Este não é mais um texto sobre Elon Musk e o Twitter

Não ia escrever sobre a venda do Twitter para o Elon Musk porque muita gente já escreveu sobre isso e nada tenho mais a dizer do que, por exemplo, a Tatiana Dias escreveu nesta nota no The Intercept Brasil: que a compra pode piorar o diálogo institucional da empresa com autoridades brasileiras, como disse o Carlos Afonso no Uol; resultar na chegada de um botão de editar postagens, como noticiou o Rafael Capanema no Núcleo.jor; dar transparência aos algoritmos, como imaginou Pablo Ortellado no Twitter; pode incorporar um modelo de liberdade de expressão sem limites, como notou Nelson de Sá na Folha e Tatiana, no primeiro link deste parágrafo, destrinchou – na real, mesmo que mude, o fato é que o Twitter já é um lugar onde conteúdos violentos (fake news, pedofilia, violência, etc) circulam a partir da suposta bandeira da “liberdade de expressão”.

O que me motivou a escrever sobre isso foi esta nota do Radios Libres e esta thread de Shoshana Zuboff, no próprio Twitter. Começamos pelas questões do primeiro texto: o que implica para os meios comunitários a compra do Twitter por parte de Elon Musk? Mais além da preocupação pelo direito à comunicação e expressão, o fato é que essa mudança de propriedade não representa alterações na estrutura de propriedade nem na gestão da plataforma – que, afinal, continuará nas mãos de um homem branco milionário.

Ainda assim, a venda do Twitter serve para demonstrar, mais uma vez, que:

_ As discussões centradas na figura de Elon Musk e sua excentricidade não fazem mais do que desviar o verdadeiro tema da discussão: a concentração de poder;

_ Os “problemas das redes sociais”, como a garantia da liberdade de expressão, a proteção da privacidade, a polarização do discurso público, a violência machista online,etc, dificilmente se resolverá “com uma linha de código”, como se diz. Não há solucionismo tecnológico que dê conta de problemas complexos como estes.

_ A concentração das plataformas digitais é o verdadeiro perigo a democracia e o debate público;

_ O motor que move o mundo é o capital especulativo. E essa transação não está motivada pela defesa da liberdade de expressão, de direitos fundamentais, de debate público. 

Seja com Jack Dorsey ou com Elon Musk, criar e gerir nossos meios de comunicação segue sendo uma propriedade.

Niallkennedy, CC BY NC 2.0

Shoshana, por sua vez, autora do já clássico “A Era do Capitalismo de Vigilância” (aqui em pdf grátis), faz a “fada sensata” e afirma: as variantes de ‘o que Elon fará?’ é um sinal de como estamos perdidos. Somos obcecados por um homem e seus caprichos porque ainda não temos o estado democrático de direito necessário para governar nossos espaços de informação. Sem lei o poder é perigoso”. Ela aponta que o resultado disso é que as pessoas, a sociedade e a democracia estão à mercê dos indivíduos que exercem a propriedade e/ou controle executivo sobre a informação. 

Segue: “aprendemos que o Facebook é um grande negócio no qual informações corruptas (corrupt information) estão positivamente correlacionadas com a receita. O imperativo de maximização de lucros do FB nos ignora. A privacidade é destruída. A informação corrupta triunfa. Fraturas da sociedade. O lucro ganha. Só a lei pode mudar isso”.

“Musk quer se juntar aos deuses que governam o espaço da informação e controlam as respostas às questões essenciais de conhecimento, autoridade e poder em nosso tempo: Quem sabe? Quem decide quem sabe? Quem decide quem decide? Mas nunca os elegemos para governar. Precisamos de leis, não de homens”.

“A democracia só avançará com leis e instituições projetadas para garantir nossos direitos de conhecimento e a integridade da informação no século digital. Na ausência da lei, somos forçados a nos preocupar: ‘O que Elon fará?’ Os imperadores têm todas as roupas, enquanto corremos nus.”

“Assim como Zuckerberg se apoia na “liberdade de expressão” para justificar fluxos de informações corruptos que promovem a extração de dados, Musk ocupa o centro do palco com a mesma retórica. É uma distorção vergonhosa da Primeira Emenda e da Bill of Right (dos Estados Unidos).”

No Brasil de 2022, onde as ditas instituições já não funcionam faz tempo, poderíamos dizer que só a lei NÃO pode mudar isso. Que não bastam leis para fazer esse tipo de mudança. Mas isso é papo longo que fica para outro texto.

[Leonardo Foletto]

The Cleaners – Enxugando gelo na Caixa de Pandora

Reprodução filme

Escrevi esse texto abaixo a partir do documentário “The Cleaners“, dirigido por Hans Block e Moritz Riesewieck (2018) para uma mostra de filmes alemães do Instituto Goethe de Porto Alegre, em 2021. Cada vez mais atual, o documentário aborda questões de vigilância, liberdade de expressão, monopólios de comunicação e uso de dados a partir do trabalho das pessoas responsáveis por filtrarem e apagarem conteúdos de sites de busca e redes sociais. O filme não está mais disponível na mesma mostra, mas pode ser encontrado via torrent e em outros lugares. O trailer está no YouTube. Há também um TED sobre e a partir dele, com os mesmos diretores. Recomendo tudo.

[Leonardo Foletto]

​Enxugando gelo na Caixa da Pandora

Em On Technical Mediation, um texto de 1994 hoje clássico dos estudos de ciência e tecnologia, o filósofo Bruno Latour apresenta uma ideia de mediação tecnológica que ilustra como se dá a relação entre ser humano e tecnologia. Ele faz isso ao analisar dois slogans relacionados a associações favoráveis e contrárias à venda de armas: Guns kill people e People kill people, not guns. O primeiro seria, a grosso modo, materialista, pois considera que as armas de fogo (objetos) matam pessoas, enquanto o segundo seria humanista, ao dizer que pessoas – e não armas – matam pessoas, considerando a arma como neutra, apenas um meio para um fim. Latour, então, vai dizer que nem arma nem cidadão são responsáveis pelo ato de matar: a responsabilidade é dividida entre os vários atores envolvidos na ação.

“Você é diferente com uma arma na mão; a arma é diferente com você segurando-a. Você é um outro sujeito porque segurou a arma; a arma é outro objeto porque ela entrou em uma relação com você ”. (LATOUR, 1994, p.33)

Desde a ascensão das redes sociais como principal meio onde as pessoas agem e interagem na internet, a perspectiva de mediação como algo em movimento entre o ser humano e um objeto técnico tem ganhado força para explicar um outro fenômeno caro aos estudos de ciência e tecnologia, a agência de uma dada tecnologia na ação humana. O quanto uma rede social como o Facebook, uma assistente pessoal como a Alexa ou as câmeras do VAR fazem os seres humanos fazerem coisas? Seria uma rede social responsável pela perseguição a uma minoria étnica num país como Mianmar, ou são as pessoas do país (especialmente o clero budista) que perseguem os muçulmanos orohingyas há décadas e que agora, alimentados por mentiras espalhadas na rede social, tiveram as condições ideais para aumentar essa perseguição a ponto de desencadear assassinatos? Qual o limite de responsabilidade de uma tecnologia e do ser humano? Podemos “jogar a culpa” pela morte de alguém – ou pela queda de um regime democrático, ou pela eleição de um político fascista – em uma rede social?

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“The Cleaners”, documentário dirigido pelos alemães Moritz Riesewieck e Hans Block, é um exemplo contundente de como um sistema técnico pode fazer outros fazerem coisas – terríveis, neste caso. O filme, lançado em festivais em 2018, mostra como empresas de tecnologia dos Estados Unidos (especialmente Facebook) contratam empresas filipinas para excluir da rede casos de exploração infantil e apologia ao terrorismo. O país asiático é um polo dos chamados moderadores de conteúdo, um exército de quase 150 mil pessoas espalhadas pelo mundo contratados pela rede social criada por Mark Zuckerberg para “faxinar”, 24 horas por dia, 7 dias por semana, as páginas da rede social e excluir conteúdo que não estaria de acordo com as diretrizes da comunidade da empresa.

É um trabalho torturante, marcado por horas diárias assistindo milhares de cenas violentas – suicídios, estupros, cabeças decepadas, explosões, entre muitas outras formas de violência explícita, discurso de ódio, pedofilia, propaganda terrorista e bullying diversos. Como um Tinder da violência extrema, um moderador assiste uma imagem (foto ou vídeo, principalmente) e, em 9 segundos, precisa marcar “Delete” ou “Ignore” num software; são cerca de 25 mil imagens por dia. Sistemas de inteligência artificial ajudam, mas não detectam tudo, e aí que entra o trabalho dos moderadores, que passam por treinamentos precários por funcionários mais experientes da empresa – como se pudesse haver algum tipo de treinamento psicológico para um ser humano dar conta de digerir a visão diária de imagens torturantes como as que são categorizadas pelos cleaners.

