Notícias do front baixacultural (23)

Excepcionalmente hoje vamos ressuscitar reativar essa seção, já que a semana foi mais movimentada do que as avenidas gaúchas no 20 de setembro.

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Lançado o The #copyright Daily (Twitter, 30/08)

Criaram uma interface nova para apresentar o conteúdo que vai de tweet-em-tweet: o jornal. No sistema paper.li, desenvolvido em março deste ano, são agregados tweets e links que são do mesmo assunto, ou seja, que contém a mesma #hashtag – #copyright, no caso deste paper.li.

É possível também agregar tweets de determinados usuários ou listas. O conteúdo dos links então é organizado na página, com textos, pdfs, vídeos, etc. As edições são lançadas diariamente e para recebê-las é preciso fazer a assinatura, por e-mail, clicando em “Alert me”.

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Jean-Luc Godard doa mil euros a francês condenado a pagar multa por pirataria (O Globo, 15/09)

O fotógrafo James Climent, condenado a pagar uma multa de 20 mil euros por baixar 13 mil arquivos, recebeu uma ajuda de custo de mil euros do seu compatriota Jean-Luc Godard. Antes de fazer isso, o diretor deu numa entrevista ao site inRocks em que declarou seu ceticismo para com os direitos do autor. “Direitos do autor? Um autor só tem deveres” disse um dos pais da já cinquentona Nouvelle Vague. Vale destacar que Godard é um notório amante das colagens, algo que usou na série de oito filmes História do Cinema e no recente Notre Musique.

Mas voltando ao assunto: Climent agradeceu ao cineasta em seu blog num post intitulado “God(ard) bless us”. Na página, ele também presta contas sobre outras doações que vem arrecadando através do PayPal, do Flattr e de uma ONG.

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Polícia Civil fecha “xerox” na Praia Vermelha (ADUFRJ, 15/09)

Professores e universitários foram considerados criminosos quando a polícia CIVIL apreendeu material didático da Escola de Serviço Social da Universidade FEDERAL do Rio de Janeiro, dia 13 de setembro. Uma boca de xerox foi fechada.  Imagens e fotos feitas no local mostram como foi a operação dos sete policiais, três viaturas e uma delegada.

O dono da boca e as cópias ilícitas e foras-da-lei foram encaminhados para a Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM) vinculada ao muito útil Centro de Apoio ao Combate à Pirataria. Para fazer uma coisa dessas, a polícia do Rio certamente já deve ter resolvido o problema da segurança pública. Contra a ação, professores da UFRJ se reuniram com o Reitor e com o Conselho da Universidade e fizeram uma moção de repúdio e um abaixo-assinado. A professora Ivana Bentes acompanhou e emite detalhes do caso em seu twitter e o professor Alexandre Nodari fez uma análise em seu blog.

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Militantes pró-pirataria atacam sites das indústrias de filme e música (Estadão, 20/09)

O grupo Anônimo (esse é o nome) deu uma rasteira nas páginas da Motion Picture Association of America (MPAA) e da Recording Industry Association of America (RIAA). Organizados através do fórum 4chan, os piratas decidiram sobrecarregar os servidores dos sites, tirando-os do ar. O ataque “anti” anti-pirataria ocorreu devido a uma declaração da empresa de software Aiplex.com, que disse ter atacado ano passado o site de torrent The Pirate Bay.

O blog da empresa de segurança Panda Security mostrou em detalhes como foi a primeira ofensiva dos piratas. No mesmo post, a empresa conta que a segunda ofensiva, contra a British Phonographic Industry (BPI), falhou. É de se lembrar que a BPI requeriu ao Google a remoção de links de servidores de arquivos em junho deste ano, tentando tolir os downloads  divulgados em blogs e fóruns.

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Crédito foto:
1) World War II Photos
 

[Marcelo De Franceschi]

Hakim Bey, Taz, anarquismo ontológico e outros nomes estranhos

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À primeira vista, nada indica que o senhor da foto acima, em trajes e barba que faria um mais desavisado crer que se está diante de um mendigo errante, é um dos mais brilhantes e polêmicos pensadores da atualidade. Mas em questão de conhecimento aparência não significa rigorosamente nada, não?

Hakim Bey é o (codi) nome em questão usado pelo senhor de alcunha Peter Lamborn Wilson, nascido em Baltimore, Estados Unidos, em 1945, que após estudar na tradicional Universidade de Columbia, em Nova Iorque, fez uma longa viagem à Ásia e Oriente Médio  em busca das raízes e dos templos do sufismo. Peter (ou Hakim) veio a se fixar por algum tempo no Irã, onde atuou como consultor e pesquisador do sufi, ainda nos anos da década de 1970 pré-Revolução Islâmica, que, quando chegou em 1979, levou o Aiatolá Khomeini ao poder e Hakim Bey de volta aos Estados Unidos.

É em sua américa natal que Hakim se vê picado pelo mosquito revolucionário do anarquismo. Une seus novos conhecimentos aos já consolidados em relação ao sufismo e daí surge uma estranha e originalíssima liga, auto-nomeada de anarquismo ontológico, uma, digamos, corrente de anarquismo criticada até mesmo pelos anarquistas, que a visualizam de modo pejorativo como um anarquismo individualista e apolítico, que mistura elementos (misticismo, obscurantismo) que não caem nada bem aos anarquistas tradicionais.

A partir da inusitada mistura de elementos culturais/ideológicos distintos é que a lenda de Hakim Bey ganha força, na mesma proporção que os seus textos – sobre assuntos tão distintos quanto máfias chinesas descentralizadas conhecidas (tongs), comunalismo experimental de Charles Fourier, conexões entre o sufismo e a antiga cultura Celta, tecnologia e internet, terrorismo poético, ludismo, turismo e o uso ritualizado de substâncias alteradoras da consciência, dentre outros – vão sendo difundidos pelos submundos deste planeta, especialmente em meados dos anos 80 e 90.

