BaixaCharla ao vivo #3: Depois do Futuro, Bifo

Nossa terceira BaixaCharla falou de “Depois do Futuro”, de Franco Berardi, vulgo Bifo, publicado em 2009 na Itália e no Brasil este ano, na ótima coleção “Exit” da Ubu. Já citado nesse post e guia de nosso curso-experimento “Tecnopolítica e Contracultura“, o livro repassa as vanguardas do século XX para mostrar como o futuro, até os anos 1970, era visto com esperança e confiança. Depois de 1977, porém, o progresso como uma linha evolutiva para um mundo melhor, com mais conhecimento e tecnologia, se mostrou uma fantasia. Em vez de promissor e brilhante, o porvir que aguarda as novas gerações nascidas em berço digital, precarizadas e altamente conectadas, é incerto e amedrontador.

Como o texto de apresentação da obra comenta, “articulando referências culturais de arte, cinema e literatura e pensamento crítico, o filósofo e ativista italiano Franco “Bifo” Berardi, veterano do Maio de 1968, passa pelo Manifesto Futurista, pelo movimento punk do anos 1970 e pela revolução digital dos anos 1990 para concluir algo sobre o presente: somos incapazes de conceber o que ainda está por vir”. Bifo mistura em seu caldeirão de referências psicanálise, semiótica, filosofia, jornalismo, crítica cultural e da tecnologia, traz exemplos de situações e autores do Japão, Estados Unidos, Rússia e de sua pátria-mãe italiana para detalhar a perda de noção de que “no futuro será melhor”, tão em voga na modernidade, e que se exacerba com o zeitgeist de ressaca da internet que vivemos hoje.

Nessa charla, o editor do BaixaCultura, Leonardo Foletto, destrinchou a obra, especialmente seus capítulos 3 e 4, em que Bifo põe pra dialogar hackers, cyberpunks, pensadores e críticos da ideologia californiana do Vale do Silício. “Quando a disciplina industrial se dissolve, os indivíduos se encontram numa condição de aparente liberdade”. Nenhuma lei os obriga a se submeter às obrigações e à dependência. Mas àquela altura as obrigações foram introjetadas, e o controle social se exerce pela voluntária mas inevitável submissão a uma rede de automatismos”, escreve o filósofo italiano na página  do livro, e não poderíamos concordar mais.

Febbraio 1976. Iniziano le trasmissioni di Radio Alice dalla sede di via del Pratello. Una rara fotografia di Franco “Bifo” Berardi in diretta da via del PratelloArchivio Studio Camera Chiara

Ademais de um filósofo e pensador da arte, cultura e tecnologia contemporânea, Bifo também é um ativista e um ser da prática. Por isso, vamos também percorrer um pouco de sua trajetória enquanto ativista do “maio de 1968 que durou 10 anos” italiano, passando pelo coletivo A/Traverso, revista de efêmera e potente influência nos 1970; criação da Rádio Alice, em 1976, uma das primeiras rádios-livres europeias, que foi fechada em março de 1977, quando o estúdio foi invadido pelos carabinieri, como era conhecida polícia italiana. A Rádio influenciou muita gente da época e tem seu acervo parcialmente documentado online, além de ter uma base de sua história contada neste filme, Lavorare con Lentezza, lançado em 2004.

E seguimos falando um pouco de Bifo em sua estada em Paris, na França, onde conviveu com Félix Guattari e aprendeu muito da esquizonanálise que influenciaria sua abordagem teórica desde então. Viveu nos Estados Unidos, na década de 1980, onde escreveu sobre música, acompanhou de perto o movimento cyberpunk e a discussão sobre tecnologia no Vale do Silício, até voltar para sua Bologna natal, na Itália, nos 1990, onde esteve envolvido na criação de outro experimento midiático, a Orfeo TV, “a street television breaks the Italian regimented broadcasting network“, e do Rekombinant, um e-zine (já extinto, mas com parte do acervo aqui) que circulou entre 2000 e 2009, desenvolvido junto com Matteo Pasquinelli, outro autor importante italiano contemporâneo. Atualmente, leciona no Istituto Aldini Valeriani, uma instituição de ensino médio de Bolonha, e na Academia de Belas Artes de Brera, Milão.

