RSS para fugir dos algoritmos das redes sociais

Victor Wolffenbüttel chegou até nós pelo caminho mais tradicional na internet: o e-mail. Nos escreveu para elogiar o trabalho aqui realizado e indicar um texto, de sua própria autoria, sobre o RSS, essa eficiente forma de organizar informação na rede infelizmente esquecida nestes tempos de redes sociais. O texto em questão, publicado aqui abaixo, faz um amplo panorama da história e da praticidade do RSS. É quase um artigo de arqueologia da mídia, pois descreve tanto a história do RSS quanto seu funcionamento técnico de forma simples, mas sem ser simplista. Mas além de descrever a técnica e apontar o lado subversivo de se usar RSS hoje em dia, ele também aponta caminhos, como um tutorial, para você mesmo construir seu próprio feed sem passar por algoritmos cada vez menos transparentes como as das redes sociais.

É a primeira colaboração de Victor aqui no BaixaCultura. Ele é estudante de Administração e mora em Novo Hamburgo, uma das maiores cidades da região metropolitana de Porto Alegre. Escreve sobre tecnologia e cultura, criador e editor da newsletter literária Quasar. Bem-vindo, Victor!

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Como e por que utilizar RSS

UMA FERRAMENTA PARA FUGIR DOS ALGORITMOS DAS REDES SOCIAIS

Em março de 2017, o criador da internet, Tim Berners-Lee, publicou um texto no jornal inglês The Guardian referente ao aniversário de 28 anos do protocolo web inventado por ele, o World Wide Web, principal forma de utilizar a internet até hoje — e que a maioria de nós, usuários comuns, tratamos como “a” internet. No seu texto, Barnes-Lee é sucinto: ele está preocupado com três coisas na rede moderna. Não há declarações de amor ou histórias de superação brega no seu artigo. A internet está com problemas, e precisa de respostas. Os três desafios na rede atual, segundo ele, são: como o usuário perdeu controle de seus próprios dados pessoais; como é fácil para informações falsas se espalharem na web; e a falta de transparência na propaganda política.

Eu poderia traduzir todo o texto numa tacada só, mas vou me conter e utilizar apenas um parágrafo de referência para onde quero chegar. Sobre a desinformação na web, o criador da coisa toda diz (tradução livre):

“Hoje, a maioria das pessoas encontram notícias e informações na web através de algumas redes sociais e buscadores. Esses sites faturam mais quando clicamos nos links que nos mostram, e eles escolhem o que nos mostrar através de algoritmos que aprendem com nossas informações pessoais, as quais eles coletam constantemente. O resultado é que esses sites nos mostram conteúdo que acham que nós vamos clicar — ou seja, desinformação e notícias falsas, as quais são surpreendentes, chocantes ou feitas para atrair nosso interesse, podem se propagar como um incêndio.”

A preocupação de Tim Bernes-Lee quanto a desinformação e aos algoritmos das redes sociais não é nova, e tem sido amplamente divulgada. O processo de adquirir informações está passando por alterações que afetam profundamente o jornalismo e a mídia como um todo. Na verdade, o jornalismo vem sofrendo mudanças drásticas e questionamentos sobre seu modelo de negócios. Dentro dessa preocupação geral e do cenário caótico, escrevo para propor uma ajuda ao usuário.

A INTERNET ATRAVÉS DO TEMPO

Nesses vinte e oito anos de existência da internet, muitos hábitos e muitas ferramentas já foram tendência, e os usuários mais antigos devem lembrar de uma tonelada desses. Para o brasileiro que estava lá quando tudo começou por aqui, aquele que usava internet discada durante a madrugada porque era de graça e acordava todo mundo em casa porque o barulho do modem era insano, podemos citar o Netscape, Cadê e o ICQ como ferramentas comuns. Depois, se estabeleceram Google, Orkut, Youtube, Kazaa, MSN, Fotolog, MySpace, Blogger, WordPress, os portais Uol e Terra, por exemplo. Hoje, nossas ferramentas, chamadas “aplicativos”, são Facebook, Twitter, Instagram, Whatsapp, Telegram, Snapchat, Tumblr, Medium, Netflix.