O documentário também mostra imagens da vida cotidiana dos moderadores de conteúdo da Filipinas, os caminhos tortuosos que fazem nos lotados transportes coletivos do país asiático para irem de suas casas a até sede da empresa, uma parte de seu trabalho (dos que se dispuseram a mostrar), algo de suas vidas como pessoas “normais”. Há uma moderadora que, religiosa fervorosa, vê seu trabalho como uma missão para livrar os pecados do mundo – enquanto sonha com os diferentes formatos e cores de pênis que se acostumou a ver no trabalho. Outro gosta de ir a shows sexy de um grupo de dançarinas apoiadoras do atual presidente, o ditador Rodrigo Duterte – que, em uma cena mostrada no filme, fala do assassinato em massa dos judeus pelo Nazismo de Hitler como inspiração ao que ele quer fazer com os usuários de drogas em seu país. O documentário contrapõe cenas da realidade dos moderadores em Filipinas com depoimentos de pessoas que trabalham ou trabalharam nas Big Techs dos Estados Unidos, como Google e Facebook. À realidade crua da vida de pessoas de um sul global empobrecido, o filme contrapõe as imagens anódinas dos Senadores estadunidenses em sabatina com executivos destas empresas no Congresso – que tergiversam e não respondem diretamente sobre a responsabilidade de suas empresas na propagação de discursos de ódio em seus complexos sistemas algorítmicos.

Reprodução filme

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Algumas perguntas são inevitáveis: o Facebook faz as pessoas fazerem coisas, como cometer assassinatos? O sistema de recomendação dos canais relacionados do YouTube, ao estimular o “mergulho” em determinados assuntos segregados, está formando um exército de neo-fascistas? É o espalhador de informação falsa ou o responsável pelo sistema técnico (o “meio”) que deveria ser punido quando seus atos têm consequências diretas na realidade? Voltando a Latour: você é diferente com um computador e uma conta de Facebook à disposição para publicar qualquer informação? O Facebook é diferente com você a tornando uma máquina de desinformação e discurso de ódio?

Nos estudos que consideram a mediação como um ato dividido entre os vários atores envolvidos na ação, sejam eles humanos ou não, há um lema corrente: siga os rastros. A atenção para o movimento, para o que está circulando, determina que não é possível saber, a priori, o que está importando em uma dada ação. Todo movimento deve então ser analisado com a mais farta documentação possível. Assim é que se cria a chance de determinar quem age modificando o comportamento dos outros atores, fazendo eles fazerem coisas, e quem age sem modificar – ou modificando de forma a não deixar rastros visíveis.

Há cada vez mais pesquisas que mostram que sistemas técnicos como o Facebook e o Google não apenas modificam a ação dos atores humanos no processo – como modificam muito. O espalhamento de informações falsas, por exemplo, hoje chamadas fake news, existe desde que o primeiro homem mentiu para sua tribo sobre o sucesso (ou não) da caça de um animal. Mas ganha um escala até então inédita na história com sistemas de circulação de informação rápidos, ponto a ponto, privados e pessoais, sem possibilidades de filtragem de conteúdos, que atingem milhares de pessoas em questão de minutos, como é o caso que ocorre num sistema de troca de mensagens instantâneas como o WhatsApp. O discurso de ódio e a violência explícita de um ser humano contra outro por motivos religiosos existe desde que se inventou a religião, há milhares de anos. Mas a possibilidade dessa mesma violência ganhar circulação imediata para milhares de pessoas, e ao se espalhar motivar ainda mais violências, sem possibilidades de filtragem à tempo de serem evitadas, tem ocorrido de forma inédita na história da humanidade a partir da ascensão das redes sociais como o principal canal de circulação de informações do mundo. O que diferencia um momento do outro, a escala de antes para a de hoje? Entre outros fatores, principalmente a ação das tecnologias.

Poderia citar também diversos outros casos em que a ação das tecnologias sobre comportamentos humanos trouxe resultados amplamente benéficos, como os remédios, as vacinas, os tratamentos contra doenças até então incuráveis – para ficar apenas no campo mais evidente da saúde. Mas é certo que as tecnologias digitais das últimas décadas, criadas por pessoas em suas bolhas ricas de países de Primeiro Mundo, trouxeram mudanças comportamentais profundas. Um empreendedor branco do Vale do Silício como Zuckerberg jamais imaginaria que o uso massivo de uma rede social que ele criou para “classificar mulheres” de sua Universidade poderia provocar um linchamento em Mianmar, caso tratado em “The Cleaners”. O advento de algumas tecnologias não criam sozinhas problemas, mas tal qual uma Pandora contemporânea, estão abrindo a caixa de males e amplificando-os até limites que ainda não sabemos.

Hoje, somos todos outros porque usamos redes sociais como o Facebook e o YouTube; e estas tecnologias são cada vez mais outras quando entram em contato com mais e mais humanos sedentos por comunicar. Que outros seremos quando informações falsas e discursos de ódio podem circular em sistemas técnicos da mesma forma, de igual para igual, que verdades checadas e apuradas por diversas fontes? Que outras tecnologias estão se desenvolvendo quando estas mostram ter cada vez mais ação comprovada sobre atos de violência e extermínio de seres humanos e de todo o ecossistema ambiental? Como tomar medidas para regular a agência das tecnologias sobre a vida humana e o planeta que não pareçam que estamos a enxugar o gelo – ou seja, ações que na superfície podem parecer funcionar, mas que a médio prazo se tornam apenas paliativos porque não mexem de forma substancial no sistema econômico que lucra com a afirmação e a propagação da violência da mesma maneira que com verdades e informações verdadeiras e que respeitam e cuidam da vida humana?

Estamos diante do maior dilema da nossa geração.

A Cultura é Livre no Guilhotina, do Le Monde Diplomatique

Em 2021, nestes mesmos dias de março, estava lançando o “A Cultura é livre”, fruto de uns bons anos de pesquisa sobre o tema no BaixaCultura , como já comentei. Foi junto a Flipei – Festa Literária Pirata das Editoras Independentes , organizada pela Autonomia Literária , co-editora do livro ao lado da Fundação Rosa Luxemburgo, com o prefácio do imortal (agora “oficial”, pela ABL) Gilberto Gil. Online, como (quase) tudo que ocorria em março do ano passado – agora que se vislumbra uma saída pós pandemia quero muito poder encontrar as pessoas; quem sabe um lançamento presencial “atrasado”?

Ontem foi ao ar a última edição do Guilhotina, podcast do Le Monde Diplomatique Brasil , comandado por Bianca Pyl e Luis Brasilino. Das entrevistas, lives e podcasts que participei nesse ano, este talvez seja o que mais tenha falado, sobre e a partir do “A Cultura é Livre”. Não sei se isso é bom, mas os livros são vivos, o distanciamento nos dá perspectivas diferentes sobre uma obra, ativa sentimentos diversos – porque não falei mais daquele tema ou citei aquele outro trabalho, etc; não se termina um livro, mas se livra dele – literalmente. As falas acompanham esse zigue-zague de perspectivas.

Sigo gostando e achando o livro uma boa introdução ao vasto e complexo tema da cultura livre, que mesmo não sendo um tema de moda hoje na internet (como já foi no início dos 2000), será importante enquanto houver ser humano (ou robô) criando. Sigo também mergulhando mais no último capítulo, onde falo das perspectivas do extremo-oriente e ameríndias sobre propriedade intelectual, enquanto espero a edição em espanhol ser finalizada.

O podcast dá pra escutar no site do Le Monde, no Spotify e em outras plataformas. O livro, além de poder ser baixado aqui no site, pode ser comprado no site da Autonomia e de algumas livrarias como:
_ Baleia (Porto Alegre)
_ Livraria Travessa (RJ, SP, Brasília, Portugal)
_ Livraria Martins Fontes Paulista (SP)
_ Livraria Taverna (Porto Alegre)
_ Simples (São Paulo)
_ MegaFauna (São Paulo)
_ Amazon  
_ FNAC
_ Estante Virtual
_ Livraria Cultura (e-book)
_ Magazine Luiza

 

Mais do mesmo, mas diferente

De Nova York, o diretor canadense Kirby Ferguson tem revelado desde 2010 os segredos criativos da cultura pop através de uma série de vídeos chamada “Everything is a Remix” (Tudo é Remix). Muito popular na internet (ou em uma certa parte da internet) dos anos 2010, os vídeos ganharam em 2015 uma versão remasterizada e, ano passado, uma nova versão em quatro capítulos – não por acaso, remixada das anteriores.

O primeiro episódio dessa “nova temporada” (pode ser visto acima) foi lançado em setembro de 2021 e foca justamente no conceito de remix, com destaque para a música.

O segundo, apresentado no Youtube em dezembro de 2021, trata do principal símbolo da vitória do remix na produção e circulação cultural massiva hoje: os memes, estas bombas semióticas recombinantes que captam nossa atenção, nos fazem rir, sofrer, chorar. Em uma edição ágil, cheia de referências pop e uma narração informativa em off, Ferguson argumenta que tudo o que você faz e compartilha com o mundo na internet hoje é meme: roupas, tweets, sons, vídeos, tiktokers, gamers. No início do vídeo, a voz em off comenta: “mesmo que não se entenda exatamente o que se quer dizer com um meme, ele são profundos”, para logo contar a conhecida origem da popularização do termo no livro “The Selfish Gene” (“O Gene Egoísta”, 1976), do biólogo Richard Dawkins.

