cuja graça reside nessa subjetividade, nessa indefinição. Afinal seria um tanto sem graça ter um único significado, principalmente por se tratar de música e poesia.

Tal iniciativa de se fazer um acabamento gráfico maior sobre o disco é um bom exemplo para as gravadoras e para a industria cultural como um todo. Com a inevitável disseminação digital do conteúdo, é preciso criar maneiras de justificar a existência do produto material. Poucas pessoas, no máximo os fãs doentes, querem comprar um produto, no caso um cd, e receber uma caixinha de plástico com fotinhos e/ou as letras. Para vender e despertar a curiosidade de muitas pessoas, é preciso usar a criatividade e pensar em novas, e baratas, formas de valorizar uma criação artística. E isso pode ser realizado investindo no aspecto visual. Transpondo o exemplo para outros suportes pode se citar livros com capas mais trabalhadas, como essas edições dos livros de Júlio Verne; filmes que venham com um livreto sobre a produção, como a coleção de dvds da cinemateca Veja. Nos discos, podem ser criados adesivos, imãs, pôsteres, papercrafts, jogos de carta, de tabuleiro, enfim, n alternativas atrativas. O blog Encarte, infelizmente desatualizado, mostra outros ótimos exemplos. Isso ainda traz de volta a reclamada interação da música com a arte do disco, que antigamente era de vinil e de maior tamanho. O caso da Apanhador Só mostra o quanto o cenário independente tem se movimentado e buscado outras maneiras de lucrar com seu trabalho, dando uma lição em muita gente que fica chorando prejuízos.

Os desenhos dos cartões [alguns estão espalhados no post] foram feitos pelo ilustrador Fabiano Gummo e o projeto gráfico foi de Rafael Rocha, diretor de arte da revista Noize. Rafael que decidimos entrevistar por e-mail para saber como foi a concepção do encarte diferenciado – e fomos gentilmente atendidos. Na conversa abaixo ele conta sobre o planejamento e de sua visão sobre o ato de se investir mais no meio material como forma de fazer valer a venda da música. Ele é baixista de uma banda recente, a Wannabe Jalva, que possui três músicas gravadas e também liberadas pra baixar.

De onde partiu a ideia de fazer o encarte com cartões, de ti, do ilustrador ou da banda?

Rafael Rocha: A Ideia partiu de mim mesmo, a partir de várias reuniões com o Alexandre (vocalista da banda), algumas junto com o Gummo (ilustrador), e de vários processos de estudo e brain solitário em cima do projeto. Essa idéia surgiu da viagem que eu tinha ao escutar o som da Apanhador, que tem muitas linguagens, e diferentes estilos unidos através do som característico que a banda faz. Então, a ideia dos cartões foi algo que representasse cada música como uma arte separada, e a união de todas, compusesse uma obra final. Justamente como é o disco.

Tinha a intenção de agregar um valor a mais para a musica, para que realmente valesse o suporte físico?
Com certeza, a idéia, desde o começo, era fazer algo rebuscado e que também agregasse valor ao disco em si. E também considerei desde o começo, que a Apanhador, pelo seu primeiro EP “Embrulho para levar”, já tinha projetos gráficos muito bacanas e rebuscados, então, dar continuidade a isto era algo natural.

Como foi a composição dos desenhos, eles tem algum esquema para fazer sentido?
A composição dos desenhos, inicialmente, era para fazer uma história, ou algum sentido concreto e de fácil assimilação. Porém, deixei totalmente nas mãos do Gummo para ele criar e pirar em como ele quisesse chegar a este resultado. O resultado foi algo muito interessante, bem na linha de como é o seu trabalho, com um traço bem característico, com algumas referências que se repetem ao longo das cards e criam uma ligação muito bacana. E o mais interessante é a forma que eles devem ser apreciados, um a um, a partir da composição inicial das letras das músicas e do desenho da bicicleta.

