A sutileza poético-ativista PORO

perca-tempo-panfleto

Fazia tempo que queríamos conversar um pouco com PORO e eis que neste fevereiro de 2014 isso foi possível. Por quê?

Bem, vamos por partes. A primeira coisa a dizer sobre eles, antes de qualquer explicação, e caso você não os conheça, é: vá ao site e flaneie pelas intervenções urbanas e ações efêmeras, projetos, publicações, vídeos, fontes (sim, eles produzem fontes!). Não se esqueça de ir na seção de downloads, cheia de material para baixar e espalhar por aí.

Foi?

Então a segunda coisa que vamos dizer aqui é que eles são uma dupla mineira – Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada. A terceira é que eles atuam desde 2002 em “trabalhos que buscam apontar sutilezas, criar imagens poéticas, trazer à tona aspectos da cidade que se tornam invisíveis pela vida acelerada nos grandes centros urbanos, refletir sobre as possibilidades de relação entre os trabalhos em espaço público e os espaços “institucionais”, lançar mão de meios de comunicação popular para realizar trabalhos, reivindicar a cidade como espaço para a arte”, segundo a explicação que eles apresentam no site.

Este belo doc aqui abaixo conta um pouco da trajetória do PORO.

 

A quarta é que lembramos deles neste fevereiro de 2014 por conta do lançamento do ebook do livro deles “Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos“. No trabalho, disponível pra download gratuito, está um panorama da produção do grupo nos 14 anos de vida até hoje, relacionando a produção do Poro a uma discussão sobre ações artísticas que promovem a percepção sobre o espaço público, cidade, patrimônio, memória, trabalho colaborativo, inserções artísticas e relações entre arte e política.

Desde já, é uma obra de referência sobre a produção contemporânea de arte pública (public art) e suas conexões com a mídia tática, apropriações midiáticas, culture jamming, site specific, entre outros temas que volte e meia também tratamos por aqui. Recomendamos a compra do exemplar impresso (R$35), mas caso você não queira ou possa no momento, leia aqui abaixo, no Issuu:

*

O papo rolou por e-mail, com alguns complementos por chat. No final da entrevista, publicamos alguns cartazes e as capas dos panfletos de algumas intervenções do PORO – que, lembrando sempre, você pode (e deve) baixar e sair espalhando por sua cidade.

B: Vcs começaram em 2002 a trabalhar com uma arte que não deixa de ser ativista (ou um ativismo que é arte), e fazem isso até hoje. Como vcs chegaram a este modelo/estratégia de “ativismo poético”? veio de um processo natural de inquietação com as formas de arte ditas tradicionais?

Sim, podemos dizer que isso veio naturalmente a partir da soma natural de vários desejos: ocupar o espaço público de forma crítica e poética; refletir sobre as questões das cidades contemporâneas; atuar na esfera do simbólico e do imaginário urbano; investigar o aspecto gráfico das formas de comunicação popular; criar pequenos intervalos de silêncio e encantamento na malha urbana; experimentar possibilidades de uma arte expandida, para além do sistema institucional da arte (às vezes criando diálogos e transbordamentos com esse sistema).

Nunca tivemos nada contra as formas de arte mais “tradicionais” pelo contrário a gente se interessa do mesmo jeito, mas desde o início de nossa trajetória sentimos uma espécie de mal estar com as relações institucionais que de alguma maneira burocratizam a arte. Daí foi que caminhamos para fazer uma trilha mais livre, mais solta, buscando experimentações plásticas/gráficas, buscando espaços para ocupar/atuar, tentando tecer redes de pessoas e grupos de várias partes do Brasil e buscando uma rede de produção paralela às instituições, baseada na amizade e no contato com pessoas que têm os mesmos desejos.

E a cidade veio como um lugar também natural, onde era possível sentir a pulsão na nossa frente, e a nossa poética foi se estabelecendo a partir da vontade de interferir, mesmo que numa escala do sutil, nos modos como as cidades estão se transformando. Talvez chegamos às nossas táticas de atuação tentando responder à pergunta: Como discutir a cidade de uma maneira poética e próxima aos contextos onde os problemas urbanos acontecem?

B: Quais as principais dificuldades que vcs encontram pro trabalho? polícia, financiamento, não-entendimento/fruição do público?

Tem dificuldade não! O trabalho de arte para nós não deve ser algo difícil, complicado. Pelo contrário deve ser prazeroso, fácil de produzir e de circular. Talvez por sua simplicidade, o trabalho do Poro consegue estabelecer diálogos com diversas pessoas com os mais diferentes backgrounds, o que tem proporcionado circular nosso trabalho também fora do campo específico das Artes (com A maiúsculo) e está por aí, na cidade, nas casas das pessoas, nas festas, nas prateleiras… Gostamos disso: das diversas formas de fruição e compreensão do trabalho. Inclusive quando ele se mistura com outras coisas e às vezes se torna “não-arte”, isso é ótimo!

Acreditamos muito na filosofia do “faça-você-mesmo” e sempre produzimos com o que temos à mão. A questão é fazer!
Já ganhamos alguns editais e prêmios onde foi possível produzir os trabalhos de maneira mais estruturada. Mas achamos que o artista não deve ficar dependendo disso, até porque quem tem a pulsão criativa não aguenta esperar!

B: As ações de vcs são estão muito ligadas a rua, ao espaço urbano tomado como possível expressão poética da cidade. Já pensaram em usar a internet como palco/plataforma para apontar sutilezas e criar imagens poéticas também no mundo digital?

Desde o início da nossa atuação, usamos a web como canal de difusão de nossas ações, seja através da veiculação de registros das intervenções, seja distribuindo as matrizes digitais dos panfletos/adesivos/carimbos, seja circulando proposições para que as pessoas experimentassem realizar as intervenções em suas cidades. Para isso já usamos as mais diversas táticas, como o que chamávamos de panfletagem eletrônica (via email) ou os convites para imprimir, xerocar e distribuir os trabalhos (a partir de nosso site).

No caso da circulação dos registros das intervenções, a produção e edição dos vídeos e fotos dos trabalhos passa pela criação de novas narrativas sobre aquela intervenção. Pois os registros vão ressaltar determinados aspectos do trabalho e vão ser fruídos em locais totalmente diferentes daqueles onde as intervenções foram feitas. Isso cria novas camadas de percepção sobre os trabalhos e sobre o espaço público.

Vale ressaltar que a internet é nossa grande aliada na “permanência” de nossas obras. Explicando: como a maioria de nossos trabalhos são efêmeros, ou muito sutis, passam muitas vezes despercebidos no espaço urbano e os registro e sua circulação pela web provocam um outro tipo de duração e significados.