 

[Meme é uma palavra que designa “coisas imitadas”, originária do grego “mīmēma (μίμημα), por sua vez vinda de “mimeisthai” (μιμεῖσθαι, ‘imitar’), que foi usada por Dawkins para conceituar meme como a unidade básica da memória ou do conhecimento, aquilo que o ser humano transfere conscientemente para os seus descendentes – o equivalente cultural do gene da biologia, um segmento de uma molécula de DNA responsável pelas características herdadas de um ser humano.]


Depois, o vídeo fala de como hoje o cinema hollywoodiano está tomado de remakes, boa parte delas baseada na consagrada “jornada do Herói”, por sua vez inspirada pelas narrativas mitológicas antigas e recontadas para o século XX principalmente a partir de “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell, influência na narrativa de 10 entre os 10 filmes mais vistos hoje. Afinal, por que isso ocorre? No fim das contas, porque buscamos o familiar, personagens e histórias que de algum modo já conhecemos; usamos elementos “velhos” para entender os “novos” – a começar pelas próprias palavras, tradicionalmente formadas a partir de outras já existentes (entender a origem a história das palavras ajuda a entender o mundo, sério). Copiamos, depois criamos; a imitação precede a criação, como há milênios os povos do extremo oriente (especialmente os chineses) sabem com mais clareza do que os ocidentais, como contei em detalhes no último capítulo de “A Cultura é Livre” ao falar da influência do confucionismo na cultura chinesa. Um trecho do livro:

“Nessa filosofia, desde muito pequenas as crianças eram ensinadas a pensar a partir da memorização e da cópia dos clássicos, procedimento que, segundo seus mestres, incutiria nos jovens valores familiares, piedade filial e respeito ancestral (…). Quando essas crianças cresciam, elas se tornavam mais compiladores que compositores. Memorizavam tantas histórias clássicas que passavam a construir suas narrativas a partir de um extenso processo de copiar e colar (cut-and-paste) frases, trechos e passagens desses textos antigos. Se aos olhos de um ocidental, especialmente do século XX e XXI, isso seria visto como plágio, para os chineses da época era visto como um traço distintivo de intelectualidade e conhecimento cultural. “Quando autores chineses tradicionais tomam emprestado trechos de um texto preexistente e, principalmente, de um clássico, espera-se que o leitor reconheça a fonte do material emprestado instantaneamente. Se um leitor é infeliz o suficiente para deixar de reconhecer esse material citado, é culpa dele, não do autor”. (..). O pensamento de Confúcio manifestaria uma visão de que “a capacidade de fazer uso transformador de obras preexistentes pode demonstrar a compreensão e a devoção ao núcleo da cultura chinesa, bem como a capacidade de distinguir o presente do passado através de pensamentos originais” (p.209-210, “A Cultura é Livre”)

 

Vale a pena assistir a série, mesmo pra quem já viu muitas vezes a primeira versão de “Tudo é remix” como eu (escrevemos sobre ela aqui no BaixaCultura, lá em 2011, e usei inúmeras vezes em sala de aula para falar de remix e criação). Assim como o assunto que trata, essa segunda versão do filme também não tem nada de “original”, mas a nova combinação de referências faz com que ele seja fresh e educativo para todos aqueles que querem entender os mecanismos da criação – ou simplesmente criar. Mostra novamente, agora para a Geração Tik Tok, que desde sempre novas ideias só surgem ao se copiar de antigas. O terceiro episódio dessa nova série está prometido para março de 2022.

[Leonado Foletto]

Estamos (re) lendo (2): Ideologia Californiana e Cypherpunks

Enquanto o terceiro volume da coleção “Tecnopolítica”, coordenada pelo BaixaCultura e a Editora Monstro dos Mares, é editado, vamos lembrar a quem ainda não sabe dos outros dois.

A Ideologia Californiana”, de Richard Barbook e Andy Cameron, é o primeiro lançamento da “Tecnopolítica”. Escrito em 1995, é um ensaio que virou clássico nos estudos sobre a internet e suas implicações políticas, sociais e econômicas; nele, “Barbrook e Cameron definiam a tal ideologia como uma improvável mescla das atitudes boêmias e antiautoritárias da contracultura da costa oeste dos EUA com o utopismo tecnológico e o liberalismo econômico. Dessa mistura hippie com yuppie nasceria o espírito das empresas .com do Vale do Silício, que passaram a alimentar a ideia de que todos podem ser “hip and rich” – para isso basta acreditar em seu trabalho e ter fé que as novas tecnologias de informação vão emancipar o ser humano ampliando a liberdade de cada um e reduzir o poder do estado burocrático.”

Dois trechos:

“Em que seja por razões competitivas, todas as grandes economias industriais serão forçadas, mais cedo ou mais tarde, a conectar suas populações para obter os ganhos de produtividade do trabalho digital. O que é desconhecido é o impacto social e cultural de permitir às pessoas trocar quantidades quase ilimitadas de informação em uma escala global. Acima de tudo, o advento da hipermídia vai realizar as utopias da Nova Esquerda ou da Nova Direita? Como uma fé híbrida, a Ideologia Californiana alegremente responde a esta charada acreditando nas duas visões ao mesmo tempo – e não criticando nenhuma delas”

“Apesar do papel central desempenhado pela intervenção pública no desenvolvimento da hipermídia, os ideólogos californianos predicam um sermão anti-estatista de libertarianismo hi-tech: uma gororoba bizarra de anarquismo hippie e liberalismo econômico engrossada com montes de determinismo tecnológico. Em vez de compreender o capitalismo realmente existente, os gurus da Nova Esquerda e da Nova Direita preferem muito mais defender versões rivais de uma “democracia jeffersoniana” digital. Thomas Jefferson foi o homem que escreveu o inspirador chamado para a democracia e a liberdade na Declaração de Independência americana e – ao mesmo tempo – tinha como escravos cerca de 200 seres humanos”.

Os “Manifestos Cypherpunks” é a segunda publicação da coleção. É uma coletânea de textos escritos na época que a rede mundial dos computadores ainda engatinhava, entre o final dos anos 1980 até meados dos 1990, por pessoas que conheciam a fundo alguns aspectos dos aparatos técnicos que faziam funcionar a rede e queriam nos fazer ficar atentos a eles. Originários de uma vertente da cultura hacker mais afeita a ação política, em contraponto a outra mais ligada ao liberalismo empreendedor das startups do Vale do Silício, os cypherpunks tem suas ideias ainda muito presente hoje, principalmente em criptógrafos, programadores, ativistas e qualquer pessoa que acredita que a principal maneira de manter a privacidade na era da informação é com uma criptografia forte.

Um trecho do “Manifesto CriptoAnarquista”, de Tim C. May, 1992:

“Assim como a tecnologia da impressão alterou e reduziu o poder das guildas medievais e a estrutura do poder social, os protocolos criptográficos também vão alterar fundamentalmente a natureza das corporações e as interferências do governo nas transações econômicas. Combinado com mercados de informação emergentes, a criptoanarquia criará um mercado líquido, para todo e qualquer material que possa ser colocado em palavras e imagens. E assim, como uma invenção aparentemente insignificante como o arame farpado tornou possível o cercamento de vastas fazendas e territórios, alterando para sempre os conceitos de terra e direitos de propriedade na fronteira ocidental, também, a descoberta aparentemente menor de um ramo arcano da matemática se tornará o alicate que cortará o arame farpado em torno da propriedade intelectual”.

E outro do “Manifesto Cypherpunk”, de Eric Hughes, 1993, ambos presentes na edição:

“Devemos defender nossa própria privacidade se esperamos ter qualquer uma. Temos de nos unir e criar sistemas que permitam transações anônimas. As pessoas têm defendido sua própria privacidade por séculos com sussurros, escuridão, envelopes, portas fechadas, apertos de mão secretos e mensageiros. As tecnologias do passado não permitiam a privacidade forte, mas as tecnologias eletrônicas sim.”

Os dois tem bastante relação entre si e ajudam a entender muitas questões relacionadas a a internet que estamos vivendo hoje, como o poderio das big techs em nossas vidas, a importância da privacidade na rede e as formas de controle econômico do capitalismo hoje. Ambos estão disponíveis para download no BaixaCultura e para compra no site da Monstro dos Mares.

Baixar/compar “A Ideologia Californiana”
Baixar Comprar “Manifestos Cypherpunks”

Estamos lendo (1): Asfixia, Franco Berardi

Já faz mais de ano que alternamos a leitura de “Asfixia: Capitalismo Financeiro e a Insurreição da Linguagem” com outros livros de Bifo (“Depois do Futuro”, que comentamos nessa BaixaCharla #3, ainda em 2019; e “Extremo: Crônicas da psicodeflação”, todos publicados pela Ubu no Brasil). “Asfixia” é o mais denso e cheio de “food for thinking” – também por isso ainda não terminamos. Trata-se de dois textos: em Insurreição, escrito em 2011, o italiano de Bolonha realiza uma espécie de manifesto para tempos precários, um chamado para a ação diante da crise catastrófica que o capitalismo financeiro impõe a todos. Para Berardi, a sociedade ou pode seguir as prescrições e “resgates” exigidos pelos setores econômico e financeiro às custas da felicidade pública, da cultura e do bem comum; ou pode arriscar formular uma alternativa.

