É tempo de compartir
março 27th, 2012 § 4 Comentários
No primeiro sábado do BaixoCentro rolou o Piquenique do Compartilhamento com a ilustre presença do Ônibus Hacker, como falamos aqui na semana passada.
Enquanto o DJ Tutu Moraes saía da Praça Roosevelt e se dirigia ao Largo do Arouche com seu cortejo Santo de Rua, o Arouche foi o espaço para todos levaram seus notebooks, Hds e pendrives para compartilhar arquivos, seja filmes, músicas ou qualquer aplicativo. A ideia era fazer uma grande feira de troca de arquivos digitais. Tudo pelo compartilhamento!
Para primeira vez, foi um experimento deveras interessante. Em épocas de acirramento do debate da questão dos direitos autorais na rede, e de uma internet cada vez mais política, não deixa de ser um ato político trocar arquivos em plena praça pública; é naturalizar offline uma prática natural on-line.
E aqui política entendida não no sentido de representação institucional, mas de construção coletiva do presente e futuro comuns – o que o BaixoCentro como um todo tem feito muito bem até aqui, nestes 5 dias de atividades que tomaram de assalto as ruas de um (baixo) centro esquecido das políticas públicas governamentais.
[Desculpa aí a falta de isenção em analisar uma coisa da qual fazemos parte. Nunca dissemos que fazemos jornalismo, quanto mais "jornalismo isento"].
No Piquenique, as pessoas presentes no Arouche puderam assistir as bandas EletroUrbana e Os Augustos, trocar comes e bebes e acessar a internet livremente por meio de um hub de modems 3G criado pelo pessoal do Busão Hacker. Pedro Markun, da Transparência Hacker, capitaneou a criação do modem, que pegou uma rede surpreendentemente rápida.
Outro destaque foi o a Rádio Livre do Busão Hacker. O pessoal tem uma antena ao melhor estilo gambiarra, que é colocada no alto de uma taquara tosca apoiada no ônibus. O sinal captado na antena vai para um transmissor (hardware livre) comprado junto a Lorena Bravo, do projeto Palabra Radio, que esteve no Festival da Cultura Digital ano passado, no Rio (na foto mais abaixo, Loreta dá oficina no evento). De lá sai os cabos para ligar numa mesa de som, que por sua vez é plugada a um computador, que comanda a programação com o que bem entender.
A escolha da frequência a ser usada é ainda anterior a montagem da estrutura da rádio: basta pegar um aparelho de rádio e testar uma frequência que não esteja sendo usada – de preferência longe de alguma rádio tradicional, para evitar problemas. A usada no sábado foi a FM 105.9, que pegou num raio de 5Km à região, talvez um pouco menos, porque no Arouche tem muitos prédios e a antena não estava na altura destes.
A ideia é que a feira/piquenique ganhe outras edições, talvez com uma periodicidade fixa; todos os que ali estiveram gostaram da atividade. Para continuar, é necessário algumas melhorias na estrutura, a começar pela troca de arquivos: os USBs 2.0 que usamos demoram demais para passar os arquivos, o que atrasou o processo e formou uma fila de pessoas esperando a sua vez.
Alternativas a isso não faltam: desde usar USB 3.0, mais rápidos, ou usar mais computadores (e HDs compatíveis a todos, não só os fechados da Apple) até criar um servidor próprio para cada edição da feira/piquenique, de modo que todos possam subir seus arquivos para esse servidor e de lá baixar os arquivos de maneira independente. Há a ideia de aperfeiçoar o modem-hub 3G e torná-lo uma Pirate Box, como falamos na semana passada.
E, no fim, surgiu também a possibilidade de criar uma espécie de “máquina de troca”. Funcionaria aos moldes de uma máquina de refrigerante: você deixa um computador com HD gigante, constrói uma interface externa com diversos USBs e um monitor grande, e pronto: a pessoa escolhe o arquivo a pegar como quem escolhe entre coca e sprite numa máquina. Quem sabe num futuro próximo não montamos uma dessas e deixamos nu lugar fixo, tipo na Casa da Cultura Digital?
[Felipe Fonseca, nos comentários, diz que essa máquina já existe: é a Burn Station, "a mobile copying station which - as it travels through suburban spaces - supports the free distribution music and audio. It is software as well as a local network".
Também via comentários: a máquina que o Pedro se referia é essa aqui, linda também.]
Veja mais fotos da montagem e do andamento do Piquenique no sábado, e de algumas outras atividades do #baixocentro.

Enquanto isso, o cortejo do Santo Forte arrastava mais de 1500 pessoas pelas ruas e se preparava para chegar no Arouche.
