“A Ideologia Californiana” em Porto Alegre e na CripTRA

Em 1995, a internet comercial estreava no Brasil., Mark Zuckerberg ia a escola primária em White Plains (interior do Estado de Nova York, nos EUA) aos 11 anos, Larry Page e Sergey Brin se conheciam na pós-graduação em computação em Stanford (na California) e começavam a trabalhar na ideia do Page Rank (que originaria o Google três anos depois) e Richard Barbrook e Andy Cameron (então membros do Hypermedia Research Centre of the University of Westminster, em Londres), publicavam um ensaio chamado “A Ideologia Californiana” na Mute Magazine, texto que logo circularia pelas então populares listas de e-mails e seria uma das primeiras críticas ao  agressivo neoliberalismo do Vale do Silício.

A explosão da bolha especulativa das empresas de internet no final dos 1990 poderia ter servido como um alerta sobre aonde esse pensamento poderia levar o planeta, mas a sedução da ideologia californiana persistiu e espalhou-se com a ajuda do Google, Facebook, Apple, Amazon e vários outros dos gigantes do Vale do Silício que hoje fazem parte de nossa vida cotidiana. Prosperou a ideia de um mundo pós-industrial baseado na economia do conhecimento, em que a digitalização das informações impulsionaria o crescimento e a criação de riqueza ao diminuir as estruturas de poder mais antigas, em prol de indivíduos conectados em comunidades digitais. E hoje, queiramos ou não, predomina na nossa sociedade digital.”

23 anos depois, o texto continua atual e relevante. Por conta disso, o BaixaCultura, laboratório online de cultura livre, em parceria com a Editora Monstro dos Mares, lança nesta sexta-feira 14, em Porto Alegre, “A Ideologia Californiana – Uma crítica ao livre mercado nascido no Vale do Silício”. A edição, produzida artesanalmente, tem 43 páginas, introdução do editor do BaixaCultura e Doutor em Comunicação pela UFRGS, Leonardo Foletto, a partir do tradução do inglês feita por Marcelo Träsel, professor de jornalismo da Fabico/UFRGS.

O texto é o primeiro volume de uma coleção criada em parceria com a Monstro dos Mares, nominada “Tecnopolítica”, que busca trazer, em formato artesanal e de baixo custo, textos considerados clássicos e outros inéditos sobre a vasta discussão em torno da tecnologia e suas relações com a sociedade, a política e a comunicação. O próximo lançamento da coleção será uma coletânea de textos clássicos sobre criptografia e política, do início dos anos 1990.

O lançamento de “A Ideologia Californiana” vai ocorrer na Livraria Taverna, espaço de resistência literária e cultural no centro histórico de Porto Alegre, na Fernando Machado, 370, às 19h30, com um bate-papo sobre o livro/zine entre o tradutor, Marcelo Träsel, e o editor, Leonardo Foletto. No local, haverá comidas (com opções veganas) e cervejas artesanais, além, é claro, do livro/zine para venda a R$8.

SERVIÇO

Lançamento “A Ideologia Californiana”, de Richard Barbrook e Andy Cameron, em edição artesanal do BaixaCultura e Monstro dos Mares.
Sexta-feira, 14 de dezembro, 19h30
Livraria Taverna (Fernando Machado, 370), Centro Histórico, Porto Alegre – RS

 

 

Já o segundo lançamento será na CripTRA – criptofesta do Alto Tramandaí, em Maquiné,uma pequena cidade próxima da costa do Rio Grande do Sul conhecida por suas belas cachoeiras, a cerca de 1h30 de Porto Alegre. A criptofesta é uma iniciativa inspirada nas CryptoParties mundiais, na CryptoRave e faz parte de uma série de eventos dessa temática que estão sendo realizados no Brasil desde novembro. Inscrições gratuitas. “Com a CripTRA queremos construir um encontro gratuito, aberto e acessível, que propicie a troca de aprendizado sobre segurança digital, criptografia, anonimato, software livre e com isso promover a liberdade de expressão e de existências”, escreve a organização, autogestionada por uma série de pessoas e coletivos que se preocupam com segurança da informação e técnicas antivigilância na internet.

