Propagandas antipirataria: o retorno [1]

Há muito tempo figuraram aqui algumas imagens antipirataria (neste e neste post), a maioria delas antigas ou muito amadoras. Pois decidimos procurar outras do tema, mas mais atuais e com um acabamento mais profissional, mesmo que ainda todas com conceitos forçados e baseadas em falácias. Encontramos várias campanhas então faremos uma série desse tipo para intercalar com a série de posts ensaísticos. Saca só a genialidade do pessoal.

Fontes:

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[6 e 7]

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[Marcelo De Franceschi]

A armadilha Disney

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Construí meu império com uma ajudinha do domínio público, mas não vou permitir que ninguém mais faça o mesmo

A inocência de todos os produtos criados pelo senhor Walt Disney (1901-1966) esconde muitas mensagens subliminares e ações no mínimo obscuras e contraditórias, e isso tu já deve saber faz algum tempo. Se não sabe, aí vai uma delas (e perdoem a eventual destruição de positivas imagens guardadas na nossa infância permeada pelos desenhos disney): os estúdios Disney vem gastando periodicamente milhões de dólares em advogados e lobistas para garantir que seus personagens não caiam no domínio público. Toda vez que o famoso Mickey Mouse chega perto do seu prazo de validade, as leis dos EUA são alteradas para alongar o controle, impedindo que os personagens possam ser utilizados gratuitamente pelo público.

Foi isso que ocorreu na última mudança, em 2003. As obras registradas depois de 1923 tinham um prazo de 95 anos para caírem em domínio público [ou seja, para que os direitos econômicos não pertençam mais a ninguém, o que permite que todos possam copiar a obra a vontade]. O famoso Mickey Mouse, que apareceu pela primeira vez em 1928, teria seus direitos econômicos liberados em 2003. Mas eis que em janeiro deste mesmo 2003 a suprema corte dos Estados Unidos aprovou uma pequena extensão de 20 anos para estas obras, numa iniciativa logicamente que apoiada e patrocinada pelo grupo Disney – além de Mickey, Pluto (em 2006), Pateta (em 2008) e Pato Donald (2009) estavam com prazos de seu copyright por vencer. [Para quem quer saber mais, este artigo, em inglês, detalha o caso]

O que a Disney não costuma expor é que a ação para “proteger” seus personagens é bastante contraditória, para dizer o mínimo, pois a própria empresa se apropriou – e muito! –  de personagens em domínio público e/ou criados por outros autores para fazer seus maiores sucessos. A começar pelo próprio Mickey, que surge na animação Steamboat Willie (1928), considerada uma das primeiras animações com som da história, que é uma paródia descarada do filme Steamboat Bill, Jr.(1928), dirigido por Charles Reiner e estrelado pelo ótimo Buster Keaton. Assista ambos, a animação e o filme com Buster Keaton, e compare tu mesmo a “semelhança”.

Como conta o blog Burburinho, foi mesmo na década seguinte que começou o mergulho de Walt Disney no domínio público em busca de inspiração, que resultou numa série de filmes animados que até hoje são bastante conhecido de todos. Vejamos a lista:

A Branca de Neve e os sete anões (1937) se inspirou num dos inúmeros contos infantis dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, os famosos Irmãos Grimm;

_ Pinocchio (1940) é baseado em um personagem do escritor italiano Carlo Collodi, que apareceu pela primeira vez em  “Storia di un burattino“, livro publicado em 1883;

_  “Fantasia (1940) mistura trechos de temas musicais eruditos (a sinfonia pastoral de Beethoven, a Sagração da Primavera de Stravinsky, dentre outros) com poemas clássicos (de escritores alemães como Goethe, em O Aprendiz de Feiticeiro, ou Hoffman, em O Quebra-Nozes, musicado por Tchaikovsky em um conhecido balé).

_ Cinderela (1950) é um dos contos de fadas mais conhecidos (e antigos) de todos os tempos. A animação da Disney foi baseada na história escrita pelo francês Charles Perrault, publicado em 1697.

_ Alice no País das Maravilhas (1951)  é baseado no livro do escritor inglês Lewis Carrol, publicado pela primeira vez em 1865;

Peter Pan(1953) na peça infantil Peter and Wendy, que originou um livro homônimo publicado em 1911, ambos de autoria do também inglês J. M. Barrie;

_ A Bela Adormecida(1959) é outro conto de fadas conhecido, também publicado por Charles Perrault em 1697 no livro “Contos da Mãe Gansa“;

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Ainda há mais diversos casos, inclusive nos desenhos mais recentes. A Pequena Sereia (1989) é uma adaptação de um conto do século XIX escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen; Alladin (1992) é tirado do ramo sírio da monumental obra As Mil e Uma Noites, enquanto Pocahontas (1995) é baseado numa personagem conhecida da história dos Estados Unidos, assim como O Corcunda de Notre Dame (1996) é um personagem criado pelo francês Victor Hugo em “Notre-Dame de Paris“, publicado em 1831, e Mulan (1998) se alimenta de um poema chinês do século V, chamado “A balada de Mulan“, e por aí vai. O uso de personagens do domínio público por parte da Disney é até um caso exemplar de como se buscar inspiração no passado. Mas aqui lembro as palavras citadas no mesmo post de antes do Burburinho: Walt Disney lançou a carreira do seu personagem mais popular fazendo o que hoje os advogados da sua empresa não permitem que seja feito com suas criações: reciclando material original produzido por outros autores.

Imagine se em todas essas histórias os estúdios Disney tivessem que pagar os copyrights pela reprodução e adaptação. É certo que as animações nem existiriam, e todos nós que crescemos na década de 1990 teríamos uma infância muito mais triste (ou não).

Mulan, personagem de um poema chinês do século V

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É esta “armadilha” realizada pelo senhor Disney que trata o curta “The Disney Trap: How copyright steals our stories“, escrito e produzido por Monica Mazzitelli, integrante da Fundação Wu Ming – que tu já deve ter ouvido uma porção de vezes por aqui – e do coletivo Iquindici, que tem por peculiar missão ler obras ainda não publicadas com o objetivo de dar um retorno aos autores e, também, promover a adoção de licenças abertas (copyleft, creative commons) na indústria editorial italiana.

Em pouco mais de 11 minutos, o video fala um poquito da trucagem dada pela Disney nas leis de direito autoral para que seus personagens continuem em domínio público. Para ilustrar o caso, a diretora Monica “interpreta” Molly Bloom, personagem de Ulysses, de James Joyce [a do clamoroso monólogo final], que já deveria ter sua obra em domínio público se não fosse pela ajudinha da Disney. O video está em inglês com legendas em italiano:

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P.S: O prazo para que uma obra entre em domínio público varia bastante, e já foi muito menor do que é hoje nos Estados Unidos e no Brasil, absurdos 70 anos após a morte do autor, para obras criadas a partir de 1978. É por essas e outras que defendemos aqui desde o início a reformulação das leis de direito autoral, o que vai ser discutido no seminário “O direito à educação e a reforma da lei de direitos autorais“, neste próximo sábado, no Instituto Paulo Freire, em São Paulo. O BaixaCultura estará lá e promete um relato na sequência.

[Leonardo Foletto.]

Créditos imagens: 1, 2, 3.

As confusões de uma indústria da pesada – parte 2

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Quase um ano atrás, Edson publicou aqui um texto que tratava das confusões de uma certa “Indústria da Pesada”, um eufemismo utilizado por ele para falar das arbitrariedades do lado engravatado da força – MPAA, RIAA,  representantes dos estúdios de Hollywood e grandes gravadores musicais dos Estados Unidos, e a brasileiríssima APCM (Associação Antipirataria de Cinema e Música), uma entidade dirigida por um ex-policial federal que simplesmente tem “saudade de prender”, responsável pelo patrulhamento da comunidade Discografias, do Orkut, e de blogs musicais como Som Barato e Um Que Tenha (que, felizmente, sobreviveram aos ataques policialescos e continuam  vivaços, basta entrar nos links de cada uma para perceber).