Não está claro qual seria a alternativa, mas a pista de Bifo passa pela reconstituição do corpo erótico e social pelo intelecto geral (p.112).

O principal instrumento para essa reconstrução seria a poesia, esse “excesso de linguagem” que ativa a nossa sensibilidade – a capacidade do ser humano de interpretar signos que não são, nem podem ser, verbalizados”. A poesia (usada como metáfora) poderia corroer a lógica do automatismo tecnofinanceiro dos algoritmos, que tem eliminado a ambiguidade das relações humanas.

“A sensibilidade, a capacidade de entender o que não pode ser verbalizado, tem sido uma das vítimas da precarização e da fractalização do tempo. Para que possamos reativá-la, a arte, a terapia e a ação política terão que unir forças” (p.113).

“A premissa do dogmatismo neoliberal é a redução da vida social às conclusões matemáticas de algoritmos financeiros. O que é bom para as finanças também deve ser bom para a sociedade, e se a sociedade não aceitar essa identificação e essa submissão, então é porque ela é incompetente e precisa ser reformatada por alguma autoridade técnica”. p. 31

Na segunda parte, Respiração – Caos e Poesia, escrito em 2018, ele retoma a metáfora da poesia como rota de fuga contra os fluxos que paralisam o corpo social. “Como podemos lidar com a falta de ar que a abstração produziu na história da humanidade? Como podemos nos desvencilhar do cadáver do capitalismo financeirizado?”. Para ele, a resposta, novamente, pode estar na potência infinita de uma linguagem não coagida pelos limites do significado ou, em outras palavras, na poesia como invenção coletiva.

Aqui dá pra baixar o livro online, mas (não) espalha. E se puder compre que o livro é bonito e vale bastante a leitura.

De quem, afinal, é a cultura?

Imagem de Ж, Filme-designer, educador e programador.

 

Victor Barcellos, doutorando em Comunicação e Cultura na ECO/UFRJ e pesquisador no Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS), escreveu uma resenha sobre o “A Cultura é Livre” na revista da Eco-Pós. A resenha tem o título de “De quem é a Cultura? Obras Culturais entre o privado, o público e o comum” e faz um ótimo panorama do livro – inclusive permitindo novas interpretações do tema e diálogos com outros pensadores/as, como McKenzie Wark e Maurízio Lazaratto, o que é sempre um sinal positivo quando se fala de resenha e construção de conhecimento crítico.

Abaixo, reproduzo alguns trechos, com algumas edições, comentários e supressões, para seguir fomentando o debate sempre necessário (achamos) sobre propriedade e cultura. Vale a pena ler todo a edição, um Dossiê sobre Apropriações e Ressignificações na arte e no pensamento, editado por Ciro Lubiner e Lucas Murari.

“A história da liberdade da cultura tem a potência de nos lembrar que a cultura, uma vez produzida e usufruída coletivamente como um bem comum, transmitida livremente de geração em geração, circula hoje majoritariamente em forma de mercadoria. Justamente no momento em que as possibilidades técnicas permitiram à cultura que circulasse rapidamente, sem barreiras e com baixo custo –é exatamente o momento em que ela se encontra mais limitada. Percebeu-se o potencial de lucratividade da criação de escassez artificial precisamente neste tempo de abundância informacional que é como o presente.

Em uma paráfrase a Jean-Jacques Rousseau, Mckenzie Wark afirma sobre a informação o mesmo que se poderia afirmar a respeito da cultura: “A informação quer ser livre mas por toda parte se vê acorrentada“. [Em “A Hacker Manifesto“, ótimo livro de McKenzie Wark que reflete sobre tecnologia, propriedade intelectual e filosofia em um texto que remete, principalmente na forma, ao clássico “A Sociedade do Espetáculo“, de Guy Debord – sem tradução para o português ainda]

O capitalismo, sabidamente estruturado sobre contradições, encontrou formas de modular essa relação entre liberdade e privação de forma a rentabilizar o processo. Para compreendê-lo, é útil a distinção feita por Maurizio Lazzarato entre “criação” e “produção”. De acordo com o autor, o primeiro está mais ligado à criação de novos mundos, enquanto o segundo diz respeito à replicação de cópias desses mundos efetuados para sua monetização na forma de mercadoria. Assim, afirma: o “nascimento do capitalismo é sobretudo uma luta contra a infinidade de mundos possíveis que o precederam e o ultrapassaram” (Lazzarato em  “As revoluções no Capitalismo“, p. 188, PDF). E qual a melhor forma de falar dessa liberdade da cultura, senão demonstrando que historicamente, apesar das diversas tentativas de seu enclausuramento, sempre houve movimentos contrários que advogaram sua liberdade?

A afirmação categórica e precisa do título deixa evidente sua posição: a cultura é livre, e essa característica quase ontológica, ainda que negada de tempos em tempos, não se deixa sucumbir por completo.

A cultura pode ser compreendida como o último limite adentrado pelo crescente processo de commoditização da vida. A gradativa transformação dos diversos aspectos da experiência em propriedade privada se iniciou na terra, passou pelo capital e hoje encontra na cultura sua commodity central. Isso porque, em um processo de crescente abstração da forma-mercadoria, nota-se o incrível potencial de extração de valor em uma cooptação parasitaria da produção de cultura. Ao invés de precisar investir na produção, agora se torna possível capturar a cultura, que é produzida naturalmente pelo intelecto geral (general intellect) e lucrar com sua circulação. “Seu poder reside no monopólio da propriedade intelectual –patentes, direitos autorais e marcas registradas –e os meios de reproduzir seu valor –os vetores de comunicação. A privatização da informação se tornou o aspecto dominante, e não subsidiário, da vida ‘commoditizada’ (Wark, 2004, p. 25, tradução nossa)”.

Capa do Livro de McKenzie Wark, de 2004

Por meio de uma série de exemplos, Foletto nos mostra como boa parte daqueles que até hoje são reconhecidos como gênios inventores das maiores tecnologias não foram os responsáveis propriamente pelas invenções, mas apenas tiveram o capital financeiro e político para obter sua patente para produção em escala. Logo, deve-se desmistificar a visão de gênios solitários trabalhando em suas oficinas quando, por iluminação sobrenatural, obtiveram êxito na criação de invenções. A história real é menos solitária e muito mais social, tem pouco de inspiração espiritual e muito mais de disputas materiais.

A China, em especial até a modernidade e por influência do confucionismo, valorizava-se a tradição que incentivava, na educação infantil, a memorização e a cópia, o que colocou em contradição os direitos de propriedade intelectual com os valores morais tradicionais. Por essa valorização maior da transmissão do que da inovação, chegava-se a atribuir a ausência da percepção de uma cópia não pela ausência de atribuição da autoria, mas por ignorância daquele que consome a obra.

Em outras culturas, como algumas ameríndias estudadas por antropólogos como Marcel Mauss e Eduardo Viveiros de Castro, também se pode encontrar cosmovisões que se colocam radicalmente em oposição às concepções de direitos autorais. Como proteger obras em contextos em que a criação é entendida como um processo que envolve inclusive agentes não-humanos? E em que a concepção de que as transações não se esgotam na troca física de moedas ou mercadorias, mas representam apenas uma etapa de uma relação duradoura entre os agentes? Essa diferença radical apresentada por Foletto nos ajuda a tomar consciência do quão arbitrárias e contingentes são as concepções que sustentam os direitos autorais tradicionais.

 

A Cultura é Livre no CPF Sesc

Em março de 2021, logo depois que lancei o “A Cultura é Livre“, comecei a pensar que ele daria uma boa base pra um curso; até a ordem cronológica dos capítulos pode ajudar a ver a cultura livre como uma história da resistência antipropriedade através dos tempos.

Com ajuda de alguns amigues que me estimularam a estruturar essa ideia, nasceu então o curso, que em sua primeira edição (em formato mini) foi realizado dias 6, 7 e 8/12 no CPF SESC, o centro de pesquisa e formação da rede Sesc em São Paulo. A proposta foi expandir o livro, trazer outros causos, imagens, ideias que não couberam na publicação impressa, com foco no debate contemporâneo sobre a cultura livre na internet e com diferentes perspectivas sobre o tema que não a hegemônica ocidental – depois do livro tenho me debruçado mais nas visões orientais e ameríndias sobre a propriedade Intelectual, seguindo o meu próprio caminho pincelado no último capítulo.

O curso foi online e enxuto, para um público bem diverso. Aqui as apresentações utilizadas como guia para as aulas.

[Leonardo Foletto]

 

Independência Digital (para além das big techs)

Em um cenário de cada vez maior dependência dos serviços das chamadas Big Techs, quais são as tecnologias, comunidades e ideias que funcionam na internet para além dessas grandes empresas? Como elas estão construindo uma relação mais comunitária, diversa, de acesso livre, proteção à privacidade e fomento à autonomia com as tecnologias?

