BaixaCharla ao vivo #4: Cooperativismo de Plataforma

A quarta BaixaCharla tratou de um pequeno livro e uma ideia poderosa: cooperativismo de plataforma. Publicado em março de 2017 pelas Editora Elefante e Autonomia Literária, em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, com tradução e comentários de Rafael Zanatta, o livro é fruto de uma conferência do autor – Trebor Scholz, professor associado da The New School, em Nova York, nos Estados Unidos – em que mais de mil participantes discutiram ideias para a criação de um novo tipo de economia online em contraponto à chamada economia do compartilhamento.

O texto de apresentação da publicação, escrito por Daniel Santini e Ana Ruschë, introduz à crítica a esta nova roupagem de um velho sistema de exploração capitalista, agora alimentado por tecnologias vigilantes e desregulação de mercados. “A ideia de uma nova economia, mais inteligente e dinâmica, em que liberdade e facilidade valem mais do que posse absoluta e exclusiva de objetos, ganha força. Por que ter um carro se eu posso conseguir um com motorista em dois cliques no celular, a um preço razoável? Ou, invertendo a lógica, por que manter aquele quarto vazio nos fundos da casa quando alguém poderia aproveitar esse espaço? Para que deixar a bicicleta encostada ou um livro mofando? Por que não aproveitar melhor as coisas?”

Mas as coisas não são tão simples assim, como todo mundo que já tenha olhado para o lado e visto à abolição das leis trabalhistas no trabalho de entregadores de iFood, Rappi, Uber Eats e nos motoristas de aplicativos. “Seja pela noção ecológica de dar vida útil maior às coisas, seja pela sedução que as novas tecnologias nos imprimem em um cotidiano tão veloz, seja pela necessidade de complementação de renda ou pelo desemprego, o atual pacto do ubercapitalismo está acessível a poucos toques: em um aparelhinho na palma da tua mão. Cantando as maravilhas que sempre desejamos – horários flexíveis, valorização do acervo e das habilidades pessoais –, nos fisga com um desejo antigo: a ilusão de não se subordinar e de finalmente tomar as próprias decisões.”

O fenômeno está diretamente relacionado à fase atual do capitalismo e se repete, em diferentes intensidades, em todo o planeta, explicam Santini e Ruschë na apresentação.  Para ajudar a pensar em estratégias de fuga desse sistema, a ideia do Cooperativismo de plataforma proposta por Trebor Scholz questiona o modelo de propriedade para a Internet. Em vez da economia de compartilhamento vendida como um pacote de “ideias geniais” (cuidadosamente fomentadas por departamentos de marketing de empresas), o que o autor propõe são plataformas de cooperativismo “de propriedade coletiva, possuídas pelas pessoas que geram a maioria do valor nessas plataformas, [e que] podem revigorar essa mentalidade pública inicial. O cooperativismo de plataforma pode mudar o modo como pessoas comuns pensam sobre suas relações na Internet.”, diz o professor.

O tom otimista do livro (que pode ser baixado de grátis aqui)  reflete um momento histórico e um lugar: um começo de propagação de iniciativas cooperativas em alguns países do norte global, onde um sistema mais sólido de bem-estar social, com direitos trabalhistas e condições de emprego, moradia e alimentação mais robustas que o sul. Por isso, algumas ideias do livro podem soar utópicas para nós, brasileiros, ainda mais neste distópico 2019 de Bolsonaro. Mas, ainda assim, são ideias que tem a força de nos inspirar e imaginar realidades diferentes das atuais, algumas mais outras menos difíceis de serem implantadas.

“Daqui a trinta anos, quando enfrentaremos o fim das profissões e mais empregos serão ‘uberizados’, podemos muito bem acordar e imaginar por que não protestamos contra essas mudanças. Podemos sentir remorso por não termos buscado alternativas, mas não podemos mudar o que não entendemos. Portanto, estou perguntando o que significa a ‘economia do compartilhamento’?”[Trebor Scholz]

O livro está disponível para download no site da Fundação Rosa Luxemburgo.

Esta foi uma edição especial da BaixaCharla. Realizada dentro de um estúdio profissional de rádio, em sala de aula da disciplina de Cibercultura, à convite do professor Andre Deak, na ESPM São Paulo, teve na bancada as estudantes de jornalismo Malu Ogata, Maria Clara Jorge, além de André e Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, e na plateia o restante dos alunos da turma, que fizeram algumas perguntas e comentários sobre o tema (ou nem tanto). Segue abaixo na íntegra e alguns dos exemplos citados e trechos do livro.

 

_ Apresentação (até 7min.34s)

_ Parte 1: Plataformas de trabalhos “colaborativos” que unem freelancers e empresas: (7min34s – 30min)
UpWork, Crowdwork

_ Parte 2: A Ascensão do Cooperativismo de Plataforma (30min – 42min35s)

_ Parte 3: Rumo a uma tipologia das plataformas cooperativas (42min, 35s – 56min10s)

Intermediação de trabalho online de propriedade cooperativa
Loconomics, Fairmondo, Coopify, Eita, Coolab;

Plataformas cooperativas controladas por cidades
Um “airbnb” controladas por cidades, por exemplo. Artigo de Nathan Schneider, The Nation;

Plataformas de propriedade dos “produsuários”
Resonate.is

Plataformas de trabalho mantidas por sindicatos

Cooperativas de dentro (das grandes empresas)

Parte 4. Dez Princípios para o Cooperativismo de Plataforma (56min10s – final)
1) Propriedade
2) Pagamentos decentes e seguridade de renda;
3) Transparência e portabilidade de dados;
4) Apreciação e reconhecimento;
5) Trabalho codeterminado;
6) Uma moldura jurídica protetora;
7) Proteção trabalhistas portáveis e benefícios;
8) Proteção contra comportamento arbitrário;
9) Rejeição da vigilância excessiva do ambiente de trabalho;
10) O Direito de se desconectar;

Tecnopolítica & Contracultura em Porto Alegre

A terceira edição do curso”Tecnopolítica e Contracultura” chega a Porto Alegre em Outubro, no querido espaço da APPH (Associação de Pesquisas e Práticas em Humanidades), no centro da cidade. Serão três dias de intensas trocas sobre um pensamento tecnopolítico que atravessa os autonomistas italianos da década de 1970, passa pela explosão de criatividade (e otimismo) dos 1990, é alimentado pelas ideias e princípios hackers dos 1980, 1990 e 2000 e chega na encruzilhada do final desta década de 2010 buscando entender o que deu errado no mundo digital e o que pode (deve?) mudar para que possamos sair da “ressaca da internet” que tanto comentamos.

Atualizamos a bibliografia com novas leituras e organizamos melhor as referências do curso, que como os participantes das outras edições já sabem, disponibilizamos ao final (em PDF).

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Tecnopolítica e Contracultura: um passeio pelo pensamento de anarquistas, autonomistas, hackers e outros rebeldes
24, 25 e 26/10, na APPH, em Porto Alegre.
20 vagas. Inscrições aqui – Estudantes e apoiadores/as do BaixaCultura no Apoia.se ganham desconto.
Evento no Facebook.
Quer fazer o curso mas não tem como pagar agora? Nos escreva que conversamos: info@baixacultura.org
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Se nos anos 1990, com o casamento do digital com a internet, enxergávamos enormes possibilidades de libertação (da informação de grandes grupos midiáticos, de liberdade de falar o que bem quiser, de criar tecnologias e mundos novos), hoje parece que estamos a lidar com consequências nefastas, representadas em uma palavra na moda nestes tempos: distopia. Nos descuidamos – ou não conseguimos? – prestar atenção na ascensão de plataformas globais de tecnologia, que por sua vez construíram bolhas de informação que confirmam pontos de vista, espalham mentiras e criam realidades alternativas que em muitos casos não há informação comprovada que consiga mudar.

Como podemos compreender o contexto tecnopolítico hoje? Que caminhos podemos apontar para discutirmos e transformarmos a política que sempre está junto na construção de tecnologias? A proposta desse curso é buscar algumas respostas para estas perguntas olhando para o passado e o presente e passear por alguns pensamentos rebeldes sobre a tecnologia desenvolvidos na segunda metade do século XX até hoje. Começamos pelos autonomistas surgidos no ‘maio de 68’ italiano que durou mais de uma década, com foco especial em Antonio Negri, Franco “Bifo” Berardi, Paolo Virno e Mário Tronti. Passamos pela explosão de novidades da arte e do ativismo digital dos anos 1990, com Wu Ming, mídia tática, altermundistas, Critical Art Ensemble, zapatistas e autores como Pierre Levy, Manuel Castells, Bifo (novamente) e Richard Barbrook; continuamos com os hackers, “paranóicos visionários”, e seus princípios éticos de transparência, liberdade e autonomia com as tecnologias, a partir das ideias de Richard Stallman, Pekka Himanen, Sérgio Amadeu, Eric Raymond, César Rendueles, Aracele Torres, entre outres; e chegamos até hoje, com a ascensão das redes sociais como principais espaços de discussão pública nas redes digitais e o fim da internet como a conhecemos nos 1990 e 2000, no que chamamos de “ressaca da internet”, com autores como Jaron Lanier, Bifo (de novo!), Evgeny Morozov, Shoshana Zuboff, Jonathan Crary e Trebor Scholz.

Esta é terceira edição deste curso-experimento; a primeira foi realizada em 2/2019, em São Paulo, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc e a segunda em 6/2019 na UFSM, em Santa Maria-RS.

BaixaCharla ao vivo #3: Depois do Futuro, Bifo

Nossa terceira BaixaCharla falou de “Depois do Futuro”, de Franco Berardi, vulgo Bifo, publicado em 2009 na Itália e no Brasil este ano, na ótima coleção “Exit” da Ubu. Já citado nesse post e guia de nosso curso-experimento “Tecnopolítica e Contracultura“, o livro repassa as vanguardas do século XX para mostrar como o futuro, até os anos 1970, era visto com esperança e confiança. Depois de 1977, porém, o progresso como uma linha evolutiva para um mundo melhor, com mais conhecimento e tecnologia, se mostrou uma fantasia. Em vez de promissor e brilhante, o porvir que aguarda as novas gerações nascidas em berço digital, precarizadas e altamente conectadas, é incerto e amedrontador.

Como o texto de apresentação da obra comenta, “articulando referências culturais de arte, cinema e literatura e pensamento crítico, o filósofo e ativista italiano Franco “Bifo” Berardi, veterano do Maio de 1968, passa pelo Manifesto Futurista, pelo movimento punk do anos 1970 e pela revolução digital dos anos 1990 para concluir algo sobre o presente: somos incapazes de conceber o que ainda está por vir”. Bifo mistura em seu caldeirão de referências psicanálise, semiótica, filosofia, jornalismo, crítica cultural e da tecnologia, traz exemplos de situações e autores do Japão, Estados Unidos, Rússia e de sua pátria-mãe italiana para detalhar a perda de noção de que “no futuro será melhor”, tão em voga na modernidade, e que se exacerba com o zeitgeist de ressaca da internet que vivemos hoje.

Nessa charla, o editor do BaixaCultura, Leonardo Foletto, destrinchou a obra, especialmente seus capítulos 3 e 4, em que Bifo põe pra dialogar hackers, cyberpunks, pensadores e críticos da ideologia californiana do Vale do Silício. “Quando a disciplina industrial se dissolve, os indivíduos se encontram numa condição de aparente liberdade”. Nenhuma lei os obriga a se submeter às obrigações e à dependência. Mas àquela altura as obrigações foram introjetadas, e o controle social se exerce pela voluntária mas inevitável submissão a uma rede de automatismos”, escreve o filósofo italiano na página  do livro, e não poderíamos concordar mais.

Febbraio 1976. Iniziano le trasmissioni di Radio Alice dalla sede di via del Pratello. Una rara fotografia di Franco “Bifo” Berardi in diretta da via del PratelloArchivio Studio Camera Chiara

Ademais de um filósofo e pensador da arte, cultura e tecnologia contemporânea, Bifo também é um ativista e um ser da prática. Por isso, vamos também percorrer um pouco de sua trajetória enquanto ativista do “maio de 1968 que durou 10 anos” italiano, passando pelo coletivo A/Traverso, revista de efêmera e potente influência nos 1970; criação da Rádio Alice, em 1976, uma das primeiras rádios-livres europeias, que foi fechada em março de 1977, quando o estúdio foi invadido pelos carabinieri, como era conhecida polícia italiana. A Rádio influenciou muita gente da época e tem seu acervo parcialmente documentado online, além de ter uma base de sua história contada neste filme, Lavorare con Lentezza, lançado em 2004.