Se tu acompanha o noticiário sobre o assunto já deve de ter visto que a “Indústria da Pesada” continua na ativa. Talvez com ainda mais gana de patrulhar o compartilhamento livre do que antes, porque o desespero de quem está perdendo a guerra, nestes casos, faz com que ainda mais arbitrariedades e lobbys econômicos – disfarçados de conselhos – sejam perpetuados mundo afora. A sensação de incredulidade com tais iniciativas ganha níveis altíssimos quando se depara com textos como esse, do blog de tecnologia do diário britânico The Guardian, escrito por Bobbie Johnson. O título já dá uma amostra do que se trata – When using open source makes you an enemy of state, quando usar código aberto torna você inimigo do Estado – mas vamos seguir comentado algumas coisas do texto.

O post trata de comentar uma iniciativa descarada de desacreditar e desaconselhar o uso de software livre no planeta, capitaneada pela International Intellectual Property Alliance , um “guarda-chuva” que engloba organizações como MPAA e RIAA. Eles resolveram aconselhar o US Trade Representative, escritório que administra o comércio no e com os Estados Unidos, para que fiquem de olho em países como Indonésia, Brasil e Índia, por conta do uso do software livre. A ideia é  colocá-los na Special 301 watchlist, uma suposta “lista negra” que contém países que são uma “ameaça” à propriedade intelectual [como é dito no post, é uma lista velada de países que os EUA consideram absurdamente como “inimigos do capitalismo”].

post do The Guardian

Brasil e Índia são referências mundiais em uso do software livre, a começar pelos próprios programas e páginas ligadas ao governo de ambos os países. Já a Indonésia, a outra citada pela IIPA, entrou para o time por conta de uma circular que sugere para final de 2011 – veja bem, 2011, nada foi feito ainda – o uso de software livre em todas as agências governamentais, como uma forma de, principalmente, cortar gastos e melhorar o funcionamento dos sistemas. Por conta dessa sugestão do governo da Indonésia, dada no final do ano passado, a “aliança internacional para a propriedade intelectual” colocou em seu relatório que o país “encoraja o enfraquecimento da indústria do software“, assim como “falha em construir respeito pelas direitos das propriedades intelectuais“. Dêem uma olhada em outros trechos do comunicado, se conseguirem conter o asco:

“The Indonesian government’s policy… simply weakens the software industry and undermines its long-term competitiveness by creating an artificial preference for companies offering open source software and related services, even as it denies many legitimate companies access to the government market.

Rather than fostering a system that will allow users to benefit from the best solution available in the market, irrespective of the development model, it encourages a mindset that does not give due consideration to the value to intellectual creations.

As such, it fails to build respect for intellectual property rights and also limits the ability of government or public-sector customers (e.g., State-owned enterprise) to choose the best solutions.

[A política do governo da Indonésia simplesmente enfraquece a indústria do software e mina sua competividade a longo prazo criando uma preferência artificial por companhias que oferecem software de código aberto e serviços relacionados, assim como nega acesso ao mercado governamental para várias companhias legítimas.

Ao invés de promover um sistema que irá permitir aos usuários beneficiados ter a melhor solução disponível no mercado, independentemente do modelo de desenvolvimento, incentiva uma mentalidade que não dá a devida atenção para o valor das criações intelectuais.

Como tal, falha em construir respeito pelos direitos de propriedade intelectual e também limita a capacidade do governo ou dos clientes do setor público (por exemplo, empresas públicas) de escolher as melhores soluções]

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Surreal, não?

A vêemencia do comunicado até que não chega a surpreender, pois a IIPA nunca gostou de qualquer coisa open source, especialmente aquelas que pudessem tirar fatia de seus lucros. Mas incomoda ver o total desprezo por argumentos coerentes e o esquecimento deliberado de fatos importantes. Johnson cita um destes fatos no post: existem milhares de negócios construídos sob o modelo open sourceRedHat, Canonical e especialmente o WordPress, amplamente utilizado mundo afora). Quer dizer que o uso destes programas é também um desrespeito à propriedade intelectual? Ou só é desrespeito quando se trata de programas a serem utilizados por empresas públicas, um grande mercado que a IIPA não quer perder nem deixar ninguém tomar?

Um outro exemplo, para finalizar: ao condenar o uso do software livre como uma alternativa simples, barata e eficiente – e, portanto, competitiva também no tal mercado em que se movem – eles eliminam outra alternativa que não o monopólio como estratégia de sobrevivência nos negócios. Talvez o liberalismo econômico que tanto defendem seja livre para alguns poucos que podem pagar, e impeditivo para a maioria.

[Leonardo Foletto.]

Créditos imagens: 1 e 2 (Bart).

Flattr e a uma nova (velha) discussão

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O loiro com cara (e DNA) da Escandinávia de nome Peter Sunde já é nosso velho conhecido de algumas postagens. Inclusive, publicamos uma entrevista dele para a Folha de S. Paulo, onde Sunde comentava os recentes eventos sobre o site na qual foi um dos fundadores, o Pirate Bay. À época, discutia-se o quão definitiva seria a decisão do tribunal sueco que condenou ele e mais três parceiros a pagar uma quantia de exagerados 3,6 milhões de euros à entidade que representava os grandes poderosos de Hollywood e da Indústria Fonográfica. Dizia-se que seria o fim do Pirate Bay, o que na prática não se comprovou – procure você um arquivo de torrent para download e lá estarão os piratas suecos para te mostrar um link, ainda que não com a mesma eficiência pré-condenação.

Sunde veio ao 10ºFisl (Fórum Internacional do Software Livre), que ocorreu em junho do ano passado na Porto Alegre capital do Rio Grande do Sul, e por esta época já  dava a entender que tomaria rumos diferentes ao do Pirate Bay, o que veio a se confirmar algumas semanas depois. O caminho tomado pelo outrora pirata sueco foi o projeto que, no início do mês, tornou-se realidade: o Flattr, um sistema de micropagamentos por conteúdo, que ainda está funcionando em fase beta, apenas para teste, mas que pode ser melhor visualizado neste pequeno vídeo de apresentação:

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O Flattr baseia-se na ideia de que o público está disposto sim a pagar por conteúdo, desde que ele possa ser facilmente acessado e da maneira que os usuários quiserem. Apesar de eu particularmente duvidar desta sentença, recente pesquisa realizada pela consultoria Nielsen com 27 mil pessoas em 52 países afirma que metade das pessoas está realmente disposta a pagar por conteúdo – desde que, confirmando a ideia que balizou o funcionamento do Flattr, esse conteúdo seja consideravelmente melhor/diferente daquele que se pode conseguir gratuitamente. A grande questão fica, como Tiago Doria comenta, em descobrir qual conteúdo realmente proporciona “valor” para os seus consumidores, tarefa que será fundamental para o sucesso ou não da ferramenta de Sunde.

Gerd Leonhard – auto-denominado mídia futurista e autor de Music 2.0, dentre outros livros – declarou ter gostado do Flattr.

“Uma ideia brilhante (ainda que não seja inteiramente nova, e esteja de alguma forma relacionada ao Paypal e ao Kerchoonz). Ela corresponde a algo que eu vivenciei nos últimos anos: as pessoas pagam se a) são valorizadas e ganham méritos por isso, por isso ficam inclinadas a devolver o favor, b) elas confiam em você e c) o preço é justo. Talvez o Flattr possibilite isso; no meu ponto de vista, a economia do “muito obrigado” via micropagamentos pode ser poderosa.

Como se supõe, a ideia dos micropagamentos não é coisa nova na web. O Flickr funciona mais ou menos assim, sustentado pelos poucos (que, em escala global, são muitos) que pagam para ter o serviço pro da página, assim como diversos outros serviços. Porém, como também salienta Leonhard, micropagamentos não funcionam pra qualquer um, o que dá um tom para a dificuldade da manutenção do serviço do Flattr: ” seu público precisa ser bem grande para que o sistema funcione. Acho que esse será o primeiro desafio [para o Flattr]: conseguir 50 milhões de usuários e se tornar um serviço considerado padrão, como o PayPal, ou então o Flattr se tornará insignificante.