Inclusive convidamos os leitores para baixar um de nossos últimos trabalhos: a fonte digital PARKING.TTF (disponível em www.poro.redezero.org/fonte), uma fonte digital inspirada nos estacionamentos das grandes cidades. Bora fazer arte no editor de texto do seu computador!

B: Em ano de Copa, mil holofotes apontados para o Brasil e outros tantas manifestações previstas/necessárias, vocês planejam alguma ação específica? Uma pergunta/desafio: como usar esse fardo gigantesco da copa pra dar luz a lugares/pessoas esquecidas e fazer algo pra mudar essa relação?

Essa coisa toda é super complexa. As paisagens das cidades estão borradas, sem poesia. Temos participado deste processo todo de outras formas também, além da arte, participando das reuniões e debates, protestos e mobilizações.

Mas o movimento mais importante já está sendo feito: uma mudança na consciência simbólica das pessoas. Muita gente está manifestando, ou está em reuniões de assembléias populares, conversando sobre política, dormindo nas ocupações, pulando catraca pela primeira vez… Isso é incrível e é um aprendizado fantástico, para nós todos e especialmente para os mais jovens. A experiência fica impregnada em quem participa. E todo mundo passa a entender a cidade de outra forma. Ampliando o olhar sobre as formas de viver e fazer política. As pessoas estão ocupando as cidades e esse sempre foi o nosso sonho!

Ainda não realizamos um trabalho específico sobre a copa, mas temos algumas coisas em gestação… fiquem de olho no nosso site e no Facebook do Poro.

B: Como vocês perdem tempo?

Lemos artigos no Baixacultura (que a gente adora). E além daquelas 20 maneiras que publicamos nos panfletos da série Perca Tempo, a gente também: anda de bicicleta, percorre paisagens, encontra os amigos, cuida de plantas, faz sucos experimentais de frutas, joga conversa fora, desenha, fotografa, faz inúmeras anotações em caderninhos, inventa moda, arruma problema… na verdade a gente não para quieto…

foto poro 1

foto poro 2

imagem poro 4

imagem poro 5

poste poro

siga-sem-pensar

10-maneiras-incriveis-de-perder-tempo

A política vicejante se manifesta

 

Em véspera de eleição, nada melhor que um texto irônico/certeiro para ecoar em nossas mentes político-torcedoras.O Manifesto da Esquerda Vicejante foi escrito em 1994 e, 11 anos depois, virou livro de mesmo nome, somado com mais outros textos da mesma linha do  jornalista e poeta pernambucano Marcelo Mário de Melo, um esquerdista de carterrinha ainda hoje . É uma série de “leis” (36) mordazes (e engraçadas) pra caramba sobre a falência das esquerdas e, de um modo geral, de toda a política – que como gostamos de repetir por aqui, “não nos representa mais“, ainda que, sim, represente.

Como José Paulo Cavalcanti Filho escreve na apresentação, o Manifesto “não tem a pretensão de merecer estudo nenhum”. A ideia de usar “manifestos” como o da Esquerda Vicejante para divulgar idéias é antiga: remonta desde o clááássico “Manifesto Comunista” de Marx e Engels, no século XIX até, já no século XX, o “Manifesto Futurista” de Filippo Tomaso Marinetti, publicado no Jornal Figaro (1909);  os brasileiríssimos “Manifesto Antropófago” e “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, do mestre Oswald de Andrade.

Ainda teve os “Manifestos Dadaístas”, de Sami Rosentein – dito Tristan-Tzara; André Breton publicou em 1924 e 1930 dois “Manifestos Surrealistas”, pregando o não conformismo e a fórmula de criação denominada “automatismo psíquico”. Mais recentemente tivemos o Manifesto Neo-concreto, de Ferreira Gullar, Lygia Clark, Amílcar de Castro, entre outros; o Manifesto da Poesia Praxis, de Mário Chamie. Mais recente ainda tem o “Manifesto da Poesia Sampler“, de Fred Coelho e Mauro Gastpar (o próximo que publicaremos). E é bem provável que muitos outros “manifestos” existam ainda, por esse mundão afora.
O Manifesto da Esquerda Vicejante não quer, claro, se comparar com esses todos aí de cima. Ele propõe, “em lugar da esquerda autoritária, arrogante e autofágica, a esquerda auditiva, criativa e cativante.” Desenha “a caricatura da militância”, identificando: “partidos políticos –minha eleição, meu marketing, meus cargos; sindicatos –meu dissídio, minha data-base, minha categoria; movimento social – meu segmento; associações de moradores, meu grupo, minha rua, meu bairro; organizações não-governamentais –meu projeto, meu pobre, meu gringo.
Na defesa irônica do socialismo, o autor faz uma metáfora sexual: “liberalismo, neoliberalismo, é masturbação sem gozo; social-democracia é gozar fora e em pé; socialismo stalinista é transar sem sarro e, muitas vezes, sobre cama de caco de vidro e areia; socialismo com cidadania popular, pluralismo e controle civil é sarro, dança, gozo dentro, conjunto e muitas vezes repetido em boa cama”.
Disfrute.
O Manifesto
“Vicejar (De viço + ejar)
1)Ter viço, vegetar com opulência, viçar (…).
2)Ostentar-se de maneira brilhante ou exuberante; garrir (…).
3) Dar o viço a (…).
4)Fazer brotar exuberantemente (…).5) Brotar, produzir, lançar (…)”
(Novo Dicionário Aurélio, Ed. Nova Fronteira, 2a edição 1986, pág 1773)

1

* Em lugar da esquerda arrogante e autofágica, a esquerda criativa e cativante.

* Em lugar do otimismo compulsório, a esperança crítica.
* Em lugar dos sonhos utópicos, as vigílias programáticas e pragmáticas.
* Em lugar das cartas de princípio, os bilhetes de começo, meio e fim.
* Sempre que se levantar questões, baixar soluções.
* No horizonte dos pontos de partida, os encontros de chegada.
* Antes de procurar as saídas, encontrar as entradas.
* Em lugar das viciadas veredas, os desafiantes caminhos.
* Em lugar das rotas rotinas, as radiosas rupturas.
* Em sintonia com o espírito que norteia, o corpo que suleia.
* E quanto pior, pior.
* E quanto melhor, melhor.
* E o importante são os talhes dos detalhes.

2

* Abaixo MDU: Mito, Dogma, Utopia.
* MDU: o trio tenebroso.
* Mito é a sombra do anão fazendo gigante no muro.
* Dogma é a ponte avançando antes de o rio nascer.
* Utopia é a costura seguindo sem a linha na agulha.

3
* Que a esquerda tenha a coragem de se olhar de frente no espelho. E sem maquiagem.
* Ampla distribuição de espelhos retrovisores para que todos também possam ver a própria cauda.