Quais as influências do trabalho? Conhece algum outro cd que tenha o encarte diferenciado?
As influências vem de todo o lugar. Meu trabalho de Direção de Arte e Design tem uma relação bem orgânica, de unir elementos feitos à mão com a utilização do computador e a fotografia, acho a união destas estéticas muito interessante.
Eu sempre, desde piá, tinha um sonho de trabalhar pro resto da vida com encarte de discos. Minha vida se move a música. Na NOIZE, na Wannabe Jalva (revista em que trabalho e minha banda)… Infelizmente, os discos fisícos são cada vez mais raros. Porém, vivemos um momento de transição e acredito em futuro muito positivo para o mercado musical, relacionado as artes gráficas.
De outros projetos que eu gosto posso citar alguns discos do Of Montreal, White Stripes, Pearl Jam, os discos em vinil do Caetano, entre outros. Nos útlimos 3 anos apenas comprei discos pelo projeto gráfico. Sou completamente maluco por isso.

Aceitaria novos trabalhos semelhantes? Acha que esse design de discos e encarte, essa imbricação entre arte e música, é uma área, um serviço, que será mais procurada tanto pelas bandas independentes quanto pelas gravadoras?
Aceitaria de FATO! Acho que agora a fuga, para se querer vender discos de fato, é investir no projeto gráfico, entregar algo a mais. Mas, vejo o futuro virando para a produção de vinil ao invés de CDs, e com artes cada vez mais impactantes e rebuscadas. As gravadoras tem que absorver o “low cost” no meio virtual e investir mais nos discos físicos como um material que o fã que tem esse desejo tangível queria MESMO ter. Eu gostaria muito que isso acontecesse. Para isso, precisamos de uma união de pensamentos entre gravadoras/selos, designers e principalmente do público, que tem que consumir este material.

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[Marcelo De Franceschi]

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Bailarinas e zumbis na rede

um.

 

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Eu ouvia falar de Bruno Azevêdo muito antes de conhecê-lo e quando o conheci foi na véspera de ir embora pra Floripa. Acho que faltavam uns dois dias e a providência possível foi um convite prum macarrão (ou um vinho, ou os dois) no apartamento dele. Na saída, Bruno me estendeu um disquinho sem capa e com um puta desenho bacana no rótulo. O desenhista era Marcelo D’Salete e o disco era A Bailarina no Espelho, um texto de Bruno lido pelo ator César Boaes. Voltei pra casa ouvindo o disco. Levei-o comigo pra Floripa. Emprestei pruma amiga que tinha um programa de rádio e acabei encerrando minha temporada na cidade sem pegá-lo de volta. O que foi um problema, porque às vezes bate a abstinência.

Problema resolvido, acabei de pegar de volta no link do parágrafo anterior.

dois.

Cronologicamente antes do email contando da publicação da Bailarina, Bruno mescreveu falando de zumbis. Dos zumbis do Portraits as living deads, blog que reúne uma série de estudos feitos pelo desenhista e autor de quadrinhos suíço Frederik Peeters sobre mortos-vivos. Só que neste caso os mortos-vivos são, digamos, pessoas reais. Célebres e, em alguns casos ainda vivas, como Alan Moore, Britney Spears e o próprio Peeters. É um troço bonito e desconsertante ver todos aqueles renomados personagens históricos, que a rigor só existem para nós enquanto imagens, humanizados na condição de mortos. E mortos que comem gente.

 

Brad Pitt
Brad Pitt

 

Até onde sei não existe nada do autor publicado no Brasil, a não ser uma recente entrevista feita por Bruno e publicada no blog Oputaquipariu!. Antes, um texto breve sobre zumbis, modernidade, canibalismo, e outros temas atuais.

três.

Saio do silêncio em que ando metido para abrir o breve parêntese destas notas, mas não sei quando volto. Até lá!

[Reuben da Cunha Rocha.]

Faulkner hipertextual

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Começou do óbvio: queria ler O Som e a Fúria (ou The Sound and the Fury), 3º romance de William Faulkner, um dos grandes da Literatura Americana do século XX. A iniciativa veio por dois motivos principais: de tanto ouvir Faulkner ser citado por muito dos escritores que mais li na vida até hoje, especialmente Juan Carlos Onetti e Julio Cortázar; e por ler este trecho da entrevista de Cormac McCarthy à Rolling Stone Latino América, em fevereiro de 2008, capa com o Radiohead:

“Faulkner solía decir que comenzó El Sonido y La Furia con una única imagen de una chica en un árbol mirando a através de una ventana el funeral de su abuela, y otra chica mirando los húmedos armários donde se habían estado jugando. Sólo era esa imagen, que problablemente provenía de su infância. Uno piensa en esa imagen. Sale El Sonido y La Furia inevitablemente de esa imagen? Bueno, yo creio que no”.