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Sunde disse, em entrevista ao caderno Link da semana passada, que o Flattr é “uma maneira de mostrar que você gostou de algo – e remunerar o criador por isso“. Tu escuta uma música, gosta, e dá um jeito de remunerar o autor de alguma forma por ela – no caso do Flattr,  pagando uma quantia mensal para usar todo o serviço. Ao final, o dinheiro é dividido igualmente entre os criadores do conteúdo (confesso que ando curioso em saber como essa divisão vai se dar de forma igualitária). É um sistema que se encaixa no que o mesmo Gerd Leonhard aponta como os mais interessantes de se “monetizar” o conteúdo digital; para ele, os únicos modelos realmente válidos são

os que funcionam por classificação de mérito do produtor de conteúdo e os que se parecem com o consumo gratuito de música, por exemplo, com pagamentos embutidos em faturas de provedores de acesso ou operadoras móveis, ou mesmo o download patrocinado por anunciantes”.

Acompanho estas discussões faz algum tempo, e posso dizer que a ideia do Flattr não é nada nova. Parece que alguns tem tentado cada vez mais adivinhar o futuro apostando na ideia de que o serviço de download ilimitado (ou streaming ilimitado, quem sabe) seja considerado como um serviço tipo energia elétrica e água encanada, onde se paga uma certa taxa por mês para ter acesso facilitado à tudo. Pagaria-se, por exemplo, para ter o acesso ao download (ou streaming) de todas as músicas possíveis de maneira fácil, de modo que qualquer usuário semi-familiarizado com o computador e a internet conseguiria, por conta própria, baixar aquele disco que tanto quer escutar. Seria talvez uma nova intermediação – que, na bem da verdade, seria uma facilitação, onde o valor seria cobrado mais para facilitar o serviço do que propriamente para o viabilizar. Não sei até que ponto isso é viável, e fico sempre com um pé atrás em iniciativas que visam restringir em vez de amplificar o acesso a cultura, mas seguimos acompanhando a discussão para ver no que (e se) vai dar.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1,2.

Controlemos, pois

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É em ritmo ainda lento, de preguiçosa volta de férias, é que o BaixaCultura segue com suas atividades. A indicação para relaxar o corpo, mas não o pensamento, é o webdocumentário Ctrl-V:VideoControl, resultado de uma pesquisa sobre a predominância do audiovisual em nossa sociedade.

Na verdade, é só a primeira das três partes do documentário. Mas essa parte de 23 minutos já é uma rica introdução para o assunto. O vídeo fala um pouco sobre a origem do distrito-capital da cultura norte-americana, Hollywood, e principalmente das consequências do padrão Hollywood de qualidade audiovisual. Grandes estudiosos do tema expõem seus pontos de vista sobre como sempre se deu a disseminação de valores políticos e econômicos através dos filmes veiculados pela maior industria cultural do mundo.

Dentre outras coisas, é esclarecido como essa indústria ganhou força. Por ser uma arte cara, em que era, e ainda é, necessário grandes equipamentos para a capitação e reprodução de imagens em movimento, pouquíssimos possuíam condições de fazer cinema no início do século XX. Os monopólios cinematográficos se formaram e criaram as primeiras salas de cinema, que estruturaram os chamados circuitos de distribuição. Estava criado um sistema exclusivo de entretenimento audiovisual dominante no mundo inteiro desde a Primeira Guerra. O governo americano tinha total consciência da força das imagens e por isso sempre apoiou a maior máquina de fazer filmes do mundo, uma grande exportadora do american way of life. A nossa conhecida Motion  Picture Association of Amercia (MPAA) inclusive tinha o nome de Motion Pictures Export Association entre 1945 e 1994, palavrinha esta que consta no site da MPAA da Ásia mas não no site da MPAA da América.

E o resto é conhecido. A industria cre$ceu e dominou o mundo. Mas chegaram os tempos de Internet, com seus computadores conectados, compartilhando conhecimento, música, livros, e, mais tarde, filmes. Então Hollywood sentiu o perigo de perder seus poderes altamente lucrativos e políticos e começou a caça às bruxas, ou melhor, aos piratas. Pressionando a Justiça americana com sua influência esmagadora, afundou o Pirate Bay e fez a mais recente baixa, o Mininova, além de processar individualmente diversos usuários  de programas P2P. Essa relação simbiótica entre o governo e a industria cultural é tratada ao fim do documentário, pelo jornalista Edward Jay Epstein que faz um alerta: “Teremos (já temos) uma enorme batalha pelo direitos digitais. Um dos principais meios de influência da Casa Branca sobre Hollywood é a necessidade que esta tem de que o governo vá a um país como, por exemplo, a Tailândia e diga: ‘Se quiserem que façamos X, Y e Z por vocês, inclusive socorro militar, queremos que façam algo sobre a pirataria digital”.

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Infelizmente, por enquanto só está acessível a primeira parte do documentário [que dá pra ver no site, nessa tela aí acima]. Isso porque as outras partes serão editadas colaborativamente, com trechos que estão disponíveis no canal do youtube do documentário. O resultado do processo de pesquisa e edição será um longa-metragem de aproximadamente 70 minutos no total das três partes do webdocumentário. Conforme o diretor Leonardo Brant, a produção de Ctrl-V:: VideoControl, contou com o apoio da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID)  e inúmeros pesquisadores e profissionais envolvidos com o tema, além da participação ativa da equipe do Instituto Diversidade Cultural e dos membros da Red Audiovisual Iberoamericana , fundações que Brant ajudou a criar.

O diretor, pesquisador de políticas culturais e autor de quatro livros sobre o assunto, revela que todos as entrevistas foram gravadas com uma câmera fotográfica digital com a função vídeo. Atitude compatível com seu discurso de democratização do acesso ao audiovisual, e que não comprometeu a qualidade das imagens. Outros recursos utilizados foram ainda o uso do preto e branco em todos os depoimentos, não desviando dos discursos a atenção do espectador ; e enfatizando esses depoimentos, a intercalação entre eles com trechos de filmes hollywoodianos, como do filme “This is the Army”, de 1943, e do famoso Matrix, de 1999.

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Amanhã, dia 26 de janeiro, o documentário completo será apresentado no primeiro dia do Fórum Social Mundial, em São Leopoldo, durante a 2ª Reunião Pública Mundial da Cultura. No dia seguinte, quarta-feira, o webdoc vai fazer parte da mostra “Outros Mundos – O Cinema Contra as Injustiças da Globalização”, em Porto Alegre.

[Para saber mais detalhes sobre as exibições, clique aqui. ]

Confira abaixo uma entrevista realizada por e-mail mui gentilmente concedida pelo diretor Leonardo Brant. Ele fala sobre o processo de pesquisa para o projeto, o que o levou a fazer tal inovação, como foram as filmagens, e quais os planos para Ctrl-V.

1)    Há quanto tempo está fazendo a pesquisa? Como ela funciona?

Pesquiso a relação entre diversidade cultural e democracia audiovisual desde 2002. A primeira iniciativa foi a publicação de uma coleção de livros a esse respeito, entre 2003 e 2005. Ctrl-V nasceu da convergência dessa pesquisa com meus experimentos audiovisuais. E sobretudo a partir da decisão de trabalhar com cooperação internacional, em parceria com o Divercult, organização cultural com sede em Barcelona. Ctrl-V é uma pesquisa-ação. Busca resgatar elementos históricos, sociais e mercadológicos relacionados ao audiovisual. O objetivo é ampliar as perspectivas políticas e mercadológicas do processo de convergência digital, alertando para riscos e visualizando as incríveis oportunidades que as tecnologias da informação e comunicação oferecem para a consolidação de uma cidadania cultural.

2) Por que a decisão de produzir o documentário?

Não tínhamos interesse em produzir uma pesquisa teórica. Nosso objetivo foi justamente testar a efetividade dos pensamentos e conceitos com que nos identificávamos. As propostas de comunidade de conhecimento, cultura da convergência, democracia audiovisual são reveladoras e nos fazem acreditar em nossa capacidade de exercer o poder e ocupar as brechas de controle e opressão do capitalismo. Mas até onde podemos esticar essa corda? Além de tratar da propriedade intelectual, por exemplo, buscamos ocupar as brechas da legislação atual. Colocamos o tempo todo o nosso conhecimento, e das redes com que dialogamos, à prova.

3) Quais os motivos para a divisão da produção em três partes? Quando serão distribuídas no site as outras?

