Diálogos Abertos #1: O Caso facebook

Junto com o Hackerspace Matehackers e a Casa da Cultura Digital Porto Alegre, começamos na última quinta-feira, 26 de abril,  uma série de debates sobre temas ligados à cultura digital, tecnopolítica, direitos digitais, cultura livre, ética hacker e outros do nosso cotidiano digital. Nosso intuito foi, e continuará sendo com os próximos, dissecar esses temas num momento em que a internet que conhecemos está acabando, e que novas “internets” estão sendo construídas, num campo em ferrenha disputa que acontece hoje.

Para começar os Diálogos Abertos, não poderíamos deixar de falar do recente caso envolvendo o Facebook, que supostamente vazou (compartilhou, melhor dizendo) dados de cerca de 87 milhões de pessoas para a empresa de marketing político Cambridge Analytica por meio de testes de personalidade. A situação levou o criador da rede social, Mark Zuckerberg, a defender sua empresa no Congresso dos Estados Unidos e despertou um sonoro “eu já sabia” nos meios do ciberativismo de proteção de dados e antivigilante, além de queda do valor das ações da empresa na Bolsa de Valores e alterações na política de proteção de dados da rede social, que vão afetar os mais de 1 bilhão de pessoas com perfis no Facebook.

A conversa realizada no miolo do Vila Flores, condomínio cultural criativo que abriga o Matehackers, girou em torno desse e outros temas correlatos, e teve a condução de Janaína Spode, integrante da CCD POA, produtora cultural e ciberativista nas lutas pelos avanços políticos para reforçar os Direitos Humanos no mundo digital;  Fabricio Solagna, doutorando em sociologia pela UFRGS com pesquisa focada em governança da Internet e Marco Civil na Internet e que já realizou projetos de participação digital no governo do RS e na presidência da República; e Leonardo Feltrin Foletto, doutor em comunicação pela UFRGS, integrante do Matehackers, da CCD POA e editor desta página.

Diálogos Abertos marcou também o lançamento da Newsletter quinzenal CCD POA + BaixaCultura (inscrição e todas as infos aqui), e da campanha de financiamento contínuo do BaixaCultura no Apoia.se. Teve a presença de cerca de 20 pessoas e outras tantas online, na transmissão que fizemos no YouTube e que está disponível aqui abaixo. As fotos são de Sheila Uberti. A 2º edição será realizada em maio.

Colaboração, espaços urbanos e produção cultural em charla

Novamente o Vila Flores, desta vez o espaço conhecido como “Miolo”, foi o cenário da BaixaCharla #4. A convidada desta edição foi Aline Bueno, comunicadora social e gestora cultural, atualmente no Mestrado em Design Estratégico da Unisinos, onde faz parte do SeedingLab – Laboratório de Design estratégico para a inovação cultural e social da Unisino.

Se o Vila abriga (ou abrigou) diversos projetos interessantes, Aline também tem os seus: já fez parte do PortoAlegre.cc, projeto pioneiro de wikicidade criado em 2011 que acabou por impulsionar diversos outros, como a Serenata Iluminada, até hoje uma bela celebração aos espaços públicos de Porto Alegre que ocupa o Parque da Redenção em noites periódicas com cerveja artesanal, bandas diversas, comidas veganas, muita gente e uma auto organização interessante de ver.

Também da Casa da Cultura Digital Porto Alegre, coletivo de cultura digital formado em 2012 que realizou diversas atividades de formação e divulgação da cultura livre, de início na Casa de Cultura Mário Quintana, centro de Porto Alegre, depois em diversas cidades no interior do RS. Do Projeto Vizinhança, ação que busca ativar espaços ociosos da cidade, públicos e privados, e que desde 2012, através da ação coletiva, já transformou 11 lugares em palco de novas experiências, estimulando a convivência entre vizinhos, a troca e a aprendizagem em um ambiente lúdico, criativo e informal.

Entre outros projetos que Aline articulou e/ou fez parte, o Vila Flores, e Associação Cultural do Vila Flores criada para gerir o espaço, foi um dos temas debatidos na charla. Passeamos um pouco sobre alguns temas em comum que os projetos de Aline trouxeram, como a colaboração, a cultura digital, o espaço urbano, a gestão/produção cultural, o que rendeu histórias de breves utopias, realizáveis ou não; da própria CCD POA, espaço onde eu (Leonardo) e Aline nos encontramos e trabalhamos juntos por alguns anos, e do ColaborAmerica 2017, evento que nossa convidada participou no final de semana anterior à conversa no Rio de Janeiro (23 a 25 de novembro de 2017). As fotos da charla são de Sheila Uberti; depois do vídeo são dos projetos citados por Aline e, por fim, algumas que ela mesmo fez do ColaborAmerica no Rio.

P.s: nosso áudio da webcam esteve com problemas, então gravamos o sim via celular, que não está 100% sincronizado com a imagem, o que, cremos, não prejudica assistir/ouvir o vídeo.

 

Vila Flores
Projeto Vizinhança
Projeto Vizinhança & Café na Calçada
Projeto Vizinhança
1º edição do Cineclube CCD Poa, com a participação do coletivo Escuta o Som do Compositor
ColaboraAmerica
José Pacheco, educador português criador da Escola da Ponte, no ColaboraAmerica2017

III Encontro SUL da Rede de Produtoras Culturais Colaborativas

Pelo terceiro ano consecutivo, as produtoras culturais colaborativas da região sul vão realizar seu encontro anual em Porto Alegre e região metropolitana. O III Encontro Regional SUL da Rede das Produtoras Culturais Colaborativas contará com debates, oficinas, install fest de software livre, roteiro pelos espaços coletivos de produção cultural de Porto Alegre e atrações culturais, com a participação das produtoras colaborativas da região Sul, representantes das produtoras das regiões Norte e Nordeste do Brasil e parceiros locais que trabalham com produção cultural, software livre e economia solidária. O evento vai de 4 a 7 de outubro (quarta-feira à sábado) em Porto Alegre, no Espaço Cultural 512 (Rua João Alfredo, 512, Cidade Baixa) e na Unisinos Campus Porto Alegre (Av. Dr. Nilo Peçanha, 1640, sala 307) e em Novo Hamburgo, no Espaço Sideral e na Casa Aberta Clube da Esquina (Rua Casimiro de Abreu, 272/251)

A edição deste ano do encontro tem o reconhecimento e apoio da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, através do edital Cultura e Redes, realizado em 2015, cujos recursos foram liberados somente este ano. As inscrições para todas as atividades são gratuitas e podem ser realizadas aqui.

A programação completa está abaixo. Todes estão convidados a cdiscutir/praticar/conhecer a tecnologia social das produtoras colaborativas, economia solidária, gestão de espaços coletivos de produção, tecnologias livres, criptomoedas, redes livres, comunicação alternativa e outros temas que vão ser debatidos nos dias de evento.

Programação completa
Evento Facebook

PROGRAMAÇÃO

1º DIA – 4 de outubro (quarta)
LOCAL: Recepção/ almoço/atividades – Espaço Cultural 512 (Rua João Alfredo, 512, Cidade Baixa, Porto Alegre – RS)

14h – Abertura
RODAS DE CONVERSA
15h – Como a web 3.0 pode ser um mutirão para fazer a inteligência coletiva emergir? Daniel Muller (ASL)
16h – Permacultura digital: intertextualizando a cultura da permanência. Fabianne Balvedi (PR), Pedro Jatobá (BA) e Leandro Atlas (RS)
17h – O Corais 20 tá chegando!: apresentação da nova versão da plataforma de gestão da Rede das Produtoras Culturais Colaborativas, Cooperativa EITA
19h – Install Fest – Oscar Luz e Associação do Software Livre (ASL)
19h – CINELIVRE: exibição de filmes produzidos em software livre e/ou distribuído em licenças livres. (Curadoria: Cláudia Archer)
20h30 – O Futuro do Software Livre no Brasil (Associação do Software Livre – ASL)
21h – Quarta Livre no 512
Shows: Mosaico Fluido, Áurea Vênus, Andrei Côrrea (vocalista/guitarrista da banda Trem Imperial) e convidado surpresa. Nos intervalos do show, DJ Virgulinux vai tocar suas seletas musicais nordestinas montadas só com músicas livres para baixar e de domínio público disponíveis na internet.

2º DIA – 5 de outubro (quinta-feira)
LOCAL: Unisinos Porto Alegre (Av. Dr. Nilo Peçanha, 1640, sala 307)

Seminário do III Encontro SUL das Produtoras Colaborativas
10h – Abertura. Mesa 1: As produtoras colaborativas e os arranjos locais de produção econômica
Tempos de “crise” são tempos de união e de criar novas (ou recriar velhas) formas de produção. Também são períodos para se buscar bons exemplos e soluções de viabilidade financeira que sejam, de fato, colaborativas. Como a tecnologia social das Produtoras Culturais Colaborativas pode contribuir para este cenário? Como a economia solidária pode dialogar com a economia colaborativa na produção de alternativas viáveis financeiramente e socialmente justas? Quais os principais desafios para quem quer sobreviver produzindo uma cultura livre, colaborativa e economicamente sustentável? Como, nas brechas da crise, detectar e potencializar arranjos locais de produção cultural livre? Estas e outras questões serão discutidas nessa mesa de abertura do Seminário do III Encontro SUL de Produtoras Culturais Colaborativas.
_ Pedro Jatobá (Iteia/Rede das Produtoras Colaborativas)
_ Aline Bueno (mestranda em design estratégico na Unisinos, integrante do SeedingLab e do Vila Flores);
_ Ana Mercedez Sarria Icasa (Núcleo de Estudos de Gestão Alternativa- NEGA, UFRGS);
_ Joel Grigolo (Matehackers/MachinariumLAB);
_ Leandro Anton (fotógrafo, Geógrafo e Educador Popular, integrante da Coordenação do Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo);

14h – Crise capitalista atual e possibilidade de um pós-capitalismo: o papel da democratização da cultura via militantes digitais
Gláucia Campregher (Professora do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS) e Rodrigo Brites (discente de Relacões Internacionais da UFRGS e pesquisador da internet como ferramenta de poder). A proposta da discussão é alertar para o alcance da cultura digital, principalmente aquela voltada para o desenvolvimento de práticas colaborativas, na proposição de alternativas à crise atual que aponta para maior concentração de riqueza, poder, e controle das produções materiais e imateriais, mesmo que ao mesmo tempo estas novas tecnologias permitam também alguma democratização na sua produção e consumo.

