Kopimi, ok?

Copie esse post. Vai: seleciona, dê Ctrl c e Ctrl v no seu site e venda se quiser. É isso que prega a licença anarquista Kopimi. Com ela, significa que o autor está abrindo mão de todos os direitos de sua obra, ou seja, nenhum direito reservado. Praticamente um Domínio Público. A licença, mais uma declaração de liberação geral, é muito pouco conhecida em português, o que não condiz com seu funcionamento mui simples: basta apenas colocar o selo dela – esse  triângulo aí de cima ou qualquer modificação dos logotipos da página – no seu site, livro, filme ou até na música ou o que quer que seja.

Os ideiais do logotipo também estão presentes no e-book POwr, Broccoli and Kopimi lançado em 2009 pelos capitães do Pirate Bay. Isso porque tudo surgiu da organização anticopyright The Pirate Bureau, criada na Suécia em 2003. Sabe-se que o grupo é formado por teóricos, artistas, consultores, ativistas e que em 2005 era composto por 40 mil membros. Mais do que isso ainda está por ser revelado ou traduzido, até é uma futura pauta para nós, mas é sabido também que deles surgiu o Pirate Bay – que inclusive tem um K no fim de sua página inicial – e o Partido Pirata sueco.

Sobre o livro, o Remixtures já falou muito bem a respeito, com uma tradução da introdução e da conclusão. O resto que falta para traduzir são as 100 pequenas regras do estilo de vida pirata digital, como podemos denominar.  Por parte do Pirate Bureau, também foi feita uma tentiva de ação viral com o símbolo. A “Embaixada da Pirataria” consistia em imprimir um papercraft de pirâmide com os Ks do Kopimi, tirar uma foto e enviar pro site. Infelizmente, a iniciativa durou pouco, apenas quatro meses. Por aqui, o símbolo recebeu uma adaptação criativa do Partido Pirata brasileiro, numa tradução em português: a CO-pie, do logo abaixo.

Um outro uso da Kopimi, mais “lingüístico”, foi feito por um estudante de design americano. Dylan Roscover é fã dos caras do Pirate Bay há um bom tempo e resolveu homenageá-los  ao criar a Kopimi Magazine. Dylan pegou uns ótimos textos do Torrent Freak, vetorizou algumas imagens dos Piratas e fez a revista. “Eu recebo um monte de pedidos para os meus estilos mais populares, em parte porque eles são distribuídos e publicados livremente sem nenhum processo legal. Eu queria criar uma publicação que mostrasse essa atitude de uma forma criativa e unica” nos contou por e-mail o estudante da Universidade de Full Sail, da Florida. O site dele também tem umas ilustrações muito caprichadas, vale uma boa olhada.

No flickr as imagens estão sob as condições de atribuição-compartilhamento, mostrando que o autor das ilustrações não concorda totalmente com a filosofia da licença Kopimi – ou não pôde disponibilizar do modo que desejaria no Flickr, vai saber. Ao fim da curta conversa, Dylan ainda deixou um recado sobre sua atitude:

File sharing is advantageous for new media. Getting your work out there is easier than ever, and should be encouraged, not discouraged 🙂” [Compartilhamento de arquivos é vantajoso para as novas mídias. Ter o seu trabalho lá fora é mais fácil do que nunca, e deve ser incentivado, não desencorajado. :-)]

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[Marcelo De Franceschi]

I wanted to create a publication that showcased this attitude in a creative and unique way.

A Queda da Constantin Films

Mas isso é o fim!

Foi só falar sobre um daqueles casos de empresa reacionária e já surgiu mais outro. Dia 19 de abril a produtora alemã Constantin Films fez um pedido de remoção das paródias que mostram o desespero de Hitler no filme “A Queda”. Evidentemente que o pessoal se indignou tanto quanto o personagem e fez uma paródia tirando sarro da decisão. Com toda razão lógico. Que empresa seria contra a publicidade grátis – um trabalho árduo e criativo –  feita pelos espectadores? Só mesmo uma que fosse contra os próprios clientes, o que pode ser classificado como um suicídio comercial. Até o diretor do filme, o alemão Oliver Hirschbiegel, apreciava os memes, como ele falou numa entrevista em janeiro deste ano para a New York Magazine:

“Someone sends me the links every time there’s a new one,” says the director, on the phone from Vienna. “I think I’ve seen about 145 of them! Of course, I have to put the sound down when I watch. Many times the lines are so funny, I laugh out loud, and I’m laughing about the scene that I staged myself! You couldn’t get a better compliment as a director.” Some of Hirschbiegel’s favorites are the one where Hitler hears of Michael Jackson’s death, and one in which the Fuhrer can’t get Billy Elliot tickets.

[“Alguém me envia o link toda vez que aparece uma nova,” disse o diretor, pelo telefone de Vienna. “Acho que vi umas 145 delas! Claro, eu tive que diminuir o volume quando eu via. Muitas vezes as legendas são tão engraçadas, eu ria alto, eu estou rindo da cena que eu mesmo dirigi. Você não poderia ter um elogio melhor como diretor.” Um de seus favoritos é o da Morte de Michel Jackson, e um em que o Fuhrer não consegue comprar ingressos para Billy Eliot.]

No fim da matéria ele fala que estaria mais feliz se ganhasse royalties, uma ideia bem antiquada. E se ele bolasse uma forma de doações, que nem comentaram na matéria ou como novos diretores tem feito? Mas o fato é que ele gostou dos videos, mencionando exemplos que são citados na paródia das paródias, a qual nos pomos a traduzir para o português. Nela, é usada como argumento o Uso Justo estipulado pela Lei do Copyright Americana que diz o seguinte:

“…the fair use of a copyrighted work, including such use by reproduction in copies or phonorecords or by any other means specified by that section, for purposes such as criticism, comment, news reporting, teaching (including multiple copies for classroom use), scholarship, or research, is not an infringement of copyright.”

[…o uso justo de um trabalho protegido por copyright, incluindo a utilização por reprodução em cópia ou registos sonoros ou por qualquer outra forma especificada por esta seção, para fins de crítica, comentário, reportagem noticiosa, ensino (incluindo cópias para uso em sala de aula), estudo ou investigação, não constitui uma violação de copyright.]

Também é falada na visibilidade mundial que o filme ganhou, além de uma critica a (falta de) posicionamento do Youtube e ao comportamento dos usuários. Fizemos várias tentativas de colocar no Youtube, mas foi impossível. O software de reconhecimento de som do portal barrou a vizualização dos demais usuários. Só nos restou o Vimeo. Se algum usuário do Youtube quiser reclamar ao portal sobre o uso justo, dá pra fazer preenchendo um formulário curto, que pode ser encontrado na seção “Correspondências de ID do conteúdo” clicando em “Ver informações sobre direitos autorais” e depois em “Tenho um motivo válido para disputar esta reivindicação. Leve-me ao formulário de disputa“. Mas é difícil adiantar alguma coisa por ali. Então fiquem aí com o lamento de Hitler e o que o Brainstorm #9 classificou como o melhor video viral de um filme já realizado.

[vimeo http://vimeo.com/11258097 w=500&h=400]

[Marcelo De Franceschi.]

Correspondências de ID do conteúdo

Mtv Decreta: É crime baixar videos (mas não exibí-los)

Não, este não é um novo programa do “Canal dos ovos de ouro” (seja lá o que isso signifique). É apenas o título de um texto sobre um pouco da política de conteúdo da Mtv Brasil, e consequentemente de sua ex-proprietária, a Viacom – um dos maiores conglomerados do audiovisual da Terra. Quase um mês atrás, a emissora notificou judicialmente o gigante Google cobrando royalties sobre os videos postados pelos telespectadores no Youtube, o dito “conteúdo ilegal”. A justificativa, de acordo com a notícia, é de que o Google estaria lucrando com a produção da Mtv com os anúncios na página ou nos videos, não se sabe exatamente em qual pois os jornalistas não lincam para o comunicado original. Também ninguém foi atrás do motivo dos dois não entrarem num acordo pela divisão dos lucros.

Trata-se de uma medida muito desinteligente, além de hipócrita, por parte da Mtv Brasil. Explico: dia desses quis rever a edição do programa Mtv Debate que foi ao ar em 17 de  março de 2009, cujo tema era “É crime baixar músicas e filmes?”, e que estava disponível nesse link aqui. No começo de março de 2010, cliquei e fui surpreendido pela mensagem de que o conteúdo não estava mais disponível para vizualização. Estranhei e procurei uma maneira de perguntar porque daquilo. Não achei e-mail para contato, então tentei por twitter e recebi como resposta a mensagem: “sempre que estreamos novas temporadadas, todo o conteúdo do ano anterior são retirados do ar automaticamente”.