O primeiro motivo é que o tempo da Internet é diferente do tempo da sala de cinema ou da televisão. O tempo de maturação de um produto cultural na web também é diferente. Exige a ativação de redes, a discussão de cada um dos pontos abordados em cada uma das partes. O material é denso, complexo. Depois de seu percurso na web, queremos avançar nas possibilidades de difusão em outras plataformas.

4) Há o projeto para extensão da pesquisa em outras plataformas, como um livro, não?

Começamos a pensar no livro apenas agora. É claro que cada entrevista já foi pensada para o suporte livro, mas ainda não tinha ideia de como iria organizar todo o material pesquisado. Agora já temos um experiente e competente editor trabalhando nesse conteúdo, o Ricardo Giassetti. Nossas discussões sobre formato, linguagem, edição apenas começaram. É cedo para falar de como será o livro.

5) Como foi a experiência de filmar com uma câmera fotográfica?

A câmera utilizada em todas as imagens do webdoc é Canon G10, de 14,7 megapixels. A resolução de vídeo é de 640 linhas, suficiente para o ambiente web, mas não para outros suportes, sobretudo numa era de TV em alta definição. Fiz uma pesquisa razoável com máquinas fotográficas, até que cheguei num modelo bem compacto, que guarda as características de um instrumento caseiro, mas oferece algumas possibilidades mais avançadas de fotografia. Não queríamos fazer um vídeo caseiro, mas sim um filme, com textura, linguagem e som de cinema. Tivemos inúmeras dificuldades para buscar uma aproximação maior com esse tipo de linguagem, mas acho que o resultado foi bem positivo. Hoje utilizaria outras câmeras disponíveis no mercado, sobretudo com maior resolução de vídeo e som externo. A captação de som foi, em termos técnicos, o maior complicador de todo o processo.

6) Depois da exibição no Fórum Social Mundial, quais os futuros planos para a produção?

Redes sociais. Precisamos dialogar com sites e redes focados na conversação sobre cinema, televisão, convergência digital. Queremos dialogar também com outros produtores de webdocumentários focados nessa temática. Por fim, vamos lançar uma mostra com debate, testando uma ampla discussão em ambiente transmídia. A mostra será realizada uma vez por mês na Matilha Cultural, um espaço interessantíssimo no centro de São Paulo com quem nos identificamos muito.

[Marcelo De Franceschi]

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Roube Este Filme I e II no ciclo copy, right?

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Dando sequência ao  ciclo “copy, right?”, o BaixaCultura.org e o Cineclube Lanterninha Aurélio novamente  orgulhosamente apresentam os filmes “Roube Este Filme I” e “Roube Este Filme II”, dois capítulos-documentários sobre a complexa relação entre o compartilhamento de arquivos via web, a dita propriedade destes arquivos, e como a internet insere novas possibilidades que bagunçam tudo aquilo que pensávamos estar estruturado sobre direitos de autor, pirataria digital e formas de distribuição e circulação da cultura na sociedade. Ambos filmes são dirigidos pelo inglês Jamie King e produzidos pela misteriosa The League of Noble Peers, um grupo de produtores que pouco mais se sabe além do fato deles serem alemães e ingleses e terem produzidos as duas partes de “Roube Este Filme”.

[A liga parece ter um modo de atuação, digamos assim, parecido ao do coletivo italiano Wu Ming, especialmente no caso do autor-fantasma (ou coletivo) Luther Blisset, detalhado brilhantemente no livro Guerrilha Psíquica, da ótima coleção Baderna da Editora Conrad.  Saca a fala do grupo, presente no Roube Este Filme II: “People always ask us, who are The League of Noble Peers? And we tell them: You are, I am, even your bank manager is… insert yourself here, because we all produce information now, we all reproduce information, we all distribute it…]

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O primeiro Roube Este Filme (no original, Steal this film), lançado em 2006 via arquivo torrent na própria página oficial do documentário, tem como ponto central a forma como entidades de lobby, como a MPAA (Motion Picture of America, a associação dos grandes estúdios de cinema dos Estados Unidos), trabalharam sua influência sobre as autoridades na Suécia para causar um ataque ao Pirate Bay em maio de 2006, quando a empresa onde ficavam hospedados os servidores do site (o host) foi invadida por policiais e teve os seus computadores apreendidos. Para contar essa história em 32 minutos, os produtores entrevistaram desde os responsáveis pelo Pirate Bay até produtores e dirigentes da indústria do entretenimento, passando ainda por figurões de Hollywood (como o ator Richard Dreyfuss, autor de uma das falas mais lúcidas sobre a polêmica toda), membros do Partido Pirata Sueco e usuários de tecnologias de compartilhamento de arquivos.

Os que visitam essa página faz algum tempo devem se lembrar de que já falamos bastante do Roube Este Filme I num dos posts mais comentados e discutidos deste um pouco mais de um ano de BaixaCultura. Aliás, os que estão entrando agora também devem ver o banner que se encontra aqui do lado, que leva justamente ao já linkado post, que não está ali por acaso: nosso parceiro Edson fez a tradução das legendas do filme para o português e as disponibilizou, seja já sincronizada com o filme  e prontinho pra baixar, no Youtube dividido em quatro partes ou, ainda, só a legenda mesmo, em formato srt.

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Roube Este Filme II, lançado oficialmente em novembro de 2007 na conferência “The Oil of the 21st Century – Perspectives on Intellectual Property“, em Berlim, Alemanha,  além de ser um poquito mais longo (44 minutos) que o primeiro, vai mais além na discussão do contexto econômico/tecnológico/cultural que está diante das chamadas “copyrights wars”, as batalhas entre o livre compartilhamento de bens culturais e o repressão à estas práticas através da tentativa de endurecimento das leis de direitos autorais. Esta segunda parte traça também um paralelo entre o impacto da imprensa e o da Internet em termos de tornar a informação acessível para além de um grupo privilegiado de “controladores” da informação. O argumento central do filme é de que a natureza descentralizada da Internet faz com que a aplicação dos direitos de autor hoje seja praticamente impossível – pelo menos se considerar estes direitos tais como eles foram estabelecidos primeiramente no século XVI na Europa e como ainda hoje se configuram.

Segundo matéria do jornal britânico The Guardian, ambas partes de “Steal This Film” se inserem no coração de um estilo de documentário-manifesto, onde os cineastas praticam, em seu próprio filme, aquilo que defendem perante à sociedade. É por conta dessa estratégia que as duas partes estão disponíveis nos mais variados formatos para download na página oficial dos filmes, bem como as legendas em mais de 10 línguas, todas produzidas e enviadas espontaneamente pelo público mundo afora.

Dentre os diversos festivais que os dois documentários foram exibidos, destacam-se o Sheffield International Documentary Film 2008, na Inglaterra, Tampere Film Festiva 2008, na Finlândia, South By Southwest festival 2008, em Austin, nos Estados Unidos (este, um dos principais festivais de música e cultura alternativa do mundo) além de uma rumorosa exibição no International Documentary Film Festival em Amsterdã, Holanda, uma das raras ocasiões onde o diretor Jamie King falou sobre o filme e a The League of Noble Peers. Ambos os documentários também já foram exibidos em diversos canais estrangeiros, como o History Channel, Canal + Poland, TV 4 Sweden e o Noga, de Isreal.

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Chegou a vez do Lanterinha Aurélio exibí-los em Santa Maria, nesta quarta-feira 23 de dezembro, às 19h, no Auditório do Centro Cultural da Cesma, 3º andar. Apareçam, divulguem para os amigos aparecerem e bora lá!

[Leonardo Foletto.]

Primeiro dia do “copy, right?” (e algumas pensatas que surgem)

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Com algum atraso,  tenho que dizer, em primeiro lugar, que o primeiro dia do ciclo “copy, right?” foi bastante produtivo. A presença do público foi satisfatória; compareceram entre 30 e 40 pessoas, sendo que 25 assinaram a ata de presença. Como a foto acima indica, não foi um público para encher o auditório do Centro Cultural da Cesma, mas dizem que a média do Cineclube costuma ser  nessa faixa de pessoas. A divulgação pela cidade foi abrangente, com direito a espaço nos dois jornais principais, e-mails para listas diversas e cartazinhos espalhados (pessoalmente) por alguns cantos do centro da cidade – muito embora tudo tenha sido feito com pouca antecedência.