(É claro que essa linha do tempo de sites e serviços não ficou extremamente precisa, cada usuário conheceu alguma ferramenta a algum tempo, e podem haver questionamentos — um amigo meu ainda usa o ICQ no seu ambiente profissional, por exemplo. É claro que também esqueci um monte de outras saudosas aplicações, mas isso não vem ao caso.)

A tendência gritante entre os serviços citados é a transformação do acesso: o computador vem sendo abandonado. O navegador utilizado, seja ele o Firefox, Chrome, Opera ou Safari, não é mais necessário para acessar nenhum dos aplicativos listados por último. O abandono do desktop e dos browsers aponta para uma das novas tendências da internet: o cercamento do usuário. Tirando aquelas pessoas que trabalham na frente do computador e tem tempo livre para surfar na web e pesquisar páginas à vontade, quantos hoje em dia têm uma lista de sites favoritos? O usuário tem acessado suas informações pelos mesmos aplicativos e redes sociais. Se você não tem o aplicativo da Folha ou do Globo ou de qualquer outro grande jornal no celular, eu duvido que se informe por outro meio que não o Twitter ou Facebook. E a sua visão das notícias está condicionada a um algoritmo muito mais poderoso que a antiga disposição das informações nos cadernos dos jornais.

PÓS-INTRODUÇÃO: REDESCOBRINDO UMA FERRAMENTA

A partir desse ponto, eu poderia começar a direcionar o texto para qualquer um dos aspectos mencionados por Tim Bernes-Lee no seu parabéns-alerta de aniversário, os quais indicam uma internet prejudicada e prejudicial para o usuário comum: compartilhamento involuntário dos dados pessoais e privados; alienamento do usuário através de algoritmos que podem simplesmente apagar um assunto ou uma pessoa da sua vida; centralização da forma de obter informação; propaganda política disfarçada de informação; etc., etc. Mas o meu interesse nesse assunto todo é apresentar uma ferramenta (spoilers estão no título do texto), e fazer o leitor entender porque ela pode ser útil nesse mundo preocupante em que estamos. Quando eu digo preocupante, quero dizer, capaz de fazer um magnata sem nenhum preparo, intolerante e conservador ser eleito presidente do país mais poderoso do mundo.

O uso dessa ferramenta ajuda a evitar que casos como o de Myamar, um país asiático que mudou de um regime ditatorial para uma democracia há poucos anos, se tornem cada vez mais comuns. O Buzzfeed News fez uma matéria impressionante mostrando a inclusão digital do povo do pequeno país. Essa inclusão — feita através do acesso total da internet de uma hora pra outra — é integralmente baseada no Facebook (alguns usuários acreditam que “internet” e “Facebook” são a mesma coisa, deixando de aproveitar a vastidão de conteúdo online), e os novos hábitos virtuais da população têm aumentado a intolerância religiosa do país.

Não estou me referindo a um produto de uma nova startup que vai salvar o mundo. Não é um app que você baixa e milagrosamente muda a rotina da sua vida. É um recurso que está disponível na internet há muito tempo e que nunca foi muito popular, mas que se mostra poderosíssimo num mundo de algoritmos pré-definidos com critérios secretos de exibição de resultados. Do que eu estou falando? Do RSS. Às vezes chamado de feed, ou feed RSS, ou Atom, etc.

EM TERMOS TÉCNICOS E PRÁTICOS: O QUE É RSS

RSS é uma sindicação web. Sindicação é um termo oriundo da televisão, e uma prática muito comum em países como os Estados Unidos, onde canais de TV locais compram e vendem programas para exibição ao vivo e/ou gravada de outros canais em outras localidades. Qualquer ferramenta de sindicação web, então, seria uma adaptação disso: um meio de reproduzir o conteúdo lançado por um site através de outro site ou outro programa, enfim. A sigla RSS significa Really Simple Syndication, ou seja, “Sindicação Realmente Simples”.

