4 de maio – Dia internacional contra o DRM

Free Software Foundation está convocando hoje, 4 de maio, uma campanha internacional contra o DRM (Digital Restrictions Management), nefastos mecanismos que restringem/controlam o uso e o compartilhamento de arquivos digitais.

A ideia é incentivar os usuários de tecnologias digitais a combater e rejeitar produtos/empresas que fazem uso de DRM para restringir a liberdade de compartilhamento das informações. A FSF, instância máxima do software livre, convoca todos os interessados em participar do International Day Against DRM a realizarem eventos em suas cidades, postagens em blogs e rede sociais e colocação de banners da campanha em sites e blogs para alertarem sobre perigos do DRM.

A mesma FSF mundial já lançou um vídeo em 2007, chamado “Decade in DRM”, que conta um pouco da história da evolução digital e dos limites de reprodução colocados pelo DRM:

Segundo diz a FSF Latin America, cada empresa tem uma versão diferente do DRM, mas em geral, há algumas semelhanças, tais como:

_ Detectam quem acessa cada obra, quando e sob que condições, e reportam essa informação ao provedor da obra;

_ Autorizam ou denegam de maneira inapelável o acesso à obra, de acordo com condições que podem ser mudadas unilateralmente pelo provedor da obra;

_ Quando autorizam o acesso, o fazem com condições restritivas que são fixadas unilateralmente pelo provedor da obra, independentemente dos direitos que a lei outorgue ao autor ou ao público.

 Abaixo, segue uma parte do post oficial da FSF em português, copiado do Cibermundi:

Dia Internacional Contra o DRM – 04 de maio de 2012

Enquanto o DRM tem sido amplamente derrotado nas músicas baixadas, é um problema crescente na área dos ebooks, onde as pessoas tiveram seus livros restritos de tal maneira que não podem emprestá-los livremente, revendê-los ou doá-los, lê-los sem que seja rastreado, ou movê-los para um novo dispositivo sem que seja necessário comprar todos eles novamente. Essas pessoas até tiveram seus ebooks deletados  por empresas sem sua permissão. Isso continua a ser um grande problema na área de filmes e videos também.

Junte-se a nós no trabalho de eliminar o DRM!

Pessoas de todo o mundo vão estar mostrando a sua oposição ao DRM, e você pode se juntar a elas! Participe de um evento local e faça parte do Dia Contra o DRM em 4 de maio de 2012.

Além de participar ou organizar eventos, você pode se juntar a outros ativistas na blogagem sobre o DRM, colocando banners em seus sites e blogs, falando sobre DRM nas suas redes sociais e mais. Veja abaixo uma lista em evolução de todas as formas diferentes que você pode ajudar a conscientizar as pessoas.

Por favor, marquem seus calendários e juntem-se à lista de discussão do Dia contra o DRM para atualizações frequentes entre hoje e o 4 de maio.

Matt, Josh, John and Richard
A Equipe de Eliminação do DRM

Coisas que você pode fazer hoje

P.s: Se você acessar o BaixaCultura este fim de semana, não estranhe as alterações ou algum probleminha. Vamos fazer uns testes para, na semana que vem, estrear o novo layout da página. 

Créditos fotos: 1 (Home Tape) 2 (banner dia mundial contra o DRM)

Tradução do Manual do Copyleft

Um dos trabalhos mais importantes sobre o copyleft que temos notícia chama-se “Copyleft – Manual de Uso“,  publicado pela editora espanhola Traficante de Sueños.

Em 9 capítulos, o manual tem como seu maior mérito relacionar a parte conceitual do copyleft com aspectos práticos, relacionado a aplicação das licenças nas áreas da música, audiovisual, software, dos livros e das artes visuais.

Desconhecemos um outro manual sobre copyleft no mundo [mas se você conhece, nos avise!], o que dá uma medida da importância do livrinho – ou da nossa falta de capacidade de achar um outro, quem sabe.

Mas isso tudo talvez tu já saiba, porque falamos do manual longamente neste post, em que também traduzimos a “Introdução” como forma de difundir o copyleft  – e, quem sabe, diminuir algumas dúvidas das pessoas com respeito ao conceito, que, ao contrário dos que alguns surpreendentemente pensam, NÃO É pirataria.

[Publicamos, inclusive, a tradução no Overmundo.]

*

Eis que, 2 anos depois, o parceiro Arthur Jodorowsky resolveu dar seguimento ao trabalho de tradução do “Copyleft – Manual de Uso“. Criou um blog específico pra isso, lugar onde tem postado periodicamente os trechos em que vai traduzindo.

Por enquanto, estão em português os dois primeiros capítulos: Guia do Software Livre e Guia do Autor de Música Livre. O primeiro faz um panorama geral do software livre, desde uma resposta a clássica pergunta “Por que produzir software livre?” até a aspectos legais relacionados aos tipos de licença livre para distribuição/remix dos softwares.

Já o segundo é um valioso passo a passo sobre como você, músico afinado com as ideias da cultura livre, pode fazer para gravar, editar e distribuir/vender sua música. Vender sim, porque a ideia de música livre não impede que os autores vendam seus próprios discos; ela apenas sugere que, sem a ânsia de lucro dos grandes intermediários, você possa colocar um preço razoável e justo para isso.

**

Blogue criado para a tradução do manual do copyleft

Mas voltamos a falar do “Manual de Uso” do Copyleft neste post também para comunicar que o Arthur está pedindo apoio na tradução do livro. Por enquanto, ele está sozinho no trabalho, mas a ideia é que a tradução seja coletiva.

Nas palavras dele: “Como o texto é longo (209 páginas, das quais já traduzi 41), estou chamando interessados. Se alguém se interessar, pode mandar um email para manualcopyleft@hotmail.com para a gente combinar detalhes.” Dá para baixar o manual na íntegra aqui.

Dado o recado, fique com um trechinho do manual, já traduzido pelo Arthur, que fala um pouco da especificidade do Software Livre:

Na maior parte, a ideia de software livre surge como reação à evolução da indústria de produção de programas, que, mesmo que de uma perspectiva histórica pareça quase inevitável, levou a conclusões e resultados que põem em questão algumas intuições básicas. Há mais de trinta anos temos nos acostumado a que quem produz um programa possa impor (e de fato imponha) as condições sob as quais pode ser usado, distribuído e modificado. Pode, por exemplo, proibir que o programa possa ser emprestado (mesmo temporariamente). Ou declarar ilegal a modificação do mesmo para evitar um problema de segurança (mesmo se for para uso próprio). Ou impedir que se possa adaptar a certas necessidades concretas. E, de fato, a legislação sobre propriedade intelectual e direitos de autor declara, em praticamente todo o mundo, que tudo isso (e muitas outras coisas) não pode ser feito, salvo explicitamente permitido pelo produtor do programa. Definitivamente, estamos acostumados a que essa permissão não exista.

No entanto, o software é basicamente informação, e, como tal, apresenta flexibilidade e possibilidades assombrosas quando o comparamos com qualquer objeto do mundo físico. Por exemplo, temos tecnologias (internet) que permitem distribuir um número indeterminado de cópias de um programa para quase qualquer ponto do planeta, e isso de forma quase instantânea e com custo praticamente zero. Podemos (sempre que tenhamos os conhecimentos técnicos adequados) modificar um programa, e, para isso, necessitamos de (relativamente) poucos recursos, além de obter um efeito multiplicador enorme. (…)

O software é o elemento tecnológico mais flexível e adaptável de que dispomos, o que mais facilmente pode se replicar e transportar. E, contudo, admitimos uma legislação que permite proibir a exploração dessas características, e alguns usos comerciais que de fato a proíbem, fazendo dos programas de computador um dos elementos mais imutáveis da nossa volta.

Quatro ensaios visuais sobre cultura digital

Tempos atrás, reclamávamos da falta de vídeos sobre cultura digital que a focassem pelo viés brasileiro.

Pois bem, não reclamamos mais. O Fórum da Cultura Digital de 2010 deu origem ao projeto 5x Cultura Digital, cinco ensaios sobre a cultura contemporânea realizado por quatro coletivos de audiovisual do Brasil. Já falamos do primeiro destes filmes, o Remixofagia, produzido pela Casa da Cultura Digital através principalmente de Rodrigo Savazoni e da produtora Filmes para Bailar.

Agora é a vez dos outros quatro, também belas produções sobre a cultura digital, cada um retratando muito das visões de mundo (e de trabalho) dos coletivos escolhidos. Variam inclusive no tempo: de 12 a 21 minutos.

Na apresentação do projeto, Rodrigo Savazoni, que coordenou o projeto, explica como se deu o processo de gestação do 5x Cultura Digital:

Inspirado pela vinda de Jean Pierre Gorin para o evento, propus convidarmos quatro coletivos de audiovisual que conhecíamos – mais nós mesmos – para produzirem ensaios que tomassem como ponto de partida a #culturadigitalbr.

Um dia antes do Fórum, organizamos na Casa da Cultura Digital um almoço para os realizadores se conhecerem pessoalmente. Fizemos um longo papo, no qual já pudemos antever que o clima das gravações seria ótimo. De lá, fomos filmar e gravar no show de abertura, Futurível, com Gilberto Gil, Macaco Bong e grande elenco, no Auditório Ibirapuera. Ali começou o registro do Fórum.

Nos três dias restantes, as equipes flanaram pela Cinemateca registrando detalhes, conversas, apresentações, debates, diálogos, gravaram entrevistas e pintaram o set. Nos despedimos com o compromisso de cada um finalizaria, com total liberdade, um corte de cerca de 12 minutos sobre a cultura digital brasileira. O resultado está reunido neste site. Vídeos livres, ideias livres, sobre este nosso tempo.

Guerrilha Midiática“, produzido por André de Oliveira e Jefferson Pinheiro, do Coletivo Catarse, de Porto Alegre, trata de “politizar as imagens” por meio de depoimentos colhidos no Fórum da Cultura Digital com imagens de manifestações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e trechos de entrevistas sobre a cena tecnobrega do pará, dentre outros vídeos/trechos colocados. Unindo tudo, uma narração em off com textos do poeta italiano Giuseppe Ungaretti, que, por sua vez,  cita bastante Vilem Flusser, filósofo tcheco que muito se relaciona com questões de cultura digital hoje.

Re-evolución Compartida“, de Gilberto Manea e Gustavo Castro do Coletivo, do Soy Loco por Ti, busca ver a identidade latino-americana – tema central nos trabalhos do coletivo de Curitiba – e a sua relação com as novas tecnologias partir de depoimentos colhidos no evento com nomes como Afonso Luz e Américo Córdula, do MinC, Pati Pataxó, da Metareciclagem e Victoria Tinta, do JaquiAru.org, interessante iniciativa de jornalismo cidadão oriundo da Bolívia, além de falas de Gilberto Gil, Cláudio Prado, LadiPablo Capilé, dentre outros presentes no Fórum de 2010.

Já “Deus e Diabo @ terra digital” é um quase um ensaio-poético, com longos planos onde se alternam as imagens colhidas no Fórum com pedaços de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, clássico de Glauber Rocha, e de um passeio pelo interior da Paraíba, terra dos realizadores do filme, Gian Orsini e Ely Marques, da Associação brasileira de Documentaristas (ABD-Paraíba).