16h – Mesa 3: Comunicação e cultura livre em tempos bicudos
Virou consenso dizer que o jornalismo brasileiro vive um “apagão” nos últimos anos, a partir do acirramento político que se deu em torno das Jornadas de Junho de 2013 e das eleições presidenciais de 2014. Ao mesmo tempo que o dito jornalismo tradicional está em crise,  é visível a expansão de coletivos de comunicação e jornalismo “contra-hegêmonico” pelo Brasil, que buscam construir narrativas sobre os acontecimentos de pontos de vista que não os tradicionalmente mostrados na mídia tradicional. De que formas estes coletivos conversam com o software e a cultura livre? Como produzir comunicação e jornalismo em tempos bicudos, de acirramento de lados que não dialogam? Como fugir da polarização e produzir informação qualificada sobre os acontecimentos hoje no Brasil? Essas e outras questões vão pontuar o debate com diversos integrantes de coletivos de comunicação do RS e SC.
_ Agência Ganesha (Florianópolis, SC)
_ Nonada Jornalismo Travessia (POA-RS)
_ Coletivo Catarse (Porto Alegre – RS)
_ Coletivo Maruim – Florianópolis, SC

Mediação: Leonardo Foletto (http://baixacultura.org/, doutor em comunicação e informação pela UFRGS)

3º DIA – 6 de outubro (sexta)

10h – Oficina Laboratório Fotodoc online com ferramentas livres (Sheila Uberti – http://fotolivre.org)
Atividade de apresentação e prática guiada sobre as possibilidades de publicar online a documentação fotográfica de projetos culturais. Falaremos sobre licenças, softwares, integração de ferramentas, atualização e manutenção dos conteúdos. Não é necessário conhecimento de nenhuma linguagem de programação ou de edição de imagens avançada.

LOCAL: Espaço Cultural 512 (Rua João Alfredo, 512, Cidade Baixa, Porto Alegre – RS)

14h – Passeio pelos Espaços coletivos de produção cultural em Porto Alegre (conhecidas também como “Casas Colaborativas”).
A proposta da atividade é conhecer os espaços e compartilhar informações sobre as atividades realizadas, as formas de gestão e de troca de informação entre os participantes.
Quilombo do Sopapo
Marquise51
Galpão Makers
Vila Flores – encerramento com roda de conversa sobre a reconfiguração das Casas Colaborativas

4º DIA – 7 de outubro (sábado)

15h -A tecnologia blockchain (Bitcoin¢) e seus impactos socioeconômicos (Lucas Alberto – ASL e convidados)
16h – Internet(s) possíveis para a cultura livre. Roda de conversa (Casa de Cultura Digital Porto Alegre)
17h – Redes Livres e/ou Provedores Comunitários no Brasil e mundo (Rodrigo Troian, Coolab – laboratório cooperativo de redes livres)

Local: Espaço Cultural 512 (Rua João Alfredo, 512, Cidade Baixa – Porto Alegre).

Festa de Encerramento

19h – Festa da Cultura Livre: Junção Primavera Cultural Novo Hamburgo  – Lúpulo Jah e Outro Mundo Acontece: Kalunga Quilombola (POA) e Expo Arte,

Local: Espaço Sideral (Rua Casemiro de Abreu, 272, Novo Hamburgo) e Casa Aberta Clube da Esquina (Rua Casemiro de Abreu, 251), uma na frente da outra.

SOBRE AS PRODUTORAS CULTURAIS COLABORATIVAS

As Produtoras Culturais Colaborativas (http://www.corais.org/colabor ativas) são uma tecnologia social que integra práticas formativas em software livre, metodologias de inclusão digital e produção cultural comunitária orientadas pelos princípios da economia solidária. São iniciativas de desenvolvimento local realizadas em telecentros onde jovens, produtores e gestores culturais, empreendedores e artistas, participam da gestão do espaço e do processo formativo, criando e comercializando produtos e serviços da economia criativa em software e licenças livres e de forma autogestionária. A tecnologia social qualifica espaços de inclusão digital em laboratórios de educação em cultura livre, contribuindo para o registro de suas comunidades. Existem pontos da rede em Recife e Olinda (PE), Belém e Santarém (PA), Porto Alegre e Novo Hamburgo (RS), Florianópolis (SC), Curitiba (PR), Salvador e Chapada Diamantina (BA).

Chamada pública – III Encontro SUL das Produtoras Colaborativas

Pelo terceiro ano consecutivo, as Produtoras Culturais Colaborativas da região sul realizarão seu encontro anual em Porto Alegre e região metropolitana. As Produtoras Culturais Colaborativas são uma tecnologia social que reúne um conjunto de metodologias para que grupos autogestionários transformem seus espaços de atuação em empreendimentos criativos que oferecem produtos e serviços de audiovisual, produção cultural, comunicação comunitária e formação em cultura digital. A edição deste ano do encontro tem o reconhecimento e apoio da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, através do edital Cultura e Redes, realizado em 2015, cujos recursos foram liberados somente este ano.

O III Encontro Regional SUL da Rede das Produtoras Culturais Colaborativas contará com debates, oficinas, install fest e atrações culturais e terá a participação das produtoras colabrativas da região Sul, representantes das produtoras das regiões Norte e Nordeste do Brasil e parceiros locais que trabalham com produção cultural, software livre e economia colaborativa. Vai acontecer entre os dias 4 a 7 de outubro (quarta à sábado) em Porto Alegre e região metropolitana.

Estamos construindo a programação de forma colaborativa com os coletivos integrantes da Rede das Produtoras Colaborativas e com outrxs interessadxs em cultura livre e produção cultural colaborativa da região. Quem quiser propor sua atividade (roda de conversa, debate, oficina prática, atividade cultural – cineclube, shows, performances, lançamentos de livros/zines/revistas, etc) para o encontro, entre nesse formulário e preencha os campos até o dia 4/9, segunda-feira. 11/9, segunda-feira. O nosso objetivo é sistematizar as ações propostas e cuidar, junto com xs proponentes, pra que todas possam acontecer na programação do evento.

Por enquanto, já temos definido o 1º dia, quarta 4/10, que será dedicado à chegada dos coletivos e uma atividade de recepção, a partir das 14h, no Espaço Cultural 512, na Cidade Baixa, e a roda de encerramento, no sábado 7/10 às 17h, no mesmo 512. A programação do 2º (5/10, quinta), do 3º (6/10, sexta)  e de metade do 4° dia (7/10, sábado) estão abertas para a construção coletiva.

Se você quiser se inspirar para apresentar sua proposta, confira aqui o que já aconteceu nos dois últimos encontros:

I Encontro SUL (2015)
Material de divulgação
Cobertura

II Encontro SUL (2016)
Material de divulgaçãospot de rádio

Para saber mais sobre como funciona Rede das Produtoras Colaborativas, entre aqui.

Pós-fotografia, obsolescência programada e cultura digital em charla

Na quinta-feira 13 de julho de 2017 estreiou a “BaixaCharla”, nossa conversa mensal ao vivo, via streaming, com pessoas da cultura livre, remix, cultura hacker e subversões em geral, realizada em parceria com o FotoLivre.org. A charla pilota foi com o fotógrafo/artista visual Leo Caobelli, na Planta Baja, novo espaço cultural de Porto Alegre, sede da CalmaLab, empresa que Leo dirige. Falamos sobre remix, pós-fotografia, privacidade, obsloscência programada, até da Casa da Cultura Digital em SP, onde nos conhecemos em 2010, ele como integrante da Garapa, eu (Leonardo) ainda como parte da finada Fli Multimídia, empresa que fazia a comunicação/produção do Fórum da Cultura Digital 2010.

O mote da fala foi o último projeto de Leo, “Algum pequeno oásis de fatalidade perdido num deserto de erros“, que resgata imagens perdidas em HDs vendidos por kg como sucatas Brasil (e Uruguai e Nigéria) afora. O projeto é a pesquisa de mestrado em artes visuais no Instituto de Artes da UFRGS e tem circulado pelo RS com oficinas e exposições, onde aparatos (jogos!) foram montados para as pessoas brincarem com imagens do já grande acervo em HDs resgatados de Leo. Abaixo confira a charla na íntegra, seguido de fotos (por Sheila Uberti, do FotoLivre) e imagens do trabalho de Leo.

 

 

Conexões Globais 2016

conexoes

O Conexões Globais 2016 acontece novamente em Porto Alegre, mas desta vez no Vila Flores, 1 e 2 de abril, e com foco no debate sobre cidades democráticas. A programação completa pode ser vista aqui, e traz mesas de debate, shows e oficinas sobre cultura digital – ativismo – feminismo – participação social – direitos humanos, entre outros temas. E a novidade é que vamos ser um dos retransmissores do streaming ao vivo das palestras e shows, no link abaixo. Depois, a ideia é fazer um relato do evento por aqui mesmo.

Quem quiser dar uma lida sobre cada um dos seis diálogos que tivemos nos dias 01 e 02 de abril, só conferir nos links abaixo (direto da equipe de comunicação do evento).

Quarto Distrito de Porto Alegre: um Polo da Economia Criativa e da Inovação Colaborativa

Participação Social na era da Internet

Brasil: Jornadas de Junho aos novos movimentos sociais em rede

Porto Alegre: Movimentos Sociais por uma Cidade Mais Democrática

Diversidade Sexual e de Gênero: Os desafios do Ativismo na Rede

Mulherada empoderada: os feminismos insurgentes nas ruas e nas redes

Erros, acertos e experiências no jornalismo pós-industrial

post industrial

No início de junho de 2014 fiz um comentário breve no Facebook sobre boas novas pro jornalismo brasileiro a partir de um cenário otimista de expansão de iniciativas “independentes” dos grandes grupos de mídia (Globo, Folha, Estadão, RBS, etc). Fiz motivado pelo surgimento de “A Ponte“, um site de jornalismo de investigação focado em temas como direitos humanos, segurança pública e justiça, temas tão importantes quanto mal noticiados ultimamente.

O comentário também falava de como a crise do modelo industrial de informação poderia gerar uma “Idade de Ouro” no jornalismo, como acredita, por exemplo, o Bruno Torturra, ex-editor da “Trip”, um dos idealizadores da “Mídia Ninja” e ele mesmo, hoje, tocando um projeto independente de jornalismo, o estúdio “Fluxo“, que recentemente (final de julho de 2014) começou uma campanha de financiamento coletivo para o projeto.