Daí a procurar o livro foi um pequeno passo, que logo se tornou em uma tremenda busca, dada a dificuldade de achar o livro nas bibliotecas (da UFSC e da UFSM e em algumas públicas), livrarias (Saraiva, Cultura, Cesma, e outras menores) e mesmo em livrarias virtuais. Na internet, resolvi então procurar pela versão original, em inglês, e como quarta opção da busca, apareceu esta baita edição em hipertexto do livro, que reproduzo a capa aqui abaixo.

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Edição em hipertexto não é nem parecido com aqueles PDF’s que baixamos. E esta é extremamente bem cuidada: tem uma introdução geral – explicando o porquê do livro ser especialmente  interessante para uma leitura hipertextual -,  um guia de leitura para cada um das quatro partes principais da obra e, o supra-sumo desta edição, uma série de links (localizados à direita do texto principal) que tornam a leitura hipertextual completamente diferente de um outro tipo de leitura. Trata-se de quatro tópicos contendo ensaios críticos, intertextos (com outras obras, sejam de Faulkner ou de outros escritores), gráficos com estatísticas sobre os mais variados dados acerca do livro e links para outras páginas sobre Faulkner.

(O detalhe é que todo esse cabedal de informações pode ser acessado ENQUANTO tu lê o livro, o texto principal no centro da página e o complemento numa janelinha à direita, como a imagem abaixo indica)

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Não há dúvida que se trata de outro tipo de experiência de leitura; podemos ler, em uma mesma tela, ao mesmo tempo, o livro e a sua obra crítica, o livro e um gráfico da cronologia dos acontecimentos do livro, o livro e referências pessoais da vida de Faulkner enquanto escrevia o livro. É possível, inclusive, alterar a estrutura da obra, onde a sequência original (não-cronológica) dos capítulos pode passar a ser cronológica.

As possibilidades de leitura que esta versão hipertextual dá são tantas que muitos vão achar que elas alteram e até estragam a apreciação da obra – na medida em que os hipertextos “guiam” nossa imaginação por diversos caminhos, ela não trabalha tanto quanto se estivéssemos lendo a versão original impressa do livro, onde os vazios são preenchidos, para bem ou para mal, única e exclusivamente por nossa capacidade de imaginar e fazer referências.

Acontece que não é pelo motivo de que ainda não estamos acostumados a ler literatura desta forma que devemos deixar de tentar entender como que essa nova leitura vai se dar. Existe muita gente por aí buscando entender isso, e outros tantos fazendo literatura assim – e mais outros tantos fazendo um misto de jornalismo e literatura sobre isso, como meu caro amigo Augusto Paim neste blog aqui.

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Mas eu confesso: ainda não me acostumei. Tanto que finalmente comprei uma edição  – bonitaça e um tanto cara, essa aí acima da Cosaic & Naify – de O Som e a Fúria, em português, e é nela que leio e a cada página me embasbaco com o impressionante talento de Faulkner em construir a história dos Compson e de Yoknapatawpha County através de tantas vozes diferentes, usando tão absurdamente bem o fluxo de consciência, e me pondo tantas dúvidas que, desde já, tentam se disfarçar de admiração para que só assim consigam se esconder atrás da absurda racionalidade que busca respostas para tudo, inclusive e principalmente pra aquilo que não deveria querer saber.

[Leonardo Foletto]

Jornalismo gonzo por Warren Ellis

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O jornalismo não escapou ao movimento geral da profissionalização do mundo, e seu caso específico é o de um campo que num passado não tão distante abrigou fartamente figuras com porte de artista, verdadeiros escritores que agora mortos cedem suas cadeiras nas redações para funcionários sem vigor nem violência [isso sem contar as exceções]. Porte nesse caso diz respeito à grandeza duma produção textual desovada em jornais e revistas ao invés de livros muitas vezes por puro deboche ou consciência histórica [pra quê falar para 100 se se pode falar para 1000, consigo ouvir Paulo Leminski perguntando, enquanto pensa sobre a grandeza da cultura de massa], como é o exemplo, no Brasil, de um Torquato Neto, corajoso colunista de jornal, poeta morto inédito em livro.