Na CripTRA, faremos uma conversa rápida com o editor do livro/zine, este que vos escreve, e de como a ideologia californiana está na base da vigilância e no capitalismo de dados atual. Também participaremos da Mesa de Abertura, às 11h, uma conversa sobre Mídias, Privacidade e Vigilância, ao lado de Chúy (que vai falar sobre Repressão) e a Mar1sc0tron (Mídia Livre). E, via Casa da Cultura Digital Porto Alegre,  teremos um debate, às 14h, sobre “Tecnopolítica, proteção de dados e segurança digital na América Latina“, uma “performance” da nossa PirateADA, dispositivo canino-digital que cria uma rede livre aberta de compartilhamento de arquivos e um chat anônimo, e, por fim, às 20h uma roda de conversa sobre “Formas de articulação e formação de rede no RS em tempos de resistência”. Confira toda a programação.

SERVIÇO

Lançamento “A Ideologia Californiana”, de Richard Barbrook e Andy Cameron, em edição artesanal do BaixaCultura e Monstro dos Mares.
Sábado, 15 de dezembro, 16h
CripTRA – Criptofesta do Alto Tramandaí (Canto da Terra Armazém Café, Rua Luiz Alves da Costa 715)

 

 

Novo zine: A Ideologia Californiana

“A Ideologia Californiana”, de Richard Barbook e Andy Cameron, é o nosso próximo lançamento em zine. Com introdução do editor do BaixaCultura, Leonardo Foletto, e tradução de Marcelo Träsel (professor de jornalismo da UFRGS), é uma parceria com a Editora Monstro dos Mares, que fez o projeto gráfico. Será o primeiro de uma coleção publicada em parceria chamada “tecnopolítica”, que busca trazer textos considerados clássicos e outros inéditos sobre a vasta discussão em torno da tecnologia e suas relações com a sociedade, a cultura e a comunicação.

Estamos combinando para novembro um primeiro lançamento do zine, com convidados e debate, em Porto Alegre, avisamos a data por aqui. Um trecho da introdução, remixada dessa postagem do site: “Barbrook e Cameron definiam a tal ideologia como uma improvável mescla das atitudes boêmias e antiautoritárias da contracultura da costa oeste dos EUA com o utopismo tecnológico e o liberalismo econômico. Dessa mistura hippie com yuppie nasceria o espírito das empresas .com do Vale do Silício, que passaram a alimentar a ideia de que todos podem ser “hip and rich” – para isso basta acreditar em seu trabalho e ter fé que as novas tecnologias de informação vão emancipar o ser humano ampliando a liberdade de cada um e reduzir o poder do estado burocrático.(…) A explosão da bolha especulativa das empresas de internet no final dos 1990 poderia ter servido como um alerta sobre onde esse pensamento poderia levar o planeta, mas a sedução da ideologia californiana persistiu e se espalhou com a ajuda do Google, Facebook, Apple, Amazon e vários outros dos gigantes do Silício que hoje fazem parte da nossa vida cotidiana. A ideia de um mundo pós-industrial baseada na economia do conhecimento, em que a digitalização das informações impulsionaria o crescimento e a criação de riqueza ao diminuir as estruturas de poder mais antigas em prol de indivíduos conectados em comunidades digitais, prosperou. E hoje, queiramos ou não, predomina na nossa sociedade digital.”

As fotos são de Tiago MX, da Monstro, também autor do projeto gráfico do site.

Diálogos Abertos #4: internet livre e segura

 

A quarta edição do Diálogos Abertos, nosso “programa” de debates mensal que realizamos em parceria com a Casa da Cultura Digital Porto Alegre, discutiu, neste último sábado, a busca por uma internet livre e segura para tod@s. É possível?

Nos reunimos na sede da Amigos da Terra Brasil, núcleo brasileiro de uma organização internacional dedicada à proteção do meio ambiente e à promoção do desenvolvimento com sustentabilidade e justiça social, co-organizadora desta edição ao lado de integrantes da Marcha Mundial das Mulheres, que luta pelos direitos reprodutivos das mulheres.

Participaram da conversa integrantes do BaixaCultura, CCD POA, Amigos da Terra, Marcha Mundial das Mulheres e outras organizações e projetos, como a EITCHA, Escola Itinerante de Tecnologia Cidadã Hacker. Falamos sobre a garantia de direitos como a privacidade, a liberdade de expressão, o acesso à informação, a participação social e o direito à manifestação, nos contextos do Marco Civil da Internet e da Lei Geral da Proteção de Dados, e sobre formas de defesa – ou que pelo menos dificultem – a vigilância na rede por governos e grandes empresas.

Os slides guia da apresentação de algumas ferramentas, criada por Fabrício Solagna, está aqui. Também tem uma apresentação de Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, usada em sala de aula (PUCRS) sobre privacidade e antivigilância.