Mais ou menos um mês depois do comentário, uma notícia quis que eu pensasse um pouco mais o tom otimista do comentário. A notícia é esta, publicada em 22 de julho de 2014: “O braço fraqueja às vezes: o Impedimento acabou“, que anuncia o fim de uma das iniciativas mais interessantes de jornalismo esportivo brasileiro, o site Impedimento. Na hora, senti o golpe no tom otimista, de cenário promissor, de explosão do jornalismo – da mídia de massas à massa de mídias, como diz o jornalista e professor francês Ignácio Ramonet em seu último livro – e escrevi o texto “Sobre o fim do Impedimento e o ecossistema do jornalismo“, no Brasil Post. Dizia, entre outras coisas:

“Hoje sabemos que o mundo é outro, que a publicidade por si só não paga o jornalismo na internet, e que, principalmente, o jornalista não está mais sozinho na produção de informação como em outros tempos. Muitas pessoas com o mínimo de acesso a internet podem cometer “atos de jornalismo” ao noticiar para milhares de pessoas em uma rede social, por exemplo, que um acidente de carro ocorreu em frente a sua casa. Neste cenário, como “premiar”, que seja com a continuidade, as melhores iniciativas de pessoas que trazem informações importantes para a nossa vida cotidiana? Como sustentar e qualificar uma quantidade grande de produtores de informação para bancar uma “dieta saudável” de informação, não dependente apenas de notícias “industrializadas” e, não rara, carregadas de quantidades tóxicas de interesses disfarçados? Como promover a continuidade de um jornalismo que seja um pouco mais transparente em seus interesses, um pingo mais sincero em sua forma de comunicar e que consiga, ainda assim, ter condições de ir atrás de histórias interessantes e importantes para a nossa vivência diária?

Talvez o comparativo com a produção da agricultura orgânica e/ou familiar possa servir para apontar um possível caminho para o aumento do “ecossistema”: pequenos produtores, menos (ou zero) fertilizantes, produção e consumo local, ecologicamente sustentável, menos intermediários, mais sinceridade no trato e menos cinismo. Talvez caminhar no fortalecimento dessa via seja uma boa coisa para a saúde desse ecossistema. Ou nos resta assumirmos que essas iniciativas que vem e vão são – nesse enquanto que o jornalismo tateia reinvenções – efêmeras, rotativas, e transformadoras dessa forma, no processo, no “foi bom enquanto durou”, como é (foi) o caso do Impedimento.”

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impedimento

Marcelo Träsel, professor de jornalismo digital da PUCRS, recentemente fez uma ótima análise em seu blog sobre o caso Impedimento e o do blog Destemperados. Ambos iniciaram suas atividades como blogs amadores em Porto Alegre e ampliaram suas atividades ao longo do tempo, profissionalizando-se e buscando formas de financiar a atividade editorial. Entretanto, o Impedimento acabou e o Destemperados assumiu recentemente a direção do caderno de culinária da Zero Hora. Por quê? A resposta mais simples é que, enquanto o Impedimento produzia jornalismo no sentido estrito, o outro publicava crônicas agradáveis que registrassem estabelecimentos interessantes, sem criticar, mas servir como um guia. Inclusive, um dos dez mandamentos dos Destemperados é “não avaliarás”, algo que não soa bem para o jornalismo, sempre tão crítico a tudo e todos.

Träsel faz uma análise completa do histórico dos dois casos. Cita que o Impedimento buscava, dentro dos “limites operacionais estreitos de um grupo de repórteres sem esteio numa empresa ou instituição, publicar informação que alguém, em algum lugar, preferiria não ver publicada”. Já o Destemperados não tinha esse compromisso. Queria, sim, ser um mostruário de gastronomia, não um jornalismo crítico de culinária. O fato deste último ter, em seu quadro um publicitário, um advogado e uma profissional de Relações Internacionais, facilitava esse afastamento da “missão principal da imprensa”. Coisa que no Impedimento não acontecia, pois todos seus fundadores eram jornalistas. A partir das diferenças dois dois exemplos, o texto aponta 4 liçõessobre empreendimentos jornalísticos independentes hoje. A saber:

1. Se é um empreendimento, alguém na equipe deve assumir o papel de empresário. A principal diferença entre o Impedimento e o Destemperados foi a predominância de uma mentalidade jornalística no primeiro e de uma mentalidade empresarial no segundo. Deixando-se de lado esse fator, todas as outras condições e circunstâncias são muito semelhantes, assim como ambos apresentam boa qualidade de conteúdo dentro de suas propostas.

2. Se ninguém na equipe mantém boas relações com empresários, políticos ou agências de publicidade, só há duas alternativas de financiamento: patrocínio do terceiro setor ou faturamento com venda direta à audiência. O problema do patrocínio do terceiro setor é depender também, em alguma medida, de boas relações políticas. Embora em geral a concorrência por bolsas seja mais aberta, baseada em editais, os selecionadores levam em conta a inserção de um determinado projeto numa comunidade de ativistas — por exemplo, o fato de algum dos proponentes já haver participado de outros projetos como voluntário ou funcionário. Além disso, em geral esse tipo de patrocínio se foca em jornalismo voltado a questões políticas e sócio-econômicas, o que eliminaria tanto o Impedimento quanto o Destemperados do concurso.

3. O problema de contar com financiamento direto pela audiência é ninguém ainda ter descoberto exatamente como vender notícias para leitores na era do jornalismo pós-industrial. Se alguém descobrir como fazê-lo, avise.

4. A terceirização parece ser uma via promissora, ao menos no Brasil. Além do Destemperados, há em Porto Alegre a experiência de agências como Cartola, Fronteira e República. Seus fundadores são repórteres jovens que, insatisfeitos com as restrições das redações tradicionais, pediram demissão e criaram suas próprias empresas. Hoje, prestam serviços para seus ex-empregadores e inclusive grandes veículos do Sudeste. Ganharam mais liberdade de escolha das pautas a serem perseguidas e, ao mesmo tempo, melhores salários e qualidade de vida.

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farol

Marcela Donini, jornalista e professora de jornalismo da ESPM, também leu o texto de Träsel e comentou em outro artigo importante para entender a situação hoje, a começar pelo título: Não sabemos de nada. Ali, também a partir dos dois casos, ela aponta o que, nas palavras dela, todo mundo já sabe: nós, jornalistas, ainda não sabemos como bancar reportagens desde que as verbas publicitárias começaram a migrar para outros canais na internet. Ela aposta numa hipotése: não é que as pessoas não querem mais pagar pelo jornalismo, a maioria delas talvez nunca quis pagar, pagava porque não tinha opção.

O texto foi publicado no Farol Jornalismo, uma interessante iniciativa de ideias, produção e pesquisas sobre novas formas de jornalismo, um projeto dela e de Moreno Osório, também jornalista e pesquisador do tema. “As pessoas pagavam uma assinatura de jornal diário mas acabavam lendo só a seção de esportes. E nós jornalistas tínhamos a ilusão de que elas se interessavam por todo o nosso produto, porque era difícil medir. Na internet, é possível saber direitinho o que dá audiência e o que não dá – e por testemunhos nossos, de colegas e por experiência como leitores, sabemos que esportes, celebridades e serviço fazem, em geral, mais sucesso do que política e economia. É o eterno embate entre o que o público quer ler e o que os jornalistas acham que o público precisa ler.”

Jornalista com experiência de anos em redação, ela comenta que esteve com uma editora de um jornal que falou de um conteúdo multimídia bem acabado com vídeos e infográficos sobre os 25 anos da Constituição e cuja audiência foi pífia. Um tema relevante, mas que, infelizmente, não interessa a muita gente, ainda mais na rede, com zilhões de outros assuntos te pedindo atenção. A partir daí, ela conclui que o “problema do jornalismo hoje não é que essas 3 pessoas não pagam a execução de um especial multimídia como esse; as pessoas nunca financiaram inteiramente o jornalismo, quem sempre bancou a imprensa foram os anunciantes“.

Sabemos que o jornalismo moderno é fruto do alvorecer capitalista do século XVIII, e seus financiadores foram, principalmente, os partidos, naquela época (até meados do XIX) em que o jornalismo era em suma opinativo e ligado a política; e a publicidade, notadamente do final século XIX e todo o século XX, em que a objetividade serviu como garantia de uma suposta neutralidade necessária para aumentar – e depois manter – o esquema industrial de produção de notícias. Hoje talvez saibamos que a publicidade não dá mais conta de (ou não quer) pagar o jornalismo. Mas o que dá?

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publica

Pergunta de um milhão.

Há iniciativas de vários lados, além das várias já citadas aqui: as financiadas por fundações privadas, em geral dos Estados Unidos, onde existe uma tradição de filantropia que potencializa iniciativas como a Pro Publica e a Agência Pública, no Brasil, que tem a Fundação Ford como principal financiador, além da Open Society e da Omydar, esta comandada pelo milionário Pierre Omydar, criador do E-bay, e que hoje está bancando outra iniciativa importante de jornalismo de investigação, o First Look Media, lar do The Intercept, comandado por Glenn Greenwald.

As “ongs” de jornalismo, como a Repórter Brasil, que trabalham com pesquisas, junto à governos (federal e estadual) ou a iniciativa privada (fundações e institutos) e também contam com doações, o que permite uma certa liberdade para tocar projetos de maior fôlego e que não teriam espaço nas publicações tradicionais, como é o caso do Moendo Gente, um especial multimídia sobre as condições de trabalho nos frigoríficos brasileiros. E, em especial, do Arquitetura da Gentrificação, uma investigação jornalística sobre o processo de gentrificação no centro de São Paulo financiada coletivamente – e que está em sua 2º edição em captação no Catarse. O AG tem por foco as medidas de higienização social adotadas durante as duas últimas administrações municipais de São Paulo (2005-2012), em especial as relações entre poder público e empresas privadas do setor de construção civil e ramo imobiliário – tradicionalmente, os dois ramos que mais investem na publicidade dos grandes jornais de SP, Folha e Estadão.