É só questão de tempo até que meu texto esbarre no nome de Hunter S. Thompson, exemplo extremo de coragem textual associada a inacreditáveis níveis de irresponsabilidade e chapação. Thompson está no grupo de autores que me é mais caro, aquele que inspira amizade mais que admiração, e quem sabe não seja isso que Warren Ellis tenha em mente ao homenageá-lo como inegável modelo para seu personagem mais adorável, Spider Jerusalem, o jornalista da série Transmetropolitan.

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A premissa da série é a mesma de qualquer ficção cyberpunk: usar o futuro, onde alta tecnologia e baixíssima qualidade de vida coexistem, pra falar do presente. Nesse caso, um futuro como qualquer outro, cheio de violência urbana, fanatismo religioso, corrupção, pobreza, e o agravante de que o único resquício de dignidade, correção e ética é um paranóico jornalista que pra piorar é viciado em…bem, tudo. Drogas, armas, violência, pornografia e a metrópole: apenas lá ele consegue escrever, escrever segundo o credo anunciado já na primeira edição: “the typewriter’s a gun. Show’em some steel”. É essa máquina de escrever que aponta pro mundo, em busca de um valor que não é preciso chegar no futuro pra considerar deslocado – a verdade dos fatos, e tal. Mas sem heroísmo ou inocência, o personagem de Ellis é tão matador quanto caricatural em sua quixotesca busca e seu destino não é muito melhor que o dos corruptos que tanto aporrinha. 

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É assustador que alguém com tantos acertos como Warren Ellis não hesite em afirmar ser Transmetropolitan seu melhor trabalho, mas é tão assustador quanto faz sentido. Considero mesmo uma aula de jornalismo acompanhar, por exemplo, a cobertura das eleições presidenciais americanas feita por Jerusalem, em que ele põe em prática a máxima do próprio Thompson, segundo a qual a objetividade jornalística serve apenas para mascarar os dilemas e conflitos humanos, a verdadeira matéria de que são feitos os textos, ou pelo menos os que importam.

O Dr. Gonzo original, trabalhando
O Dr. Gonzo original, trabalhando

Não é difícil encontrar as 60 edições da série [que durou cerca de cinco anos] pra download [talvez seja difícil encontrar todas as edições em português]. Aqui é um bom lugar, e há três comunidades Transmetropolitan no orkut, busca lá que tu acha. Também recomendo uma lida nessa entrevista aqui do Warren Ellis, em que o escritor fala sobre meia dúzia de coisas interessantes e atesta sua fé na ficção extrema como um meio de falar sobre seu próprio tempo, no fim das contas ele mesmo um tempo pra lá de extremo.

[Reuben da Cunha Rocha.]

As olheiras de Noah, ou CineYoutube (1)

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Acordo. Tropeço até a sala. Estão todos acordados. Finjo que não estou tonto. Volto pro quarto. Olho pro espelho. Ao invés das linhas da vida nas mãos, posso ver minha história nas olheiras no rosto do meu reflexo. Lembro de ter feito um comentário parecido quando minha namorada me apresentou o trabalho de Noah Kalina, o novaiorquino que aos 19 anos começou uma fotografia que hoje, aos 27, ainda não terminou.

Noah K. Everyday é o nome da obra em construção, registro digital do processo de envelhecimento do fotógrafo. Que é também meu e teu: é isso que penso quando reparo que quanto mais escrevo a respeito de Noah mais sua imagem se assemelha para mim à do próprio tempo, quem sabe o tempo seja isso, a medida da profundidade de nossas olheiras. É provável que o impacto que senti tenha vindo menos das fotografias e mais da velocidade que não esperava do meu próprio desgaste, e é por isso que sugiro que tu veja o primeiro dos vídeos disponibilizados por Noah, que organiza as fotografias dos primeiros 2356 dias [entre os anos 2000 e 2006] do projeto:

O próximo vídeo será lançado no aniversário de 10 anos do projeto, segundo o fotógrafo. Depois disso a idéia é disponibilizar um vídeo a cada cinco anos de trabalho, até acabar. Quando acaba? Quando Noah morrer, ora.

*

Em tempo. Entenda que a coisa cresceu tanto que já rolou até paródia dos Simpsons.

*

Ainda em tempo. Esta é a primeira de uma série de resenhas de vídeos de youtube, esse formato ainda pouco apreciado pela crítica cultural. E tal.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Instrucciones (3)

Roubo de Leonardo o título pra seguir falando sobre os links à direita. Aquilo que de cara soa como clichê: logo em seguida ao lançamento de In Rainbows, certo DJ e produtor californiano aparece com a idéia que qualquer um de nós esperaria dum DJ — remixar as faixas do disco.