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Tudo isso sobre Hakim Bey seria por demais estranho em estar neste local se o senhor da foto que abre esta postagem não tivesse escrito o simpático livrinho da capa acima. Taz, Zona Autônoma Temporária, editado (e já esgotado) no Brasil pela Conrad, é nitroglicerina sequencialmente explosiva, e não somente para os (algo) deslocados/escondidos anarquistas, comunistas ou simpatizantes de ambas (?) ideologias. Seu poder de comunicação e sua verborragia explicativa e revolucionária chegou aos altos (e baixos) escalões da Cibercultura como uma tentativa de explicação pertinente ao mundo atual, ou pelo menos a uma parte dele, a que diz mais respeito a chamada rede (ou The Net, nas palavras de Hakim). Sua relativa aceitação por parte de pesquisadores de comunicação não deixa de ser surpreendente, ainda mais quando se constata o quanto a exótica figura de Hakim em nada se parece com tantos outros teóricos/pensadores adotados pela rigorosa academia.

Já a adoção dos textos de Hakim Bey – principalmente de Taz – entre os  frequentadores de raves e adeptos do que se convenciona chamar de cultura rave não é de todo surpreendente e até mereceu uma típica resposta do próprio pensador: “Os frequentadores de raves estão entre meus maiores leitores… Gostaria que eles pudessem repensar toda sua relação com a tecnologia – eles deixaram de lado parte do que escrevi”. (via Wikipédia)

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Mas, afinal, que diabos o misterioso Hakim Bey escreve, e o que teria a tal Zona Autônoma Temporária de especial para que públicos tão distintos quanto ravers e/ou comunicólogos a pensassem como aplicável para suas vidas/estudos?

Bueno, eu não me atreveria a tentar responder estas perguntas em duas frases e/ou um parágrafo, mas posso trazer o primeiro capítulo do dito Taz aqui abaixo, intitulado “Utopias Piratas“,  como uma amostra do que Hakim Bey diz e de como ele diz o que diz.  O trecho é retirado da digitalização do livro, realizada pelo coletivo Sabotagem, e que pode ser lido na íntegra aqui. A tradução para o português é de Patrícia Decia & Renato Resende. Antes da leitura um alerta: tanto o conteúdo quanto o estilo do texto são, digamos, polêmicos, além de algo herméticos. Podem incomodar – o que não duvido que seja a principal ideia do autor para com seus leitores.

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UTOPIAS PIRATAS

OS PIRATAS E CORSÁRIOS do século XVIII montaram uma “rede de informações” que se estendia sobre o globo. Mesmo sendo primitiva e voltada basicamente para negócios cruéis, a rede funcionava de forma admirável. Era formada por ilhas, esconderijos remotos onde os navios podiam ser abastecidos com água e comida, e os resultados das pilhagens eram trocados por artigos de luxo e de necessidade. Algumas dessas ilhas hospedavam “comunidades intencionais”, mini-sociedades que conscientemente viviam fora da lei e estavam determinadas a continuar assim, ainda que por uma temporada curta, mas alegre.

Há alguns anos, vasculhei uma grande quantidade de fontes secundárias sobre pirataria esperando encontrar algum estudo sobre esses enclaves – mas parecia que nenhum historiador ainda os havia considerado merecedores de análise. (William Burroughs mencionou o assunto, assim como o anarquista britânico Larry Law – mas nenhuma pesquisa sistemática foi levada adiante.) Fui então em busca das fontes primárias e construí minha própria teoria, da qual discutiremos alguns aspectos neste ensaio. Eu chamei esses assentamentos de Utopias Piratas¹.

Recentemente, Bruce Sterling, um dos principais expoentes da ficção cientifica cyberpunk, publicou um romance ambientado num futuro próximo e tendo como base o pressuposto de que a decadência dos sistemas políticos vai gerar uma proliferação de experiências comunitárias descentralizadas: corporações gigantescas mantidas por seus funcionários, enclaves independentes dedicados à “pirataria de dados”, enclaves verdes e  social-democratas, enclaves de Trabalho-Zero, zonas anarquistas liberadas  etc. A economia de informação que sustenta esta diversidade é chamada de  Rede. Os enclaves (e o título do livro) são Ilhas na Rede.

Os Assassins² medievais fundaram um “Estado” que consistia de  uma rede de remotos castelos em vales montanhosos, separados entre si por  milhares de quilômetros, estrategicamente invulneráveis a qualquer invasão,  conectados por um fluxo de informações conduzidas por agentes secretos,  em guerra com todos os governos, e dedicado apenas ao saber. A tecnologia  moderna, culminando no satélite espião, reduz esse tipo de autonomia a um  sonho romântico. Chega de ilhas piratas! No futuro, essa mesma tecnologia livre de todo controle político – pode tornar possível um mundo inteiro de  zonas autônomas. Mas, por enquanto, o conceito continua sendo apenas  ficção científica – pura especulação.

Estamos nós, que vivemos no presente, condenados a nunca  experimentar a autonomia, nunca pisarmos, nem que seja por um momento sequer, num pedaço de terra governado apenas pela liberdade? Estamos reduzidos a sentir nostalgia pelo passado, ou pelo futuro? Devemos esperar  até que o mundo inteiro esteja livre do controle político para que pelo menos um de nós possa afirmar que sabe o que é ser livre? Tanto a lógica quanto a  emoção condenam tal suposição. A razão diz que o indivíduo não pode lutar  por aquilo que não conhece. E o coração revolta-se diante de um universo tão cruel a ponto de cometer tais injustiças justamente com a nossa, dentre  todas as gerações da humanidade.

