Compartilhar é cuidar

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Já anda circulando faz algum tempo o bonitinho comercial acima, com Jack Johnson cantando “The Sharing Song“, faixa da trilha sonora Sing-A-Longs and Lullabies for the Film Curious George, que o músico-surfista e seus amigos fizeram em 2006. É numa deliciosa mudança de contexto que a música, aliada a uma animação bonitinha diferente da original presente no filme do macaquinho George Curioso, ganha um sentido de comerical favorável a “pirataria” digital.

Apesar da aparente inocência e simplicidade da letra da canção, no final das contas ela toca na essência da coisa toda ao dizer uma grande verdade: é sempre mais divertido dividir com todo mundo – ainda mais quando se fala em cultura.

[Leonardo Foletto.]

Compacto.Rec e a rede musical dos coletivos

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compacto rec

Como bem disse o Leonardo na última postagem, houve uma crescente organização dos coletivos culturais nos últimos anos. No fim do mesmo ano de surgimento do Macondo Lugar, em 2005, inicia-se a organização do Circuito Fora do Eixo (CFE) uma rede de trabalhos concebida por produtores culturais das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR). Os agitadores culturais queriam uma circulação maior da produção musical independente de suas cidades, não deixando-a restrita ao seu público. Assim, decidiram formar um coletivo maior, possibilitando trocas culturais e informacionais entre eles.

E é isso que está acontecendo com o projeto Compacto.Rec. “A idéia é produzir uma compilação mensal com músicas, letras, release e fotos através da rede de veículos integrados.” diz o release do mais recente lançamento, o álbum “Strange” da banda Boddah Diciro, do Tocantins. O álbum, além de ser distribuído no site do Compacto.Rec, é divulgado internamente entre os 45 coletivos de todo o Brasil que fazem parte do CFE.

De 2007 até este ano o projeto já tinha lançado três cds sem peridiocidade definida, quando em abril começou a ser trabalhado o disco da banda Madame Saatan, do Pará. Do grupo veio a idéia que originou o projeto, que a princípio seria quinzenal e teria inscrições. Hoje o grupo que pretende ter sua música espalhada tem que ter uma relação de proximidade com um coletivo e o coletivo indica para votação no Circuito.

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rinoceronte.

O disco de setembro foi da banda mineira Porcas Borboletas, com seu cd “A Passeio”. O próximo, em novembro, será o EP do power trio Rinoceronte (o da bonita arte acima) daqui de Santa Maria, que numa definição insuficiente pode ser dito como uma banda que faz um hard rock pesado, calcado em bandas setentistas do estilo, de Free à Black Sabbath.

O que o pessoal está arquitetando é perfeitamente explicado no artigo “Industria Cultural, Industria Fonográfica, Tecnologia e Cibercultura” da mestranda Lucina Reitenbach Viana. No artigo, ela faz um pequeno histórico da industria fonográfica no Brasil e propõe a inserção de uma nova fase do desenvolvimento dessa “indústria”: a fase intitulada “em rede”, iniciada nos meados dos anos 1990.

“Partindo do uso das tecnologias digitais, temos o rompimento da unificação de gostos e costumes outrora impostos pela indústria fonográfica, permitindo novas formas de trabalho acerca da música que conseqüentemente geram outras formas de organização, armazenagem, distribuição e consumo, diminuindo o abismo existente entre artista e público.”

O artigo é o de número 10 dos 11 artigos do e-book “Comunicação Multimídia: Objeto de reflexão no cenário do século 21”, organizado pela Professora Maria José Baldessar da Universidade Federal de Santa Catarina.

O Circuito Fora do Eixo está ligado nisso e é uma iniciativa pioneira no Brasil. O projeto do Compacto.Rec permite uma concentração da imensa e crescente diversidade musical do nosso tempo, aliada a uma distribuição plural. A apresentação do Portal Fora do Eixo representa mui bien o cenário alternativo que se forma:

“A rede cresceu e as relações de mercado se tornaram ainda mais favoráveis às pequenas iniciativas do setor da música, já que os novos desafios da indústria fonográfica em função da facilidade de acesso à qualquer informação criou solo ainda mais fértil para os pequenos empreendimentos, especialmente àqueles com características mais cooperativas.”

[Marcelo De Franceschi].

Créditos Imagens: 1,2.

Futuro da música depois da morte do CD

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futurodamusica

O título da postagem é de um livro que já citei por aqui – e que, aliás, vale a leitura, que pode ser feita baixando de graça o pdf. Mas é também mais ou menos o assunto que eu, Atílio Alencar, Jefferson Bernardo e Leonardo Palma discutimos no programa Onda Ânomala, o podcast organizado pelo coletivo Macondo, de Santa Maria, que é veiculado na rádio do Portal Fora de Eixo e também na página do próprio Macondo.

Discutimos é costume de dizer, porque ninguém discutiu e sim conversou. Leonardo com suas costumeiras e produtivas contribuições teóricas, Atílio e Jefferson com a boa experiência que a manutenção de um lugar como o Macondo traz para falar sobre futuro da música, morte do cd e assemelhados. O Macondo, aliás, é um caso a parte no interior do Rio Grande. De uma modesta experiência hippie-anárquica a coletivo cultural e uma das principais casas de shows do interior do estado não passaram mais do que cinco anos. Nesse período, tocaram no palco da casa figuras conhecidas do cenário (outrora) independente nacional como Wander Wildner, Júpiter Maça, Vanguart, Matanza, Autoramas, Zefirina Bomba, AMP, Feicheleres, Graforréia Xilarmônica, Superguidis, Pública, Identidade, dentre outros, além de diversas iniciativas não-musicais – com destaque especial para a recente criação da sala  Dobradiça, um local dedicado (mais) as artes plásticas que funciona em anexo à sede do Macondo.

Para escutar o Onda Anômala, basta ir aqui e clicar no programa do dia 19 de setembro. Mais sobre o Macondo tem aqui, e também no documentário recém-lançado (o cartaz que abre este post é dele), que conta muito bem a história dos cinco anos da casa, com direito a algumas histórias da já clássica primeira sede, certamente um dos lugares onde mais se viu estranhezas de todo o tipo no interior do RS e onde eu mais tomei Bavária (da clássica) na vida.

[Leonardo Foletto.]

Créditos foto: 1.

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Leia Richard Stallman

stallman

Já havia indicado via twitter esta semana (a propósito: @leofoletto), mas o texto é importante o suficiente para apontar aqui no blog, ainda que com atraso.

Trata-se de “Acabar com a Guerra da Partilha“, do nosso velho conhecido Richard Stallman. Publicado originalmente em seu próprio site, o texto foi traduzido para o português pelo parceiro Miguel Caetano, do sempre ótimo Remixtures, e publicado na última segunda-feira, dia 24 de agosto. É uma interessante pensata sobre a questão do compartilhamento de arquivos, especialmente voltada à música e as gravadoras. Ao final, Stallman dá dicas de como os músicos podem “sobreviver” com seu trabalho neste novo contexto que a rede e o compartilhamento ilimitado nos apresenta.

“Quando as companhias discográficas armam um escarcéu a respeito do perigo da “pirataria”, elas não estão a falar de ataques violentos a navios mas sim a queixar-se da partilha de cópias de música, uma actividade em que milhões de pessoas participam num espírito de cooperação. O termo “pirataria” é empregue pelas companhias discográficas para demonizar a partilha e a cooperação ao compará-las com o sequestro, assassinato e roubo.

Continue lendo aqui.

Fica aqui também a sugestão para dar uma passada no site pessoal de Stallman, que tem desde os seus textos políticos, atualizados quase diariamente, até humor, ficção (científica, claro), relatos e fotos de viagem e mais um monte de outras coisas que tu (não) poderia esperar em se tratando de um dos mais instigantes ativistas/pensadores da cultura digital/livre destes tempos.

[Leonardo Foletto.]

Crédito: 1.

Cortando o barato (3)

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cortando o barato

Há exatos 10 meses e dois dias, publicava-se aqui no BC o post Cortando o Barato, que tratava do “fechamento” do blog Som Barato por conta de uma notificação de violação de direitos autorais do conteúdo do blog. Exatos 15 dias depois saía o Cortando o Barato (2), que tratava da mesma coisa, só que com outros blogs – o El Blog del Topo e Um Que Tenha.