E seguimos falando um pouco de Bifo em sua estada em Paris, na França, onde conviveu com Félix Guattari e aprendeu muito da esquizonanálise que influenciaria sua abordagem teórica desde então. Viveu nos Estados Unidos, na década de 1980, onde escreveu sobre música, acompanhou de perto o movimento cyberpunk e a discussão sobre tecnologia no Vale do Silício, até voltar para sua Bologna natal, na Itália, nos 1990, onde esteve envolvido na criação de outro experimento midiático, a Orfeo TV, “a street television breaks the Italian regimented broadcasting network“, e do Rekombinant, um e-zine (já extinto, mas com parte do acervo aqui) que circulou entre 2000 e 2009, desenvolvido junto com Matteo Pasquinelli, outro autor importante italiano contemporâneo. Atualmente, leciona no Istituto Aldini Valeriani, uma instituição de ensino médio de Bolonha, e na Academia de Belas Artes de Brera, Milão.

Bifo tem mais de duas dezena de livros publicados em italiano, inglês e espanhol, de seu primeiro “Contra il lavoro”, de 1970, até seu mais recente, “Futurabilidade”, de 2019, publicado em italiano e em espanhol (pela Caja Negra, belíssima editora argentina), passando por “Ciberfilosfia” (1995), A Fábrica da Infelicidade” (2001), “Skizomedia. Trent’anni di mediattivismo” (2006), entre outros. No Brasil, até “Depois do Futuro”, só havia um único livro publicado, “A Fábrica da Infelicidade“, lançado em 2005 pela DP&A e hoje um tanto raro de se encontrar em livrarias físicas. Nos outros países da América Latina, porém, há mais traduções, das quais destacados também “Generación Post-Alfa”, da Tinta Limón, uma coletânea de textos lançada em 2007 que traz vários insights que estão em “Depois do Futuro” – vamos trazer alguns trechos deste livro também na charla, que está disponível para baixar em PDF de grátis.

Há um interesse crescente nos últimos anos na obra de Bifo, o que tem proporcionado muitas entrevistas em veículos jornalísticos, inclusive brasileiros, e algumas palestras que, transmitidas ao vivo, estão disponíveis na rede. Destacamos aqui duas entrevistas publicadas no IHU da Unisinos, no RS: “O que pode a vontade política contra a fúria financeira?“, de agosto de 2019; e “Para entender o fascismo dos impotentes“, de junho de 2019. E dois vídeos, também de 2019:

A charla foi ao ar no dia 3/9, às 20h30, conduzida por Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, e teve a participação (em áudios) de Leonardo Palma, a dupla que ministra o curso “Tecnopolítica e Contracultura”. Palma conhece a obra do filósofo italiano faz mais décadas e tem muito de sua bibliografia em PDF, que ele (garante) que vai disponibilizar para quem se interessar. Deixaremos aqui o roteiro do vídeo, com indicações de leitura, e o vídeo na íntegra. Dá para ler a introdução em PDF de “Depois do Futuro”, disponibilizada pela Ubu.

Aqui a conversa na íntegra:

 

Um empurrão para sair das redes sociais

Quantas horas você passa no celular por dia? Ver, ler, publicar, comentar, curtir e compartilhar nas redes sociais, e nos respectivos aplicativos nos dispositivos móveis, ocupam hoje em dia uma grande parte de nosso tempo. Seja do primeiro artefato que olhamos ao abrir os olhos ao último que levamos para nossas camas antes de dormir, nossos olhos estão sempre voltados para alguma tela. São aproximadamente 9 horas por dia para o brasileiro médio, geralmente dedicadas a alimentar redes sociais ou responder mensagens. Por meio de mecanismos que sequestram nossa atenção e moldam nosso conteúdo para ficarmos o máximo de tempo possível por lá, sofremos uma epidemia de procrastinações e ansiedades fabricadas por esse modelo. O quanto estaríamos perdendo fora destas plataformas? É realmente possível se relacionar sem uma rede social? Neste texto, Victor Veloso relata o que descobriu pensando nestas questões e, por fim, excluindo seu Facebook. É um empurrãozinho para os que possuem esse desejo mas não encontram motivos para fazê-lo.

Victor Veloso é atualmente mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo. Fez parte da equipe de Direitos Digitais no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), no qual esteve envolvido com tópicos de privacidade, transparência de algoritmos e acesso a Internet. Estuda atualmente a guerra cibernética entre Estados Unidos e China pelo controle da Internet e escreve no blog/Medium Pílula Tecnológica.

 

Se você já pensou em excluir suas redes sociais, aqui vai um empurrãozinho
Victor Veloso

Esse texto não é apenas a resenha de um livro. Ele também é um desabafo. É o resultado de um caminho mental que percorri com uma ideia gestada já há alguns anos. Desde que iniciei meus estudos sobre as relações entre tecnologia e sociedade, a parte que percebi quase onipresente na maioria dos debates contemporâneos foi referente a proteção de nossa privacidade em plataformas na internet, principalmente as redes sociais.

Ao conhecer o lado nocivo das transformações que o modelo de negócios e estratégias utilizadas por estas marcas trazia, o caminho natural seria de deleta-las. Afinal, ao tomar conhecimento das consequências de nossas ações, pode ser o suficiente para guiarmos as mesmas em outra direção, certo? Porém, foi mais complicado do que eu pensei.

Eu vivi nestes anos uma sensação estranha que algo além dessa parte racional agia sobre mim e me impedia de não utilizar essas plataformas. Era mais visível em alguns comportamentos e sentimentos que, analisados de maneira fria, eu achava bizarros. Exemplos:

  • Sentir que estar fora dessas plataformas me faria estar por fora da maioria das interações sociais. Provavelmente nunca teria o contato profissional dos sonhos ou não encontraria/manteria viva aquela amizade que estará por perto nos momentos mais necessários. Tudo isto só seria alcançado caso eu estivesse dentro destas redes. E quanto mais estas situações não aconteciam por esse meio, mais estranha minha presença se tornava ali.
  • Havia também a presença de um comportamento compulsivo de checagem constante das redes, em qualquer momento de tédio ou para procrastinar tudo. Um sequestro constante de minha atenção para um conteúdo raso e repetitivo, mas que me mantinha distraído por horas. Horas que poderiam ser voltadas para leitura de um bom livro, para escrita de um texto como esse, para atividades físicas e contato presencial com outras pessoas. (Eu me sentia em uma cena de um filme de terror e ficção científica quando havia um momento em que, numa reunião da família ou amigos, imperava um silêncio generalizado com todos mexendo em seus celulares).
  • Mas acho que o sentimento mais grave, que se associa a distopia constante do noticiário, é o de descolamento com outras realidades, as quais não mostravam sombra na minha timeline. Por meio das bolhas que a rede formava, a empatia pareceria mais uma exceção do que a regra em nossas comunidades. Era desesperador conversar com alguém de outra bolha, eu não entendendo nada do que ela falava e vice-versa, aparentemente. Um ambiente tóxico, que exalava competitividade por um suposto estrelato e evidência que a plataforma pode te oferecer e inundava-se de discursos de ódio e desinformação. A frustração por continuar a utilizar o produto de uma empresa que lucrava com o caos me confundia mais ainda.

Se você já alguma vez teve sensações parecidas e sentiu a mesma culpa pela improdutividade ou o mesmo desespero pela insanidade dos tempos atuais, aqui vai uma boa notícia: Talvez a culpa não seja sua. E talvez esse ambiente digital que você vive todos os dias esteja projetado para outros interesses do que para um convívio saudável. Leia esse texto como um empurrãozinho para experimentar uma dinâmica diferente de suas relações. Se você está feliz com essas plataformas, as reflexões deste texto podem te ajudar a mudar de ideia.

Sendo assim, aqui vai o meu desabafo.

(E também, uma breve resenha do livro 10 Argumentos para você deletar agora suas redes sociais, do tecnológo Jaron Lanier, que explora as estratégias obscuras das empresas do Vale do Sílicio e consequências do uso destas redes em nossas vidas. Se gostar deste texto, vale a leitura do livro)

Porque o Facebook é de graça?

Acho que a melhor resposta para essa pergunta seja contando a mentira implícita nela. É impossível que uma empresa bilionária, com valores que rondam a casa do 500 bilhões de dólares, esteja oferecendo algo ‘de graça’. E qual seria essa fórmula tão inovadora pra lucrar oferecendo algo sem custo? Bem, na verdade, o modelo de negócios do Facebook, como de qualquer outra rede social, não é novo.

Por mais que seja hoje um dos espaços de mídia que recebe mais atenção, a receita pro sucesso é mais antiga que as plataformas. Explorar comercialmente, por meio de anúncios, a atenção de uma audiência, geralmente atraída por entretenimento, já era algo utilizado pela televisão e pelo jornal há décadas. Entretanto, diferente de seus antecessores, o valor destas novas plataformas não recai em seu conteúdo e nas interações que os consumidores do conteúdo possuem. As interações que nós usuários temos entre nós e com a plataforma permite a estas empresas conhecerem nossos hábitos e prever nossos comportamentos. Mas para que isso serviria?

A obsessão no passado das agências de publicidade sempre foi a busca de uma mensagem que tocasse a maior parcela possível de uma população. Afinal, quanto mais afetados, maior o sucesso da propaganda. Tendo em vista nossas individualidades, o desafio seria superar as experiências subjetivas que cada um de nós possuímos, muito em parte do recorte social que participamos. Para complicar mais ainda, somam-se todas estas influências com nossa vivência individual. Como criar uma mensagem tão complexa que abranger tanto assim?

Com a passagem de nossa atenção da tela da TV para o smartphone, a busca se tornou quase oposta. Ao invés de abrangência, se buscava especificidade na transmissão da mensagem. Afinal, é mais efetivo que se encontre o cliente certo para o seu produto do que o seu produto ser encontrado pelo cliente certo.

Essa especificidade só foi possível por um fato novo que a migração para as plataformas digitais abriu: O poder de rastrear toda e qualquer ação de qualquer usuário ou usuária, estando ele dentro ou fora da plataforma. Poder este, claro, consentido pelo usuário à plataforma pela leitura rigorosa e atenta dos termos de uso que todo bom cidadão digital faz e da qual nem eu (e muito provavelmente você também) não faz parte.

Quando agregamos dos elementos mais explícitos, como, idade, gênero ou região, aos mais pequenos detalhes, como horário de uso da plataforma, tempo de leitura das publicações, termos escritos em comentários e publicações e até conversas privadas, é possível construir um gigantesco banco de informações, individual e coletivo, para a companhia.

(Ainda que fosse relevante falar sobre a quantidade e a variedade de dados que são coletados, isto ocuparia muito espaço. Se você nunca se preocupou com isso e quer tomar um susto, eu recomendo este, este e este link. E um aviso: A paranoia só cresce depois de um tempo)

Se algum momento você se sentiu familiarizado com essa conversa, deve estar esperando o famoso “Se você não paga, você é o produto’’. Este texto gostaria de ir um pouco mais longe. Você não está apenas entregando sua privacidade em troca de um serviço. Você está se sujeitando a uma máquina de manipulação comportamental, que está aos poucos deixando seu livre arbítrio de lado.

Viciar para manipular

A entrega de dados pessoais em troca de serviços não parece ser, à primeira vista, uma relação perigosa. Porque dar meu CPF, que não serve para nada no meu dia a dia, para um desconto na farmácia possa ser algo ruim? Na verdade, os prejuízos podem ser bem maiores que um desconto em seu desodorante favorito.

Incluindo a já citada coleta, o tratamento de dados na era digital também assumiu outro patamar. Além da grande quantidade e variedade, é possível fazer cruzamentos entre diferentes bases, encontrando relações que achávamos antes impossíveis. Imagine-se há algumas décadas atrás, fuçando em um baú velho com álbuns de fotos de família. Se você encontrasse uma foto de seu tio com um copo de cerveja na mão em uma festa no bar, sua reação provavelmente seria apenas rir das roupas e cabelos usados por aquele pessoal naquela época. Porém, na Internet isso é diferente.

A mesma foto postada em um álbum de qualquer rede pode ser escaneada, identificando o rosto de seu tio, o copo e vendo a localização de onde a foto foi tirada. Isso é muito interessante para companhias de seguro, já quem frequenta bares e bebe pode tanto morrer mais rápido quanto tem mais chances de bater o carro. Já imaginou uma seguradora entrando na sua casa, revirando seu baú de fotos até achar uma foto comprovando que seu tio bebe? É mais ou menos isso que acontece. Seria justo que hábitos tão íntimos possam ser expostos para outros agentes desta forma? Nossa privacidade tem preço?

Pode até ser justo, dadas algumas condições, mas essa discussão pode ficar para outro texto. Voltando pra bizarrice, a estratégia mais sci-fi destas plataformas está no chamado “behaviorismo”, uma área de pesquisa da psicologia que tem como principio geral o “aprendizado por reforço”. Ou seja, é possível educar (ou adestrar) alguém por meio de incentivos e recompensas para as ações que o educador considere corretas. É o petisco do cachorro quando ele faz o truque certo.