Ou seja, não existe um arquivamento do conteúdo no portal. Se tu quiser rever algo do teu interesse e for do ano passado, não vai dar de jeito nenhum, os comentários e o debate já era. Só se alguém gravou, ou baixou, e colocou num site de compartilhamento de videos. Isso foi o que fez o nosso camarada Marcelo Branco, ex-coordenador da Associação Software Livre.org e que participou do programa do qual eu estava atrás. Branco pegou e colocou as partes no canal dele no Youtube para guardar de recordação e esperando mais opiniões, imagino eu. O que ele não esperava era  depois de uns três meses receber uma mensagem irônica – de remoção dos vídeos, na íntegra abaixo:

Prezado usuário,

Notificamos a remoção ou desativação do acesso ao material a seguir em decorrência de uma notificação de terceiros da parte de Viacom International Inc. informando que este material é infrator:

Debate – É crime baixar músicas e filmes? (parte IV): http://www.youtube.com/watch?v=SpKzou1COZc
Observação: A reincidência na violação de direitos autorais acarretará a exclusão da conta do usuário infrator e dos respectivos vídeos enviados. Para evitar que isso ocorra, remova todos os vídeos sobre os quais você não detém os direitos de reprodução e não envie outros vídeos que violem os direitos autorais de terceiros. Para saber mais sobre a política de direitos autorais do YouTube, leia nossas Informações sobre direitos autorais.

Se optar por enviar uma contranotificação, visite a Central de Ajuda para acessar as instruções.

Observe que na seção 512(f) da Lei de Direitos Autorais, qualquer pessoa que intencionalmente apresentar declaração falsa de que um material ou atividade foi removido ou desativado por engano ou identificação incorreta pode estar sujeita à responsabilidade.

Atenciosamente,
Equipe do YouTube, Inc.

ATENÇÃO

Recebemos reivindicações de direitos autorais sobre o material que você enviou, como segue:

  • de Viacom International Inc. sobre o vídeo Debate – É crime baixar músicas e filmes? (parte IV) – marcelobranco3204
    ID do vídeo: SpKzou1COZc

Observação: As contas consideradas infratoras reincidentes serão encerradas. Exclua os vídeos dos quais você não possui os direitos autorais e não envie vídeos infratores.

Se não estiver certo do que isso significa, é muito importante que visite nosso guia Informações sobre direitos autorais.

Se acredita que possui os direitos necessários ou autorização para enviar este conteúdo, você pode registrar uma contranotificação. Existem muitas consequências legais para o preenchimento de uma notificação falsa ou de má fé. Analise os materiais adequados relacionados às leis de direitos autorais antes de enviar uma contranotificação. Você pode encontrar mais informações em nossa Central de Ajuda.

Você também pode localizar uma cópia desta mensagem em sua página de avisos da conta, para sua referência.

A Mtv/Viacom praticamente deu sua opinião a respeito da questão debatida. É crime sim, um atentado aos “direitos autorais”, mesmo que tu tenha uma parte disso, participando da produção do conteúdo. A empresa não entendeu que não vai adiantar apagar video por video e continuam querendo processar o provedor mais popular. Se esquecem que ainda há outros sites para os quais os usuários estão migrando, como o Daylimotion, o Vimeo ou no Facebook. E foi neste em que Marcelo Branco também salvou o programa, possibilitando que eu finalmente possa reassisti-lo e copiá-lo. E se apagarem, colocaremos de novo, até que aprendam que brigar com a audiência não funciona. Fora a questão de que é uma criação nacional – cujos assuntos abordados são muito mais importantes que as produções “gringas” exibidas – e que deveria ser mais valorizada, a começar pelo criador.

Tá na hora de um programa novo: Reforma Mtv

Inclusive eu já baixei o programa. Copiei a primeira edição da temporada 2010 do Mtv Debate com o tema “Internet: liberar ou controlar?“, direto do endereço original. E assim farei sempre que o tema me apetecer. Além de indicar um programa relevante, que não é um dos mais  assistidos pela maior parte do público-alvo, ainda estou arquivando para que pessoas que não o assistiram possam vê-lo, caso ele não esteja mais no Portal Mtv. O que provavelmente acontecerá quando entrar a temporada 2011. No meu canal, dá pra assistir a partir do primeiro bloco aqui.

Outra falta de noção da Mtv/Viacom a respeito dos videos online é ponto de que ela mesma se serve desses videos, assim como muitas tvs têm feito, em seus programas geralmente ao vivo. Essa apropriação tinha de monte no Acesso e no Scrap Mtv – quando saía alguma novidade na internet no outro dia ou semana davam a informação e exibiam o conteúdo de baixa qualidade. Que tal o Youtube cobrar os “direitos autorais” sobre a utilização desses videos? Aí está o ridículo da situação. A Mtv Brasil parece ainda ter resquícios de sua antiga proprietária, a Viacom, cuja totalidade das ações da emissora o Grupo Abril adquiriu em dezembro de 2009. A briga entre Viacom e o Youtube vem se arrastando desde 2006, sendo que em 2007 a empresa exigiu do Google 1bilhão de dólares num processo semelhante ao da Mtv Brasil. Para a solução, falta só as mega-empresas usarem melhor a cabeça e entrarem num acordo. Ninguém vai aguentar essa de notifica, apaga, notifica, apaga – muito menos desistir do que se quer ver.

[Marcelo De Franceschi]

Sita canta o blues

Esta cela costuma ser um freio pra muita criatividade. Novos e velhos filmes, músicas e livros são deixados de serem criados e consumidos pelo fato de que muito do que já foi feito estar ali dentro, inacessível e na maioria das vezes esquecido, mofando. Os prisioneiros só costumam ver a luz quando estão de pé se segurando nas barras até que cansam e vão para o fundo escuro e silencioso. O grande problema, além das grades, é o cadeado, cujo poder de liberdade é de quem tem as chaves, e não de quem produziu e deixou o que está aprisionado. Para abrir, só na base da fiança, quando se tem.

Quem quase foi vítima dessa prisão foi Sita, nascida de uma flor de lótus num lago.  Ela é personagem da epopéia Ramáiana, poesia clássica da mitologia Hindu, que conta a história dela com Rama, um avatar azul [!] de um dos deuses indianos. Acontece que Sita resolveu cantar uns blues  antigos na mais recente adaptação da história. Numa animação lançada há pouco mais de dois anos, as letras das músicas são interpretadas na íntegra pela personagem e se integram mui bien à narrativa original. Mas o “problema” por ela ter quase ficado presa era que as canções que Sita entoava só foram autorizadas para a cantora de jazz Annette Hanshaw. Quem foi ela? Ora, foi uma cantora que teve o auge de sua carreira em 1920, ou seja, quase um século atrás. Tudo que Hanshaw cantou naquela época ainda está atrás das grades do copyright, o que impossilita a reprodução em quaisquer meios audiovisuais públicos, como televisão, cinemas e teatros, sem que se pague os sagrados direitos do autor. Mesmo que esse autor já não exista mais e que haja a possibilidade de relembrá-lo.

E esse foi o empecilho enfrentado pela diretora da animação, Nina Paley, para conseguir distribuir sua arte, o filme Sita Sings The Blues. Paley teve que bolar um complicado esquema de negociação para liberar Sita da jaula. Os detentores dos direitos das músicas pediram 220 mil mangos para regularizar o filme. Paley pechinchou e o preço diminuiu para 50 mil doletas. A diretora teve que apelar então para um empréstimo e conseguir pagar o valor, na condição de que seriam produzidas no máximo 5 mil DVDs de cópias promocionais. Esse tipo de cópia geralmente é entregue a comentaristas, comitês de festivais e jornalistas, mas Paley pegou os arquivos dessas cópias, hospedou on-line e licenciou em Creative Commons 3.0, ou seja, qualquer pessoa pode compartilhar, distribuir, exibir à vontade. Só não pode vender, porque aí tem que pagar o pessoal das gravadoras.

Agora, Nina Paley conta com o retorno da audiência para ajudar a pagar o custo do filme – de 80 mil dólares – e do empréstimo. Através de uma parceria com o ótimo site QuestionCopyright, Paley espera as doações do público – há inclusive um contador da porcentagem que falta para chegar no valor do empréstimo – e tem uma loja de vendas de produtos do filme, como  adesivos, bótons, camisetas, pôsters, dvds e cds da trilha sonora. Na imagem de cada produto, é indicado o quanto do valor será revertido para a autora. E segundo o site, as doações tem sido estáveis desde a liberação de Sita:

This is the opposite of the traditional “burst and fade” distribution model that so many works endure, dragged out of circulation prematurely to avoid competing with new releases from the same publisher. Because Nina’s film is audience-distributed, it’s in circulation forever, whenever and wherever people want to see it. And all those audience members are potential customers and donors, as the financial results bear out.

[Isto é o oposto do modelo tradicional de distribuição “estouro e desaparecimento” que suporta tantos trabalhos, deixados fora de circulação prematuramente para evitar competir com os novos lançamentos da mesma editora. Como o filme de Nina é distribuído pela audiência, está em circulação para sempre, quando e onde as pessoas quiserem vê-lo. E todos os membros da audiência são os potenciais clientes e doadores, como confirmam os resultados financeiros.]

A confiança nos usuários era tanta que foi criada uma página Wiki no site do filme. Ali estão disponíveis os links para as versões de vários tamanhos, os locais e datas das exibições pelo mundo afora, mais de 20 legendas diferentes, os audios dos comentários da diretora, além de sugestões, perguntas frequentes, curiosidades e leituras recomendadas. Aliás, o arquivo .srt da legenda em português está aqui, e foi feito por uma brasileira. Todas as versões do longa estão hospedadas no site Archive.org, que indica que o filme já foi baixado mais de 150 mil vezes.