Dizer “só serei livre quando todos os seres humanos (ou todas as  criaturas sensíveis) forem livres”, é simplesmente enfurnar-se numa espécie  de estupor de nirvana, abdicar da nossa própria humanidade, definirmo-nos  como fracassados.

Acredito que, dando consequência ao que aprendemos com  histórias sobre “ilhas na rede”, tanto do passado quanto do futuro, possamos coletar evidências suficientes para sugerir que um certo tipo de “enclave livre” não é apenas possível nos dias de hoje, mas é também real. Toda  minha pesquisa e minhas especulações cristalizaram-se em torno do  conceito de ZONA AUTÔNOMA TEMPORÁRIA (daqui por diante  abreviada por TAZ). Apesar de sua força sintetizadora para o meu próprio  pensamento, não pretendo, no entanto, que a TAZ seja percebida como algo mais do que um ensaio (“uma tentativa”), uma sugestão, quase que uma  fantasia poética. Apesar do ocasional excesso de entusiasmo da minha linguagem, não estou tentando construir dogmas políticos. Na verdade,  deliberadamente procurei não definir o que é a TAZ – circundo o assunto,  lançando alguns fachos exploratórios. No final, a TAZ é quase  utoexplicativa.Se o termo entrasse em uso seria compreendido sem dificuldades… compreendido em ação.

1: Utopias Piratas: Mouros, hereges e renegados, de Peter Lamborn Wilson. Publicado no Brasil pela Editora Conrad.

2: Assassins: antiga ordem secreta muçulmana do século XI. Seu nome vem da palavra “Hashshashin” (usuários do haxixe).

Em tempo: outro texto que trata da web é o intitulado “Sedução dos Zumbis Cibernéticos“, escrito ainda em 1997 e disponível aqui. E outro livro editado no Brasil de Hakim Bey é o “Caos: Terrorismo Poético e outros Crimes Exemplares, uma coletânea de devaneios filosóficos/poéticos/anarquistas que tem sido responsável por uma certa “febre” Hakim Bey, como bem escreve Cláudio Tognolli. E para saber de mais textos do homem, vá a este blog, em português, ou esta página, em inglês; ambas contém boa parte da obra do autor e permitem o acesso gratuito à ela gratuitamente.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1,2,

Para o fim de semana

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Blues On Film é um tipo de site que não tem como não indicar pro máximo de gente possível: trata-se de um arquivo de vídeos históricos com toda a elite do blues americano, de Bessie Smith à Muddy Waters, de John Lee Hooker à Bo Diddley, de Eric Clapton à Robert Johnson, e mais uma tremenda quantidade de nomes conhecidos (e outros nem tanto) do blues.

Dentre os mais de 500 vídeos que dá para encontrar lá, destaco um: Bessie Smith cantando a clássica “St. Louis Blues” em um clipe (!) com roteiro de W.C. Handy (!) realizado em 1929 (!!). Taí abaixo, pra quem quiser ver:

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De modo parecido ao Blues on Film funciona o Beatlestube, que diz agrupar todos os vídeos dos Beatles que podem ser encontrados na Web – grande parte no You Tube. O site traz  a letra e depoimentos dos fab four sobre o processo de composição de cada música  (e ali tem praticamente todas as músicas da banda). Tem desde os clipes caseiros altamente toscos  encontrados em profusão no You Tube até os clássicos, como “I am The Walrus“, tirado do ultrapsicodélico filme Magical Mistery Tour, e “Yer Blues“, com Lennon acompanhado por uma senhora banda formada por Eric Clapton, Mitch Mitchel e Keith Richards especialmente para tocar no filme The Rolling Stones Rock and Roll Circus, de 1968.

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Semelhante ao beatlestube já tem também para o U2, Queen e o Rolling Stones.

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[Leonardo Foletto.]

Tudo grátis: Instrucciones pro fim de semana

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Dando continuidade à um tanto esquecida seção Instrucciones, aqui vai a indicação de dois ótimos links que podem ser encontrados à direita: Open Culture E-Books e Project Gutenberg.

São dois projetos incríveis de facilitação do acesso à cultura, cada um à sua maneira. O Open Culture, por exemplo, nasceu de uma idéia de Dan Colman — editor do site, que é também professor de história e PHD no assunto pela prestigiada Universidade de Stanford — de vasculhar a web em busca de livros, cursos de idiomas, cursos universitários, músicas que pudessem ser disponibilizados gratuitamente. Lá tu vai encontrar conteúdos tão distintos quanto:

– cursos sobre a fundação da cibercultura americana, Introdução à Cultura Antiga Grega, The American Novel Since 1945, História da Informação, dentre outros quantos, todos ministrados por professores de grandes universidades americanas como Stanford, Berkeley, UCLA, Yale, MIT e University of New York;

– cursos de 37 idiomas diferentes, do àrabe jordaniano ao búlgaro, do lituano ao romeno,  passando também pelos tradicionais espanhol, inglês, francês, alemão, italiano, russo, português…

– Audiobooks de uma lista considerável de autores;

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Já o Project Gutenberg é um projeto que tem um único e nobre fim: disponibilizar gratuitamente livros. Foi criado ainda em 1971 por Michael Hart a partir da idéia de que tudo “o que pode ser introduzido num computador pode ser reproduzido indefinidamente“, no que ele apelida de “Tecnologia Replicadora”. Quando do surgimento comercial da internet, o projeto ganhou mais visibilidade e uma página na rede, que hoje disponibiliza mais de 28 mil livros (a maioria em que o copyright caducou) grátis e mais outros 100 mil em parceria com outras associações, organizações e afiliados.