Apresentado o ciclo, foi exibido “Good Copy, Bad Copy“, de 59 minutos de duração, seguido de alguns comentários meus e a abertura para o debate, como de praxe em cineclubes. Aí foi minha grande surpresa; debateu-se de verdade. E não apenas sobre o filme, mas sobre diversas questões que compõe o pano de fundo de Good Copy, Bad Copy, da neutralidade da rede até reações desproporcionais contra a dita “pirataria” digital como o Hadopi francês e a Lei Azeredo; da democratização cultural, agora possível (ou utópica?), até as dificuldades (ou potencialidades?) de um músico para sobreviver no variadíssimo cenário musical planetário de hoje; da apropriação (nefasta, diga-se) dos termos comunismo e socialismo na tentativa de entender o sistema da internet até o incrível modelo de negócio do tecnobrega do Pará, tema dos últimos 20 minutos do filme – provavelmente os vinte minutos que mais chamaram a atenção do público, um pouquinho a frente do exemplo da Indústria de Cinema da Nigéria (Nollywood), ambas criativas e orgulhosas formas de negócios  oriundas da periferia mundial e à margem da Grande e Poderosa Indústria do Entretenimento.

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[Para todos aqueles que quiserem saber mais sobre Nollywood, recomendo a reportagem “Cinema Noir“, da Trip da janeiro deste ano. Da sacada do título à pauta criativa e antenada, passando pelo texto descolado (no bom sentido, veja bem) comum aos textos da revista, é um baita exemplo de reportagem bem feita, daquelas que bons pares de sapato são mais importantes do que horas em telefone, pra ficar numa metáfora ao gosto de Tchekov. Pros que querem saber mais sobre o tecnobrega do Pará, recomendo estarem presentes no terceiro dia (30/12) do ciclo para assistir “Brega S/A”, ou lerem o bom Tecnobrega: o pará reiventando o negócio da música, de Ronaldo Lemos e Oona Casto, disponível também em pdf.]

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O debate final teve opiniões tão distintas quantos as idades dos debatedores, o que particularmente me agradou bastante, pois uma das ideias centrais do ciclo era justamente propor o debate sobre estes assuntos aqui por Santa Maria – e os filmes, nesse sentido, seriam propulsores dos questionamentos. Nas opiniões, pode-se notar que  a esperança de que a rede venha a democratizar a sociedade (e aí entram cultura, política, gostos e possibilidades criativas) convive com a expectativa de que mais essa oportunidade venha a passar, especialmente por ação da poderosa mão (invisível?) do mercado, que não admite perder o que conquistou durante os últimos séculos – e se inserem nesse guarda-chuva ações como as que visam combater a “pirataria” digital, algumas resultantes em leis que ferem frontalmente a dita neutralidade  original da rede. Apesar dos pesares, nota-se que a esperança continua sendo maior que a discrença, o que me fez resgatar um cético otimismo, quase esquecido nos últimos meses perante a maré tortuosa de más notícias.

Ao fim, o tempo de conversa/debate/discussão foi quase o mesmo que o da exibição do filme, no que eu agradeço muito às pessoas que estiveram presentes na quarta-feira passada.

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Dj DInho Tupinambá e sua trupe de fãs mirins nas ruas de Belém

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Mais do que qualquer outra coisa, ver “Good Copy, Bad Copy” novamente me fez querer pensar em mais e mais exemplos de alternativas à margens da Indústria. Casos como o do tecnobrega e o de Nollywood nos dizem muito, é certo, e funcionam bem porque essencialmente são pensados (ou foram pensados, mesmo que sem se dar conta disso) a partir das particularidades de uma dada região. Querer aplicar estes exemplos à realidade do planeta inteiro, como A alternativa a ser seguida por todos, é indício de fracasso; nestes relativíssimos tempos atuais, uma solução nunca é A solução se nela não forem consideradas as particularidades do lugar de onde se está pensando. É mais ou menos o que dizia Gil no final desse post, quando perguntado por músicos de uma banda paulista qual seria a saída para ganhar dinheiro com sua música: “O problema é que vocês querem que apareça outro modelo único, que não vai exigir esforço algum e te traga o sono de volta, dizia Gil, no que continuava ao afirmar que hoje é exigido que venhamos a pensar um modelo próprio para a necessidade de cada um, a partir das características da obra de cada um.

É nesse sentido que busco exemplos, de todos os lugares do mundo, que contenham as mais distintas características possíveis. É a experiência dessa diversidade de situações combinadas com a necessidade real e prática de um grupo de pessoas de um dado lugar que surgirão novos modelos à margens da dita Indústria do Entretenimento. Quanto mais exemplos melhor, pois é sinal de que estamos, de alguma forma, aceitando a provocação de Gil na busca de uma estratégia própria e criativa de vivermos de nossa arte. Além do que muitos, milhares e milhões de exemplos são um sinal efetivo da ruína da nefasta indústria que sustenta artistas montados em suas luxuosas, moribundas e preguiçosas fortunas,  o que, logicamente, é danado de bom, não?

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: Marcelo Cabala e Marcelo De Franceschi.
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Ciclo copy, right?

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O BaixaCultura, em parceria com o Cineclube Lanterinha Aurélio, ligado à Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (Cesma), orgulhosamente apresenta o ciclo “copy, right?“, a ocorrer em três quartas-feiras deste mês de dezembro no auditório do Centro Cultural da Cesma, em Santa Maria-RS, com a exibição de quatro filmes que discutem cultura livre, direito autoral, pirataria digital e outros temas que este blog vem falando desde há um pouco mais de um ano.

O ciclo começa na quarta feira depois de amanhã, 9 de dezembro, com “Cópia Boa, Cópia Má”, auto-referenciado como um “documentário sobre o estado atual do copyright e da cultura”, dirigido e produzido pelos dinamarqueses Andreas Johnsen, Ralf Chistensen e Henrik Moltke e tema de nosso primeiro post, no longínquo 15 de setembro de 2008. Lançado em 2007, o filme, com duração de 59 minutos, levanta questões delicadas relativas aos copyrights e a propriedade intelectual, trazendo interpretações tanto do ponto de vista dos entusiastas da cultura do remix quanto dos defensores da manutenção do status quo dos direitos autorais.

No segundo dia serão exibidos “Roube este Filme I” e “Roube Este Filme II“, ambos produzidos pela misteriosa The League of Noble Peers e finalizados em 2006 e 2007, respectivamente. O primeiro documentário, de 32 minutos, é centrado no caso do Pirate Bay, e também é um velho conhecido nosso, já tendo aparecido por aqui na nossa postagem campeã de comentários até agora. O segundo, com duração de 44 minutos, busca entender questões tecnológicas e culturais que estão por trás da chamada “copyright wars”, além de discutir algumas transformações culturais e tecnológicas em andamento com o advento da internet.

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Por fim, na quarta feira dia 30, antevéspera do reveillon, será exibido o brasileiro “Brega S/A“, documentário dirigido por Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, finalizado em setembro deste ano. O filme trata da surpreendente cena tecnobrega de Belém do Pará, um fenômeno cultural que nos últimos tempos tem atraído a atenção mundial por conta de sua inovadora estratégia de comercialização, onde a pirataria entra como mais um elemento parceiro na circulação do que um “inimigo” a ser eliminado.

Como os filmes a serem exibidos e o próprio nome do ciclo sugerem, a ideia que percorre esta amostra é a da cópia livre, do livre compartilhamento de informação e de ideias. Todos os documentários estão disponíveis gratuitamente na rede, e alguns deles – caso dos exibidos no primeiro e no segundo dia do ciclo – incentivam a exibição/reprodução e até remixagem de seus conteúdos. Eles partem do princípio, que há tempos vem sido discutido por aqui, de que a criação intelectual se defende ao compartilhar, algo que vem a calhar com outra ideia, trazida pelo notório coletivo italiano Wu Ming, de que obras intelectuais não devem ser apenas produtos do intelecto, mas produtoras de intelecto, como bem Reuben tratou de explicar quando postou a sua tradução de um dos inúmeros textos do coletivo.