No caso das redes sociais, o petisco não é na barriga e sim no seu ego. Nossa expectativa nestas redes é de que ao nos expressarmos, teremos atenção de alguma maneira, seja por likes, comentários ou compartilhamentos de sua publicação. Há uma razão para sua foto de perfil nova ficar em evidência no newsfeed de seus amigos assim que você a troca: a sua expectativa de afagos e de aprovação social é a maior naquele momento. E faz com que a cada retorno seu a plataforma seja com a expectativa de mais likes e mais comentários sobre você surjam. Uma microdose de prazer é recebida pelo seu sistema nervoso. Nada melhor do que sua expectativa casando com a realidade.

Essa estratégia de manipular desejos é apenas uma das diversas feitas para literalmente viciar você nestas aplicações. A ótima reportagem da revista 1843, parte da The Economist, conta a história e traz outras estratégias como essas. Dela, cabe destacar uma citação que resume bem o modus operandi dessa artimanha (também destacada pelo engenhoso Podcast Tecnocracia):

“Não vamos nos distrair pelas nebulosas e impossíveis coisas de se observar como pensamentos e sentimentos, mas focar simplesmente em como o ambiente onde o usuário está inserido influencia o que ele faz. Entenda a caixa e você entenderá o comportamento. Crie a caixa certa e você controlará o comportamento”

Importante também entender que essa “caixa certa” é construída especialmente pra você. O algoritmo da plataforma não funciona de forma uniforme para todos. É dessa forma que o meu feed pode parecer muito diferente do seu ou do que uma pessoa de outra parte do complexo tecido social. A caixa possui, entre muitos, dois alicerces que gostaria de explorar: Manter e Engajar.

Manter é o que nós podemos traduzir como aquele constante reflexo de bater a mão nos bolsos para ver se o celular está vibrando ou checar o celular ao acordar de madrugada. Um tipo específico de ansiedade, presente em pelo menos metade dos usuários. Tem nome: Fear of Missing Out (Medo de estar por fora, na sigla em inglês FOMO). É a sensação de estar perdendo o próximo meme, a notícia bombástica ou a próxima vaga de emprego, somada a curiosidade de algum like, comentário ou mensagem, esperando a próxima dose de dopamina. A ansiedade e a tensão por estar fora desses meios apenas cresce, sendo quase inevitável não acessarmos o celular a toda hora.

Estando na plataforma, entram estratégias muito ligadas a indústria dos jogos de azar. Puxe a alavanca. Espere pelo prêmio. Puxe seu feed para baixo. Espere por conteúdo personalizado por você ou atenção em forma de interações na plataforma. O feed interminável também dá a impressão de existe algo para ser descoberta, já que o conteúdo da plataforma é produzido em escala massiva pelos próprios usuários, também presos pelas mesmas armadilhas.

Engajar é manter essa máquina girando. É manter os usuários produzindo mais interações, reagindo, comentando e compartilhando. Há, porém, dois tipos de conteúdo que engajam de forma mais efetiva o usuário do que o comum: o medo e o ódio. São sentimentos que apelam ao nosso lado animalesco de autoproteção e sobrevivência. Nossa hiperexposição a publicações como essas tem nos feito reagir exatamente da mesma forma.

Não que o engajamento feito desta maneira seja exclusivamente culpa da plataforma. Estudos em psicologia social tem indicado que há dois comportamentos que geralmente tendemos a seguir: o de lobo solitário e ou de alcateia. Os dois estão presentes em nós, podendo ser acessados e expressos, porém apenas um tem espaço por vez que pensamos e agimos.

Quando estamos como lobos, temos mais espaço para pensar, criar e improvisar. Existem maior cautela por falta de proteção, mas também maior liberdade para tomada de decisão. Quando estamos em alcateia, isso muda. Estar conectado e fazer parte do grupo ganha mais importância, podendo até superar a realidade objetiva que se apresenta para nós. Experimente colocar o espírito de alcateia em uma estrutura hierárquica e competitiva, como por exemplo em uma grande corporação, e observe para onde vai o senso de empatia e solidariedade dos indivíduos dali.

Nós não escolhemos estar em uma alcateia no mundo digital. O algoritmo que faz a curadoria da informação que escolheu por nós. E por isso sua linha do tempo está abarrotada com gente que concorda com você ou que pelo menos te provoca a ponto de você de ligar o modo textão. É um equilíbrio tênue, “não te provocar tanto para que você não abandone a plataforma de vez”, mas que pode ser muito efetivo para que você continue se engajando e provocando outros usuários também.

São estes alguns dos mecanismos que nos promovem horas de distração ininterruptas. No Brasil, a média é de mais de 3 horas em redes sociais e 9 horas na internet por dia. É mais do que a média global nas duas categorias. Estamos no foco de uma epidemia de distração, acompanhada de uma ansiedade e tensão generalizadas. Quem está ganhando com isso?

Manipular para vender (e algumas desilusões)

Voltando ao exemplo da “caixa certa”, novamente destaco que estas estratégias são utilizadas para todos, porém não de maneira uniforme. Indivíduos podem ter reações diferentes a estímulos iguais, da mesma forma que estímulos diferentes podem chegar a um mesmo resultado.

O algoritmo funciona da mesma forma. Ele se adapta a maneira que você responde ao estímulos oferecidos por ele. O “petisco’’ dado a você não funciona de primeira? Tudo bem, vamos mudar de agrado. Não funcionou novamente? Vamos ver com quem você está trocando mais mensagens em sua lista de contatos usando um aplicativo da mesma companhia. Que interesses estas pessoas possuem? Será que se eu recorrer aos milhões de parceiros comerciais que compartilham seus dados comigo, eu posso ter alguma ideia?

Neste ritmo de tentativa e erro, a plataforma alguma hora acertará. Seja por você ter ficado um minuto ou dois a mais na plataforma, reagido a um outro compartilhamento, acessado mais de uma vez ao dia, não importa. Esse será o caminho a ser seguido e novos testes serão feitos.

Com cada nova descoberta, uma teoria individual de como você funciona dentro da rede é criada. É dada luz a quais cordas o algoritmo precisa puxar para que você se movimente da maneira que ele queira. Quem define essa maneira são todos aqueles que alugam essa máquina. Nesse instante, o algoritmo age além do Manter e Engajar. Ele assume o papel que o contratante quiser. Os testes agora se voltaram para entender que conteúdo e sentimentos são necessários para os objetivos designados por quem está pagando. E daqui que comportamentos não tão éticos podem surgir.

Saber seu ciclo menstrual para te incentivar a comprar artigos de moda? Claro! Explorar a vulnerabilidade emocional de jovens com depressão para uma apresentação para um banco? Com certeza! Negligenciar o vazamento de dados de 87 milhões de pessoas para propaganda de desinformação direcionada de uma das eleições mais importantes do século? Sim!

Foram estes e muitos outros escândalos que aos poucos tiraram, para mim, a casca de inovação e solucionismo mágico que o Vale do Silício sempre utilizou como trunfo. Foi um processo lento, que acompanhou muitas desilusões até que esse texto saísse. O primeiro deles foi o “engajamento” e a participação social que as redes promoveram. Fiquei encantando em como estas redes estavam sendo utilizadas no começo da década com as revoluções que aconteciam em países do Oriente Médio, a chamada Primavera Árabe. Junho de 2013, então, era quase um “agora é nossa vez’’ aqui no Brasil. Triste pensar no caos político que esses movimentos desembocaram e que parecem sem horizonte para terminar.

A verdade é que não importa o quão importante e interessante uma comunidade possa se tornar, sempre haverá um trabalho para que seus membros e antagonistas entrem em modo alcateia. A polarização é sempre lucrativa nesse contexto. Um dos exemplos mais interessantes que Lanier traz em seu livro é sobre o Black Lives Matter, movimento que denuncia os abusos de autoridades policiais contra jovens negras e negros nos Estados Unidos.

Enquanto todo aquele movimento crescia de maneira orgânica, tudo era estudado, armazenado e compreendido. Aos poucos, toda arquitetura que poderia trazer maias “engajamento’’ era construída e adaptada para novas identidades que se formavam a partir dali. Como criar narrativas que pudessem estimular o uso da rede dos que poderiam concordar com o movimento? Como engajar os que tinham a propensão de serem contra?

No Brasil, não foi diferente. Se daqui a 50 anos te pedirem uma foto para traduzir o que foi a eleição de 2018 em nosso país, eu recomendaria a mosrada abaixo. Ela é o estudo produzido pelo Oxford Internet Institute das interações e consumo de notícias de usuários no Twitter um mês antes do primeiro turno eleição.

Pare por um momento e observe o abismo entre uma massa de convertidos que essa imagem representa. Todas as bolinhas azuis e verdes estão sendo alimentadas por um contexto próprio, que transmite e reafirma um contexto negativo do qual o outro lado faz parte. O diálogo e a política se tornam quase impossíveis dessa maneira. Não importa o que você diga, a mensagem chegará ao outro lado fora de contexto, provavelmente adaptada ao que a algoritmo possa achar de mais interessante para o “engajamento’’.

Se, em um exercício hipotético, pudéssemos pinçar alguém de uma bolha e jogar em outra, essa pessoa provavelmente seria estraçalhada. Talvez por humanos. E talvez por robôs. E, novamente, eu não gostaria de esse texto ficasse mais longo do que está, então recomendo a seleção de leituras que o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio fez para entender essa questão.

É claro, existem ótimos grupos e páginas em redes sociais, com bom conteúdo e que fugiam do que geralmente se via na plataforma. Muitas vezes, esses bons grupos sofriam com ataques de robôs e trolls, que sem uma moderação dedicada, faziam com o que grupo morresse. Mas grande parte sobreviveu e eles foram por muito tempo um motivo de estar no Facebook. Porém, essa conta parou de fechar. A balança de prejuízos ficou muito grande.

Esse texto é uma contribuição para aqueles que, assim como eu, já tiveram a vontade de se livrar de suas redes. Não é uma tarefa fácil, por tudo que escrevi acima. Mas se você tiver a mesma vontade, aproveito o momento e exclua as redes que você participa. E, se achar interessante, espalhe este texto por aí antes de fazer isso também. Nunca se sabe se quem está próximo de você pode precisar desse empurrãozinho.

PS: Aqui vão algumas dicas

Uma das grandes funcionalidades que as redes proporcionam é a facilidade agregar conteúdos e conhecer novidades. Pra muita gente, o FOMO maior vem daí, de perder todo um conteúdo que você acompanha com frequência. Pra contornar essa situação, aqui vão algumas dicas:

Podcasts – São uma ótima forma de absorver conteúdo, principalmente se você é uma pessoa que se desloca diariamente para o trabalho ou estudo. É ótimo também caso você tenha preguiça de lavar a louça. Para acessa-los, baixe um agregador de podcasts na sua loja virtual.

Newsletters – É uma ótima ferramenta para acompanhar notícias da mídia tradicional ou independente. Quase todo site deste tipo tem. Tem alguns também com conteúdos próprios, como o Canal Meio, que todo dia envia um resumo de tudo que você precisa saber no dia, e o Brasil Real Oficial, que faz um resumo semanal das principais decisões do diário oficial da união, além da nossa, feita em parceria com a CCD POA, onde quinzenalmente te mostramos o que de mais interessante ocorre no mundo da tecnopolítica e da cultura livre. Profissionalmente, muitas empresas também possuem newsletters sobre suas atividades e vagas. Vale a pena se inscrever nestas

Este (e outros) sites – Se você gostou deste texto e gostaria de conteúdos que fossem interessantes e mais densos para você, por que não valorizar o trampo de quem toma um tempo pra fazer esse conteúdo pra você? Se você se interessa por temas sobre tecnopolítica e cultura livre, experimente também nos apoiar em nosso financiamento recorrente; a partir de R$5 você já ajuda o BaixaCultura a semanter e pode ganhar diversas recompensas. Se te interessa tecnologia e sociedade, o Pílula Tecnológica pode ser também um conteúdo interessante pra você

BaixaCharla ao vivo #2: Descolonizar as tecnologias, Fanon

Dando seguimento ao nosso experimento audiovisual, fizemos a segunda edição da BaixaCharla ao vivo, no YouTube e Instagram, na terça-feira, 6 de agosto, às 20h. Desta vez, o tema foi “Descolonizar as Tecnologias”, com a proposta de debater outras perspectivas do sul global para pensar a tecnopolítica e a cultura livre. Tivemos como convidado o historiador e professor Walter Lippold, Mestre em Educação e doutorando em História pela UFRGS, que falou sobre a relação do pensamento de Frantz Fanon – filósofo, psicanalista e jornalista nascido na Martinica, fortemente envolvido na Guerra da Argélia, ao norte da África – com a tecnologia.