E não é pra menos. O filme faz uma feliz comparação entre as dificuldades de relacionamento dos dois deuses hindus com uma situação amorosa parecida pela qual passou a diretora. O Ramáiana é contado resumidamente por três bonecos de teatro de sombras que vão improvisando o que sabem sobre a lenda, intercalados por  outras montagens, clipes musicais com as músicas de Hanshaw e partes que contam a história da separação de Paley. São quatro tipos distintos de animações combinadas numa comédia romântica musical. Uma arte muito bem detalhada, pois em apenas um trecho existem 15 elementos colados, como conta a diretora em um post de seu blog. Advertimos que há uma parte do filme que pode causar estranheza naqueles que não estão acostumados com o cinema indiano. Lá pelo meio dos 80 minutos de filme, descem umas cortinas e surge uma tela com a palavra “Intermission” e uma contagem regressiva de uns três minutos – tipo de cena comum em Bollywood, nome dado à poderosa indústria cinematográfica da Índia, e aqui colocada como homenagem. Durante esse tempo, os personagens aproveitam e vão no banheiro ou compram pipoca, costume dos espectadores locais durante esses intervalos. De resto, o enredo é um tanto normal para a maioria dos mortais espectadores.

Desde o lançamento, em 2008, o longa-metragem já ganhou 28 prêmios em festivais, de acordo com a página da Wikipédia. Outra produção da mesma autora que vem circulando já faz um tempo na rede é o videozinho de um minuto “Copying is not Theft” [Copiar não é Roubar], em que é explicado o conceito de que cópia não exclui, mas sim se soma ao que já existia, praticamente o mesmo conceito de outro video da mesma série chamado “All Creative Work Is Derivative” [Todo o trabalho criativo é derivado”].  E mais dez curtas estão planejados para Paley produzir na mesma linha.

Assim, Nina Paley está divulgando a milenar cultura indiana e os primeiros blues, compostos há 90 anos, obtendo junto reconhecimento, retorno financeiro e mais trabalho, mesmo depois de dois anos do lançamento de sua obra. Nada mal para a dona de um pássaro que por pouco não ficou preso dentro da gaiola.

[Marcelo De Franceschi.]

Lionshare, ficção P2P

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Na edição impressa da segunda-feira dia 8 de fevereiro do Caderno Link, do Estadão, uma das mais importantes referências brasileiras quando se fala de caderno de CULTURA digital (e não de tecnologia, como a maioria dos cadernos dos jornais brasileiros), traz uma matéria com os diretores e produtores de The Lionshare, uma ficção que trata do contexto de um simpático jovem usuário das redes sociais e assíduo frequentador das redes de compartilhamento. Um cara como nós ou você que assistem, escutam, leem as coisas e que depois conversam sobre isso com os amigos.

O filme, que pode ser baixado por torrent clicando no cartaz lá em cima, é o 3º lançamento do site Vodo, uma espécie de coletivo de 22 distribuidores de torrent ou compartilhadores de redes P2P que ainda estão vivos, como o The Pirate Bay, o Mininova, o Lime Wire, o Vuze (ex-Azureus), só pra citar os mais populares aqui no Brasil. Aliás, sites e/ou programas como esses fazem uma ponta na produção, dirigida pelo estreiante Josh Benhard, que juntou um pouco de dinheiro, mais os amigos dele e resolveu botar umas câmeras na mão e umas ideias pra fora da cabeça.

Evidentemente que a matéria acima linkada já contou uma boa parte do enredo do filme, mas um outro blog também teve uma boa visão da ficção. Segundo o OpenAttitude (Atitude Aberta):

the film is both subtle and effective at showing the stake we all have in the media we consume, whether it’s paid for or not. There’s no finger-wagging here, as the sharing (or piracy, as per your point of view) isn’t put in any kind of judgmental light. It’s just there, in the background, but as pervasive as the media on real P2P networks tends to be.”

[o filme é ao mesmo tempo sutil e eficaz ao mostrar a parte que todos temos no consumo de media, seja paga ou não. Não há dedos apontados aqui, como o compartilhamento (ou pirataria, depende do seu ponto de vista) não é colocado a luz de nenhum julgamento. Isso só está aqui, nos bastidores, mas tão penetrante quanto a media na redes P2P reais tendem a ser.”]

Há momentos de exceção, é claro. Em certa parte, Nick, o protagonista, e um amigo amaldiçoam os grandes estúdios por não permitirem a eles assistirem a uma série de televisão, ou quando Nick e a namorada desse mesmo amigo execram a atitude de uma instituição de ensino cobrar a mensalidade além do valor do material didático. Mas no restante do média-metragem, o tema do compartilhamento de arquivos está tão natural quanto o modo de filmar ou a atuação dos atores. A produção encarna totalmente o conceito do “meio é a mensagem”, de Marshall Mcluhan, como dito claramente no site oficial. Feito no faça-você-mesmo, da necessidade de compartilhar ideias, informações, bens culturais, arte, que estão espargidos entre todos os nossos comportamentos, desde um simples flerte ou andando internamente conosco nas ruas até uma pizza com os amigos. Sendo ele mesmo um desses bens culturais, você pode baixá-lo e passar uma hora com seus amigos ou com sua namorada se vendo na tela.

Buscando promover esses momentos e difundir a criativa narrativa, o BaixaCultura se atracou a traduzir a legenda do filme, concedida a nós na maior boa vontade pelo diretor.  É sempre bom ver obras que retratam os hábitos das gerações, e esperamos que grande parte do Brasil possa ter acesso a história contada em The Lionshare. Indicamos também, caso você queira saber mais sobre o submundo dos torrents, o pequeno bônus Are you on The Lionshare?, disponibilizado no canal do filme no Youtube e realizado com os materiais de Steal This Film II, já citado por aqui e que aí sim se aprofunda na livre distribuição de conteúdo. Atentamos ainda para a licença sob a qual está o filme, a Creative Commons 3.0, que teve sua versão brasileira apresentada na Campus Party 2010 e que merece um debruçamento maior de nossa parte num futuro próximo.

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Agora chega de enrolação. O arquivo SRT com a legenda em português está aqui. Baixe, compartilhe, converse. Boa sessão.

[Marcelo De Franceschi.]

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Compartilhar é cuidar

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Já anda circulando faz algum tempo o bonitinho comercial acima, com Jack Johnson cantando “The Sharing Song“, faixa da trilha sonora Sing-A-Longs and Lullabies for the Film Curious George, que o músico-surfista e seus amigos fizeram em 2006. É numa deliciosa mudança de contexto que a música, aliada a uma animação bonitinha diferente da original presente no filme do macaquinho George Curioso, ganha um sentido de comerical favorável a “pirataria” digital.

Apesar da aparente inocência e simplicidade da letra da canção, no final das contas ela toca na essência da coisa toda ao dizer uma grande verdade: é sempre mais divertido dividir com todo mundo – ainda mais quando se fala em cultura.

[Leonardo Foletto.]

Roube Este Filme I e II no ciclo copy, right?

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Dando sequência ao  ciclo “copy, right?”, o BaixaCultura.org e o Cineclube Lanterninha Aurélio novamente  orgulhosamente apresentam os filmes “Roube Este Filme I” e “Roube Este Filme II”, dois capítulos-documentários sobre a complexa relação entre o compartilhamento de arquivos via web, a dita propriedade destes arquivos, e como a internet insere novas possibilidades que bagunçam tudo aquilo que pensávamos estar estruturado sobre direitos de autor, pirataria digital e formas de distribuição e circulação da cultura na sociedade. Ambos filmes são dirigidos pelo inglês Jamie King e produzidos pela misteriosa The League of Noble Peers, um grupo de produtores que pouco mais se sabe além do fato deles serem alemães e ingleses e terem produzidos as duas partes de “Roube Este Filme”.

[A liga parece ter um modo de atuação, digamos assim, parecido ao do coletivo italiano Wu Ming, especialmente no caso do autor-fantasma (ou coletivo) Luther Blisset, detalhado brilhantemente no livro Guerrilha Psíquica, da ótima coleção Baderna da Editora Conrad.  Saca a fala do grupo, presente no Roube Este Filme II: “People always ask us, who are The League of Noble Peers? And we tell them: You are, I am, even your bank manager is… insert yourself here, because we all produce information now, we all reproduce information, we all distribute it…]

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O primeiro Roube Este Filme (no original, Steal this film), lançado em 2006 via arquivo torrent na própria página oficial do documentário, tem como ponto central a forma como entidades de lobby, como a MPAA (Motion Picture of America, a associação dos grandes estúdios de cinema dos Estados Unidos), trabalharam sua influência sobre as autoridades na Suécia para causar um ataque ao Pirate Bay em maio de 2006, quando a empresa onde ficavam hospedados os servidores do site (o host) foi invadida por policiais e teve os seus computadores apreendidos. Para contar essa história em 32 minutos, os produtores entrevistaram desde os responsáveis pelo Pirate Bay até produtores e dirigentes da indústria do entretenimento, passando ainda por figurões de Hollywood (como o ator Richard Dreyfuss, autor de uma das falas mais lúcidas sobre a polêmica toda), membros do Partido Pirata Sueco e usuários de tecnologias de compartilhamento de arquivos.