Mais fotos do BaixoCentro aqui.
Créditos fotos: 1 (Lucas Bonetti Octeto), 2, 4, 5, 6, 7, 8 (Kelli Garcia) , 3 Palabra Radio (Bruno Fernandes), 9, 10, 11 (Pedro Belasco/Busão Hacker), 12 (Casa fora do eixo), 13 e 14 (Fer Lingabue)
O falso problema da escrita não-criativa
março 2nd, 2012 § 1 Comentário
Depois que Kenneth Goldsmith, o poeta-dândi por trás do belo acervo de arte experimental do ubuweb, lançou a ideia da escrita não-criativa, parece que um caminhão de fichas começaram a cair no entendimento das cacholas lítero-digitais. Não foram poucos os que se impressionaram com a possibilidade de produzir uma literatura somente a partir de outros textos – ou com a ideia de fazer isso abertamente, através de um curso de escrita não-criativa, uma simpática ironia a proliferação nos EUA (e também no Brasil) de cursos de escrita criativa.
Nós mesmos: lemos a entrevista de Goldmsith na Select – a porta de entrada da escrita não-criativa para a maioria, que depois foi reciclada/sensacionalizada pela Folha Ilustrada – e nos impressionamos. O remix que o Mr. Ubuweb fazia da ideia do detournement de Debord e GIl Wolman, do cut-up de Burroughs e Gysin e de outras tantas práticas não assumidas de roubo na criação veio como uma possível via segura e atual para o nosso dilema mortal de criar histórias na era do compartilhamento e do livre acesso a (quase) tudo.
Mas depois da ideia se tornar papo comum (e de boteco) entre os interessados no assunto e aparecer em diversos posts por aqui, começam a vir algumas críticas e provocações. Uma das que pescamos e trazemos aqui é do nosso caro Reuben da Cunha Rocha, jornalista, poeta, tradutor e doutorando em comunicação na USP e um dos fundadores do BaixaCultura.
Reuben continua desafiando ideias consensuais em seu novo espaço na rede, o webzine Cavalo Dada, e não poderia deixar de dar seus centavos ao debate sobre a escrita não-criativa. É de lá que roubamos este texto logo abaixo, escrito em 10 de dezembro de 2011.
A provocação final para trazê-lo para o debate foi a conversa minha (Leonardo) com Marcelo Noah no programa Elefante, ontem à tarde, na webrádio Minima.fm (que tem uma ótima programação e um bom slogan: “Mais que no ar, no wireless“). A ideia era falar sobre cultura livre, música e outros papos decorrentes destes, mas, sem querer querendo como nem porquê, me peguei falando um tantinho da escrita não-criativa by Goldsmith.
Pior: fui tentado a explicar para quem ouvia a rádio o que seria a coisa toda, inclusive com a ressalva de que isso não é a “morte” da escrita criativa, mas mais uma bifurcação de linguagem (?) que está se desenvolvendo potencializado pela cultura digital.
A conversa me soou um alerta, um “peraí, o que significa esse papo mesmo?”. Foi aí que a provocação de Reuben, lida tempos atrás, me retornou enorme, e não tive outra escolha se não compartilhar ela aqui abaixo como uma saudável crítica ao consenso oba oba.
[Leonardo Foletto]
Créditos fotos: daqui e do UbuWeb.O falso problema de K. Goldsmith
Reuben da Cunha Rocha
Que a dicotomia “escrita criativa”//”escrita não-criativa” seja um falso problema dá-se a ver no fato de o questionamento da autoria nascer c/ a própria autoria; isto é, se a autoria é um fenômeno moderno tal como a conhecemos, o plágio criativo também o é, como atesta a energia que gigantes da modernidade como Lautréamont ou Walter Benjamin nele empregaram, o impulso de nutrição que o roubo representa em suas obras. O falso problema se instaura ainda mais confortavelmente na poltrona das veleidades quando se nota que, enormíssimos saqueadores, seus nomes permanecem inscritos na história da autoria, bem como é Kenneth Goldsmith quem gira o mundo concedendo entrevistas, colaborando em simpósios e oferecendo cursos. Seu rosto, ao contrário do de Lautréamont, já é bastante conhecido.