O projeto funciona nos moldes da Wikipédia: aceita (e incentiva) a participação de qualquer usuário que queira disponibilizar material, desde que respeita as regras determinadas por eles.

[Leonardo Foletto.]

Crédito foto: makeminimal.com

Notícias do Front Baixacultural (14)

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Música erudita gratuita ganha espaço na rede (Folha Online, 6/01)

Tempos atrás fizemos um post contando de um ótimo blog com um tremendo acervo de discos de música erudita. No início deste ano, a Folha Online, por meio do colaborador Irineu Franco Perpétuo, fez uma matéria contendo algumas dicas de mais blogs e sites com música erudita para baixar. Destaque para o italiano Branle de Champaigne, especialista em música renascentista, medieval e barroca;  o argentino Il Canto Sospeso, centrado na música erudita contemporânea (séculos XX e XXI); e o brasileiro Brazilian Concert Music, só com compositores brasileiros.

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Download de “Watchmen” de Alan Moore completo (Comunidade Revista Bizz no Orkut, 1/03)

Em semana de estréia do filme Watchmen, o nobre colega Marcello foi à comunidade da Revista Bizz para disponibilizar para download a edição completa da revista de Alan Moore e Dave Gibbons. O link para baixar é esse aqui, mas entra lá no tópico da comunidade para ver o  quanto Marcello foi espinafrado por sua atitude de apoio a “pirataria”.

Em tempo:  Neste link está o trailer do filme; o site oficial, muito bonito como costumam ser a maioria das páginas dos filmes de hollywood; e o verbete na Wikipédia sobre o filme, bastante completo.

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Daniel diz que pirataria pode ajudar a difundir seu filme (Babel, 5/03)

O bombardeio midiático em cima do novo filme do cantor Daniel fez com que boa parte de nós, pobres consumidores de cultura, ficassemos sabendo que “O Menino da Porteira” estreou semana passada nos cinemas brasileiros. Pois não é que Daniel, ao descobrir só agora que 90% das cidades brasileiras não têm cinema, resolveu ir contra seus patrões e declarar, implícita e explicitamente, que a pirataria pode ser muito boa para a divulgação de seu filme:

“Antes de o filme ser lançado, é complicado. Mas, depois, a gente vai ter que ter noção que, se o filme tiver respaldo, vai ter certa procura da pirataria. Você viu o que aconteceu no Tropa de Elite? Foi pirateado, mas teve sucesso de público também. Então…”.

Daniel entende que seu público principal não é aquele que costuma ir às salas de cinema no Brasil, grande parte delas localizada em shoppings. Para esse seu público preferencial ver seu filme, a pirataria pode sim ajudar. Então, a entrevistadora pergunta: “se souber que, numa cidade pequena, sem cinema, alguém viu o filme num DVD pirata, ficará chateado?

“Acho que é uma coisa quase normal. Lógico que a gente gostaria que fosse tudo da forma correta, mas não é assim.Tem amigos meus, como Bruno e Marrone, que começaram a fazer sucesso depois da pirataria. O complicado é que a pirataria tira emprego, não gera benefício pra ninguém. Mas às vezes a pessoa só vê assim.”

Mas a desobediência de Daniel esbarraria logo depois na fala de Rodrigo Saturnino Braga, diretor-geral da Sony Pictures no Brasil, co-produtora e distribuidora do filme,

“Os DVDs piratas também não chegam nas cidades que não têm cinema. Eles são vendidos aqui debaixo do meu escritório, na Berrini”, diz o executivo da Sony.

Em tempo (2):  a matéria linkada aqui é do Babel, recente e já ótimo blog da jornalista de Carta Capital, Ana Paula Sousa.

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Portrait of an Artist as an Avatar (NY Times, 5/03)

A editoria de tecnologia do NY Times não é a toa referência para boa parte dos jornais (e portais) mundiais: traz informações atuais, bem apuradas e, principalmente, ótimos textos, tudo como manda o tão esquecido Manual do Bom Jornalismo. Esse perfil aqui, produzido por Sarah Corbett, é mais um desses exemplos: conta a história do “artista” Filthy Fluno, um avatar pixelado e black power do Second Life (!) que ajudou seu criador –  Jeffrey Lipsky, artista plástico – a consolidar sua carreira no “mundo real”, com exposições em lugares tão distintos quanto Nova York e Portugal. No meio disso tudo,  muitas questões sobre as fronteiras cada vez mais apagadas entre o mundo digital e o real.

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Lars Ulrich dos Metallica pirateia-se a si próprio (Remixtures, 6/03)

Miguel Caetano do Remixtures nos conta que Ulrich, baterista do Metallica e principal responsável pela guerra declarada pela banda ao saudoso Napster, numa recente entrevista a Eddie Trunk do programa “That Metal Show” da cadeia de televisão VH1 Classic, confessou que baixou de maneira “ilegal” o  próprio disco novo de sua banda, Death Magnetic:

“Eu sentei-me e descarreguei o Death Magnetic da Internet apenas no intuito de experimentar. Foi algo do tipo “Wow, é assim que isto funciona.” Eu pensei para os meus botões que se havia alguém com direito a descarregar de borla o Death Magnetic era eu.”

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[Leonardo Foletto.]

Crédito foto: World War II Photos

Tudo libre

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Mais uma indicação da um pouco esquecida seção Instrucciones: o blog libros libres musica libre é organizado pelo denominado coletivo Ruben Vizcaíno Valencia, assim chamado em homenagem ao maestro e professor mexicano de mesmo nome.