4

* Abaixo a caricatura atual da militância!
* Partidos políticos: “minha eleição” , “meu espaço” , “meus cargos”
* Sindicatos: “meu dissídio” , “minha data-base”, “minha categoria”
* Movimentos sociais: “meu segmento”.
* Associações de moradores: “meu grupo” “minha rua”, “meu bairro”.
* Organizações Não Governamentais: ”meu projeto”, “meu pobre”, “meu gringo”
* Espaço de ação: “meu protesto”, meu “comício”, “meu fórum”
5
* Abaixo os atos-públicos-atos-íntimos de a gente olhando pra nós, os protestos sem contágio e as greves gerais irreais.
* Fora com o automatismo da ação política calendarizada e eventualista.
* Pela subordinação dos barulhos do marketing ao trabalho de massas.
* Mais programação ao vivo e menos em circuito fechado.
* E aos que pretendem insistir na mesma infecunda mesmice, recomenda-se a contratação de grupos teatrais para encenação de assembléias, passeatas, piquetes e comícios.
* Além de atores e figurantes, dublês e sósias impecáveis dos dirigentes permitirão que eles assistam a tudo em casa e em cores, onde assinarão depois os maravilhosos documentos de avaliação com a abertura: “foi uma vitória” ; e o fecho: ” a luta continua”.

6

* Chega de reproduzir no movimento popular aquilo que se critica nas cantigas do poder.
* Ninguém cria o que não vivencia, lugar de teoria é na prática e democracia pra ser boa começa de casa.
* Que se instaure a democracia entre as forças e os cidadãos de esquerda, não apenas enquanto medida provisória ou estado de emergência, mas como premissa e conclusão, meta e método, escada, trampolim e mergulho de vida e convivência.
* Pela alfabetização democrática.
* Que se providenciem as escolinhas de democracia, do maternal ao curso noturno, para todas as tendências e sub-tendências da esquerda.
7
* Abaixo a ditadura da meia dúzia.
* Chega de falar em nome do povo sem procuração nem consulta.
* Pela mobilização dos não consultados ante as imposições de diretórios, diretorias, gabinetes, escritórios, chefias, equipes, caciques, mandatários e porta-vozes em geral – autorizados, autointitulados, telepáticos e mediúnicos.* Em lugar da ditadura das palavras de ordem, a sintonia com os anseios do povo.
* Contra a privatização do movimento popular por indivíduos ou grupos: gurus, tutores, protetores, patronos, papais, mamães, sociedades anônimas, companhias limitadas, condomínios e consórcios.
8
* Fora com o sadomasoquismo reverberante do tipo: “passei a noite sem dormir”, “hoje quase não comi” e “estou morto de tanto trabalhar”.
* Se noite de sono, fome e excesso de trabalho forem padrão de qualidade militante, que se promova como vanguarda política o trio formado por um vigilante noturno, um faquir e um jumento.
* E que se livre a todos do discurso chantagista da hora-extra militante, utilizada como poupança, lucro ou dividendo, com direito a grosseria e pompa, por quem se considera acionista majoritário da luta popular.
* Pela conciliação entre a luta popular e o leito copular.
* Por uma militância com poesia, prazer, amizade e humor.

9

* Contra o delírio político e a ficção na ação.
* Que os militantes assimilem a objetividade dos humoristas.
* Pela implementação dos Centros Integrados de Arte para Políticos – CIAPs – com abundância de professores surrealistas, abstracionistas e performáticos.

10

* Pelo estímulo à desinibição religiosa entre militantes, notadamente, no círculo dos que se dizem ateus, agnósticos e materialistas, para que diminuam o fanatismo, as igrejinhas, as confrarias e as seitas políticas.
* Que os ateus autênticos colaborem com os religiosos de todos os matizes no esforço pela dessacralização da vida política e para o exercício dos cultos nos lugares devidos.

11

* Pelas assessorias especializadas para todas as vertentes da esquerda psiquiátrica.

12

* Por uma adequada política de administração de narcisos.

13
* Contra a amnésia política daqueles que pretendem soterrar o passado ditatorial.
* Chega do saudosismo vitimista dos que analisam a história a partir do seu umbigo torturado.
* Fora com as mitificações e os tabus.
* Que as vivências, os depoimentos e as memórias sejam tratados como fontes de informação a serviço da atualidade política e da verdade histórica.
* Contra a necrofilia política.
* Que seja repensada a questão dos mortos e desaparecidos durante a ditadura, colocando-se em primeiro plano, não as chagas do seu martírio, mas o significado público e a responsabilidade da sua perda, as informações sobre as suas vidas e os seus jeitos de rir.

14

* Pela interiorização da política.
* Que a esquerda metropolitana deixe de falar em nome de todo o estado, em eventos de composição municipal e crachá estadual.

15

* Pelo crédito de confiança nos controles.
* Todos sabem que dor de cotovelo, gripe, picada de inseto, burocratismo, barata, ranço, má fé, antipatia, idiotice, autoritarismo e picaretagem, não são privilégios de nenhuma corrente ideológica e atacam a todas, com possíveis variações de grau.
* Em lugar da confiança cega em dirigentes e dirigidos, mecanismos eficazes de controle civil e prestação de contas de lado a lado, de cima pra baixo e, principalmente, de baixo pra cima.
* Pela desconfiança constante ante todas as versões e inversões oficiais.
* Que não se ponha a mão no fogo por ninguém.

16

* Pela ótica com ética e a coerência no cotidiano.
* Quanto à ética socialista, não usai seu santo nome em vão.
* Em caso de pendências dentro da esquerda, considerar, inicialmente, que vanguarda também é massa, a carne é fraca e cabeça também é corpo.
* Depois, recorrer em crescendo aos princípios elementares de convivência entre as pessoas civilizadas e mais ou menos honestas, aos códigos de ética profissional, aos direito civil, aos dez mandamentos da lei de Deus e à Declaração Universal dos Direitos do Homem.
* Se for necessário aplicar o Código Penal, concluir que não se trata de pendência socialista e chamar a polícia.


17

* Que as figuras carismáticas e mitológicas da esquerda, da velha, média ou jovem guarda, sejam tratadas como simples mortais, que comem e descomem.
* Sem ranços de fanático desiludido nem ciúmes de candidato a cacique.

18

* Abaixo as cortinas de ferro, os muros de Berlim e os bloqueios do grupismo e do corporativismo: partidário, sindical, comunitário, segmental, grupal, executivo, legislativo e judiciário, militar e civil, patronal e peãozal, intelectual e assessoroso, de baixo e de cima, dianteiro e traseiro, lateral e diagonal, paralelo e transversal.
* Pelos projetos globais, pensando na família, na rua, no bairro, no município, no estado e no país, inseridos no mundo e no cosmos.

19

* Abaixo a ditadura do partidarizado.
* Pluralismo não é sinônimo de pluripartidarismo.
* Pela representação eleitoral dos sem-partido.