Por fim, “Digirealejototal“, produção de Cardes Amâncio da Avesso Filmes, produtora com sede em Belo Horizonte, tem por foco a “circulação livre da informação na internet como possibilidade de independência frente à antiga mídia”. Com caráter político bem definido, o filme traz diversos nomes da cultura digital (Ivana Bentes, da UFRJ; Anápuáka Muniz, da Web Brasil Indígena; Léo Germani, do Hacklab; o sociólogo Laymert Garcia dos Santos; Lino Bochinni, do Desculpe a Nossa Falha; entre outros) em depoimentos sobre políticas públicas para a cultura digital, servidores livres, liberdade de imprensa, dentre outros temas.

Os quatro vídeos vão entrar na nossa BaixaTV a partir da semana que vem. Bom proveito!

Especial Santa Maria (1): A rede livre do bairro Nova Santa Marta

As duas semanas e meia que nos separam do final do ano serão de atividade um pouco mais devagar por aqui. Uma pequenas pausa se faz necessária, para digerir este intenso 2011 e preparar as mudanças nesta página para 2012.

Deixamos alguns posts prontos para publicar nesse período, a começar por um pequeno “especial” sobre Santa Maria, a cidade que nos é (foi) morada. São duas matérias sobre iniciativas interessantes relacionadas a cultura digital da cidade, produzidos pelo nosso ex-correspondente na cidade, Marcelo De Franceschi, agora morador da intrépida Montenegro, cidade (quase) na região metropolitana de Porto Alegre.

O primeiro texto trata da criação de uma rede livre numa das regiões mais carentes da cidade, o bairro Nova Santa Marta [visto em primeiro plano na foto que abre esse post]. Um local que, como tantos outros no Brasil, nasceu da ocupação de uma fazenda improdutiva – no caso, a Fazenda Santa Marta, em 1991 – e que só foi ter água encanada e luz elétrica no início dos anos 2000.

Enjoy!

Os moradores do Bairro Nova Santa Marta na região oeste de Santa Maria (RS) podem acessar uma intranet própria, com blogs, dicionário, enciclopédia, fotos, vídeos, rádio online e material diático. Desde o fim de setembro, foi lançada a rede livre que armazena e disponibiliza esse conteúdo próprio via wireless numa das áreas mais carentes da cidade. Aberta à comunidade e a visitantes, ela foi construída por integrantes do Centro Marista de Inclusão Digital (Cmid) vinculado à Escola Marista Santa Marta.

A intenção de montar o sistema surgiu no 3º Encontro Latino Americano de Redes Livres, realizado paralelamente ao 12º Fórum Internacional Software Livre (Fisl), em Porto Alegre nos dias 1 e 2 de julho. O evento reuniu participantes da Alemanha, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai e Venezuela, além dos estados do Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Uma das palestrantes era co-autora do livro Redes sem fio no Mundo em Desenvolvimento, que explica como montar uma rede de computadores com o melhor uso dos recursos disponíveis em comunidades locais.

Exemplo do funcionamento de uma rede mesh

Do evento, a Associação de Software Livre (ASL) e o Centro Social Marista (Cesmar) partiram para a construção da rede livre lá mesmo em Porto Alegre, no bairro Mario Quintana onde fica a sede do Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC). Surgiu a Rede Livre Mario Quintana. Os equipamentos, como servidores e antenas transmissoras do sinal wi-fi, foram produzidos por jovens nas aulas de metareciclagem a partir do reaproveitamento de material de computadores conseguidos em parceria com o Ministério Público e o Governo Federal.

Copiado de Porto Alegre, o projeto foi transposto para Santa Maria. Uma rede livre possui seis características e consiste tecnicamente em uma rede mesh. Cada rede tem suas particularidades técnicas e de gestão, de acordo com os objetivos de cada grupo. Em alguns casos, somente prestam serviços locais e trocam dados entre os nós conectados, enquanto que em outros casos, somam a esta tarefa a extensão do acesso a Internet para colocar ao alcance dos cidadãos de maneira livre e gratuita. Trata-se da primeira situação nos bairros de Porto Alegre e Santa Maria. São redes que possibilitam contéudos abertos, livres e próprios.

Nós somos um fornecedor de conteúdo, não de internet, até porque legalmente nós não podemos ser um provedor de internet” explica Everton Bocca, engenheiro eletricista e um dos seis professores do Cmid na Nova Santa Marta. Ele ministra aulas de software livre para alunos do 5º ao 9º ano da Escola Marista. As turmas são compostas em média por 20 crianças. Depois do curso, elas podem optar entre fazer o curso de Robótica Livre ou o de Metareciclagem, podendo fazer outra opção que não escolheram. Há também turmas para pessoas da comunidade. “Formamos em média 80 alunos por ano. Muitos dos adultos do bairro se qualificam aqui para o mercado de trabalho”, diz Everton.

Alguns computadores recondicionados pelo Cmid

O material para as aulas vem de duas vias: ou de doações de empresas e pessoas físicas, ou do Projeto Alquimia, uma parceria com o Ministério Público que destina cargas de material eletrônico e de máquinas caça-níqueis apreendidas. Após o processo de recondicionamento, os computadores são enviados para creches, escolas, instituições públicas ou utilizados para montar telecentros. Aquilo que não pode ser aproveitado, vai para a Meta-Arte, onde restos como fios de cobre, placas queimadas e coolers de processadores viram esculturas, quadros e o que a imaginação permitir. O Cmid ainda possui um Telecentro que funciona como um movimentado espaço de socialização.

Everton Bocca ressalta que a rede livre é acessível gratuitamente para quem possui um computador com wi-fi nos 187 hectares da area do bairro cobertos por 12 antenas. Todavia, é fato que devido a população ser de baixa renda, muito poucos têm condições de utilizar o serviço. O que não impede a curiosidade nem é um empecilho para não existir. “Quem fica sabendo da ideia”, relata Everton, “pergunta sobre, quer saber como funciona e acessa aqui no telecentro. Para ampliar o acesso, pretendemos um dia doar computadores para os alunos daqui, um por família ao menos”.

[Marcelo De Franceschi]

Crédito das Imagens: abertura1, 2, 3.

Festival CulturaDigital.br (3): notas pessoais e aleatórias

Continuemos de onde parou o relato sobre o FestivalCulturaDigital.br: da festa no primeiro dia, logo após a conferência de abertura oficial do evento e da palestra de Benkler.

A festa serviu para lavar a alma e matar a fome de diversão de muita gente que estava li no Odeon. Cerveja, champanhes e canapés liberados, mas extremamente disputados pela multidão que se apertava no hall, mezanino e entrada do Odeon, a maioria entretida com o tete a tete com amigos/conhecidos/novos amigos –  afinal de contas, são essas conversas uma das coisas mais importantes de um Festival como o CulturaDigital.br.

O fato do Odeon ser localizado em plena Cinelândia – região central do Rio, onde, por exemplo, o OcupaRio estava acampado até domingo passado – trouxe algumas intervenções à festa. Em especial, teve um grupo de teatro, devidamente maquiado e paramentado para uma performance que não bem lembro qual, que ficaram na frente do cinema, aparentemente felizes por haver um público grande para suas ações. Depois de alguma tensão, dizem que até que entraram no coquetel e se misturaram à plebe do Festival. Não recordo se houve incidentes no Odeon, mas o certo é que o coquetel (que virou balada) foi divertido e serviu para desfazer um pouco a sisudez da abertura oficial.

Leonardo e Lucas no debate sobre teatralidade digital

O lançamento do “Efêmero Revisitado” e apresentação do Teatro para Alguém, que estava marcado para o sábado às 18h, acabou ocorrendo no domingo, ao meio dia. O que tinha tudo para ser uma troca negativa, já que às 18h de sábado o Festival estava fervilhando de ideias e pessoas circulando, acabou sendo uma troca muito boa.

O pessoal que esteve presente na tenda de Visualidades estava interessado, perguntou, pegou seus livros e, ao que parece, gostou muito dos vídeos que Lucas, do Teatro para Alguém, mostrou, com destaque especial para este mostrado logo abaixo, que diz muito sobre a dificuldade de se encaixar nesse mundão fazendo algo que se gosta.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=qEzOcpveUnY]

Até o início da semana que vem, sem falta, o “Efêmero” estará para download. Aos que gostaram do TPA, vale acompanhar o site do grupo, que estreia novas produções semana que vem.

*

[vimeo http://vimeo.com/29523075]

Projeto dos mais interessantes da Mostra de Experiências do Festival é o chamado “Deleted City“, que propõe um estudo arqueológico da rede através de um backup gigante do Geocities, aquela ferramente de construir sites popular nos anos 1990 que tu deve ter conhecido.

[Não ouviu falar? tratava-se de um serviço de hospedagem gratuito de sites do portal Starmedia. Ele contava com um bom espaço de armazenamento para a época e agrupava as páginas em “bairros” e “cidades”, conforme seus temas. Em 1999, o serviço foi comprado pelo Yahoo! (por 3,5 milhões de dólares!), e acabou sendo descontinuado em 2009]

Mariel Zasso, repórter da Revista Select e companheira de cervejas festivas, fez uma matéria sobre o projeto que inclui, também, uma entrevista com o holandês Richard Vigjen, idealizador do Deleted City. Um trechinho da conversa vai aqui abaixo; antes, brinque tu também com o Geocities-Izer, que transforma seu site em um “lindo” Geocities, como fiz com o Baixa aqui abaixo.

Você comentou que a década de 1999-2009 foi um período em que a “world wide web” e seus netcitizens estava em busca de uma identidade. E hoje, quais você pensa que são as questões da web e dos seus webcidadãos?

Eu acho que a internet como um meio público é algo que foi tomando forma entre 1995 – 1999. Foi quando mais gente teve a oportunidade de participar, já que antes a internet era privilégio de grandes instituições. Quando a rede foi aberta ao público, ela passou a ser usada por pessoas cujo o primeiro interesse não era a tecnologia em si, mas o seu potencial de comunicação em relação a seus próprios interesses. E como a internet é um meio aberto por definição, as pessoas começaram a experimentar vários meios de fazer isso, baseados em metáforas como uma biblioteca digital, uma cidade virtual, e coisas do tipo – eram conceitos do mundo existente (ou da ficção científica) sendo aplicados a esse novo meio. A coisa mais importante para mim é isso, quando você compra o acesso a essa rede, como você deveria usá-la ou como ela deveria ser é deixado a seu critério. Os provedores não disseram como a internet deveria ser porque eles mesmos não sabiam.

Eu acho que hoje isso está mudando: ainda há uma evolução em como a internet é usada. De homepages para blogs, de redes sociais a pesquisas em tempo real. Mas esses conceitos cada vez mais vem sendo vendidos como um produto para você consumir. Especialmente com a internet migrando dos provedores de acesso, que apenas vendiam acesso, para celulares: o papel do usuário como consumidor está se tornando dominante. O mesmo acontece com a migração dos PCs de uso geral para dispositivos dedicados, como os tablets. E com os fabricantes e operadores de telefones e tablets vendendo a internet como um produto (quase como uma torradeira ou uma cafeteira), há menos espaço para seus usuários questionarem o sistema, para chegarem a novas soluções ou modelos alternativos.