Bem, agora, 10 meses e dois dias depois, volto a falar aqui do mesmo assunto, inclusive com (um) dos mesmos protagonistas de outrora: o Um que Tenha, que semana passada publicou um post no qual falava que havia recebido nova notificação do Google dando conta da suposta violação de direito autoral presente em 1.264 posts, ou seja, tudo o que foi ali publicado entre abril de 2006 e abril de 2007.  Nossa parceira piauiense Aracele já postou sobre este assunto em seu blog e no Trezentos, mas replico aqui para reforçar: trata-se de mais um ataque dos anti-piratas, que ainda não aprenderam (ou não querem entender) algumas coisas que Edson muito bem já explicou por aqui.

Nas palavras de Fulano, do Um que Tenha,

Já vimos esse filme, ele se repete todo segundo semestre do ano, há pelo menos três anos. Na cabecinha miúda deles, agora é a vez de retirar do ar o Um Que Tenha, como fizeram no ano passado com o Som Barato, e antes disso com outros excelentes blogs musicais. Coitados, não aprenderam nada.

Dessa vez, a notificação do Google veio DEPOIS da empresa ter apagado todos as postagens onde havia suposta violação de direitos autorais. O que é de uma sacanagem tremenda, porque não dá a chance do próprio blogueiro de retirar o material que havia publicado, numa clara ação de abuso de autoridade por parte do Google – que não se faz de rogado e ele próprio ensina qualquer um a denunciar violação de copyright em material sob sua responsabilidade.

DMCA, um exagero de lei
DMCA, um exagero de lei

Mas não há de ser nada. Como se sabe, caiu na rede, não tem mais fim; a rapidez de propagação de qualquer conteúdo na internet impede que haja controle de copyright deste mesmo conteúdo – e é também por isso que falamos que o copyright, tal como foi desenvolvido, não tem mais como existir. Quem também reconhece isso é o próprio Bruce Lehman – criador do DMCA, lei criada em 1998 nos EUA e sob a qual se baseiam hoje as denúncias de violação de copyright – que já anda dizendo que a política de propriedade intelectual dos Estados Unidos são um fracasso. Nas palavras de Lehman num evento recente em Montreal, Canadá: “o gato fugiu do saco… Nossas tentativas de controle pelo copyright não foram um sucesso. Estamos vivendo agora, se não estivermos entrando, em uma era do pós-copyright.

Vindo do homem que criou a principal lei de defesa do copyright e responsável por essa política no governo Clinton (1993-2001), a declaração parece soar como uma pá de cal na gritaria em torno da pirataria – ou, ainda, parece demonstrar uma incoerência tremenda quando colocada ao lado de notícias como a que abre esta postagem.

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A propósito: os blogs e sítios que receberam a famosa mensagem de violação de direitos autorais de que falamos aqui continuam existindo. O Som Barato funciona neste endereço, com a única diferença de que agora o usuário precisa se cadastrar para baixar os arquivos; O Blog del Topo funciona igualzito a antes, só que com outro layout e em novo endereço; por fim, a Discografias mudou de nome (Discografias: O retorno!), mas ainda conta com 300 mil pessoas em sua comunidade  que ali continuam tendo por  objetivo o mesmo de sempre: compartilhar álbuns sem nenhum fim lucrativo.

Mais informações e opiniões sobre o assunto aqui.

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Atualização 22/08

O Um que Tenha saiu do ar; se você entrar no endereço do blog vai dar de cara com uma mensagem de notificação do Blogger de que “este blog não existe”.  Se procurá-lo via Google, o primeiro resultado ainda será o Um que Tenha, mas o conteúdo do blog só está em cache.

O sempre atento Caderno Link, do Estadão, publicou em seu blog, na quinta-feira, uma entrevista com Fulano, responsável pelo blog. Dentre outras coisas (vale a pena conferir a entrevista), Fulano diz: “Se efetivamente o UQT for retirado do ar pelo Blogger, pode ter uma certeza: ele volta. De que modo ainda não sei, mas o Fulano é jovem demais pra se aposentar”.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1, 2.

Revival do Vinil?

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Você, caro cidadão sobrecarregado de informação do século XXI, já deve ter escutado alguma informaçãozinha que seja sobre a onda de revival do disco de vinil,  o velho Long Play que muito fez a alegria das (antigas) jovens tardes de domingo e que, com a popularização do CD ali pelo início da década de 1990, passou de produto extremamente popular à artigo de colecionadores, DJs e aficcionados por música em geral. Ouve-se falar seja com saudosismo, recuperando histórias para mostrar o quanto era bom a época em que ninguém nem imaginava o que  viria a ser um MP3, seja com entusiasmo, afirmando que o disco de vinil é a redescoberta do universo musical no fim desta década.  Os números parecem dar conta de que, sim, há um revival do vinil; só nos Estados Unidos, houve um aumento de 90% da venda de discos entre 2007 e 2008. Em 2007, a receita com a venda de vinil somou US$ 23 milhões, um aumento de 46,2% em relação a 2006, segundo a nossa velha conhecida RIAA. No Brasil, ainda que não existam estatísticas precisas dando conta do fenômeno, presidentes de gravadoras percebem o novo velho mercado como muito promissor, enquanto que, não raro, produtores/jornalistas e o público vêem a questão com uma curiosidade renovada.

Artistas pop, como Pitty, estão gostando da ideia de lançar seus novos álbuns também em vinil, colocando o bolachão no arsenal de formatos de disponibilização de suas músicas (CD, MP3, DVD, LP até pen drive). Mesmo outros mais respeitados do que Pitty – Bruce Springsteen, Radiohead, Elvis Costello, Raconteurs, Cat Power, Los Hermanos, Caetano Veloso, Ed Motta e outros tantos – também adotam o formato como forma de  agradar um nicho específico de público, e um nicho que parece crescer tanto não é de ser desprezado por ninguém. Todos estes novos discos, somados às também cada vez mas frequentes reedições de LPs clássicos, formam um espaço em grandes lojas que não se duvide que em pouco tempo seja maior que o dos CDs – se já não o é, como mostra o acervo de mais de 600 discos que a Livraria Cultura têm em suas lojas.

Vendo e analisando todas estas informações e estatísticas, não me canso de pensar que o vinil caiu bem demais no papel (solitário, praticamente) de buscar uma sobrevida para as falidas gravadoras. Leia esta matéria do Globo Online e tente não pensar isso também. Nela, Cris Ashworth, dono da United Record Pressing, uma fábrica de LPs de Nashville que é uma das maiores dos Estados Unidos, fala coisas do tipo: “Meu filho esteve muito preocupado por dez anos. Ele meio que olhava para mim, balançava a cabeça e dizia ‘Pai, você não tem vida’. Agora ele diz ‘Bem, talvez papai seja um pouco mais esperto do que eu pensava“. Outro dono de gravadora, Luke Lewis, presidente do selo de Elvis Costello, Lost Highway, é igualmente cara-de-pau: “É uma revolução? Não. Mas nossas crenças foram um pouco renovadas, sem mencionar que fizemos um pouco mais de dinheiro. É difícil fazer isso na indústria hoje em dia“.

Como é tão fácil baixar música e todo mundo pode ter tudo que quiser a sua disposição em não muitos cliques, o vinil faz seu sucesso porque vai na contramão disso tudo. É um produto que vem com arte caprichada, muito melhor e maior (e também mais difícil de reproduzir) do que nos pobrezinhos dos cds; só pode ser escutado por um seleto grupo de consumo que tem um toca-discos, o que dá um caráter de exclusividade ao produto, em claro contraponto à putaria do MP3, que hoje todo mundo escuta seja num celular ou num player que cada vez custa menos. O fato de ser um produto exclusivo ainda agrega um “conceito” ao vinil, o que instiga o consumo como  um ato necessário para se sentir pertecendo a um determinado grupinho.

