Jamaica, modo de usar

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A extensão da complexidade cultural da Jamaica não cabe na fronteira geográfica que a ilha faz com o mar do Caribe – nem a maluquice política que não escapa à regra da América colonizada, nem o sincretismo da religiosidade que é sua embora não de sua maioria [como o voodoo ou o rastafari, essa intrincada interpretação do Antigo Testamento bíblico, essa rica narrativa em que triunfa a liberdade cultural do colonizado e ao mesmo tempo alcança apenas cerca de 10% da população do país] nem a música afinal, não menos sincrética, não menos maluca, não menos produto e produtora do lugar em que não cabe.

A história do reggae é tão acidentada quanto todo o resto, cheia de desvios como o gênero é cheio de subgêneros, antecessores e herdeiros, alguns deles indissociáveis em sua origem da precariedade econômica e técnica que não vence o espírito, como o dub, outros indissociáveis do peso musical que a Jamaica conquistou em todos os mundos, inclusive o primeiro. É o caso da obra do lendário guitarrista Ernest Ranglin, cujo nome está na origem do ska, e que hoje é possível encontrar no meio de bandas de jazz enriquecendo o fusion mais ou menos desse jeito:

Há um belo documentário [vendido bem barato em bancas de revistas e disponível pra download aqui] sobre a saída do reggae de Kingston para Londres, via Catch a Fire, em que produtores e músicos ingleses são unânimes no desconforto que sentiram diante daquele contratempo inédito: ninguém sabia tocar aquele som, e o processo de adequação do reggae ao mercado branco também foi o do aprendizado daquele bumbo mulato maluco por parte do velho mundo.

Mas divago, e o que é mesmo preciso que se diga é que a história cheia de atalhos, desvios e becos sem saída da música jamaicana é muito bem contada pelo You And Me On A Jamboree, até hoje o blog de download mais completo sobre o assunto que meus olhos míopes já encontraram. Pra começo de conversa, tu não encontra nenhuma banda de Brasilia com nome de planta no meio – isso mesmo, improvável leitor: a parada é tão old school que as categorias com mais discos linkados são Ska, Rocksteady [ritmo intermediário entre o ska e o reggae que não durou muito na ilha do Caribe embora seja muito bom] e Early Reggae.

É aí que a página ganha cara de enciclopédia: além da lista de links por artista/banda, os discos estão organizados por categoria. Como cada categoria musical daquelas representa um ponto na história da música jamaicana, baixar cada disco ali chega a ser didático, além de um prazer.

You And Me On A Jamboree também é uma festa e um podcast muito do invocado. Do blog, o único porém fica por conta da desorganização alfabética dos links. É muita coisa [tomara que cresça!], e uma lista organizada com um pouco mais de empenho facilitaria muito a minha vida. Quer dizer, a nossa.

E pra encerrar o post mais groovy do dia, fica aí com o genial trombonista Rico Rodriguez, de quem tu encontra nada menos que cinco bolachas no Jamboree. Tô falando, é coisa fina, pedra pesadíssima:

[Reuben da Cunha Rocha.]