Propagandas Antipirataria [5]

Digamos que tu seja uma mega banda, ou um produtor musical dono de rádios, ou um empresário de grandes estúdios de cinema que vive de vendas para altas audiências. Tu fez suce$$o pensando em fazer com que um objeto cultural alcance o maior número possível de pessoas  – desde que essas pessoas paguem o preço que tu estipular. Preço que, claro, vai ser carregado de uma gorda margem de lucro, pois assim os que podem vão pagar e os que não podem vão ficar loucos dando um jeito de pagar.

Só que a tecnologia para produzir a música, o filme, o livro é desenvolvida de uma forma que estes poucos “donos” não esperavam. A esta altura de cultura digital tu já deve saber que as mensagens são transformadas em códigos binários (0 e 1), ao ponto de as pessoas se comunicarem muito mais (as vezes somente) em máquinas com telas. É assim que elas dão um jeito de passarem músicas – discos inteiros que tu vendia a preço de ouro – para códigos tocáveis nos autofalantes da máquinas, cada vez mais baratas e populares. Ao passo que as máquinas evoluem e ficam menores e mais simples, filmes e livros também são reduzidos e compartilhados.

Tu, dono de gravadora, estúdio de cinema, editora, não raro se indigna com essa liberdade toda, afinal até então somente tu e mais uns poucos detinham o poder de disponibilizar cultura e conhecimento. Os meios de produção e distribuição estão sob tua responsabilidade, e tu não quer adequar os produtos as novas maneiras de consumo. Pra quê né? Até hoje deu tão certo. Em vez de acompanhar o consumidor, tu tenta fazer com que ele não copie, compartilhe, venda, compre as cópias mais baratas daquilo que tu vende bem mais caro. Per$eguir e proce$$ar toma tempo e causa uma má impressão.

Outra opção que tu faz é tentar persuadir e convencer as pessoas de que elas estão erradas, de que tá tudo errado, o mundo tá todo errado agora, e que o bom mesmo era antigamente, quando só tinha o vinil, a fita, o jornal, o cinema, não essa coisa de digital que misturou tudo. Tanto faz produto ou arquivo, é tudo pirataria!

É por esse lado que vai a campanha “Stop piracy in NYC“, organizado pelo Estado de NY. Segundo ela, 700 mil trabalhadores vivem de indústrias criativas em Nova York. Qual a lógica não dita? Se tu comprar produto “pirata” ou baixar, a empresa quebra e o trabalhador vai pra rua. Como se ninguém quisesse mais o ‘original’. Como se a culpa de não comprar o ‘original’ fosse somente do consumidor.  A campanha ainda tem um caráter mobilizador, incentivando as pessoas que só compram o ‘original’ – e nunca, nunca baixam arquivos da internet – a fazerem videos anti-pirataria que serão avaliados e veículados.

[Repara nessa troca de e-mails entre a Comissária do Gabinete, Katherine Oliver, o vice-presidente da MPAA e outros membros da NBC Universal. A primeira mensagem cita um estudo encomendado pela MPPA que afirma que a cidade perde 23 mil empregos por ano com a “pirataria”. No e-mail seguinte, o representante da MPAA diz que vão fazer tu-do para ajudar na divulgação.]

Para encerrar esse post – o até aqui quinto das propagandas antipirataria – mais pro fim tu encontra quatro videos da campanha “Brasil Original: Compre essa ideia”, promovida em 2010 pelo Conselho Nacional de Combate a Pirataria, que tem em seu grande número de membros um representante da MPAA. É mais uma prova de que não, as indústrias ainda não querem mudar o seu modus operandi, mas sim continuar a ficar ditando o preço que quiserem e o resto que consuma, afinal é isso que mantém a economia, né Bush, Lula? A responsabilidade e a culpa parece ser sempre e somente do consumidor, nunca dos produtores (corporações) ou financiadores (bancos).

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=GtgoEc-GeDM]

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=otD1VmWfmA8]

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=7ZbkaLRE0co]

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=7kHLQakhCB0]

Crédito das imagens: 1 – 4.

[Marcelo De Franceschi]

  1. Gostei muito do texto, é uma pena que o Brasil entre nessa de campanha ante pirataria, com esses argumentos fracos (se é que existe algum argumento verdadeiramente relevante)…depois de tanto progresso com o CC que cada vez é mais presente nas obras de artes, cientificas e etc, é um retrocesso pensar dessa forma.

    Fiz um texto a um tempinho atrás, que fala sobre a volta do Disco de Vinil como forma desesperada das gravadoras retomarem o monopolio da distribuição cultural…

    http://www.cantodomundo.com/2011/10/que-delicia-ouvir-o-chiado-do-vinilnao.html

    Abracos para voces do baixacultura, acompanho toso os posts sempre.

  2. Teo,

    Obrigado pelo comentário e por nos acompanhar. Tb fizemos um texto, tempos atrás, que tratava do vinil, uma das últimas salvações colocadas pela indústria pra salvar um sistema falido.
    Adelante!

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