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Falas como “o vinil tem vida, cheiro, imagem, cor. O CD é frio” dão o tom de quem é fã do vinil. O CD  e outros formatos digitais como o MP3 são conhecidos por seu áudio límpido mas excessivamente “magro”,  enquanto que no vinil o som é mais “gordo” e propenso a nuâncias das mais variadas origens. Segundo Paulo Assis, que trabalha como produtor de áudio e é colaborador de revistas como  Cover Guitarra e Teclado & Piano, isso acontece porque o som de um disco de vinil vem de um sulco no plástico; a onda não está representada por cálculos matemáticos ou algo semelhante, mas está lá, fisicamente presente. A agulha vibra nessas lombadas musicais e essa vibração é o som.

Nas mídias digitais como o CD e o MP3, o som é gerado a partir de informações que representam a onda sonora; para fazer isso, a digitalização vai transformar a curva sonora em uma espécie de “escada”, retirando alguns detalhes (ou erros) da gravação, deixando o som mais “quadrado” e “frio” em relação ao do vinil. É o velho embate do analógico X digital; no vinil, o som é real, original, não sofre nenhm processo ligado à computação de dados, enquanto que o CD (e no MP3 ainda mais) é a cópia da cópia, porque o processo de digitalização não é possível ser feito diretamente da gravação, uma vez que o microfone não transforma o som em zero e um (linguagem de computação).

Acontece que, na maioria dos casos, os “detalhes” perdidos do CD e do MP3 em relação ao vinil não são perceptíveis para o ouvido humano, e muito menos reproduzidos pelos aparelhos convencionais de áudio. O que ocorre, então, é que a questão torna-se um embate mais, digamos, subjetivo, entre aqueles saudosistas que escutaram (pela primeira vez) a música em vinil e não toleram os “cortes” inevitáveis na reprodução para o CD e os que acham que as vantagens do digital – como a possibilidade de armazenar mais informação e a reprodução do áudio mais simples – superam e muito o velho Long Play.

Olha que bonito nossas bolachas!
Olha que bonito nossas bolachas!

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Polêmicas à parte, o certo é que o nicho dos que consomem discos de vinil é cada vez maior. Pega desde audiófilos interessados em escutar todos os detalhes da música em aparelhos ultrapotentes até a gurizada nova que não era nascida na época em que todo mundo só tinha o LP  e as fitas k7 como opção para escutar música e agora redescobre o velho bolachão como um ótimo produto a ser comprado, difundido, curtido – o que também coloca o vinil como um conceito interessantíssimo a ser explorado, pois é retrô ao mesmo tempo que torna-se cada vez mais moderno, para alegria dos seguidores de tendências profissionais.

Quem ganha com isso? Muita gente, em especial as fábricas de vinil, que em fins da década de 1990 e início de 2000 estavam por fechar e agora ganham uma sobrevida, e, principalmente, as gravadoras, que sustentam mais um pouquinho um modelo de negócio que muito dinheiro deu à elas durante todo o século passado e que, desta forma, adiam a sua (saudável) morte por pelo menos algum tempo.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1, 2, 3.

Quem baixa música não é pirata, mas divulgador

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Depois de quase um mês de nossa última postagem, resolvemos acabar com o limbo que andava corroendo este humilde espaço virtual. O semestre acabou, as férias não vieram e os afazeres inadiáveis foram feitos (ainda que com atraso). Então, bora lá.

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Como (pouco) falamos aqui nas duas últimas postagens, em fins de junho ocorreram dois eventos importantes na capital gaúcha. O primeiro, maior, foi o 10º Fórum Internacional de Software Livre. O segundo, menor mas nem por isso menos importante, foi o I Fórum do Movimento de Música para Baixar, organizado pelo movimento de mesmo nome que reúne algumas figuras ativas da cultura brasileira, especialmente da música. Por iniciativa de um integrante deste movimento, Leoni, e com ajuda do designer Marcelo Pereira, é que saiu, em meados de julho, um manifesto que agrupa alguns dos preceitos defendidos pelo MPB (Música Para Baixar, e não outra cousa que você possa estar imaginando). A ideia do manifesto é sintetizado pela frase que dá título à esta postagem, Quem baixa música não é pirata, é divulgador!, que desde já pode ser adotado como um interessante slogan para o movimento.

Por concordarmos e apoiarmos o texto,  publicamos o manifesto aqui abaixo, na íntegra, como fizeram alguns parceiros nossos como o Cultura Digital e o Partido Pirata.

É a partir do surgimento da democratização da comunicação pela rede cibernética, que a conjuntura na música muda completamente.

Um mundo acabou. Viva o mundo novo!

O que antes era um mercado definido por poucos agentes, detentores do monopólio dos veículos de comunicação, hoje se transformou numa fauna de diversidade cultural enorme, dando oportunidade e riqueza para a música nacional – não só do ponto de vista do artista e produtor(a), como também do usuário(a).

Neste sentido, formamos aqui o Movimento Música Pra Baixar: reunião de artistas, produtores(as), ativistas da rede e usuários(as) da música em defesa da liberdade e da diversidade musical que circula livremente na Internet.

Quem baixa música não é pirata, é divulgador! Semeia gratuitamente projetos musicais.

Temos por finalidade debater e agir na flexibilização das leis da cadeia produtiva, para que estas não só assegurem nossos direitos de autor(a), mas também a difusão livre e democrática da música.

O MPB afirma que a prática do “jabá” nos veículos de comunicação é um dos principais responsáveis pela invisibilidade da grande maioria dos artistas. Por isso, defendemos a criminalização do “jabá” em nome da diversidade cultural.

O MPB irá resistir a qualquer atitude repressiva de controle da Internet e às ameaças contra as liberdades civis que impedem inovações. A rede é a única ferramenta disponível que realmente possibilita a democratização do acesso à comunicação e ao conhecimento, elementos indispensáveis à diversidade de pensamento.

Novos tempos necessitam de novos valores. Temas como economia solidária, flexibilização do direito autoral, software livre, cultura digital, comunicação comunitária e colaborativa são aspectos fundamentais para a criação de possibilidades de uma nova realidade a quem cria, produz e usa música.

O MPB irá promover debates e ações que permitam aos agentes desse processo, de uma forma mais ampla e participativa, tornarem-se criadores(as) e gestores(as) do futuro da música.

O futuro da música está em nossas mãos. Este é o manifesto do movimento Música Para Baixar.


logo-mpb

Manifestos como esse costumam ser interessantes por, dentre outras coisas, agrupar interesses e ideias comuns num único espaço, o que facilita a organização de um movimento para a defesa de preceitos comuns perante à sociedade – além de serem belos produtos para puxar a frente de batalha quando há uma guerra contínua e longa pela frente, como aqui parece ser o caso.

Sabemos todos que a atual indústria musical se erigiu, durante o século XX, num contexto onde a produção cultural se realizava numa série de processos que custavam bastante dinheiro, desde a gravação à reprodução.  O resultado disso é que a produção e a distribuição se restringia àqueles que tivessem condições financeiras para isso, uma minoria endinheirada que, para se manter, precisava (ou julgava que precisava) vender (caro) aquilo que produzia.

Hoje, como boa parte de nós sabemos, o custo para produção e – principalmente – para a distribuição de um produto cultural (ou artefato, cultural para  atualizarmos ou variarmos a nomenclatura)  é muito menor do que era há um pouco mais dez anos atrás, quando fazer uma cópia de um CD era mais caro do que comprar um novo. A diminuição nos custos permite com que muito mais pessoas possam produzir a sua música e distribuí-la na rede para todo o planeta. Permite, também, uma variedade muito maior daquela música que podemos escutar; cada um, em sua própria casa, pode escolher o que escutar, seja algo próximo como um ótimo jazz instrumental brasileiro ou um hit pop em incrível versão folk de uma banda da Ucrânia. É dado para nós a incrível possibilidade de não depender mais de uma pessoa, com interesses muitas vezes estritamente comerciais, para a determinação daquilo que vamos escutar, o que nos abre literalmente diversos oceanos de diversidade e qualidade musical que nunca antes sabíamos que existia.

Este novo contexto exige novas estratégias de distribuição e comercialização para a música. Exige um repensar de toda uma instituição que muito se deu bem no século XX, mas que hoje não vai mais se manter os mesmos princípios antes usados. Determinar como serão estas novas estratégias, tanto de distribuição quanto de comercialização, é algo que muitos estão querendo fazer,  e um manifesto como o do Movimento Música Para Baixar é, no fundo, uma forma de unir pessoas para pensar como que isso vai se dar, não?