Há quem, em vez de propor fugas das tecnologias corporativas, de maneira individual ou setorial, busque estratégias que sejam coletivas. E é aqui onde “comunidade” e “colaborativo” recuperam uma mirada política onde o saber é compartilhado, o conhecimento se constrói em uma rede de pares, as experiências se valorizam em sua diversidade, e a autonomia e a autogestão impulsionam práticas coletivas. É assim que emergem propostas de organizações e comunidades que compartilham tecnologias, conhecimentos e conteúdos livres.

A proposta deste projeto, feito em parceria com o Goethe-Institute de Porto Alegre, é trazer estes projetos, ferramentas, softwares, sites, ideias e iniciativas que estão re-imaginando novos horizontes tecnológicos para além das big techs. Ao contrário do que o senso comum imagina, muitas iniciativas hoje, e já há algumas décadas, estão buscando construir tecnologias e a internet de formas mais colaborativas, justas e seguras para suas comunidades. Vamos trazer estas iniciativas (em torno de 40) divididas em cinco eixos:

1.Privacidade
O cerceamento da internet por um pequeno apanhado de empresas privadas – Google, Facebook, Amazon e Apple – tem tornado fácil a vigilância de nossas comunicações digitais na rede. Em troca de acesso “grátis” a serviços e sites da internet, oferecemos dados valiosos sobre nossa vida: o que comemos, onde moramos, que lugares frequentamos, quem são nossas amigas, quais nossas artistas favoritas, por onde nos deslocamos pelo mundo, em quem votamos, que causas somos a favor ou contra, entre outras milhares de informações que fornecemos nas redes sociais, nos aplicativos de nossos smartphones e em nossas navegações diárias na internet. Aqui vamos apresentar iniciativas como aplicativos de mensagens, navegadores, redes sociais, buscadores, mas também oficinas, coletivos e ideias que consideram a máxima popularizada pelo Wikileaks e pelos Cypherpunks, “Privacidade para os Fracos, Transparência para os fortes” ao buscar defender a nossa privacidade das grandes empresas que controlam a internet e também de governos.

2. Acesso Livre
A internet potencializou o acesso à informação e tem ajudado a tornar o conhecimento livre. Mas no meio de um mar de desinformação, quais são as iniciativas que estão liberando o conhecimento científico, jornalístico e ou reconhecido por pares? Aqui a ideia é trazer repositórios, licenças (como as Creative Commons), bibliotecas livres que estão organizando e tornando a cultura e o conhecimento livre, assim como falar de projetos, pessoas (como Aaron Swartz), livros e ideias que integram o movimento por um conhecimento e uma cultura livre.

3. Diversidade
Já não é mais novidade dizer que as tecnologias não são neutras, que carregam políticas trazidas por quem as constrói – geralmente homens brancos do norte global. Como podemos trazer diversidade na produção e no acesso de tecnologias digitais presentes em nosso dia a dia? Vamos detalhar iniciativas, projetos e ideias que estão, hoje, trazendo mulheres, pessoas negras e LGBTQI+, historicamente sub-representadas na discussão tecnológica, para o centro do debate, seja através de processos de formação, observação ou de construção de conhecimento e objetos técnicos.

4. Autonomia/soberania tecnológica
As empresas do chamado primeiro mundo, que dominam o mercado global de produção de tecnologias, tem cada vez mais provocado um chamado “colonialismo de dados”, em que dados produzidos nos países periféricos, principalmente do sul global, migram para o norte global. Essa medida tem afetado a soberania de muitos países, já que no mundo do big data os dados são cada vez mais fonte de riqueza. Como podemos construir alternativas autônomas de tecnologias no sul global? Como proteger nossos dados e a construção de conhecimento em nossas universidades, por exemplo, a partir de tecnologias que sejam transparentes e que respeitem os direitos humanos e a soberania dos nossos países? Organizamos algumas ferramentas, iniciativas, projetos e grupos que estão a defender a nossa autonomia, como aquelas ligadas aos softwares e aos hardwares livres, que respeitem nossa privacidade, fomentem a construção de conhecimento local e produzam riqueza para os territórios em que são produzidos.

5. Comunidade
Quais são as iniciativas de base comunitária que estão construindo, hoje, alternativas tecnológicas na e com a internet? Aqui vamos apresentar iniciativas no Brasil e em outros países (como Espanha, Argentina e Alemanha) como as redes livres, que funcionam como grandes redes sem fio abertas, montadas a partir de um grupo de roteadores conectados entre si que propagam o tráfego entre usuários e também emitem serviços em banda larga a partir de pontos conectados à internet. Iniciativas que estão buscando desmonopolizar o tráfego de informação nas redes em um dos maiores gargalos da discussão sobre o acesso à internet, a questão da infraestrutura.

Na sexta feira, 10/12, 18h30, vamos apresentar o site do projeto, um pequeno compêndio com projetos, ferramentas, softwares, sites, ideias e iniciativas para quem quer usar todo o potencial da internet sem passar por serviços monopolistas que lucram com nossos cliques e a nossa atenção. Será um papo entre Leonardo Feltrin Foletto e Victor Wolffenbüttel (BaixaCultura), mediado pela jornalista e professora da Unisinos Taís Seibt, ao vivo no canal do YB do BaixaCultura.

Alguns argumentos em defesa da cultura livre

Para diretor (sic*) do braço brasileiro da ONG Creative Commons, compartilhamento de obras intelectuais constrói uma sociedade mais igualitária. Título está disponível para download gratuito**

Criar um ambiente em que a cultura é compartilhada livremente é essencial para a construção de uma sociedade mais justa, na visão do jornalista Leonardo Foletto, autor do recém-lançado livro “A cultura é livre: Uma história da resistência antipropriedade”, da editora Autonomia Literária, em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo.

Foletto é um dos diretores do braço brasileiro do Creative Commons, ONG internacional que estabelece regras para o livre compartilhamento de textos, vídeos e imagens na internet. Com uma versão impressa vendida pela editora, “A cultura é livre” também está disponível gratuitamente para download em formato digital neste link.

Neste texto, o Nexo fala sobre os principais argumentos do livro, que também tem prefácio do compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, e como eles se encaixam na história da internet.


A ideologia californiana

Quando a internet surgiu, na década de 1990, havia entre os usuários um senso rebelde, beirando o revolucionário, com a ideia de que a rede poderia ser a ferramenta mais transformadora da história da humanidade – uma forma dos países e seus cidadãos romperem com modelos tradicionais de vida e construírem novas formas de existência.

Esse espírito, muito inspirado pelos hippies dos anos 1960 e pelos punks dos anos 1970, acabou se perdendo com a chegada da chamada “ideologia californiana”.

O termo foi criado em um ensaio de 1995 pelos pesquisadores de mídia Richard Barbrook e Andy Cameron, da Universidade de Westminster, no Reino Unido, e designa a absorção dos rebeldes e hippies dos primórdios da indústria tecnológica pelos lemas do capitalismo tradicional em meio à costa da Califórnia. O texto completo pode ser lido em português gratuitamente.

“A ideologia californiana, simultaneamente, reflete as disciplinas da economia de mercado e as liberdades do artesanato hippie”, definiram os autores.

O mundo pensado pela ideologia californiana, de acordo com os pesquisadores, é um mundo de “surfe, comida saudável, espiritualidade ‘nova era’, música pop, drogas recreativas, mídia comunitária e a tradição da boemia cultural”, tudo catapultado por empresas privadas que, dentro de um livre mercado liberal, podem operar sem restrições e burocracias dos “antiquados” sistemas de controle estatal.

Duas figuras são centrais para o pensamento da ideologia californiana: Thomas Jefferson, um dos “pais fundadores dos EUA”, e a escritora russo-americana Ayn Rand. Jefferson, na Declaração de Independência americana de 1776, chamou os cidadãos (brancos, dado que os EUA mantinham o sistema escravocrata) à liberdade e à democracia, afirmando que esses dois fenômenos dependiam de uma liberdade de expressão irrestrita.

Rand, na ficção científica “A revolta de Atlas” (1957), afirma que o único sistema econômico que está alinhado com o objetivo moral dos seres humanos – a busca incessante pela felicidade, apresentada por ela como “egoísmo racional” – é o capitalismo liberal, com pouca participação pública, capitaneado pela iniciativa privada.

É a ideologia californiana que estava, na época do ensaio, por trás da Apple e da Microsoft, e que, posteriormente, guiaria Google, Facebook e todas as grandes empresas do Vale do Silício, localizado na Califórnia – a ideia de que o progresso tecnológico é inevitável, mesmo quando há consequências negativas, e que o mercado capitalista sempre vai conseguir administrar a vida cotidiana melhor do que qualquer Estado, mesmo que isso signifique condições precárias de trabalho, perda de direitos e acentuamento de desigualdades.

“Por todo o mundo, a ideologia californiana foi aceita como uma forma otimista e emancipadora de determinismo tecnológico”, afirma. “Porém, esta fantasia utópica da costa oeste [americana] depende de sua cegueira frente à – e dependência de – polarização social e racial da sociedade em que nasceu. Apesar de sua retórica radical, a ideologia californiana é totalmente pessimista a respeito de mudanças sociais estruturais.”

“Se apenas algumas pessoas podem ter acesso às novas tecnologias da informação, a democracia jeffersoniana pode se tornar uma versão de alta tecnologia da economia de latifúndios do Velho Sul. Refletindo esta profunda ambiguidade, o determinismo tecnológico da ideologia californiana não é simplesmente otimista e emancipador. É simultaneamente, também, uma visão profundamente pessimista e repressiva do futuro”, diz o texto.