*

Umas das coisas mais inusitadas que aconteceu no FestivalCulturaDigital.br nada teve que ver (a priori) com o digital. Trata-se do “happening” da foto acima. Uma pessoa – não se sabe quem – surgiu nos jardins do festival com um pote com óleo e começou a girar, girar, até que soltou o pote contra as paredes do MAM. O que se formou foi um anel manchado de óleo, a que a pessoa acrescentou uma folha de papel com informações sobre o porquê do protesto – que tinha a ver com o vazamento de óleo na baía de Campos, interior do RJ, de um local explorado pela petroleira Chevron, ou com a Petrobras, uma das patrocinadoras do Festival, não se sabe ao certo.

A organização do MAM, por medo de estragar a fachada do prédio, mandou colocar areia para facilitar a retirada da mancha, como dá pra ver na foto abaixo, feito por Lucas Pretti, que, como diversos outros, não concordou com o “abafamento” do protesto.

*

Outro dos muitos destaques da Mostra de Experiências que, aos poucos, vamos falando por aqui foi o “Mapa Sonoro do Estado do RJ“, uma plataforma para mapeamento das paisagens sonoras das cidades do Rio e de Niterói, produzido por uma equipe da  Universidade Federal Fluminense coordenada pela professora Simone Pereira de Sá.

A ideia, ainda em fase inicial de implementação, é tão simples quanto ótima: a pessoa grava um barulho característico de seu cotidiano (o cachorro chato da esquina, o chafariz de uma praça calma, o vendedor ambulante que vende Mate nas praias, etc), georeferencia no Google Maps, cria um pequeno texto explicando o porquê do barulho e publica um post na ferramenta. Juntando todos, temos uma interessante cartografia dos barulhos de uma cidade, dos afetivos aos incomodativos, dos tradicionais aos inusitados.

*

Ginger Coons (na foto acima) foi uma das presenças internacionais na cobertura multimídia do evento. A moça veio de Toronto, no Canadá, especialmente para cobrir o Festival pela revista em que é a publisher, a Libre Graphics Magazine, revista de design e cultura focada alinhada com a filosofia do software livre. Ela fez diversos tuítes sobre o evento (@ossington, do dia 2 a 5 de dezembro), além de posts para o blog de sua revista. Destaco em especial dois: DIY and Criticality, em que ela começa dizendo ter se surpreendido com popularidade dos hackerspaces, e neste texto sobre Hugues Sweeney, seu compatriota, diretor de interatividade do National Film Board of Canada.

*

Entrada do "estúdio" do Buraco Cavernoso
... e dentro do estúdio improvisado

Outra iniciativa deveras interessante que esteve no Festival foi o Buraco Cavernoso, um programa de uma webtv chamada Angu TV. Capitaneada pelo carioca Márcio Bertoni (o de amarelo à direita), o Buraco usa um sistema baratíssimo (pelo menos em comparação a outros sistemas audiovisuais) baseado em câmera de segurança, que, além de relativamente simples de mexer, dá uma estética interessante para a exibição na web.

No festival, o Buraco gravou diversas coisas na íntegra, especialmente os debates políticos da Arena. No terceiro dia, Bertoni montou seu estúdio numa salinha do espaço multimídia e, nele, fez diversas entrevistas – inclusive com este que vos escreve. Bertoni, figuraça flamenguista que não nega o sotaque chiado de sua terra, puxava as pessoas que estavam dando sopa pelos arredores e arrastava para uma conversa bem informal no estúdio improvisado, que tinha uma bandeira pirata como seu símbolo. Vale conferir os vídeos produzidos no festival no link http://www.ustream.tv/channel/buraco-cavernoso.

**

Por fim, não dá pra esquecer a bela junção de encerramento do festival. Começou ali por volta das 17h, quando a Orquestra Voadora, um grupo/bloco de músicos do RJ que toca tudo quanto é música somente com instrumentos de sopro e percussão, se reuniu para um grande ensaio aberto nos jardins do MAM. Logo começou a juntar gente, mais gente depois do encerramento do Brasileirão 2011, no que culminou numa grande celebração alto-astral, coisas que só o RJ e a vista da baía da Guanabara conseguem dar o clima certo.

Ali pelas 19h30, a orquestra liderou o cortejo para uma tenda, onde a Spok Frevo Orquestra encarregou de fazer o show de encerramento, um frevo-jazz quase todo instrumental pra lá de dançante. Lindo desfecho para um belo Festival, que as fotos abaixo dão uma mostra.

[Leonardo Foletto viajou ao Rio para participar da cobertura colaborativa do festival].

Créditos fotos: Pedro Caetano (1, 5, 11), Rafael Vilela (8, 12) e Bruno Fernandes (9, 10, 12, 13), da equipe de fotógrafos oficiais do Festival (Flickr), e Leonardo Foletto (2), Francelle Cocco (3), Lucas Pretti (6).

_

Festival Cultura Digital.br (2): um balanço geral e subjetivo

Foi diferente do ano passado. Nem melhor nem pior, mas diferente.

Em 2010, a Cinemateca, com sua beleza cuidada a pão de ló, e São Paulo, com sua ordem e praticidade às vezes fria, tornaram as coisas mais geométricas, para remixar a metáfora da Estética do Frio de Vitor Ramil.

Este ano o palco do agora Festival Cultura Digital.br foi o Rio de Janeiro – mais precisamente o MAM, às marges da baía de Guanabara. E o Rio é o clichê brasileiro: a malandragem, a desordem, a beleza incontestável e a espontaneidade convivendo juntas, as vezes num caos insuportável por sua ineficiência e as vezes num mesmo caos maravilhoso pela sua fricção – seguida de combustão – criativa.

O Festival este ano teve um pouco desses dois lados do caos, embora o lado bom do não previsto se salientasse mais que o da bagunça. A seguir, um panorama geral e subjetivo em alguns parágrafos e fotos sobre os dias 2 e 4 de dezembro de 2011, no MAM-RJ.

*

Pátio do MAM-RJ à noite

O local escolhido como sede do Festival se revelou uma boa surpresa – pelo menos para quem desconhecia o MAM. Uma das principais obras modernistas do país, erguida em 1948 em projeto do arquiteto Afonso Reidy, o museu é, na verdade, um grande parque aberto, com pátio repleto de verde que se estende até a baía de Guanabara.

Com seus metros e metros de gramas e sombras de árvores para sentar debaixo, é um lugar convidativo, que muitos cariocas costumam frequentar espontaneamente no final de semana. Aliado a isso o fato de que o MAM é encravado no centro do Rio, a algumas quadras da Cinelândia, têm-se uma mudança quase radical de cenário para o evento no ano passado, a Cinemateca, espaço deveras bonito mas ermo e fechado.

*

O Ônibus Hacker foi o grande xodó do Festival – se tu preferir, foi o destaque “hype” da programação, como bem apontou este infográfico que circulou no O Globo sobre a programação do evento.

[Caso tu ainda não conheça, aí vai: o ônibus é um projeto da comunidade Transparência Hackday e é, neste 2011, um dos maiores cases de crowdfunding no Brasil, com quase R$60 mil arrecadados via Catarse]

O busão teve sua chegada festejada na quinta à noite, promoveu oficinas e mini-cursos e, o principal de tudo, foi a atração turística do Festival. Todos que lá estiveram quiseram dar uma conferida nos seus interiores e ver de perto o que ali se passava. Inclusive Gilberto Gil, embaixador do Festival e que muito circulou pelos aposentos do MAM, acompanhado de Claudio Prado, Jorge Mautner e Nélson Jacobina, como mostra a foto abaixo.

Ainda que em fase embrionária, sem muitos apetrechos nos seus interiores, o busão destacou-se também por sua versatilidade. Nele que foi projetado a transmissão ao vivo dos jogos das rodada final do Brasileirão 2011, auxiliado pela internet wifi de 10 gigabits oferecida pela RNP e a Proderj e por aqueles sites que sempre “pirateiam” a transmissão dos jogos de futebol no Brasil.

Diga-se que o sinal não foi dos melhores, caía nas horas mais importantes, mas serviu para juntar pelo menos umas 30 pessoas a volta e ecoar alguns gritos de torcida rivais – caso de Corinthians e Palmeiras, que tinham o maior nº por ali. A foto abaixo dá um panorama geral da coisa.

Final do Brasileirão 2011 live at Festival Cultura Digital.br

**

Sala onde ocorreu a Mostra de Experiências

A Mostra de experiências foi a única atividade no MAM realizada num lugar totalmente fechado – no caso, a Cinemateca do museu. É a que teve o maior número de projetos do exterior, de China a Holanda, passando por Estados Unidos, Colômbia, Inglaterra, França, Japão, Estônia, México, além de projetos de inúmeros locais do Brasil.

Funcionava de um modo semelhante aos congressos acadêmicos, com cada pessoa/grupo apresentando sua experiência em 15 minutos, só que sem o espaço para o debate, já que as experiências eram muitas e o tempo para isso pouco. Nessa estrutura, a mostra era como um grande mosaico de coisas, em que o púbico assistia e, se gostasse muito ou quisesse trocar uma ideia com  o palestrante da vez, procurava a pessoa em questão ao final da apresentação.

No último post apontamos alguns projetos que nos pareceram interessantes, e foi uma pena que conseguimos ver apenas alguns dos citados e falar com alguns dos envolvidos. Boa parte dos projetos apresentados merecem um post a parte, e é por isso que deixaremos para as próximos semanas para comentarmos um pouco mais de cada um deles. Enquanto isso, tu pode ter mais uma noção do que ali ocorreu nesse relato de Daniel Castro, monitor do streaming do lugar. Aliás: em breve, todos os vídeos deste espaço (que foram transmitidos ao vivo pela rede) estarão disponíveis no site do culturadigital.org.br.

***

Fachada do Odeon na abertura oficial do Festival, na sexta 2 de dezembro

O Cine Odeon, maravilhoso cinema incrustado em plena Cinelândia, foi palco das Palestras, reservados aos nomes conhecidos da cultura digital, da literatura e da cultura em geral.  Não estivemos na maioria dos debates do Odeon, e, confessamos, também ouvimos pouco falar deles; das pessoas com quem conversamos, ouvimos ótimos comentários do velho conhecido Kenneth Goldsmith, do UbuWeb e de Hughes Sweeney, do National Film Board of Canada, que realiza os documentários interativos mais fantásticos do planeta, auxilados por uma estrutura que, infelizmente, só países como o Canadá parecem ter condições de ter hoje.

[Sweeney organizou alguns vídeos no Festival para a chamada Mostra Tudo, e a Revista Select compilou alguns desses num post. Olha lá]

Assim como a Mostra de Experiências, as Palestras serão subidas para o site oficial, e esperamos vê-las para sacar o que rolou de legal nelas. Particularmente, queremos entender o que Paulo Coelho falou de pirataria e se ele, assim como o pessoal do Festival no guia de programação, também confundiu pirataria com copyleft, uma falha infelizmente comum.

Momento vergolha alheia na abertura do festival
A Sergio Mamberti, do MInC, coube ler a carta de Ana de Hollanda

A palestra de Abertura do Festival, na noite de sexta-feira, merece um comentário à parte. Iniciou com algum atraso, o que deixou impaciente o público que lotava os mais de 500 lugares do Odeon. E começou mal, com uma mesa composta de representantes da Petrobras, RNP, MAM, Secretaria de Cultura do RJ, MinC, além de Rodrigo Savazoni, diretor geral do Festival, e Ivana Bentes, professora da UFRJ (mas que não se sabe porquê esteve ali, ainda mais sendo a primeira a apresentar o Festival). Uma politicagem que, ainda que compreensível pelos arranjos feitos para a realização do Festival, se mostrou longa e desnecessária para a abertura de um evento.