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Para assinar o manifesto,  clique aqui. Cerca de 1500 pessoas já assinaram. Destaco em especial um deles, o rei do Bom-Fim porto-alegrense Nei Lisboa.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: um, dois
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Para o fim de semana

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Blues On Film é um tipo de site que não tem como não indicar pro máximo de gente possível: trata-se de um arquivo de vídeos históricos com toda a elite do blues americano, de Bessie Smith à Muddy Waters, de John Lee Hooker à Bo Diddley, de Eric Clapton à Robert Johnson, e mais uma tremenda quantidade de nomes conhecidos (e outros nem tanto) do blues.

Dentre os mais de 500 vídeos que dá para encontrar lá, destaco um: Bessie Smith cantando a clássica “St. Louis Blues” em um clipe (!) com roteiro de W.C. Handy (!) realizado em 1929 (!!). Taí abaixo, pra quem quiser ver:

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De modo parecido ao Blues on Film funciona o Beatlestube, que diz agrupar todos os vídeos dos Beatles que podem ser encontrados na Web – grande parte no You Tube. O site traz  a letra e depoimentos dos fab four sobre o processo de composição de cada música  (e ali tem praticamente todas as músicas da banda). Tem desde os clipes caseiros altamente toscos  encontrados em profusão no You Tube até os clássicos, como “I am The Walrus“, tirado do ultrapsicodélico filme Magical Mistery Tour, e “Yer Blues“, com Lennon acompanhado por uma senhora banda formada por Eric Clapton, Mitch Mitchel e Keith Richards especialmente para tocar no filme The Rolling Stones Rock and Roll Circus, de 1968.

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Semelhante ao beatlestube já tem também para o U2, Queen e o Rolling Stones.

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[Leonardo Foletto.]

fotos, livros, quadros, música

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petropolis.

Vocês tem observado que nos últimos tempos cada vez mais se noticia revistas, institutos ou bibliotecas disponibilizando seus acervos/arquivos gratuitamente na web. Nós mesmos já falamos de algumas dessas iniciativas, e aqui voltamos a tratar do assunto porque o Instituto Moreira Salles é outra instituição que está disponibilizando um arquivo excelente para consulta via web, de grátis.

O acervo divide-se em quatro áreas: artes plásticas, biblioteca (literatura), fotografia e música. Nas artes plásticas, há uma coleção com mais de 1.700 obras. Entre os destaques, segundo a apresentação do acervo, estão o Highcliffe Album, importante conjunto de desenhos e aquarelas sobre o Brasil do século XIX, e a Coleção Unibanco, em sua maioria formada por pinturas modernas e contemporâneas.

Na fotografia estão 5 mil fotos das 450 mil que o instituto tem em seu arquivo, incluído algumas do século XIX e do início do século XX, – como  a que abre esse post, do Palácio Imperial, em Petrópolis, datada de 1860. Na biblioteca, outro acervo considerável, composto por livros, correspondências e outros objetos de personalidades da cultura brasileira. A biblioteca também guarda publicações do próprio IMS, como os Cadernos de Literatura Brasileira e os Cadernos de Fotografia Brasileira.

Mas é na música que a coisa fica melhor, com um  gigantesco acervo de música brasileira: mais de 100 mil gravações, incluindo perólas como “Pelo Telefone“, escrita por Donga e considerada o primeiro samba gravado, em 1917. Dá também para buscar as clássicas marchinhas que fizeram sucesso em carnavais passados e por canções de Noel Rosa, Lamartine Babo, Dorival Caymmi e Adoniran Barbosa, dentre inúmeros outros.

Todas as músicas estão catalogadas direitinho, com nome do autor, gênero musical, gravadora, data de lançamento, etc, e podem ser ouvidas em Windows Media Player e  QuickTime. Basta digitar o nome do autor ou da música, no mesmo esquema de funcionamento do  Google.

O acervo de música do IMS fazem parte de biblioteca de colecionadores  individuais, dos quais o mais conhecido é o  jornalista José Ramos Tinhorão.

Crédito foto: Klumb, Revert Henrique.

Notícias do Front Baixacultural (21)

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Imprensa repercurte ato contra o AI-5 digital (Trezentos, 17/05)

Clipping do clipping: a repercussão do protesto contra o projeto de lei do senador Azeredo em alguns jornais on-line brasileiros, dentre eles a Folha Online (Ato contra “Lei Azeredo” reúne 300 pessoas na Assembleia de SP), o IDG Now Tarso Genro critica e prega texto alternativo para lei de crimes digitais ) e o BOL( Suplicy apoia novo texto para “Lei Azeredo”). Como pode-se notar, cada um dando ênfase a um personagem diferente da história.

Em tempo: Acho um tanto equivocado usar o termo”AI-5″ digital para se referir ao projeto de lei do Senador Azeredo. Todos temos alguma noção de que o projeto de lei seja arbitrário, ditatorial e ridículo, mas é forçar um pouco trazer  o famigerado “Ato Institucional nº5” para a comparação, pelo simples motivo de que não é recomendável tirar um elemento de um contexto e colocar em outro completamente diferente. Entendo a ideia de chamar atenção para a situação, mas dá para fazer isso sem precisar buscar elementos tão controversos do passado, não?

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França aprova projeto que desconecta quem faz download ilegal (G1 tecnologia/Reuters, 12/05)

Foi amplamente divulgado e discutido a aprovação de um projeto de lei que permite desativar as conexões de internet daqueles que forem pegos repetidamente fazendo download ilegal de filmes e música. Nós já tinhamos falado desse projeto quando ele tinha sido, inicialmente, rechaçado na França. Mas ele voltou e foi aprovado primeiro pela Assembléia Legislativa da França por 296 votos a 233, e no dia seguinte pelo Senado francês por 189 votos a favor, 14 contra e 109 abstenções, sem nenhuma alteração.

De acordo com o projeto de lei francês, que conta também com apoio da ministra da cultura Christine Albanel, os acusados de pirataria on-line receberão dois e-mails, seguidos de uma notificação oficial. Se os downloads ilegais continuarem a ser feitos pelos infratores dentro de um período de um ano após os avisos, o acesso à internet dessas pessoas será cortado por um período que vai de dois meses a um ano. Mas o mais grave de tudo é que os punidos deverão continuar a pagar pela manutenção do serviço, mesmo durante esse período de inatividade.

Quem será encarregado da burocracia de avisos e suspensões ao usuário é o orgão HADOPI (“Alta Autoridad Para la Difusión de Obras y la Protección de Derechos en Internet“) que vai ser criado exclusivamente pare este fim. Segundo nos conta o sempre atualizado Remixtures, a coisa ainda não está liquidada: o deputado do parlamento Europeu Guy Bono, ligado ao partido socialista, já prometeu solicitar à Comissão Europeia que instaure um procedimento por infracção contra o governo francês por desrespeito do direito comunitário. Quem também manifestou o seu descontentamento para com a lei para com o governo foi a Comissão Nacional da Informática e da Liberdade (CNIL). Na opinião desta entidade, a HADOPI implicar na prática a monitorização extensiva dos internautas sem que uma autoridade judicial seja chamada a intervir antes da aplicação de qualquer sanção contra os internautas identificados pelos seus endereços IPs.

A discussão continua, e o mundo acompanha atento porque um precedente deste tipo pode “incentivar” projetos parecidos em outros países, inclusive no Brasil. Para uma cobertura aprofundada do caso, recomendo o  Remixtures em português, o El País em espanhol, o Accueil – La Quadrature du Net em inglês e francês, e o Framablog só em francês – este, inclusive, pegou uma declaração do nosso velho conhecido Richard Stallman resumindo o caso e que vale a pena ser transcrita aqui:

“The French national assembly voted for a law to give the media companies the power to cut off people’s internet connections on mere accusation.The same law will also require people to install non-free software in order to make their networks “secure”.