Existem, ainda, as startups, empresas pequenas que focam em soluções inéditas para problemas não-resolvidos (ou não pensados), em geral relacionadas a tecnologia digital e a internet. O cenário de muita experimentação e de crescimento da importância da tecnologia na produção do jornalismo (taí o jornalismo de dados para provar) parece ser favorável para o surgimento de pequenas empresas que criam produtos (aplicativos) ou serviços relacionados ao jornalismo. Nos Estados Unidos, onde a tradição empreendedora é forte, já existe até um centro de investigação com uma especialização nessa área, tocada por um Instituto ligado a Kony University e ao Knight Center.

Rosental Calmon Alves, brasileiro fundador da Knight Center para as Américas na Universidade do Texas, comentou, no último congresso da Abraji, que ele mesmo dá uma disciplina chamada jornalismo empreendedor (“Entrepreneurial Journalism”; dá uma olhada no currículo da universidade). A ideia da cadeira é que os estudantes criem uma startup, e para isso eles devem passar por “pitchings” diversos, inclusive o famoso “Elevador Pitching”, que consiste de apresentar a sua ideia em 3 minutos, como se estivesse num elevador com um investidor e aquela fosse tua única chance para convencê-lo a investir. Ao final, os alunos apresentam sua ideia para um jurado de investidores, que os avalia. No caso do Texas não há dinheiro de fato envolvido para os “vencedores” da turma, mas na especialização da Kony, por exemplo, esse mesmo processo dá R$50 mil para quem passar no pitching final.

Há um relatório sobre inovação no jornalismo, feito pela equipe do NY Times e muito citado por Rosental em sua fala, que aponta para o caminho das startups como um dos mais promissores na era do jornalismo pós-industrial. Vice, BuzzFeed, Huffington Post, Vox Media parecem dizer que esse é uma via em expansão – pelo menos nos Estados Unidos. No Brasil, há iniciativas que visam abertamente a incentivar a inovação no jornalismo, como é o caso da OrbitaLab, que surgiu para reunir quem tem projetos de mídia e quer tirá-los do papel e na última Campus Party fez uma maratona de debates sobre este assunto (estive lá e fiquei com a impressão que Marcela nomeou seu texto: não sabemos de nada. Estamos só testando. Quem errar melhor agora parece ter mais chance de acertar depois).

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ocupamidia
Ocupação da Câmara Municipal de Porto Alegre, 2013.

Um assunto que nem sempre aparece relacionado ao ecossistema em expansão do jornalismo hoje é o debate sobre a democratização da mídia, em especial no que diz respeito as verbas de publicidade dos governos. Há no Brasil uma forte concentração de dinheiro da publicidade governamental no que se convencionou chamar de “grande mídia” (tvs, rádios, jornais, revistas e portais de notícias), frequentemente conglomerados de comunicação que contém vários meios. Alega-se que estes grupos e seus meios tem a maior audiência e, por isso, são os que mais recebem dinheiro, sobrando pouco para pequenas publicações, rádios e tvs comunitárias que poderiam diversificar o leque de canais de informação a disposição da população.

Para ficar num exemplo prático, vejamos o caso do Rio Grande do Sul. O Grupo RBS, dono da RBS TV, jornais Zero Hora e Diário Gaúcho e da Rádio Gaúcha, abocanhou 35% da verba de publicidade do estado do RS em 2013, segundo dados obtidos pelo site Jornalismo B, o que dá cerca de R$17,5 milhões. Só em TV, onde a produção jornalística requer mais equipamentos e investimentos, 65% da verba de publicidade para o interior do RS fica com a RBS; na capital Porto Alegre, são 45%. No rádio, são 46% na capital para a Rádio Gaúcha, enquanto que nas rádios do interior esse valor é amplamente diluído, ficando a rádio Gaúcha com 6%.

Alguém pode alegar: nada demais nesses números. No que pergunto: recebem mais verba porque os veículos do grupo RBS são os mais vistos, ouvidos e lidos no RS, ou porque recebem mais verbas é que o produto final acaba sendo o mais lido? Há diversas explicações por trás dessa questão tipo “o ovo ou a galinha”, que se esmiuçadas nos ajudam a entender porque determinado grupo anda de mãos dadas ou jogando pedras em certos governos ao longo da história. Para ficar apenas em um exemplo: o jornal Zero Hora, hoje o principal do RS, foi criado em 4 de maio de 1964, um mês depois do golpe militar no Brasil. Não é coincidência que no seu início o jornal tenha saído abertamente pró-golpista, congratulando os militares que recém haviam tomado o poder e que nele permaneceram por duas décadas. Esse especial, também do Jornalismo B, esmiuça a relação da ZH com a ditadura militar brasileira.

Não tenho acesso ao orçamento do grupo RBS hoje, mas certamente o dinheiro da publicidade governamental não é a sua principal fonte de renda. Mas em algum momento foi para hoje não ser mais. O que me remete novamente ao contexto atual, de um novo ecossistema de informação, com milhares de novas publicações “não-industriais” e várias pessoas cometendo “atos de jornalismo” diariamente. Se ampliamos a distribuição de verbas do governo para novas mídias, blogs, jornais de bairro, tvs e rádios comunitárias, não estaríamos fomentando a proliferação de mais mídias, ampliando o ecossistema do jornalismo e proporcionando uma saudável concorrência por um jornalismo de qualidade? Ainda que haja críticas diversas a Lei dos Meios na Argentina, por exemplo, ela permitiu durante a última Copa do Mundo com que muitas comunidades humildes, indígenas, paróquias, municípios pequenos, pessoas jurídicas ou organizações não governamentais pudessem transmitir, sob a sua visão particular, os jogos, um ganho considerável em questão de pluralidade de pontos de vista.

Sabe-se que este certamente é um vespeiro difícil de mexer, dado a ferrenha oposição que os grandes grupos de comunicação brasileiros já demonstraram contra qualquer mudança no status quo da mídia no país, das concessões de tvs e rádios a criação de um conselho de jornalismo, batalhas estas da qual o coletivo Intervozes é a principal frente de oposição aos interesses corporativos. Não é preciso imaginar muito que estes mesmos grupos atacariam qualquer iniciativa de democratização da comunicação – possivelmente alegando palavras contrárias a “liberdade de expressão”, ou relacionando corrupção com investimento em blogs “governistas”, já que ser “tendencioso” é um risco que se corre com o investimento em pequenas mídias.

No mesmo RS, há uma tímida reação no sentido de democratização das verbas de comunicação com a criação da Política Estadual de Incentivo às Mídias Locais, Regionais e Comunitárias, lei aprovada na Assembléia Estadual em abril de 2014. Ela contempla 20% da verba de publicidade do governo do RS (executivo, legislativo e judiciário) para periódicos, jornais e revistas impressas com tiragem entre 2 mil e 20 mil exemplares editados sob responsabilidade de empresário individual, micro e pequenas empresas e veículos de radiofusão local – devidamente habilitados em conformidade com a legislação brasileira.

Não menciona qualquer linha as mídias na internet, o que é uma pena, dada a importância que a rede tem para a proliferação de pontos de vistas diferenciados. Mas uma exclusão compreensível, pelo menos em parte, pela relativa novidade (para o governo, sempre correndo atrás da sociedade) da questão, que põe lado a lado formas organizadas de pressão política (a realizada, ainda que timidamente, por jornais de bairro, tvs e rádios comunitárias) e a de blogs e mídias digitais, dispersas e não raro apartadas da política “tradicional” por recusa ao sistema político como está posto. Há, por fim, a justificativa da falta de formalização de muitas mídias digitais hoje, o que inviabilizaria que estas vencessem os trâmites burocráticos para concorrer as verbas do governo e abriria precedentes para diversas acusações de favorecimento de “amigos” – “mas como o blog Z ganhou X reais do governo?”, e coisas do tipo. A criação de um fundo estadual com esta verba, somada a regras bem claras e um conselho amplo que organizasse a distribuição, poderiam amenizar essa situação – mas achar que evitaria 100% estes casos ainda é, hoje, infelizmente uma utopia.

Ainda assim, a iniciativa não deixa de ser uma pequena vitória no sentido de fortalecer os pequenos veículos de comunicação e democratizar o fluxo das informações direcionadas à população. Talvez, nesse contexto caótico e afeito a novidades de hoje, esperava-se mais rapidez e avanços na proposta. Se o jornalismo está virando pós-industrial, os interesses políticos (e os da “indústria” da comunicação) ainda parecem estar fincados numa pesada e lenta era industrial.

[Leonardo Foletto]

Crédito fotos: 1, 2, Douglas Freitas (que ajudou na escolha da primeira foto também, valeu)

Porto Alegre em Conexões Globais

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O Conexões Globais do ano passado foi notícia por aqui, além de ter sido um baita evento para Porto Alegre. Este ano tem de novo e já começa amanhã, a partir das 13h, na Casa de Cultura Mário Quintana, com diversos diálogos, shows, oficinas e ideias livres – veja aqui a programação e escolha o que mais lhe agrada. Se não tiver em Porto Alegre, fique tranquilo que rola streaming no site.

Nós recomendamos fortemente pelo menos três cousas (que na verdade são 7):

_ o debate “Conhecimento livre na rede“, na quinta-feira 23/5, às 18h, com webconferência de Peter Sunde (Flatrr e do Pirate Bay), os habituees de eventos de cultura digital (mas sempre de falas importantes) Ronaldo Lemos e Sergio Amadeu, Gustavo Anitelli, produtor do Teatro Mágico e um dos integrantes do Música para Baixar – MPB, e Jéferson Assumção, secretário adjunto de cultura do RS, escritor, jornalista e grande entusiasta da cultura digital no governo.

_  os shows de Jorge Mautner, o “filho do holocausto“, com Bem Gil, filho de Gilberto, na quinta-feira 23/5 às 19h30,  Frank Jorge sexta 24/5 às 19h30, Pedro Munhoz, um trovador a serviço da música livre, na sexta 24/5 às 17h30, e Tonho Crocco, ex-vocalista do saudoso Ultramen, sábado 25/5 às 17h30.

_ “Comunicação e Poder na Era da Internet“, com os jornalistas Cynara Menezes e Franklin Martins, a secretária de comunicação e inclusão digital do RS Vera Spolidoro, e Natália Viana, da Agência Pública. Como webconferecista o pesquisador português Gustavo Cardoso, parceiro de Manuel Castells e coordenador do Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação do Instituto Universitário de Lisboa.

cineclube conexoes

O BaixaCultura também estará presente no evento em parceria com a Casa da Cultura Digital Porto Alegre para organizar o Cineclube CCD Conexões Globais. Nesta 3º edição do Cineclube, o espaço utilizado vai ser o mezanino do 2º andar da CCMQ, onde será organizado um lounge com a presença de games para os participantes do evento (não só) se divertirem nos intervalos (ou não) das palestras dos três dias do evento.