Bifo tem mais de duas dezena de livros publicados em italiano, inglês e espanhol, de seu primeiro “Contra il lavoro”, de 1970, até seu mais recente, “Futurabilidade”, de 2019, publicado em italiano e em espanhol (pela Caja Negra, belíssima editora argentina), passando por “Ciberfilosfia” (1995), A Fábrica da Infelicidade” (2001), “Skizomedia. Trent’anni di mediattivismo” (2006), entre outros. No Brasil, até “Depois do Futuro”, só havia um único livro publicado, “A Fábrica da Infelicidade“, lançado em 2005 pela DP&A e hoje um tanto raro de se encontrar em livrarias físicas. Nos outros países da América Latina, porém, há mais traduções, das quais destacados também “Generación Post-Alfa”, da Tinta Limón, uma coletânea de textos lançada em 2007 que traz vários insights que estão em “Depois do Futuro” – vamos trazer alguns trechos deste livro também na charla, que está disponível para baixar em PDF de grátis.

Há um interesse crescente nos últimos anos na obra de Bifo, o que tem proporcionado muitas entrevistas em veículos jornalísticos, inclusive brasileiros, e algumas palestras que, transmitidas ao vivo, estão disponíveis na rede. Destacamos aqui duas entrevistas publicadas no IHU da Unisinos, no RS: “O que pode a vontade política contra a fúria financeira?“, de agosto de 2019; e “Para entender o fascismo dos impotentes“, de junho de 2019. E dois vídeos, também de 2019:

A charla foi ao ar no dia 3/9, às 20h30, conduzida por Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, e teve a participação (em áudios) de Leonardo Palma, a dupla que ministra o curso “Tecnopolítica e Contracultura”. Palma conhece a obra do filósofo italiano faz mais décadas e tem muito de sua bibliografia em PDF, que ele (garante) que vai disponibilizar para quem se interessar. Deixaremos aqui o roteiro do vídeo, com indicações de leitura, e o vídeo na íntegra. Dá para ler a introdução em PDF de “Depois do Futuro”, disponibilizada pela Ubu.

Aqui a conversa na íntegra:

 

Tecnopolítica e contracultura – a estreia de um curso


Se nos anos 1990, com o casamento do digital com a internet, enxergávamos enormes possibilidades de libertação (da informação de grandes grupos midiáticos, de liberdade de falar o que bem quiser, de criar tecnologias e mundos novos), hoje parece que estamos a lidar com consequências nefastas, representadas em uma palavra na moda nestes tempos: distopia.

Nos descuidamos – ou não conseguimos? – prestar atenção na ascensão de plataformas globais de tecnologia, que por sua vez construíram bolhas de informação que confirmam pontos de vista, espalham mentiras e criam realidades alternativas que em muitos casos não há informação comprovada que consiga mudar. Como podemos compreender o contexto tecnopolítico hoje? Que caminhos podemos apontar para discutirmos e transformarmos a política que sempre está junto na construção de tecnologias?

Para tentar fazer melhores perguntas e aproximarmos de respostas que nos convoquem pra ação, propomos esse curso: “Tecnopolítica e Contracultura“, que vai estrear no Centro de Pesquisa e Formação do SESC, em São Paulo, nos dias 11, 12 e 13 de fevereiro, das 14h às 18h, conduzido por o editor desta página, Leonardo Foletto, e Leonardo Palma, pesquisador independente, agitador cultural radicado em Santa Maria-RS, ativista da Rede Universidade Nômade e um profundo conhecedor da obra dos autonomistas italianos a partir da década de 1970. O curso busca resgatar um pensamento tecnopolítico em quatro momentos: 1) os autonomistas italianos da década de 1970;  2) pós-operaísmo, altermundistas, Fórum Social Mundial e mídia tática dos 1990; 3) hackers: paranóicos visionários, dos 1980, 1990 e 2000; e o 4) hoje, com a ascensão das redes sociais como principais espaços de discussão pública nas redes digitais e o fim da internet como a conhecemos nos 1990 e 2000.