Aquilo que poderia ser um pouco mais. Amplive imaginou lançar o disco [arquivo zipado, 08 faixas, duas a menos que o original, em 320kbp] pela W.A.S.T.E, a loja virtual do Radiohead, e somente pra quem houvesse baixado a versão da banda [eu gosto mesmo de viver num tempo em que dá pra chamar o original de versão da banda.].

Aquilo que não deu certo. Antes do lançamento oficial de Rainydayz [mas não antes da circulação de faixas avulsas na rede], Amplive recebeu uma notificação da Warner/Chappell informando sobre, tu sabe, a ilegalidade do projeto, o quão desinteressante seria para a empresa a vinculação oficial do Radiohead ao trabalho do DJ [através da disponibilização do disco na loja da própria banda] e a impossibilidade de continuá-lo sem nefastas consequências.

[Nada se disse sobre a posição da banda sobre o caso. Ou vai ver foi a banda quem não disse nada.]

Pra encurtar a história, quando já tinha mesmo desistido de lançar o disco, Amplive conseguiu autorização pra disponibilizar Rainydayz para download gratuito aqui.

Acredito que faço parte de uma maioria de pessoas que ouviram o disco sem a menor pista de quem sejam Too $hort, MC Zumbi, Chali2na, Codany Holiday ou Del The Funky Homosapien, familiarizadas que estamos com a música do Radiohead e razoavelmente ignorantes que somos sobre o que se passa no rap. Vergonhoso, no caso daqueles que como eu se interessam por essa fértil cultura de reciclagem que é o remix.

Também acredito, provavelmente com os mesmos colegas de maioria, tratar-se de um disco pouco ousado para a proposta, sobretudo no que se refere às batidas — a monotonia ritmica do rap fica em geral bastante evidente e prejudica canções originalmente desafiadoras até para o Radiohead [como 15 Steps, agora 15 Stepz].

Mas talvez isto que eu e a maioria encaramos como perda seja só a inserção do pós-rock (ou indie, nem sei mais, nem ligo) numa outra lógica musical, e represente aquilo que a apropriação da tecnologia por culturas economicamente subalternas [como o rap ainda é, apesar dos rappers de MTV] significa de melhor: que eu e tu vamos ter que engolir sim o outro, e que esse mesmo outro não pensará duas vezes antes de transformar o que bem quiser em seu.

O que aliás me remete ao que escapa à lógica econômica da Warner: essa disposição de apropriar-se é a mais comprometida das homenagens.

[Reuben da Cunha Rocha.]

A história das coisas

Prefiro a idéia de providência à de coincidência e disso de modo algum resulta que eu me furte a apreciar a beleza narrativa da segunda, essa espécie tão charmosa de sintaxe do acaso. Um post que começa na coincidência, no comentário de um professor de teoria literária concluindo um raciocínio, ‘na próxima vez em que forem comprar alguma coisa, lembrem que a mercadoria carrega uma história’.

Ele nem eu tínhamos idéia de que conversávamos sobre o tema do curta que eu havia baixado na noite anterior, esse aqui ó, e que só assistiria no dia seguinte à aula, um pouco chateado por tratar-se de uma versão dublada, e pronto pra te dizer que, caso isso também te irrite, dá pra assistir em inglês no site oficial do filme.

The Story of Stuff são 20 minutos de uma bem-fundamentada, acessível e cuidadosa explicação dos motivos básicos pelos quais é possível dizer que vivemos num morto-vivo tóxico que gira sobre o próprio eixo e ao redor do sol. Um planeta condenado mesmo.

O argumento básico do filme se aproxima bastante do que vem dizendo há várias décadas o poeta, antropólogo e ecologista (dos mais inteligentes) norte-americano Gary Snyder, de que escolhemos pra chamar de nosso um sistema de produção que, além da óbvia brutalidade que só o cinismo nos leva a tomar por normal, possui uma característica que nega o modo básico de funcionamento do planeta: ele nunca pára.