Os que visitam essa página faz algum tempo devem se lembrar de que já falamos bastante do Roube Este Filme I num dos posts mais comentados e discutidos deste um pouco mais de um ano de BaixaCultura. Aliás, os que estão entrando agora também devem ver o banner que se encontra aqui do lado, que leva justamente ao já linkado post, que não está ali por acaso: nosso parceiro Edson fez a tradução das legendas do filme para o português e as disponibilizou, seja já sincronizada com o filme  e prontinho pra baixar, no Youtube dividido em quatro partes ou, ainda, só a legenda mesmo, em formato srt.

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Roube Este Filme II, lançado oficialmente em novembro de 2007 na conferência “The Oil of the 21st Century – Perspectives on Intellectual Property“, em Berlim, Alemanha,  além de ser um poquito mais longo (44 minutos) que o primeiro, vai mais além na discussão do contexto econômico/tecnológico/cultural que está diante das chamadas “copyrights wars”, as batalhas entre o livre compartilhamento de bens culturais e o repressão à estas práticas através da tentativa de endurecimento das leis de direitos autorais. Esta segunda parte traça também um paralelo entre o impacto da imprensa e o da Internet em termos de tornar a informação acessível para além de um grupo privilegiado de “controladores” da informação. O argumento central do filme é de que a natureza descentralizada da Internet faz com que a aplicação dos direitos de autor hoje seja praticamente impossível – pelo menos se considerar estes direitos tais como eles foram estabelecidos primeiramente no século XVI na Europa e como ainda hoje se configuram.

Segundo matéria do jornal britânico The Guardian, ambas partes de “Steal This Film” se inserem no coração de um estilo de documentário-manifesto, onde os cineastas praticam, em seu próprio filme, aquilo que defendem perante à sociedade. É por conta dessa estratégia que as duas partes estão disponíveis nos mais variados formatos para download na página oficial dos filmes, bem como as legendas em mais de 10 línguas, todas produzidas e enviadas espontaneamente pelo público mundo afora.

Dentre os diversos festivais que os dois documentários foram exibidos, destacam-se o Sheffield International Documentary Film 2008, na Inglaterra, Tampere Film Festiva 2008, na Finlândia, South By Southwest festival 2008, em Austin, nos Estados Unidos (este, um dos principais festivais de música e cultura alternativa do mundo) além de uma rumorosa exibição no International Documentary Film Festival em Amsterdã, Holanda, uma das raras ocasiões onde o diretor Jamie King falou sobre o filme e a The League of Noble Peers. Ambos os documentários também já foram exibidos em diversos canais estrangeiros, como o History Channel, Canal + Poland, TV 4 Sweden e o Noga, de Isreal.

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Chegou a vez do Lanterinha Aurélio exibí-los em Santa Maria, nesta quarta-feira 23 de dezembro, às 19h, no Auditório do Centro Cultural da Cesma, 3º andar. Apareçam, divulguem para os amigos aparecerem e bora lá!

[Leonardo Foletto.]

Primeiro dia do “copy, right?” (e algumas pensatas que surgem)

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Com algum atraso,  tenho que dizer, em primeiro lugar, que o primeiro dia do ciclo “copy, right?” foi bastante produtivo. A presença do público foi satisfatória; compareceram entre 30 e 40 pessoas, sendo que 25 assinaram a ata de presença. Como a foto acima indica, não foi um público para encher o auditório do Centro Cultural da Cesma, mas dizem que a média do Cineclube costuma ser  nessa faixa de pessoas. A divulgação pela cidade foi abrangente, com direito a espaço nos dois jornais principais, e-mails para listas diversas e cartazinhos espalhados (pessoalmente) por alguns cantos do centro da cidade – muito embora tudo tenha sido feito com pouca antecedência.

Apresentado o ciclo, foi exibido “Good Copy, Bad Copy“, de 59 minutos de duração, seguido de alguns comentários meus e a abertura para o debate, como de praxe em cineclubes. Aí foi minha grande surpresa; debateu-se de verdade. E não apenas sobre o filme, mas sobre diversas questões que compõe o pano de fundo de Good Copy, Bad Copy, da neutralidade da rede até reações desproporcionais contra a dita “pirataria” digital como o Hadopi francês e a Lei Azeredo; da democratização cultural, agora possível (ou utópica?), até as dificuldades (ou potencialidades?) de um músico para sobreviver no variadíssimo cenário musical planetário de hoje; da apropriação (nefasta, diga-se) dos termos comunismo e socialismo na tentativa de entender o sistema da internet até o incrível modelo de negócio do tecnobrega do Pará, tema dos últimos 20 minutos do filme – provavelmente os vinte minutos que mais chamaram a atenção do público, um pouquinho a frente do exemplo da Indústria de Cinema da Nigéria (Nollywood), ambas criativas e orgulhosas formas de negócios  oriundas da periferia mundial e à margem da Grande e Poderosa Indústria do Entretenimento.

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[Para todos aqueles que quiserem saber mais sobre Nollywood, recomendo a reportagem “Cinema Noir“, da Trip da janeiro deste ano. Da sacada do título à pauta criativa e antenada, passando pelo texto descolado (no bom sentido, veja bem) comum aos textos da revista, é um baita exemplo de reportagem bem feita, daquelas que bons pares de sapato são mais importantes do que horas em telefone, pra ficar numa metáfora ao gosto de Tchekov. Pros que querem saber mais sobre o tecnobrega do Pará, recomendo estarem presentes no terceiro dia (30/12) do ciclo para assistir “Brega S/A”, ou lerem o bom Tecnobrega: o pará reiventando o negócio da música, de Ronaldo Lemos e Oona Casto, disponível também em pdf.]

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O debate final teve opiniões tão distintas quantos as idades dos debatedores, o que particularmente me agradou bastante, pois uma das ideias centrais do ciclo era justamente propor o debate sobre estes assuntos aqui por Santa Maria – e os filmes, nesse sentido, seriam propulsores dos questionamentos. Nas opiniões, pode-se notar que  a esperança de que a rede venha a democratizar a sociedade (e aí entram cultura, política, gostos e possibilidades criativas) convive com a expectativa de que mais essa oportunidade venha a passar, especialmente por ação da poderosa mão (invisível?) do mercado, que não admite perder o que conquistou durante os últimos séculos – e se inserem nesse guarda-chuva ações como as que visam combater a “pirataria” digital, algumas resultantes em leis que ferem frontalmente a dita neutralidade  original da rede. Apesar dos pesares, nota-se que a esperança continua sendo maior que a discrença, o que me fez resgatar um cético otimismo, quase esquecido nos últimos meses perante a maré tortuosa de más notícias.

Ao fim, o tempo de conversa/debate/discussão foi quase o mesmo que o da exibição do filme, no que eu agradeço muito às pessoas que estiveram presentes na quarta-feira passada.

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Dj DInho Tupinambá e sua trupe de fãs mirins nas ruas de Belém

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Mais do que qualquer outra coisa, ver “Good Copy, Bad Copy” novamente me fez querer pensar em mais e mais exemplos de alternativas à margens da Indústria. Casos como o do tecnobrega e o de Nollywood nos dizem muito, é certo, e funcionam bem porque essencialmente são pensados (ou foram pensados, mesmo que sem se dar conta disso) a partir das particularidades de uma dada região. Querer aplicar estes exemplos à realidade do planeta inteiro, como A alternativa a ser seguida por todos, é indício de fracasso; nestes relativíssimos tempos atuais, uma solução nunca é A solução se nela não forem consideradas as particularidades do lugar de onde se está pensando. É mais ou menos o que dizia Gil no final desse post, quando perguntado por músicos de uma banda paulista qual seria a saída para ganhar dinheiro com sua música: “O problema é que vocês querem que apareça outro modelo único, que não vai exigir esforço algum e te traga o sono de volta, dizia Gil, no que continuava ao afirmar que hoje é exigido que venhamos a pensar um modelo próprio para a necessidade de cada um, a partir das características da obra de cada um.

É nesse sentido que busco exemplos, de todos os lugares do mundo, que contenham as mais distintas características possíveis. É a experiência dessa diversidade de situações combinadas com a necessidade real e prática de um grupo de pessoas de um dado lugar que surgirão novos modelos à margens da dita Indústria do Entretenimento. Quanto mais exemplos melhor, pois é sinal de que estamos, de alguma forma, aceitando a provocação de Gil na busca de uma estratégia própria e criativa de vivermos de nossa arte. Além do que muitos, milhares e milhões de exemplos são um sinal efetivo da ruína da nefasta indústria que sustenta artistas montados em suas luxuosas, moribundas e preguiçosas fortunas,  o que, logicamente, é danado de bom, não?

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: Marcelo Cabala e Marcelo De Franceschi.
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Ciclo copy, right?