Começamos nosso percurso pelos autonomistas surgidos no maio de 68′ italiano que durou mais de uma década. Falaremos do contexto de surgimento desse, digamos, movimento, sua construção no final dos 1960 com o importante papel das revistas (em especial, Quaderni Rossi, Clase Operaia, Primo Maggio) em tornar palpável a produção de subjetividade, por em circulação e entendimento certos conceitos e ideias; da articulação com a universidade (estudantes e professores) e com os operários das fábricas italianas; da construção de alguns aparatos sociotécnicos baseados nas ideias em circulação, como a Rádio Alice; e de como todo o fértil cenário contracultural estabelecido na Itália dessa época foi dissolvido, com a criminalização e o exílio de muitos de seus participantes. Trabalharemos nessa parte com autores e histórias de Antonio Negri, Franco “Bifo” Berardi, Paolo Virno, Maurizio Lazaratto, Mário Tronti, Giorgio Agamben, Silvia Federici, entre outrxs.

Passamos então para um segundo momento, final dos 1980 e início dos 1990, trazendo histórias, textos & aparatos do pós-operaísmo, altermundistas, net-art e mídia tática. A partir da saída de Negri da prisão (1983) e seu exílio na França, sua obra começa a ser redescoberta por uma esquerda ligada mais a Foucault, Deleuze e Guatarri do que aos “partidos” institucionalizados. Os Zapatistas de Chiapas, no México, recuperam os autonomistas italianos e praticamente inauguram um ciberativismo/hackativismo na então novata internet dos 1990, com ações na rede e fora dela que vão influenciar a potencialização do movimento altermundista e na Ação Global dos Povos, que explode a partir de 1999, em Seattle, e segue pelo menos até 2003. Essa rede pós-operaísmo está articulada com o nascimento do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, 2001; com um movimento potente de cultura digital (“networked cultures”) que propagou o conceito de mídia tática, muito propagado e trabalho no brasil dos 2000;  com coletivos como Luther Blisset, Wu Ming, Critical Art Ensemble; e com muitxs pesquisadores em torno da Nettime, lista de e-mails, até hoje ativa, que reúne alguns teóricos-práticos europeus da área, como Geert Lovink, Felix Stalder, John Holloway, Trebor Scholz, Bruce Sterling, entre outrxs.

Na terceira parte, miramos um grupo de fazedores e pensadores que atua em paralelo aos autonomistas e altermundistas, às vezes se relacionando com estes e em outras não: os hackers. Surgidos enquanto grupo de pessoas e uma (contra) cultura no final dos 1960, os hackers se propagam pelos 1970, com a criação da internet e o começo da popularização dos computadores pessoais, pelos 1980, com o movimento do software livre, do copyleft e via hackerspaces, laboratórios de garagem que serão a base de um movimento, em especial em sua versão européia e latino-americana, que pratica a (contra) cultura tecnológica a partir dos princípios da autonomia digital, da segurança da informação e das táticas antivigilências. Aqui, destacamos alguns textos, ideias e projetos de Richard Stallman, criador do movimento do software livre e ainda hoje preside de Free Software Foundation, Gabriela Coleman, Tatiana Bazzichelli, Eric Raymond, Richard Barbrook, Pekka Himanen, Chaos Computer Club, Julian Assange, Linus Torvalds, entre outrxs também brasileirxs ligados aos grupos da MetaReciclagem, Transparência Hacker, BaixoCentro, Casa da Cultura Digital.

No desfecho, falamos do espírito da “Ressaca da Internet” já comentado em texto por aqui, mas que aprofundaremos no curso. e dos tempos de “decomposição” que vivemos, onde cada vez mais o “autômato” está tomando toda nossa força de imaginação, como fala Bifo em recente palestra na Argentina, em Novembro de 2018. Bifo, aliás, é um dos elos entre todos s momentos do curso; está presente da Itália dos 1970 aos altermundistas dos 1990, ainda hoje ativo pensando, escrevendo e propagando a ideia de que não devemos nos acomodar com a ascenção fascista que nos cerca, em especial no Brasil e na América Latina, e que a força de nosso pensamento e do conhecimento é demasiadamente mais rica do que a que apresentada neste cenário brutal em que vivemos neste 2019.

Como aperitivo do curso, o vídeo de Bifo acima comentado está aqui abaixo e sintetiza algumas questões a serem abordadas entre 11 e 13 de fevereiro. Aos que não forem de SP, aguardem, montamos esse curso com muito estudo e gosto para circular em outras cidades também. Inscrições e mais informações no site do Sesc.

Créditos imagens: divulgação do curso; autonomismo italiano; altermundismo; hackers;

Redes, software e cultura livre em charla

Nosso convidado para a BaixaCharla #3 foi Rodrigo Troian, ativista de software livre desde 2004 e que desde 2008 vem pesquisando e fazendo redes em malha por wifi utilizando roteadores de baixo custo – as chamadas redes livres.