Muitos desenvolvedores trabalharam nessa ferramenta desde seu surgimento. Ela começou por iniciativa de alguns técnicos do falecido navegador Netscape, que lançaram a versão 0.9. Depois que o browser foi comprado pela AOL, o projeto foi deixado de lado, mas outros programadores continuaram aprimorando a sindicação, até ela chegar na versão 2.0 em 2005, na qual se mantém até hoje. A história do RSS é cheia de personagens e conflitos por direitos autorais. Por ter sido um trabalho abraçado pela web e desenvolvido abertamente durante algum tempo, os técnicos da Netscape tiveram problemas quando quiseram registrá-lo como propriedade intelectual, especialmente depois de ter abandonado a ideia na versão 0.9.

(Para quem quiser ler toda a história, está disponível na Wikipédia em português.)

Em termos de programação, o RSS é o que e os programadores chamam de “dialeto” dentro da linguagem XML (eXtensible Markup Language), a qual é utilizada para vários fins de organização de páginas. Olhando um arquivo XML puro, ele parece com HTML, exceto que podem ser criados novos dialetos e cada dialeto pode possuir diversas tags — daí o “eXtensível” no nome. RSS é então um arquivo em linguagem XML que é disponibilizado e atualizado automaticamente pelo site que o gera. Ele está disponível na maioria dos sites como uma página própria, a qual é facilmente acessível através do famosos ícone do RSS:

Você certamente já viu esse símbolo antes por aí

Resumindo tecnicidades em termos simples, RSS é um arquivo que se atualiza sempre que o site atualiza também. Qual o interesse nisso? Arquivos em linguagem XML não foram feitos para serem consumidos diretamente por humanos, mas sim interpretados por outras aplicações que então disponibilizam a versão final para as pessoas. O RSS se torna realmente interessante quando utilizado junto aos chamados leitores ou agregadores.

Como parecia o agregador mais famoso de todos, o Google Reader, antes dele ser extinto

Através dos agregadores, o usuário pode se inscrever nos seus sites favoritos e acompanhá-los diretamente pelo leitor de feeds. Todas as atualizações aparecerão lá diariamente e o usuário não precisa visitar a homepage. A princípio, pode parecer pouco interessante para quem acessa a homepage de apenas um site, por exemplo, o G1. Mas mesmo para esse usuário, é melhor utilizar o leitor de feed, pois não agride visualmente, não distorce as manchetes, e não tem publicidade. Texto puro, organizado para leitura no agregador, separado em postagens, classificados apenas em “lidos” ou “não lidos”.

O RSS se torna realmente interessante para quem gosta de acompanhar mais de uma página na web. Ele te dá o poder de concentrar todos os sites em só um e poder decidir se quer ler certo texto ou não, de forma simples!! Todo o conteúdo é listado verticalmente, tornando-se uma questão de escolha intelectual pura do leitor. Apesar de absurdamente simples, vou descrever um pequeno tutorial para começar a utilizar um agregador RSS e como adicionar os feeds.

UTILIZANDO RSS: INTRODUÇÃO AOS AGREGADORES

Basicamente, o que deve ser feito é baixar ou criar uma conta online em algum agregador de RSS. Existem centenas pela internet. Antigamente, essa função era praticamente monopolizada pelo Google Reader, um dos melhores leitores de feed que já houve, especialmente pela sua função social de compartilhar os textos lidos com outros usuários através de um verdadeiro Facebook de textos. Porém, o Google Reader foi descontinuado pelo Google devido à baixa popularidade (a quantidade de produtos do Google que foram abandonados por popularidade, independente de quão boa a ideia era, assusta).

Um dos agregadores mais populares hoje em dia é o feedly, o qual adicionou uma penca de funções nos últimos anos, as quais, pra mim, só afastaram o usuário comum. Logo que o Reader acabou, eu tentei utilizá-lo, mas a bagunça visual me fez desistir. Outro feed conhecido é o The Old Reader, o qual se propõe a ser exatamente igual ao antigo Google Reader (o nome diz tudo), mas, pelo menos nas vezes em que tentei usar, pareceu extremamente instável e lento. Atualmente, utilizo o Digg Reader — depois de muitas tentativas com softwares baixados ou clientes de email (sim, é possível ler feeds de sites usando o Outlook, por exemplo). Não lembro como descobri que o Digg tinha um agregador, mas é esse que recomendo, por estar utilizando a mais tempo — mais tempo até do que usei o Google Reader. O aplicativo para celular também é muito simples, e permite leituras agradáveis dentro do possível (ler no celular nunca vai ser agradável). É possível se inscrever usando email ou alguma conta já registrada no Google, Facebook ou Twitter.