Especialista em história afro-asiática pela FAPA (RS), Lippold é militante da cultura livre e integrante do coletivo Fanon, organização que visa divulgar obras de pensadores e pensadoras africanas e afrodiaspóricas e que leva o nome de um dos maiores pensadores africanos do século XX. A charla vai partir do uso da tecnologia na Guerra da Argélia para falar sobre descolonização e usos criativos dos aparatos tecnológicos a partir de olhares que não o dominante europeu e norte-americano. Para aquecer, Lippold disponibilizou pra nós um texto de 2017 que fez para a Revista Semana da África na UFRGS, chamado “Cultura e Luta anticolonial no Magreb: Os estudos de Fanon sobre a Argélia“, onde ele toca em algumas questões – sobretudo o uso do rádio – que conversamos na Charla.

A nossa proposta é, a partir de agora, alternar charlas de leitura e debate a partir de um determinado texto, como fizemos com “A Ideologia Californiana”, com outras com convidados/as, em que debateremos temas que são caros às nossas temáticas principais – tecnopolítica e cultura livre.

Terça, 7 de agosto, 20/8, no YouTube e no Instagram do BaixaCultura. Segue abaixo, na íntegra.

O grupo do telegram do Coletivo Fanon, citado na charla, tem também muitas obras citadas no vídeo e livros de Fanon em PDF. Segue abaixo algumas das obras citadas no vídeo para download (clique no nome delas), todas indicadas por Walter e disponibilizadas (ou escaneadas) pelo próprio ou por outros integrantes do coletivo.

DUSSEL, Enrique. 1492 – O encobrimento do outro (A origem do “mito da modernidade”). Vozes; Petrópolis, 1993.

FANON, Frantz. Sociologia de una revolución. Ediciones Era; México, 1968. Obra publicada em 1959. Nela Fanon analisa de modo intenso a Revolução Argelina. A questão da mulher argelina e o véu e a análise do papel do rádio e da mídia na revolucão são destaques.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Editora da UFBA; Salvador, 2008. Originalmente era o trabalho final de Fanon na medicina psiquiátrica, mas foi reprovado pela banca. Em 1952 ele publica a obra.

FANON, Frantz. Em Defesa da Revolução Africana. Livraria Sá da Costa Editora, 1980. São textos de Fanon, organizados cronologicamente, a maioria retirada do jornal argelino El Moudjahid. (Disponível pra download lá no grupo do telegram do Coletivo Fanon).

FANON, Frantz. Alienation and Freedom. Bloomberg; London, 2018. Escritos de Fanon sobre alienação e libertação. Um obra impactante para os Estudos Fanonianos. Artigos, discursos, cartas e outros textos de Fanon, muitos que nunca tinham sido publicados.

LANDER, Edgar (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina. setembro 2005.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Revista Arte $ Ensaios, PPGAV, UFRJ, nº 32, dez 2016.

QUEIROZ, Ivo Pereira de. Fanon, o reconhecimento do negro e o novo humanismo: horizontes descoloniais da tecnologia. 2013. 221 f. Tese (Doutorado em Tecnologia) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2013.

VALENCIA, Sayak. Capitalismo Gore. Melusina; España, 2010.

WALLERSTEIN, Immanuel. Ler Fanon no século XXI. Revista Crítica de Ciências Sociais, 82, Setembro 2008: 3-12.

 

Politizar as tecnologias & pistas para reinventar a internet

A quinta palestra de 2019 do ótimo programa “Politizar as tecnologias”, do Centro Universitário Maria Antônia (USP), foi uma versão resumida de nosso curso “Tecnopolítica e Contracultura: um breve passeio por autonomistas, altermundistas, hackers e outros rebeldes”. Ocorreu na quarta-feira, 31 de julho, das 19 às 21h30, foi conduzida por Leonardo Foletto e teve um público atento e animado às diversas discussões que apontamos e aos questionamentos instigados pelo texto abaixo:

Se nos anos 1990, com o casamento do digital com a internet, enxergávamos enormes possibilidades de libertação (da informação de grandes grupos midiáticos, de liberdade de falar o que bem quiser, de criar tecnologias e mundos novos), hoje parece que estamos a lidar com consequências nefastas, representadas em uma palavra na moda nestes tempos: distopia.

Nos descuidamos – ou não conseguimos? – prestar atenção na ascensão de plataformas globais de tecnologia, que por sua vez construíram bolhas de informação que confirmam pontos de vista, espalham mentiras e criam realidades alternativas que em muitos casos não há informação comprovada que consiga mudar. Como podemos compreender o contexto tecnopolítico hoje? Que caminhos podemos apontar para discutirmos e transformarmos a política que sempre está junto na construção de tecnologias?”.

Uma notícia breve no site do evento está aqui. Abaixo e na abertura da postagem, algumas fotos, feitas pela equipe de comunicação do Maria Antônia, um centro cultural histórico pra SP, palco de uma das mais conhecidas batalhas na Ditadura Militar Brasileira, em 1968, entre estudantes do Mackenzie e da USP.

uma parte do povo, antes de começar a fala
Os “chapéus” do nosso editor, Leonardo Foletto

Aqui está a apresentação que guiou a conversa. Destacamos aqui uma parte final da conversa:

A IDEOLOGIA CALIFORNIANA VENCEU

Sua visão utópica da Califórnia depende de uma cegueira voluntária frente a outras – e muito menos positivas – características da vida na costa oeste: racismo, pobreza e degradação do meio ambiente”

“As   tecnologias   da informação dão poder ao indivíduo, aumentam a liberdade pessoal e radicalmente reduzem a força do estado-nação. As estruturas de poder social, político e legal existentes irão murchar, para serem substituídas por interações irrestritas entre indivíduos autônomos e seus softwares.”

DEPOIS DO FUTURO, BIFO

“A sociedade internaliza a regra em formas tecnológicas. O capital pode renunciar a regra jurídica, à racionalidade política e se deixar conduzir pela aparente anarquia dos automatismos internalizados da biopolítica.”

“Quando a disciplina industrial se dissolve, os indivíduos se encontram numa condição de aparente liberdade”. “Nenhuma lei os obriga a se submeter às obrigações e à dependência. Mas àquela altura as obrigações foram introjetadas, e o controle social se exerce pela voluntária mas inevitável submissão a uma rede de automatismos.”

EM FRENTE RUMO AO PASSADO

“Membros da “classe virtual” e outros profissionais podem brincar de ser cyberpunks dentro da hiperrealidade sem ter de encontrar algum de seus vizinhos empobrecidos.”

“As tecnologias da liberdade estão se tornando os instrumentos da dominação”.

“ Não impeço você de fazer outra coisa e não o obrigo a fazer o que eu quero, simplesmente facilito para quem faz as coisas que me convêm” (Bifo)

DIANTE DISSO, O QUE FAZER? PISTAS PARA REINVENTAR A INTERNET

_ Regulação (Barbrook & Cameron)
A discussão sobre regular ou não a internet, uso de aplicativos, dados em redes sociais e outras no mundo internético ainda engatinha no Brasil, mas tem sido uma das frentes mais debatidas nos últimos tempos ao redor do mundo. Alugar um quarto por meio do AirBnB, por exemplo, estaria menos relacionado a práticas de consumo coletivo e consciente ou à criação de novos laços de confiança e muito mais ao consumo de um bem por um preço mais baixo e, claro, ao lucro da transação comercial. Na França, há uma lei, aprovada no primeiro semestre de 2019, que exigirá o pagamento de 3% sobre a receita que Google, Facebook e Apple, entre outras gigantes do Vale do Silício, tiverem em seu território. Barbrook e Cameron falava disso já ao final de “A Ideologia Californiana”, em 1995:

“O futuro digital será um híbrido de intervenção estatal, empreendedorismo capitalista e cultura faça-você-mesmo. Decisivamente, se o estado puder fomentar o desenvolvimento da hipermídia, ações conscientes poderiam também ser tomadas para evitar o surgimento do apartheid social entre os “ricos de informação” e os “pobres de informação”.

_ Abrir as caixas-pretas (hackers);
As linhas de fuga para muitos dos caminhos distópicos que nos encontramos hoje, em época de ressaca da internet, passa por nos tornarmos uma potente multidão em busca de abrir as caixas-pretas da tecnologia e entender como se dá essa louca composição humana+objetos que nos causa esperança e sofrimento, depressão e euforia, liberdade e prisão. Algo que hackers buscam fazer, reparadores também, como já comentamos e escrevemos.

_ Ressensibilizar a humanidade (Bifo)
Influenciados pela recente leitura do nem tão recente “Depois do Futuro” (2009, edição brasileira de 2019), de Franco Berardi “Bifo”, incorporamos a ideia do filósofo italiano.

“Podemos levantar a hipótese de uma relação direta entre a expansão da infoesfera, a aceleração dos estímulos, das solicitações nervosas e dos tempos de resposta cognitiva, e a desintegração da película sensível que permite ao seres humanos entender o que não pode ser verbalizado, reduzido a sinais codificados?” (p.164)
“Sentimos-nos presos em uma armadilha de automatismos tecnolinguísticos, as finanças, a competição global, a exaltação militar. Mas o presente é mais rico que o formato que o capital impõe, e as muitas possibilidades inscritas no presente não são canceladas, embora no momento pareçam inertes”. (p.183)

_ Autonomia, criptografia, cuidados digitais (criptopunks/anarquistas);
Saber lidar com as tecnologias que nos rodeiam, não perder de vista o vínculo entre processo e produto, matéria-prima e forma final, compreender os meandros do fazer e da diferença, eis um bom programa de vida & ação. Como diz Bifo em seu Manifesto Pós-Futurista:

“Afirmamos que a grandiosidade do mundo enriqueceu-se com uma beleza nova, a beleza da autonomia. Cada um tem seu ritmo e ninguém deve ser obrigado a correr em velocidade uniforme; sobretudo, não podem mais desempenhar a tarefa para a qual foram concebidos. A velocidade se tornou lenta. Os automóveis estão imóveis como estúpidas tartarugas no tráfego das cidades. Apenas a lentidão é veloz.”

_ Politizar as tecnologias;
Significa uma combinação: abrir as caixas-pretas, ver como funciona, como se monta, como se reproduz, como se transforma e perceber que a política está nos embutidas em códigos, em vieses que reproduzem preconceitos e desinformação generalizada, na elaboração de algoritmos que funcionam com mais inputs, seja eles ódios destilados ou fake news absurdas. Politizar as tecnologias é perceber isso, também tentar modificar, agir para tomar os meios de produção – ou pelo menos hackeá-los.

 

BaixaCharla ao vivo #1: A Ideologia Californiana

Depois de um tempo organizando, planejando e refletindo. voltamos com as BaixaCharlas, nosso “programa” de conversas sobre tecnopolítica, contracultura e cultura livre. Dessa vez, diferente das outras até aqui seis já realizadas (chega mais em nosso canal no Youtube), fizemos ao vivo, via YouTube e nosso perfil no Instagram. e no Youtube.

A primeira dessa nova fase foi realizada na quarta-feira, 24/7 e tratou de encerrar um ciclo sobre o “A Ideologia Californiana“, obra seminal da crítica à um pensamento (hoje dominante) sobre a internet, de Richard Barbrook e Andy Cameron, primeira publicação da nossa coleção Tecnopolítica junto com a Monstro dos Mares. Tivemos Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, sistematizando alguns apontamentos sobre o texto colhido nos recentes lançamentos e debates sobre a obra em São Paulo, durante a CryptoRave 2019, em Salvador, no simpósio da Lavits, e em Recife, junto à grupos, pessoas e coletivos locais. A ideia foi destrinchar alguns aspectos do texto, detalhando os 10 tópicos com que os autores dividiram o texto, e a partir daí falamos sobre o que ele ainda tem de relevante nesse distópico mundo internético de hoje para refletir sobre o futuro da rede.

Aqui está o roteiro completo que nos baseamos para fazer a transmissão, com trechos do texto. E aqui abaixo o vídeo, no Youtube.

 

 

 

Tecnopolítica & contracultura em Santa Maria

 

Estamos orgulhosos de anunciar a segunda edição do nosso curso “Tecnopolítica e Contracultura: Um passeio pelo pensamento-ação tecnopolítico de anarquistas, autonomistas, hackers e outros rebeldes“, agora em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul.

O curso teve sua primeira edição em fevereiro de 2019 no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo (confira como foi) e agora chega em uma versão condensada e de guerrilha em Santa Maria. Além de discutir, vamos trazer (e disponibilizar) uma bibliografia reunida de anos e , também, propor movimentos práticos para a ação.

O disparador são os conceitos que atravessaram a contracultura e chegaram até o universo hacker atual, e além. Partindo dos movimentos das décadas de 60, 70 e 80 do século XX focamos em conceitos e práticas ligados ao pensamento e ao universo sociotécnico. Demonstramos a atualidade desses termos para pensarmos o hoje e sairmos da paralisia contemporânea que está nos arrastando para pontos de catástrofe, de não retorno.