O blog se destaca por disponibilizar material sobre o qual não falamos muito aqui (mais por desconhecimento do que por outra coisa): música clássica – ou erudita, como queiram  – de compositores como Beethoven, Debussy, Bach, Tchaykovski, Mahler, Brahms, dentre outros quantos. E aqui entram material tão amplo e interessante como a coleção de 154 cds com a obra de Bach, executado por vários músicos de prestígio no cenário erudito, ou a íntegra da produção de música de câmara de Brahms, dentre outros quantos concertos e sinfonias disponibilizados, todos em mp3 com qualidade superior ao usual 128 kbps.

Como se não bastasse o amplo acervo de música clássica, há também um excelente arquivo de literatura, com a obra completa de escritores como Faulkner, Salinger, Roberto Bolaño, Paul Auster e Saramago, alguns textos  na língua original em que foram escritos, outros na tradução para o espanhol. E, espantosamente, ainda há links com todas as pinturas de Picasso e mais de 300 de Van Gogh e Andy Warhol.

Segundo o perfil do Blogger, o coletivo atua entre Montreal, no Canadá, Madrid e Barcelona: “Somos un colectivo, organizado en memoria del Maestro Ruben Vizcaíno Valencia, y nos declaramos partidarios de la generosidad, la solidaridad y la entrega anonimas.”

[Leonardo Foletto.]

Amigo Punk

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Há em torno do punk o mesmo desconforto que ronda toda idéia fora de contexto – a de tornar-se pastiche involuntário de si mesmo e recusar-se a enxergar isto, que é precisamente tudo o que os demais enxergam. Caso se tratasse apenas de um gênero musical, não seria tão pertinente a acusação de imobilidade (“esses caras fazem a mesma coisa há 30 anos!”), ou não seria mais pertinente do que o é no caso do blues e do rap, por exemplo. O problema do punk está menos na música do que no apego a um tipo de discurso que só pretende ofender o mundo, mas não consegue mais fazê-lo, porque o mundo muda mais rápido que a capacidade de raciocínio de um punk tradicional.

Mas e daí? Ou, perguntando de outra forma, isso tudo não é evidente o bastante pra que se torne irrelevante, e pra que seja então possível apenas apreciar os bons discos, os refrões antológicos e o inegável papel histórico do gênero? Afinal, apesar dos argumentos contra a “cena”, não há o que se dizer contra a lucidez e pertinência do que diz um Jello Biafra, este sim um punk’s not dead, ou contra o papel do gênero enquanto matriz para outras expressões culturais, como toda a cena indie baseada no bom e velho “faça você mesmo”.

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Baixe você mesmo, neste caso. Bandas de A a Z com atualizações diárias, na Punk’o’teca. Coisas clássicas e conhecidas fora da cena, como Dead Kennedys [a ex-banda do mencionado Jello Biafra], Pennywise, Rancid ou Fugazi, coisas não ortodoxas, como The Offspring e Rage Against The Machine, muitas bandas obscuras e o que é melhor, vários registros de bandas brasileiras, que sempre encontraram dificuldades históricas para gravar.

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Parte dessa dificuldade, aliás, está bem documentada no filme do ex-VJ da MTV Gastão Moreira. Centrado nas bandas de São Paulo, Botinada – A origem do punk no Brasil resgata a confusão que foi a formação de uma cultura punk no Brasil em fins de ditadura. A confusão dos punks (divididos entre os que acreditavam no discurso, os que queriam transformar violência em música e os que queriam dar porrada mesmo) e a confusão gerada pela dificuldade de assimilação do movimento pela sociedade. Embora seja sempre enjoada a ortodoxia de alguns entrevistados, vale a pena se defrontar com a complexidade de um movimento que em todo caso é a face furiosa da periferia industrial brasileira, e as contribuições lúcidas de Clemente (vocalista dos Inocentes), Kid Vinil e do jornalista Antonio Bivar não deixam dúvidas de que vale o download.

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[Reuben da Cunha Rocha.]

Happy New Ear

É o que o BC deseja, parafraseando o mestre John Cage.

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Todos os quadrinhos acima, organizados numa sequência relativamente cronológica, foram tirados do Comics.com, excelente banco de dados de quadrinhos feito nos Estados Unidos. Os autores das tiras, respectivamente, são Bill Schorr, Jerry Bittle, Larry Wright, Kevin Fagan, Jerry Bittle de novo, Bill Schorr de novo e Chip Samsom.

[Leonardo Foletto]

Jamaica, modo de usar

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A extensão da complexidade cultural da Jamaica não cabe na fronteira geográfica que a ilha faz com o mar do Caribe – nem a maluquice política que não escapa à regra da América colonizada, nem o sincretismo da religiosidade que é sua embora não de sua maioria [como o voodoo ou o rastafari, essa intrincada interpretação do Antigo Testamento bíblico, essa rica narrativa em que triunfa a liberdade cultural do colonizado e ao mesmo tempo alcança apenas cerca de 10% da população do país] nem a música afinal, não menos sincrética, não menos maluca, não menos produto e produtora do lugar em que não cabe.

A história do reggae é tão acidentada quanto todo o resto, cheia de desvios como o gênero é cheio de subgêneros, antecessores e herdeiros, alguns deles indissociáveis em sua origem da precariedade econômica e técnica que não vence o espírito, como o dub, outros indissociáveis do peso musical que a Jamaica conquistou em todos os mundos, inclusive o primeiro. É o caso da obra do lendário guitarrista Ernest Ranglin, cujo nome está na origem do ska, e que hoje é possível encontrar no meio de bandas de jazz enriquecendo o fusion mais ou menos desse jeito:

Há um belo documentário [vendido bem barato em bancas de revistas e disponível pra download aqui] sobre a saída do reggae de Kingston para Londres, via Catch a Fire, em que produtores e músicos ingleses são unânimes no desconforto que sentiram diante daquele contratempo inédito: ninguém sabia tocar aquele som, e o processo de adequação do reggae ao mercado branco também foi o do aprendizado daquele bumbo mulato maluco por parte do velho mundo.