20

* Abaixo o derrotismo e o niilismo nacional com afetações de Primeiro Mundo, de parte daqueles que sobrevivem e se pavoneiam no Terceiro.
* Chega de construções lamentosas do tipo “é gente humilde/que vontade de chorar”, que a Esquerda Vicejante propõe como o Hino Nacional da Mendicância.

* Chega de papo de burguesia bondosa distribuindo lençóis de seda para os miseráveis enxugarem as lágrimas.
* Abaixo a política e a estética do vitimismo e da mão suplicante.


21

* A Esquerda Vicejante denuncia o cupulismo como a mais requintada e repelente expressão da cultura política nacional e identifica como seus produtos de exportação:

. o liberal de sala VIP;

. o democrata de condomínio fechado;

. o social-democrata de cobertura;

. o comunista cinco estrelas;

. o esquerdista de vitrine;

. o anarquista de salão;

. o agitador de corredor;

. o ativista de sala de espera;

. o dirigente de cadeira cativa;

. o pré-candidato a cacique;. o cacique jovem-guarda.. a liderança de outdoor; a transparência com vidro fumê.

22

* A Esquerda Vicejante proclama que nada é mais arrogante e raivoso do que um pequeno-burguês, pensando que é proletário, despejando bílis noutro pequeno-burguês.

23

* A Esquerda Vicejante adverte que, a partir das duas horas de duração, toda reunião é inútil.
* Denuncia o caráter antinacional, antipopular, antidemocrático e anti-socialista das reuniões nas sextas-feiras à noite.
* E propõe que a sexta-feira seja oficializada como o dia da “transição psicológica da semana”, preservada contra reuniões palavrosas e seminários semi-áridos.

24

* A Esquerda Vicejante reconhece que, de fato, foi superado o fosso tradicional entre esquerda e direita.
* Mas, considerando o empobrecimento e a miserabilização crescentes das camadas populares, ao lado do enriquecimento máximo das classes dominantes, em verdade vos diz que o fosso foi transformado em abismo, muito mais largo e muitíssimo mais profundo.

25

* Sem medo de ser de esquerda e socialista.
* A queda do muro de Berlim não mata nossa fome nem dilui nossa direita.
*A crise do Terceiro Mundo é também a crise do Primeiro Mundo, onde se situam mandatários e patrões.

26

* Contra a pressa e a impaciência política.
* Não identificar prazos de processo histórico com prazos de biografia individual.
* Chega de só pensar no fim do filme.
* Pela unidade entre a semana e o século.
* Por mais coerência e clareza.
* Contra os requebros da esquerda de quem vem, direita de quem vai, cujo símbolo é um camaleão com fita adesiva.
* Não confundir convivência com aderência.

27

* Sem medo do diálogo e contra o câncer do consenso compulsório.
* Um bom diálogo pode ser o começo de uma excelente discordância.
* Pela polêmica “brutal e sutil”.

28

* Pela radicalidade teórica e prática.
* Vaselina somente para facilitar a entrada e aumentar a profundidade.
* Sem confundir radicalidade com unilateralidade, sectarismo, grosseria,fechamento ao diálogo, ofensa e atrito pessoal.
* “Radicalidade é descer às raízes”.

29

* Contra a fome, o raquitismo político e a subnutrição cultural.
* Pela inclusão dos excluídos.
* Por autonomia e cidadania popular.
* Pela República Alimentarista, fundada no direito democrático de o povo comer à vontade.
* Repúdio a todas as modalidades da engenharia política dominante na história do Brasil:
. poder moderador;
. atos adicionais;
. atos institucionais;
. medidas provisórias;
. pacotes e troca-trocas.

30

*Abaixo as frentes eleitoreiras, nas quais, em alianças com liberais, progressistas e populistas, os núcleos populares, intelectuais, artistas, ativistas, “pagam o boi” em mais valia militante, elaborando programas, mobilizando, cumprindo tarefas, sem garantias nas ações de governo, nem mesmo, das migalhas do churrasco.
* Chega do eleitoralismo de esquerda.

31

* Pela construção de uma aliança acima e além de eventos eleitorais, futricas grupais, instâncias oficiais e trique-triques de caciques.
* Pelas campanhas de mobilização popular partindo das necessidades reais das massas pesquisadas e consultadas
* Que se estabeleçam objetivos atraentes e palpáveis, permitindo avanços e vitórias que melhorem a vida e elevem o astra.

32
* A esquerda vicejante proclama:
* liberalismo/neoliberalismo é masturbação sem gozo;
* social-democracia é gozar fora e em pé;
* socialismo stalinista é transar sem sarro e, muitas vezes, sobre cama de caco de vidro e areia;
* socialismo com cidadania popular, pluralismo e controle civil é sarro, dança, gozo dentro conjunto e muitas vezes repetido em boa cama.
33
* Pela unidade matemática da esquerda e do bloco democrático-popular, a partir das quatro operações fundamentais, da soma algébrica, da razão e da proporção, do máximo divisor e do mínimo múltiplo, da racionalização dos denominadores e das probabilidades.
* Cuidado com as radiciações e as frações.
* E atenção especial no cálculo das funções, ante o risco de zerar o nosso denominador comum.
34
* Pela reativação cultural da esquerda.
* Contra a demagogia dialética, a invenção de contradições e a copidescagem da realidade.
 * Que os intelectuais agônicos se situem no organogramsci democrático-popular,criando e recriando para as décadas.
* Menos parênteses e mais traços de união entre a produção intelectual e a militância política.
* Pela aproximação do intelectual eclético com o povo sincrético.
* Abaixo os premoldados políticos, teóricos e práticos.
* Não confundir sociedade civil com construção civil.
* Nem referência teórica com reverência teórica.
* Nem paradigma com paradogma.
* Nem processo histórico com processo histérico.
* Chega de pensar as coisas do país e da vida como uma neurose de vanguarda.

35

* Pela descomplicação verbal.
* Falar para ser entendido e não para ser decifrado.
* Que todos digam e ninguém coloque.

36

* Pela modernização da esquerda, de A a Z.
* A mesmice da esquerda é o tranqüilizante da direita.
* Que se assuma a modernidade em todos os níveis, enfrentando os preconceitos da Esquerda das Cavernas e sem engolir o dogma de que ser moderno é se aproximar da direita.
* A Esquerda Vicejante reafirma que o maior indicador de modernidade do planeta é o povo comer o mínimo de três vezes por dia, com suco e sobremesa.
*Vamos viver e conviver melhor, com mais universalidade, mais autenticidade, mais realismo, mais ousadia, mais abertura e mais luz.
*Sejamos uma esquerda com raízes, caules, folhas, flores e frutos.

 
Créditos: 1, 2.
Obs: Valeu ao Deak pela dica.