Assim, frente aos esgotamentos das formas de representação social e política e das formas clássicas de organização do social, das instituições da modernidade, do público e do privado, como pensar esses deslocamentos, com que ferramentas e que aberturas ou brechas é possível cartografar? É possível cartografar nuvens e fumaça?

Para tentar fazer melhores perguntas e aproximarmos de respostas que nos convoquem para ação, propomos esse curso: “Tecnopolítica e Contracultura“, conduzido por Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, jornalista e doutor em comunicação pela UFRGS, e Leonardo Palma, pesquisador independente, agitador cultural radicado em Santa Maria, ativista da Rede Universidade Nômade e um profundo conhecedor da obra dos autonomistas italianos a partir da década de 1970.

O passeio teórico-prático busca resgatar um pensamento tecnopolítico em quatro momentos:
1) os autonomistas italianos da década de 1970;
2) pós-operaísmo, altermundistas, Fórum Social Mundial e mídia tática dos 1990; 3)
hackers: paranóicos visionários, dos 1980, 1990 e 2000;
4) hoje, com a ascensão das redes sociais como principais espaços de discussão pública nas redes digitais e o fim da internet como a conhecemos nos 1990 e 2000.

Será realizado dias 6 e 7 de junho, das 14h às 18h30, no Auditório do Nesaf (prédio 44F), no campus em Camobi da UFSM, em Santa Maria [para chegar no 44F, desça em frente ao CAL – Centro de Artes e Letras (CAL), passe o CCCR 1 (prédio 42), o CCR2 (44); atravessa a rua e lá está o 44F CCR e dentro o Auditório].

Por conta do apoio do Programa de Pós Graduação em Extensão Rural e do Núcleo de Estudos e Extensão em Desenvolvimento Territorial (NEDET) da Universidade Federal de Santa Maria, o curso custa R$10 (para estudantes universitários ou secundaristas) e R$30 (público geral). Pagamento realizado na hora, presencial.

Inscrições: https://forms.gle/HyUWsoNYFLTimcQV9

SERVIÇO
Tecnopolítica e Contracultura
6 e 7 de junho, 14h às 18h30
Auditório do Nesaf (prédio 44F), Campus UFSM
Santa Maria, RS
R$10 (para estudantes universitários ou secundaristas) e R$25 (público geral)
Evento Facebook
Pagamento realizado na hora

Apoios

Programa de Pós Graduação em Extensão Rural e do Núcleo de Estudos e Extensão em Desenvolvimento Territorial (NEDET) da Universidade Federal de Santa Maria
Rede Sina
Baleiro das Artes
Ultra Produtora
Disco Voador
PhotoCópias

Cryptorave 2019 e a distopia ideológica da Califórnia

Crédito: Sérgio Amadeu

A Cryptorave 2019 ocorreu em São Paulo, dia 3 e 4 de maio, num local diferente dos últimos anos: a biblioteca Mário de Andrade, próximo ao Vale do Anhangabaú, bem no centro de São Paulo. Como nos últimos anos, teve uma programação intensa e robusta – pra ter uma noção, acesse aqui ela completa. O encerramento rolou também no dia 04 de maio, com o DJ Craca. E ainda teve o after party da CryptoRave 2019, na Trackers, festerê que seguiu madrugada adentro no centrão de SP com o projeto Dispersão e muito Pure Data.

Trẽs impressões gerais dessa edição:

1. Muita gente em (quase) todas as atividades;
O fato da Biblioteca estar situada no centro de SP, próximo de estações de 3 linhas de metrô e de outras tantas de ônibus ajudou. Também colaborou o fato do espaço ser grudado em diversos outros locais de muito público, o que misturou públicos – notoriamente no sábado, onde no mesmo hall ocorria uma feira de publicações independentes de poesia. Nas últimas duas edições não havia tanto movimento perto do local do evento, o que dessa vez ocorreu: é como se a Crypto, na Mário de Andrade, estivesse mais integrada à cidade, o que pode ter propiciado a circulação de pessoas diferentes nos diversos espaços de oficinas, debates e palestras. É claro que ajudou a ter grande público a popularidade que o tema da tecnopolítica e da vigilância tem ganhado nos últimos anos. E a credibilidade construída pela organização do evento, que esse ano bateu recorde de valor (não de pessoas colaborando) arrecadado (94 K) via financiamento coletivo.

Apesar das dificuldades para conseguir lugar, dada que o anterior (a Cinemateca Brasileira, palco da de 2018) cancelou pouco mais de 1 mês antes do evento, a escolha da Biblioteca nos pareceu acertada pelos motivos já falados. Os poucos problemas (de comunicação das alterações das salas, do calor em algumas delas) podem ser corrigidos com maior tempo de organização para a próxima edição.

2. Mais variedade de palestras filosóficas, contextuais, históricas;
Essa é uma impressão nossa e de algumas pessoas com quem conversamos: poderia ter tido mais discussões conceituais mais densas na programação. É uma impressão que pode parecer polêmica e parcial, dado que trabalhamos justamente nessa seara de informação e conhecimento sobre cultura livre e tecnopolítica, e é mesmo parcial. Mas percebemos uma curiosidade genuína de muitas pessoas em saber mais sobre conceitos, práticas e histórias ligadas à vigilância, criptografia, segurança digital, espionagem, tecnopolítica. Além das conversas com algumas pessoas durante e depois do evento, tomamos como base a nossa mesa de discussão sobre “A Ideologia Californiana”, que esteve lotada e com muita gente (nova) querendo saber mais sobre o termo, as histórias por trás desse debate e os conceitos que brotam dele (logo abaixo um relato mais detalhado da mesa). Diríamos que há um interesse em saber sobre as histórias das tecnologias, dos debates políticos envolvendo as redes sociais e os aplicativos de mensagens instantâneas e mesmo das ferramentas antivigilância. Histórias de iniciativas que estão se alinhando contra a vigilância global das empresas e dos governos, mesmo que em pequena escala; ideias um pouco mais gerais que organizem certas impressões dispersas e isoladas sobre o mundo do ciberativismo.

A nossa impressão é de que pode haver, nas palestras ditas mais “técnicas”, uma comunicação maior sobre o porquê aquela ferramenta, prática, código, iniciativa é importante, relacionando-a com o contexto pessoal (e cotidiano) da vida de cada um, o que pode furar bolhas de interesse e popularizar o enorme conhecimento que circula num evento como a Crypto. E de que, nas ditas mais “filosóficas”, pode ocorrer um aprofundamento maior de certas ideias, relacionando-as com as técnicas e ferramentas disponíveis e abordando questões relacionadas à subjetividade, arte e filosofia. Utopicamente desejamos uma mistura maior entre técnica e política a ponto de não precisar fazer essa distinção. Mas para deixar claro: isso é um desejo particular. O evento é construído pelas propostas de atividades das pessoas, quem dá o equilíbrio temático são elas (nós).

3. É um dos grande encontros nacionais da tecnopolítica no Brasil
Como costuma acontecer na maioria dos eventos como a CryptoRave, tanto quanto o conteúdo em si das palestras, os encontros entre as pessoas são importantes. É o dia da comunidade se ver, conversar, saber o que x outrx está fazendo, o que, em se tratando de uma área tão árida quanto a segurança digital e a política das tecnologias, é ainda mais importante. E nesse aspecto também reside a importância do evento: buscar ser um encontro em que é possível falar de tecnologia e política ao mesmo tempo, um a alimentar o outro. São raros os eventos de tecnologia em que se fala tanto de política como na Crypto, assim como ainda mais raro são eventos políticos/ativistas em que se discute tanto tecnologia. Esse é um dos pontos fortes, que já diferencia o evento de diversos outros do calendário brasileiro e sul-americano.

 

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Esse ano propusemos uma atividade para o evento também. A mesa (roda de conversa) se chamou “A Ideologia Californiana e o capitalismo de vigilãncia: 24 anos depois, a distopia é real?” e ocorreu no sábado, 4/5, às 16h10, no espaço Ian Murdock, 1º andar da Biblioteca (Hemeroteca). Apresentamos assim a atividade:

“Hoje considerado um clássico da tecnopolítica, “A Ideologia Californiana” é o guia para esta mesa discutir o cenário atual do capitalismo de vigilância e das megacorporações que cada vez mais dominam a internet. Para isso, participam da mesa:
_ Aracele Torres, doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), atuando na área de História da Ciência e da Tecnologia e desenvolvendo trabalhos sobre história da tecnologia digital, software livre, ciber-libertarianismo, ideologias e utopias relacionadas às tecnologias da informação;
_ Camila Montagner, jornalista e pesquisadora, doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp;
_ Tiago Soares, doutorando em História Econômica pela USP, mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp;”

A mediação foi do editor do BaixaCultura, Leonardo Foletto, que apresentou a edição, o contexto atual de sua publicação e leu alguns trechos da introdução. Perguntou também sobre quem conhecia o texto, que foi escrito em 1995 e circula pela internet já faz uns bons anos. Para surpresa geral, poucos disseram que conheciam.

Primeira a falar, Aracele abordou a história da ideologia conhecida como Californiana (ou da Califórnia), um misto de romantismo na crença da libertação do ser humano a partir das tecnologias somado ao neoliberalismo dos livres mercados que se auto-regulam. Sua tese estudou a questão da neutralidade da rede nos EUA e no Brasil e recuperou um tanto da história da Ideologia Californiana que dá base a atuação das grandes empresas da internet hoje.

Camila abordou, entre outros aspectos, algumas ideias de “Futuros Imaginários”, livro de barrbook, co-autor de “A Ideologia”, que retoma alguns eventos da história das tecnologias do século XX para discutir o futuro em seus aspectos sociais, econômicos e políticos. “Devemos deixar o futuro para depois, em modo de espera das suas promessas, ou presentear o futuro com a imaginação da realidade que deve ser vivida já?” pergunta o livro, disponível em PDF para download (e bastante raro em sua versão física) questão que também ecoa no debate sobre o que fazer hoje para dar um fim ao monopólio criado pelas empresas que seguem à risca a Ideologia Californiana.

Tiago, por fim, fez uma fala sobre a globalização, cultura online e as transformações infraestruturais das redes de comunicação e processamento de informação a partir da perspectiva da economia política. Comentou que, de modo irônico, a crítica ao Capitalismo de Vigilância é de certo modo uma nostalgia das promessas criticadas em “A Ideologia Californiana”: “o ponto é menos sobre a crítica do neoliberalismo do que sobre sua captura”. O Capitalismo de Vigilância (conceito desenvolvido por Shoshana Zubofff; aqui uma boa explicação, via Projeto Draft) é uma outra fase, irmã ou filha, das ideias presentes na ideologia originada na Califórnia, algo que foi perguntado no debate ao final da mesa.

Outra questão levantada na parte final continua ecoando por estas páginas: quais alternativas ao capitalismo de vigilância? existe futuro alternativo à vigilância onipresente? Se a ideologia californiana “venceu” e predomina hoje na base das principais empresas de tecnologia mundiais, qual a resposta a ela? Existe alguma? Talvez o Cooperativismo de Plataforma? Se a ideia do software e da cultura livre, que em algum momento se mostrou como alternativa víável para a manutenção de uma internet livre, não tem se mostrado mais factível, então qual seriam as alternativas? Aliás, será mesmo que perdemos a batalha pela internet livre e ainda estamos na Ressaca da Internet e não conseguimos nos recuperar nem mesmo para imaginar um futuro que não seja distópico?

Questões que ficam para um próximo texto, conversa, curso.

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Alguns breves comentários sobre duas iniciativas acompanhadas na CryptoRave 2019. “Segurança de pé descalços” é um projeto e uma estratégia que visa estruturar ações práticas de modo a manter ou expandir a ideia de segurança holística – total, integrada. Vale acompanhar.

Quer tornar seu roteador doméstico mais seguro? Aqui um passo a passo de Douglas Esteves, que esteve no evento com uma palestra sobre o assunto.

Pela liberdade de Julian Assange e Ola Bini

Julian Assange foi preso pela polícia britânica na quinta-feira 11 de abril, na Embaixada do Equador em Londres, onde o hacker australiano de 47 anos estava abrigado desde 2012. A polícia disse que prendeu Assange depois de ser “convidada a entrar na embaixada pelo embaixador, após a retirada do asilo pelo governo equatoriano”. Há muita coisa envolvida nessa prisão que vamos explicar (ou tentar) aqui nesse texto.