Mas divago, e o que é mesmo preciso que se diga é que a história cheia de atalhos, desvios e becos sem saída da música jamaicana é muito bem contada pelo You And Me On A Jamboree, até hoje o blog de download mais completo sobre o assunto que meus olhos míopes já encontraram. Pra começo de conversa, tu não encontra nenhuma banda de Brasilia com nome de planta no meio – isso mesmo, improvável leitor: a parada é tão old school que as categorias com mais discos linkados são Ska, Rocksteady [ritmo intermediário entre o ska e o reggae que não durou muito na ilha do Caribe embora seja muito bom] e Early Reggae.

É aí que a página ganha cara de enciclopédia: além da lista de links por artista/banda, os discos estão organizados por categoria. Como cada categoria musical daquelas representa um ponto na história da música jamaicana, baixar cada disco ali chega a ser didático, além de um prazer.

You And Me On A Jamboree também é uma festa e um podcast muito do invocado. Do blog, o único porém fica por conta da desorganização alfabética dos links. É muita coisa [tomara que cresça!], e uma lista organizada com um pouco mais de empenho facilitaria muito a minha vida. Quer dizer, a nossa.

E pra encerrar o post mais groovy do dia, fica aí com o genial trombonista Rico Rodriguez, de quem tu encontra nada menos que cinco bolachas no Jamboree. Tô falando, é coisa fina, pedra pesadíssima:

[Reuben da Cunha Rocha.]

Utilizando o RSS feed

Pode não parecer, mas essa parte do blog é bem legal
Pode não parecer, mas essa parte do blog é bem legal

A imagem que você vê aí em cima é dos links para o feed RSS do BaixaCultura. Muita gente sabe  como usar o RSS e não precisa de explicação para sacar que o Baixa Cultura também tem esse serviço; para esses, este post é só mais um lembrete, e pode terminar aqui.

Para outros tantos que podem estar se perguntando: “Que diabo é isso?”, esse post é para avisar  que o RSS trata-se de algo muito simples, que ajuda bastante o blog e facilita a vida dos leitores.

A Wikipédia é um poço de praticidade, nós já sabemos, mas só leia o que ela tem a dizer sobre RSS se você tiver saco e quer saber de todos os detalhes do negócio. Prometemos que nossa explicação logo abaixo é mais direta.

RSS é o sistema pelo qual se reúne o conteúdo de um determinado site, disponibilizando-o de forma prática em nossos navegadores ou agregadores. Por exemplo: você veio aqui no blog e gostou do que viu, mas com tanta coisa interessante na web, você acaba se esquecendo que ele existe e, portanto, nunca mais o acessa. Meses depois você vê alguém linkando um post do BaixaCultura e então pensa: “Putz! Eu tinha esquecido desse blog!“. Então, você resolve voltar lá e clica em um dos (ou nos dois) links de feed que estão em cima. Agora você terá uma espécie de botão no seu navegador que vai dar acesso atualizado a todos os posts ou comentários do blog. Ou, então, o RSS do BaixaCultura vai estar no seu agregador – recomendamos o Google Reader, mas existe uma série de opções para escolher – informando das últimas atualizações do blog.

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[Edson Andrade de Alencar. Leonardo Foletto]

Instrucciones (4) – Baixe HQ

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A cultura de download de HQs merece que se escreva mais a respeito, a começar pelo fato de tratar-se de um modo de democratização cujo triunfo mais corriqueiro é o de baratear este que no Brasil tem se tornado um dos formatos mais caro$ de informação. Ocorre em torno dos scans de quadrinhos [edições de papel escaneadas que podem ser confortavelmente lidas com este programa aqui.] a curiosa formação de coletivos que, mais do que apenas piratear os famigerados gibis de banca [pelo que pessoalmente agradeço, aliás], se dedicam à tradução e à disponibilização de material inédito no Brasil.

É o caso de The Walking Dead, criação de Robert Kirkman e Tony Moore [desenhista substituído por Charlie Adlard a partir da edição nº 7] responsável por repetidas negligências de minha parte na entrega de trabalhos de todo tipo. Sinto muito, mas entre entregar no prazo um artigo sobre qualquer coisa e acompanhar apreensivamente o FIM DO MUNDO, well, o segundo será sempre mais divertido.

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The Walking Dead começa assim: um policial duma cidadezinha americana acorda no hospital após ser baleado num tiroteio e basicamente se vê cercado por zumbis, zumbis, zumbis. No hospital, zumbis. Nas ruas, zumbis. No supermercado, zumbis. Até que encontra um sujeito que lhe avisa que todo mundo se mandou pra capital. Ele vai atrás da família, claro, mas lembre-se dos zumbis. Nos EUA acabou de sair a edição 54 [com cada vez menos humanos e cada vez mais…zumbis], e dá pra encontrar cada uma das edições aqui.

A vantagem da comunidade aí é que o lançamento é praticamente simultâneo, o que também nos leva a uma desvantagem, se for o caso de tu ter dificuldades de ler em inglês: a tradução dos coletivos de scans [voluntária e geralmente anônima, para evitar problemas legais] nem sempre acompanha o ritmo da publicação [no caso de TWD, mensal]. Em todo caso, se tu tem problemas com o inglês e não conhece ainda o belo trabalho de Kirkman [não vou cair no clichê de afirmar que The Walking Dead é mais que uma HQ de zumbi], não vai se importar em ler apenas as 38 primeiras edições traduzidas aqui no Vertigem. [Repare na barra lateral esquerda a quantidade de outros títulos disponíveis pra baixar. Repare também, no final da mesma barra, o convite feito pelo Vertigem a possíveis colaboradores, tradução e/ou diagramação].