Histórias de um cronópio

"Não duvide de um cronopiano, não é saudável!"
Pipol: “Não duvide de um cronopiano, não é saudável!”

Cronópios são seres “tão estranhos que eu não conseguia vê-los claramente, uma espécie de micróbio flutuando no ar, uns glóbulos verdes que pouco a pouco iam tomando características humanas”, como descreve seu criador, o escritor argentino Julio Cortázar. Em Histórias de Cronópios e Famas um provável leitor encontra mais que esta pista inicial — cronópios são criaturinhas ingênuas que se alimentam de poesia, o oposto das famas, essas prisioneiras da realidade. “Todos queremos tanto ser cronópios e repudiar aos famas. Com os cronópios, Cortázar nos proporcionou uma vida menos pesada, melhor, quase suportável”, propõe Cassiano Viana neste belo texto. Mesmo depois disto, cronópios continuam sendo mais. Cronópios, provavelmente o maior portal de literatura da web brasileira, no ar há 05 anos sob edição de Edson Cruz e Pipol.

23-1
Pipol e Edson Cruz

Se não o maior, no mínimo o mais completo. No sentido de dar à literatura tratamento de web, inseri-la completamente no contexto da cultura digital. Numa palavra: multimídia. Além de um monstruoso volume de artigos, ensaios e literatura inédita, o site hospeda projetos pioneiros e nada convencionais. Como a revista Mnemozine, que já apresentou dossiês robustos sobre poetas do porte de Pedro Xisto [um verdadeiro resgate do autor], Augusto de Campos, Paulo Leminski e Alice Ruiz. Ou a coleção de pocket e-books, que em seu breve catálogo contém nomes como o do cineasta Sylvio Back e do lendário Wilson Bueno. Ou o Cronopinhos, a bela iniciativa de literatura infantil que além de textos inclui arquivos de áudio e livros visuais. Ou ainda a TV Cronópios, talvez a maior contribuição do portal para a memória literária brasileira, que já registrou entrevistas com Roberto Piva, Glauco Mattoso, José Saramago, entre muitos e muitos outros.

Com toda essa disposição para explorar as possibilidades da internet, o editor e responsável pela programação visual de todos esses projetos [que, se tu clicou nos links acima, reparou que é no mínimo luxuosa] respondeu de bom grado a algumas questões propostas por email por este insipiente repórter. As perguntas giram em torno das inovações que o portal inseriu na maneira de ler [e quem sabe fazer] literatura na web. As respostas, como o leitor verá, apontam para muitas outras novidades. Com a palavra, Pipol.

*

Qual a periodicidade/receptividade dos ebooks? Existe uma linha editorial pros títulos?

Os livros digitais no formato proposto pelo Cronópios, apesar da boa receptividade, são um projeto a ser revisto. O processo de editoração e montagem dos livros é bastante trabalhoso, o que dificulta os lançamentos com maior frequência. Quando lançamos o projeto, tivemos a adesão rápida e entusiasmada de vários autores. Recebemos vários originais para seleção e escolhemos alguns pelo critério: criatividade + textos curtos + . Eu digo que precisamos rever o projeto porque é possível agilizar tudo com um pouco mais de tecnologia e uma nova abordagem. Talvez terceirizando a editoração dos livros (design, revisão, etc). Estamos estudando isso. O projeto é bom, merece continuar.

Uma coisa que de cara chama a atenção no projeto é que ele é adequados pro formato virtual (livros de tamanho pequeno e de curta metragem, visualmente atraentes e nada cansativos). Às vezes tenho a impressão de que o download de livros não tem a mesma força que o de músicas ou filmes justamente porque são poucas as iniciativas preocupadas com a adequação do formato. O que você pensa em relação a isso? Que outras experiências apontaria como interessantes?

Concordo com você. Realmente os livros para download nada mais são do que um PDF ou outro formato similar. Nada atraente mesmo. Mas é que não existe ainda um aparelho bacana como um iPod, próprio para leitura. Os e-books tipo Kindle e o Sony Reader ainda são chatos e em preto e branco (imagina só!). Quando surgir “o” aparelhinho certo tudo mudará. Notícias recentes dão conta de que nos EUA já está pegando o hábito de se ler em aparelhos eletrônico de leitura (o Kindle da Amazon já pode ser considerado um sucesso). O comportamento humano é muito maleável, como tudo pode mudar de uma hora para outra. É incrível, até a semana passada parecia que o livro digital nunca iria passar de uma experiência…

Como é a questão dos direitos autorais dos ebooks?

Nós estamos empolgados com o Creative Commons, gostamos da idéia e apoiamos tudo que facilite a vida criativa.

O mesmo sobre a TV: qual a periodicidade dos programas? Como funciona a estrutura técnica de vocês?

A TV Cronópios é o meu projeto preferido entre todos do Cronópios. Poucos se dão conta, ou pelo menos ninguém ainda falou sobre isso comigo, é o caráter de “manifesto audiovisual” que esse projeto tem em sua estrutura de produção. A aparente simplicidade na verdade é uma sofisticação, uma combinação de ética e criatividade. É uma “TV poética”. Já trabalhei em televisão e sei bem que os profissionais desse meio podem transformar tudo em coisa sem importância ou ruim.

Para fazer trabalho tão sutil, trabalhamos pesado. A equipe é reduzidíssima, somos só três: A Egle Spinelli fazendo câmera, direção e edição; o Edson Cruz fazendo entrevistas; e eu, fazendo câmera, direção e edição. Em alguns projetos, como os nossos programas, contamos com outros colaboradores, como fotógrafos, iluminadores, equipe de som… Geralmente fazemos os programas em parceria com uma instituição ou empresa. Por exemplo, estamos trabalhando na criação de um programa em conjunto com a Livraria Martins Fontes. Fizemos em dezembro a gravação de um evento sobre editoração e mercado editorial, realizado pelos alunos da ECA-USP [Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo]. Entramos no projeto como apoiadores e estamos editando agora o material para ser transformar numa ferramenta de consulta e apoio educacional.

A estrutura técnica é a mais simples possível. Usamos câmeras miniDV e softwares comuns de edição de vídeo. A hospedagem dos vídeos é feita em servidor do Cronópios. Não usamos o YouTube para hospedar os vídeos. Isso acaba custando muito mais para nós, pois sempre temos que gastar mais com banda e transferência de dados… Não somos bobos por isso, trata-se de um investimento na nossa marca, no nosso conceito de comunicação.

O fato de a exibição ser gratuita dificulta o trabalho?

Claro que sim. Temos que arrumar dinheiro de um jeito ou de outro. Muito do que gostaríamos de fazer simplesmente não pode ser feito. Tudo tem que ser barato para não ficarmos na frustração.

Vocês pretendem investir mais no lado multimídia da mídia com que trabalham?