Me sinto óbvio escrevendo algo como isto, mas circundado pelo que se tem dito sobre o assunto, e evidentemente admirando, como admiro, a obra & presença de Kenneth Goldsmith entre os humanos, tenho a impressão de que o poeta torna em totem um dilema c/ o qual não deveríamos sequer nos comprometer. É como os teóricos franceses, nalgum ponto do século XX, digladiando-se c/ o problema do significante/significado quando bastaria contorná-lo, já havendo disponíveis formulações mais produtivas acerca da natureza da linguagem. No caso de Goldsmith, quando detecta em dada função exercida pela autoria a prepotência p/ a qual o ego serve muitas vezes de escudo, compreende que ela não encerra os limites da criação mas ignora que nada lhe encerra os limites, entrando nesse ramerrão de “o futuro da escrita é assim & assado”.
Não interessa o contrário do autor, ou o contrário da autoria; interessa é que a criação não seja uma instância de autoridade, e que aquilo que o autor propõe, que o proponha primeiro a si próprio. Me vêm à mão, à lembrança, uma bela fala de José Celso Martinez Corrêa acerca do carnaval enquanto entrega à dissolução coletiva na qual o ser atinge seu mais alto brilho, & a simples presença de um livro como Curare, de Ricardo Corona, gesto por meio do qual, através do poeta, uma língua & um povo se dão à luz. Não há nada de libertário nesta ou naquela técnica de escrita, a peleja mais interessante está, me parece, no esquecimento das funções coletivas da arte, sua notória irrelevância, cujo nome mais conhecido é “entretenimento”. Quanto ao sujeito, tudo está em exercê-lo como grande domesticador ou em excitá-lo como porta perceptiva, canal p/ tudo o que existe. Neste ponto, ter uma ideia ou apropriar-se de uma ideia são recursos, dois entre tantos — a criação sempre esteve em aberto, ao contrário de muitas cabeças.
Que a linguagem nos diga coisas das quais sequer suspeitamos, inclusive em se tratando de algo escrito por nós mesmos, é uma experiência que não escapa a ninguém que se pronuncie — é a raiz dos mal-entendidos, das ambiguidades, das polissemias. A isto uns não reagem bem, voltando-se às aberturas de sua obra c/ o clássico “não entenderam nada”, quando nem sempre é este o caso; a outros alegra que a obra escape de seus domínios e sirva a outros que dela se apropriem. O que importa não é eleger o “não-eu” contra o “eu”, mas que “eu” não se cristalize nunca, que se deixe modificar sempre que necessário, inclusive pelo produto de suas mãos — neste sentido, não é que um poema expresse algo, mas que o revele, inclusive ao poeta. Caso contrário é apenas um novo autoritarismo — veja-se o que diz Goldsmith nesta entrevista, “não é tanto o que nós escrevemos, mas sim aquilo que decidimos reformular o que faz um escritor melhor que outro”. De minha parte, desde que percebi que viveria pela poesia, jamais me ocorreu que se tratasse de uma competição
A estética do plágio de Tom Zé
fevereiro 12th, 2012 § 3 Comentários
Inovador é o adjetivo mais usado hoje quando se refere a Antônio José Santana Martins, o multi-instrumentista e compositor conhecido como Tom Zé. De fato, parece ser a única alternativa a ser escolhida para nomear o estranhamento causada por sua música, que contém elementos excêntricos, populares e ao mesmo tempo “sofisticados”. Sons de instrumentos como batedeira elétrica, enceradeira, esmerilhador, liquidificador e tubos de PVC estão presentes nas suas obras desde os anos 1970.
Porém, naquela época de costumes rígidos e ditaduras, seus experimentalismos eram vistos de modo atravessado. No show do álbum Correio da Estação do Brás, de 1978, ele começa a usar os denominados “insTrOMZÉmentos” – cuja origem é contada nessa matéria que faz um bom apanhado de sua carreira – de maneira algo inusitada: a partir de um pedido de sua mulher, Neusa, para consertar uma enceradeira que estava com defeito. Tanto consertou que se apaixonou pelo som do aparelho e descobriu que outros aparelhos da mesma estirpe poderiam tirar um som igualmente interessante.
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Em 1998, o músico baiano resolveu escancarar suas ideias sobre plágio e composição com o texto “Estética do Plágio“, encontrado no encarte do disco “Com Defeito de Fabricação“. Nele, Tom Zé vê o compositor como um plagicombinador que “passa pelo trabalho de outros e se apropria, muitas vezes inconscientemente, de fragmentos (coisas); e, a partir destas apropriações, associadas a outras, terá condições de produzir seu repertório”, como analisa Demétrio Panarotto, mestre em literatura brasileira pela UFSC e vocalista da banda Repolho, neste artigo.