Troian participa desde 2010 da comunidade Latino Americana de Redes Livres, palestrando e organizando eventos em diferentes países da América do Sul. Entre 2011 e 2013 desenvolveu implementações de redes comunitárias na região sul do Brasil e no Chile. Desde 2016 atua como consultor externo para organizações nacionais e internacionais construindo redes e ministrando oficinas no Brasil e no exterior. É um dos integrantes do coletivo da Coolab – laboratório cooperativo de redes livres, colaborando na instalação e no modelo de sustentabilidade de provedores comunitários de Internet no Brasil.

Justo na hora da entrevista, tivemos um problema com a rede do Vila Flores/ Hackerspace Matehackers e não conseguimos fazer a transmissão ao vivo. Coisas que só acontecem quando o papo é, justamente, sobre redes…

Fizemos a charla igual e gravamos. Nela, nosso convidado contou de toda sua experiência desde os 2000 com a política & técnica na instalação de redes livres mundo afora, e como aquilo que já foi uma utopia apenas para “escovadores de bits” (a expansão das redes livres, seja para quem não tem acesso a internet, seja praqueles que querem ter uma rede paralela à internet) tem se tornado, nos últimos anos, uma realidade global. Terminamos o papo de forma otimista – sim, não só é possível como está acontecendo (it’s happening!): há redes livres enormes, redes mistas (com acesso a internet), intranets de comunidades inteiras, redes geridas por associações/cooperativas e muito mais.

Assista o vídeo. Abaixo dele e das fotos temos bonus tracks!

Alguns dos links das organizações/iniciativas citadas: Artigo 19, Nupef, AlterMundi, Libremesh, LibreRouter.

Instalação de uma rede livre em Juruti Velho, no Oesta do Pará, na Amazônia.

Em meados de 2013, fizemos um texto sobre redes livres aqui no Baixa que nunca conseguimos terminar, por uma série de fatores que não cabe aqui falar. Como ele trata de redes livres e é uma boa contextualização sobre o assunto, publicamos aqui abaixo, para complementar o relato já cheio de informações da BaixaCharla.

ASCENSÃO E QUEDA DAS REDES LIVRES COMUNITÁRIAS

Para você ler este texto aqui, seja de um notebook, desktop, smartphone ou tablet, o esquema costuma ser o seguinte: você adquire um dispositivo que permite a conexão à rede e contrata um plano de alguma das operadoras a disposição, que vai fazer a ligação da sua casa, ou do seu dispositivo, à internet através de uma porta disponibilizada na sua rua, no caso de internet a cabo e nas possíveis redes wifi criadas a partir daí, ou possibilitar o registro a um “espaço” no ar criado por uma antena 3G ou de rádio, por exemplo.

Com este aparato físico de ondas ou cabos por trás é que você, de posse de um identificador de sua rede (o “IP”), vai ligar seu dispositivo, abrir um navegador e digitar “http://baixacultura.org” e ler esse texto, ou chegar a ele através de alguma pessoa nas suas redes sociais, principalmente Twitter e Facebook – hoje, disparada a opção mais comum de entrada em alguns sites. Me arrisco a dizer que todas as pessoas que você conhece se conectam a rede dessa forma.

Pois bem, saiba que esta não é a única forma de se conectar a uma rede digital. Uma opção cada vez mais popular no mundo inteiro são as redes livres (ou redes “mesh”), que funcionam basicamente como grandes redes sem fio abertas, montadas a partir de um grupo de roteadores sem fio interconectados que propagam o tráfego entre usuários e também emitem serviços em banda larga a partir de nódulos conectados à internet.

Elas costumam funcionar de duas maneiras: se não tem nenhum ponto conectado à internet, funcionam como grandes intranets, onde os usuários têm acesso a uma rede comunitária offline e podem se comunicar entre si da maneira que quiserem nessa rede, além de usufruir serviços da rede.

Se um dos pontos tem acesso a internet, então se tornam opções mais baratas de conexão à rede – o que propicia a criação de pequenos provedores comunitários estruturados em organizações sem fins lucrativos, que podem comprar seus equipamentos e terem até 35 pessoas ligadas a sua pequena rede, segundo a lei brasileira.