O formato desta 3º edição do Cineclube se altera em relação as outras vezes: em vez de uma única exibição seguido de uma conversa sobre os temas do filme, serão 3 sessões diárias de exibição de filmes, nos horários das 13h, 16h e 18h, durante os três dias do evento – quinta 23, sexta 24 e sábado 25 de maio.

Serão mostrados filmes (curtas e longas) relacionados a cultura digital e a cultura livre, filmes que discutem software livre, remix, sampling, direitos autorais, produção cultural, games, entre outros temas – boa parte deles já exibimos nas outras edições do ciclo copy, right?

indiemage poster

Pra reforçar/provocar a ideia de que game também é cultura (digital), no sábado 25 de maio, às13h, será realizada uma seção especial sobre games com a exibição de “Indie Game” e a participação de convidados para o debate posterior ao filme.

Vale dizer que os indie games são jogos criados por uma única pessoa ou por equipes pequenas (muitas vezes grupos de amigos), em geral sem o apoio financeiro de empresas. Por não contarem com recursos para a criação de jogos enormes e cheios de recursos, os desenvolvedores indie costumam focar na criatividade e na inovação. Alguns indie games que já alcançaram popularidade são Minecraft, Rock Band, ArmA, Eve Online, RuneScape, Braid e Angry Birds.

O documentário, dirigido em 2012 por Lisanne Pajot e James Swirsky, acompanha o processo de criação de três populares jogos indie: Braid, FEZ e Super Meat Boy. O filme participou da seleção oficial de Sundance em 2012 e foi escolhido o melhor documentário pela crítica.

Veja os horários aqui abaixo e aqui a sinopse de cada filme. Boa parte deles está na nossa BaixaTV, e os que não estão estarão depois do Cineclube.

Quinta – 23 de maio
13h – RIP: A Remix Manifesto (2009, 86 min)
16h – The Pirate Bay: Away from the Keyboard (2013, 82 min)
18h – Sessão Produção Cultural no Brasil  (2012, 15 min)

Sexta – 24 de maio

13h – Copyright Criminals (2009/56 min)
16h – Remixofagia – Alegorias de uma Revolução (2011, 16 min)
18h – Patente Absurdo (2011, 28 minutos) + Arduíno – o documentário (2011, 28 min),


Sábado – 25 de maio
13h – Indie Game (2012, 94 min)
16h – Tudo é remix (2010-2012, aprox. 56 min)
18h – Brega S/A (2009, 56 in.)

Benjamin Mako Hill e essa coisa chamada cultura livre

cultura livre

Cultura livre. Quantas vezes você já ouviu falar disso por aqui e em outros lugares? Muitas, provavelmente. E você sabe do que se trata? como surgiu, o que é, e pra onde vai?

Te explicamos brevemente: cultura livre é uma visão da cultura baseada na liberdade de distribuir e modificar trabalhos e obras criativas livremente. O movimento da cultura livre envolve a produção e a defesa de diversas formas de conteúdo livre, como o software livre, conhecimento livre, música livre, entre outros.

É uma extensão lógica da filosofia do Software Livre aplicada a artefatos culturais. Baseia-se nas 4 liberdades trabalhadas por Richard Stallman, criador do Movimento do Software Livre:

1. A liberdade de executar a obra para qualquer propósito.
2. A liberdade de estudar como a obra funciona, e para isso o acesso ao código-fonte/processo é um pré-requisito básico.
3. A liberdade de redistribuir cópias de modo a beneficiar outras pessoas.
4. A liberdade de aperfeiçoar a obra e liberar suas melhorias.

O termo ganhou o mundo a partir do título do livro “Free Culture” escrito em 2004 por Lawrence Lessig (disponível em português numa tradução algo descuidada) – Lessig, tu sabe, é um dos “pais” das licenças Creative Commons.

Pois para conversar sobre essa tal cultura livre e desmistificar algumas coisas (livre não é grátis, como sempre lembra Richard Stallman) é que a Casa de Cultura Digital Porto Alegre, em parceria com o hackerspace Matehackers,vai organizar um Culture Freedom Day (ou dia da cultura) no próximo sábado, 18/5, das 10 às 19h, na Casa de Cultura Mário Quintana, um evento mundial que ocorre toda terceira semana de Maio e este ano vai ocorrer também em Porto Alegre.

Vai rolar desde oficinas de como licenciar sua obra em uma licença livre (para além do Creative Commons) até produção de música com ferramentas livres, passando por open design, mostra de zines (antes de existir internet, eles já eram anticopyright por excelência) e música ao vivo, com o pessoal do “Escuta – o som do compositor” a falar sobre criação compartilhada. A programação completa tá aqui neste site.

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Não tire conclusões apressadas: Mako não é apenas um ratão de biblioteca

Inspirado pelo assunto, o post desta semana também trata de cultura livre. Talvez você ainda não o conheça, mas não se preocupe. Benjamin Mako Hill (foto acima) é um daqueles jovens brilhantes que não costumam aparecer na grande mídia. Às vezes, dão às caras numa notinha de rodapé do caderno de informática. Coisa pouca, de modo que não atrapalhe aquela matéria de duas páginas sobre a décima geração do iPhone, dez vezes melhor que a nona, um pouco mais cara, mas compre, vale a pena, a câmera têm cem megapixels e filma em HD.

Aaron Swartz, por exemplo. Quase nada foi publicado sobre ele antes de sua morte aqui no Brasil. Um pouco mais após o suicídio – tragédia dá ibope! -, porém só algumas coisas realmente relevantes (palmas para Tatiana de Mello Dias, do Link, que publicou dois ótimos textos – aqui e aqui – e para Eliane Brum, da Época, que escreveu um artigo/pedido de desculpas excelente. O Baixa também prestou uma homenagem). Mas, pensando bem, isso não se restringe apenas aos jovens. Quando foi a última vez que você leu alguma coisa sobre o Richard Stallman que não desse mais destaque ao seu caráter excêntrico do que aos avanços do software livre?

Por que Steve Jobs e não Richard Stallman? Por que Mark Zuckerberg e não Aaron Swartz? Não é preciso ser nenhum jovem brilhante para dar os primeiros passos em direção à resposta. A grande mídia não é livre. Publica o que interessa aos seus donos e que não ofenda os seus anunciantes. Para ela, portanto, o monopólio da informação é extremamente interessante. Quanto maior o monopólio, maior o poder (conte quantas famílias dominam a mídia brasileira e você nem precisará pedir auxílio aos dedos dos pés). Quanto maior o poder, maior a possibilidade de mexer os pauzinhos em Brasília de acordo com os seus interesses e maior o número de anunciantes. Poder e rios caudalosos de dinheiro os objetivos dos conglomerados midiáticos são. Swartz e companhia trabalham na contramão: lutam por uma sociedade descentralizada, por um acesso à informação democrático, por um mundo com menos restrições. Mas isso é pauta para um outro post.

Mako tem tantos empregos e está envolvido em tantos projetos que às vezes me pergunto se ele não desenvolveu algum programinha revolucionário de otimização temporal que ainda não caiu na rede. E a questão não é simplesmente quantitativa. A qualidade de seus trabalhos é reconhecida no mundo acadêmico. E não vá pensando que ele é um daqueles ratões de biblioteca que não abrem a janela para ver como anda o mundo lá fora. Mako tem um pé na academia e outro no ativismo político.

Talvez por essa falta de tempo ele não tenha respondido às perguntas com tanto, digamos, afinco. Levanto outra hipótese complementar: escrever respostas por e-mail não é das tarefas mais agradáveis. Algumas ele sequer respondeu, fornecendo apenas links para artigos seus. Outras, respondeu brevemente. De qualquer forma, a entrevista abaixo serve como uma pequena introdução às suas ideias. Se você quiser saber mais, dê uma fuçada no seu site e no Copyrighteous, seu blog.

BaixaCultura: Você diz no seu blog que é “um rebelde com causas até demais”. Quais são elas (ou, pelo menos, quais são as mais relevantes)?

Benjamin Mako Hill: Sou candidato ao PhD em um programa conjunto entre a MIT Sloan School of Management e o MIT Media Lab, e bolsista no Berkman Center for Internet and Society em Harvard. Em setembro de 2013 ingresso na faculdade do departamento de comunicação da Universidade de Washington. Sou desenvolvedor e contribuidor da comunidade de software livre há mais de uma década como participante dos projetos Debian e Ubuntu. Além disso, sou membro da diretoria da Free Software Foundation e conselheiro da Wikimedia Foundation. Também tenho contribuído bastante com a Wikipedia.

BC: O movimento pelo software livre parece funcionar melhor que o movimento pela cultura livre. As licenças são menos confusas, a comunidade parece crescer de forma mais rápida e os resultados alcançados até agora são mais consistentes. Você concorda? Se sim, por que isso ocorre?

BMH: Não acredito que essa comparação seja justa atualmente. O movimento pelo software livre é pelo menos 20-30 anos mais velho (depende de como você conta). Na minha opinião, a situação em torno das licenças é muito mais clara na cultura livre do que quando falamos de software livre. O movimento pela cultura livre está muito focado em número reduzido de licenças Creative Commons (BY, BY-SA, CC0). Por outro lado, a questão das licenças relacionadas ao software livre é bem mais confusa: a quantidade de licenças é bem maior e a compatibilidade entre elas, menor.

BC: Certo. Mas muitas pessoas pensam que Creative Commons é a mesma coisa que cultura livre e acham que pelo simples fato de utilizarem uma licença CC estão tornando livres seus trabalhos, o que, de acordo com a Definição de Trabalhos Culturais Livres, não é verdade. Você não acredita que as diversas possibilidades de licenciamento oferecidas pelo CC não são uma fonte de confusão?

BMH: Bom, eu acho que isso talvez resulte em menos liberdade. Eu já escrevi sobre isso antes (Towards a Standard of Freedom: Creative Commons and the Free Software Movement). Por que você não disponibiliza o link ou cita meu material em vez de me pedir para que eu faça um comentário que provavelmente será uma recapitulação pobre do assunto?