Sim, sim. O Cronópios ganhará cada vez mais recursos e ferramentas multimídia. Estamos pensando numa forma de utilizar voz sintetizada por software para ler os textos publicados no site, ajudando na acessibilidade para deficientes visuais ou mesmo simplesmente para ouvir o texto enquanto se faz qualquer outra coisa. Vamos reformular também o nosso serviço de Podcasts. A TV Cronópios terá outros programas, inclusive com transmissão ao vivo.

Algum projeto novo pro Cronópios?

Estamos de volta às pranchetas de projeto. O Cronópios está sendo totalmente reformulado.  E as idéias são bem ambiciosas, algumas inovadoras. Estamos estudando como incorporar novas tecnologias, inventando outros usos para melhorar o que já existe, criando novos sites e oferendo novos serviços, etc etc etc.

Uma das idéias, já dá para adiantar, é transformar o Café Literário em um local de encontros virtuais, aproveitando e adaptando a tecnologia do Chat. Chamaremos a nova ferramenta de Café Cronópios. Os cronopianos poderão manter conversas (particulares ou públicas) com outros frequentadores do Café. Uma tela mostrará o usuário que estiver online no espaço virtual do Café Cronópios.

Vamos inaugurar também um novo site, agora dedicado à ficção científica brasileira. Já temos o editor que vai cuidar desse projeto. Em breve anunciaremos o nome. O material reunido para dar início ao site é de primeira. Todos os principais autores do gênero no Brasil estarão reunidos. Com isso, uma nova comunidade vai se “teletransportar” para junto dos cronopianos, aumentando o intercâmbio, gerando motivação e criação.

Estamos trabalhando também na criação de um site para oferecer cursos e oficinas online. Esse projeto tem a parceria da Livraria Martins Fontes. Estamos nos reunindo semanalmente para isso. Já temos o esboço de como funcionará e estamos nos aprofundando nas necessidades técnicas e na busca de recursos financeiros.

E ainda estamos criando uma agência de notícias do meio literário e artes em geral. Será um site independente com uma equipe independente formada por dois jornalistas que irá diariamente editar e publicar informações e notícias. O site terá também uma área com interface Web 2.0, que irá permitir a qualquer pessoa enviar informações e divulgar trabalhos de todo o país.

Tudo isso é possível sim, não é exagero de minha parte, embora, admito, possa parecer. Mas não duvide de um cronopiano, não é saudável. He he he.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Crédito das fotos: aqui e aqui.

O operário da Contra-Indústria

025

É difícil encontrar Makely Ka. Difícil saber onde ele está. Entre um email e outro, por exemplo, já o encontrei em BH, na Espanha, em São Paulo e no município de Milho Verde. A idéia de entrevistá-lo rondava minha cabeça praticamente desde que este blog nasceu, e tão logo pude escrevi pro piauiense radicado em Minas convidando-o para um papo via msn. Rolaram umas duas semanas de desencontros até decidirmos partir para uma opção menos divertida: fazer a entrevista por email. E lá se foram quase dois meses de espera até que as respostas dessem as caras na minha caixa de entrada. É que Makely nunca está parado, e com tantas andanças pelo espaço, não sobra muito pro tempo.

Poeta e músico de primeira grandeza (baixe 01 dos 04 discos aqui.), Makely também é um dos editores da Revista de Autofagia (duas edições lançadas e a terceira prometida pra fevereiro), mantém o Sêlo Editorial e a distribuidora Namarra, é sócio-fundador da SIM (Sociedade Independente da Música de Minas Gerais) e da ANAMBRA (Associação Nacional da Música Brasileira), e foi por duas vezes curador do Projeto Conexão Telemig Celular de Música – Novos Movimentos. Makely foi o primeiro músico atuante em Minas Gerais a conseguir na justiça o direito de exercer livremente a profissão sem a obrigatoriedade de filiação à OMB (Ordem dos Músicos do Brasil), e desde então trava uma batalha pública pela democratização da entidade. Não é por acaso que ele não poderia deixar de pintar por aqui. Makely é um dos praticantes mais convictos de uma das idéias mais relevantes do nosso atual panorama cultural: a da contra-indústria.

Trata-se de aprofundar a discussão em torno do que significa produção artística independente, a partir da constatação de que boa parte do que se vende sob o selo do “independente” é tão viciado nos truques e tiques da indústria cultural quanto qualquer nome de catálogo de grande gravadora. O que sugere a contra-indústria? Que o artista se envolva com todas as etapas da produção de seu trabalho, desde sua concepção até o formato final, ao invés de entregar alienadamente o processo nas mãos de intermediários. Em outras palavras, ser o músico e também produtor, e também gravadora. Escrever e também editar. Autogestão.

“Independente” é um termo meio vago e guarda algumas armadilhas. Eu mesmo caí numa delas quando conversei com Makely, encucado com fato de que um dos sujeitos mais combativos que conheço dentro deste cenário também dialoga frequentemente com o Estado. Ou, para falar mais justamente, com a esfera pública. Em 2006, Makely foi consultor da Área de Música da Lei Murilo Mendes em Juiz de Fora, e membro da CTAP (Comissão Técnica de Avaliação de Projetos) da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais. Hoje ele é representante do Fórum Permanente de Música de Minas Gerais na Câmara Setorial criada pelo Ministério da Cultura. Contraditório? Makely responde generosamente que não.

0131

Essa generosidade, bem mais que a falta de tempo, explica a demora na conclusão da entrevista. Makely foi extremamente cuidadoso com a questão, respondendo com a minúcia de quem conhece a fundo o assunto. Mãos à obra!

Ao lado de uma forte produção independente, há uma parte do teu trabalho que dialoga com o Estado, seja através das leis de incentivo (como a Revista de Autofagia), seja na tua atuação política. Não há conflito entre as duas coisas? Como é transitar entre as duas esferas?

Acho que neste caso, antes de entrarmos realmente na questão, talvez seja necessário tentarmos entender o que significa o termo “produção independente” nos dias atuais.  Eu particularmente prefiro usar o termo contra-indústria, que vem sendo disseminado em alguns meios – principalmente na internet – há alguns anos.