O auge da coisa toda foi mostrar um vídeo de Eliane Costa, gerente de patrocínio da Petrobras. Ela comentou um pouco sobre a importância do festival e, a certa altura, falou que não estava presente ali por ter ido à França iniciar seu doutorado na Sorbonne. Perguntas de boa parte do público: que diabos eu tenho que ver com isso? Por que esse vídeo está sendo mostrado aqui, na abertura do festival, espaço dos mais nobres?

Na sequência de Eliane, aconteceu o momento mais polêmico da noite. Sérgio Mamberti, atual secretário de Políticas Culturais do MinC, leu uma carta de sua chefe, a ministra Ana de Hollanda – e por tudo que a gestão de Ana fez com a cultura digital neste ano, era mais que esperado que  haveria vaias da plateia na simples menção de seu nome.

Em resumo bem simplificado, a carta lida por Mamberti dizia que a atual gestão do MinC não “rompeu” com a cultura digital como alguns falam, e que ela, a cultura digital, teve avanços sim em sua gestão. A resposta de uma parte da plateia foi “Ministra do ECAD!”, seguida do coro “Não, não nos representa!“, o que causou algum constrangimento entre todos.

No fim das contas, há de se salientar a coragem de Sérgio Mamberti em ler até o fim a carta – justo ele, já um senhor de idade, muito simpático e mais alinhado aos avanços digito-culturais do que a ministra Ana.

O poderoso Benkler solito no palco
… e num papo arretado com Gil

Depois da abertura oficial, lá pelas 21h e pouco, iniciou a conferência de abertura propriamente dita, de Yochai Benkler, um dos principais teóricos do digital e autor de livros fundamentais como “The Wealth of Networks” e “The Penguin and the Leviathan“, que defendeu muito dos preceitos da internet livre e animou muita gente a fazer o mesmo.

Uma frase muito tuítada proferida na palestra, dita em resposta ao revelação de entrevistador Gilberto Gil, deu o tom da fala: “Manteremos a liberdade na internet? Benkler: Not if we don’t fight“.

[Leonardo Foletto viajou ao festival para participar da cobertura colaborativa].

 
Créditos fotos: Aloysio Araripe (1), Bruno Fernandes (2, 3,4, 5, 6, 8, 9), Rafael Vilela (12) e Pedro Caetano (10, 11, 13) da ótima equipe de fotógrafos do Festival (fotos disponíveis no Flickr oficial do evento) e Leonardo Foletto (7).

Festival CulturaDigital.br

O Festival Cultura Digital.br começa hoje amanhã, no MAM (Museu de Arte Moderna) e no Cine Odeon, no Rio de Janeiro, e vai até domingo, 4 de dezembro – e isso tu já deve saber, claro.

Também tu deve estar sabendo que o Festival é a 3º edição do que era o Fórum da Cultura Digital, e que ele migrou de São Paulo para o Rio – as duas primeiras edições foram realizadas na Cinemateca de SP, como você vê aqui.

O evento mudou de tamanho também: neste ano, teve 358 inscrições na chamada pública para participação nos quatro diferentes espaços (Mostra de experiências de cultura digital, Mão na Massa, Visualidades e Encontros de Redes). Foi feito uma triagem e os selecionados compuserem o grosso da programação, que está dividida em cinco grandes espaços: Arena, Encontro de Rede, Palestras, Laboratório Experimental e Visualidades.

As Palestras são as conferências com grandes nomes da cultura digital – Yochai Benkler, Kenneth Goldsmith, Michael Bauwens, dentre outros – que serão realizadas no Cine Odeon, em plena Cinelândia, centrão do Rio. O restante da programação será nos amplos jardins do MAM-RJ, às margens da Baía de Guanabara. O Caderno TEC, da Folha de S. Paulo, fez uma matéria e um infográfico sobre a extensa e complexa programação do evento, que gentilmente copiamos abaixo:

Se tu quiser escolher o que assistir na programação, a melhor forma é estudar o Guia (baixe aqui) e ver o que lhe agrada. Num evento complexo e onde tudo acontece (quase) ao mesmo tempo como esse, uma planilha do Google Calendar também pode ajudar na escolha do que assistir.

Pra quem não estiver no Rio, as programações das Palestras e da Mostra de Experiências serão transmitidas por streaming, direto no site (culturadigital.org.br/aovivo).

Nós estaremos circulando pelo evento, à deriva, atrás de coisas interessantes para trazer para o BaixaCultura (o que for de imediato publicaremos em nosso Twitter ou Facebook; o que não, nas próximas semanas).

De início, apostamos fortemente na programação da Mostra de Experiência, em coisas do tipo:

 _ ‘Cultural Workers Exchange’, rede de centros culturais independentes que procura abrir canais de troca entre artistas e curadores que trabalhem com mídias digitais na Europa, às 12h25 de sábado

_ “The Deleted City“, instalação de “arqueologia digital” que é um mapa de visualização dos arquivos do extinto Geocities. “A navegação pelo mapa permite a visualização de páginas html e imagens do passado recente da web”, diz a apresentação do projeto que será apresentado às 14h15, também do sábado;

_  “Amigos de Januária“, projeto de jornalismo participativo que está ensinando jovens a usarem ferramentas digitais para o monitoramento da administração municipal na cidade de Januária (MG). Além de técnicas de jornalismo, os participantes do projeto “estão aprendendo como acessar informações sobre o município que já estão disponíveis na internet em bases de dados públicas como Portal da Transparência e DataSUS, por exemplo”, diz a apresentação. Na sexta, às 17h15.

_ AMCV (Alerta Móvil de Contra Vigilância), projeto de um grupo de mexicanos que desenvolveu um aplicativo com mapas e avisos para celulares e uma página web que permite que qualquer pessoa saiba a localização das câmeras de segurança de sua cidade. Na sexta, às 19h15;

_ Hackerspaces: Uma oportunidade para o conhecimento livre em Software e Hardware Livre, em que membros do Garoa Hacker Clube, localizado na Casa da Cultura Digital, apresentam um “passo a passo” para fazer um hackerspace, no domingo às 13h40.

_ E, para encerrar a mostra de experiências, no domingo às 16h50, vale conferir “Bitcoin: A construção da nova economia sem bancos e intermediários”;

Dá pra apostar também que as discussões da Arena vão ser interessantes. Em especial, destacamos “Biohacking: vida e propriedade“, sobre os limites para o avanço das novas tecnologias e os avanços da mobilização social e tecnológica para uma ciência tecnológica e cidadã, um tema tão instigante quanto desconhecido por nós, na manhã de domingo (10h30 às 12h).

Tecnofagia: Cultura Digital e Estéticas Contemporâneas“, que vai debater o eterno mantra “Nada se cria, tudo se copia” e as possibilidades da antropofagia como recriação, diversificação e distribuição da arte e da estética, às 16h30 do domingo.

E o inevitável painel “Ocupações, Revoluções, Redes: Articulação do Movimento Global“, sobre os recentes movimentos da Primavera Árabe, o Ocupe Wall Street e os outros “Ocupe” que estão se espalhando nesse já histórico ano de 2011, às 14 do sábado, 3.

Por fim, não poderíamos de fazer o nosso jabá. “Efêmero Revisitado”, o primeiro produto de nosso selo editorial, será lançado “oficialmente” neste próximo sábado, 3 de dezembro, às 18h30, no espaço Visualidades, logo após a apresentação de Lucas Pretti, do Teatro para Alguém.

Neste mesmo espaço há outras coisas deveras interessantes, tais como:

_ Integrarte/Entregarte, projeto que cria visualizações e sonorizações de movimentos corporais para a criação de uma instalação que explora o corpo no espaço com Kinect e Processing, das 14h às 19h30 da sexta,2 dez.

_ Céu de Palavra – Pipas brancas empinadas no céu durante as três  noites do festival, das 20h às 22h,  enquanto um projetor lança imagens de trechos de poema ao céu. Para lê-los, é preciso controlar as pipas.

_ SufferRosa, aclamado projeto de Dawid Marcinkowski, um produtor audiovisual independente da Polônia. Sufferrosa (2010) é considerado um dos maiores projetos de histórias narrativas online já produzidos – seja lá o que queira significar isso (veja o trailer). Será exibido às 20h de sábado, logo depois da apresentação do “Efêmero”.

_ “Inventário de Sombras“, curiosa perfomance em que um grupo de artistas negocia com os participantes a doação de sua sombra (?), às 11h30 do domingo.

P.s: Os cartazes no corpo do post fazem parte dos “Cartazes Colaborativos“, projeto do Festival que convidou a todos que quisessem fazer  seu cartaz e apresentar para a produção.

Créditos: 123, 45, 6.

Os 20 anos da revolução GNU/Linux

A 12ª edição do Fórum Internacional do Software Livre (FISL) ocorreu durante quatro dias em Porto Alegre, entre 29 e 2 de julho, e reuniu quase sete mil cabeças abertas no centro de eventos da PUC-RS. O evento contou com um boa cobertura própria por meio de site, tv e rádio software livre, todas mídias empenhadas em trazer muita informação sobre a grande programação do evento –  debates, palestras e oficinas a respeito de assuntos que andam em voga no mundo da cultura livre. Além do tema central neutralidade na rede, foram discutidos inclusão digital, educação, ética, fontes alternativas de energia, hacktivismo, e claro, pirataria e copyright, entre outros assuntos correlatos.

Houve também a divulgação do selo comemorativo de duas décadas do lançamento do sistema operacional que inaugurou a cultura em torno do software livre: o GNU/Linux. Uma marca bonita que dá pra ver na abertura do post, mas meio estranha por mostrar apenas o chamado Tux, o pinguim do Linux. Segundo a Free Software Foundation, o correto seria mencionar também o GNU, que iniciou o movimento do Software Livre, como tu pode ter lido na monografia da Aracele. Controvérsias comuns ocorridas ao longo da história, e que aqui recordaremos a partir de dois documentários lançados ainda quando se completavam dez anos de “finalização” do programa.

Em 2001, eram lançados Revolution OS e The Code, vídeos que narram a motivação, o começo e o status da arte à época do GNU/Linux contados pelos  seus principais personagens. Com 85 minutos de duração,  “Revolution” foi realizado pelo norte-americano J. T. S. Moore e parte da definição mais básica da coisa: o que é um sistema operacional. A aula de história só engrena de verdade após os relatos do visionário Richard Stallman. Ele deixou sua carreira de 12 anos como programador do MIT em 1983, e o fez devido ao fechamento do código dos softwares (como contexto, vale ver a Carta Aberta de Bill Gates defendendo a prática).

Fundada a Free Software Foundation, Stallman deu o ponta-pé na filosofia que iria blindar esse software da ganância de outrens – o copyleft – e se manifestou pelo desenvolvimento de uma alternativa ao sistema operacional Unix, o Gnu. Tal façanha só “terminaria” em 1991, quando o finlândes Linus Torvalds produziu o núcleo que faltava no projeto, e jogou pra (pouca) galera conectada pela Usenet daquele tempo.