Algumas das ferramentas mostradas no Diálogos estão listadas aqui abaixo:

_ TOR, navegador anônimo da web;
_ Checa se o servidor do email é seguro, StarTTLS;
_ Algumas excelentes extensões para tornar seu navegador Firefox mais seguro;
_ Safer Nudes, guia para mandar seus nudes de maneira segura, produzido pela Coding Rights;
_ Fuzzyfyme, extensão para firefox e Chrome que ajuda a impedir anúncios direcionados no Facebook;
_ Safer Manas, dicas de segurança digital em GIFS;
_ MailVelope, plugin para criptografar seu email (Gmail, Yahoo, Hotmail e vários outros);
_ Você na Mira, extensão (Firefox e Chrome) que ajuda a saber qual “caixinha” você é direcionado nos anúncios políticos do Facebook;
_ Alternativas aos serviços do Google;
_ Clue, aplicativo menstrual com uma boa política de dados pessoais;

E o vídeo do evento, na íntegra (3h de duração):

 

Diálogos Abertos #3: Fake news

 

Dando sequência ao nosso papo tecnopolítico & cultural digital presencial e por streaming, vamos realizar a terceira edição do Diálogos Abertos sobre a onipresente e complexa questão das fake news. Já faz algum tempo que temos sido bombardeados de todos os lados com informações falsas sobre os mais variados assuntos, em especial a política e em redes como o WhatsApp e o Facebook. Esse bombardeio tem causado efeitos problemáticos para nossa vida em sociedade e, principalmente, para o sistema político tal qual conhecemos hoje, haja vista a decisiva participação de bots e agentes desinformadores nas campanhas do Brexit inglês e da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. É necessário combater essas informações falsas, sob o risco de esses efeitos se espalharem ainda mais, mas quais são as formas existentes de frear as fake news? É possível a construção de uma lei que seja razoável sobre o assunto? Como o jornalismo e as agências de checagem de fatos (“Fact checking”)podem contribuir para esse trabalho? e com que recursos farão o trabalho árduo, caro e cansativo que é o de checar a vericidade de informações?

Esse texto da Tatiana Dias publicado no Intercept Brasil levanta outras questões importantes: “as megaempresas do Vale do Silício podem investir o quanto quiserem em iniciativas de checagem de fatos – é uma boa maneira de aliviar a consciência –, mas nada muda o fato de que o coração de seus modelos de negócio é que cria um ambiente fértil para a desinformação.” Os esforços coletivos de construção de credibilidade são importantes, mas paliativos para um problema muito mais estrutural, que é o modelo de negócio da internet hoje, baseado na comercialização dos dados e na economia de atenção. O jornalismo tradicional não tem como (ou não quer) atacar esse problema com esmero porque, entre outros motivos, perdeu o poder (financeiro, estrutural, de inovação) de outrora para as grandes empresas do Vale do Silício. Então prefere se aliar a elas em iniciativas como a Comprova, um consórcio de 24 organizações jornalísticas (em sua maioria, mídias tradicionais) e, com isso, tentar resgatar sua credibilidade combalida pelos contínuos erros (ou desvios), em especial no Brasil pós-2013. Nesse caso específico, fica um acordo em que ambos saem ganhando: os principais responsáveis pela disseminação de informações falsas na rede mostram algum movimento para combater o que criaram, ainda que não atacando o principal motivo (seu próprio modelo de negócios); e o jornalismo tem uma chance para resgatar a credibilidade perdida e, num momento de escassez, angariar recursos com quem mais tem feito dinheiro hoje, justamente as gigantes do Vale do Silício.
Para o debate, teremos como convidadxs:
_ Naira Hofmeister, jornalista que já trabalhou para diversos veículos do Brasil e do exterior, premiada três vezes com o ARI de Jornalismo, o mais tradicional do Rio Grande do Sul. Especializada em grandes reportagens, vem desenvolvendo nos últimos anos matérias investigativas financiadas por leitores, como é o caso do Dossiê Cais Mauá e do Dossiê Palcos Públicos, de Porto Alegre, e é uma das jornalistas que está à frente da Filtro Fact-checking, iniciativa que vai checar informações de fatos, dados e declarações públicas com foco no Rio Grande do Sul, em campanha de financiamento coletivo no Catarse;
_ Nicholas Nether, advogado, mestre em Direito e Especialista em Direito Público pela Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP).