No próximo post da série quadrinhos-fundamentais-que-tu-não-acha-no-mercado-brasileiro, prometo falar sobre o Transmetropolitan, de onde saiu a epígrafe que abre o BaixaCultura. E, para as próximas semanas, coerentemente com a primeira frase deste texto, prometo uma matéria aprofundando a questão dos scans. Até lá!

[Reuben da Cunha Rocha.]

Instrucciones (3)

Roubo de Leonardo o título pra seguir falando sobre os links à direita. Aquilo que de cara soa como clichê: logo em seguida ao lançamento de In Rainbows, certo DJ e produtor californiano aparece com a idéia que qualquer um de nós esperaria dum DJ — remixar as faixas do disco.

Aquilo que poderia ser um pouco mais. Amplive imaginou lançar o disco [arquivo zipado, 08 faixas, duas a menos que o original, em 320kbp] pela W.A.S.T.E, a loja virtual do Radiohead, e somente pra quem houvesse baixado a versão da banda [eu gosto mesmo de viver num tempo em que dá pra chamar o original de versão da banda.].

Aquilo que não deu certo. Antes do lançamento oficial de Rainydayz [mas não antes da circulação de faixas avulsas na rede], Amplive recebeu uma notificação da Warner/Chappell informando sobre, tu sabe, a ilegalidade do projeto, o quão desinteressante seria para a empresa a vinculação oficial do Radiohead ao trabalho do DJ [através da disponibilização do disco na loja da própria banda] e a impossibilidade de continuá-lo sem nefastas consequências.

[Nada se disse sobre a posição da banda sobre o caso. Ou vai ver foi a banda quem não disse nada.]

Pra encurtar a história, quando já tinha mesmo desistido de lançar o disco, Amplive conseguiu autorização pra disponibilizar Rainydayz para download gratuito aqui.

Acredito que faço parte de uma maioria de pessoas que ouviram o disco sem a menor pista de quem sejam Too $hort, MC Zumbi, Chali2na, Codany Holiday ou Del The Funky Homosapien, familiarizadas que estamos com a música do Radiohead e razoavelmente ignorantes que somos sobre o que se passa no rap. Vergonhoso, no caso daqueles que como eu se interessam por essa fértil cultura de reciclagem que é o remix.

Também acredito, provavelmente com os mesmos colegas de maioria, tratar-se de um disco pouco ousado para a proposta, sobretudo no que se refere às batidas — a monotonia ritmica do rap fica em geral bastante evidente e prejudica canções originalmente desafiadoras até para o Radiohead [como 15 Steps, agora 15 Stepz].

Mas talvez isto que eu e a maioria encaramos como perda seja só a inserção do pós-rock (ou indie, nem sei mais, nem ligo) numa outra lógica musical, e represente aquilo que a apropriação da tecnologia por culturas economicamente subalternas [como o rap ainda é, apesar dos rappers de MTV] significa de melhor: que eu e tu vamos ter que engolir sim o outro, e que esse mesmo outro não pensará duas vezes antes de transformar o que bem quiser em seu.

O que aliás me remete ao que escapa à lógica econômica da Warner: essa disposição de apropriar-se é a mais comprometida das homenagens.

[Reuben da Cunha Rocha.]

De e-livros e livros

É visível, a livre distribuição e consumo de literatura na rede ainda não alcançou a mesma dinâmica que o tráfego de arquivos de som e vídeo, e o que talvez à primeira vista possa não passar de um reflexo da frágil educação brazuca possui pra mim uma causa mais imediata e ao mesmo tempo de mais fácil remédio: o formato.

[Abro em meu computador a pasta de ibúks e reparo na profusão de peixes fora d’água, livros que são apenas isso, livros, mídias da idade da imprensa perdidas no espaço da tela, e não tenho paciência pro incômodo de lidar com aquelas páginas e volto a este texto.]

Há por um lado e evidentemente iniciativas como o Dossiê Deleuze, das quais não se poderia mesmo cobrar coisalém dos scans das obras [repara que estão lá inclusive os livros caprichados da editora 34, gloriosamente grátis], e é o caso na verdade de tirar o chapéu para a disposição de se catalogar e disponibilizar um acervo pirata tão variado e cuidadoso. 

Mas para mim o dossiê consegue funcionar apenas como espaço de referência, nunca de leitura integral, e a iniciativa assim me diz algo sobre o problema do formato, e me diz que o problema reside em etapas anteriores ao consumo das obras, reside na produção e na distribuição, os pontos do processo onde se encontram autores e editores. A escassa leitura de livros na rede fala portanto da indisposição dos autores de escreverem para esse espaço [e, ah, abandonarem as prateleiras e a longo prazo as traças], ou do desinteresse das editoras em explorarem esse tipo de produto.

Entre os escritores as excessões, e entre as excessões gostaria de destacar o poeta Marcelo Sahea, que estreou em 2001 com o e-livro ‘ejs [15 mil downloads em 1 ano, esgotado]. À estréia se seguiu carne viva, e-livro que depois virou livro e, esgotado, voltou ao formato original [download aqui], e de onde o poema visual que abre este texto foi tirado. Na sequência veio leve (2006), em livro, que Marcelo pretende jogar na rede assim que esgotar.

[Mas baixa lá o carne viva antes de continuarmos. É que talvez o livro ganhe uma reedição e saia do ar, e só volte quando novamente esgotado. “A idéia é deixá-lo acessível. Se não tem no mercado, tu baixa. Se tem, compra e me ajuda”, palavra do autor.]