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O BaixaCultura, em parceria com o Cineclube Lanterinha Aurélio, ligado à Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (Cesma), orgulhosamente apresenta o ciclo “copy, right?“, a ocorrer em três quartas-feiras deste mês de dezembro no auditório do Centro Cultural da Cesma, em Santa Maria-RS, com a exibição de quatro filmes que discutem cultura livre, direito autoral, pirataria digital e outros temas que este blog vem falando desde há um pouco mais de um ano.

O ciclo começa na quarta feira depois de amanhã, 9 de dezembro, com “Cópia Boa, Cópia Má”, auto-referenciado como um “documentário sobre o estado atual do copyright e da cultura”, dirigido e produzido pelos dinamarqueses Andreas Johnsen, Ralf Chistensen e Henrik Moltke e tema de nosso primeiro post, no longínquo 15 de setembro de 2008. Lançado em 2007, o filme, com duração de 59 minutos, levanta questões delicadas relativas aos copyrights e a propriedade intelectual, trazendo interpretações tanto do ponto de vista dos entusiastas da cultura do remix quanto dos defensores da manutenção do status quo dos direitos autorais.

No segundo dia serão exibidos “Roube este Filme I” e “Roube Este Filme II“, ambos produzidos pela misteriosa The League of Noble Peers e finalizados em 2006 e 2007, respectivamente. O primeiro documentário, de 32 minutos, é centrado no caso do Pirate Bay, e também é um velho conhecido nosso, já tendo aparecido por aqui na nossa postagem campeã de comentários até agora. O segundo, com duração de 44 minutos, busca entender questões tecnológicas e culturais que estão por trás da chamada “copyright wars”, além de discutir algumas transformações culturais e tecnológicas em andamento com o advento da internet.

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Por fim, na quarta feira dia 30, antevéspera do reveillon, será exibido o brasileiro “Brega S/A“, documentário dirigido por Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, finalizado em setembro deste ano. O filme trata da surpreendente cena tecnobrega de Belém do Pará, um fenômeno cultural que nos últimos tempos tem atraído a atenção mundial por conta de sua inovadora estratégia de comercialização, onde a pirataria entra como mais um elemento parceiro na circulação do que um “inimigo” a ser eliminado.

Como os filmes a serem exibidos e o próprio nome do ciclo sugerem, a ideia que percorre esta amostra é a da cópia livre, do livre compartilhamento de informação e de ideias. Todos os documentários estão disponíveis gratuitamente na rede, e alguns deles – caso dos exibidos no primeiro e no segundo dia do ciclo – incentivam a exibição/reprodução e até remixagem de seus conteúdos. Eles partem do princípio, que há tempos vem sido discutido por aqui, de que a criação intelectual se defende ao compartilhar, algo que vem a calhar com outra ideia, trazida pelo notório coletivo italiano Wu Ming, de que obras intelectuais não devem ser apenas produtos do intelecto, mas produtoras de intelecto, como bem Reuben tratou de explicar quando postou a sua tradução de um dos inúmeros textos do coletivo.

Vale lembrar que a cada dia do ciclo um convidado irá comentar os filmes no auditório da Cesma, um tipo de prática corriqueira e importantíssima na atividade cineclubista. Além disso, por aqui também teremos um acompanhamento especial do ciclo; um post com informações básicas sobre cada filme alguns dias antes de sua exibição, e outro com algumas críticas e comentários logo na sequência da exibição dos filmes, como forma de estimular o debate e o confronto saudável de ideias para além do espaço do cineclube.

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Para finalizar, o lembrete:

Ciclo Copy, right?


Cineclube Lanterninha Aurélio

Auditória da Cesma, Professor Braga 55

19h, de graça

9/12 – Cópia Boa, Cópia Má (Dinamarca, 2007, 59 min)

23/12 – Roube Este Filme I (Reino Unido/Alemanha, 2006, 32 min)

Roube Este Filme II (Reino Unido/Alemanha, 2007, 44 min)

30/12 – Brega S/A (Brasil, 2009, 60 min)

Apareçam!

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[Leonardo Foletto.]

P.s: Agradecimentos ao Cabala e a Cesma pelo apoio na organização do ciclo, e à Carla pelo “apoio gráfico”.

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A insistência da subversão

Com essa carinha, ninguém diz... Mas isso é um marginal.
Com essa carinha, ninguém diz… Mas isso é um baita dum marginal.

No último post que escrevi eu falei de maneira um tanto sutil sobre o copyright em tempos passados. Agora venho escrever sobre o que rolava pelo lado anticopyright há alguns séculos.

A pirataria não é um fenômeno recente. O artifício da nomenclatura “pirata” (ou “marujo”), inclusive, já era utilizado na Idade Média para designar a rapaziada que burlava os direitos de cópia da época. Não é à toa que publicidade é um dom burguês. O apelido reina até hoje, só que o efeito não é exatamente negativo.

Mas quais eram esses direitos de cópia?

Como eu citei no post passado, o copyright já surgiu com o objetivo de monopolizar a veiculação cultural. Na Europa medieval só circulavam oficialmente os livros publicados sob patente da coroa e com a bênção da Igreja. Mas havia sempre aqueles que davam um “jeitinho brasileiro” e publicavam e distribuiam clandestinamente tanto cópias não autorizadas das obras permitidas quanto edições de livros proibidos pelas autoridades. Lembra do famoso Index, que você via na aula de História no colégio? Pois é. Aquilo era na verdade um catálogo de obras inéditas para os editores piratas, que não estavam nem aí para as proibições oficiais.

Alguns podem pensar: “que feio!”, “é por conta de gente assim que o Brasil, ops, a Europa não vai pra frente”, etc. A associação imediata deve ser feita com os piratas de hoje. Pessoas que têm acesso a material não autorizado e até não permitido. É o caso daquele cd do Metallica que você baixou no Napster, ou aqueles 200 kg mensais de fotocópia não autorizada que você adquire na faculdade.

Também é o caso daquele joguinho de pc sanguinolento e proibido no país, que você baixa e joga mesmo assim. E veja: eu não estou comparando os piratas antigos aos atuais camelôs unicamente, eu também estou comparando a você (e se você nunca reproduziu nada sem pedir ou ter ciência da autorização, ou você não existe, ou simplesmente não sabe o que tá perdendo).

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Mas será que a pirataria vem se arrastando até hoje como o tão proclamado pela imprensa “mal social”? Será que a pirataria realmente é um mal?

Eu já expliquei que até os dias de hoje a pirataria nunca destruiu o panorama econômico de veiculação cultural. Agora eu vou relembrar o que ela proporcionou no passado.

Voltando praquela aulinha de História, nós lembramos que a Idade Média era palco dos desmandos dos monarcas e da Igreja, e vemos que o tempo de bonança, que se contrapôs às trevas medievais, é regido pelo subsequente Iluminismo. Os pensadores iluministas, que aos poucos foram construindo as bases para uma estrutura política mais livre, culminando no festejado Estado Democrático de Direito (que, ao menos no papel, vivemos hoje), são vistos hoje como líderes do pensamento libertário. Pioneiros na luta contra a ignorância e o aprisionamento cultural promovido pela Igreja.

Descartes pregando o questionamento e a razão, John Locke renegando a divindade dos monarcas, Newton com sua interpretação matemática e nada religiosa do universo, precederam a chegada de outros malandros como Rousseau e Montesquieu, os patronos intelectuais primígenos do atual modelo de governo ocidental. Mas como foi mesmo que as idéias destes delinquentes ganharam aceitação em meio à sociedade?

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Bem, aí que entraram em cena nossos amigos piratas. Eles pegaram todas as obras ilegais, criminosas e contrárias à ordem vigente e soltaram pro povão. Graças aos piratas, hoje você acha um absurdo dizer que o planeta Terra é um mero plano solitário no universo. Graças aos piratas, você hoje não precisa se submeter às vontades de um reizinho vitalício. Graças aos piratas, você tem acesso a cultura, que não mais fica guardada nos porões da Igreja Católica. E isso nos faz lembrar o que vivemos hoje.

A pirataria libera informação a ponto de nos dar uma liberdade não prevista na lei e na vontade do poder político e econômico. Você hoje pode escolher o que consumir, pode escolher o que pensar. Tudo isso sem precisar pagar previamente, como se pagava para comprar um lugar no paraíso nos tempos medievais. Note que este filme nós todos já vimos. Vimos o quanto era ridícula tal sujeição. Vimos que as leis da época existiam e foram quebradas, sendo, em virtude  do proveito que tiramos, muito fácil justificar a tal desobediência.

Mas insistimos em chamar os reponsáveis por esta libertação social de “ladrões”. E esses ladrões, assim como nós, ladrões de hoje, provavelmente exerciam suas atividades por pura sede de lucros ou pura e simples vontade de transgredir ou usufruir individualmente de material ao qual não tinham acesso. Não tinham noção da revolução que viriam a causar. Mas causaram. Ou, no mínimo, contribuíram de forma determinante.