ACUSAÇÃO

Glenn Greenwald e Micah Lee, no The Intercept, explicam que o conteúdo da acusação contra Julian Assange, revelado pelo Departamento de Justiça dos EUA de Trump, “representa grande ameaça à liberdade de imprensa, não apenas nos EUA, mas em todo o mundo”. O documento de denúncia, acompanhado do pedido de extradição pelo governo dos EUA, que foi usado pela polícia do Reino Unido para prender Assange tão logo o Equador suspendeu oficialmente o asilo diplomático, pretende criminalizar diversas atividades que fazem parte da essência do jornalismo investigativo. Por exemplo: Assange é diretamente acusado de tentar ajudar Chelsea Manning a se conectar aos computadores do Departamento de Defesa empregando um nome de usuário diferente, para que ela pudesse manter seu anonimato enquanto fazia o download de documentos de interesse público e os encaminhava ao WikiLeaks para publicação. Na prática, é uma acusação que caracteriza como condutas criminosas ações como a proteção do anonimato, algo que os jornalistas não apenas podem, mas devem tomar para praticar uma atividade jornalística sensível na era digital.

Muitos veículos de mídia, explica o The Intercept, “repercutiram sem pensar a manchete do comunicado de imprensa do DOJ, que alegava que Assange estaria sendo acusado por condutas criminosas de “hacker”, muito embora a denúncia não contenha nenhuma acusação nesse sentido. Assange está sendo acusado simplesmente de tentar ajudar Manning a escapar da identificação. Isso não é “hackear”, é simplesmente uma obrigação fundamental do jornalismo.”

EXTRADIÇÃO

Continuam Greenwald e Lee: “O governo dos EUA está determinado a indiciar Julian Assange e o WikiLeaks pelo menos desde 2010, quando o grupo publicou centenas de milhares de documentos de guerra e telegramas diplomáticos que revelavam inúmeros crimes de guerra e outros atos de corrupção cometidos pelos EUA, pelo Reino Unido e por outros governos de todo o mundo. Para atingir esse objetivo, o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) do período Obama convocou um júri em 2011 e conduziu uma investigação aprofundada sobre o WikiLeaks, Assange e Manning. Em 2013, porém, o DOJ de Obama concluiu que não poderia acusar criminalmente Assange pela publicação dos documentos, porque não havia forma de distinguir o que o WikiLeaks fazia daquilo que o New York Times, o Guardian e diversos veículos de mídia do mundo inteiro fazem regularmente: a saber, trabalhar com fontes para publicar documentos confidenciais.

Com Trump, o DOJ não escondeu esforços para criminalizar o jornalismo em geral e foi assim, que, depois de dois anos de esforços em coagir o Equador a terminar com o asilo diplomático de Assange, conseguiu o que queria. Encontrou em Lenin Moreno, atual presidente equatoriano, um submisso aliado, e a partir daí não foi difícil encontrar motivos para tirar Assange da embaixada, o que permitiria que o Reino Unido realizasse a prisão sob acusações de descumprimento de intimação judicial em um processo em Londres. A acusação de abuso sexual que Assange tinha na Suécia foi encerrado não vale mais, , não por terem concluído que ele era inocente, mas porque passaram anos tentando extraditá-lo sem sucesso. Mesmo dizendo que não vai, o governo britânico pode acatar um pedido de extradição do governo dos EUA para deportá-lo para um país com o qual ele não tem relação (os EUA) para ser julgado pelos documentos vazados.

“Trata-se de um pedido de extradição para os Estados Unidos, com a possibilidade de Julian enfrentar muitos anos na prisão por ter publicado documentos que revelaram crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão”, diz em entrevista à Pública o editor-chefe do WikiLeaks, o jornalista islandês Kristinn Hrafnsson.”

Outra questão importante nesse caso foi levantada em reportagem da MotherBoard: Um membro da equipe que examinou as condições médicas de Julian Assange nos últimos dois anos disse a três grupos internacionais de direitos humanos que ele apresentava “efeitos negativos psicológicos e físicos”, de seus sete anos de detenção na embaixada equatoriana em Londres. A médica acredita que a “severidade acumulada da dor e sofrimento infligidos ao Sr. Assange – tanto físicos quanto psicológicos – é uma violação da Convenção Contra a Tortura de 1984”.

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

Slavoj Zizek, filósofo esloveno, fez um texto certeiro sobre a prisão de Assange. Escreve ele: “Agora podemos ver porquê Assange precisou ser silenciado: depois do escândalo da Cambrigde Analytica vir à tona, todos os esforços dos que estão no poder se voltaram a reduzir o caso a um “mau uso” particular, de algumas empresas privadas e partidos políticos. (…) Hoje sabemos que não foram hackers russos (com Assange) que empurraram o povo para Trump. Em vez disso, eles foram impulsados por próprias agências ocidentais de processamento de dados, que se uniram a forças políticas”. Algo que Assange, o Wikileaks e diversos outros hackers e criptopunks chamados de paranóicos denunciam faz mais de uma década.

“A maior conquista do novo complexo cognitivo-militar”, continua Zizek, “é que a opressão direta e óbvia não é mais necessária: os indivíduos podem ser muito melhor controlados e orientados na direção desejada, quando continuam a se enxergar como pessoas livres e como agentes autônomos de suas próprias vidas. Esta é mais uma lição-chave do Wikileaks: nossa falta de liberdade é mais perigosa quando vivenciada como o próprio meio de nossa liberdade. O que poderia ser mais livre do que o incessante fluxo de comunicação que permite que cada indivíduo possa popularizar sua opinião e formar comunidades virtuais por vontade própria?. O que pode ser mais livre que nossa navegação irrestrita na rede?” Em nossas sociedades, permissividade e livre escolha foram elevadas a valores supremos. Por isso, o controle social e a dominação não parecem infringir a liberdade subjetiva. Aparecem (e são sustentadas) como a própria auto-experiência de indivíduos livres.

É por isso, finaliza o esloveno, “que se torna absolutamente imperativo manter as redes digitais longe do controle do capital privado e do poder do Estado”. Se não privado nem estatal, então comum? Taí: fortalecer a ideia de que as redes digitais e a internet tornem-se um comum, como chegaram a ser nos primeiros anos, onde quem organiza e controla são as próprias pessoas, a partir de diversas instâncias de participação e cuidado, é uma boa e difícil (aposta de) luta para os próximos tempos.

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Ola Bini, desenvolvedor de software livre e ativista pela liberdade na rede, foi detido no aeroporto de Quito, Equador, no mesmo 11 de abril em que Assange foi preso, quando embarcava para o Japão. Após mais de 24 horas sem direito a acesso a intérprete, advogado e sem notificar o seu país de origem (Suécia), a detenção foi convertida em prisão preventiva, que pode chegar até 90 dias. Sem uma acusação concreta, as autoridades do Equador anunciaram que o caso seria de um ‘hacker ligado ao Wikileaks’ e divulgaram em redes sociais o que seriam as evidências apreendidas em sua casa: laptops, tablets, celulares, hds e livros como “Cyber War” de Richard A. Clarke… Equipamentos que muitos profissionais da área da segurança da informação usam no dia a dia.

Desde 2015 Ola Bini participa como palestrante e apoiador da Cryptorave. Na sexta edição, que vai ocorrer 3 e 4 de maio deste ano, ele participaria com uma atividade sobre desenvolvimento de software com segurança por padrão. Familiares, colegas de trabalho, amigos e ativistas ao redor do mundo estão organizando uma rede por sua liberdade e um site: FreeOlaBini. Abaixo uma carta do próprio:

Carta de Ola Bini da prisão de El Inca, Equador

1. Primeiro, quero agradecer a todas as pessoas que estão me apoiando aí fora. Me contaram da atenção que este caso despertou no mundo todo e isso é algo que agradeço mais do posso expressar com palavras. A minha família, meus amigos, a todos os que estão próximos, mando todo meu amor. Tenho sempre em meus pensamentos.

2. Acredito firmemente no direito a privacidade. Sem privacidade não é possível agir e sem agir, somos escravos. Por isso dediquei a minha vida a esta luta. A vigilância é uma ameaça para todos nós, e nós devemos pará-la.

3. Os líderes do mundo estão promovendo uma guerra contra o conhecimento. O caso contra mim é baseado nos livros que eu tenho lido e da tecnologia que eu tenho. Isso é algo Orwelliano – uma Crimideia. Não podemos deixar que isso aconteça. O mundo se fechará mais e mais ao nosso redor até que não nos reste mais nada. Se o Equador pode fazer isso, outros também podem. Temos que parar essa ideia agora, antes que isso seja tarde demais.

4. Eu tenho confiança que será óbvio que não há substância para esse caso, e que isso acabará em nada.

5. Não posso evitar de falar algo sobre o sistema penal equatoriano. Eu estou sendo detido nas melhores circunstâncias e ainda assim é terrível. É necessário uma séria reforma. Meus pensamentos vão para todos os demais presos no Equador.

Ola Bini

 

Tecnopolítica e contracultura: um experimento em ação

Terminou na última quarta-feira, 13 de fevereiro, a primeira edição do curso “Tecnopolítica & Contracultura”, um passeio pelo pensamento e ação de autonomistas, anarquistas, hackers e outrxs rebeldes. Durante três dias, propomos – este que cá escreve, Leonardo Foletto, e Leonardo Retamoso palma – uma jornada por ideias, conceitos, práticas, ações e referências em busca da retomada de um pensamento tecnopolítico que bebe muito na fonte dos autonomismo e operaísmo italiano da década de 1960 para encontrar saídas de análise e ação dessa “ressaca da internet” que nos metemos neste final de década de 2010. Um público muito diverso, de cerca de 30 pessoas nos 3 dias, aceitou nossa proposta e embarcou no passeio: de recém saídos do Ensino Médio a professores pós-doutores de universidades, passando por artistas, programadores, designers, jornalistas e arquitetas, nos tornamos uma potente multidão em busca de abrir as caixas-pretas da tecnologia e entender como se dá essa louca composição que nos causa esperança e sofrimento, depressão e euforia, liberdade e prisão.

O autonomismo italiano serviu como um primeiro recorte histórico de um movimento/período/grupo que, além de tomar ruas, fábricas e universidades, criou suas próprias tecnologias (como a Rádio Alice, pioneira rádio livre criada em 1977 e com boa parte de seu acervo nesse site) e não se furtou a disputar a tecnologia em vez de demonizá-la – ou idolatrá-la como a salvação para os problemas da humanidade, esquecendo do elemento humano e político em sua construção. Depois, os fabulosos 1990 trouxeram altermundistas, zapatistas, ciberativistas, hackers e militantes do software livre a compor uma poderosa frente contra o capital global que buscava (e ainda busca) a decomposição em busca da dominação. A criatividade, expressa na guerrilha da comunicação/artivismo, foi essencial nesse período, com os teatros midiáticos coletivos de Luther Blisset e Wu Ming, bem conhecidos de quem frequenta esse espaço virtual; os protestos pacíficos dos Tute Bianche, que iam para o front (mesmo) dos protestos com chamativas roupas e equipamentos de brinquedo para pontuar o ridículo do conflito armado; os sit-in virtuais em prol dos zapatistas, que interditavam sites estratégicos em prol de uma causa específica. Com esses e outros diversos exemplos, trouxemos a discussão para o presente e identificamos como a arte, quando formada pelo encontro ingovernável de corpos eróticos, é fundamental na mudança de perspectiva sobre ruas, computadores, governos, instituições e nós mesmos.

Por fim, trouxemos os hackers e sua ética de liberdade e transparência, fundamental para a construção da internet livre como a conhecíamos até pouco tempo atrás. Pontuamos no debate os princípios contraculturais da ética hacker (aqui tem bastante material sobre isso, feito para minhas aulas de Cultura Hacker e Jornalismo), mas ouvimos o feedback que, por menos discriminatórios que sejam alguns dos princípios hackers, a prática nos diz que muitos hackers e programadores endossam o machismo e a misoginia. Para reverter esse processo é fundamental o trabalho de iniciativas que relacionam as questões feministas e LGBTQ com as tecnologias digitais e a cultura hacker, como muitas das que divulgamos nesse post no 8 de março de 2018, hackerspaces como MariaLab, grupos como Mulheres na Tecnologia e iniciativas recentes como o portal Acoso Online, que trata de trazer informações sobre publicação sem consentimento de imagens e vídeos íntimos por meios eletrônicos.


Finalizamos, nas duas horas finais das 12h de curso, com algumas inquietações, sugestões de ações e trechos de textos que nos convidam a agir.
Abrir as caixas-pretas, da tecnologia e dos sistemas políticos, econômicos e institucionais, em busca da transparência desses sistemas é um objetivo sempre em vista.
Que a urgência desse momento de tantos retrocessos e conservadorismo global seja uma inquietação para agir, não para se desesperar; há muito o que se construir, se unir e (re) lembrar afinal porque somos humanos e porque o conhecimento que produzimos pode servir para a busca de justiça social e redução das desigualdades.
Que, na aceleração da infoesfera que nos entope de informação, limitar (ou organizar) os muitos estímulos vindo de todos lados é não somente razoável como necessário para agir.
Que é importante politizar o mal-estar, como nos fala Amador Fernandez-Savater; que esse mal-estar geral que vivemos em torno dos retrocessos e ascensão de práticas relacionadas ao que chamamos de fascismo pode ser elaborado enquanto força afirmativa de transformação e de construção de possibilidades e modos de viver. Não deixar o choro e o sofrimento em casa, mas sim trazê-los, junto com o mal-estar, para o debate (hay que vir llorado de casa!) e falar sobre ele. Mesmo que não se saiba onde essa discussão vai dar: no caminho podem ocorrer mudanças que nos tiram do imobilismo da crítica pela crítica. Aprender a viver a partir e com a crise é um primeiro passo para sair dela, o que inclui não negar o subjetivo e os afetos na política, mas unir estes afetos, destrinchá-los e trabalhar com eles, compartilhando vulnerabilidades – situações como a dos três dias de curso que propomos são algumas das possíveis de fazer essa discussão.