Acredito que o histórico do termo contra-indústria localize a resposta à sua pergunta dentro de um contexto bastante elucidativo por si só. Bom, cerca de três anos atrás, quando foram formadas as câmaras setoriais convocadas pelo Ministério da Cultura houve a necessidade de formatação de um projeto de política pública para a área da música; uma área que historicamente sempre esteve atrelada aos interesses das grandes corporações fonográficas que se instalaram no país e dominaram o mercado nas últimas cinco décadas. Naquelas reuniões, que aconteceram no prédio da Funarte, no Rio de Janeiro, estavam presentes representantes do governo (MinC, Ministério do Trabalho, Planejamento, Educação, OMB, etc), da iniciativa privada (ABPD, ABERT, ABEM, ECAD, etc) e representantes da sociedade civil organizada em fóruns de discussão(17 estados enviaram seus representantes). Durante aqueles meses de discussão inédita, percebemos a necessidade de demarcarmos nossas diferenças de forma mais contundente e, por sugestão do compositor Antônio Adolfo, do mítico álbum Feito em Casa (1977), adotamos a alcunha de autoprodutores. É bom lembrar também que foi a partir daquele momento que o termo “cadeia produtiva da música” passou a fazer parte do vocabulário corrente de músicos, produtores e jornalistas, às vezes deslocado ou mesmo sem um entendimento total do seu significado. A cadeia efetivamente envolve todos os elos, ou nós, do mercado da música, desde a criação, ou ainda antes, a formação, até o consumidor. Mas nossa atuação até o momento se concentrava nos dois ou três primeiros elos, ou seja, os nós da veiculação, distribuição e consumo até então não conseguíamos desatar. Nos demos conta então que muitas vezes, éramos nossos próprios consumidores, daí o caráter autofágico do termo.

Mas mais importante do que a conceituação da cadeia produtiva, que serve para ilustrar o modo de produção que herdamos da grande indústria fonográfica, talvez seja perceber a mudança de paradigma operado a partir da última década do século passado.

Ora, até meados de 1877, ano da invenção do fonógrafo pelo norte-americano Thomas Edson, a única forma de armazenamento de música era a memória. E foi assim nos últimos cinqüenta mil anos pelo menos, quando se tem notícia das primeiras tentativas do homem organizar o sons e os silêncios no tempo, imitando o que ouvia na natureza. Quando esses sons começaram a ser registrados nos discos de cera podemos dizer que foi o prenúncio de uma mudança radical na nossa forma de armazenar – e ouvir – música. De lá pra cá a coisa andou muito rápido e em menos de cinqüenta anos estava consolidado o que conhecemos hoje como Indústria Fonográfica. Essa grande indústria que surgiu e se firmou no rastro do capitalismo galopante do século XX, incorporou como poucas alguns preceitos básicos da Revolução Industrial, como a utilização de tecnologia de ponta e a reprodução em série.

Consta que Cornélio Pires foi um dos primeiros artistas a gravar de forma autônoma no país, já que teve de bancar, ele próprio, a sua famosa série de discos, a partir de 1929. Antes dele porém houve a fantástica iniciativa de Chiquinha Gonzaga e seu marido, que entre 1920 e 1922 mantiveram uma gravadora autônoma. Já na década de setenta houve iniciativas como a do próprio Antônio Adolfo e seu já citado “Feito em Casa”. Mas se foram todas essas iniciativas louváveis, pelo pioneirismo e pelo teor contestatório que traziam, foram também isoladas e amadoras, a ponto de não conseguirem se auto-sustentar como alternativa viável às grandes corporações.

Somente nos anos 90 foi possível dar um salto nesse sentido. Pela primeira vez na história da indústria os meios de produção começaram a se tornar acessíveis a uma parcela considerável da população, não somente aos donos do capital. Não a todos é verdade, mas àqueles que dispunha de um computador e uma conexão com a internet. Por mais excludente que ainda fosse, tínhamos dado um salto; não era mais necessário um grande parque industrial para produzir um disco, um livro ou mesmo um filme com qualidade compatível ao dos produtos da grande indústria.

082

Há de fato um elemento artesanal na forma de trabalho desses autoprodutores. Mas o termo contra-indústria não se refere exclusivamente a esse aspecto. A grande mudança de paradigma diz respeito à mudança de procedimento num dos pilares que pautaram o desenvolvimento econômico do capital desde a revolução industrial: a especialização. A compartimentalização dos saberes e a ultra-especialização das atividades tornou-se a tônica da grande indústria, levada às últimas conseqüências com o fordismo e replicada nos mais diversos ramos do conhecimento, inclusive nas academias. Da escolástica com pretensões universalizantes chegamos à mediocridade dos MBAs e pós-graduações em especialização. Com a indústria da música não foi diferente, a esquizofrenia se instaurou no seio das grandes coroprações, onde o departamento de criação não dizia respeito ao departamento de vendas que não se comunicava com o departamento de comunicação e assim sucessivamente. A grande indústria foi à bancarrota.

O filósofo inglês Thomas Kuhn, em seu livro “Estrutura das Revoluções Científicas” afirmava que nos momentos de crise há uma proliferação de novos paradigmas que competem entre si tratando de impor-se como o enfoque mais adequado. É quando se produz uma revolução e um dos novos paradigmas substitui ao paradigma tradicional. A cada revolução o ciclo inicia de novo e o paradigma que foi instaurado dá origem a um novo processo de ciência normal. Nesses momentos é fundamental uma nova terminologia, para dar conta dos novos conceitos. Com alguns ajustes podemos adaptar o mesmo esquema para pensarmos a revolução ora em curso no interior da Indústria Cultural.

O autoprodutor é o não-especialista por definição. Ele compõe, produz, divulga, distribui e consome, não necessariamente nessa ordem. A necessidade premente em desatar tantos nós quanto possíveis da ‘cadeia’ fizeram dele um profissional genérico que levou às últimas conseqüências a máxima anarquista “faça-você-mesmo”! O que quero dizer é que o autoprodutor é o operário da Contra-indústria! A negatividade implícita no termo significa menos a transformação vertiginosa dos aspectos técnico-formais do que a recusa do modelo consolidado de divisão do trabalho e atribuição de tarefas no sistema de produção em escala industrial. Essa é a principal mudança paradigmática que trás a reboque todas as outras. A Contra-indústria se impõe portanto como um novo modelo de divisão de trabalho sem no entanto abrir mão dos avanços tecnológicos e das conquistas e soluções encontradas pela própria indústria. Essa nova divisão do trabalho se estrutura em redes colaborativas onde a gestão das atividades é individual, orgânica e ao mesmo tempo coletiva. Contra-indústria é, no plano sintático, um oxímoro, mas a contradição dos termos é apenas aparente e perdura até o momento em que se percebe que ela se constitui na verdade como uma síntese dialética da revolução industrial. A idéia de redes e de rizoma aqui torna-se fundamental para compreender a forma como se dá o processo de produção contra-industrial.

Indústria Cultural, o termo sexagenário criado por Adorno no livro Dialética do Esclarecimento, escrito a quatro mãos com Horkheimer e publicado em 1947, adquire assim um novo significado dentro de uma perspectiva dialética da história da produção e do consumo de arte. Aquele foi o momento de identificação do surgimento de um fenômeno em escala mundial que se consolidaria nos anos 60 e 70, atingiria o ápice nos 80 e entraria em franco declínio a partir de meados da década de noventa do século passado.