Copiar não é e nunca foi subtrair, roubar. Copiar é um instinto humano. Fala. Gestos. Escrita. Atitude. O ser humano se desenvolve imitando suas referências, copiando sinais. Sem pedir autorização a ninguém. E graças a isso idéias e liberdades se agregam à sociedade, que nada mais é que um amontoado de tendências e inspirações coletivas, a serem copiadas e copiadas. Padrão sobre padrão. Paradigma sobre paradigma. Era sobre era. E ninguém que se proclame dono ou proprietário de uma determinada cópia que fez das inspirações que o mundo lhe deu restará com a razão quando o próprio mundo reclamar o direito de usufruir do que é seu.

Reze vinte pais-nossos para agradecer pela insistência da subversão.

[Edson Andrade de Alencar.]

Imagens: 123

As vantagens financeiras do anticopyright

Retomo finalmente o trabalho por aqui, e o faço seguindo o fluxo das discussões em torno do copyright, com o devido posicionamento anticopyright, que felizmente têm gerado boas e exaltadas conversas na caixa de comentários. O texto abaixo é uma tradução do capítulo final do livro Digital Resistance, do Critical Art Ensemble, do qual devem pintar mais trechos durante as próximas semanas.

Critical Art Ensemble (CAE) é um coletivo formado por cinco artistas envolvidos com diversas linguagens e atuando em diversas frentes culturais. A proposta do grupo é operar na fronteira entre arte, tecnologia, política radical e teoria crítica. No Brasil, a Conrad publicou um livro da gangue, o ótimo Distúrbio Eletrônico, que está esgotado há algum tempo e nunca foi disponibilizado pra download pela editora, por razões inescrutáveis. Todos os livros do CAE possuem o aviso “este livro pode ser livremente pirateado e citado“, que é exatamente o tema do capítulo que se segue.

Há alguns comentários que precisam ser feitos sobre a tradução. Este texto (como boa parte da obra do CAE) aborda a necessidade de revisão das leis autorais do ponto de vista do criador — um posicionamento nem sempre incluído na pauta do debate, inclusive por aqui. Normalmente trata-se da questão do ponto de vista da circulação e do consumo, até porque são perspectivas comuns a todos nós, inclusive aos criadores.

Tratar a coisa do ponto de vista de quem cria implica em proposições para a própria prática criativa, e isso dá muito pano pra manga. Em função disto, o que seria um breve comentário antecedendo o texto terminou por ganhar autonomia, e será publicado num post separado. Por enquanto, é urgente que se diga apenas o seguinte: os exemplos utilizados pelo CAE soam um tanto irreais vistos de uma perspectiva brazuca, onde o mercado editorial não é dos mais fortes. Por aqui, os argumentos usados pelo coletivo no contexto da produção literária seriam melhor percebidos se deslocados para o contexto da música, por exemplo. O anticopyright aplicado à literatura necessita, no Brasil, de outros argumentos. Mas nada disso invalida a proposta do texto, da qual a própria manutenção do coletivo — que permanece firme, forte e ativo há vários anos — é a prova dos nove.

[Reuben da Cunha Rocha.]

As Vantagens Financeiras do Anti-Copyright

Critical Art Ensemble

Tradução: Reuben da Cunha Rocha 

Speed and wealth go hand in hand.

Velocidade e prosperidade caminham juntas.

-Paul Virilio

Uma dúvida comum aos produtores culturais quanto ao movimento anticopyright é de que maneira é possível ser remunerado e ter reconhecida a autoria de uma obra sem se envolver em procedimentos legais para obtê-la. Este problema não tem sido abordado pelos nomes mais proeminentes na defesa do plágio, do electronic mirroring e do anticopyright, que aparentemente se contentaram em desenvolver os princípios dos movimentos em níveis muito mais teóricos que práticos. O mais antigo (desde Lautréamont) e mais comum posicionamento (Debord, Home, Benjamin, Gyson, Isou, Kraus, bem como Karen Eliot, ®TMark, e os projetos Luther Blisset) sobre porquê a informação não deve ser privatizada é a crença de que a experimentação e a invenção seriam obstruídas pela falta de acesso às edificações da cultura. Uma vez privatizados, os artefatos culturais (imagens ou linguagem) se convertem em capital cultural, reforçando portanto a hierarquização social, como qualquer outra forma de capital. A privatização da cultura é o processo através do qual os significados se estabilizam em códigos ideológicos a serviço do status quo. Além disso, a privatização de artefatos culturais confere ao produtor o falso status de criador metafísico, e investe os criadores de uma falsa aura de individualismo místico. O que eles fazem na verdade é apenas participar da prática geral da recombinação cultural – um processo no qual representação enquanto reflexo de uma genialidade pessoal não passa de uma manobra cínica para aumentar as vendas de artefatos. Mais ainda, cultura privatizada é cultura de mercado, e já que as resistências culturais não querem dar ao mercado mais nada que possa ser vendido como “novo”, táticas para gerar novos significados a partir de representações conhecidas têm sido desenvolvidas desde o século passado. Talvez tais táticas sejam concretas apenas na medida em que os discursos anticopyright o são, embora haja idéias ainda mais nobres sobre a questão, como a de que participar da privatização é vender-se a demandas de mercado. Mas para evitar tal destino no capitalismo tardio só é possível escolher entre tornar-se artista de gaveta (mais um triste estereótipo criado pelo capital para solapar o desenvolvimento de identidades sociais e solidariedade) ou vender-se de outra forma (ou seja, trabalhar). Não importa onde procure, o produtor cultural só encontrará imperativos de pureza ideológica ou abstrações teóricas, e nenhum conselho prático.

É possível, entretanto, fazer algumas observações práticas sobre anticopyright. Primeiro, o copyright não trata de acesso ou uso individual (embora este seja um efeito colateral comum). Os dois princípios-chave de sua existência são a proteção de uma instituição contra a agressão de outra, e a manutenção do controle exclusivo sobre um produto, de modo que o mercado consiga obter o maior lucro possível. O indivíduo não é parte de nenhum dos dois processos. Estes princípios são extremamente simples. Em qualquer modelo de capitalismo, uma instituição que possui concorrência fará o possível para enfraquecer as outras empresas e garantir sua própria sobrevivência, o que inclui roubo de produtos (espionagem industrial, sobretudo em nível internacional, é comum no mundo dos negócios). Especialmente no que se refere a produtos digitais – aparente má notícia para escritores, cineastas, músicos de estúdio e ciberartistas. Legislações de copyright diminuem e retardam a prática do roubo, ofuscando a percepção pública sobre a aquisição de produtos como nada além de pirataria branda. Se tal processo é retardado, o mercado e seus produtos podem ser razoavelmente administrados, mas isso tudo ocorre em um plano macro. Do ponto de vista do mercado, o roubo pode ser tolerado no plano individual. Cópias de livros serão feitas, fotos de obras de arte, samplers de sons, réplicas de vídeos, cópias de todas estas coisas circularão de mão em mão.

É aqui que começa a confusão: indivíduos produtores de cultura (no sentido mais amplo do termo) perguntam se serão pagos por seu trabalho em função da cópia indiscriminada. É uma angústia infundada. A não ser que o artista se transforme em instituição, não há com o que se preocupar. Elvis, por exemplo, foi transformado de indivíduo em instituição. “Elvis” não se refere a um ser humano, refere-se a vídeos, filmes, gravações e todo tipo de propaganda. O indivíduo Elvis é tão irrelevante para a fórmula que ele nem sequer precisa estar vivo para que “Elvis” esteja. Celebridades de qualquer área da cultura precisam do copyright por se tratarem de instituições em defesa de seu próprio capital, ao invés de pessoas. Não é o caso, entretanto, dos indivíduos produtores – para estes, na maioria dos casos o copyright se mostra contraproducente. Digamos, por exemplo, que um autor tenha publicado um livro que irá vender cinco ou dez mil de exemplares. Isso não interessa a grandes editoras, seria pouco lucrativo piratear o livro e se envolver em problemas judiciais. Claro, haverá pessoas que copiarão o livro e passarão cópias adiante. Quem sabe alguém chegue a disponibilizá-lo gratuitamente na internet e pequenas editoras de outros países o traduzam e publiquem. CAE argumenta que tais atividades serão benéficas em longo prazo, e devem ser encorajadas através do anticopyright. Quanto mais uma obra é conhecida, maior é a probabilidade de que alguém a compre, e é bem possível que comissões, palestras e outras oportunidades de gerar renda surjam dessa situação. O dinheiro perdido com a cópia dos livros aparece de outras formas. Quanto mais rápido se dissemina a informação, tanto melhor para os diversos discursos para os quais a informação é relevante, e no plano individual, maior o dinheiro gerado. Velocidade e réplica geram recursos na era digital! Retardar o processo com o copyright é contraproducente, tanto em termos de compensação individual quanto de uma produção cultural de resistência.

 

*Originalmente publicado em Libres Enfants du Savoir Numerique: Une Anthologie du “Libre” (Paris: Editions de l’Éclat).

Libertando livros

Marilyn lê Ulisses
Marilyn lê Ulisses

(Minha  temporada na Campus Party teve como companhia inseparável um pequeno caderninho, onde anotava tudo que via e presumia render uma boa pauta para o BC. Dentre as esculhambadas notas, boa parte delas revelou-se pouco pautável, e é por isso que ainda não estão aqui no blog; outras ficaram para apuração, e uma delas está aqui abaixo.)