O Digg Reader é a minha recomendação pessoal, mas existem outros milhões de agregadores por aí. Como dito antes, é possível ler os feeds RSS até mesmo no cliente de email, o que vem bem a calhar quando se é usuário de um desses softwares, como Thunderbird ou Outlook. A configuração pode demorar um pouco mais, mas não é nenhum bicho de sete cabeças.

UTILIZANDO RSS: CATANDO OS LINKS PARA FEEDS 

Baixado o software ou inscrito no site, a segunda etapa é procurar o feed dos seus sites favoritos. Provavelmente, o famoso botão de RSS vai estar bem no alto ou bem embaixo do site, junto com os ícones de Facebook, Twitter e etc. Clique nesse botão, ele vai te direcionar para a página do arquivo XML. Copie o link da URL. Geralmente, ele se parece com http://[site].com/feed ou http://[site].com/rss ou algo do tipo, mas isso não é uma regra. Entre no seu agregador favorito e vá em alguma coisa parecida com “adicionar feed RSS” ou “inscrever-se em RSS” e cole o link lá. Pronto, você já está inscrito. A partir de agora, sempre que o site atualizar, o feed vai automaticamente carregar o texto no seu agregador. Ele estará disponível exatamente como no site, sem precisar sair do leitor.

Em alguns agregadores, está incorporado uma ferramenta de pesquisa de feeds, o que é ótimo, porque aí você não precisa procurar o link no site. Só digite o nome do site na busca, e ele vai providenciar o feed. O que pode acontecer é o site não possuir RSS. O G1, por exemplo, não tem. Nesse caso, recomendo começar a ler outro site, porque esse não está conforme os bons hábitos da internet, o que me leva a outro ponto: o feed não é só uma ferramenta qualquer, ele é histórico para a web.

O RSS ESTÁ POR TODA A INTERNET SÓ VOCÊ NÃO VIU

Antigamente, redes sociais como Twitter e Facebook geravam RSS para cada um dos perfis na rede. Era excelente, porque você poderia seguir as pessoas que você gostava sem nem mesmo possuir conta na rede social. Se adicionasse o link no seu agregador, todos os tuítes da pessoa apareceriam como atualizações, por exemplo. A função foi descontinuada pelas grandes redes. Hoje em dia, existem sites, como Queryfeed, que substituem a função nativa e geram os feeds de perfis. Um excelente incentivo para abandonar as redes e continuar acompanhando as páginas de interesse. Sites de torrent como Pirate Bay disponibilizam o link de RSS de todo o site, o que leva a uma prática interessante para os usuários: baixar automaticamente arquivos a partir do momento em que o feed atualiza com seus links magnéticos. Você pode se inscrever no link da sua série favorita e baixar os episódios assim que foram disponibilizados, por exemplo. Os clientes de torrent possuem agregadores de feed que são utilizados especificamente para essa prática, conhecida como Broadcatching.

Por fim, o melhor exemplo do poder do RSS na internet e da sua influência na história da redes são os podcasts. O conceito de podcast é exclusivamente baseado no uso de RSS para disponibilizar um arquivo de áudio baixável. Os podcasts feitos em site de streaming como Youtube e Soundcloud se proliferaram nos últimos anos, mas nenhum deles, se fosse catalogado, seria um podcast segundo o conceito original. Conforme definido pelo escritor Warren Ellis em sua newsletter [tradução livre], “Um podcast é um arquivo de áudio que um programa de podcasts pode capturar e baixar para um dispositivo. Um arquivo no Mixcloud ou Soundcloud não é um podcast”. É claro que o conceito original pouco importa para o sucesso desses programas, e até acredito que quem está fazendo audioblogs no Youtube hoje deve ter mais sucesso do que a maioria de podcasts perdidos em blogs, buscando alguns assinantes no seu feed que é baixado por aplicativos de celular. A importância da definição de podcast, nesse caso, é mais histórica que tecnológica: em 2004, não existia streaming, e o download automático do seu programa favorito era como a assinatura do seu jornal ou revista favoritas, que chegavam — esse verbo cada vez mais no passado — direto na sua casa.

