Aleatorizando

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excesso de informaçao

Creio que nestes tempos de cultura livre aconteça com todo mundo que passa mais de duas horas em frente a um computador com acesso à internet: a web nos traz um infinito tão infinito de possibilidades que cada vez mais torna difícil a tarefa de selecionar o que vamos ler. Não raro, a curiosidade ganha da sabedoria e o resultado é a leitura dinâmica de tudo, o que determina um reduzidíssimo índice de compreensão daquilo que é lido e um esquecimento inevitável de grande parte do que até minutos atrás estava diante dos nossos olhos somente perpassando nossa compreensão e a enganando.

Digo isso não sei porquê, pois a intenção dessa postagem era indicar textos interessantes que ando lendo. Contraditoriamente ao evidenciado no primeiro parágrafo da postagem, minha ideia era apontar links para textos interessantes que tenho lido (dinamicamente ou não) ultimamente, mais coisas textos para te encher de coisas a serem (possivelmente) lidas.

Ultimamente tenho levado mais tempo lendo do que escrevendo, o que as vezes parece bastante saudável e noutras nem tanto. Saudável pelos motivos óbvios, não-saudável pelos motivos salientados no início dessa postagem,  um tipo de situação que dá para chamar também, se quisermos um nome pomposo e inventado, de síndrome da banalização excessiva da leitura. É tanta informação que a memória, que Jorge Luis Borges dizia ser inventiva, vai acabar por perder essa capacidade, tornando-se meramente reprodutiva, presa ao mar de leituras aleatórias/dispersas.

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excesso de informação1

De qualquer modo, desde que terminei minha dissertação de mestrado no Posjor da UFSC, há cerca de dois meses atrás, tenho levado bastante a sério um conselho sobre postagem em blogs que está presente no fim do terceiro capítulo: “Cover what you do best and link to the rest”. A frase, de autoria do jornalista/pesquisador/blogueiro Jeff Jarvis, foi citada por mim seguido da frase

No processo atual de transformação que o jornalismo está passando por conta do advento das redes telemáticas, Jarvis (2007, on-line) diz que se faz necessário cada vez mais direcionar os leitores para a melhor cobertura de um fato, e não para a 87º versão da mesma cobertura republicada ad infinitum através da internet.

na página 87. Apesar de falar de jornalismo, e, especificamente, de jornalismo digital, e mais específico ainda de blogs jornalísticos, acho que ela vale para muita coisa além disso. O contexto atual de multiplicação incontrolável de informação interessante e de boa qualidade requer uma pensata antes de cada vez que tu for publicar algo na rede: isso vale a pena? alguém já não publicou estas mesmas informações num texto melhor do que o que acabo de fazer?

Pense se tu pode fazer melhor do que aquilo que já está na rede. Se não puder, então referencie as informações através de links, e dedique o teu tempo para aquilo que tu faça melhor, tipo correr na rua, namorar em casa ou dormir na cama.

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ansiedade de informação 3

A propósito: os textos que eu iria indicar eram estes aqui abaixo. Tente lê-los de forma não dispersiva, porque, afinal de contas, se em poucos minutos tu nem vai lembrar do que leu, então pra que vai ler?

_ Tiago Doria fez um interessante post sobre o que nomeia-se de Era do Desmanche, que seria caracterizada pela repartição do conteúdo em milhões de pedaços ao invés do consumo de um pacote completo de conteúdo, que inclue  junto coisas que tu não quer consumir. Segundo Tiago, isso se manifestaria na lógica de distribuição de uma música em vez de um disco inteiro, o que cada vez mais parece ser uma tendência na Indústria Musical, e, no jornalismo, na distribuição de uma matéria que tu tenha escolhido previamente para receber (via RSS) e não de um pacote inteiro de notícias que inclui diversas que não lhe interessam.

_ Outro texto que parece ser interessante (ainda não li por completo) é este artigo sobre a História Social do MP3, publicado no Pitchfork. É um artigo longo, de cinco páginas, em inglês, recomendado especialmente para quem tenha grande interesse sobre o tema.

_ Para ficar no assunto que casualmente perpassou esta postagem, uma saudável recomendação para os que sofrem de um distúrbio chamado de “ANSIEDADE DE INFORMAÇÃO”: o livro de mesmo nome, de autoria de Richard Saul Wurman, provavelmente um dos primeiros arquitetos da informação que se especializou em tornar a informação compreensível.  Apesar de ser publicado pela primeira vez ainda em 1991, ele cai como um bom remédio para os que se veem diariamente perdendo horas lendo RSSs inúteis ou seguindo indicações via twitter só pelo prazer obsessivo da curiosidade.

[Leonardo Foletto.]

Créditos: 1,2 e 3.

  1. André,
    A questão é braba mesmo. O excesso de leitura redunda numa leitura atenta de nada, e uma superficialidade preocupante. O teu post pega um pouco dessa questão, mas é mais radical. Tem algumas coisas que não concordo ali, mas acho que entendo tua brabeza com a questão.
    abraço!

  2. Post interessante!
    Em um dos “Superpapo” da revista Superinteressante, eu li certa vez sobre um tal de psicanalista e professor de literatura Pierre Bayard, que escreve ensaios com títulos que parecem picaretagem, como o livro que virou best seller nos EUA, França e Inglaterra, o “Como falar de livros que não lemos”. Interessante também essa questão. “Para ele, o que nos afasta dos livros é justamente a exigência de ler e a culpa por não conseguir ler obras inteiras. E é mais importante saber situar um livro num contexto do que lê-lo inteiramente.” – Rita Loiola.
    Para mim, essa questão é como uma prova de história sobre muitos capítulos. Às vezes passa-se lendo e relendo-os, sem entender a realidade que se passa; na hora da prova, é difícil de se situar no período, e uma citação pode revirar a mente a procura de algo parecido que estava na parte infeiror da página que tinha uma figura do castelo medieval… Aí nos confundimos.

    PS.: O livro “Ansiedade de informação” está disponível para download?
    Abs!

  3. Oi Camille,
    Eu tenho esse livro do Bayard, que ao contrário do que o título indica é muito interessante. É uma aula de como ler, e de como não precisamos nos angustiar em querer ler tudo. Essa questão de ser mais importante saber situar um livro num contexto do que lê-lo inteiramente é válida, embora não de todo – alguma coisa temos de ler por inteiro, se não complica. Uma hora dessas posso te passar tanto esse quanto o “Ansiedade de Informação”, que pelo que sei não está disponível pra download. É um livro caro que comprei por acaso em SP, e desde então muito me tem ajudado a tratar essa tal de ansiedade de informação, uma “doença” que me atinge constantemente.
    abraço!

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