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Família acusada de pirataria faz acordo de US$7 mil com gravadoras (G1 Tecnologia, 29/04)

Essa também não é nova, mas vale pela representatividade da coisa: a indústria fonográfica aceitou US$ 7 mil para encerrar um processo (que durou quatro anos) de pirataria musical aberto contra Patricia Santangelo, 46 anos, que foi acusada de baixar e distribuir música “ilegal” na web. O engraçado é que ela alega que nunca realizou qualquer tipo de download, pelo motivo de que não sabia como fazê-lo; quem provavelmente baixou e distribuiu mais de 1 mil músicas –  incluindo “MMMBop”, dos Hanson, e “Beat It”, de Michael Jackson – foram seus dois filhos, Michelle e Robert, que quando o processo começou tinham 20 e 16 anos, respectivamente.

Segundo os termos para encerrar o caso, que está no tribunal de White Plains, a família terá de pagar US$ 7 mil. Eles já deram quase metade da quantia no dia 20 de abril e farão mais seis pagamentos de US$ 583,33 até outubro. O advogado afirmou que a família aceitou o acordo para “controlar custos”, pois agora alguns filhos estão na faculdade.

Este trecho da matéria chega a ser bizarro. A ânsia de lucrar das gravadoras chega ao ponto de processar uma simples família e fazê-la pagar uma dívida em 6 parcelas (!), justamente no momento em que ela junta dinheiro para pagar as caríssimas universidades americanas para seus membros mais jovens.

“Estamos satisfeitos em ter chegado a um acordo com os Santangelos”, disse Cara Duckworth, porta-voz da RIAA. De acordo com ela, o processo obteve sucesso em mostrar as consequências para aqueles que quebram as regras, além de levar os fãs de música para os serviços on-line legalizados, “que compensam de maneira justa os músicos e gravadoras”.

Se o outro trecho é bizarro, esse é nojento, principalmente pela barbaridade dita na última frase.

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Pirataria [digital] chega à literatura [de uma vez por todas] (dia a dia, bit a bit, 13/05)

O sempre bem informado Sílvio Meira pega o recente lançamento do Kindle – aquela telinha pra visualizar ebooks/jornais on-line que que provavelmente você ouviu falar na última semana – para tratar da pirataria de livros na rede, e do começo do fim do que conhecemos como a indústria do livro.  Diferente da indústria musical, falida e fadada ao desaparecimento já há alguns anos, o suporte físico clássico dos livros, o papel, vem resistindo bravamente às novas tecnologias. Porque, afinal de contas, livro é livro, um troço difícil de se preterir em relação à uma fria tela de cristal líquido.

Mas Meira acredita ser bem possível que o kindle, o e-paper colorido, flexível, de alta resolução e brilho, e os serviços de compartilhamento de “livros”  e documentos tipo slideshare.net, wattpad.com e scribd.com – isso sem falar nos milhões de livros compartilhados via torrent – sejam o começo do fim do que conhecemos como a indústria do livro. Será?

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[Leonardo Foletto.]

Hermeto fluindo ao vento

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Um dos grandes músicos  em atividade neste país, o “Beethoven do século 20” (como o define  um tanto exageradamente o acordeonista Sivuca, outro gênio brasileiro), Hermeto Pascoal, ao fim do ano passado, abriu mão das licenças pela internet e liberou para uso de qualquer músico todas as composições registradas em seu nome. Fez isso com estilo, na forma da singela cartinha abaixo, publicada em seu site oficial.

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Hermeto, que nos idos de 1973 já lançava um disco com o nome de ” A Música Livre de Hemeto Pascoal“, é uma daquelas muitas figuras que pouco ou nada ganhou com direitos autorais de suas composições: como não se organizou para registrar suas músicas, tudo que ganhou de $$ na música foram com shows, segundo afirma o repórter Lucas Pretti em matéria do Estadão, do qual tirei boa parte das informações deste texto.

Aliás, não poderia ser mais incoerente alguém como Hermeto ganhar com direito autoral. A ideia de liberdade musical, de improvisação, de pulverização das composições, é algo que sempre acompanhou o alagoano,  que não perdia a oportunidade de falar que  “tudo é música” e todos podem fazer música com qualquer coisa – objetos, plantas, voz, teclado, flauta doce ou copo de água, como ele mostrou algumas vezes em entrevistas. Sua música já era de código aberto muitos anos antes do termo existir.

Sua ida para a internet tem muito a ver com sua namorada e parceira musical desde 2002, Aline Morena, que não se conformava que um artista do porte de Hermeto não tivesse sequer um site próprio. Tanto botou pilha no barbudo que fez quatro sites, um para cada tipo de apresentação de Hermeto (com a Big Band, o Grupo, orquestras sinfônicas e para o duo com ela), todos que podem ser acessados através do site oficial.

A previsão é que nos próximos dias comece a disponiblização de  sua extensa discografia para download, na própria página oficial.

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Existem vários vídeos só no Youtube dando conta dos múltiplos talentos do músico. Tem desde uma conversa musical com Dominguinhos, daquelas que só duas figuraças conseguem fazer sem doer, até um depoimento no ótimo documentário Janela da Alma, passando pelo impressionante improviso vocal de “Remelexo“, tirada do ao vivo em Montreux de 1979. Mas  se é pra selecionar um para encerrar o post, fiquemos com outro improviso, mais longo, também no ao vivo em Montreux de 1979:

[Leonardo Foletto.]

Notícias do Front Baixacultural (17)

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Jango – o Jabá volta a atacar outra vez na internet (Remixtures, 3/03)

Todos nós ouvintes de rádio nos anos 80, 90 e 00 conhecemos bem o que quer dizer Jabá, palavrazinha feia para significar prática muito mais feia ainda. Pois a praga é que o tal do jabá está na moda também no meio online.

Segundo nos conta Miguel Caetano, a  Jango, uma companhia responsável por uma plataforma de rádio online composta por estações temáticas que conta com cerca de seis milhões de ouvintes mensais, lançou no início do mês que recém findou o Airplay, um sistema de promoção do tipo jabá em que quanto mais uma editora ou uma pessoa pagar, quanto mais vezes as suas músicas passarão nas rádios da Jango. Nas palavras escritas no Remixtures:

Assim, quem quiser ser escutado pelo menos mil vezes poderá pagar 30 dólares. Para tal basta apenas submeter uma música e indicar o nome de artistas já conhecidos do grande público que na vossa opinião mais se assemelha ao vosso som. Por exemplo, se acham que o vosso estilo é bastante parecido com o dos Radiohead, as vossas músicas acabarão por ser ouvidas pelos utilizadores que sintonizarem a rádio personalizada dos Radiohead. De modo a segmentar mais o público-alvo, podem ainda escolher atingir apenas os ouvintes com uma determinada idade/género ou que residam numa cidade/região/país específico.

Ainda que funcione num sistema um tanto transparente, radicalmente contrário ao por baixo dos panos jabá, o tal do Airplay parte de uma suspeita premissa de quem faz a seleção das músicas é o $$, e não um editor apaixonado e conhecedor de música. É o tipo de prática que se já não gostávamos quando não tinhamos a opção de escolher, hoje mesmo é que não vamos gostar, com o mar abudante de possibilidades que a web nos proporciona.

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Qual o futuro da música? (Bravo, março de 2009)

Arthur Dapieve foi chamado à Bravo para fazer essa matéria de capa aproveitando o gancho do show do Radiohead mês passado, já que a banda, na visão de muitos, é a pauta perfeita para falar de “futuro da música”. O jornalista e escritor formulou e respondeu 10 perguntas, algumas interessantes como O método de vender música sem que ela tenha um preço definido vai se popularizar, estabelecendo uma relação direta de mercado? , outras nem tanto, comoVão acabar os popstars, os artistas que marcam uma geração, como os Beatles nos anos 60 ou Madonna nos 90? Iniciaremos uma era de cauda longa em que cada vez mais artistas venderão cada vez menos de seus discos, como escreveu o jornalista americano Chris Anderson?, dentre mais outras oito.

Uma pena que tanto as perguntas quanto as respostas não fogem muito do senso comum que todos nós, mesmo sem informações detalhadas do assunto, saberíamos formular e até responder. De qualquer forma fica a dica, nem que seja para consolidar algum conhecimento sobre o assunto.

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Luta pela liberdade não termina nunca (Trasel Blog, 2/04)

O jornalista e pesquisador Marcelo Trasel, do qual já devemos ter comentado por aqui, faz um artigo para o seu blog em que atualiza a discussão sobre a já famosa “Lei dos Cibercrimes”, ou “Lei Azeredo”, em referência ao senador Eduardo Azeredo (PSDB/MG), que propôs a lei.