Se encontrar um livro em algum lugar desse Brasilsão onde tu não espere encontrar um livro, pegue-o. Abra-o. Verifique se no interior dele há uma etiquetinha dizendo “Este livro não é um presente“. Não desanime com o texto e leia-o sem medo. Lá pelas tantas páginas lidas, tu pode querer voltar a etiqueta para saber do que aquilo se trata, afinal. Abaixo da frase lida, há um código: digite-o no site www.livrolivre.art.br. Deixe seu comentário sobre o livro e saiba que você acabou de fazer parte do projeto Livro Livre.

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O Livro Livre é uma iniciativa do Jornal de Debates que visa difundir o hábito da leitura e formar novos leitores. O conceito é inspirado no bookcrossing, prática difundida nos Estados Unidos e Europa que já conta com mais de 600 mil participantes em cerca de 130 países. No Brasil, mais de 03 mil livros estão atualmente em circulação no espaço público. Se, além de ler, você quiser disseminar leitura, saiba aqui como fazer parte do projeto.

[Leonardo Foletto.]

Notas sobre copyright e copyleft (III)

cleft

A última parte do texto do coletivo Wu Ming que começamos a publicar alguns dias atrás retoma uma polêmica do início da década, envolvendo editoras que combatiam serviços de digitalização de livros como o Google Print [leia este texto para mais informações]. Comparando a questão às suas análogas, o grupo de escritores nos lembra das produtoras de cinema que condenaram o VHS, e da eterna lenga-lenga da indústria fonográfica, primeiro contra o K7, depois contra as gravadoras de CD, e finalmente contra o download.

Hoje, várias livrarias virtuais já aderiram à disponibilização de trechos digitalizados como ferramenta de auxílio nas vendas, o que torna a última parte do texto um tanto obsoleta. Mas ainda útil: afinal de contas, nós todos estávamos lá quando a idéia ainda soava absurda para o mercado, e certamente estaremos lá quando a próxima inovação assim soar.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Notas inéditas sobre copyright e copyleft

Wu Ming

Tradução: Reuben da Cunha Rocha

3. Google Print e similares: a web, o gratuito e o ato de reconstruir

Numa biblioteca você tem acesso gratuito a um livro e numa livraria você o compra, mas não há conflito entre as duas opções: os países onde se vendem mais livros são também aqueles com mais pessoas nas bibliotecas. É natural: quanto mais um livro circula, mais ele é lido, maior seu impacto na literatura.

A palavra-chave é ‘biblioteca’. Ela representa uma longa história de liberdade de acesso, posta em questão apenas muito recentemente (uma batalha ainda em curso). Tanto faz falar em bibliotecas feitas de tijolos ou bits, são igualmente bibliotecas. Se, ao contrário, o download for pago, estamos falando de livrarias, simples assim. Dito isto: Seth Godin, um dos maiores pensadores do mercado, diz que se x pessoas compram um e-book, o mesmo livro disponível gratuitamente será baixado por quarenta vezes x pessoas. Inverter a equação pode ser muito útil: a cada quarenta pessoas que baixam um livro de graça há uma que o irá comprar. A soma destes ‘um a cada quarenta’ leitores é garantida. São eles que compram o livro primeiro, e que primeiro falam dele. Eles são as conexões, os ‘evangelistas’, as ‘matracas’. Cada passo deve ser dado com estas pessoas em mente. Esta é a tática de Godin: novas obras (eletrônicas ou de papel) são postas à venda. Mas antes de divulgar o release de uma nova obra, ele disponibiliza a obra anterior para download. É uma estratégia de lançamento formidável.

O download gratuito de um texto e sua visibilidade nas ferramentas de busca têm um fim comum, e confluem para o mesmo objetivo: restituir o acesso on-line de produtos culturais ao público, o que pode encorajar a venda de livros.

Editoras que se opõe ao Google Print são como aqueles estúdios de cinema que, vinte anos atrás, denunciaram os fabricantes de videocassetes e fitas K7 alegando que a cópia doméstica violava o copyright. O famoso caso “Universal x Betamax”. A Universal acabou perdendo na Suprema Corte norte-americana…para sorte dela. Nos anos seguintes, a indústria cinematográfica creditou seu lucro não às salas de cinema, mas ao home video. Sobreviveu a crises graças ao VHS primeiro, e depois ao DVD. A Universal teria fechado caso houvesse ganho aquele processo. Ela perdeu, e terminou salva.

Poderíamos mencionar também a batalha absurda das gravadoras contra a introdução das fitas K7 nos anos 70, um prelúdio da guerra contra o download, travada apesar do fato de que (como mostra o iTunes) a verdadeira questão é oferecer ao público um modo legal de acesso à fonte.

A presente batalha custeada pelas editoras é ela também uma missão suicida contra inovações potencialmente vantajosas. Para o seu próprio bem, elas devem perder. Caso ganhem, as editoras terão encontrado um péssimo jeito de entrar para a história.

Notas sobre copyright e copyleft (II)

creadores

A segunda parte do texto do coletivo Wu Ming que começamos a publicar ontem discute as origens do copyright. Destaque para o detalhe: por razões pura e obviamente econômicas [de poder econômico e interesse econômico], quando se trata de direitos autorais os mediadores da cultura [editores, neste caso] desde o ínicio foram privilegiados em detrimento dos produtores.

Em parte, isso nos leva a pensar no desinteresse das classes criadoras pelo lado ‘chato’ da criação: a prática de preparar e apresentar uma obra a um público. Não são raras as vezes em que por negligência ou desconhecimento um artista assina um contrato ruim, e nestas ocasiões talvez lhe fizesse um bem maior ser menos gênio e mais operário. Por outro lado, a informação nos leva a pensar no que acontece com os intermediários agora que a distinção entre quem faz e quem consome cultura se relativizou. Se muitos artistas dinossauros ainda se acomodam às velhas regras nas quais, afinal de contas, eles fizeram verdadeiras fortunas, há verdadeiras hordas de novos criadores – que gravam suas músicas em casa, editam livros do próprio bolso, organizam seus próprios festivais – que não estão mais esperando por serem ‘descobertos’. Para eles, é mais útil aprender a usar os recursos que a tecnologia lhes oferece.

Mas isso a gente conversa após a leitura. Amanhã tem mais!

[Reuben da Cunha Rocha.]

Notas inéditas sobre copyright e copyleft

Wu Ming

Tradução: Reuben da Cunha Rocha

2. Censura e o nascimento do copyright: contra o liberal “mito das origens”

Agora, de volta ao início. Vamos listar os muito conhecidos e normalmente mencionados fatos. A história do copyright começa na Inglaterra do século 16. A difusão da imprensa, a possibilidade de distribuir muitas cópias do mesmo texto é excitante para quem quer que tenha algo a dizer, especialmente algo político. Há uma explosão de jornais e panfletos. A Coroa teme a difusão de idéias subversivas e passa a exercer controle sobre o que se imprime.

Em 1556 surge a Stationers’ Company [“Companhia dos Editores”], um grupo de profissionais que passa a deter com exclusividade o direito de copiar. A companhia possui o monopólio das tecnologias de impressão. Alguém que queira imprimir algo passa necessariamente por ela. Diferente do que ocorria até então, quando qualquer um podia imprimir para si cópias de livros ou peças sem que os autores se importassem, já que eles não detinham os direitos (eles não existiam). Importante era que as obras circulassem e sua fama crescesse, já que assim os autores chamariam a atenção de possíveis protetores (mecenas, corporações culturais etc.). A partir desse ponto só se imprimem obras que possuam autorização (na prática, o selo do censor do estado) e que estejam listadas no registro oficial – note o detalhe! – em nome de um editor. O editor se torna o dono da obra, com a conivência do estado.

A mitologia ‘liberal’ do copyright como um direito natural, nascido espontaneamente com o desenvolvimento e o dinamismo do mercado é…puro conto de fadas! As origens remotas do copyright se encontram na censura preventiva e na necessidade de restringir o acesso aos meios de produção cultural (restringir, portanto, a circulação de idéias). Um século e meio depois e a Coroa sofre ataques nunca vistos: a rebelião escocesa de 1638, a “Grande Representação” parlamentar de 1641, a deflagração da Guerra Civil um ano depois, a revolução de Cromwell e a decapitação do rei. No fim da década de 1650 o país retorna à monarquia, mas a situação permanece instável e finalmente o parlamento impõe à Coroa uma declaração de direitos. A partir disso a monarquia inglesa se torna constitucional.

É preciso listar tais eventos para que se entenda como as coisas dentro da monarquia sofreram mudanças ao longo de um século e meio, e como isto afetou o que se pensava sobre a censura preventiva e os próprios editores. Um grande ressentimento passou a ser direcionado a este grupo, tanto que afinal se decidiu pelo fim do monopólio de impressão.