Enquanto a natureza opera através de ciclos (desde a respiração até a dinâmica do plantio e da colheita), o capitalismo tende a resolver inclusive suas crises por meio do estímulo e da intensificação do consumo. Como bem resume a mocinha de A História das Coisas, é a publicidade quem funda a sociedade americana moderna [e, acrescento, funda o modelo de democracia onde ‘iguais oportunidades’ equivale a ‘iguais oportunidades de consumo’, modelo que terrivelmente serve de base pros países latino-americanos], a publicidade que lustra mercadorias estrategicamente construídas pra durar apenas o suficiente para renovar a fé no consumo.

Não é difícil perceber o caráter totalizante da economia de mercado. Basta pensar que ela devora esferas aparentemente alheias à economia, como a educação (do primário ao vestibular, da graduação às pós-graduações da vida, toda a genealogia do aprendizado é organizada para culminar no famigerado Mercado de Trabalho) e a família (o que significa se tornar ‘independente dos pais’ senão ganhar a própria Grana, comprar o próprio carro, enfim, ser responsável por seu próprio consumo?).

No meio disso tudo, a ideologia do cinismo tem dado um cacete certeiro no pensamento utópico [eu pessoalmente me convenço cada vez mais de que a utopia é a única vacina possível contra o cinismo iúpe], covardemente caricaturizado como ‘idealismo’, e a ecologia virou sinônimo de ong ou coisa de viajandão, completamente destacada da esfera à qual pertence: a vida cotidiana [Digressão. é Roberto Piva quem lembra que o deus original da ecologia era o mesmíssimo Dionísio da festa e do vinho, radicalmente diferente do Francisco de Assis católico].

O pequeno triunfo do documentário é que se trata da apresentação de uma proposta, da divulgação de uma prática possível, de economia responsável e sustentável. Dá lá uma olhada. No site dá pra se aprofundar no tema também. Se não servir pra mais nada, que sirva pelo menos pra fazer com que nas próximas compras tu te lembre que as coisas trazem todas uma história oculta, uma história em cujo fim haverá sempre mais lixo do que podemos reciclar.

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Em tempo: um dos enormíssimos clássicos da película brazuca, Ilha das Flores (primeiro filme do Jorge Furtado) acompanha a trajetória de um inocente tomate, do plantio à mesa do consumidor e desta ao lixão onde alguém o catará numas de fazer uma refeição.

Vale MESMO a pena dar uma sacada, por documentar os mecanismos do capitalismo dum ponto de vista mais próximo de todos nós [embora o que se diz sobre a sociedade norte-americana em A História das Coisas tenha se tornado absurdamente aplicável a qualquer lugar desse vasto mundo], mas principalmente por ser uma porrada, ponto. Linguagem maluca de vídeo, texto inteligentíssimo, ágil, e o que é melhor: dá pra baixar aqui.

[Reuben da Cunha Rocha.]

O verdadeiro Mago

O caso de Alan Moore é o de um artista relevante dentro e fora da obra, ou o de um artista cuja obra ultrapassa a soma dos livros e inclui a ética de sua escrita, as opiniões que distribui e até a pertinência dos temas sobre os quais opina.

Ou ao menos é o que The Mindscape of Alan Moore me faz pensar. Mindscape, essa invenção bonita da língua inglesa cuja tradução é ruim, ‘paisagem mental’, fazer o quê.

Desde a primeira fala, quando apresenta a distinção essencial entre ficção e mentira, até a intrincada analogia entre as linguagens da arte e da magia, o Grande Barba é uma palavra só: autenticidade.

Ou talvez seja muitas outras. A elegante ironia, sobretudo auto-ironia, a clareza de visão sobre qual deva ser o papel do artista dentro de uma sociedade cujo funcionamento depende sobretudo de passividade e torpor coletivos, a radical certeza do caos, o real desprezo pela estrutura da fama, o didatismo do pensamento mais complexo, essas coisas todas que foram lapidarmente definidas por Bruno numa conversa recente de MSN: “o cara é fodão e pronto!”.

Como se não bastasse, é O Homem Que Recusou Hollywood Money em prol de uma integridade de cuja existência o cinismo de nossa educação exige suspeita.

O documentário, de 2003, alcança o Velho Doido do último ponto de sua carreira até aqui, o trabalho que pela, digamos, profundidade no tratamento do tema (as possiblidades artísticas da pornografia) terminou não só com sua publicação, mas com o casamento dos autores.

The Mindscape of Alan Moore é um filme que inclusive dispensa imagens. É pura densidade de discurso de um dos artistas mais essenciais que andam respirando por aí, infelizmente condenado pela precariedade da leitura dispensada à linguagem que lhe deu fama.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Cópia boa, Cópia má – Ou o início

1.