Vale lembrar que a cada dia do ciclo um convidado irá comentar os filmes no auditório da Cesma, um tipo de prática corriqueira e importantíssima na atividade cineclubista. Além disso, por aqui também teremos um acompanhamento especial do ciclo; um post com informações básicas sobre cada filme alguns dias antes de sua exibição, e outro com algumas críticas e comentários logo na sequência da exibição dos filmes, como forma de estimular o debate e o confronto saudável de ideias para além do espaço do cineclube.

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Para finalizar, o lembrete:

Ciclo Copy, right?


Cineclube Lanterninha Aurélio

Auditória da Cesma, Professor Braga 55

19h, de graça

9/12 – Cópia Boa, Cópia Má (Dinamarca, 2007, 59 min)

23/12 – Roube Este Filme I (Reino Unido/Alemanha, 2006, 32 min)

Roube Este Filme II (Reino Unido/Alemanha, 2007, 44 min)

30/12 – Brega S/A (Brasil, 2009, 60 min)

Apareçam!

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[Leonardo Foletto.]

P.s: Agradecimentos ao Cabala e a Cesma pelo apoio na organização do ciclo, e à Carla pelo “apoio gráfico”.

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“Pirataria” Digital na Universidade

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Já havia comentado via twitter, mas por aqui não: ontem participei da aula de Comunicação Digital da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, com uma apresentação sobre “Pirataria” digital. O convite me foi feito pela professora Luciana Mielniczuk, minha orientadora na graduação na UFSM e desde então parceria de sempre, a quem eu agradeço pela oportunidade.

A apresentação foi centrada na questão da mudança de paradigma na Indústria Cultural a partir do advento da internet, e de como o direito autoral hoje precisa ser urgentemente revisto a fim de poder acompanhar o desenvolvimento tecnológico (e o consequente cultural) da sociedade. Fiz uma pequena revisão sobre a questão da autoria através dos tempos, e também comentei algo sobre o Copyleft e o Creative Commons. Foi uma ótima experiência, em todos os sentidos. Agradeço aos alunos e a Luciana pela receptividade.

Aqui abaixo está o ppt da apresentação, estruturado de forma bem simplificada e didática. Críticas e sugestões de melhoria para uma próxima apresentação são mais que bem-vindos.

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[Leonardo Foletto.]

Crédito foto: 1.

Futuro da música depois da morte do CD

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O título da postagem é de um livro que já citei por aqui – e que, aliás, vale a leitura, que pode ser feita baixando de graça o pdf. Mas é também mais ou menos o assunto que eu, Atílio Alencar, Jefferson Bernardo e Leonardo Palma discutimos no programa Onda Ânomala, o podcast organizado pelo coletivo Macondo, de Santa Maria, que é veiculado na rádio do Portal Fora de Eixo e também na página do próprio Macondo.

Discutimos é costume de dizer, porque ninguém discutiu e sim conversou. Leonardo com suas costumeiras e produtivas contribuições teóricas, Atílio e Jefferson com a boa experiência que a manutenção de um lugar como o Macondo traz para falar sobre futuro da música, morte do cd e assemelhados. O Macondo, aliás, é um caso a parte no interior do Rio Grande. De uma modesta experiência hippie-anárquica a coletivo cultural e uma das principais casas de shows do interior do estado não passaram mais do que cinco anos. Nesse período, tocaram no palco da casa figuras conhecidas do cenário (outrora) independente nacional como Wander Wildner, Júpiter Maça, Vanguart, Matanza, Autoramas, Zefirina Bomba, AMP, Feicheleres, Graforréia Xilarmônica, Superguidis, Pública, Identidade, dentre outros, além de diversas iniciativas não-musicais – com destaque especial para a recente criação da sala  Dobradiça, um local dedicado (mais) as artes plásticas que funciona em anexo à sede do Macondo.

Para escutar o Onda Anômala, basta ir aqui e clicar no programa do dia 19 de setembro. Mais sobre o Macondo tem aqui, e também no documentário recém-lançado (o cartaz que abre este post é dele), que conta muito bem a história dos cinco anos da casa, com direito a algumas histórias da já clássica primeira sede, certamente um dos lugares onde mais se viu estranhezas de todo o tipo no interior do RS e onde eu mais tomei Bavária (da clássica) na vida.

[Leonardo Foletto.]

Créditos foto: 1.

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O estranho processo de Horacio Potel – ou quando a filosofia não é para todos

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Horacio Potel é professor de filosofia da Universidade de Lañus, em Buenos Aires. Em 1999, decidiu criar três diferentes páginas pessoais para disponibilizar ensaios traduzidos para o espanhol dos filósofos alemães Nietzche e Heidegger e do argelino Jaques Derrida.  Além dos textos, as páginas continham fóruns de discussão, biografia, imagens e outros tipos de materiais comuns à sites como estes. A ideia de Horácio era disserminar o material para todos aquele que tivessem interesse, num tipo de função exercidas por professores já há muitos séculos: ajudar seus estudantes a terem acesso ao conhecimento.

Boa parte do material disponibilizado pelo professor é bastante difícil de ser encontrado na Argentina. Em Buenos Aires, por exemplo, apenas duas livrarias tinham alguns dos escritos de Derrida que poderiam ser lidos gratuitamente na página de Horácio. Outros quantos textos, que deixaram de ser editados em livro na Argentina, poderiam ser encontrados em jaquesderrida.com.ar porque foram garimpados em livrarias durante décadas por Horácio, segundo o próprio afirmou em matéria da P2P Foundation.

Como não encontrava os textos de Derrida em seu país, o professor chegou a entrar em contato com duas companhias do México que editavam a obra de filósofo, Porrúa e Cal y Arena. Uma edição com a obra do filósofo argelino – 80 páginas, letras míudas – custaria em torno de U$42 dólares, aproximadamente 162 pesos argentinos. Se para um professor como Horácio – que alega ter recebido em seu último contra-cheque $1350 pesos – o valor já é quase mais que 10% de seu salário, imagina para seus alunos.

Por conta destes e de outros fatores, Horácio manteve suas páginas durante 10 anos, até abril de 2009, quando começaram os embates com a justiça argentina. Neste tempo, ambas tiveram mais de 4 milhões de acessos, e até então estavam sempre entre os três primeiros resultados quando se fazia uma busca pelos nomes dos autores no Google da Argentina.

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Li a nota do jornal argentino Página 12 um pouco mais de uma semana atrás, quase ao mesmo tempo em que também foi publicada no  Trezentos e difundida por diversas blogs e listas de e-mails Brasil (e mundo) afora. Uma operação envolvendo a editora Les Editions de Minuit, Câmara Argentina do Livro e a Embaixada Francesa na Argentina conseguiu processar o professor por tornar disponíveis gratuitamente textos dos filósofos Heidegger e Derrida nas páginas heideggeriana.com.ar e jaquesderrida.com.ar, respectivamente – textos estes que ainda se encontram protegidos pela lei de direitos autorais, já que tanto Heidegger como Derrida morreram há menos de setenta anos, prazo necessário para que a obra passe a ser de domínio público. Horácio pode pagar uma multa de 40 mil pesos, além de já ter recebido o singelo aviso de que sua correspondência e sua casa poderão ser violadas ao longo do processo.

Segundo nos conta o repórter Facundo García, autor da matéria do jornal argentino, a história toda começou quando a Les Editions de Minuit – editora que tem os direitos autorais de sete obras de Jaques Derrida –  entrou com uma queixa contra Horácio, com o apoio da Embaixada Francesa na Argentina e da Câmara Argentina do Livro.  A queixa enquadrava a disponibilização dos textos gratuitamente dos filósofos na lei argentina 11.723, que trata de propriedade intelectual – espantosamente criada em 1933 e só modificada em 1998, ainda que somente para incluir o software no mesmo rol de produção científica/artística/cultural/didática supostamente protegidos pela lei.

O professor Horácio logicamente que estranhou muito a situação. Em um de seus comunicados sobre o assunto, publicado  aqui, Horácio disse que:

“Al parecer, mantener bibliotecas públicas de filosofía en Argentina es ilegal porque viola la ley 11.723. Si las cosas se guiaran por la razón, se debería revisar esa ley de 1933, que está provocando que se criminalice a las bibliotecas públicas y a sus bibliotecarios. Eso, claro, si se sigue pensando que éstas son instituciones útiles y necesarias, como me enseñaron en la escuela primaria, donde me decían que entre las principales funciones del Estado está la difusión de la cultura, en la convicción ilustrada de que sólo el conocimiento nos hace libres”.