Dai então o código foi crescendo feito uma bola de neve, gerando várias variáveis/distribuições adaptadas pelos hackers e desenvolvedores. Nem mesmo a filosofia do copyleft com suas quatro liberdades escapou de ser modificada. Em 1998, outros programadores, entre eles Bruce Perens e Erick Raymond, fundaram a Open Source Initiative, definindo não quatro, mas dez determinações para um software ser Open Source, a saber:

1] redistribuição livre; 2] código fonte; 3] trabalhos derivados;4] integridade do autor do código fonte; 5] não discriminação contra pessoas ou grupos; 6] não discriminação contra áreas de atuação; 7] distribuição da licença; 8] licença não específica a um produto; 9] licença não restrita a outros programas; 10]licença tecnologicamente neutra. Com tais regras,  a busca era se distinguir  do conceito gratuito de free software, e assim atrair investimentos para os programas.

Numa resenha de 2004 sobre o documentário, o jornalista e pesquisador Rafael Evangelista avaliou bem como surgem as divergências: “Um sistema de produção de software em que um dos itens motivadores é o reconhecimento dos pares, é claro que só poderia ser entremeado de vaidades”. Superando as diferenças, foram cunhadas duas siglas para comungar os dois conceitos: “FOSS” (Free/Open Source Software) ou “FLOSS” (Free/Libre/Open Source Software). Seguindo no longa-metragem, são mostrados os casos do servidor Apache, do navegador Netscape, e imagens da antiga LinuxWorld – que em 2009 passou a ser chamada de OpenSource World.

De duração um pouco mais curta, The Code foi produzido na Finlândia, terra de Linus Torvalds, e possui 58 minutos. Neles, mesmo contendo depoimentos dos carimbados Stallman e Raymond do doc anterior, o foco incide sobre a prata da casa: Linus, criador do kernel Linux. Depois de apresentar rapidamente o que faz o kernel, a câmera vai para a capital Helsinque na qual Linus nasceu. Imagens da família e da infância de Linus aparecem intercaladas por depoimentos do pais dele dizendo como se deu sua criação.

Uma das vantagens do nórdico, como notou Thiago Torquato nesse resumo, era a de naquele tempo ser “muito mais fácil entender a essência do funcionamento do computador, pois este se apresentava muito mais simples e transparente, sem as distrações dos sistemas modernos”. Estudante da Universidade de Helsinque, aos 22 anos Torvalds liberou sob a licença GPL, de Stallman, o kernel que havia desenvolvido, em 1991, e o resto é história.

Mais pela metade, “The Code” trata dos mesmos assuntos que Revolution OS, especialmente da origem da denominação OpenSource e da consolidação do movimento do software livre, até voltar, mais pro fim, a dar  destaque a depoimentos de Linus. O programador, mais tarde, em 2007, criou sua própria fundação – a Linux Foundation que em abril lançou um bonito video em homenagem aos 20 anos do sistema.

Cada qual do seu jeito, os dois docs se complementam e expõem a origem de todo um ecossistema que se formou e continua a crescer em torno da ideia da colaboração. O desenvolvimento de licenças livres e de softwares livres se espalhou para outras iniciativas, como o pacote de programas de escritório BrOffice antigo OpenOffice.org, o conjunto de licenças Creative Commons, o site de rede social SoftwareLivre.org, milhares de sites, blogs e revistas especializadas como a Espírito Livre, a Linux Magazine, e a BrOffice.org foram criadas, e muitas outras conferências como o Fisl.

Isso sem falar do talvez mais importante, que é a verdadeira revolução que o GNU, Stallman, Linus, Tux e o movimento do software livre causaram (e ainda causam) na sociedade. Como bem apontou o antropológo brasileiro Hermano Vianna em texto de 2004

“Qualquer outro movimento político, da antiglobalização ao dos sem-terra, se revela ineficiente diante das conquistas do software livre. Qualquer movimento cultural, do punk a Luther Blissett, parece uma “doença infantil” diante da ideologia do software livre.”É uma revolução enorme, talvez tão importante quanto qualquer outra revolução da história da humanidade (por incrível que pareça, estou medindo bem minhas palavras, para não parecer exagerado), que acontece quase na surdina, sem nenhuma guilhotina. É uma revolução feita em regime colaborativo e descentralizado, sem um partido político no comando, mas com pedaços de código em computadores diferentes espalhados pelo planeta, comandados por gente que trabalha não para ficar rica, mas querendo o bem comum -e às vezes um pouco de fama, já que ninguém é de ferro.

Para ver como isso e muito mais começou, baixe Revolution OS aqui e The Code nos links disponíveis nessa postagem, e em breve assista na nossa BaixaTV.

Crédito das imagens: 1, 2, 3.

[Marcelo De Franceschi]

Breve história dos movimentos de contestação do copyright

"Você pode e deve entender os computadores agora!", Ted Nelson

Nossa Biblioteca ganha hoje mais uma contribuição: trata-se da monografia Copy me e Remix me: o movimento de contestação do copyright no contexto da cibercultura, de Aracele Torres, historiadora pela UFPI e atualmente mestranda na mesma área na USP.

Topamos com a “metida a historiadora da cibercultura e a ativista do Software Livre”, como Aracele se apresenta na rede, nos idos de 2009. Seu blog, o Cibermundi, frequentemente era uma das nossas paradas a procura de ideias e informações (ou pautas, na linguagem jornalística) para escrever pro Baixa.

Nessa época, Aracele se debruçava sobre a história do movimento do software livre e do Pirate Bay para escrever sua monografia de graduação em história na calorenta Teresina, no Piauí.

Nos intervalos das aulas, das pesquisas e da vida, a moça tocava seu blog com afinco; trazia entrevista com a eurodeputada Amelia Anderstotter, quando a sueca esteve no Brasil por conta do I Fórum da Cultura Digital, linkava matéria sobre a necessidade da desconexão, traduzia (como nós, em Notas sobre copyright e copyleft) textos do coletivo italiano Wu Ming –  além, é claro,  de falar do SL da qual era (ainda é) usuária e defensora.

Eis que neste junho de 2011 surgiu a oportunidade de pedirmos um texto à ela sobre a sua pesquisa, e o que tu vai ler abaixo é um texto da moça sobre sua monografia de graduação em história, defendida em 2009.

Como o título desse post já entrega, a pesquisa versa sobre os movimentos de contestação ao copyright e historiciza as tecnologias que potencializaram isso hoje – o computador e a internet – a partir de dois fundamentais atores (protagonistas?) de um movimento que defende uma cultura livre e, por consequência, uma flexibilização nas retrógradas leis de direitos autorais no planeta: o The Pirate Bay e o Movimento do Software Livre.

Boa leitura (e não te esqueça que, ao fim do post e na biblioteca aqui do lado, tu poderá ler a monografia da Aracele via Scribd).

1.
Toda vez que lembramos de algo, querendo ou não, nesta visita ao passado sempre fazemos uma reavaliação e uma reelaboração das nossas lembranças. São as artimanhas da memória! De modo que se fosse escrever um texto sobre a minha monografia em 2009, ano de sua produção, com certeza ele sairia muito diferente deste que escrevo agora.

Assim, este texto se escreve a partir destas artimanhas. Porque ao tentar lembrar da minha monografia, das circunstâncias em que foi feita e das ideias que a tornaram possível, ao tentar lembrar do fato passado, sobre o qual já se conhecem os erros e os acertos, a nossa tendência é procurar justificar os erros e exaltar os acertos. Pois bem! Tendo confessado isso, sigo para o próximo passo que é começar este processo de reelaboração da memória sobre a minha pesquisa feita em 2009.

Lembro que as primeiras impressões que tive quando li Pierre Lévy foram as de que suas falas a respeito das tecnologias digitais eram muito otimistas, no sentido de que exaltavam muito mais os aspectos positivos destas tecnologias na nossa vida social que os aspectos nocivos. A partir dessa percepção eu também pude pensar as possibilidades da minha pesquisa.

A ideia era tentar escapar dessa visão otimista, não queria que no meu trabalho houvesse a ideia de que as tecnologias digitais vão “salvar o mundo”! Até porque o meu papel como historiadora não era esse. Era muito mais o de apresentar a história destas tecnologias, no caso o computador e a internet, e procurar identificar como elas contribuíram para a fabricação de um movimento social que contesta o copyright e defende uma cultura livre.

GNUUUUUUUUuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Mas, talvez por causa do meu ativismo, da minha crença no potencial libertador dessas tecnologias, meu trabalho não escapou de um certo otimismo. Por outro lado, acredito também que apenas por causa desse ativismo é que esse trabalho foi possível. O meu envolvimento com o movimento software livre, a partir de 2007, foi crucial para a escolha desse tema para pesquisa.

Mas o fato de perceber um certo tom de otimismo nesse trabalho, não quer dizer que eu o condene ou o desqualifique. Não o renego por ele não corresponder à visão que tenho hoje sobre o tema. O coloco dentro do contexto no qual foi produzido. Ele diz muito sobre como eu era, sobre a minha forma de acontecer naquele momento.

Hoje, quase dois anos depois e muitas leituras depois, a coisa parece bem diferente. E vejo isso se refletir nas pesquisas atuais. Agora, na minha pesquisa de mestrado, procuro deixar muito mais claro que essa leitura das tecnologias digitais como libertadoras é apenas mais uma leitura possível, esta não é uma concepção unânime e, embora eu partilhe dela, não devo ignorar as outras possibilidades de leitura.

Portanto, a proposta desse novo trabalho é discutir, tendo como exemplo o Projeto GNU, como se articula na contemporaneidade o debate sobre estas tecnologias digitais enquanto tecnologias que constroem liberdade e inteligência coletiva. O foco está nas questões que envolvem a produção e distribuição do conhecimento. Mas isso é assunto pra outro post futuro, quando o trabalho já estiver pronto. 😉 Agora, é melhor deixar de filosofar e mostrar o que essa pesquisa teve/tem!

Software Livre para uma sociedade livre

2.
Bem, a ideia do trabalho era historicizar o movimento social contemporâneo de contestação do copyright, no contexto da cibercultura, identificando seus personagens, seus discursos e práticas. Para isso escolhi como referências o movimento software livre e o The Pirate Bay.

De início me senti na obrigação de fazer uma breve apresentação da história do nascimento dos computadores eletrônicos e da internet/web. Isso por se tratar de um assunto novo no campo historiográfico e, também, por eu acreditar que o próprio desenvolvimento destas tecnologias estava diretamente ligado à esse movimento de defesa do conhecimento livre. Dessa forma, o primeiro capítulo do trabalho foi dedicado ao nascimento do novo espaço comunicacional (ciberespaço) e da nova forma de cultura (cibercultura), que emergiram com o uso das tecnologias digitais.

Fiz questão de apontar o caráter de movimento social que teve o desenvolvimento dos primeiros computadores pessoais. E mostrar como este desenvolvimento tinha muito a ver com uma concepção libertária de que a informática devia deixar de ser monopólio dos grandes informatas e passar a servir também ao povo. Dessa forma, procurei mostrar esse processo de transição: do momento da criação dos primeiros computadores eletrônicos, quando era apenas privilégio de poucos; até o momento em que começa a se desenvolver os primeiros computadores pessoais, a partir de um movimento que tinha como lema a frase Computers for the people.