Quando a certa altura do filme um funcionário da indústria fonográfica lamenta o fechamento de centenas de lojas de discos nos Estados Unidos como consequência da pirataria, é inevitável que minha memória dispare certeira praquele tempo de minha adolescência em que qualquer disco parecia raro e qualquer banda obscura, o que repercutia simetricamente no preço das iguarias que encontrávamos, eu e mais um punhado de moleques magros nas tardes quentes de São Luis.

A conclusão inevitável que retiro da memória é que esse e outros argumentos da indústria do entretenimento não são apenas falaciosos, mas solipsistas. Eles mascaram o problema do acesso com a histeria em torno da violação de direitos e do lucro indevido, sem nenhuma vergonha do anacronismo ademais antidemocrático (afinal, o acesso à cultura diz muito da qualidade de uma democracia) do tratamento dispensado a questões como a da cópia livre ou o sampler, essa técnica já secular.

Secular, pois é. Praticada na literatura desde Lautrèamont e, décadas depois, adotada por surrealistas, situacionistas, e uma pá de outros doidos defensores de que numa sociedade entupida de informação, a utilização de materiais pré-existentes pode ser bem mais subversiva do que produzir a partir dum vago princípio de originalidade.

Depois vieram dub, rap, hip hop, os soundsystems, respostas da periferia (econômica, mas também geográfica) ao caráter unidirecional da cultura pop. Respostas mais e mais ameaçadoras para a indústria à medida que a tecnologia digital se torna largamente acessível para qualquer um que queira produzir e compartilhar cultura. Nesse ponto, não apenas os modos de produção, mas também os de distribuição e consumo de produtos culturais necessitam de revisão.

A lógica industrial da cultura [a lógica cultural dominante ao longo do século 20] se baseia num esquema feroz de controle autoral (o copyright), mais ou menos feroz a depender do volume de grana envolvido [no Brasil, pelo menos, os contratos de edição de livro são bastante flexíveis se comparados aos acordos abusivos da indústria fonográfica]. Quando a tecnologia digital torna impossível esse controle, e aos lucros cada vez menores da indústria se equipara uma produção cultural descentralizada, diversificada e auto-gerenciada; quando a reação da indústria é uma dispendiosa campanha “contra a pirataria” por vezes redundando em leis ignorantes, é aí que o toque dado por Ronaldo Lemos em seu depoimento ao filme serve como uma luva: a sociedade é a grande concorrente da indústria.

A declaração de Ronaldo ganha força com o exemplo da produção cinematográfica nigeriana [que de tão fantástico merece outro post, uma série deles]. Um dos primeiros países a investir em cinema digital [é mais barato], a Nigéria produz mais filmes que os EUA e que a Índia. E, ao menos até a realização do documentário, isso tudo sem lei nenhuma de propriedade intelectual.

Ali, ou na contra-indústria tecnobrega de Belém do Pará, ou no trabalho criativo e criminoso [viva!] do dj Danger Mouse, ou em centenas de experiências que o BaixaCultura pretende cobrir, o que está em jogo é um tipo de organização que segundo os critérios de avaliação das velhas leis e dos homens-de-preto da indústria já nasceu pirata, e o incrível apego que esses mesmos homens nutrem por um modelo de indústria que existe há apenas um século, contra um monte de outros séculos de produção artística.

Hum. E talvez os dados já estejam até desatualizados, mais ainda assim pensar que nos últimos seis anos a indústria fonográfica perdeu 7 bilhõe$ de barões é mais do que animador, e confere um justificado senso de desobediência aos nossos queridos downloads.

2.

O donwload, a matéria-prima deste blog. Aqui a pauta é a rede como suporte e produtora de cultura, tanto faz se música, literatura, cinema, artes visuais, teatro, ou algum objeto não identificado, produtos virtuais que tenham a web como ponto de partida, passagem ou chegada. O ponto de vista é jornalístico, mas de um jornalismo aberto pro que ainda desconhecemos.

Este blog a princípio funciona em modo de teste, em todos os sentidos: pautas, formatos de texto, forma dos posts, categorias de links, fontes, imagens ou vídeos disponibilizados, BaixaCultura in progress, erros e acertos à vista.

[Reuben da Cunha Rocha. Leonardo Foletto.]