O debate terá a condução dos integrantes da CCD POA Janaína Spode, produtora cultural e ciberativista nas lutas pelos avanços políticos para reforçar os Direitos Humanos no mundo digital;  Fabricio Solagna, doutorando em sociologia pela UFRGS com pesquisa focada em governança da Internet e Marco Civil na Internet e que já realizou projetos de participação digital no governo do RS e na presidência da República; e Leonardo Foletto, doutor em comunicação pela UFRGS e editor desta página.

Diálogos Abertos #3 será realizado no cr1pto espaço criativo, local onde antes funcionava a lanchonete vegana Pasito, ao lado do Bar Opinião, no coração da Cidade Baixa, às 19h, em Porto Alegre. Teremos cafés, chás, mate e algumas comidinhas. Transmissão ao vivo via canal do Youtube do BaixaCultura, depois o vídeo será disponibilizado aqui. Tudo de grátis, só chegar.
Atualização 26/7:
As duas partes da conversa estão aqui abaixo, depois uma sequência de fotos do evento.

Diálogos Abertos #1: O Caso facebook

Junto com o Hackerspace Matehackers e a Casa da Cultura Digital Porto Alegre, começamos na última quinta-feira, 26 de abril,  uma série de debates sobre temas ligados à cultura digital, tecnopolítica, direitos digitais, cultura livre, ética hacker e outros do nosso cotidiano digital. Nosso intuito foi, e continuará sendo com os próximos, dissecar esses temas num momento em que a internet que conhecemos está acabando, e que novas “internets” estão sendo construídas, num campo em ferrenha disputa que acontece hoje.

O primeiro assunto dos Diálogos Abertos não poderia deixar de ser o recente caso envolvendo o Facebook, que supostamente vazou (compartilhou, melhor dizendo) dados de cerca de 87 milhões de pessoas para a empresa de marketing político Cambridge Analytica por meio de testes de personalidade. A situação levou o criador da rede social, Mark Zuckerberg, a defender sua empresa no Congresso dos Estados Unidos e despertou um sonoro “eu já sabia” nos meios do ciberativismo de proteção de dados e antivigilante, além de queda do valor das ações da empresa na Bolsa de Valores e alterações na política de proteção de dados da rede social, que vão afetar os mais de 1 bilhão de pessoas com perfis no Facebook.

A conversa realizada no miolo do Vila Flores, condomínio cultural criativo que abriga o Matehackers, girou em torno desse e outros temas correlatos, e teve a condução de Janaína Spode, integrante da CCD POA, produtora cultural e ciberativista nas lutas pelos avanços políticos para reforçar os Direitos Humanos no mundo digital;  Fabricio Solagna, doutorando em sociologia pela UFRGS com pesquisa focada em governança da Internet e Marco Civil na Internet e que já realizou projetos de participação digital no governo do RS e na presidência da República; e Leonardo Feltrin Foletto, doutor em comunicação pela UFRGS, integrante do Matehackers, da CCD POA e editor desta página.

Diálogos Abertos marcou também o lançamento da Newsletter quinzenal CCD POA + BaixaCultura (inscrição e todas as infos aqui), e da campanha de financiamento contínuo do BaixaCultura no Apoia.se. Teve a presença de cerca de 20 pessoas e outras tantas online, na transmissão que fizemos no YouTube e que está disponível aqui abaixo. As fotos são de Sheila Uberti. A 2º edição será realizada em maio.

Uma newsletter quinzenal

Nos reunimos com a CCD POA para organizar, embasar e ir mais fundo nas informações que todos os dias postamos nas nossas redes sociais e plataformas como este site. Daí nasceu a nossa Newsletter em conjunto, para informar e debater temas como tecnopolítica, direitos digitais, privacidade, cultura livre, remix e (contra) cultura digital – e também informar as atividades que realizamos por aí e organizar uma agenda de eventos nessas áreas. Mais uma newsletter, vocẽ pode pensar: e é, sim, mais uma newsletter, e ao mesmo tempo não é: nosso objetivo é trazer um conteúdo diverso, aprofundado, olhando para o que acontece no presente e sobre as transformações que a internet está passando e nos fazendo passar enquanto sociedades. Mas também queremos olhar para trás, para lembrar de textos, fatos e histórias que nos ajudam a entender esse frenético cotidiano de hoje, por isso em todos os envios vamos resgatar algum texto ou acontecimento passado que, no mar de informações compartilhadas todos os dias, acaba por se perder.

Se inscreva a nos acompanhe! O 1º envio é nessa quinta, 19/4, e os próximos serão sempre às quintas, a cada 2 semanas, salvo em ocasiões especiais.