A defesa da livre circulação

A defesa da cultura livre capitaneada por grupos na internet como o Creative Commons é uma forma de combater as raízes capitalistas da ideologia californiana que se emaranhou no meio digital. Em “A cultura é livre”, Leonardo Foletto argumenta que o livre compartilhamento não necessariamente antagoniza com a ideia de lucro e remuneração pelo trabalho intelectual.

O cerne do argumento está no fato de que não existe escassez nos arquivos digitais, como existiria em um livro físico, que precisa de materiais como papel e tinta e processos como impressão, armazenamento e distribuição. No digital, um mesmo arquivo pode ser copiado milhões ou bilhões de vezes sem precisar de um material finito para existir.

“Este livro investiga a cultura livre também entre dois lados conhecidos: o da remuneração aos criadores, que deveria garantir a continuidade na produção de suas obras, e o do acesso, (re)uso e circulação das obras, que prometeria à humanidade o direito de fruí-las e recriá-las. Nesses dois pólos, muitas vezes colocados como antagônicos, há nuances e questionamentos”, escreve.

Para ele, um modelo ideal que conciliaria a reprodução livre de criações intelectuais e a remuneração de seus autores envolve o estabelecimento de um contrato social entre autores e público.

“Nos casos de obras estéticas e que informam o pensamento de alguém, ter a liberdade de fazer cópias já seria suficiente para que qualquer pessoa pudesse compartilhar como e onde bem quisesse, vetando o uso comercial e certas possibilidades de modificação da obra que pudessem alterar ou deturpar a visão proposta pelo seu autor.”

Nele, o pagamento seria espontâneo pelo público, como uma doação, ou obrigatório, em circunstâncias como a exibição de um filme dentro de uma empresa privada, por exemplo. “Aos trabalhadoras/es, por exemplo, seria permitido o uso, inclusive comercial, da obra cultural, mas não àqueles que explorem o trabalho assalariado, que seriam obrigados a negociar o acesso”, diz o livro.

O modelo se aproxima ao que é defendido pelo sistema Creative Commons, que dá ao responsável por textos, imagens e obras a possibilidade de escolher entre algumas opções que permitem a reprodução, comercial ou não, da obra intelectual.

A organização não governamental criadora do sistema foi criada nos EUA em 2001. As licenças surgiram como uma maneira de adaptar e discutir as legislações já existentes sobre direitos autorais de forma a abraçar as mudanças impostas pela popularização da internet. Por meio de uma licença tradicional, um titular de direitos “entra em uma relação específica com outra pessoa para autorizar determinados usos”, segundo cartilha da ONG. Elas se baseiam na legislação do país. Já com as licenças Creative Commons, que são públicas, é o proprietário da obra que estabelece os termos de autorização de utilização de uma criação pelo público geral. No mundo, mais de 1,4 bilhão de arquivos como fotos, músicas, textos e vídeos possuem licenças Creative Commons.

No Brasil, os direitos autorais são protegidos pela lei 9.610, sancionada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso em 1998. Defensores das leis do direito autoral consideram a distribuição livre de obras culturais uma forma de pirataria. Janaína Costa, advogada especializada em direito digital e pesquisadora do ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade) do Rio de Janeiro, considera no entanto que a prática de tentar criminalizar o download de obras protegidas por direitos autorais é ineficaz.

“O fomento da inovação e de novos modelos de negócios é a estratégia mais promissora de combate à pirataria. Conforme fartamente demonstrado, facilitar o acesso para aqueles que buscam o consumo parece ser o método mais eficiente”, disse ao Nexo em agosto de 2021.

A afirmação dela já foi demonstrada com evidências no estudo “Media Piracy in Emerging Countries”, do qual participou a Fundação Getulio Vargas. Na pesquisa, seis países foram estudados, e em nenhum deles houve diminuição expressiva no número de downloads de obras protegidas por direitos autorais após a criação de novas leis ou modificações em textos vigentes.

“O estudo demonstra que a batalha contra a pirataria será vencida não no campo da repressão, mas sim no campo econômico, com a oferta de produtos cujos preços sejam compatíveis com a renda e o poder de compra local”, afirmou o advogado Ronaldo Lemos, parte do estudo, à época do lançamento da pesquisa.

*Coordenador geral é o nome correto.
** Reprodução de Matéria publicada no site Nexo.

A cultura livre é uma história da resistência antipropriedade

 

Na sexta doze de novembro de 2021, das 19h às 20h e pouco, o “A Cultura é Livre” foi tópico de uma conversa online na APPH POA dentro do projeto Biblioteca APPH. A proposta foi fazer uma conversa sobre alguns tópicos do livro, em especial as discussões contemporâneas sobre compartilhamento na internet e a partir de outras perspectivas que não a vinda da Europa-Estados Unidos, como as visões ameríndias e chinesa, para pensar e questionar a propriedade Intelectual e a produção e fruição da cultura. Participaram nosso editor e autor do livro, Leonardo Foletto (@leofoletto), a jornalista e pesquisadora Lívia Ascava, com mediação de André Araujo, pesquisador da APPH. O livro, prefaciado por Gilberto Gil, foi publicado em 2021 pela Autonomia Literária, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, e discute questões em torno da propriedade intelectual, traçando um caminho desde a circulação cultural na Grécia Antiga até o advento da Internet fissurando a dinâmica de posse dos bens culturais.

A APPH é uma associação autônoma, horizontal e sem fins lucrativos em atividade desde 2013 oferecendo uma vasta gama de atividades voltadas à produção e compartilhamento de conhecimentos em humanidades.

Assista:

asdahagha

Manifestos Cypherpunks para venda e download

Enviamos os 500 (!) exemplares do Manifestos Cypherpunks para quem apoiou a campanha de financiamento coletivo no Catarse, que chegou a 732% do valor inicial pedido, com o apoio de 247 pessoas e coletivos.  Junto com eles estão indo também o “A Ideologia Californiana“, primeiro da coleção Tecnopolítica (Manifestos é o segundo e o terceiro vem logo mais), Segurança Holística, A Cultura é Livre, pendrive com Tails, muitos adesivos e até uma pequena cartinha cifrada, como as fotos logo abaixo dão uma pista.

Pra um livro artesanal, impresso em uma pequena e aguerrida editora anarquista (com energia solar!), editada por um coletivo que está há 13 anos na labuta sem grana de fundação nem de big tech, com textos políticos sobre tecnologia do início dos anos 1990 que só circulavam para iniciados, sair já com 500 exemplares vendidos e distribuídos pra todas as regiões do Brasil (fora os pedidos que tem chegado todo dia; logo estará disponível na loja da Monstro) é um bonito feito. Sobretudo porque não estamos no circuito “mainstream” de circulação editorial E os #cypherpunks não são um assunto “da moda”, mesmo na tecnopolítica e em movimentos políticos ditos progressistas, em que a discussão sobre as big techs ainda é muito mais no “eu também vou reclamar” a lá Raul do que buscar alternativas reais de se desviciar do conforto do design das redes digitais proprietárias (como esta que escrevo, sabendo que de algum modo ainda cá me mantenho para a disputar – e também pq sou um tanto desses viciados).

A circulação do “Manifestos” por aí é um pequeno feito que atribuímos a uma série de lances: sorte, persistência, acaso, competência nossa também. Mas sobretudo a uma comunidade aguerrida (hacker, cyperpunk, do software livre, da cultura livre, ciberativistas e outrxs vários) que se viu de algum modo representada por uma publicação radical em seu conteúdo e forma e que dialoga com uma nowtopia de defesa da privacidade – quando tudo parece crer que não mais a temos.

Se o seu ainda não chegou, logo um/a carteiro/a amigo/a vai levar aí. Mas quem não garantiu o seu, temos o prazer de anunciar que a partir de hoje ele está disponível para compra na loja da Editora Monstro dos Mares, co-editora do livro, e também para download gratuito aqui nesta página.

 

Perspectivas da Cultura Livre na América Latina

Perspectivas da cultura livre na América Latina será uma mesa para discutir o tema a partir do livro “A Cultura é livre: Uma história da resistência anti propriedade“, fruto de uma pesquisa na qual o BaixaCultura, nos últimos 13 anos, foi laboratório e fonte fundamental. O livro debate uma história ampliada da cultura livre e da propriedade intelectual desde os gregos até o digital, também aportando uma perspectiva dos povos originários sobre a propriedade.

A proposta da mesa é discutir um status quo da questão no continente latino-americano em contexto pandêmico: existe um “movimento” da cultura livre ainda? Quais as frentes de disputa hoje em torno da flexibilização dos direitos autorais na internet e os desafios, novos ou velhos, colocados no contexto da pandemia de covid-19? Como a Indústria da Intermediação segue sua política de “copyright trolls”, realizar ameaças de processo judicial, ou outras atitudes particularmente agressivas, para obter remuneração a partir de questões ligadas à proteção dos direitos autorais? Como a cultura livre se relaciona com a construção do comum?