BC: Como você vê o futuro da cultura livre? Você acredita que o copyright é uma ferramenta indispensável ou deve ser abolida?

BMH: Estou muito otimista quanto ao futuro da cultura livre. Saímos praticamente do nada e construímos um movimento grande e vibrante. Estou realmente muito otimista em relação ao futuro.

Não tenho certeza sobre o que é melhor para o copyright. Acredito que a longo prazo ele vai ser deixado de lado. Antes da imprensa, os sistemas econômicos que apoiavam as publicações eram baseados principalmente no mecenato. Mudanças tecnológicas possibilitaram a criação de novos tipos de bens literários e novas formas de distribuição. A consequência disso foi a criação do copyright como alternativa aos velhos e decadentes sistemas econômicos. Mas isso levou duzentos anos! Imagino que na era da internet as coisas devam avançar mais rapidamente. Veremos. Assim como a mudança para o copyright, a mudança para a próxima etapa provavelmente será difícil e dolorosa, e levará algum tempo.

BC: Richard Stallman afirma frequentemente que todos os softwares deveriam ser livres, mas o mesmo raciocínio não se aplica à cultura. Em uma entrevista recente, ele deixou claro que trabalhos culturais não precisam ser necessariamente livres. Por que você aposta em um modelo de cultura livre? Você acredita que todos os trabalhos culturais deveriam ser livres?

BMH: O link que te enviei responde a essa pergunta também.

 * As respostas não foram encontradas no artigo enviado pelo autor.

BC: Do seu blog: “Como cientista social, minha pesquisa busca explicar por que algumas tentativas de criar softwares ou trabalhos culturais livres resultam em comunidades enormes de voluntários – como Wikipedia e Linux – enquanto a grande maioria jamais atrai um segundo contribuidor”. Você já tem uma ideia por que isso ocorre?

 Sim! Dê uma olhada nos meus trabalhos acadêmicos para ver o que estou fazendo. Esse espaço é muito pequeno para que eu possa te dar um resumo detalhado de toda a minha pesquisa. 🙂

BC: A FSF recomenda apenas distros de GNU/Linux 100% livres, mas isso nos leva a um problema prático: como elas não incluem drivers e software proprietários em seus repositórios, outras distros (como Ubuntu) gozam de uma maior popularidade, o que acaba por camuflar o lado ético da utilização de softwares livres. Como superar isso?

 BMH: Precisamos fazer duas coisas:

a. Melhorar os softwares livres para que eles tenham como competir com softwares proprietários, assim os usuários não teriam a necessidade de fazer uma escolha difícil entre um ou outro.

b. Ensinar aos usuários por que a liberdade de software é importante, assim eles poderão decidir utilizar softwares mesmo que não sejam melhores em termos práticos. Precisamos estimular desenvolvedores a trabalhar para melhorar os softwares livres. A menos que consigamos convencer as pessoas a utilizar e a trabalhar com softwares livres que não são melhores, nunca chegaremos ao x da questão!

BC: Qual distro você utiliza? Você recomendaria uma distro 100% livre para um amigo que está migrando do Windows para o GNU/Linux?

BMH: Eu uso Debian. Recomendo que as pessoas utilizem Debian apenas com softwares dos repositórios livres.

[André Solnik, Leonardo Foletto]

Cineclube CCD em Porto Alegre

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Minha aportada por terras gaúchas, desde fevereiro de 2013, traz um primeiro evento aqui para falarmos no Baixa: trata-se do Cineclube Casa da Cultura Digital Porto Alegre.

O cineclube pretende exibir vídeos produzidos com base nos conceitos da cultura digital. São obras que discutem a questão dos direitos autorais, o copyleft, cultura livre, remix, redes sociais, cultura hacker, ciberativismo, software livre, liberdade na rede, compartilhamento, entre outros assuntos que entram no escopo da ideia de cultura digital. O BaixaCultura entra como parceiro da empreitada.

É uma espécie de continuidade do ciclo copy, right?, que foi realizado três vezes nos últimos anos, duas em Santa Maria-RS (primeira, segunda), em dois centros culturais locais, e uma em São Paulo, no Centro Cultural da Espanha. Agora: exibição de filmes (geralmente com menos de 1h30) seguido de comentários de algum convidado e/ou informado sobre o assunto do filme em questão.

A diferença dessa vez é ter uma periodicidade fixa (1x por mês), ser realizado num espaço maior (o teatro Bruno Kiefer, localizado no 6º andar da Casa de Cultura Mário Quintana, este prédio lindão logo abaixo onde a CCD POA está sediada) e ter sempre uma surpresa antes do filme.

A dessa estreia, dia 28 de março às 18h30, é a participação do  grupo Escuta, formado por mais de 30 compositores baseados em Porto Alegre que apostam nas composições autorais e num som baseado no violão e voz. Sediaram um primeiro festival ESCUTA, em dezembro de 2012 no Teatro de Arena, também em porto Alegre, e desde então vem crescendo em popularidade e qualidade em suas composições.

Kledir Ramil, ex-integrante dos grandes Almôndegas – a provável melhor banda de folk rock do país nos 1970 – escreveu recentemente, em sua coluna na Zero Hora, que a essência do grupo “é a mesma dos saraus: novos autores, mostrando suas canções, só de voz e violão. Tudo começou em apartamentos e evoluiu para espaços aberto ao público, não apenas para convidados.

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Na estreia do Cineclube, o filme escolhido é “Tudo é Remix”, documentário em quatro partes (de aproximadamente 10 min. cada uma) dirigido e produzido por Kirby Ferguson, lançado entre 2010 e 2012 na rede. O filme traz para o debate a ideia de que copiar e recombinar é um elemento essencial de criatividade; para isso, discute desde os casos de plágio do Led Zeppelin até as citações constantes ao cinema dos filmes de Quentin Tarantino, passando ainda pela crítica ao sistema de propriedade atual, onde “as idéias são consideradas como propriedade, lotes únicos e originais, com limites distintos”.

Em entrevista ao Baixa, o diretor Kirby Ferguson diz que fez o filme para ”mostrar como copiar é um elemento de criatividade, e de uma forma ou de outra, todos somos cópias”. “Tudo é Remix”, foi financiado por financiamento coletivo (crowdfunding) através do site norte-americano “Kickstarter” e está disponível para exibição na nossa BaixaTV. A exibição no cineclube vai ser em cópia digital com legendas em português.

A segunda data do Cineclube está marcada para o dia 23 de abril, no mesmo local e horário, com a exibição do filme “Arduíno – o documentário”, documentário de 2011 sobre a placa de hardware livre homônima que está revolucionando a produção caseira de objetos e artefatos digitais.

[Leonardo Foletto]

SERVIÇO

Estreia do Cineclube Casa da Cultura Digital Porto Alegre
28 de março – 18h30
(Abertura: Escuta! – O som do compositor, exibição de “Tudo é Remix”, seguido de debate)
Teatro Bruno Kiefer – 6º andar, Casa de Cultura Mário Quintana (Rua dos Andradas, 736 – Centro)

Stallman – Ao vivo no Brasil (2012)

Richard Stallman, o bruxo remixador inicial do conceito de software livre e do copyleft, esteve em turnê pelo Brasil nas últimas semanas.

Pelas contas oficiais, ficamos sabendo que ele esteve na USP, em São Paulo, na Unicamp, em Campinas, e na UNB, em Brasília, onde foi recebido pelos departamentos de física, matemática e computação e falou a alunos e professores em disputadas palestras. E em Porto Alegre, no único lugar onde foi recebido por governos – foi o convidado especial no aniversário de 1 ano do Gabinete Digital, louvável iniciativa de cidadania e política digital no governo gaúcho.

O fato de somente no RS ele ter tido diálogo com o poder político diz muito sobre o quanto o software (e a cultura) livre NÃO está na pauta de interesses da política. Steve Jobs (se vivo) e Bill Gates, dois dos principais nomes da informática “proprietária”, seriam recebidos com louvor até mesmo pela presidente Dilma. Stallman, que é tão (ou muito mais?) influente para a cultura digital que estes dois, mal é recebido.

[Não vamos entrar aqui em delongas sobre a personalidade difícil de Stallman, que provavelmente falaria em público coisas que políticos só (e se) ouvem no privado, e de qual o real interesse dele em conversar com os políticos brasileiros] .

Lotação máxima na USP para ver a fala do pai do projeto GNU

Vimos Stallman em uma de suas paradas brasileiras, na USP, no Centro de Competência em Software Livre da USP, alocado no Instituto de Matemática e Estatística, ao lado do belo prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

A informalidade do encontro chegou até a espantar: a única sala disponível para a fala de Stallman foi uma pequeníssima (foto acima), que obviamente lotou de gente, sem nenhum microfone a disposição. Ele falou sobre as patentes de software em um inglês pausado, mas as vezes de difícil compreensão por conta da péssima acústica da sala.

Depois de cerca de uma hora de papo, o programador americano fez um curioso leilão do mascote do GNU para arrecadar fundos para a Free Software Foundation. O bichinho de pelúcia, homônimo do GNU projeto, era abraçado carinhosamente toda vez que o guru, como um leiloeiro experiente, pedia para a plateia fazer mais lances, para delírio e risadas do público presente, em sua maioria estudantes das exatas e/ou ativistas do software livre.  No fim das contas, o GNU de pelúcia saiu por pouco mais de R$100 reais – além de aplaudido por todos.

Descalço, Stallman respondeu a questões de todos os tipos na USP

Houve ainda mais de meia hora dedicada à perguntas de todos os tipos, realizadas por professores, alunos, curiosos, sentados nas cadeiras, no chão, em pé, ou mesmo do lado de fora, colados na janela. Stallman, já sem os sapatos, respondeu todas, algumas em tom mais enfático (ou seria em tom descortês?), sempre deixando claro sua posição de proteção ao software livre e realçando, quando possível, a posição de que as patentes são extremamente prejudiciais ao desenvolvimento de software em qualquer país.

Entre outras posições firmes e frases impactantes, ele disse:

Grandes corporações possuem milhares de registros. Os advogados descobrirão que muitas ideias usadas no software pertencem à companhia e ameaçarão processar o desenvolvedor”.

 “Tudo que tira o poder do Estado e transfere aos negócios é nocivo para a sociedade e à democracia”.