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Logo quando as duas páginas foram retiradas do ar, no início de abril deste ano, surgiram diversas manifestações de apoio a  Horácio, inclusive do Partido Pirata da Argentina. No Brasil, o blog Catatau emcampou a ideia e tratou de publicar uma boa parte do material que estava em heideggeriana.com.ar, assim como diversos apoiadores disponibilizaram outro tanto do material para download no easy-share – além do fato de que uma considerável parte dos arquivos da página estão disponíveis no Wayback Machine, um imenso arquivo que conta com mais de 1,6 bilhão de páginas criadas desde 1996.  Idelber Avelar, do recém-finado blog O Biscoito Fino e a Massa, enviou uma carta à Horácio, além de ter feito um post onde o defende de forma bastante contundente e afirmar coisas como “elas não eram simplesmente duas páginas dedicadas a Heidegger e Derrida. Eram, de longe, os melhores recursos existentes sobre os dois pensadores em toda a internet, em qualquer língua.”

A decisão da Justiça Argentina cabe recurso, mas como diz a matéria do jornal Página 12, “los fantasmas de una condena injusta siguen rondando“.

[Leonardo Foletto.]

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P.S: A terceira página com textos de filósofos mantida por Horácio continua em atividade: trata-se da www.nietzscheana.com.ar, dedicado à Nietzsche. Ficou livre da decisão da justiça por conta de que o alemão morreu  ainda em 1900.

Créditos: 1,2.

De quem é a música?

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“De quem é a música?” é o nome do texto que foi publicado na edição deste final de semana do Diário de Santa Maria, jornal do Grupo RBS que tem sede em Santa Maria-RS e cobre a região central do Estado. Foi escrito por mim a partir de um outro texto que fizemos em conjunto (eu, Reuben e Edson) e que  foi publicado no jornal O Imparcial, de São Luís-MA, em 16 de março deste ano (Caderno Ímpar, pág.2)

Trata-se de um remix de várias postagens publicadas aqui versando sobre o caso Pirate Bay, a história do copyright e os embates frequentes entre a Indústria Cultural e a dita “pirataria digital”. O texto saiu na seção Ideias , do Caderno Mix (espécie de caderno de cultura do fim de semana), e pode ser lido aqui.

[Leonardo Foletto.]

Crédito: 1.

Leia Richard Stallman

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Já havia indicado via twitter esta semana (a propósito: @leofoletto), mas o texto é importante o suficiente para apontar aqui no blog, ainda que com atraso.

Trata-se de “Acabar com a Guerra da Partilha“, do nosso velho conhecido Richard Stallman. Publicado originalmente em seu próprio site, o texto foi traduzido para o português pelo parceiro Miguel Caetano, do sempre ótimo Remixtures, e publicado na última segunda-feira, dia 24 de agosto. É uma interessante pensata sobre a questão do compartilhamento de arquivos, especialmente voltada à música e as gravadoras. Ao final, Stallman dá dicas de como os músicos podem “sobreviver” com seu trabalho neste novo contexto que a rede e o compartilhamento ilimitado nos apresenta.

“Quando as companhias discográficas armam um escarcéu a respeito do perigo da “pirataria”, elas não estão a falar de ataques violentos a navios mas sim a queixar-se da partilha de cópias de música, uma actividade em que milhões de pessoas participam num espírito de cooperação. O termo “pirataria” é empregue pelas companhias discográficas para demonizar a partilha e a cooperação ao compará-las com o sequestro, assassinato e roubo.

Continue lendo aqui.

Fica aqui também a sugestão para dar uma passada no site pessoal de Stallman, que tem desde os seus textos políticos, atualizados quase diariamente, até humor, ficção (científica, claro), relatos e fotos de viagem e mais um monte de outras coisas que tu (não) poderia esperar em se tratando de um dos mais instigantes ativistas/pensadores da cultura digital/livre destes tempos.

[Leonardo Foletto.]

Crédito: 1.

Cortando o barato (3)

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cortando o barato

Há exatos 10 meses e dois dias, publicava-se aqui no BC o post Cortando o Barato, que tratava do “fechamento” do blog Som Barato por conta de uma notificação de violação de direitos autorais do conteúdo do blog. Exatos 15 dias depois saía o Cortando o Barato (2), que tratava da mesma coisa, só que com outros blogs – o El Blog del Topo e Um Que Tenha.

Bem, agora, 10 meses e dois dias depois, volto a falar aqui do mesmo assunto, inclusive com (um) dos mesmos protagonistas de outrora: o Um que Tenha, que semana passada publicou um post no qual falava que havia recebido nova notificação do Google dando conta da suposta violação de direito autoral presente em 1.264 posts, ou seja, tudo o que foi ali publicado entre abril de 2006 e abril de 2007.  Nossa parceira piauiense Aracele já postou sobre este assunto em seu blog e no Trezentos, mas replico aqui para reforçar: trata-se de mais um ataque dos anti-piratas, que ainda não aprenderam (ou não querem entender) algumas coisas que Edson muito bem já explicou por aqui.

Nas palavras de Fulano, do Um que Tenha,

Já vimos esse filme, ele se repete todo segundo semestre do ano, há pelo menos três anos. Na cabecinha miúda deles, agora é a vez de retirar do ar o Um Que Tenha, como fizeram no ano passado com o Som Barato, e antes disso com outros excelentes blogs musicais. Coitados, não aprenderam nada.

Dessa vez, a notificação do Google veio DEPOIS da empresa ter apagado todos as postagens onde havia suposta violação de direitos autorais. O que é de uma sacanagem tremenda, porque não dá a chance do próprio blogueiro de retirar o material que havia publicado, numa clara ação de abuso de autoridade por parte do Google – que não se faz de rogado e ele próprio ensina qualquer um a denunciar violação de copyright em material sob sua responsabilidade.

DMCA, um exagero de lei
DMCA, um exagero de lei

Mas não há de ser nada. Como se sabe, caiu na rede, não tem mais fim; a rapidez de propagação de qualquer conteúdo na internet impede que haja controle de copyright deste mesmo conteúdo – e é também por isso que falamos que o copyright, tal como foi desenvolvido, não tem mais como existir. Quem também reconhece isso é o próprio Bruce Lehman – criador do DMCA, lei criada em 1998 nos EUA e sob a qual se baseiam hoje as denúncias de violação de copyright – que já anda dizendo que a política de propriedade intelectual dos Estados Unidos são um fracasso. Nas palavras de Lehman num evento recente em Montreal, Canadá: “o gato fugiu do saco… Nossas tentativas de controle pelo copyright não foram um sucesso. Estamos vivendo agora, se não estivermos entrando, em uma era do pós-copyright.

Vindo do homem que criou a principal lei de defesa do copyright e responsável por essa política no governo Clinton (1993-2001), a declaração parece soar como uma pá de cal na gritaria em torno da pirataria – ou, ainda, parece demonstrar uma incoerência tremenda quando colocada ao lado de notícias como a que abre esta postagem.

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A propósito: os blogs e sítios que receberam a famosa mensagem de violação de direitos autorais de que falamos aqui continuam existindo. O Som Barato funciona neste endereço, com a única diferença de que agora o usuário precisa se cadastrar para baixar os arquivos; O Blog del Topo funciona igualzito a antes, só que com outro layout e em novo endereço; por fim, a Discografias mudou de nome (Discografias: O retorno!), mas ainda conta com 300 mil pessoas em sua comunidade  que ali continuam tendo por  objetivo o mesmo de sempre: compartilhar álbuns sem nenhum fim lucrativo.

Mais informações e opiniões sobre o assunto aqui.

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Atualização 22/08

O Um que Tenha saiu do ar; se você entrar no endereço do blog vai dar de cara com uma mensagem de notificação do Blogger de que “este blog não existe”.  Se procurá-lo via Google, o primeiro resultado ainda será o Um que Tenha, mas o conteúdo do blog só está em cache.