“A ação da multidão não é outra coisa que esta proliferação contínua de experiências vitais que têm em comum a negação da morte, a recusa radical e definitiva do que paralisa o processo da vida”. (Antonio Negri)]

[A ‘deserotização’ da vida cotidiana é o pior desastre que a humanidade pode conhecer…é que se perde a
empatia, a compreensão erótica do outro…” (Franco Berardi, Bifo)]

[“A ação … diz respeito, antes de mais nada, ao sentir. Agir significa modificar a maneira de sentir junto…” (Maurizio Lazzarato)]

[“Refiro-me à multidão de festa, à multidão de alegria, à multidão espontaneamente amorosa, embriagada apenas pelo prazer de se reunir por se reunir.” (Gabriel Tarde)]

[“… o mais profundo é a pele…” (Paul Valéry)]

“Tecnopolítica e Contracultura” é um experimento disparador de ideias e ações que visam a nos tirar da letargia do “não há nada a fazer”. Como tal, segue em outros locais e com outras pessoas; nas próximas semanas vamos avisando os próximos passos e datas. Aqui está o material guia utilizado no curso. Adelante!

 

Tecnopolítica e contracultura – a estreia de um curso


Se nos anos 1990, com o casamento do digital com a internet, enxergávamos enormes possibilidades de libertação (da informação de grandes grupos midiáticos, de liberdade de falar o que bem quiser, de criar tecnologias e mundos novos), hoje parece que estamos a lidar com consequências nefastas, representadas em uma palavra na moda nestes tempos: distopia.

Nos descuidamos – ou não conseguimos? – prestar atenção na ascensão de plataformas globais de tecnologia, que por sua vez construíram bolhas de informação que confirmam pontos de vista, espalham mentiras e criam realidades alternativas que em muitos casos não há informação comprovada que consiga mudar. Como podemos compreender o contexto tecnopolítico hoje? Que caminhos podemos apontar para discutirmos e transformarmos a política que sempre está junto na construção de tecnologias?

Para tentar fazer melhores perguntas e aproximarmos de respostas que nos convoquem pra ação, propomos esse curso: “Tecnopolítica e Contracultura“, que vai estrear no Centro de Pesquisa e Formação do SESC, em São Paulo, nos dias 11, 12 e 13 de fevereiro, das 14h às 18h, conduzido por o editor desta página, Leonardo Foletto, e Leonardo Palma, pesquisador independente, agitador cultural radicado em Santa Maria-RS, ativista da Rede Universidade Nômade e um profundo conhecedor da obra dos autonomistas italianos a partir da década de 1970. O curso busca resgatar um pensamento tecnopolítico em quatro momentos: 1) os autonomistas italianos da década de 1970;  2) pós-operaísmo, altermundistas, Fórum Social Mundial e mídia tática dos 1990; 3) hackers: paranóicos visionários, dos 1980, 1990 e 2000; e o 4) hoje, com a ascensão das redes sociais como principais espaços de discussão pública nas redes digitais e o fim da internet como a conhecemos nos 1990 e 2000.

Começamos nosso percurso pelos autonomistas surgidos no maio de 68′ italiano que durou mais de uma década. Falaremos do contexto de surgimento desse, digamos, movimento, sua construção no final dos 1960 com o importante papel das revistas (em especial, Quaderni Rossi, Clase Operaia, Primo Maggio) em tornar palpável a produção de subjetividade, por em circulação e entendimento certos conceitos e ideias; da articulação com a universidade (estudantes e professores) e com os operários das fábricas italianas; da construção de alguns aparatos sociotécnicos baseados nas ideias em circulação, como a Rádio Alice; e de como todo o fértil cenário contracultural estabelecido na Itália dessa época foi dissolvido, com a criminalização e o exílio de muitos de seus participantes. Trabalharemos nessa parte com autores e histórias de Antonio Negri, Franco “Bifo” Berardi, Paolo Virno, Maurizio Lazaratto, Mário Tronti, Giorgio Agamben, Silvia Federici, entre outrxs.

Passamos então para um segundo momento, final dos 1980 e início dos 1990, trazendo histórias, textos & aparatos do pós-operaísmo, altermundistas, net-art e mídia tática. A partir da saída de Negri da prisão (1983) e seu exílio na França, sua obra começa a ser redescoberta por uma esquerda ligada mais a Foucault, Deleuze e Guatarri do que aos “partidos” institucionalizados. Os Zapatistas de Chiapas, no México, recuperam os autonomistas italianos e praticamente inauguram um ciberativismo/hackativismo na então novata internet dos 1990, com ações na rede e fora dela que vão influenciar a potencialização do movimento altermundista e na Ação Global dos Povos, que explode a partir de 1999, em Seattle, e segue pelo menos até 2003. Essa rede pós-operaísmo está articulada com o nascimento do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, 2001; com um movimento potente de cultura digital (“networked cultures”) que propagou o conceito de mídia tática, muito propagado e trabalho no brasil dos 2000;  com coletivos como Luther Blisset, Wu Ming, Critical Art Ensemble; e com muitxs pesquisadores em torno da Nettime, lista de e-mails, até hoje ativa, que reúne alguns teóricos-práticos europeus da área, como Geert Lovink, Felix Stalder, John Holloway, Trebor Scholz, Bruce Sterling, entre outrxs.

Na terceira parte, miramos um grupo de fazedores e pensadores que atua em paralelo aos autonomistas e altermundistas, às vezes se relacionando com estes e em outras não: os hackers. Surgidos enquanto grupo de pessoas e uma (contra) cultura no final dos 1960, os hackers se propagam pelos 1970, com a criação da internet e o começo da popularização dos computadores pessoais, pelos 1980, com o movimento do software livre, do copyleft e via hackerspaces, laboratórios de garagem que serão a base de um movimento, em especial em sua versão européia e latino-americana, que pratica a (contra) cultura tecnológica a partir dos princípios da autonomia digital, da segurança da informação e das táticas antivigilências. Aqui, destacamos alguns textos, ideias e projetos de Richard Stallman, criador do movimento do software livre e ainda hoje preside de Free Software Foundation, Gabriela Coleman, Tatiana Bazzichelli, Eric Raymond, Richard Barbrook, Pekka Himanen, Chaos Computer Club, Julian Assange, Linus Torvalds, entre outrxs também brasileirxs ligados aos grupos da MetaReciclagem, Transparência Hacker, BaixoCentro, Casa da Cultura Digital.

No desfecho, falamos do espírito da “Ressaca da Internet” já comentado em texto por aqui, mas que aprofundaremos no curso. e dos tempos de “decomposição” que vivemos, onde cada vez mais o “autômato” está tomando toda nossa força de imaginação, como fala Bifo em recente palestra na Argentina, em Novembro de 2018. Bifo, aliás, é um dos elos entre todos s momentos do curso; está presente da Itália dos 1970 aos altermundistas dos 1990, ainda hoje ativo pensando, escrevendo e propagando a ideia de que não devemos nos acomodar com a ascenção fascista que nos cerca, em especial no Brasil e na América Latina, e que a força de nosso pensamento e do conhecimento é demasiadamente mais rica do que a que apresentada neste cenário brutal em que vivemos neste 2019.

Como aperitivo do curso, o vídeo de Bifo acima comentado está aqui abaixo e sintetiza algumas questões a serem abordadas entre 11 e 13 de fevereiro. Aos que não forem de SP, aguardem, montamos esse curso com muito estudo e gosto para circular em outras cidades também. Inscrições e mais informações no site do Sesc.

Créditos imagens: divulgação do curso; autonomismo italiano; altermundismo; hackers;

Retrospectiva 2018

Na última edição do ano de nossa newsletter (já assinou?) em parceria com a CCD POA, fizemos uma retrospectiva de 2018 a partir das nossas 18 edições enviadas quizenalmente, entre abril e dezembro. Mais uma vez começamos uma tradição que não sabemos quanto tempo vai durar, mas desde o princípio do Baixa gostamos disso. Segue abaixo a recompilação mês a mês, com os links para as íntegras de cada boletím e a data do mês em que cada uma foi enviada. Ao final, apresentamos uma nuvem de tag com todas as 137 páginas de texto Arial 11 espaçamento simples que renderam as 18 edições dos boletins. Aguarde a próxima em 10 de janeiro de 2019, com novidades. Boa virada e que 2019 seja um ano potente!

abraços,
Leonardo Foletto,
editor do BaixaCultura

Abril (19)

Nossa news começou em abril com um tema que seria comum aqui até o final do ano: Ressaca da Internet, que depois viraria texto no BaixaCultura e no Outras Palavras. Também foi a edição em que comentamos o “vazamento” dos dados do Facebook via Cambridge Analytica, uma situação que criaria ainda diversas notícias no ano, como o depoimento de Mark Zuckerberg no Senado Americano, e desencadearia uma crise na maior rede social digital do planeta que não parece terminar em 2019. Falamos também do financiamento recorrente do BaixaCultura no Apoia.se, um primeiro experimento para tentar viabilizar a mídia alternativa digital sobre cultura livre & tecnopolítica, que continua firme e querendo ser maior – em dezembro de 2018 temos 42 apoiadores mensais, das quais agradecemos muito. A íntegra dessa edição primeira pode ser lida aqui.

Maio  (3, 10 – edição especial Cryptorave, 24)

Maio foi um mês com três boletins. A edição #2 (leia completa) teve um texto que, hoje, soa até mais instigante que antes – Que tal nós mesmos usarmos e agregarmos valor aos dados que produzimos na internet? E também começamos os inúmeros relatos sobre o dilema Google x Ética. Teve edição especial (leia aqui) com a cobertura da CryptoRave 2018, realizada em 4 e 5 de maio na linda Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Foi também momento de discutir ética e inteligência artificial e a moribunda neutralidade da rede nos EUA, em nossa edição #4 (leia completa). Já nos informes nossos, publicamos no BaixaCultura uma BaixaCharla com Rodrigo Savazoni e Geórgia Nicolau, do Instituto Procomum, em Santos, lugar a qual um dos que cá escreve nesse boletim, Leonardo Foletto, voltaria algumas vezes ainda em 2018 para documentar o processo da instigante Colaboradora; e o Diálogos Abertos #1, nosso programa de conversa por streaming, no qual falaríamos, é claro, do caso do Facebook (disponível aqui na íntegra).

Junho (7 e 21)

Em junho começamos a relatar mais de perto a votação da Lei de Proteção de Dados Pessoais, como se percebe na edição #5 (aqui na íntegra), que entre outros vários assuntos, traz um alerta sobre as mudanças no WhatsApp impostas pelo Facebook (e que abriram as portas para o caos dos impulsionamentos de “notícias”), divulga a interessante pesquisa de Bia Martins sobre os hackerspaces do Brasil e a polêmica compra do GitHub pela Microsoft. Devido a série de notícias e informações que publicamos à época e que de alguma forma põe fim a utopia de uma internet livre e neutra, nossa edição número #6 (íntegra aqui) teve como texto inicial “A distopia da realidade”, onde, entre outros tópicos, falamos que todo esse mundo de vigilância digital que vivemos hoje foi “previsto” pelos hackers e pelos ativistas mais antigos do software livre, como o próprio Richard Stallman – que sempre foram chamados de paranóicos… Não por acaso, nossa segunda edição do Diálogos Abertos debateu do fim da internet como a conhecemos.

Julho (5 e 19)

Julho foi o mês de, além de acompanhar as votações no congresso e a pauta tecnopolítica global, falar do caso da Abin e o seu desejo em ser a NSA brasileira e do insólito caso do “El Paquete Cubano”, como vocês podem ler na edição #7 da newsletter. Também foi mês de dar dicas de leitura, vídeos e bots para acompanhar, falar um pouco do machismo no mundo da tecnologia a partir de uma situação do 18º FISL (Fórum Internacional do Software Livre), de retomar o sempre pertinente assunto da reforma da lei de direitos autorais, e de divulgar os resultados da State of Commons, mapeamento anual de produtos licenciados em Creative Commons  ao redor do mundo, como vocês podem ler na edição #8 do boletim.