Stallman finalizou a palestra afirmando que a comunidade de desenvolvedores precisa pensar em uma solução completa para combater o uso de patentes no desenvolvimento de software. “Algumas pessoas pensam apenas em ideias parciais. Um país sem patentes é um local mais seguro”. [Agradecemos a Info pela recuperação das falas].

*

Em sua tour pelo Brasil, Richard Stallman tratou também de fazer política – claro que a sua maneira. Escreveu para o eminente José Sarney, presidente do Senado, uma lúcida carta que defende a legalização da prática de compartilhamento na rede e explica, de forma bastante detalhada, sua proposta de partilha de direitos autorais em redes P2P.

A carta tem diversas sacadas interessantíssimas e é uma mostra potente do pensamento de Stallman – ainda que direcionada a pessoa errada, já que Sarney não é propriamente alguém que entenderá de compartilhamento de arquivos na rede.

 Leia-a abaixo (via Zona Livre, blog da Info):

Caro Senador José Sarney,

Conhecemo-nos em 2003 quando abrimos juntos o seminário “O Software Livre e o Desenvolvimento do Brasil” no Congresso Brasileiro. Estou escrevendo a Vossa Excelência porque o debate no Brasil sobre a lei de direitos autorais criou uma oportunidade única.

A Comissão Parlamentar de inquérito para investigar as associações de gestão coletiva (“CPI do ECAD”) descobriu a existência de corrupção nas sociedades de arrecadação de direitos autorais no Brasil. Mais importante, verificou que o sistema de arrecadação de direitos autorais no Brasil é disfuncional: carece de transparência, eficiência e a boa governança.

O Brasil está agora pronto para reformar esse sistema. A CPI do ECAD elaborou uma proposta legislativa para exigir que as sociedades sejam transparentes e eficientes e utilizem as possibilidades da era da Internet para melhorar os serviços oferecidos aos seus membros e à sociedade em geral.

Como seria possível ao sistema de arrecadação de direitos autorais beneficiar a sociedade como um todo? Gostaria de aproveitar esta oportunidade para sugerir ir além: legalizar o compartilhamento de obras publicadas em troca de uma taxa fixa coletada dos usuários de Internet ao longo do tempo.

Quando eu digo “compartilhamento”, quero especificamente dizer a redistribuição não- comercial de cópias exatas de obras publicados – por exemplo, por meio de redes peer- to-peer. O caso principal é aquele em que os que estão compartilhando não recebem nenhum rendimento por fazê-lo; casos limítrofes, como o do Pirate Bay (que recebe dinheiro de publicidade), não precisam ser incluídos.

Reconhecer a utilidade para a sociedade do compartilhamento entre cidadãos de arquivos na Internet será um grande avanço, mas esse plano levanta uma segunda pergunta: como usar os fundos recolhidos? Se usados corretamente, os recursos podem fornecer um segundo grande avanço – de apoio às artes.
Editoras (num sentido geral, de livros ou outros meios) normalmente propõem usar o dinheiro para “compensar” os “titulares de direitos” – duas más ideias juntas. “Titulares de direitos” é uma forma dissimulada de direcionar o dinheiro principalmente a empresas intermediárias, com apenas poucos resíduos chegando aos artistas. Quanto a “compensar”, o conceito é inadequado, pois significa pagar alguém para realizar um trabalho ou compensá-lo por ter lhe “tomado” algo. Nenhuma dessas descrições aplica-se à prática do compartilhamento de arquivos, uma vez que ouvintes e espectadores não contratam editores ou artistas para realizar um trabalho e o compartilhamento de mais cópias não toma qualquer coisa deles.

Quando eles afirmam ter “perdido” dinheiro, é em comparação aos seus sonhos sobre quanto poderiam ter conseguido.) Editoras usam o termo “compensação” para desviar a discussão a seu favor.
Não há nenhuma razão ética para “compensar” o compartilhamento de arquivo pelos cidadãos, mas apoiar artistas é útil para as artes e para a sociedade. Assim, a melhor maneira de implementar um sistema de taxação por licenças de compartilhamento é projetar a distribuição do dinheiro arrecadado de modo a apoiar as artes com eficiência. Com esse sistema, artistas se beneficiarão ainda mais quando as pessoas compartilharem seu trabalho e favorecerão o compartilhamento.

Qual é a maneira mais eficiente de apoiar as artes com esses recursos?

Em primeiro lugar, se o objetivo é apoiar artistas, não dê os recursos para editoras. Apoiar as editoras faz pouco pelos artistas. Por exemplo, as gravadoras pagam à maioria dos músicos pouco ou nada do dinheiro que vem da venda de discos: contratos de venda de álbuns são escritos ardilosamente de modo que os músicos não comecem a receber a “sua” parte até que um álbum venda um número enorme de cópias. Se fundos de compartilhamento de arquivos fossem distribuídos para as gravadoras, não atingiriam os músicos. Contratos editoriais literários não são tão ultrajantes, mas até mesmo autores de best-sellers podem receber pouco. O que a sociedade deve fazer é apoiar melhor os artistas e autores, não as editoras.

Proponho, por conseguinte, distribuir os recursos exclusivamente aos participantes criativos e garantir em lei que os editores não possam tomá-los nem deduzi-los do dinheiro devido aos autores ou artistas.

O imposto serai cobrado inicialmente pelo provedor de serviços de Internet do usuário. Como ele seria transferido para o artista? Ele pode passar pelas mãos de uma Agência de Estado; pode até mesmo passar por uma sociedade de gestão coletiva, desde que as sociedades arrecadadoras sejam reformadas e que qualquer grupo de artistas possa começar a sua própria.

Artistas não devem ser compelidos a trabalhar por meio das sociedades de gestão coletiva existentes, porque elas podem ter regras antissociais. Por exemplo, as sociedades de gestão coletiva de alguns países europeus proíbem seus membros de publicar qualquer coisa sob licenças que permitam o compartilhamento (proíbem, por exemplo, o uso de qualquer uma das licenças Creative Commons). Se o fundo do Brasil para apoiar artistas incluir artistas estrangeiros, eles não deveriam ser obrigados a juntar-se às sociedades de gestão a fim de receber suas parcelas dos fundos brasileiros.

Qualquer que seja o caminho que o dinheiro siga, nenhuma das instituições na cadeia (provedores de internet, Agência de Estado ou entidade de gestão) pode ter qualquer autoridade para alterar a parcela que vai para cada artista. Isto deve ser firmemente definido pelas regras do sistema.

Mas quais devem ser estas regras? Qual é a melhor maneira para repartir o dinheiro entre todos os artistas?

O método mais óbvio é calcular a quota de cada artista em proporção direta à popularidade da sua obra (popularidade pode ser medida convidando 100.000 pessoas escolhidas aleatoriamente para fornecer listas de obras que têm escutado, ou por medição da partilha de arquivos peer-to-peer). Isso é o que normalmente fazem as propostas de “compensação dos detentores de direitos”.

Entretanto, esse método de distribuição não é muito eficaz para promover o desenvolvimento das artes, pois uma grande parte dos fundos iria para alguns poucos artistas muito famosos, que já são ricos ou pelo menos têm uma situação confortável, deixando pouco dinheiro para dar suporte a todos os artistas que realmente precisam de mais.

Em vez disso, proponho pagar cada artista de acordo com a raiz cúbica de sua popularidade. Mais precisamente, o sistema poderia medir a popularidade de cada obra, dividir essa medida entre os artistas envolvidos na obra para obter uma medida para cada artista e, em seguida, calcular a raiz cúbica dessa medida e fixar a parte do artista em proporção ao valor resultante.

O efeito da fase de extração da raiz cúbica seria aumentar as participações dos artistas moderadamente populares, reduzindo as participações dos grandes astros. Cada superstar individual ainda iria obter mais do que um artista comum, até mesmo várias vezes mais, mas não centenas ou milhares de vezes mais. Transferir fundos para artistas moderadamente populares significa que uma determinada soma total oferecerá suporte adequadamente a um número maior de artistas. Além disso, o dinheiro beneficiará mais as artes porque vai para os artistas que realmente precisam dele.

Promover a arte e a autoria apoiando os artistas e autores é uma meta adequada para uma taxa de licença de compartilhamento, pois é a própria finalidade dos direitos autorais.

Uma última pergunta é se o sistema deveria apoiar artistas e autores estrangeiros. Parece justo que o Brasil demande reciprocidade de outros países como uma condição para dar suporte a seus autores e artistas, porém acredito que seria um erro estratégico. A melhor maneira de convencer outros países a adotarem um plano como esse não é pressioná-los através de seus artistas – que não vão sentir a falta desses pagamentos, por que não estão acostumados a receber qualquer pagamento —, mas sim educar seus artistas sobre os méritos deste sistema. Incluí-los no sistema é a maneira de educá-los.

Outra opção é incluir autores e artistas estrangeiros, mas reduzir seu pagamento para 1/10 do valor original se seus países não praticarem a cooperação recíproca. Imagine dizer a um autor que “você recebeu
US$50 de taxa de licença de compartilhamento do Brasil. Se seu país tivesse uma taxa de licença de compartilhamento semelhante e fizesse um acordo de reciprocidade com o Brasil, você teria recebido US$500, mais o montante arrecadado em seu próprio país”. Esses autores e artistas começariam a defender o sistema brasileiro em seu próprio país, além da reciprocidade com o Brasil.

Eu sei de um impedimento possível à adoção deste sistema: Tratados de Livre Exploração, como aquele que estabeleceu a Organização Mundial do Comércio. Estes são projetados para fazer os governos agirem em benefício dos negócios, e não das pessoas; eles são os inimigos da democracia e do bem-estar da maioria (agradecemos a Lula por salvar a América do Sul da ALCA). Alguns deles exigem “compensação para titulares de direitos” como parte de sua política geral de favoritismo dos negócios.

Felizmente este impedimento não é intransponível. Se o Brasil encontrar-se compelido a pagar pela meta equivocada de “compensar os titulares de direitos”, pode mesmo assim adotar o sistema apresentado acima *adicionalmente*.
O primeiro passo em direção ao fim de um domínio injusto é negar sua legitimidade. Se o Brasil for compelido a “compensar os titulares de direitos”, deve denunciar essa instituição como falha e render-se a ela somente até que possa ser abolida. A denúncia poderia ser disposta no preâmbulo da própria lei, da seguinte maneira:
Considerando que o Brasil pretende incentivar a prática útil e benéfica do compartilhamento de obras publicadas na Internet.