Os editores são atingidos onde mais dói – o bolso – e reagem de acordo. Eles iniciam uma campanha para assegurar que a nova lei reconheça a legitimidade dos seus interesses e trabalhe em seu favor. Seu argumento é: o copyright pertence ao autor; o autor, no entanto, não possui máquinas de impressão; as máquinas pertencem aos editores; assim o autor necessita do editor. Como regular essa necessidade? Simples: o autor, interessado em que a obra seja publicada, cede os direitos ao editor por um determinado período. Na raiz, a situação permanece mais ou menos a mesma. Só muda a justificativa legal. A justificativa ideológica não se baseia mais em censura, mas na necessidade do mercado. Todos os mitos que daí derivam acerca dos direitos do autor se baseiam no lobby dos editores: autores são forçados a cederem seus direitos…mas isso é pro seu próprio bem. As consequências psicológicas são devastadoras, uma variação da ‘Síndrome de Estocolmo’ (quando o sequestrado se apaixona pelo sequestrador). De agora em diante, autores se mobilizarão em defesa de um status quo que consiste neles próprios esperarem ao pé da mesa pelas migalhas e por um tapinha na cabeça. Pá, pá! Au!

A lei é o famoso Estatuto de Anne, que passa a ter efeito a partir de 1710. Ela antecede todas as leis e acordos internacionais sobre copyright, desde a Convenção de Berna em 1971 até o Digital Millennium Copyright Act e o Decreto Urbani. É a primeira definição legal de copyright tal qual ainda o conhecemos hoje, ou o conhecíamos ontem. Porque hoje mesmo algumas pessoas começaram a ter dúvidas. Dúvidas que nascem do fato de que copiar algo está ao alcance de muito mais pessoas agora, talvez de todos. Um bom punhado de nós tem em casa aquela tecnologia que os editores um dia monopolizaram. Para copiar uma obra não é mais necessário dirigir-se a uma companhia profissional. O espólio dos editores tem sido minado pela revolução micro-eletrônica iniciada nos anos 70 com o advento da tecnologia digital, a ‘democratização’ do acesso à computação. Primeiro a fotocópia e a fita K7, depois o VHS e o sampler, então a gravadora de CD e o P2P, e finalmente os dispositivos de memória portáteis como o iPod…como alguém pode acreditar que a justificativa ideológica do copyright – aquela que inspirou o Estatuto de Anne – ainda é válida?

Está claro que as coisas precisam ser revistas; este processo mudou todo o modo de produção da indústria cultural! Novas definições dos direitos de quem cria, produz e distribui são necessárias. Se uma ‘obra intelectual’ pode chegar ao público sem a mediação de um editor, de uma gravadora, da televisão ou de um produtor, então estas pessoas precisam se perguntar o que fazer agora, chegar a uma solução, redefinir o papel social do seu trabalho. Lutar para manter um monopólio que não se sustenta mais com ameaças de prisão acaba levando a um beco sem saída. É como se comporta o Antigo Regime, é a autocracia czarista. Felizmente, algumas pessoas começaram a perceber isso.

Notas sobre copyright e copyleft (I)

copyleftluz

Em novembro de 2005 os integrantes do coletivo Wu Ming selecionaram alguns trechos de entrevistas nunca publicadas e fragmentos de conversas pessoais e os organizaram em forma de texto. “Notas inéditas sobre copyright e copyleft” é o resultado disto, que você confere na íntegra e em inglês aqui, ou por aqui mesmo, na retomada das traduções do BaixaCultura. Originalmente o texto se divide em três partes, que serão publicadas em posts diferentes ao longo do fim de semana.

Neste primeiro post, o coletivo se opõe à lógica de defesa do copyright, segundo a qual não é possível conciliar acesso livre às obras e remuneração digna ao artista. Trata-se da parte mais simples do texto, um apanhado de exemplos e idéias disseminadas pelo grupo em diversas ocasiões, algumas bastante conhecidas e já debatidas por aqui. Destaque para dois pontos: a idéia de que obras intelectuais não devem ser apenas produtos do intelecto, mas produtoras de intelecto, verdadeiros estimulantes para um público nada passivo; e a de que o copyleft não é um movimento ou ideologia, mas um termo que abriga uma série de práticas, cenários e licenças comerciais diferentes.

No próximo post, continuamos com as duas partes restantes. Até lá, boa leitura.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Notas inéditas sobre copyright e copyleft

Wu Ming

Tradução: Reuben da Cunha Rocha

1. Os dois lados do falso dilema

Começando pelo fim: o copyleft surge da necessidade de unir duas demandas básicas; podemos dizer duas condições indispensáveis à convivência civil. Se deixássemos de lutar por essas duas necessidades, deixaríamos de sonhar com um mundo melhor.

Não há dúvida de que a cultura e o conhecimento devem circular o mais livremente possível, e de que o acesso às idéias deve ser direto, equânime e livre de discriminações de classe, censura ou nacionalidade. Obras intelectuais não são apenas produtos do intelecto, é preciso que elas também produzam intelecto, disseminem conceitos e idéias, fertilizem mentes de modo que novas formas de pensar e imaginar sejam passadas adiante. Esta é a primeira necessidade. A segunda é que o trabalho seja remunerado, o que inclui o esforço de artistas e narradores. Quem quer que produza arte ou narrativas tem o direito de sobreviver do seu trabalho, de modo não ofensivo à sua própria dignidade. Obviamente, esta é só a melhor das hipóteses.

É conservador acreditar que tais necessidades sejam como dois lados irreconciliáveis de um dilema. “Não dá pra fazer as duas coisas”, dizem os defensores do copyright como se fosse óbvio. Para eles, copiar livremente significa apenas ‘pirataria’, ‘roubo’, ‘plágio’ – e esqueça a remuneração do autor. Se o trabalho circula gratuitamente, menos cópias são vendidas e menos dinheiro ganha o autor. Um silogismo bizarro quando visto de perto. A lógica deveria ser outra: se o trabalho circula gratuitamente, as pessoas gostam e o divulgam, a reputação do autor se beneficia disso e sua influência na indústria cultural (e não apenas nela) cresce. É um ciclo de benefícios. Um autor respeitado é constantemente convidado a fazer apresentações (despesas reembolsadas) e conferências (pagas); ele é entrevistado pela mídia (sendo promovido); cargos acadêmicos (remunerados) são oferecidos; assessorias (remuneradas), cursos de escrita criativa (remunerados); ao autor se torna possível negociar condições mais vantajosas com editores. Como estas coisas poderiam prejudicar a venda de livros?

Vamos falar de música. Ela circula gratuitamente, ela chama a atenção das pessoas; quem quer que a tenha feito passa a ser conhecido, e se o autor souber explorar isto passa então a ter a oportunidade de se apresentar (remunerado) com maior frequência e em mais lugares, conhece mais pessoas e consequentemente tem mais apoio, se ‘construir um nome’ passará a ser convidado para compor trilhas sonoras (remuneradas), fazer festas como DJ (remunerado), trabalhos de design sonoro para eventos – pode até acabar dirigindo festivais (remunerados) etc. Se pensarmos nos artistas pop, podemos incluir o que se ganha com camisetas, vendas on-line etc.

Assim se resolve o ‘dilema’: as necessidades dos consumidores são respeitadas (eles têm acesso à obra), como o são as dos artistas (beneficiados artística e financeiramente) e as da indústria (editores, produtores etc.). O que aconteceu? Por que o velho raciocínio é tão facilmente desmascarado por estes exemplos? Por não levar em consideração a complexidade e a riqueza das redes, das trocas, do incessante boca a boca de um meio para outro, as oportunidades de diversificar a oferta, o fato de que o ‘retorno econômico’ do autor possui diversos níveis, inclusive alguns (aparentemente) tortuosos.

É graças a uma inabilidade para compreender tal complexidade que o setor cultural (especialmente a indústria da música) perdeu anos e anos de inovações. Novas oportunidades que foram encaradas como ameaças ao invés de desafios, e reações histéricas que foram dirigidas ao Napster e a tudo o que se seguiu. Isto começou a mudar quando Steve Jobs mostrou que era possível, mas nesse meio tempo uma guerra foi travada contra exércitos de clientes em potencial, cuja confiança foi perdida para sempre.

Anti-marketing.

Qual a última coisa que alguém que faz e vende música deveria fazer? Certamente criminalizar o público, processando quem os ama. Valeu a pena? Em nossa opinião, não. ‘Direitos do autor’ (cuidado para não levar esta frase semifraudulenta a sério) tais como os conhecemos são um grande freio para o mercado.

Por outro lado, o copyleft (que não é um movimento ou ideologia, mas um termo que abriga uma série de práticas, cenários e licenças comerciais) encarna o que se precisa para reformar e adaptar as leis autorais ao ‘desenvolvimento sustentável’. A ‘pirataria’ é endêmica, inevitável, uma maré que sobe empurrada pelo vento da inovação tecnológica. Obviamente, os poderosos da indústria do entretenimento podem continuar fingindo que nada está acontecendo, como a Casa Branca negando o Greenhouse Effect, o aquecimento global e as mudanças climáticas. Nos dois casos, os que negarem a realidade só podem ser varridos para longe. Se você está determinado a não ratificar o Protocolo de Kyoto, determinado a não investir na renovação das fontes de energia, determinado a não resolver os problemas ambientais, cedo ou tarde um furacão Katrina vai bater à sua porta.