O fato novo, nas palavras de Trasel, é “ a inacreditável minuta produzida pelo Ministério da Justiça de Tarso Genro, com sugestões de modificação da redação do artigo 22 do PL 89/2003“. A minuta modifica de tal forma a lei que o blogueiro Gravataí Merengue, do Imprensa Marrom, sugere a alteração do nome do projeto de lei para “Lei Tarso Genro”. Nosso Ministro da Justiça – que tanto anda, nestes últimos meses, tomando decisões polêmicas e, na maioria dos casos, acertada – agora fez bobagem.

(O fato é mais triste ainda para nós nascidos e votantes no RS, pela cortada na já pequeníssima esperança de ver um governador decente por estas plagas, já que é dado como certo que Tarso concorrerá, com chances claras de vencer, à sucessão da nossa simpática desgovernadora Yeda Crusius.)

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Pirate Bay em Porto Alegre (Baguete, 2/04)

Pete Sunde, um dos três fundadores do nosso velho conhecido Pirate Bay, estará na capital gaúcha para participar da 10ª edição do Fórum de Software Livre, de  24 a 27 de junho. A vinda de Sunde foi confirmada pelo Baguete, que obteve a informação segundo “fontes próximas”  aos organizadores do evento. De qualquer modo,  o sueco concedeu uma entrevista ao portal Clic RBS e confirmou sua vinda:  “Eu ainda não tenho certeza quanto à data da minha chegada, eu ainda não comprei as passagens, mas estarei no Brasil para o Fórum.” Até lá, todos nós já saberemos do do resultado final do famoso julgamento.

Outra figura proeminente na comunidade livre-cultural da internet que tem sua vinda ao evento já confirmada é o barbudinho invocado Richard Stallman, ninguém menos que o criador do movimento do software livre e de quem, aliás, já falamos por aqui.

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[Leonardo Foletto.]

Crédito foto: World War II Photos

Notícias do Front Baixacultural (14)

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Música erudita gratuita ganha espaço na rede (Folha Online, 6/01)

Tempos atrás fizemos um post contando de um ótimo blog com um tremendo acervo de discos de música erudita. No início deste ano, a Folha Online, por meio do colaborador Irineu Franco Perpétuo, fez uma matéria contendo algumas dicas de mais blogs e sites com música erudita para baixar. Destaque para o italiano Branle de Champaigne, especialista em música renascentista, medieval e barroca;  o argentino Il Canto Sospeso, centrado na música erudita contemporânea (séculos XX e XXI); e o brasileiro Brazilian Concert Music, só com compositores brasileiros.

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Download de “Watchmen” de Alan Moore completo (Comunidade Revista Bizz no Orkut, 1/03)

Em semana de estréia do filme Watchmen, o nobre colega Marcello foi à comunidade da Revista Bizz para disponibilizar para download a edição completa da revista de Alan Moore e Dave Gibbons. O link para baixar é esse aqui, mas entra lá no tópico da comunidade para ver o  quanto Marcello foi espinafrado por sua atitude de apoio a “pirataria”.

Em tempo:  Neste link está o trailer do filme; o site oficial, muito bonito como costumam ser a maioria das páginas dos filmes de hollywood; e o verbete na Wikipédia sobre o filme, bastante completo.

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Daniel diz que pirataria pode ajudar a difundir seu filme (Babel, 5/03)

O bombardeio midiático em cima do novo filme do cantor Daniel fez com que boa parte de nós, pobres consumidores de cultura, ficassemos sabendo que “O Menino da Porteira” estreou semana passada nos cinemas brasileiros. Pois não é que Daniel, ao descobrir só agora que 90% das cidades brasileiras não têm cinema, resolveu ir contra seus patrões e declarar, implícita e explicitamente, que a pirataria pode ser muito boa para a divulgação de seu filme:

“Antes de o filme ser lançado, é complicado. Mas, depois, a gente vai ter que ter noção que, se o filme tiver respaldo, vai ter certa procura da pirataria. Você viu o que aconteceu no Tropa de Elite? Foi pirateado, mas teve sucesso de público também. Então…”.

Daniel entende que seu público principal não é aquele que costuma ir às salas de cinema no Brasil, grande parte delas localizada em shoppings. Para esse seu público preferencial ver seu filme, a pirataria pode sim ajudar. Então, a entrevistadora pergunta: “se souber que, numa cidade pequena, sem cinema, alguém viu o filme num DVD pirata, ficará chateado?

“Acho que é uma coisa quase normal. Lógico que a gente gostaria que fosse tudo da forma correta, mas não é assim.Tem amigos meus, como Bruno e Marrone, que começaram a fazer sucesso depois da pirataria. O complicado é que a pirataria tira emprego, não gera benefício pra ninguém. Mas às vezes a pessoa só vê assim.”

Mas a desobediência de Daniel esbarraria logo depois na fala de Rodrigo Saturnino Braga, diretor-geral da Sony Pictures no Brasil, co-produtora e distribuidora do filme,

“Os DVDs piratas também não chegam nas cidades que não têm cinema. Eles são vendidos aqui debaixo do meu escritório, na Berrini”, diz o executivo da Sony.

Em tempo (2):  a matéria linkada aqui é do Babel, recente e já ótimo blog da jornalista de Carta Capital, Ana Paula Sousa.

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Portrait of an Artist as an Avatar (NY Times, 5/03)

A editoria de tecnologia do NY Times não é a toa referência para boa parte dos jornais (e portais) mundiais: traz informações atuais, bem apuradas e, principalmente, ótimos textos, tudo como manda o tão esquecido Manual do Bom Jornalismo. Esse perfil aqui, produzido por Sarah Corbett, é mais um desses exemplos: conta a história do “artista” Filthy Fluno, um avatar pixelado e black power do Second Life (!) que ajudou seu criador –  Jeffrey Lipsky, artista plástico – a consolidar sua carreira no “mundo real”, com exposições em lugares tão distintos quanto Nova York e Portugal. No meio disso tudo,  muitas questões sobre as fronteiras cada vez mais apagadas entre o mundo digital e o real.

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Lars Ulrich dos Metallica pirateia-se a si próprio (Remixtures, 6/03)

Miguel Caetano do Remixtures nos conta que Ulrich, baterista do Metallica e principal responsável pela guerra declarada pela banda ao saudoso Napster, numa recente entrevista a Eddie Trunk do programa “That Metal Show” da cadeia de televisão VH1 Classic, confessou que baixou de maneira “ilegal” o  próprio disco novo de sua banda, Death Magnetic:

“Eu sentei-me e descarreguei o Death Magnetic da Internet apenas no intuito de experimentar. Foi algo do tipo “Wow, é assim que isto funciona.” Eu pensei para os meus botões que se havia alguém com direito a descarregar de borla o Death Magnetic era eu.”

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[Leonardo Foletto.]

Crédito foto: World War II Photos

Notícias do Front Baixacultural (12)

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(Cá estamos de volta, depois da uma semana de ausência por ocasião da cobertura da Campus party 2009)

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Internet em 2020: propriedade intelectual (Dia a Dia, bit a bit, 15/01)

Silvio Meira, de quem já linkamos um perfil, fez uma ótima série de posts só agora descoberta por mim: trata-se de um comentário detalhado dos resultados do Pew Internet Project (PIP) sobre o futuro da rede,  divulgado ao final do ano passado. Ele dividiu em seis posts, cada um tratando de temas diferentes, como mobilidade, interfaces, privacidade e transparência, e, claro, propriedade intelectual. Nesse assunto, os resultados do relatório dizem que na próxima década continuará a disputa entre os donos de copyright e defensores de propriedade intelectual, de um lado, e crackers [e/ou piratas] do outro, algo que Silvio (e nós) não concorda e ilustra o porquê citando uma série de posts seus sobre o assunto.