Considerando que o Brasil é compelido pela Organização Mundial do Comércio a pagar aos titulares de direitos pelo resgate dessa liberdade, mesmo que ao fazer isto promova principalmente o enriquecimento de editores, ao invés de apoiar artistas e autores.

Considerando que o Brasil ainda não está pronto para romper com a Organização Mundial do Comércio e não está no momento em condições de substituí-la por um sistema justo.

Considerando que o Brasil deseja, paralelamente ao requisito imposto, apoiar artistas e autores de forma mais eficiente do que o atual sistema de direitos autorais é capaz de fazer.
O plano ineficiente e mal direcionado da “compensação” não precisa excluir o objetivo útil e eficiente de apoiar as artes. Assim, que se implemente o plano sugerido acima para apoiar diretamente os artistas, pelo bem da sociedade; e que se implemente paralelamente a “compensação” exigida pela OMC, porém somente enquanto a OMC detiver o poder de impô-la. A lei poderia até dizer que o sistema de “compensação” será descontinuado logo que nenhum tratado o exija.
Isso vai começar a transição para um novo sistema de direitos autorais adaptado à era da Internet.

Obrigado por considerar estas sugestões.

Richard Stallman

P.s: A palestra realizada no Gabinete Digital, em Porto Alegre, está disponível na íntegra.

Créditos foto: 1 (Gabinete Digital), 2, 3 (Leonardo Foletto), 4 (Guardian).

Efêmero Revisitado no RS + Virada Digital

Eis que depois de alguns meses de molho, o “Efêmero Revisitado” volta a circular por estas bandas.

Desta vez, é por conta do lançamento do livro no Rio Grande do Sul. A primeira parada é amanhã, 9/5, novamente em Santa Maria, mas desta vez na Feira do Livro 2012, na praça Saldanha Marinho, em pleno coração do coração do Rio Grande.

Às 19h30, faço algumas “conversas sobre teatro e cultura digital” no espaço Livro Livre, em bate papo com André Galarça, ator formado pela UFSM e integrante do Teatro Por que Não?, de Santa Maria. Muita gente pode estar se perguntando “mas denovo?”, porque houve um lançamento no início de 2012 em Santa Maria, no SESC local (como pode-se ver na foto abaixo).

Conversa/lançamento do “Efêmero” em Janeiro, no Sesc Santa Maria

Apesar do bom público e da boa impressão (pelo menos pra mim) do evento de janeiro, o contexto agora é outro (a feira do livro), o lugar é diferente (na praça central da cidade), a conversa vai variar um tanto e o público, imagino, também será distinto.

De qualquer forma, pra mim vai ser muito lindo estar lançando um trabalho na Feira do Livro que mais frequentei na vida – e no 1º lugar onde fui recebido como, err, “aprendiz de jornalista”, no já longínquo 1º ano de faculdade na UFSM, em 2003, quando fomos convocados para fazer algumas “entrevistas” para a rádio Livre da Feira do Livro (que, pena, não existe mais).

No dia seguinte, 10/5, quinta-feira, tem lançamento do livro em Porto Alegre, na Palavraria, no Bom Fim (Vasco da Gama, 165). Lá vai rolar também uma conversa sobre teatralidade digital que será transmitida no #Tubodeensaio, programa da Pós-TV, webtv ligada ao Circuito Fora do Eixo. Eu e Cláudia Schulz, gestora do Palco Fora do Eixo, estaremos conversando por Skype com Márcio Meirelles, diretor do Teatro Vila Velha de Salvador-BA, e Leonardo Roat, doutorando em Ciências da Linguagem da Unisul, de Florianópolis-SC – e também um dos entrevistados do “Efêmero”.

Para fechar a semana, na sexta embarco com o Ônibus Hacker para Parati, na Virada Digital, que acontece de sexta a domingo em diversos locais e hubs na cidade do litoral fluminense.

A programação do evento – que em 2012 será no Rio de Janeiro e nos anos seguintes promete circular pelas cidades-sede da Copa do Mundo – é bem ampla; tem desde oficina de rima com MV Bill a de modelagem em 3D, passando por roda de prosa da cultura digital indígena, demonstração de tecnologias interativas para TV digital e painéis como “Geração Y e os novos desafios digitais“, com Bia Granja do YouPIX e Edney Souza do Interney e “Cibercidades e ciber-periferias“, com André Lemos e Ivana Bentes. A programação foi escolhida pela curadoria do evento, que inclui nomes como Sérgio Amadeu, Ivana Bentes, MV Bill e Cláudio Langone, Coordenador da Câmara Meio Ambiente e Sustentabilidade Copa 2014, dentre outros.

 

No Ônibus Hacker (foto acima), vamos fazer uma 2º edição da Feira do Compartilhamento (a primeira foi no BaixoCentro e a terceira vai rolar em junho; em breve mais informações) e participar de uma série de oficinas, de TV Pirata a Scrapper de Dados (não sabe o que é? olha aqui). A Rádio Hacker vai ser instalada no Busão Hacker e promete uma programação intensa.

[Leonardo Foletto]

Especial Santa Maria (1): A rede livre do bairro Nova Santa Marta

As duas semanas e meia que nos separam do final do ano serão de atividade um pouco mais devagar por aqui. Uma pequenas pausa se faz necessária, para digerir este intenso 2011 e preparar as mudanças nesta página para 2012.

Deixamos alguns posts prontos para publicar nesse período, a começar por um pequeno “especial” sobre Santa Maria, a cidade que nos é (foi) morada. São duas matérias sobre iniciativas interessantes relacionadas a cultura digital da cidade, produzidos pelo nosso ex-correspondente na cidade, Marcelo De Franceschi, agora morador da intrépida Montenegro, cidade (quase) na região metropolitana de Porto Alegre.

O primeiro texto trata da criação de uma rede livre numa das regiões mais carentes da cidade, o bairro Nova Santa Marta [visto em primeiro plano na foto que abre esse post]. Um local que, como tantos outros no Brasil, nasceu da ocupação de uma fazenda improdutiva – no caso, a Fazenda Santa Marta, em 1991 – e que só foi ter água encanada e luz elétrica no início dos anos 2000.

Enjoy!

Os moradores do Bairro Nova Santa Marta na região oeste de Santa Maria (RS) podem acessar uma intranet própria, com blogs, dicionário, enciclopédia, fotos, vídeos, rádio online e material diático. Desde o fim de setembro, foi lançada a rede livre que armazena e disponibiliza esse conteúdo próprio via wireless numa das áreas mais carentes da cidade. Aberta à comunidade e a visitantes, ela foi construída por integrantes do Centro Marista de Inclusão Digital (Cmid) vinculado à Escola Marista Santa Marta.

A intenção de montar o sistema surgiu no 3º Encontro Latino Americano de Redes Livres, realizado paralelamente ao 12º Fórum Internacional Software Livre (Fisl), em Porto Alegre nos dias 1 e 2 de julho. O evento reuniu participantes da Alemanha, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai e Venezuela, além dos estados do Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Uma das palestrantes era co-autora do livro Redes sem fio no Mundo em Desenvolvimento, que explica como montar uma rede de computadores com o melhor uso dos recursos disponíveis em comunidades locais.

Exemplo do funcionamento de uma rede mesh

Do evento, a Associação de Software Livre (ASL) e o Centro Social Marista (Cesmar) partiram para a construção da rede livre lá mesmo em Porto Alegre, no bairro Mario Quintana onde fica a sede do Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC). Surgiu a Rede Livre Mario Quintana. Os equipamentos, como servidores e antenas transmissoras do sinal wi-fi, foram produzidos por jovens nas aulas de metareciclagem a partir do reaproveitamento de material de computadores conseguidos em parceria com o Ministério Público e o Governo Federal.

Copiado de Porto Alegre, o projeto foi transposto para Santa Maria. Uma rede livre possui seis características e consiste tecnicamente em uma rede mesh. Cada rede tem suas particularidades técnicas e de gestão, de acordo com os objetivos de cada grupo. Em alguns casos, somente prestam serviços locais e trocam dados entre os nós conectados, enquanto que em outros casos, somam a esta tarefa a extensão do acesso a Internet para colocar ao alcance dos cidadãos de maneira livre e gratuita. Trata-se da primeira situação nos bairros de Porto Alegre e Santa Maria. São redes que possibilitam contéudos abertos, livres e próprios.

Nós somos um fornecedor de conteúdo, não de internet, até porque legalmente nós não podemos ser um provedor de internet” explica Everton Bocca, engenheiro eletricista e um dos seis professores do Cmid na Nova Santa Marta. Ele ministra aulas de software livre para alunos do 5º ao 9º ano da Escola Marista. As turmas são compostas em média por 20 crianças. Depois do curso, elas podem optar entre fazer o curso de Robótica Livre ou o de Metareciclagem, podendo fazer outra opção que não escolheram. Há também turmas para pessoas da comunidade. “Formamos em média 80 alunos por ano. Muitos dos adultos do bairro se qualificam aqui para o mercado de trabalho”, diz Everton.

Alguns computadores recondicionados pelo Cmid

O material para as aulas vem de duas vias: ou de doações de empresas e pessoas físicas, ou do Projeto Alquimia, uma parceria com o Ministério Público que destina cargas de material eletrônico e de máquinas caça-níqueis apreendidas. Após o processo de recondicionamento, os computadores são enviados para creches, escolas, instituições públicas ou utilizados para montar telecentros. Aquilo que não pode ser aproveitado, vai para a Meta-Arte, onde restos como fios de cobre, placas queimadas e coolers de processadores viram esculturas, quadros e o que a imaginação permitir. O Cmid ainda possui um Telecentro que funciona como um movimentado espaço de socialização.

Everton Bocca ressalta que a rede livre é acessível gratuitamente para quem possui um computador com wi-fi nos 187 hectares da area do bairro cobertos por 12 antenas. Todavia, é fato que devido a população ser de baixa renda, muito poucos têm condições de utilizar o serviço. O que não impede a curiosidade nem é um empecilho para não existir. “Quem fica sabendo da ideia”, relata Everton, “pergunta sobre, quer saber como funciona e acessa aqui no telecentro. Para ampliar o acesso, pretendemos um dia doar computadores para os alunos daqui, um por família ao menos”.

[Marcelo De Franceschi]

Crédito das Imagens: abertura1, 2, 3.