Voltando à sua pergunta a partir dessa perspectiva, não vejo contradição porque a produção contra-industrial (independente?) não é uma esfera privada. Talvez ela esteja exatamente neste espaço indefinido entre o público e o privado. Porque se considerarmos que as leis surgiram a partir da organização da sociedade civil, que são um direito conquistado e, no entanto envolvem uma parcela de dinheiro privado, ainda que seja um imposto deduzido, encontramos um certo equilíbrio instável nessa relação. O fiel da balança aqui vai depender da forma como esse dinheiro é gerido, quais os mecanismos regulam essas ações e quais critérios são utilizados na aprovação dos projetos e como eles são realizados.

Nesse sentido, o apoio das leis de incentivo é uma forma legítima de produção contra-industrial, uma vez que permite aos criadores total autonomia criativa e parte do princípio de que o investimento em cultura por parte do estado é um dever constitucional tanto quanto a segurança ou a saúde por exemplo. Mas estamos tão acostumados ao modo de produção privado nesse setor, que muitos têm a impressão de que não é correto usar o dinheiro das leis de incentivo para produzir um espetáculo, editar um livro, realizar um show. Essa é uma visão conservadora, que sustenta a idéia equivocada de que o artista pertence a uma elite intelectual na qual seria vergonhoso investir dinheiro público. Poucos defensores dessa idéia, entretanto, seriam contra a construção de hospitais e postos de saúde para o atendimento da população, ou ainda ao investimento em segurança, com a compra de equipamentos e treinamento da força policial. É que estamos acostumados a pensar que o acesso à cultura é um privilégio – e muitas vezes efetivamente é – mas não deveria ser.

A contra-indústria é uma alternativa pra quem não “conseguiu entrar na indústria” ou é uma alternativa ao modelo de indústria?

Penso que a contra-indústria, dentro do que foi dito acima, seja uma alternativa ao modelo de produção industrial estabelecido. Quem trabalha na perspectiva de trampolim está equivocado e pode invariavelmente se frustrar, porque a realidade cada vez menos corresponde às suas expectativas.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Fotos: Divulgação.

Pedra de Toque no ar

A maneira como entraram em contato com a linguagem e a forma como se relacionam com ela são a tônica do programa Pedra de Toque – A poesia contemporânea brasileira, produzido e apresentado pelo jornalista e também poeta Ademir Assunção, e disponível no site do Itaú Cultural. O programa possui 15 edições até aqui, cada uma com 30 minutos de duração, resultantes de entrevistas realizadas com poetas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Entre os entrevistados, figuras conhecidas como Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, e algumas pérolas escondidas da nossa literatura, como Sebastião Nunes, o autodenominado “ex-poeta” que vive recluso em Minas Gerais, ou o carioca Geraldo Carneiro, de quem nunca ouvira falar e sei que só eu perco com isso.

Se as coisas ocorrerem segundo o entusiasmo do entrevistador, mais 100 edições devem ser produzidas em 2009, e diante disto é preciso destacar que o registro dos depoimentos e o esforço de mapeamento da produção contemporânea de poesia não serão os únicos motivos de celebração. Há vários anos Ademir se mantém distante do front do jornalismo cultural, e o mínimo sinal de retorno parece um bom motivo pra comemorar. Logo que o conheci, Ademir me enviou por email meia dúzia de textos que havia publicado em jornal durante os anos 80. Ainda hoje os guardo, e mesmo isso e a notícia de que ele reuniu boa parte daqueles textos num volume à espera de editor não me deixam menos enfático quanto ao quão bacana é o seu retorno.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Poesia de ouvido

Vêm de longa data e são de longo alcance as relações entre poesia e música, desde lendários bardos anteriores à palavra escrita, passando pelo velho Paul Valèry [que dizia ser a poesia a oscilação entre som e sentido] até o registro permitido pelas tecnologias de gravação, que interessou gente improvável como Antonin Artaud e Guillaume Apollinaire e em décadas seguintes tornou possível a exploração do potencial popular da poesia operada por sujeitos como Dylan Thomas, Jim Morrison e Allen Ginsberg, e há algumas décadas tem interessado uma boa fatia da melhor poesia contemporânea brasileira, a exemplo de Marcelo Sahea, Ricardo Aleixo, Augusto de Campos e Ademir Assunção.

É nesse contexto, bem maior que este resumo, que se insere o programa Ondas Literárias, iniciativa radiofônica da poeta Andréa Catropa que teve 24 edições produzidas e veiculadas pela Cultura FM de Amparo (interior de SP) no semestre passado.

Mas e daí, Valdenir?

 

Daí que agora o Ondas Literárias vai ao ar pela Rádio Cultura Brasil, em kHz e também online [este charmoso formato, a rádio online, a vitória do gênero sobre a duração das frequências, mas divago], com transmissão ao vivo aqui. O programa de estréia rola neste sábado, dia 25, às 10h30, sendo o poeta de estréia meu conterrâneo, parceiro e amado amigo Celso Borges.

Quando o conheci (em 2003), CB já estava envolvido com o segundo disco-livro, Música (o anterior se chama XXI e é o registro literário-auditivo de suas então duas décadas de atividade poética), que conta com participações como as de Vitor Ramil, Chico César, Cordel do Fogo Encantado, Zeca Baleiro e TA Calibre I sonorizando os poemas e traz também os primeiros registros do Poesia Dub, projeto de Celso com o DJ Otávio Rodrigues (e depois com o acréscimo do baixista Gerson da Conceição) que tem se apresentado há alguns anos em eventos como TIM Festival, Baile do Baleiro e Outros Bárbaros, e do qual dá pra ouvir alguma coisa aqui enquanto o disco não sai.

Ou então tu espera até sábado, escuta a entrevista com Celso, as faixas do Música, e fica ligado na sequência dos programas. Repara lá no site da rádio a turma que promete aparecer, como Alice Ruiz (divulgadora de longa data das poéticas orientais no Brasil), Rodrigo Garcia Lopes (poeta e tradutor de gente como Walt Whitman e Arthur Rimbaud) e Marcelo Montenegro (pra mim o mais discreto entre os maiores). A idéia, segundo a própria Andréa Catropa, é manter os podcasts do programa disponíveis no blog também, mas isso ficou de ser negociado com a rádio e ela (a Andréa, não a rádio) prometeu avisar quando tivesse uma resposta.

Aproveito e compartilho pra encerrar alguns bons momentos da poesia no palco, como este aqui, do poeta curitibano Marcelo Sandmann:

Ou este texto aqui do Ademir Assunção [que também participa do Ondas Literárias], que tive a oportunidade de verouvir em primeira mão no já distante 2004 (ou seria 2005?), quando levei um primeiro lero com o bardo cuja obra e postura tanto admiro:

[Reuben da Cunha Rocha.]