O livro de Sahea tu lê assim que baixa, e até o fim. O formato das páginas é ideal [elas abrem inteiras na tela] e a metragem do livro, adequadíssima. Só a tua preguiça pode te impedir de lê-lo inteiro, de uma vez. Também a imaginação veloz e altamente visual do poeta transformam a obra num produto perfeito, a começar de que sei que Marcelo não se ofenderá com a palavra produto. Visual é mesmo uma boa palavra para o livro, objeto pensado para a visibilidade, prazer dos olhos.

Como também o são, no caso das editoras, os discos-para-ler da Mojo Books. O ponto de partida da editora [100% virtual] é a pergunta: se um disco fosse um livro, que história contaria? E independente da resposta a pergunta aponta para duas características de que todo o seu catálogo se beneficiará: a popularidade da canção e, ele novamente, o formato, nesse caso de cd.

Funciona assim: tu te cadastra pra baixar os livros [os singles, ou comix] e pra enviar material também. Nesse caso, escolhe um disco [ou música, para escrever um single] e segue as orientações [as obras não devem fazer qualquer referência direta aos discos e devem obedecer a um limite específico de caracteres, por exemplo].

Embora o trabalho da editora seja uma excelente lição sobre livros virtuais, é preciso dizer que frequentemente a qualidade dos produtos deixa a desejar. O ponto de partida sendo a música, ocorre o curioso efeito de por vezes os trabalhos enviados serem realizados por fãs das bandas, não por escritores. Por ouvintes afetuosos, mas sem grandes preocupações ou envolvimentos com a linguagem. Ainda assim, há experiências a serem conferidas, como a do graaaaande Gastão Moreira [VJ do tempo em que a MTV tinha música no M, depois piloto do Musikaos na TV Cultura] e da escritora Andréa del Fuego [de quem li Engano Seu e gostei].

E banda boa tem um monte também!

[Reuben da Cunha Rocha.]

Instrucciones (2)

O próximo link da enorme lista aqui à direita, ainda no tópico Baixe Música, é o do Blog Del Topo. Trata-se de um bom site para começar – e continuar, provavelmente – a conhecer o rock sulamericano, especialmente o rock argentino. Foi ali que conheci o Sui Generis e o Almendra, duas bandas bastante conhecidas lá pela Argentina, mas que por aqui restringem-se a pouquíssimos guetos de apreciadores. O Almendra é a primeira banda de Luis Alberto Spinetta, figura das mais importantes do rock argentino; já o Sui Generis é a primeira de Charly García, outra figuraça da linha fundadora do rock naquele país.

Depois vem o Deacon Blues & Soul. Pelo nome, obviamente trata-se de um blog especializado em blues e soul, com links para diversos álbuns das áureas épocas dos dois ritmos. Vale uma passadita, se te gusta.

Por fim, o Brazilian Nuggets. Blog já conhecido por aqui, tem um baita acervo de discos raros da psicodelia brasileira das décadas de 1960 e 1970. E o raro aqui não é força de expressão; boa parte dos discos ali trazidos para download não pode ser mais encontrada no mercado, a não ser nas mãos de sebistas e colecionadores, geralmente a preços nada módicos.

***

Bueno, para não ficar muito chato esse post, aqui abaixo vai o vídeo de “Color Humano“, do Almendra, que tem talvez um dos melhores riffs já criados na história do rock (e não só do argentino, veja bem). É daquele tipo de música boa de bater cabeça, de preferência no ritmo do riff inicial, e de cantar extremamente alto, acompanhado de mais umas quatro pessoas no mínimo. Claro que no solo do meio da música o air guitar é indispensável.

[Leonardo Foletto.]

Instrucciones (1)

Este blog tem uma porrada de links à direita, no que se chama de blogroll. Eles estão divididos por área/segmento cultural, e na grande maioria deles há diversas coisas para baixar. Para facilitar a busca, vou espassar algumas seções de intrucciones entre os posts ditos normais.

Vamos começar com o Álbum Virtual, primeiro link da seção Baixe Música. É o site criado pela Trama para disponibilizar para donwload gratuito discos novos dos artistas da gravadora. Os álbuns ficam disponíveis em um tempo determinado, que é de alguns meses. Dá para baixar todas as faixas, o encarte, e segundo a apresentação do site, vídeos e versões exclusivas. Quem estreou o projeto foi Tom Zé e seu “Danç-éh-Sá Ao vivo”; hoje, quem tá por lá para ser baixado é o novo do CSS, “Donkey”, “Chapter 9”, do Ed Motta, e “Artista igual Pedreiro“, péssimo nome para o álbum de estréia da boa banda mato-grossense Macaco Bong.

O Segundo link é para a comunidade do Orkut Álbuns Raros. Com um nome explicativo desses, fica difícil acrescentar alguma coisa para descrever o link. Mas vamos reforçar que o nome albuns raros não é a toa; lá tem muita coisa rara mesmo.

Quer dois exemplos? Neste tópico tem alguns discos da banda do grande cartunista Robert Crumb, a R. Crumb And His Cheap Suit Serenaders. E neste aqui, discos da Emir Kusturica and the No Smoking Orchestra, maravilhosa banda que faz as trilhas dos filmes do cineasta nascido em Sarajevo, na Bósnia.

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Eu ia continuar apresentando mais links, mas no afã de testar cada um deles, me deparei com alguns vídeos dessa banda do Emir Kusturica. E achei este aqui abaixo, uma verdadeira pérola bem ao estilo dos filmes do Kusturica – bom, pelo menos ao estilo do único filme que vi dele, o A vida é um milagre, que é uma coleção de cenas maravilhosamente non-sense.

[Leonardo Foletto.]