Feito, então, a contextualização necessária no primeiro capítulo, parti, para a apresentação do movimento em si, de seus discursos e ações diretas. Começo falando sobre o movimento software livre, enquanto um movimento que entende a informática como questão de liberdade. A ideia era apresentar o caráter essencialmente social por trás das questões técnicas que permeiam a ideia do software livre.

A batalha começou, e não tem data pra acabar

Tentei mostrar que, mais do que uma necessidade técnica, a ideia do software livre (tendo como referência o nascimento do Projeto GNU) nasce de uma necessidade social, da necessidade de resistência ao sistema de propriedade intelectual vigente. Assim, faço uma abordagem que tem como ponto de partida a criação do Projeto GNU e os textos de Richard Stallman sobre suas concepções, que partem da premissa de que a técnica deve ser usada de forma socialmente útil e de que a liberdade de compartilhar o conhecimento é o exercício de um direito natural nosso.

Por fim, abordei o caso do The Pirate Bay, fazendo uma leitura do site como uma forma de desobediência civil. Procurei fazer uma análise que o compreendesse desde sua criação até o seu julgamento e condenação por “pirataria”, mostrando o pesadelo que este site, e o grupo que estava por trás dele, representa(va) para a indústria do entretenimento.

O caso do TPB representa(va) um movimento em rede, que se articula em torno da ideia de que os bens culturais devem ser compartilhados e que a internet é uma ferramenta potencializadora disso. O usei como exemplo por ter se tornado uma referência para o movimento e também por enxergar no processo de perseguição/julgamento/condenação, que foi um verdadeiro espetáculo midiático, uma demonstração da crise pela qual passa o modelo de produção e distribuição dos bens culturais hoje.

Crise essa que tenta ser contornada através da proibição e criminalização dos compartilhadores. O caso do TPB, portanto, mostra a tensão entre os interesses do capital e do social, entre uma indústria que se recusa a buscar alternativas e um movimento social que se fortalece mais à medida que a técnica avança.

O trabalho foi assim dividido nestas duas partes, dois capítulos que abarcam apenas uma fatia do bolo. Que longe de pretender limitar a leitura e compreensão do movimento, de pretender tratá-lo de forma homogênea, quis apenas mostrar algumas das experiências sociais que compõem o seu universo. Espero que gostem! 😉

P.S: Esta versão da monografia é a primeira versão, não corrigida depois que passou pela avaliação da banca. Hehe.

[scribd id=73750637 key=key-2c040scc1rbwuc6ky0nk mode=list]

Créditos imagens: 1, 2, 3, 4.

As confusões de uma indústria da pesada – parte 2

.

.

Quase um ano atrás, Edson publicou aqui um texto que tratava das confusões de uma certa “Indústria da Pesada”, um eufemismo utilizado por ele para falar das arbitrariedades do lado engravatado da força – MPAA, RIAA,  representantes dos estúdios de Hollywood e grandes gravadores musicais dos Estados Unidos, e a brasileiríssima APCM (Associação Antipirataria de Cinema e Música), uma entidade dirigida por um ex-policial federal que simplesmente tem “saudade de prender”, responsável pelo patrulhamento da comunidade Discografias, do Orkut, e de blogs musicais como Som Barato e Um Que Tenha (que, felizmente, sobreviveram aos ataques policialescos e continuam  vivaços, basta entrar nos links de cada uma para perceber).

Se tu acompanha o noticiário sobre o assunto já deve de ter visto que a “Indústria da Pesada” continua na ativa. Talvez com ainda mais gana de patrulhar o compartilhamento livre do que antes, porque o desespero de quem está perdendo a guerra, nestes casos, faz com que ainda mais arbitrariedades e lobbys econômicos – disfarçados de conselhos – sejam perpetuados mundo afora. A sensação de incredulidade com tais iniciativas ganha níveis altíssimos quando se depara com textos como esse, do blog de tecnologia do diário britânico The Guardian, escrito por Bobbie Johnson. O título já dá uma amostra do que se trata – When using open source makes you an enemy of state, quando usar código aberto torna você inimigo do Estado – mas vamos seguir comentado algumas coisas do texto.

O post trata de comentar uma iniciativa descarada de desacreditar e desaconselhar o uso de software livre no planeta, capitaneada pela International Intellectual Property Alliance , um “guarda-chuva” que engloba organizações como MPAA e RIAA. Eles resolveram aconselhar o US Trade Representative, escritório que administra o comércio no e com os Estados Unidos, para que fiquem de olho em países como Indonésia, Brasil e Índia, por conta do uso do software livre. A ideia é  colocá-los na Special 301 watchlist, uma suposta “lista negra” que contém países que são uma “ameaça” à propriedade intelectual [como é dito no post, é uma lista velada de países que os EUA consideram absurdamente como “inimigos do capitalismo”].

post do The Guardian

Brasil e Índia são referências mundiais em uso do software livre, a começar pelos próprios programas e páginas ligadas ao governo de ambos os países. Já a Indonésia, a outra citada pela IIPA, entrou para o time por conta de uma circular que sugere para final de 2011 – veja bem, 2011, nada foi feito ainda – o uso de software livre em todas as agências governamentais, como uma forma de, principalmente, cortar gastos e melhorar o funcionamento dos sistemas. Por conta dessa sugestão do governo da Indonésia, dada no final do ano passado, a “aliança internacional para a propriedade intelectual” colocou em seu relatório que o país “encoraja o enfraquecimento da indústria do software“, assim como “falha em construir respeito pelas direitos das propriedades intelectuais“. Dêem uma olhada em outros trechos do comunicado, se conseguirem conter o asco:

“The Indonesian government’s policy… simply weakens the software industry and undermines its long-term competitiveness by creating an artificial preference for companies offering open source software and related services, even as it denies many legitimate companies access to the government market.

Rather than fostering a system that will allow users to benefit from the best solution available in the market, irrespective of the development model, it encourages a mindset that does not give due consideration to the value to intellectual creations.

As such, it fails to build respect for intellectual property rights and also limits the ability of government or public-sector customers (e.g., State-owned enterprise) to choose the best solutions.

[A política do governo da Indonésia simplesmente enfraquece a indústria do software e mina sua competividade a longo prazo criando uma preferência artificial por companhias que oferecem software de código aberto e serviços relacionados, assim como nega acesso ao mercado governamental para várias companhias legítimas.

Ao invés de promover um sistema que irá permitir aos usuários beneficiados ter a melhor solução disponível no mercado, independentemente do modelo de desenvolvimento, incentiva uma mentalidade que não dá a devida atenção para o valor das criações intelectuais.

Como tal, falha em construir respeito pelos direitos de propriedade intelectual e também limita a capacidade do governo ou dos clientes do setor público (por exemplo, empresas públicas) de escolher as melhores soluções]

***

Surreal, não?

A vêemencia do comunicado até que não chega a surpreender, pois a IIPA nunca gostou de qualquer coisa open source, especialmente aquelas que pudessem tirar fatia de seus lucros. Mas incomoda ver o total desprezo por argumentos coerentes e o esquecimento deliberado de fatos importantes. Johnson cita um destes fatos no post: existem milhares de negócios construídos sob o modelo open sourceRedHat, Canonical e especialmente o WordPress, amplamente utilizado mundo afora). Quer dizer que o uso destes programas é também um desrespeito à propriedade intelectual? Ou só é desrespeito quando se trata de programas a serem utilizados por empresas públicas, um grande mercado que a IIPA não quer perder nem deixar ninguém tomar?

Um outro exemplo, para finalizar: ao condenar o uso do software livre como uma alternativa simples, barata e eficiente – e, portanto, competitiva também no tal mercado em que se movem – eles eliminam outra alternativa que não o monopólio como estratégia de sobrevivência nos negócios. Talvez o liberalismo econômico que tanto defendem seja livre para alguns poucos que podem pagar, e impeditivo para a maioria.

[Leonardo Foletto.]

Créditos imagens: 1 e 2 (Bart).

Infoativismo em debate na Casa de Cultura Digital

.


.

O projetor passa o filme na parede de uma sala, onde diversas pessoas se acomodam nos puffs, almofadas, cadeiras, chão e o que mais der. Da segunda sala onde se vê as imagens estão mais umas quantas pessoas e um obstáculo bem no meio: resquícios de tijolos que foram quebrados para unir o que eram duas casas grudadas. O espaço não é dos mais amplos: esticadas de cabeça são necessárias para ver o que se passa, e alguns estão em pé porque há pouco espaço para sentar e ao mesmo tempo ver o filme. Tudo bem, ninguém parece reclamar. A pipoca corre solta em pequenos potes, e latas (de cerveja) estão nas mãos de uns quantos [entre eles, o professor Sérgio Amadeu, bem conhecido por aqui, que é o que se vê em primeiro plano, no canto direito inferior da foto abaixo], porque o calor que fazia no local, e em toda a cidade de São Paulo, exigia um certo refresco.
.
.
O documentário “Dez Táticas para Transfomar Informação em Ação” (50 min.), apresentado na Casa de Cultura Digital na última quarta-feira às 20h, mostra como o uso de aplicativos e plataformas de redes sociais como blogs, Google Earth, Twitter, Facebook e Flickr podem ser usados para tranformar informação em ações práticas, que visem modificar uma dada realidade. O filme é fruto de um evento ocorrido na Índia em 2009, o Info-Activism Camp, organizado pelo mesmo grupo que produziu o documentário, Tactical Tech, onde centenas de ativistas internacionais se reuniram para debater, aprender, movimentar, ensinar, atuar e mostrar exemplos de ações sociais positivas. Um dos que estavam no evento era o VJ Pixel – pesquisador multimídia e VJ que também integra o coletivo alocado na Casa de Cultura Digital – que teve a incumbência de ser o apresentador da noite na CCD, onde foi apresentada uma versão legendada para o português que já está online [o filme a legenda em português podem ser baixados aqui].

Os exemplos citados serviam de ilustração para cada uma das dez táticas apresentadas [A saber: 1. Mobilize pessoas; 2. Testemunhe e grave; 3. Visualize sua mensagem; 4. Amplifique histórias pessoais; 5. Adicione humor; 6. Investigue e exponha; 7. Saiba trabalhar dados complexos; 8. Use a inteligência coletiva; 9. Permita que as pessoas façam perguntas; 10. Administre seus contatos].

Um dos casos para apresentar a tática 6, por exemplo, foi o utilizado pela Mercy Corps, organização internacional de ajuda humanitária, durante o Tsunami na Ásia. Para transmitir informação para a enorme quantidade de pessoas que tinham sido afetadas pela catástrofe, ela utilizou o Frontline SMS, um programa de código aberto que transforma o seu notebook ou o seu aparelho celular em uma espécie de hub, que pode enviar mensagens para aparelhos celulares de grandes grupos de pessoas sem necessarimente estar conectado à internet.

Outro exemplo citado no documentário é o citado na tática 5, adicione humor. Na Bielorússia, um grupo criou a página chamada “LuNet”, uma singela homenagem de aniversário ao presidente do país, Alexander Lukashenko, que prometeu aumentar o rigor na censura à internet por “não gostar dessa anarquia toda” que caracteriza a rede. O site compilava brincadeiras irônicas ao presidente em páginas-paródias como LuTube eLuJournal,

Para finalizar, mais um caso, agora para ilustrar a tática 3, visualize sua mensagem. Um grupo de “infoativistas” da Tunísia – em protesto contra o bloqueio ao acesso do Youtube e do Daily Motion por conta da exibição de vídeos denunciando abuso dos direitos humanos por parte do governo tunisiano – fez um mashup colocando vídeos proibidos que poderiam ser acessados no lugar onde ficava o Palácio Presidencial nos mapas do Google Earth, como dá pra ver aqui abaixo:

.