O RSS É POLÍTICO

Sei que citar exemplos de torrent (uma tecnologia que, apesar de revolucionária, tem sido deixada de lado pela comodidade do streaming) e podcasts (um tipo de conteúdo que sempre foi marginal, com poucos exemplos de verdadeiro sucesso) pode parecer pouco mercadológico para o produto que estou tentando vender — e hoje em dia tudo tem que ser observado dentro de uma perspectiva do marketing. Mas não peço desculpas, porque a lógica é contrária: antes da internet, a criação de conteúdo e a informação eram amplamente monopolizadas. O interesse das massas era facilmente direcionado conforme o conteúdo exposto pela mídia através dos meios de comunicação. Com o surgimento da rede, abriu-se o espaço necessário para buscar novas fontes de informação, controle pessoal do que se consome e liberdade de pensamento. O relato mais preciso sobre a transformação da web foi feita pelo documentarista Adam Curtis no seu filme mais recente, HyperNormalisation [tradução livre]:

A internet atraiu as pessoas porque era hipnotizante. Era um lugar onde você poderia explorar e se perder da forma que quisesse. Mas através da tela, como num espelho de duas vias, agentes estavam te assistindo e prevendo e guiando a sua mão no mouse. […] Com o aumento na quantidade de dados obtidos pelos sistemas online, novas formas de controle começaram a surgir. As redes sociais criaram filtros, algoritmos complexos que observavam o que o indivíduo gostava, e os servia com mais disso. No processo, usuários começaram a ser atraídos, sem notar, para bolhas que os isolavam de enormes quantidades de outras informações. Eles só viam e ouviam o que gostavam. E o feed de notícias, cada vez mais, excluía qualquer coisa que poderia mudar seu ponto de vista pré-existente.

O controle vem sendo retomado por grandes grupos. Em um celular de usuário comum, o sistema operacional, o navegador, o buscador e o canal de vídeos (para dizer o mínimo) são todos da mesma empresa, o Google. Além disso, o Whatsapp, o Facebook, o Instagram e o Messenger são todos também da mesma empresa. Por isso, o uso de RSS, apesar de parecer datado, é essencial retomarmos as rédeas do consumo de informação, descentralizar e desalgoritmizar nossa internet. A comodidade tem nos levado para o mesmo lugar em que estávamos antes, mas o grande ponto da rede é não ser cômoda: é aproveitar a oferta máxima de conteúdo que pode existir para fazer o que você quer, e não deixar que algumas empresas te indiquem o caminho.

Pillku e a cultura livre latino-americana

A cultura livre latino-americana é muitas vezes tão desconhecida pelos brasileiros quanto a música, os costumes e a literatura dos nossos vizinhos hispano-hablantes. Um dos elos de ligação mais importantes dessa cultura é a Pillku, uma revista digital com edições trimestrais publicada desde 2011, sempre com assuntos caros (ou tangenciando) à temática principal, cultura livre e o (pro) comúm.

Quem produz a revista é o coletivo Código Sur, grupo de pessoas, de diversos países da América Latina, que trabalham para fornecer serviços com tecnologias livres seguras para movimentos sociais, outros coletivos e pessoas que trabalhem em prol de causas como os direitos humanos, liberdades individuais, ecologia e outros tipos de processos sociais de emancipação. São uma organização da sociedade civil, com sede jurídica em San Juan, na Costa Rica, e integrantes espalhados por Argentina, Guatemala, México, Uruguay, que oferecem serviços variados que vão desde hospedagens de sites, em infraestruturas baseadas em software livre, até envio de newsletters, streaming, VPN e e-mail criptografados. Veja os serviços oferecidos e a política de associação (“membresía”) para coletivos, ongs, organizações e cooperativas ligadas às causas citadas acima.

Destacamos aqui abaixo algumas edições para você conhecer melhor Pillku, mas saiba que existe muita coisa interessante a consultar nas até agora 18 edições publicadas. Se tiver interesse também em publicar, fique atento também com o guia editorial e as chamadas de publicação de artigos da Pillku.