O restante do post, como os outros sobre a pesquisa, é deveras interessante e altamente recomendável. São vários trechos que nos fazem pensar sobre todas estas questões que discutimos quase diariamente aqui no BC, e Meira traz idéias sobre problemas que permeiam nossas discussões, como nesse trecho aqui abaixo:

“aliás, tem coisa que, mesmo já estando na rede, hoje, não deveria durar muito, como venda de música como “arquivo”. música e vídeo [e software] tem que passar a ter um tratamento negocial similar à assinatura de um serviço, temporário ou permanente, ao invés de serem distribuídas como arquivos que podem se perder no seu drive, celular ou onde forem armazenadas. uma vez assinadas, o provedor cuidaria para que o conteúdo pudesse ser usado a seu bel prazer, de acordo com direitos que você adquiriu.

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As 20 coisas que você precisa saber sobre música online (Pop Up!, 20/01)

Bruno Nogueira comenta o livro “ 20 things you must know about online music”, um e-book escrito por Andrew Dubber, professor e pesquisador musical da Birmigham City University, na Inglaterra, que dá para ser baixado no site dele. O livrinho é uma compilação de posts escritos pelo professor Andrew sobre música online, com conselhos bastante práticos (as tais 20 coisas do título) sobre o assunto, voltado especialmente a quem produz música e quer sobreviver dela.

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El Partido Pirata aterriza en EEUU (El País, 30/01)

Uma filial do já conhecido Partido Pirata europeu está sendo criada nos Estados Unidos, no Estado da California. O Pirate Party americano tem as mesmas plataformas eleitorais do seu irmão mais antigo – neutralidade da rede e proteção da privacidade – e, para ser reconhecido pela Secretaria  de Estado da California, juntou mais de 88 mil assinaturas de apoio. Diz o site do partido que o processo de criação do partido está andando e, em breve, eles terão sua existência  reconhecida.

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Impedir a partilha de ficheiros é impossível (Remixtures, 1/02)

Nosso bravo colega além-mar Miguel Caetano fala de uma cartilha – ou “livro branco” –  sobre segurança nas redes Peer-to-peer, lançada pela empresa alemã Ipoque, especializada na venda de soluções de gestão de tráfego para os fornecedores de acesso à Internet. A cartilha, que pode ser baixada mediante registro, aponta uma série de medidas que podem ser tomadas para a proteção do direito do autor em redes P2P, e chega a interessante conclusão de que a maioria das medidas inventadas até ao presente são ineficazes. Miguel faz um resumo de algumas destas medidas, dividindo-as em três tópicos: o que definitivamente não resulta, o que pode funcionar mas apenas nalguns casos e o que funciona mas sai muito caro.

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Troca de música gratuita é positiva para a economia, afirma estudo (Folha Online, 2/2)

Um estudo realizado pelo governo da Holanda (sempre ela) aponta a troca de arquivos musicais gratuita como positiva para a economia, e que as pessoas que trocam música dessa forma na internet também costumam comprar mais produtos de entretenimento. A notícia é tão boa que vou até colar um trechinho dela aqui abaixo:

As perdas dos titulares de direitos autorais sobre trocas de música, de acordo com o documento, são inferiores em relação aos impactos econômicos gerados pelos os usuários que fazem o download de músicas gratuitamente. Ao não pagar por uma música, os usuários liberam os fundos de propriedade intelectual que, por sua vez, se destinam à aquisição de outros produtos –situação que se considera positiva para a sociedade no geral.

Estamos justificados agora, RIAA e APCM?

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[Leonardo Foletto]

Crédito foto: World War II Photos

O operário da Contra-Indústria

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É difícil encontrar Makely Ka. Difícil saber onde ele está. Entre um email e outro, por exemplo, já o encontrei em BH, na Espanha, em São Paulo e no município de Milho Verde. A idéia de entrevistá-lo rondava minha cabeça praticamente desde que este blog nasceu, e tão logo pude escrevi pro piauiense radicado em Minas convidando-o para um papo via msn. Rolaram umas duas semanas de desencontros até decidirmos partir para uma opção menos divertida: fazer a entrevista por email. E lá se foram quase dois meses de espera até que as respostas dessem as caras na minha caixa de entrada. É que Makely nunca está parado, e com tantas andanças pelo espaço, não sobra muito pro tempo.

Poeta e músico de primeira grandeza (baixe 01 dos 04 discos aqui.), Makely também é um dos editores da Revista de Autofagia (duas edições lançadas e a terceira prometida pra fevereiro), mantém o Sêlo Editorial e a distribuidora Namarra, é sócio-fundador da SIM (Sociedade Independente da Música de Minas Gerais) e da ANAMBRA (Associação Nacional da Música Brasileira), e foi por duas vezes curador do Projeto Conexão Telemig Celular de Música – Novos Movimentos. Makely foi o primeiro músico atuante em Minas Gerais a conseguir na justiça o direito de exercer livremente a profissão sem a obrigatoriedade de filiação à OMB (Ordem dos Músicos do Brasil), e desde então trava uma batalha pública pela democratização da entidade. Não é por acaso que ele não poderia deixar de pintar por aqui. Makely é um dos praticantes mais convictos de uma das idéias mais relevantes do nosso atual panorama cultural: a da contra-indústria.

Trata-se de aprofundar a discussão em torno do que significa produção artística independente, a partir da constatação de que boa parte do que se vende sob o selo do “independente” é tão viciado nos truques e tiques da indústria cultural quanto qualquer nome de catálogo de grande gravadora. O que sugere a contra-indústria? Que o artista se envolva com todas as etapas da produção de seu trabalho, desde sua concepção até o formato final, ao invés de entregar alienadamente o processo nas mãos de intermediários. Em outras palavras, ser o músico e também produtor, e também gravadora. Escrever e também editar. Autogestão.

“Independente” é um termo meio vago e guarda algumas armadilhas. Eu mesmo caí numa delas quando conversei com Makely, encucado com fato de que um dos sujeitos mais combativos que conheço dentro deste cenário também dialoga frequentemente com o Estado. Ou, para falar mais justamente, com a esfera pública. Em 2006, Makely foi consultor da Área de Música da Lei Murilo Mendes em Juiz de Fora, e membro da CTAP (Comissão Técnica de Avaliação de Projetos) da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais. Hoje ele é representante do Fórum Permanente de Música de Minas Gerais na Câmara Setorial criada pelo Ministério da Cultura. Contraditório? Makely responde generosamente que não.

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Essa generosidade, bem mais que a falta de tempo, explica a demora na conclusão da entrevista. Makely foi extremamente cuidadoso com a questão, respondendo com a minúcia de quem conhece a fundo o assunto. Mãos à obra!

Ao lado de uma forte produção independente, há uma parte do teu trabalho que dialoga com o Estado, seja através das leis de incentivo (como a Revista de Autofagia), seja na tua atuação política. Não há conflito entre as duas coisas? Como é transitar entre as duas esferas?

Acho que neste caso, antes de entrarmos realmente na questão, talvez seja necessário tentarmos entender o que significa o termo “produção independente” nos dias atuais.  Eu particularmente prefiro usar o termo contra-indústria, que vem sendo disseminado em alguns meios – principalmente na internet – há alguns anos.

Acredito que o histórico do termo contra-indústria localize a resposta à sua pergunta dentro de um contexto bastante elucidativo por si só. Bom, cerca de três anos atrás, quando foram formadas as câmaras setoriais convocadas pelo Ministério da Cultura houve a necessidade de formatação de um projeto de política pública para a área da música; uma área que historicamente sempre esteve atrelada aos interesses das grandes corporações fonográficas que se instalaram no país e dominaram o mercado nas últimas cinco décadas. Naquelas reuniões, que aconteceram no prédio da Funarte, no Rio de Janeiro, estavam presentes representantes do governo (MinC, Ministério do Trabalho, Planejamento, Educação, OMB, etc), da iniciativa privada (ABPD, ABERT, ABEM, ECAD, etc) e representantes da sociedade civil organizada em fóruns de discussão(17 estados enviaram seus representantes). Durante aqueles meses de discussão inédita, percebemos a necessidade de demarcarmos nossas diferenças de forma mais contundente e, por sugestão do compositor Antônio Adolfo, do mítico álbum Feito em Casa (1977), adotamos a alcunha de autoprodutores. É bom lembrar também que foi a partir daquele momento que o termo “cadeia produtiva da música” passou a fazer parte do vocabulário corrente de músicos, produtores e jornalistas, às vezes deslocado ou mesmo sem um entendimento total do seu significado. A cadeia efetivamente envolve todos os elos, ou nós, do mercado da música, desde a criação, ou ainda antes, a formação, até o consumidor. Mas nossa atuação até o momento se concentrava nos dois ou três primeiros elos, ou seja, os nós da veiculação, distribuição e consumo até então não conseguíamos desatar. Nos demos conta então que muitas vezes, éramos nossos próprios consumidores, daí o caráter autofágico do termo.