Ao fim da exibição, antes da discussão em torno das questões levantadas pelo filme, a maioria dos que estão na duas salas se apresentam para os outros, o que funciona como uma contextualização da presença de cada um ali na CCD e introduz o debate. Não demora muito para que um certo consenso se aproxime: as táticas apresentadas, ainda que deveras interessante, despertam uma certa consciência melancólica, pois poucas delas obtiveram resultados realmente práticos – ou, dito de outro modo, poucas resultaram em transformações sociais relevantes para a realidade em que foram produzidas, já que umas apenas conseguiram com que páginas da web, como o Youtube e o Daily Motion, tivessem seu acesso proibido.

Alguns apontam que falta uma organização política em torno destes diversos movimentos, que, dispersos do jeito que estão, não conseguem ter força o suficiente para que uma realidade maior seja modificada. Nota-se esta ideia de falta de resultado prático com ainda mais veemência no Brasil, onde não há um “inimigo comum” como na maioria dos casos citados no filme, localizados em países onde impera ditaduras (ou quase isso). Percebe-se com clareza a tal consciência melancólica: ferramentas para organização, mobilização e ação não faltam, mas sim real interesse e comprometimento contra a ação de inimigos velados, que não se manifestam de maneira tão direta como em ditaduras e quetais, o que torna a mobilização muito mais penosa. Com as novas potencialidades e ferramentas com que dispunhamos para saber o que se passa, o perigo é ser imobilizado pela própria consciência de que há muita coisa a se fazer. Com receio de tão grande a tarefa a ser feita, corre-se o risco de não se fazer nada.

[Apesar dos pesares, creio, com um certo otimismo, de que as coisas estão sendo feitas. Numa escala muito menor do que deveriam, pode ser verdade. Enxergo um certo ranço – míope, vão dizer alguns – em relativizar aquilo que está sendo construído, como se só mudanças estruturais profundas, daquele tipo que com passeata dos cem mil se conquistou tempos atrás, podem ser consideradas mudanças. O movimento do software livre no Brasil, a política de cultura digital do MinC e a consolidação de redes cooperativas extremamente eficientes e bem-sucedidas, como o Fora do Eixo, são exemplos claros de ações consistentes que estão modificando a vida de muita gente, transformando, sim, informação em ação – ainda que numa escala menor do que se necessite, mas aí a discussão é outra, muito mais complexa e que fica para uma próxima postagem]

.

CCD vista de trás, do seu pátio

Não é só o documentário que foi resultado da Info-activism 2009. Foram produzidos materiais informativos sobre os temas tratados, que estavam a venda na CCD pelo preço que tu quisesse pagar, no clássico esquema popularizado pelo Radiohead no lançamento de In Rainbows em 2007.

_ Uma série de fichas sobre as dez táticas apresentadas no filme, que detalha em texto aquilo que foi apresentado no vídeo, citando os exemplos, as ferramentas usadas, os efeitos conseguidos e até mesmo o “grau” de dificuldade de cada ação (infelizmente, esse não tá disponível online);

_ Quatro kits temáticos assim chamados: “Get organized“, sobre ferramentas de organização infoativista para o dia a dia ; “Get creative“, com dicas para veicular suas campanhas através de blogs, podcasts, newsletters, etc; “Stay Mobile“, com estratégias de veículação/ação em aparelhos móveis; e “Protecy Yourself“, um compêndio muito útil de informações e dicas para proteger (e criptografar) os dados passados nas campanhas de infoativismo;

_ Quatro guias para aprofundar alguns assuntos tangenciados no documentário: “Be Inspired“, com histórias bem-sucedidas de infoativismo espalhadas pelo planeta; “Get Online“, uma introdução para diversos serviços e ferramentas usados nestas campanhas; Visualize it“, com informações para comunicar visualmente as suas estratégias; e, por fim, “Map It“, que ensina a explorar o uso de mapas (online) em campanhas de infoativismo;

Todos os arquivos estão disponibilizados gratuitamente na rede; é só clicar nos links de cada um dos guias para ter acesso. Disfrute 😉

.

Créditos fotos: Andre Deak (da CCD) e  Mauro Rubens (do evento), que fez também um vídeo do evento.
 
As legendas em português do filme foram produzidas por VJ pixel, Gabriela Agustini, Rodrigo Cerqueira, Renzo Taddei, Alineh Bittencourt Souto, Mariana Mello, Hannah de Medeiros Raposo Chamon, João Marcelo dos S. M. M. da Silva e Heitor Francisco Carneiro

.

[Leonardo Foletto.]

Leia-o também

sergio amadeu

Sérgio Amadeu é uma das figuras mais conhecidas no Brasil quando se trata de Cibercultura, Cultura Digital e ciberativismo, dentre inúmeros outros assuntos relacionados à estes três (enormes) guarda-chuvas. De modo que não cabe aqui muita apresentação sobre ele. Eu o conheci pessoalmente por ocasião da Campus Party deste ano, onde ele foi um dos organizadores, e quase sempre era encontrado liderando manifestações e/ou ou defendendo sua posição em debates (como na foto que abre esta postagem) por uma  internet livre.

Recentemente, Amadeu ministrou  uma aula na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), onde falou sobre a quebra do conceito de autoria e a “condição hacker” da sociedade contemporânea. Dessa aula saiu a matéria “Homem Coletivo“, no portal Ciência Hoje, reproduzida também no portal do Instituto Humanitas Unisinos.

Saliento aqui alguns trechos, mas é claro que a leitura completa da(s) matéria(s) é bastante recomendada. Traz algumas boas ideias para se pensar enquanto este patriótico feriadão inicia:

Software é mais parecido com uma música do que com uma turbina de avião: não tem existência física, portanto é imaterial e não é escasso”, diz o sociólogo. E completa: “Se me roubam o celular, eu perco aquele celular para sempre. Se copiam um software que inventei ou um CD que tenho, ambos se duplicam, mas aquilo continua sendo meu. É o que chamamos de ‘bens não rivais’. Portanto, diferentemente do que muitos dizem, pirataria não é crime.”

“O conceito de autoria foi totalmente modificado com a internet. Na cibercultura, a prática é recombinante, segue a tendência do remix. Tudo é produzido coletivamente. No mundo pós-internet, houve uma crise na propriedade”.

Na mesma matéria que o IHU reproduz, há uma indicação para uma entrevista dada por Sérgio Amadeu ao portal ainda em 2007. Nela, o sociólogo também diz coisas interessantes que merecem destaque aqui. Perguntado sobre o debate em torno da cultura livre e da ameaça da apropriação das artes e do conhecimento na era da informação, saiu-se com essa resposta:

Sérgio Amadeu – A questão é bastante complexa, mas nós temos uma situação em que a internet pôde avançar e recobrir o planeta exatamente porque toda a construção dela é baseada numa cultura de liberdade. Vários pesquisadores, entre eles o Manuel Castells, descrevem que na formação dessa grande rede das redes está presente, por exemplo, a cultura acadêmica estadunidense, baseada na ciência que parte do compartilhamento do conhecimento. Por outro lado, há na contracultura dos Estados Unidos o que chamamos de subcultura hacker, que também é baseada na liberdade, na idéia de que o que é bom precisa ser compartilhado. Essas culturas acabaram sendo decisivas para a escrita dos principais protocolos de códigos que compõem a internet. Por isso, a internet é uma grande rede que facilita o fluxo de informações e é algo que não está acabado, avançando, portanto, mediante reconfigurações e recombinações constantes. Os grandes grupos que se tornaram poderosos na economia industrial na área de entretenimento e telecomunicações, principalmente, estão percebendo que a internet está criando várias dificuldades para os seus modelos de negócios, exatamente porque não permite apenas a liberdade dos conteúdos, mas também a liberdade de criação tecnológica. Então, até 1992 não existia lobby ou o modo gráfico da internet. Isso foi criado em cima dos protocolos anteriores. Ninguém tem que pedir autorização para criar alguma tecnologia nova ou novas possibilidades de interação.

Essa liberdade de criação incomoda os velhos grupos, as velhas instituições do mundo industrial, que estão agora tendo que correr atrás dessa cultura de liberdade, querendo implantar uma cultura da permissão, ou seja, querendo controlar a rede. Controlar não só os fluxos de informação, mas também as possibilidades de criação e de recriação, o que implica a própria lógica da internet. Eu diria que a internet é uma obra inacabada, exatamente porque o terreno com que ela é construída é o terreno da liberdade. Nós estamos enfrentando vários problemas para manter a liberdade. Nos Estados Unidos, agora foi constituído um movimento chamado Save the internet com o objetivo de tentar garantir que as operadoras não possam, a partir do controle que elas fazem da infra-estrutura de telecomunicações, controlar igualmente os pacotes, os formatos que podem e que não podem passar pela rede. Em paralelo a essa batalha que está acontecendo nos Estados Unidos, há tentativas de vários países de criar tecnologias de controle ou criar leis nacionais para controlar a rede. E muitas, como no caso do Brasil, dessas leis querem acabar com o anonimato na rede, por exemplo. O objetivo da lei é exatamente implantar, dentro da internet, uma sociedade de controle absoluto, o que é um absurdo, pois impede que as pessoas possam criar dupla e múltiplas identidades e vai impedir que elas tenham liberdade de navegação, facilitando simplesmente que os grandes grupos de pesquisa possam ter identificados os rastros digitais. Ou seja, estão acontecendo várias batalhas, nas quais esses grupos do mundo industrial querem derrotar o que eu chamo de princípios da cultura hacker, os princípios que até hoje garantem o funcionamento livre da internet

**

Sérgio Amadeu é também professor da pós-graduação da Cásper Líbero, em São Paulo. Neste segundo semestre, ele ministra a disciplina de Cibercultura e Comunicação em Rede, e aqui dá para ver todo o programa da disciplina, com ementa, tema de cada aula  e a bibliografia lida. É uma referência importante para quem quer saber mais sobre o assunto.

[Leonardo Foletto.]

Crédito: 1.


Leia Richard Stallman

stallman

Já havia indicado via twitter esta semana (a propósito: @leofoletto), mas o texto é importante o suficiente para apontar aqui no blog, ainda que com atraso.

Trata-se de “Acabar com a Guerra da Partilha“, do nosso velho conhecido Richard Stallman. Publicado originalmente em seu próprio site, o texto foi traduzido para o português pelo parceiro Miguel Caetano, do sempre ótimo Remixtures, e publicado na última segunda-feira, dia 24 de agosto. É uma interessante pensata sobre a questão do compartilhamento de arquivos, especialmente voltada à música e as gravadoras. Ao final, Stallman dá dicas de como os músicos podem “sobreviver” com seu trabalho neste novo contexto que a rede e o compartilhamento ilimitado nos apresenta.

“Quando as companhias discográficas armam um escarcéu a respeito do perigo da “pirataria”, elas não estão a falar de ataques violentos a navios mas sim a queixar-se da partilha de cópias de música, uma actividade em que milhões de pessoas participam num espírito de cooperação. O termo “pirataria” é empregue pelas companhias discográficas para demonizar a partilha e a cooperação ao compará-las com o sequestro, assassinato e roubo.