Nº7, LOS COMUNES.
A primeira edição de 2013 centra num tema que, hoje, cada vez mais se alia a discussão da cultura livre: o comum. Ainda que não seja nenhuma novidade na economia, a discussão sobre o comum relacionada aos meios digitais está sendo feita com maior intensidade de uns três anos pra cá, e esta edição se faz uma pergunta comum de se escutar hoje na discussão dos comuns: seriam os comuns uma ideia política para transformar o mundo? Aqui são sete entrevistas com conhecedores do assunto, seja de forma prática ou conceitual; o canadense Alain Ambrosi fala brevemente de Remix, the Commons, plataforma multimídia que documenta ideias e práticas em volta do Comum; Gustavo Castro habla desde Chiapas, no México, sobre os bens comuns na terra, também a partir da plataforma Otros Mundos Chiapas, capítulo local da organização internacional Amigos da Terra; a brasileira Carolina Moreno trata de seus 15 anos de experiência no trabalho com os bens comuns, boa parte como coordenadora da área de ecologia política na Fundação Heinrich Böll; entre mais outras 4 entrevistas que vale ler. Destaque também para o texto que discute feminismo e bem comum, a partir dos saberes e cuidados das mulheres, escrito por Angélica Schenerock, da organização mexicana Água y Vida.

 Nº8, CULTURA LIVRE.

Publicada em abril de 2013, esta edição traz textos e entrevistas que referenciam a cultura livre como um movimento social e cultural. Nessa linha está principalmente os artigos “Cultura Libre: redistribución del poder y trabajo entre pares“, por San Hoerth Moura y Angie Schenerock, que conceitualiza e aponta caminhos na discussão conceitual da cultura livre em nosso sofrido continente; e “Cultura libre: génesis y experiencias de un movimiento creciente“, escrito pelo coletivo que edita a revista, que aponta a origem do termo cultura livre (no software livre e nas quatro liberdades propostas por Stallman nos anos 1980), da ideia do código aberto e do Creative Commons, além de fazer um interessante mapeamento de iniciativas que trabalham sob esta perspectiva: rádios, editoras, cinema, redes e até mesmo coisas inusitadas como a interessante “Hacking My Vagina“.

Nº11, MÚSICA LIVRE.
Esta edição, de outubro de 2013, traz experiências de artistas que fazem música copyleft, principalmente liberando suas músicas em licenças livres. Nela, há um “Breve guía para iniciarse en la música libre“, com um explicativo de como funcionam as licenças livres, qual seu contexto histórico, sites referenciais que usam estas licenças e um pequeno passo a passo de como funciona a burocracia de registro convencional de músicas – baseado no contexto argentino, no brasileiro há algumas alterações pontuais. Na linha mais propositiva e conceitual, há um artigo tratando da gestão coletiva dos direitos de autor a partir do paradigma da liberdade, enquanto que na de experiẽncias há outro texto que fala da RedPanal, primeira plataforma livre e colaborativa de gestão musical da Argentina, quiçá uma das primeiras da Latino-América também – confere aqui a plataforma.

Nº18, CIBERFEMINISNO PARA HACKEAR EL PATRIARCADO
A penúltima edição da revista digital foi lançada em setembro de 2017 e fala desde “la resistencia, las identidades disidentes, la interseccionalidad, disputamos el acceso universal a internet, con deseos de inundar la red con contenidos feministas y descolonizar los medios digitales”. Há discussões desde a ainda pouca participação feminina na área de desenvolvimento do software livre, proposta por Cecília Ortemann, até a discussão sobre o ciber-eco feminismo, passando pelo debate sobre uma governança da internet feminista, sobre os trolls e tecnologia e feminismos anti-coloniais, esta última uma entrevista com a coletiva lésbica feminista autônoma Les Brujas. Uma edição-dossiê muito completa e com várias perspectivas sobre a temática.

A Pillku, é claro, também trabalha muito com questões consideradas “técnicas”, mas que também são políticas. Nesta postagem há um mapeamento de iniciativas que fornecem serviços digitais ativistas/livres e que protegem a privacidade de seus usuários, material fundamental para todes de nuestra América latina saberem a quem recorrer quando necessiterem destes tipos de serviços.

Todas as imagens usadas aqui são das edições de Pillku.