Também buscamos ampliar o diálogo da perspectiva da cultura livre e do copyleft com as noções de propriedade na cultura dos povos originários e compreender de que forma o acesso livre ao conhecimento se torna mais importante ainda em tempos de pandemia.Como criar mecanismos que fomentem o pensamento coletivo e comunitário incutido nesses povos, respeitem sua  cosmovisão e, ao mesmo tempo, protejam sua cultura de gerar mercadorias a serem colocadas à venda num mercado onde a maior parte do valor obtido não irá para eles?

O painel será realizado dentro da Intellectual Property Global Congress, na #IPweek, no dia 27/10 às 18h (hora de Brasília, UTC-3), com transmissão aberta no Youtube. Conta com:

_ Leonardo Foletto, jornalista e pesquisador, editor do BaixaCultura e integrante do Creative Commons Brasil, autor de “A Cultura é Livre”;

_ Yamanik Cholotío, feminista indígena, trabalha na Federação Guatemalteca de Escolas Radiofônicas , FGER)

_ Jorge Gemetto, coordenador do centro cultural Ártica, investigador do Laboratorio de Datos y Sociedad (Datysoc), integrante de Creative Commons Uruguay y de Wikimedistas de Uruguay;

_ Mariana Fossatti, socióloga e collagista, coordenadora do centro cultural Ártica, editora da publicação GenderIT para a Asociación para el Progreso de las Comunicaciones, integrante de Creative Commons Uruguay e de Wikimedistas de Uruguay.

Também vamos falar sobre a tradução do livro para o espanhol, a ser realizada nos próximos meses, com previsão de publicação impressa (e online) inicialmente no Mercosul (Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile) para março de 2022.

Confira a íntegra da mesa.

 

BaixaCharla ao vivo #10: Não há saídas? com Elias Maroso

O artista e pesquisador Elias Maroso é um ávido buscador de saídas. Em 2009, no auge das políticas culturais do Governo Lula, criou, junto com outros artistas e produtores culturais de Santa Maria e Porto Alegre (RS), uma primeira saída para o espaço artístico tradicional: a Sala Dobradiça. “Operar dobras sobre as noções de espaço artístico, buscando diferentes modos de se produzir efeitos de arte aberto a interessados” foi o que a Dobradiça se propôs a fazer – e de fato fez, ao criar múltiplos de exposição portátil para obras reprodutíveis, formatos de ocupação do espaço público para a arte urbana, espaços-suportes para exposições itinerantes, entre outras diversas encarnações da SD, como algumas das imagens abaixo mostram.

Exposição “Palimpsesto III”, com banda Pele de Asno, na Sala Dobradiça (como espaço-suporte de exposição), 2009.

 

Formato expositivo para artistas convidados, Sala Dobradiça.

 

Espaço Recombinante na Gare da Antiga Estação Férrea de Santa Maria / RS, Ano de 2011. Paulo Fernando Machado.
Animação feita com registros do Itinerário SD 0.5 (SM-POA), 2010

Em sua tese de Doutorado, defendida no início de 2021 no programa de Artes Visuais da UFRGS, a pista de um caminho encontrado como saída já no nome: “Circuitos de entrada e de saída: por uma poética do atravessamento”. Atravessar o espaço físico de exposição e subvertê-lo, uma busca constante do trabalho de Elias, mas aqui também o atravessamento como conceito operatório, que inclui aportes teóricos, diferentes linguagens artísticas e circuitos de entradas e saídas para pensar o processo artístico em múltiplos espaços, impregnado das variações atmosféricas de cada um destes.

Em sua tese, tratou de mostrar em termos palpáveis essa poética do atravessamento a partir de quatro “cadernos-seção”: Espaço Mental, Sala Fechada, Zona de Passagem e Área Aberta. Em cada um deles, uma série de obras em técnicas diversas – desenhos, instalações, fotografias, registros de intervenções urbanas, ilustrações – que pensam “saídas” pela busca da autonomia tecnológica, o uso tático da linguagem e a opção de não se prender a um único caminho (ou técnica, ou tecnologia).

Trecho da capa da tese de Elias, 2021
Pablo Carlos Budassi, Universo Observável. Ilustração logarítmica do espaço sideral, bordeada pela radiação cósmica do Big Bang, com Sistema Solar ao centro. Fonte: BASCOM, 2017, inserida na tese de Elias.
Trecho da tese de Elias, 2021
“Dobras no espaço III”, inserida na tese de Elias, 2021

 

“Dedico-me a formas difíceis. Decompor e recompor modelos  cristalizados na consciência e nos espaços de contato. Esforço para novos calos  neurais, terminações sinápticas. Sempre há um ou mais problemas de visão pelos quais me perco e contaminam o que vejo. Tem vezes que consigo pôr a vontade em alguma imagem tangível. Outras se mantêm na teimosia – cabe lembrar de Ítalo Calvino, ao dizer que “quando tudo tiver encontrado uma ordem e um lugar em minha mente, começarei a não achar mais nada digno de nota” (CALVINO, 2011, p. 166).” (Trecho da tese de Elias Maroso, p.32, 2021)

Durante seu doutorado, Elias conseguiu também tematizar sua busca por saídas diversas de uma forma ainda mais evidente em, pelo menos, três trabalhos. Apenas uma Saída, de 2016, são sinalizações luminosas para espaços fechados concebidas com torções, dobras e quebras de placas de saída encontradas em espaços de circulação pública.

Diagrama para Encontrar uma Saída, de 2018, é uma instalação que reúne diversos ensaios de objetos em torno da ideia do atravessamento da parede expositiva, conectados entre si por fios de cobre esmaltado. Exposto na Galeria da Fundação Ecarta, em Porto Alegre, conta também com dois desenhos circulares feitos com a fotocorrosão química de lâminas de cobre, esses afastados da parede por suportes de acrílico transparente. Os desenhos estão conectados a ímãs de neodímio e a um Arduino para receberem impulsos elétricos de baixa frequência em um ritmo pré-determinado.

Grifos de Saída, de 2019, que participou da exposição do  IV Concurso de Arte Impressa do Goethe-Institut de Porto Alegre, tem como peça central duas páginas de texto do conto de Franz Kafka chamado”Um Relatório para uma Academia”, de 1919, que trata a história de um macaco enjaulado que, no anseio de encontrar uma saída, acaba por se transformar em um europeu civilizado. Comprimido em apenas duas páginas, a tipografia, feita pelo próprio Elias (que já tinha desenhado outra fonte, “Recombinante”, disponível em formato .ttf para computadores e espalhado por algumas ruas de Santa Maria, Porto Alegre e Belém,), faz o conto parecer uma malha uniforme de signos/códigos a serem decifrados. Dessa malha de texto saem “grifos luminosos” todas vezes em que a palavra saída aparece. 

Apenas Uma Saída II. Cortes de acrílico, lâmpadas LED e fiação elétrica. 2018

 

Diagrama para Encontrar uma Saída, 2018.
Detalhe de Diagrama para Encontrar uma Saída. Conectores de metal, acrílico, clipes metálicos, lâmpadas LED, parafusos e fios de cobre esmaltado, 2018.
Vista geral de Grifos de Saída. Montagem na primeira exposição do IV Concurso de Arte Impressa do Goethe-Institut de Porto Alegre. Ano de 2019.

 

Detalhe de Grifos de Saída, 2019.

A busca da autonomia tecnológica como saída levou também Elias a aprender a construir suas próprias tecnologias. Uma parte dessa busca está em Diagrama 88.8 (Rádio Infinito) (2018-2019), uma instalação composta por protótipos de radiotransmissores FM, cortes de acrílico à laser, chapas de latão e cobre fotocorroídos, fios de cobre, parafusos e lâmpadas LED. Não sendo programador nem alocado na área da computação, ele aprendeu a fazer um protótipo de radiotransmissor FM artesanal com componentes eletrônicos, bateria de lítio de 3V, desenhos em latão fotocorroído quimicamente e peças de acrílico cristal cortados à laser. A faixa de rádio 88.8 FM tinha uma programação com audiodescrição (das obras) para cegos, trechos literários e ruídos, que poderiam ser escutados em um perímetro de cerca de 30 metros de distância do local onde estava exposta, o Espaço de Artes da UFCSPA.

A radiotransmissão é um recurso de interesse em minha prática artística, porque é uma maneira de atravessar limites físicos do espaço por meio das ondas eletromagnéticas. A parede não é um obstáculo para as ondas de rádio. Elas simplesmente cruzam o concreto e podem seguir de um lugar para o outro conforme a energia de seu impulso. A ideia de atravessar as paredes da exposição artística se baseia no pensamento de que a arte não precisa ser entendida apenas como um campo disciplinar do conhecimento fechado sobre si mesmo, mas também como uma dinâmica transformativa e viva da linguagem.

As rachaduras contêm dois centros de atração que podem se alinhar aos olhos da pessoa que vê. Os centros de ambos os desenhos de cobre são iluminados por lâmpadas LED, onde também estão as frases “não veja bem”e “tenha visões”.

 

À direita, sinalizações luminosas de acrílico e adesivo vinil autocolante. À esquerda, visitante de exposição escutando transmissão na faixa 88.8 FM em um aparelho de rádio doméstico. 2019.