Continue lendo aqui.

Fica aqui também a sugestão para dar uma passada no site pessoal de Stallman, que tem desde os seus textos políticos, atualizados quase diariamente, até humor, ficção (científica, claro), relatos e fotos de viagem e mais um monte de outras coisas que tu (não) poderia esperar em se tratando de um dos mais instigantes ativistas/pensadores da cultura digital/livre destes tempos.

[Leonardo Foletto.]

Crédito: 1.

A semana (já) foi de movimento

.

10fisl

Em primeiríssimo lugar, quero dizer o que os que entram aqui já devem ter reparado: o blog está carecendo de atualizações. Como também já falei anteriormente, as outras ocupações nossas tem nos tomado muito tempo, e como elas, no momento, são as que no sustentam, é natural que o BC perca um pouco de seu ritmo de atualização. Esperamos que esses outros afazeres nos limitem até final de julho, de modo que até lá as atualizações serão mais escassas. Combinado?

O tempo hábil para escrevermos sobre os dois fóruns que ocorreram em Porto Alegre na semana retrasada, divulgados no post anterior, meio que passou; todos os que estavam interessados no assunto já sabem que

_ Lula falou mal do Projeto do Azeredo;

_ Até a ministra Dilma também esteve no evento;

_  O Festival de Cultura Livre, um dos muitos eventos dentros do 10fisl, teve seu auge no já clássico debate realizado no ocidente com Peter Sunde, do Pirate Bay, Elizabeth Stark, do movimento Free Culture (do qual já falamos por aqui),  e Marcelo Branco, coordenador do Software Livre Brasil e um dos organizadores do Fisl;

_ O 10ºfisl foi o maior até então, com 8.232 participantes de 27 países;

_ A maior caravana foi de Santa Maria (!), com 71 integrantes;

_  O 1ºFórum de Música para Baixar foi muito provavelmente o primeiro de muitos;

**

fisl1

Provavelmente, uma das melhores coisas que li por aí foi uma entrevista dada pelo Pete Sunde à repórter da Folha Daniela Arrais, que também comanda o ótimo blog don’t touch my moleskine, de modo que vou ter de reproduzir ela aqui abaixo. Sunde entende como poucos o tipo de mudança que está acontecendo hoje e que faz repensar uma série de situações, negócios, relações que perduraram durante todo o século XX.

Folha – A Justiça considerou que o juiz responsável pelo veredicto do Pirate Bay não foi tendencioso. Qual é o próximo passo que vocês darão?

Peter Sunde – Eu vou soar como uma pessoa que nunca desiste.

Você já assistiu a Monty Python? Há um cara lá que não desiste nunca. Um juiz decidindo se outro juiz foi tendencioso já é tendencioso. Não podemos mais apelar. A única maneira de conseguirmos isso é recorrendo à União Europeia de Direitos Humanos. Agora vamos ver se a Anistia Internacional nos ajuda. É um processo que vai levar cinco anos, por aí. A decisão é totalmente errada. Eles estão falando sobre eles, e não sobre a situação.

Folha – Christian Engström, do Pirate Party, disse que a decisão mostra que a única maneira de vencer essa batalha é por meio da política. Você concorda com ele?

Sunde – Nós precisamos mudar a política a longo prazo. A curto prazo, precisamos ser ativistas para quebrar o sistema ou modificá-lo para que ele funcione da maneira como deve funcionar. O que nós fazemos é desobediência civil legal. Nós não infringimos a lei. Nós fazemos coisas que ainda são legais e não devemos ser condenados. Temos que incentivar mais pessoas a agirem contra esse tipo de coisa. Precisamos de pessoas se rebelando e dizendo que isso é errado.

Folha – Você não teme ser preso?

Sunde – Não serei preso. Vamos recorrer e vencer no final. Até agora, o juiz não disse o motivo de nossa condenação.

Folha – Você acredita que as pessoas estão começando a ficar preocupadas com as consequências de seus atos na internet?

Sunde –As pessoas estão de saco cheio de ouvir grandes corporações dizendo como elas devem agir. É ruim para a sociedade ter poucas companhias muito ricas dizendo como elas devem ou não devem agir. Não é produtivo. E o Pirate Bay se tornou o símbolo disso.

Folha – Você acha que advogados e juízes ainda não sabem lidar com questões ligadas à internet?

Sunde – Eles não entendem sobre tecnologia. E ainda dizem que ela não é tão ou mais importante do que a lei. A maioria dos juízes é muito velha, provavelmente vai ser trocada, em breve, por novos juízes que têm experiência no assunto. A tecnologia de hoje em dia é muito avançada para aqueles que se formaram há 30 anos. Enquanto isso não acontece, temos que atuar como ativistas.

Folha – Como você enxerga as críticas de grandes corporações ao compartilhamento na internet?

Sunde – Elas não têm opção. Ou mudam ou vão perder ainda mais espaço. Elas têm que adotar novas tecnologias, inventar outras também. Elas não têm um problema de dinheiro, mas um problema de controle. As vendas continuam altas, não tanto em suporte físico, mas elas ganham dinheiro com licenciamentos para televisão, rádio. Mais gente usa a mesma música em diversos suportes. No final, elas sabem que estão perdendo controle sobre como o conteúdo está sendo espalhado. E isso as assusta.

Folha – E a atitude dos artistas sobre o mesmo assunto?

Sunde – São artistas que não produzem há muito tempo aqueles que se contrapõem ao compartilhamento de arquivos. Prince e Village People tentaram processar a gente. Nenhum deles está fazendo música desde os anos 1980.

Mas eles se incomodam por não vender coletâneas de melhores sucessos.

No entanto, sem a internet, os novos músicos não seriam nada –ela abriu possibilidades. As pessoas não vão pagar pelo que já pagaram. Em que tipo de trabalho você ganha dinheiro toda vez que alguém usa o que você fez? É assim que o copyright atua. Por 70 anos, você paga todas as vezes que usar uma obra. Imagine se você tivesse uma casa e precisasse pagar US$ 1 a cada vez que entrasse nela? Não estou dizendo que as obras não devem ser pagas, mas sim que a forma como elas são pagas deve ser revista.

Folha – O que você achou da quase aprovação da lei antipirataria francesa?

Sunde – O que aconteceu é realmente estúpido e mostra como os políticos não têm a menor ideia do que é a internet.

Se alguém entra na sua casa e rouba alguma coisa, você não consegue bloquear a rua por onde ele passou. O mesmo acontece com a internet. Se alguém faz algo supostamente ilegal, você não pode bloqueá-la. A internet não é a razão pela qual as pessoas cometem um crime, é apenas uma conexão.

Você tem que consertar os problemas da sociedade para que as pessoas não cometam crimes, e não dizer que o meio que elas usam para isso é ilegal. A internet é a forma de comunicação das novas gerações. Nenhum crime iria desconectar você da internet por um ano.

Folha – E como fica a imagem do presidente francês, Nicolas Sarkozy, após esse episódio?

Sunde – Ele não liga para democracia. É um ditador. A mesma coisa ocorre na Itália. E são essas pessoas que estão decidindo como as pessoas se comunicam. Os governos conseguem maneiras fáceis de fazer vigilância, como ocorre na China ou na Coreia do Norte. Eles não entendem sobre liberdade e democracia, e sim sobre dinheiro e controle.

Folha – A política o atrai?

Sunde – Não. Não entraria na política porque nunca seria organizado. Uma das coisas que eu mais quero combater é aqueles que dizem que somos [o Pirate Bay] organizados. Não somos. Somos desorganizados como o diabo. Acredito que não posso falar sobre os valores de outras pessoas nem sobre o que elas acreditam, por isso não poderia ser candidato. Quero que as pessoas pensem por si mesmas, se imponham.

Folha – Você costuma baixar muito conteúdo? Tem uma conexão rápida e muito espaço no disco rígido?

Sunde – Baixo o que me der vontade. Minha conexão é bem rápida, como a da maioria das pessoas na Europa. Acho que um desafio de hoje em dia é lidar com a quantidade de informação disponível. Então, nem sempre armazeno tudo –baixo de novo quando dá vontade.

Folha – Se você fosse ouvido pela indústria do entretenimento, que conselho daria para que ela saia do estado em que está?

Sunde – Diria para eles se inspirarem no Swedish Model, organização que reúne gravadoras para repensar o futuro da música. Em vez de brigar com a internet, eles querem usar as mil possibilidades que ela oferece. E, claro, conseguem ganhar dinheiro assim.

[Leonardo Foletto.]

Crédito fotos:
1),Soy loco por ti

Semana de movimento

.fisl10

Esta semana dois eventos importantíssimos para o noticiário baixacultural vão acontecer em Porto Alegre. Em primeiro lugar,  o grandioso 10º Fórum Internacional de Software Livre, que começa na quarta e vai até sábado. O fisl10 é como uma Campus Party focada no tema software livre, com uma programação bastante ampla e cheia de ótimas atrações.  Em especial, destaco o Festival de Cultura Livre, que na quarta-feira vai trazer um debate sobre “Novas formas de distribuição de conhecimento na internet” com o pirate bay Peter Sundae.

Outro evento legal que vai acontecer em paralelo ao fisl10, também começando na quarta-feira é o I Fórum do Movimento de Música para Baixar, que só pelo nome já indica boa coisa. O Movimento de Música pra Baixar (MPB) é, segundo apresentação no site,” uma inciativa para conectar diversas áreas relacionadas como: música, arte tecnologia e comunicação colaborativa e espalhar suas propostas para o âmbito de diversos territórios, levando suas propostas para o maior numero de pessoas, extrapolando as fronteiras de um determinado gênero musical“. Alguns dos que integram o movimento são Fernando Rosa, editor do grande site Senhor FFernando Anitelli, do Teatro Mágico, que vão participar do FMPB juntamente como figuras como Pablo Capilé, Vice-presidente da Abrafin, Leoni, o eterno onipresente Ronaldo Lemos e mais um monte de gente boa que já toma parte da programação do evento.

mnusicaparabaixar-thumb

Infelizmente o BC não poderá se fazer presente na capital gaúcha em nenhum dos eventos, por causa das já faladas obrigações paralelas obrigatórias. Mas um monte de amigos e parceiros nossos estarão por lá, então, quem sabe, numa dessas, achamos uma 25º hora do dia para escrevermos algo sobre o evento, de preferência com informações (ou textos) exclusivos. Caso isso não ocorra, vai ter (e já está tendo faz tempo) ótima cobertura em diversos locais da web , inclusive em vídeo, rádio, twitter e tudo o mais, para que possamos acompanhar o evento no aconchego de nossos lares atulhados de coisas na espera para serem organizadas.  Destaco ainda, em especialíssimo, o blog Agência FISL, a ser criado em breve, que pretende agregar toda a cobertura do evento. A ideia do blog vem por uma iniciativa conjunta de diversas publicações de mídia livre: os blogs Outras Palavras e Ponto Livre (São Paulo), o site Soy Loco por Ti (Curitiba) e a  TV Ovo (Santa Maria). Todos estes participaram de alguma forma do Seminário na Cesma, onde, muito provavelmente, foi gestada a criação do blog.

Atualização 24/06: O blog Agência Fisl já está no ar.

[Leonardo Foletto.]