Mais do que isso, a opção se torna ilegal  (não é mais)– muito por, sabemos, pressões das grandes operadoras nacionais, que não vêem com bons olhos as iniciativas de redes domésticas oferecendo serviços que poderiam ser melhores que as redes tradicionais.

Apesar dessa ilegalidade, em época de vigilância na rede (vide caso NSA) e de restrição de colocação de novos pontos de internet tem potencializado sobremaneira a expansão das redes livres, como relata essa matéria publicada no New York Times (e republicada na Folha) semana passada.

Como as redes abertas (offlines) são autônomas em relação à internet, elas não podem ser fechadas por um governo. São também mais difíceis de vigiar porque os dados oscilam de maneira imprevisível entre os nós da rede, sem um polo centralizado. E, com a expansão dos nós da rede, as redes livres podem funcionar como uma pequena internet, com os mesmos serviços oferecidos.

É o caso da maior e mais antiga rede desse tipo, a Athens Wireless Metropolitan Network, criada na Grécia em 2002 e que, hoje, conta com mais de 2.500 usuários em toda a área metropolitana de Atenas e nas ilhas vizinhas – em algumas áreas, oferece velocidades de mais de 100 Mbps por segundo. A AWMN tem serviços próprios de busca, compartilhamento, chats e telefonia VoIP (voz sobre IP, a maneira que o Skype funciona), o que muitas vezes faz com que os usuários nem precisam se conectar a internet, segundo afirma Joseph Bonicioli, presidente voluntário da associação que supervisiona a AWMN.

No Rio Grande do Sul

Durante algum tempo, uma rede livre funcionou em Santa Maria, criada em setembro de 2011 junto ao Centro Marista de Inclusão Digital (Cmid), por sua vez vinculado à escola Marista Santa Marta, na região da Nova Santa Marta, oeste da cidade. A intenção de montar o sistema na cidade surgiu no 3º Encontro Latino Americano de Redes Livres, realizado no mesmo período do 12º Fórum Internacional Software Livre (Fisl), em Porto Alegre, nos dias 1 e 2 de julho de 2011.

Do evento, a Associação de Software Livre (ASL) e o Centro Social Marista (Cesmar) partiram para a construção da rede livre em Porto Alegre, no bairro Mario Quintana, onde fica a sede do Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC). Ali surgia a Rede Livre Mário Quintana, a primeira que sem tem notícia no estado, que inspirou a criação da rede da Nova Santa Marta, a 2º, ambas construídas a partir de equipamentos – servidores, antenas de wi-fi, roteadores – doados pelo Ministério Público e o Governo Federal.

Aberta à comunidade e a visitantes, a rede (que era offline) tinha por objetivo armazenar e disponibilizar conteúdo próprio via wireless numa das áreas mais carentes da cidade. Continha blogs, dicionário, enciclopédia, fotos, vídeos, rádio online e material diático dos cursos oferecidos pelo Cmid. “Nós somos um fornecedor de conteúdo, não de internet, até porque legalmente nós não podemos ser um provedor de internet”, explicou em entrevista publicada aqui quando do lançamento da rede, o engenheiro eletricista Everton Bocca, engenheiro eletricista e um dos professores do Cmid na Nova Santa Marta. Instituição que, aliás, deveria ser um lugar mais reconhecido em Santa Maria, dado o trabalho de referência nacional que executa com os cursos que oferece a jovens de 5º a 9º séries (robótica, informática, meta-reciclagem e meta-arte; mais infos sobre eles aqui)

A rede livre, que funcionou durante alguns meses na cidade, era acessível gratuitamente para quem possuísse um computador com wi-fi nos 187 hectares da área do bairro cobertos por 12 antenas. Devido a população ser de baixa renda, à época muito poucos tiveram condições de utilizar o serviço, o que, somado a interesses particulares e a relação dúbia (à época) com a lei, acabou por fechar a rede. Uma pena.

A esperança é que, neste momento, com a ofensiva contra a espionagem comandada pelo governo brasileiro, as redes livres voltem com mais força a serem pautadas no país (e em Santa Maria). Iniciativas, como as citadas aqui, e o portal da nascente rede criada, são bons indicativos pra isso.

E hoje?

Assiste a BaixaCharla logo aqui em cima.

Fotos: Flickr Colab, Sheila Uberti (do dia da transmissão)