Outra invenção foi os circuitos elétricos impressos em Ok/Cancel (2020), um projeto de uma placa de circuito impresso manufaturada que desempenha a função de bloquear sinais de telefones celulares nas faixas de transmissão 2g, 3g e 4g, em um perímetro doméstico de 5 metros. Acompanha o circuito (fotos abaixo) também um vídeo-tutorial que apresenta as etapas de montagem manual do circuito na atribuição de código aberto e autonomia tecnológica. Como ele explica no texto sobre o trabalho, “envolvido pelas emissões invisíveis que atravessam ambientes privados e públicos, esse trabalho é entendido como um convite a ser, ao mesmo tempo, cúmplice e rival das ondas informacionais”. 

Elias segue muito ativo nesse pandêmico 2021 desenvolvendo outras “saídas”, artísticas e de vida, a partir de ideias que valem a pena colocar sua energia vital mesmo sendo contraditórias e não completamente “redondas” – porque essas são facilmente capturadas e vendidas como mercadoria de (re) uso ad infinitum, ao estilo “ é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?” do Realismo Capitalista de Mark Fischer. Algum de seus próximos trabalhos estarão no KinoBeat Festival, em novembro de 2021, e na Bienal do Mercosul, em 2022. Podemos adiantar: a tecnologia segue forte em sua obra, se não como tema, como potência de linguagem, agora também em diálogo provocativo com a natureza. 

A décima BaixaCharla ao vivo, sétima de 2021, será foi uma conversa entre Leonardo Foletto e Elias a partir de suas obras (as citadas aqui e outras), da busca por autonomia, das saídas encontradas e a encontrar, dos atravessamentos possíveis entre arte, tecnologia e política, do realismo capitalista, da potência vicejante do rádio e outros temas correlatos. Seguimos na linha que propomos neste 2º semestre de 2021: debruçar no trabalho de alguns artistas que estão diretamente pensando as causas, consequências, saídas, desvios, para a encruzilhada que nos encontramos hoje. Se o espírito do tempo (ou zeitgeist) ainda é o de ressaca da internet (e do neoliberalismo como um todo), o desafio agora é pensar em saídas para nos manter vivos e ativos após isso tudo, quiçá também tirando beleza e potência da destruição, de forma a criar territórios a partir dos quais também se possa politizar e capitalizar a raiva para declarar e levar a luta adiante.

Quinta-feira, 21/10, 19h (horário no Brasil), no canal do Youtube do BaixaCultura, onde depois fica disponível – e em algumas semanas vira podcast para ouvir no site e nas plataformas de streaming. 

Assista (ou escute como podcast) aqui abaixo:

BaixaCharla ao vivo #9: Devastação, com Lucas Pretti

Ensaio de “Devastação”, de Lucas Pretti

No meio da década de 2000, uma promessa revolucionária de futuro da internet parecia se consolidar. Infinidades de novas aplicações desafiavam e destruiam indústrias a cada semana. Vingava a narrativa da contracultura californiana de que as conexões geradas pela rede e as relações humanas que aconteciam ali gerariam uma pulsão de vida alternativa e independente da economia neoliberal. Nada sobraria. Era a semente de uma nova sociedade baseada no comum partilhado. A “utopia da internet”.

A crença na revolução se espalhava. Gérmenes de futuros.

O movimento do software livre extrapolava a engenharia informática para forjar uma visão de mundo hacker. A cultura livre parecia um novo espírito do tempo. Saber como construir aplicações digitais, este saber já contendo em si o compartilhamento das novas tecnologias, significava algo como deter os meios de produção. Figuras como Linus Torvalds e as infinitas comunidades sem rosto pautadas na colaboração e na abertura prometiam que o futuro seria como a multidão, as comunidades, os coletivos quisessem. O código aberto e o torrent seriam as ferramentas.

Era tudo Ingenuidade millenial?*

2010 2020
redes sociais mal existem infocalipse
software livre como movimento privatização e modelos de negócios extrativistas
remix como estética da cultura livre dilução em gifs, stickers e emojis
multidão criando em colaboração narratocracia vigilada
pessoas em rede ‘usuários’ e bots
ampla infraestrutura p2p infraestrutura client-server em sua maioria

 

Ensaios visuais de “Devastação”

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O artista visual, ativista, editor e pesquisador brasileiro Lucas Pretti, parceiro de longa data do BaixaCultura, produziu em 2020 um trabalho chamado “Devastação”, um livro de artista formado por nove ensaios que articula links entre tecnopolítica e meio ambiente para desvelar forças operantes na silicolonização do mundo. Desde fins de 2018 radicado em Barcelona, Lucas usou de múltiplos formatos para compor uma obra que, vista em 2021, pode ser encarada como um manifesto do mal-estar generalizado com o Brasil de Bolsonaro sob a mediação (e a benção) das big techs. São fotos, adesivos, textos, mapas, prints, paródicos, irônicos, sempre críticos, que ressaltam tanto a agência da tecnologia na eleição de Bolsonaro quanto na destruição do meio ambiente e no adoecimento da sociedade.

O começo de “Devastação” veio com um vídeo gravado no dia da posse de Bolsonaro, quando apoiadores do então recém-eleito presidente gritaram “Whatsapp, Whatsapp, Facebook, Facebook” como forma de ataque a um repórter televisivo. O mal-estar contido nesse ato, em que as redes sociais ganham um status de contrapoder informacional íntimo, levaram ele a uma investigação dos diversos aspectos simbólicos dessa devastação ainda em marcha: do meio ambiente, das relações políticas e da identidade de um país.

“O incômodo com o vídeo gravado no dia da posse de Bolsonaro me habita desde que o assisti pela primeira vez. Logo após o Réveillon de 2018, circulou durante um ou dois dias nas timelines e chegou a ter seu espaço na imprensa com um enfoque exótico, “vejam que curioso os gritos contra a Globo”. Eu vejo mais do que isso. Vejo a materialização de um discurso tecnoapocalíptico, uma prova de que as redes digitais podem ser usadas ativamente para influenciar resultados de eleições – como se vem discutindo muito desde o escândalo Cambridge Analytica.”

Foto de “Make The Board Happy”, ensaio presente em “Devastação”.
“Silicon Empire”

Foi dentro do contexto da Change.org, empresa que Lucas atua como diretor global de comunicação, que ele ouviu a frase “we just need to make the board happy”, mote de um dos blocos do trabalho. “A cultura empresarial siliconiana, assim como a lógica de investimentos de todo o capital privado, prevê que a cada trimestre o comitê de administração receba um relatório das atividades da companhia – contém um balanço financeiro, indicadores de performance, principais decisões e projetos para os próximos três meses. É uma maneira de “to make the CEO accountable”. O board, na prática, encarna, dilui e apaga a figura do chefe capitalista de cartola e charuto difundida nos séculos XIX e XX. É o atual chefe supremo. O topo da carreira de um executivo é ser convidado para fazer parte do board de outra organização, e assim aumentar seu campo de influência. A cada trimestre, é necessário deixar o board feliz, para que os acionistas e investidores possam, por fim, rir também”, escreveu Lucas no ensaio que acompanha a obra, “Pacto de Sangre que todos hicieron y desconocen”, aqui em versão que foi publicada na revista n°3 do Internet Lab, Internet e Sociedade.

O trabalho iniciado por Make the Board Happy abriu caminho para ensaios correlatos e se tornou o próprio método de investigação de Lucas em “Devastação”. O impulso, diz ele, é “abrir o código” dessas corporações. Neste sentido, Devastação faz um tributo ao open source e à cultura livre. O colecionismo e indexação de imagens encontradas na internet se tornaram a matéria-prima de cada ensaio – uma prática que remonta aos primórdios da cultura remix.”

A nona BaixaCharla ao vivo, sexta de 2021, será uma conversa entre Leonardo Foletto e Lucas Pretti sobre e a partir de “Devastação”. Será na próxima quinta-feira, 23/9, excepcionalmente às 15h (horário no Brasil), no canal do Youtube do BaixaCultura, onde depois fica disponível – e em algumas semanas vira podcast para ouvir no site e nas plataformas de streaming. Esta charla  inaugura um novo ciclo de conversas sobre tecnopolítica neste 2021, agora a partir da arte (& technologia). Nos próximos meses, vamos nos debruçar no trabalho de alguns artistas que estão diretamente pensando as causas, consequências, saídas, desvios, para a encruzilhada social-política-tecnonológica que nos encontramos hoje. Se o espírito do tempo (ou zeitgeist) ainda é o de ressaca da internet, como apontamos nesse texto de 2018, o desafio agora é pensar em remédios que possam apontar curas para a ressaca – ou esmiuçar o diagnóstico distópico, ver a catástrofe de outras perspectivas, quiçá também tirar beleza da destruição, dançar enquanto tudo queima, despencar com paraquedas colorido, reiniciar o processo a partir de princípios da igualdade e não de competição.

Assista:

Confira a charla como podcast abaixo. Você também pode escutar no Anchor, Spotify, Apple Podcasts, entre outras plataformas de streaming.

*Trecho remixado do ensaio “Pacto de Sangre que todos hicieron y desconocen”, de Lucas Pretti.