Manifestos Cypherpunks para venda e download

Enviamos os 500 (!) exemplares do Manifestos Cypherpunks para quem apoiou a campanha de financiamento coletivo no Catarse, que chegou a 732% do valor inicial pedido, com o apoio de 247 pessoas e coletivos.  Junto com eles estão indo também o “A Ideologia Californiana“, primeiro da coleção Tecnopolítica (Manifestos é o segundo e o terceiro vem logo mais), Segurança Holística, A Cultura é Livre, pendrive com Tails, muitos adesivos e até uma pequena cartinha cifrada, como as fotos logo abaixo dão uma pista.

Pra um livro artesanal, impresso em uma pequena e aguerrida editora anarquista (com energia solar!), editada por um coletivo que está há 13 anos na labuta sem grana de fundação nem de big tech, com textos políticos sobre tecnologia do início dos anos 1990 que só circulavam para iniciados, sair já com 500 exemplares vendidos e distribuídos pra todas as regiões do Brasil (fora os pedidos que tem chegado todo dia; logo estará disponível na loja da Monstro) é um bonito feito. Sobretudo porque não estamos no circuito “mainstream” de circulação editorial E os #cypherpunks não são um assunto “da moda”, mesmo na tecnopolítica e em movimentos políticos ditos progressistas, em que a discussão sobre as big techs ainda é muito mais no “eu também vou reclamar” a lá Raul do que buscar alternativas reais de se desviciar do conforto do design das redes digitais proprietárias (como esta que escrevo, sabendo que de algum modo ainda cá me mantenho para a disputar – e também pq sou um tanto desses viciados).

A circulação do “Manifestos” por aí é um pequeno feito que atribuímos a uma série de lances: sorte, persistência, acaso, competência nossa também. Mas sobretudo a uma comunidade aguerrida (hacker, cyperpunk, do software livre, da cultura livre, ciberativistas e outrxs vários) que se viu de algum modo representada por uma publicação radical em seu conteúdo e forma e que dialoga com uma nowtopia de defesa da privacidade – quando tudo parece crer que não mais a temos.

Se o seu ainda não chegou, logo um/a carteiro/a amigo/a vai levar aí. Mas quem não garantiu o seu, temos o prazer de anunciar que a partir de hoje ele está disponível para compra na loja da Editora Monstro dos Mares, co-editora do livro, e também para download gratuito aqui nesta página.

 

Retrospectiva e expectativa Cypherpunk

Capa de Wired de maio/junho de 1993 com cypherpunks mascarados (reza a lenda que Timothy C. May e Eric Hughes estavam presentes)

Com mais de trinta anos desde sua gênese, o ideal dos cypherpunks ainda germina sobre gerações de criptógrafos, programadores e ativistas

Tal qual o movimento da cultura livre, que se reuniu nos anos 2000 para confrontar a perseguição judicial daqueles que baixavam conteúdo em sites P2P, os Cypherpunks ganharam notoriedade quando se organizaram para responder a uma ameaça  – no caso, feita por mecanismos regulatórios da criptografia nos Estados Unidos, entre o final dos anos 1980 e início dos 1990. A união para problematizar legislações (e também atos vigilantes de governos e empresas) foi uma feliz ocasião para reunir grupos de pessoas que discutiam as implicações políticas das técnicas, especialmente aquelas relacionadas com a proteção da privacidade – naquela época já era possível prever muitas (se não todas) as implicações vigilantes de uma rede mundial de computadores como a internet.

Eram, sobretudo, programadores, hackers e engenheiros de software e hardware, alguns influenciados por escritos tecno libertários que viam as  tecnologias  da informação como um acréscimo de poder ao indivíduo que aumentaria a liberdade pessoal e poderia radicalmente reduzir a força do estado-nação. É interessante pensar como o libertarianismo cypherpunk dialoga, ainda que pontualmente, com o que Richard Barbrook e Andy Cameron chamaram de “ideologia californiana”. Timothy May, por exemplo, autor do “Manifesto Criptoanarquista” (1992), foi leitor de Ayn Rand e refletia, em alguns posicionamentos políticos, parte da sua filosofia centrada em um certo individualismo que, anos mais tarde, resultaria em um ultraliberalismo e a aberração chamada anarcocapitalismo (os hoje famosos ancaps).

Ainda que houvesse essa tendência individualista e anti-estatal, o fato é que os cypherpunks também souberam ser um sistema de natureza tecno-social com bastante elasticidade, que soube se adaptar em diferentes contextos sociopolíticos desde o fim da década de 80 até os dias de hoje. A ponto de agregar, além de pessoas e coletivos, também outras formas de “ação política”. Tecnologias podem ser cypherpunks, como o The Onion Router (Tor), o Pretty Good Privacy (PGP) ou o WikiLeaks; articulações sociais podem ser cypherpunks, como as criptofestas em dezenas de localidades do mundo e as diversas mobilizações da sociedade civil de defesa dos direitos conexos à criptografia na rede; e pessoas podem ser cypherpunks através de ações cipher-ativistas, como aqueles/as que se dedicam, em redes colaborativas, a oferecer oficinas sobre o uso de ferramentas de criptografia, organizações que defendem a criptografia em processos judiciais ou indivíduos que alimentam o GitHub (e o GitLab) com linhas de código que tornam mais resilientes arquiteturas de segurança com criptografia.

“Manifesto Cypherpunk” no original, em inglês

Na visão de Tim May exposta em “Manifesto Criptoanarquista”, a criptografia de chave pública foi tão importante para a virada do século XXI, em termos de revolução comunicacional, quanto a invenção da prensa de Gutenberg foi no século XV. Da mesma forma que a difusão de conhecimento possibilitada pela prensa potencializou a desestruturação do modelo de retenção e silenciamento de informações característicos do poder medieval, a criptografia seria, igualmente, o contraponto da escalada de poder do Estado com a aceleração da computação. De fato, para os estudos de vigilância dos finais da década de 80, a centralização do computador enquanto ferramenta de administração pública completaria o projeto panóptico de Jeremy Bentham de duas maneiras: expondo o comportamento do público e tornando opacos os aparatos de vigilância.

No ínterim do aprofundamento das preocupações sobre a erosão da privacidade, os manifestos de May e Eric Hughes foram sintomáticos, respectivamente, do presságio e da reação às “criptoguerras” (como viriam a ficar conhecidas as disputas em torno da criptografia notadamente na década de 90, mas com diversas renovações contemporâneas): em 1988, ano da primeira aparição do Manifesto Criptoanarquista, já era densa a proximidade dos riscos aos direitos refletidos em regulações restritivas à criptografia; em 1993, o “Manifesto Cypherpunk” já mobilizava um repertório de reação a políticas públicas e teorizava, ainda que implicitamente, sobre o direito à privacidade e à proteção de dados. 

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Na quinta-feira 26/8, 19h, Leonardo Foletto, organizador de “Manifestos Cypherpunks”, conversa com André Ramiro, pesquisador em criptografia e um dos fundadores do IP.Rec, autor do posfácio desta edição – os trechos acima são parte do posfácio adaptadas.  A proposta é falar um pouco sobre os três manifestos presentes no livro, seu contexto de produção e sua atualidade para 2021. A conversa ocorre no canal do Youtube do BaixaCultura, às 19h,  dentro do #criptoagosto, uma série de eventos, debates e atividades para falar da importância da criptografia, organizado pela Coalizão Direitos na Rede.

E a campanha do financiamento do livro no Catarse segue por mais 9 dias, já atingimos 500% da meta inicial mas seguimos pra espalhar e fazer a maior tiragem de um livro artesanal cypherpunk desse país!