Mas mais importante do que a conceituação da cadeia produtiva, que serve para ilustrar o modo de produção que herdamos da grande indústria fonográfica, talvez seja perceber a mudança de paradigma operado a partir da última década do século passado.

Ora, até meados de 1877, ano da invenção do fonógrafo pelo norte-americano Thomas Edson, a única forma de armazenamento de música era a memória. E foi assim nos últimos cinqüenta mil anos pelo menos, quando se tem notícia das primeiras tentativas do homem organizar o sons e os silêncios no tempo, imitando o que ouvia na natureza. Quando esses sons começaram a ser registrados nos discos de cera podemos dizer que foi o prenúncio de uma mudança radical na nossa forma de armazenar – e ouvir – música. De lá pra cá a coisa andou muito rápido e em menos de cinqüenta anos estava consolidado o que conhecemos hoje como Indústria Fonográfica. Essa grande indústria que surgiu e se firmou no rastro do capitalismo galopante do século XX, incorporou como poucas alguns preceitos básicos da Revolução Industrial, como a utilização de tecnologia de ponta e a reprodução em série.

Consta que Cornélio Pires foi um dos primeiros artistas a gravar de forma autônoma no país, já que teve de bancar, ele próprio, a sua famosa série de discos, a partir de 1929. Antes dele porém houve a fantástica iniciativa de Chiquinha Gonzaga e seu marido, que entre 1920 e 1922 mantiveram uma gravadora autônoma. Já na década de setenta houve iniciativas como a do próprio Antônio Adolfo e seu já citado “Feito em Casa”. Mas se foram todas essas iniciativas louváveis, pelo pioneirismo e pelo teor contestatório que traziam, foram também isoladas e amadoras, a ponto de não conseguirem se auto-sustentar como alternativa viável às grandes corporações.

Somente nos anos 90 foi possível dar um salto nesse sentido. Pela primeira vez na história da indústria os meios de produção começaram a se tornar acessíveis a uma parcela considerável da população, não somente aos donos do capital. Não a todos é verdade, mas àqueles que dispunha de um computador e uma conexão com a internet. Por mais excludente que ainda fosse, tínhamos dado um salto; não era mais necessário um grande parque industrial para produzir um disco, um livro ou mesmo um filme com qualidade compatível ao dos produtos da grande indústria.

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Há de fato um elemento artesanal na forma de trabalho desses autoprodutores. Mas o termo contra-indústria não se refere exclusivamente a esse aspecto. A grande mudança de paradigma diz respeito à mudança de procedimento num dos pilares que pautaram o desenvolvimento econômico do capital desde a revolução industrial: a especialização. A compartimentalização dos saberes e a ultra-especialização das atividades tornou-se a tônica da grande indústria, levada às últimas conseqüências com o fordismo e replicada nos mais diversos ramos do conhecimento, inclusive nas academias. Da escolástica com pretensões universalizantes chegamos à mediocridade dos MBAs e pós-graduações em especialização. Com a indústria da música não foi diferente, a esquizofrenia se instaurou no seio das grandes coroprações, onde o departamento de criação não dizia respeito ao departamento de vendas que não se comunicava com o departamento de comunicação e assim sucessivamente. A grande indústria foi à bancarrota.

O filósofo inglês Thomas Kuhn, em seu livro “Estrutura das Revoluções Científicas” afirmava que nos momentos de crise há uma proliferação de novos paradigmas que competem entre si tratando de impor-se como o enfoque mais adequado. É quando se produz uma revolução e um dos novos paradigmas substitui ao paradigma tradicional. A cada revolução o ciclo inicia de novo e o paradigma que foi instaurado dá origem a um novo processo de ciência normal. Nesses momentos é fundamental uma nova terminologia, para dar conta dos novos conceitos. Com alguns ajustes podemos adaptar o mesmo esquema para pensarmos a revolução ora em curso no interior da Indústria Cultural.

O autoprodutor é o não-especialista por definição. Ele compõe, produz, divulga, distribui e consome, não necessariamente nessa ordem. A necessidade premente em desatar tantos nós quanto possíveis da ‘cadeia’ fizeram dele um profissional genérico que levou às últimas conseqüências a máxima anarquista “faça-você-mesmo”! O que quero dizer é que o autoprodutor é o operário da Contra-indústria! A negatividade implícita no termo significa menos a transformação vertiginosa dos aspectos técnico-formais do que a recusa do modelo consolidado de divisão do trabalho e atribuição de tarefas no sistema de produção em escala industrial. Essa é a principal mudança paradigmática que trás a reboque todas as outras. A Contra-indústria se impõe portanto como um novo modelo de divisão de trabalho sem no entanto abrir mão dos avanços tecnológicos e das conquistas e soluções encontradas pela própria indústria. Essa nova divisão do trabalho se estrutura em redes colaborativas onde a gestão das atividades é individual, orgânica e ao mesmo tempo coletiva. Contra-indústria é, no plano sintático, um oxímoro, mas a contradição dos termos é apenas aparente e perdura até o momento em que se percebe que ela se constitui na verdade como uma síntese dialética da revolução industrial. A idéia de redes e de rizoma aqui torna-se fundamental para compreender a forma como se dá o processo de produção contra-industrial.

Indústria Cultural, o termo sexagenário criado por Adorno no livro Dialética do Esclarecimento, escrito a quatro mãos com Horkheimer e publicado em 1947, adquire assim um novo significado dentro de uma perspectiva dialética da história da produção e do consumo de arte. Aquele foi o momento de identificação do surgimento de um fenômeno em escala mundial que se consolidaria nos anos 60 e 70, atingiria o ápice nos 80 e entraria em franco declínio a partir de meados da década de noventa do século passado.

Voltando à sua pergunta a partir dessa perspectiva, não vejo contradição porque a produção contra-industrial (independente?) não é uma esfera privada. Talvez ela esteja exatamente neste espaço indefinido entre o público e o privado. Porque se considerarmos que as leis surgiram a partir da organização da sociedade civil, que são um direito conquistado e, no entanto envolvem uma parcela de dinheiro privado, ainda que seja um imposto deduzido, encontramos um certo equilíbrio instável nessa relação. O fiel da balança aqui vai depender da forma como esse dinheiro é gerido, quais os mecanismos regulam essas ações e quais critérios são utilizados na aprovação dos projetos e como eles são realizados.

Nesse sentido, o apoio das leis de incentivo é uma forma legítima de produção contra-industrial, uma vez que permite aos criadores total autonomia criativa e parte do princípio de que o investimento em cultura por parte do estado é um dever constitucional tanto quanto a segurança ou a saúde por exemplo. Mas estamos tão acostumados ao modo de produção privado nesse setor, que muitos têm a impressão de que não é correto usar o dinheiro das leis de incentivo para produzir um espetáculo, editar um livro, realizar um show. Essa é uma visão conservadora, que sustenta a idéia equivocada de que o artista pertence a uma elite intelectual na qual seria vergonhoso investir dinheiro público. Poucos defensores dessa idéia, entretanto, seriam contra a construção de hospitais e postos de saúde para o atendimento da população, ou ainda ao investimento em segurança, com a compra de equipamentos e treinamento da força policial. É que estamos acostumados a pensar que o acesso à cultura é um privilégio – e muitas vezes efetivamente é – mas não deveria ser.

A contra-indústria é uma alternativa pra quem não “conseguiu entrar na indústria” ou é uma alternativa ao modelo de indústria?

Penso que a contra-indústria, dentro do que foi dito acima, seja uma alternativa ao modelo de produção industrial estabelecido. Quem trabalha na perspectiva de trampolim está equivocado e pode invariavelmente se frustrar, porque a realidade cada vez menos corresponde às suas expectativas.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Fotos: Divulgação.