Abaixo, o trecho do encarte em que Zé descreve sua ideia:
A Estética do Plágio
A Estética de Com Defeito de Fabricação re-utiliza a sinfonia cotidiana do lixo civilizado, orquestrada por instrumentos convencionais ou não: brinquedos, carros, apitos, serras, orquestra de Hertz, ruído das ruas, etc. , junto com um alfabeto sonoro de emoções contidas nas canções e símbolos musicais que marcaram cada passo da nossa vida afetiva. A forma é dançável, rítmica, quase sempre A-B-A. Com coros, refrões e dentro dos parâmetros da música popular.
O aproveitamento desse alfabeto se dá em pequenas “células”, citações e plágios. Também pelo esgotamento das combinações com os sete graus da escala diatônica (mesmo acrescentando alterações e tons vizinhos) esta prática desencadeia sobre o universo da música tradicional uma estética do plágio, uma estética do arrastão (**).
Podemos concluir, portanto, que terminou a era do compositor, a era autoral, inaugurando-se a Era do Plagicombinador, processando-se uma entropia acelerada.
** Arrastão: Técnica de roubo urbano, inaugurada em praias do Rio de Janeiro. Um pequeno grupo corre violentamente através de uma multidão e “varre” dinheiro, anéis, bolsas, às vezes até as roupas das pessoas.
A própria palavra plagicombinação é consequência de um arrastão de Tom Zé que forma um neologismo por aglutinação. As 14 faixas do disco conceitual Com defeito de Fabricação estão cheias desses neologismos, ao melhor estilo Guimarães Rosa: cedotardar, esteticar, politicar, xiquexique, blacktaiando, smoka-se, tangolomango. Todos essas “palavras novas” foram analisadas num artigo de três estudantes de Letras na Revista Pé da Letra, com direito a explicação de como cada uma é formada – junção de sufixo tal com radical X, adaptação de palavra estrangeira com prefixo Y.
Tom Zé não só pegou o que já tinha de palavras e sons, mas também entregou sons para o ouvinte/espectador formar músicas novas. O álbum “Jogos de Armar (Faça você mesmo)” lançado em 2000 traz, junto a outras 14 músicas inéditas num primeiro disco, um CD auxiliar: o “Cartilha de Parceiros“, só com as bases para que o ouvinte faça a sua música/intervenção. Quase um Duchamp diminuindo por gosto a distância entre público e autor, entregando sua música ready-made pra galera montar e desmontar feito lego, como bem compara Julio Cesar Lancia em “Cut, Copy and Paste – da reciclagem ao LEGO® em música“.
As 11 faixas deste são feitas novamente com os instromzémentos: “a orquestra de herz ou hertzé (uma espécie de “sampler pré-sampler”), o enceroscópio (feito com enceradeiras, aspiradores de pó, liquidificadores), a serroteria (um dispositivo feito com canos de madeira, PVC e outros materiais), o buzinório (um conjunto de buzinas manejadas num teclado) e as canetas Lazzari (pequeno instrumento formado por esferográficas)”.
É com “Defeito de Fabricação” e “Jogos de Armar” que Tom Zé volta a excursionar mundo afora e é conhecido por uma nova geração no Brasil. Como se sabe, o compositor foi um dos cabeças da Tropicália, nos fins dos 1960, mas passou boa parte das décadas de 1970 e 1980 no ostracismo hermético-nacional, só sendo redescoberto no final da década de 1980, quando David Byrne [sobre o qual já falamos aqui], ex- Talking Heads, lança pelo seu selo Luaka Bop duas coletâneas do trabalho do compositor baiano – Brazil Classics 4: The Best of Tom Z (1990) e Brazil 5: The Return of Tom Ze: The Hips of Tradition, de 1992, disco em que finalmente recoloca Zé como um dos mestres da música brasileira.
Com 75 anos completos no último 11 de outubro de 2011, Zé já tem uma longa carreira com 18 discos, que podem ser (quase todos) baixados no Um Que Tenha, e continua na ativa em shows, com uma azeitada banda que segura muito bem ao vivo e garante a sala para o mestre desafi(n)ar o público.
Pra encerrar essa breve digressão sobre Tom Zé e o plágio, vale assistir o vídeo abaixo. É um causo imperdível sobre a música “Se o Caso é Chorar“, de 1972, uma composição em que o músico mostra, passo a passo e numa didática curiosa, como (re)criou uma composição só pegando trechos de outros (Antônio Carlos e Jocafi, Caetano Veloso, Nélson Gonçalves, Lupicínio Rodrigues).
[Se tu não entender algo, aqui tem a transcrição desse vídeo].
[Leonardo Foletto, Marcelo De Franceschi]
Crédito da foto: 1, 2, 3, 4.
