O sempre atento Caderno Link, do Estadão, publicou em seu blog, na quinta-feira, uma entrevista com Fulano, responsável pelo blog. Dentre outras coisas (vale a pena conferir a entrevista), Fulano diz: “Se efetivamente o UQT for retirado do ar pelo Blogger, pode ter uma certeza: ele volta. De que modo ainda não sei, mas o Fulano é jovem demais pra se aposentar”.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1, 2.

BaixaCultura no RS: um relato

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vista interna do prédio da cesma
vista interna do prédio da cesma

Dizem alguns que quanto mais próximo do evento presenciado melhor é o relato sobre o mesmo evento. O pouco tempo para a digestão daquilo que se vê edita naturalmente o que de melhor deve ser dito; saem os excessos contextualizadores e narrativos e sobra a primeira impressão, limpinha,  sem reedições, pedindo para sair e fixar-se em seja qual for o suporte.

Dizia Borges que a memória é inventiva, e por medo de uma possível iniciativa ficcionista por demais da minha memória é que pensei em relatar o Seminário Estadual para a Auto-Sustentatabilidade Cineclubista o quanto antes possível, o que significava escrever um post aqui pro BC na mesma sexta-feira que aconteceu o evento ou talvez no dia seguinte. Mas só hoje, segunda, foi possível escrever, então desculpe possíveis invencionices e bora lá.

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O seminário começou já pela manhã, com um debate sobre distribuição de conteúdo para cineclubes. Quem falou foi Luís Alberto Cassol, figura das mais conhecidas na cidade e que, dentre outras funções, é Vice-presidente do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros e editor do blog Filmes de Junho, e Eduardo Ades, representante carioca da Associação Cultural Tela Brasilis.

À tarde participei da mesa que teve o nome oficial de “Direito Autoral & Constituição de Redes”. Gilvan Dockhorn e Antônio Martins falaram cada um por mais ou menos quarenta minutos, que eu deveria ter cronometrado, já que nesse momento era a minha função. Ambos são ótimos oradores, sabem como se expressar muito bem com palavras, como sabiamente comentou depois do evento Paulo Henrique Teixeira, assessor da Cesma e que, junto com Francelle Cocco, me convidou para o evento.

Gilvan, que além de cineclubista é professor de história, tratou de fazer primeiramente um balanço da história do copyright e do direito autoral, parecido com que Edson fez aqui no BC. Fez depois a necessária distinção entre bens culturais e mercadorias: ao baixar uma música sem o consentimento do detentor do direito autoral da mesma, está se obtendo um bem cultural, e não uma mercadoria que possui um “dono”  a lucrar com esta. Como na própria constituição brasileira se fala em “garantir a todos os acesso à cultura”, nada mais normal que a internet possibilite, com os downloads e tudo o mais, justamente o acesso à cultura para toda a população.

(Não é tão simples essa discussão, mas em outro momento que não aqui cabe complexificá-la)

Depois, passou para relacioná-los com os cineclubes, dizendo que tem muita coisa sendo produzida no Brasil, mas há dificuldades de distribuição desses produtos,  que daí a importância dos cineclubes e de uma formação de profissionais cineclubistas.

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Antonio, yo e Gilvan
Antonio, yo e Gilvan

Antônio Martins, que trabalhava até ano passado como editor da versão web do Le Monde Diplomatique e também faz parte do blog Trezentos, falou logo depois de Gilvan. Com calma e didatismo, tratou de resumir a questão do novo paradigma cultural/social/intelectual/econômico que a internet está possiblitando.

“A cultura e a comunicação de massa são paradigmas associados à modernidade e estão em crise, assim como estão em crise também as formas políticas de representação”.

Martins fala que a web possibilita uma troca (e uma circulação) de produtos culturais nunca antes vista. Da invenção da imprensa no século XIV aos meios de comunicação em massa do século XX,  boa parte (para não dizer TODA) dos bens culturais que tinhamos acesso eram aqueles que  eram selecionados pelos que tinham o controle das formas de  produção e distribuição desses bens – em suma, de quem detinha o $$. Na medida que, com a internet, tudo isso barateia, e, portanto, passa a poder ser produzido e distribuído por qualquer um, nós podemos selecionar àquela cultura que vamor ter acesso. As proporções dessa TREMENDA mudança ainda estão sendo sentidas – e, também, tentando ser entendidas, o que ainda não se concretizou e nem se sabe quando vai se concretizar.

Como jornalista que é, Antônio também falou de sua profissão. Disse que é preciso políticas públicas, como Internet banda larga para todos, para que a população possa ter condições de veícular a sua versão dos fatos e, desta forma, criar alternativas à mídia tradicional. Uma ideia interessante apontada seria a de remunerar, com recursos públicos, as  pessoas que estão produzindo comunicação não mercantilizada – ou que não é produzida em larguíssima escala. Editais de concursos para rede de blogs, criação de programas de formação, oficinas, prêmios, estímulos a formação de redes de blogs sobre difusão do cinema, dentre outras, são ideias que Martins acredita que possam mudar este sistema mercantil dos bens culturais.

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Entrada da cesma
Entrada da cesma

Para encerrar o debate, foi dado chance às perguntas. Que de início não vieram, talvez por acanhamento da platéia. Mas com a intervenção do já citado Cassol, foi dada novamente à palavra aos participantes – e aí me incluíram para falar, pois alguém na platéia (que agora não lembro) falou que “o mediador podia falar um pouco do Baixacultura, que é uma iniciativa bastante interessante no que diz respeito à estes temas“.  Foi bom de ouvir a lembrança ao nosso trabalho. Mas então tive de falar, com nada preparado, uma torrente de pensamentos não conclusos sobre cultura livre, direito autoral, cibercultura, jornalismo… mostraram até mesmo o blog no telão, o que foi legal.

Pelo menos a minha fala serviu (um pouco) de estímulo a platéia, que aí resolveu fazer perguntas aos participantes da mesa, que responderam até quase 17h, quando o coffe-break se tornou mais estimulante do que qualquer outro ponto para se discutir.

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Free-Culture

Tinha pensado em, ao final do debate, indicar dois livros que poderiam ser usados para quem quisesse entender um pouco mais dos assuntos discutidos. Pensei e até escrevi, mas acabei esquecendo. Então aí vai: o primeiro é Além das Redes de Colaboração, organizado por Nelson de Luca Pretto e Sérgio Amadeu e editado pela UFBA (e que está disponível em PDF). O livro conta com textos de muita gente importante no mundo da cibercultura, das artes e do cinema,  e é fruto de um seminário com o mesmo nome realizado em Porto Alegre, em 2007. A apresentação, a cargo do cineasta gaúcho Jorge Furtado, dá o tom da coisa:

“Ao mesmo tempo que devora, digere e recria o telefone, o cinema, a televisão, os correios, o rádio e a indústria fonográfica, a internet se aproxima do sonho de Borges de uma biblioteca infinita, onde o saber humano está disponível ao alcance de um toque. O que fazer com tão imenso poder é a pergunta que definirá o nosso futuro. Esse livro é uma boa contribuição para o debate”.

Outro livro que ia indicar é o Cultura Livre, do Lawrence Lessig, que também tá disponível em PDF – se quiser ler no original, tem em inglês também. Cultura Livre é um dos mais indispensáveis livros para entender o que significa a tal da cultura livre, e Lessig é um dos que melhor fala (por ser simples sem ser simplório) sobre o assunto.

Outra sugestão, aí mais no âmbito da academia e da cibercultura, é o blog de André Lemos, dos mais destacados pesquisadores brasileiros da área, professor associado na UFBA. Em especial, destaco esse texto sobre Cibercultura Remix, apresentado no Seminário Sentidos e Processos, realizado no espaço do Itaú Cultural em agosto de 2005.

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Agradeço à Silvana, que fez um post bem informativo sobre o evento e “me lembrou” de algumas falas dos debatedores. As aspas que usei dos entrevistados foram tiradas do blog dela, que é uma ótima referência para acompanhar o que anda acontencendo em Santa Maria. É dela também a  única foto do evento desse post. Agradeço também a Francelle pelo convite para participar do seminário e por quebrar um galho tremendo depois do debate.

[Leonardo Foletto.]