Agosto (2, 16 e 30)

Agosto teve três edições de nossa newsletter. Na primeira (#9), nos (re) perguntamos, dados às situações à época ocorridas, se a democracia estaria ameaçada pelo uso malicioso da tecnologia – mal sabíamos que nas eleições teríamos um caso para chamar de nosso nesse contexto… Falamos da epidemia das fake news e fizemos uma terceira edição do Diálogos Abertos justamente sobre isso. Também citamos as primeiras preocupações com aplicações indevidas da tecnologia de reconhecimento facial e novamente, Google x Ética. No BaixaCultura, fizemos uma “reportagem work-in-progress” (ou seja, sempre em construção) sobre as redes livres, trouxemos um relato do ESOCITE (Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología) em Santiago do Chile e falamos de como o RSS pode ser usado para fugir dos algoritmos nada transparentes que selecionam as informações para nós nas redes sociais. Você pode ler tudo mais que informamos em agosto nas edições #10 e #11, com destaques para os vetos da nossa LGPD (ainda não derrubados, pois é), a culpa do zero rating na propagação das fake news e o lançamento do Fato jurídico da quinzena.

Setembro (14 e 27)

Na seara dos direitos digitais, em setembro tivemos duas notícias importantes vindas da Europa: a condenação do serviço de inteligência britânico GCHQ pelo programa de vigilância em massa das comunicações, prática revelada lá em 2013 por Snowden. E a aprovação, pelo Parlamento Europeu, do projeto de lei de direitos autorais chamado de “Copyright Directive”, que, se posto em prática, criará um cenário de restrição pesado de liberdade de expressão no Velho Continente, o que certamente respingará por aqui. Detalhamos ambas notícias na nossa edição #12, enquanto que na seguinte destacamos o aniversário (10 anos!) do BaixaCultura, apresentamos o Diálogos Abertos #4 com um bate-papo e uma apresentação de ferramentas para acessar uma internet livre e segura e comentamos sobre o perigoso projeto Dragonfly, um mecanismo de pesquisa feito pela Google sob medida para a China, com a censura já colocada desde o princípio. O projeto foi cancelado agora em dezembro, se tornando um ótimo exemplo de como ações de oposição às grandes corporações as vezes funcionam.

Outubro (11 e 25)

Em plena eleições brasileiras, nos perguntamos: como os bots arruinaram o click ativismo? Enxurrada de bots, perfis falsos de redes sociais, envio ilegal de mensagens de WhatsApp… as edições de outubro – a #14 e a #15 – trouxeram uma seleção de informações e comentários que foram influenciados pela batalha eleitoral que tivemos neste 2018. Mas não só: falamos também da possibilidade de criminalização da criptografia, trouxemos uma agenda só de eventos de tecnologia voltado para mulheres, via Ada.vc; no BaixaCultura, trouxemos um longo e importante texto de como pesquisar anonimamente com o melhor e mais seguro buscador na rede, DuckDuckGo, enquanto que realizamos, como co-organizadores ao lado da Data Privacy Brasil e da Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP), o Workshop Lei de Proteção de Dados Pessoais, em Porto Alegre.

Novembro  (8 e 22)

Se antes das eleições brasileiras já falávamos em distopia, depois, com a eleição de Jair Bolsonaro como presidente no Brasil e um congresso tomado pela bancada BBB (bala, boi e Bíblia) e outros péssimos governantes como deputados e governadores, aí a distopia virou mesmo realidade. Retomamos, tanto na #16 quanto na edição #17, a questão da dependência tecnológica que ameaça a democracia, assim como voltamos (ou melhor: nunca paramos de) a falar do Facebook, que agora passou a vender nossas mensagens privadas por 10 centavos. Também falamos de coisas boas: o Encontro de Cultura Livre do Sul, que reuniu cerca de 200 pessoas de toda a ibero-américa em 3 dias intensos de debates, rodas de conversa, exposições em videoconferências na rede que já estão todas disponíveis no link acima. E do(s) lançamento(s) do novo zine do BaixaCultura, “A Ideologia Californiana”, de Richard Barbrook e Andy Cameron, primeiro volume da coleção Tecnopolítica, editada em parceria com a Monstro dos Mares.

Dezembro (7)

Começamos o último mês do ano, este que ainda estamos enquanto você recebe esse boletim de informações por e-mail, um pouco cansados de tudo que passou nesse intenso 2018. Mas não deixamos de trazer notícias e análises importantes, como uma excelente matéria no El País que se pergunta: ainda é possível resgatar a essência da web como espaço aberto e neutro? Nela,  são apresentados o que alguns pioneiros (Tim Berners-Lee, Jaron Lanier, Douglas Rushkoff) tem trabalhado em projetos que buscam um retorno à essência da web como espaço aberto, gratuito, neutro, seguro e construído por todos. Na edição #18, falamos também das criptofestas que ocorreram no final do ano, em especial a CripTRA, em Maquiné-RS, que participamos com algumas rodas de debate sobre mídia, privacidade, criptografia e articulação de uma rede de apoio para a segurança na internet aqui no Sul.

O top10 das palavras mais utilizadas nas newsletter desse ano:
Dado: 341; Rede: 240; Internet: 237; Livre: 203; Lei: 199; Direito: 183; Ser: 175; Projeto: 171; Tecnologia: 169; Empresa: 165.
Essas palavras dizem algo para você? Talvez não muito, mas é interessante e divertido de “resumir” nossos textos em algumas palavras mais usadas.

“A Ideologia Californiana” em Porto Alegre e Maquiné

Em 1995, a internet comercial estreava no Brasil., Mark Zuckerberg ia a escola primária em White Plains (interior do Estado de Nova York, nos EUA) aos 11 anos, Larry Page e Sergey Brin se conheciam na pós-graduação em computação em Stanford (na California) e começavam a trabalhar na ideia do Page Rank (que originaria o Google três anos depois) e Richard Barbrook e Andy Cameron (então membros do Hypermedia Research Centre of the University of Westminster, em Londres), publicavam um ensaio chamado “A Ideologia Californiana” na Mute Magazine, texto que logo circularia pelas então populares listas de e-mails e seria uma das primeiras críticas ao  agressivo neoliberalismo do Vale do Silício.

A explosão da bolha especulativa das empresas de internet no final dos 1990 poderia ter servido como um alerta sobre aonde esse pensamento poderia levar o planeta, mas a sedução da ideologia californiana persistiu e espalhou-se com a ajuda do Google, Facebook, Apple, Amazon e vários outros dos gigantes do Vale do Silício que hoje fazem parte de nossa vida cotidiana. Prosperou a ideia de um mundo pós-industrial baseado na economia do conhecimento, em que a digitalização das informações impulsionaria o crescimento e a criação de riqueza ao diminuir as estruturas de poder mais antigas, em prol de indivíduos conectados em comunidades digitais. E hoje, queiramos ou não, predomina na nossa sociedade digital.”

23 anos depois, o texto continua atual e relevante. Por conta disso, o BaixaCultura, laboratório online de cultura livre, em parceria com a Editora Monstro dos Mares, lança nesta sexta-feira 14, em Porto Alegre, “A Ideologia Californiana – Uma crítica ao livre mercado nascido no Vale do Silício”. A edição, produzida artesanalmente, tem 43 páginas, introdução do editor do BaixaCultura e Doutor em Comunicação pela UFRGS, Leonardo Foletto, a partir do tradução do inglês feita por Marcelo Träsel, professor de jornalismo da Fabico/UFRGS.

O texto é o primeiro volume de uma coleção criada em parceria com a Monstro dos Mares, nominada “Tecnopolítica”, que busca trazer, em formato artesanal e de baixo custo, textos considerados clássicos e outros inéditos sobre a vasta discussão em torno da tecnologia e suas relações com a sociedade, a política e a comunicação. O próximo lançamento da coleção será uma coletânea de textos clássicos sobre criptografia e política, do início dos anos 1990.

O lançamento de “A Ideologia Californiana” vai ocorrer na Livraria Taverna, espaço de resistência literária e cultural no centro histórico de Porto Alegre, na Fernando Machado, 370, às 19h30, com um bate-papo sobre o livro/zine entre o tradutor, Marcelo Träsel, e o editor, Leonardo Foletto. No local, haverá comidas (com opções veganas) e cervejas artesanais, além, é claro, do livro/zine para venda a R$10. PEDIDOS do zine em info@baixacultura.org. Entrega em todo o Brasil.

SERVIÇO

Lançamento “A Ideologia Californiana”, de Richard Barbrook e Andy Cameron, em edição artesanal do BaixaCultura e Monstro dos Mares.
Sexta-feira, 14 de dezembro, 19h30
Livraria Taverna (Fernando Machado, 370), Centro Histórico, Porto Alegre – RS

Fotos: Sheila Uberti

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Já o segundo lançamento será na CripTRA – criptofesta do Alto Tramandaí, em Maquiné,uma pequena cidade próxima da costa do Rio Grande do Sul conhecida por suas belas cachoeiras, a cerca de 1h30 de Porto Alegre. A criptofesta é uma iniciativa inspirada nas CryptoParties mundiais, na CryptoRave e faz parte de uma série de eventos dessa temática que estão sendo realizados no Brasil desde novembro. Inscrições gratuitas. “Com a CripTRA queremos construir um encontro gratuito, aberto e acessível, que propicie a troca de aprendizado sobre segurança digital, criptografia, anonimato, software livre e com isso promover a liberdade de expressão e de existências”, escreve a organização, autogestionada por uma série de pessoas e coletivos que se preocupam com segurança da informação e técnicas antivigilância na internet.

Na CripTRA, faremos uma conversa rápida com o editor do livro/zine, este que vos escreve, e de como a ideologia californiana está na base da vigilância e no capitalismo de dados atual. Também participaremos da Mesa de Abertura, às 11h, uma conversa sobre Mídias, Privacidade e Vigilância, ao lado de Chúy (que vai falar sobre Repressão) e a Mar1sc0tron (Mídia Livre). E, via Casa da Cultura Digital Porto Alegre,  teremos um debate, às 14h, sobre “Tecnopolítica, proteção de dados e segurança digital na América Latina“, uma “performance” da nossa PirateADA, dispositivo canino-digital que cria uma rede livre aberta de compartilhamento de arquivos e um chat anônimo, e, por fim, às 20h uma roda de conversa sobre “Formas de articulação e formação de rede no RS em tempos de resistência”. Confira toda a programação.

SERVIÇO

Lançamento “A Ideologia Californiana”, de Richard Barbrook e Andy Cameron, em edição artesanal do BaixaCultura e Monstro dos Mares.
Sábado, 15 de dezembro, 16h
CripTRA – Criptofesta do Alto Tramandaí (Canto da Terra Armazém Café, Rua Luiz Alves da Costa 715)

 

 

Novo zine: A Ideologia Californiana

“A Ideologia Californiana”, de Richard Barbook e Andy Cameron, é o nosso próximo lançamento em zine. Com introdução do editor do BaixaCultura, Leonardo Foletto, e tradução de Marcelo Träsel (professor de jornalismo da UFRGS), é uma parceria com a Editora Monstro dos Mares, que fez o projeto gráfico. Será o primeiro de uma coleção publicada em parceria chamada “tecnopolítica”, que busca trazer textos considerados clássicos e outros inéditos sobre a vasta discussão em torno da tecnologia e suas relações com a sociedade, a cultura e a comunicação.

Estamos combinando para novembro um primeiro lançamento do zine, com convidados e debate, em Porto Alegre, avisamos a data por aqui. Um trecho da introdução, remixada dessa postagem do site: “Barbrook e Cameron definiam a tal ideologia como uma improvável mescla das atitudes boêmias e antiautoritárias da contracultura da costa oeste dos EUA com o utopismo tecnológico e o liberalismo econômico. Dessa mistura hippie com yuppie nasceria o espírito das empresas .com do Vale do Silício, que passaram a alimentar a ideia de que todos podem ser “hip and rich” – para isso basta acreditar em seu trabalho e ter fé que as novas tecnologias de informação vão emancipar o ser humano ampliando a liberdade de cada um e reduzir o poder do estado burocrático.(…) A explosão da bolha especulativa das empresas de internet no final dos 1990 poderia ter servido como um alerta sobre onde esse pensamento poderia levar o planeta, mas a sedução da ideologia californiana persistiu e se espalhou com a ajuda do Google, Facebook, Apple, Amazon e vários outros dos gigantes do Silício que hoje fazem parte da nossa vida cotidiana. A ideia de um mundo pós-industrial baseada na economia do conhecimento, em que a digitalização das informações impulsionaria o crescimento e a criação de riqueza ao diminuir as estruturas de poder mais antigas em prol de indivíduos conectados em comunidades digitais, prosperou. E hoje, queiramos ou não, predomina na nossa sociedade digital.”

As fotos são de Tiago MX, da Monstro, também autor do projeto gráfico do site.