A importância do torrent para a cultura do compartilhamento

Semana passada, uma (velha) polêmica voltou a circular no Twitter: baixar séries e livros em torrent traz vírus para seu computador? Para além do fato de que sim, traz vírus (mas quem usa GNU/Linux sabe que não existe vírus), a questão provocou defesas apaixonadas do livre acesso ao conhecimento que o torrent, tornado símbolo da pirataria na rede, possibilita como poucos.

Andressa Soilo, antropóloga doutora pela UFRGS, que já esteve por aqui justamente escrevendo sobre a cultura do compartilhamento e do torrent [Streaming e a “pirataria” digital atuam em parceria?, setembro de 2019], escreveu um texto em seu Medium sobre a polêmica envolvendo o tema. Republicamos aqui abaixo porque, além de ótimo, o artigo ressalta importantes aspectos sociotécnicos e culturais do torrent para a cultura do compartilhamento potencializada na rede. Vale lembrar que fizemos duas postagens recentes sobre torrent por aqui: Como compartilhar conteúdo e fazer backup por Torrent e Como usar e baixar conteúdo compartilhado grátis, dois tutoriais que também resgatam aspectos históricos do formato e trazem nossa posição sobre o tema.

A CULTURA DO TORRENT

Andressa Soilo

O torrent não é algo do passado. Também não equivale a uma tecnologia substituída pela popularidade do streaming. O protocolo P2P, do qual o torrent faz parte, existe e persiste, não apenas enquanto meio de acessar algum bem digitalmente, mas também enquanto cultura colaborativa e de acesso.

Comumente pensado como referência de práticas piratas, o torrent possibilita o compartilhamento não somente de conteúdo que viola leis de direitos autorais, mas também conteúdo categorizado como legal. Atenho-me, neste texto, a refletir brevemente sobre os usos, os significados, os laços, as éticas, as percepções que o protocolo torrent mobiliza entre aqueles que fazem seu uso junto à pirataria.

Busco apresentar ponderações que transcendam noções circunscritas ao campo do imoral, incorreto, desonesto e ilegal. Que superem o campo de um uso meramente motivado ao campo econômico (às vantagens econômicas da pirataria), assim como visões mais atreladas às lógicas do direito (restritivas ao acesso).

Em contraste às limitações dessas visões, existem milhares de vozes que se reconhecem mais humanizadas, incluídas, contempladas e até mesmo justiçadas no uso da pirataria através do torrent.

Não raro o protocolo, combinado à pirataria, é compreendido por seus usuários como sinônimo de acesso, como expressão da democratização do consumo, como uma via de protesto às noções e imposições do mercado. Ou seja, o torrent mobiliza mais do que comandos de leis, provoca modos de pensar e de reorganizar e ressignificar o mundo em que se vive.

Sobretudo, é sobre compartilhamento. É sobre uma cultura de compartilhamento. Compartilhar informações é um ato intrínseco à internet. Faz parte de sua estrutura, de como foi pensada, de como funciona, de sua ética. O torrent traz em sua operacionalidade uma lógica (e não somente uma técnica) similar à das redes que lhe possibilitam, que possibilitam a todos nós estarmos conectados.

No livro Counterculture to Cyberspace (2006), o autor, Fred Turner, argumenta que o surgimento da internet se deu a partir de duas ideologias distintas e em voga nos anos 1960: a ideologia militar que emerge da Guerra Fria e a contracultura hippie atravessada por ideais e noções de liberdade e compartilhamento.

Diferente do que se pode pensar, a tecnologia dos anos 1960 e 1970 não era dominada por hierarquias rígidas, pois era pensada e criada a partir da ideia de interação entre humanos e máquinas como um sistema em redes. Assim, o mundo das redes em conexão e a teoria dos sistemas ofereceram uma alternativa para a prática das ideias da contracultura: a cibernética apresentava um modo de vivenciar o mundo fora das hierarquias verticais, e em um looping de circuitos de energia e de informação.

Desde o princípio da internet, a fusão entre redes, éticas de liberdade e filosofias que se opunham à burocracia e à política tradicional alicerçaram o funcionamento e o modo como essas redes interagem entre si. Ou seja, a tecnologia é permeada e moldada pelo social, pelas ideias de quem as cria, de quem as pensa, e também de quem as consome — constantemente, mudanças advêm das criatividades que acompanham os usos da técnica.

O torrent reproduz essa dinâmica sociotécnica operando através de uma configuração relacional entre arquivos, peers, seeders e trackers. Também reproduz filosofias e lógicas de pensar o acesso a partir de experiências subjetivas, como mostro brevemente a seguir.

Vivenciando o torrent

 

Mesmo após duas décadas, o torrent persiste enquanto opção de acesso a conteúdo. Ainda que passe a dividir significativo espaço com as plataformas de streaming entre aqueles que buscam diferentes e melhores modos de experienciar conteúdo, a importância e as motivações sociais que levam usuários a fazerem seu uso não podem ser ignoradas (ou menosprezadas). As justificativas estão envoltas em percepções de mundo que dão valor ao que, e como, o torrent oferece acesso. Destaco algumas dessas razões.

O motivo econômico. Antes da (discutível) acessibilidade oferecida pelas plataformas de streaming, o torrent oferecia eficientes possibilidades de alcançar um mercado cultural seletivo em termos de acesso. Bens considerados caros e de aquisição inviável por meio de vias legais para muitos grupos sociais passaram a ser aproximados e consumidos por estes. Um novo cenário de possibilidades e de inclusão é instaurado.

Nos últimos dez anos, a popularidade das plataformas de streaming reconfigurou a influência do torrent junto ao acesso. Novos meios legais disputavam espaço com preços considerados interessantes se comparados ao custo de uma TV a cabo. A popularidade do streaming, no entanto, fez com que o mercado o multiplicasse, tornando, mais uma vez, o acesso uma oferta exigente e custosa — afinal, a cumulação do valor das assinaturas de serviços para assistir o que se deseja não é compatível com acessibilidade.

Assim, uma das razões para o uso do torrent reside, ainda, na disparidade das condições de oferta do mercado e na realidade de quem não pode arcar com as exigências da dimensão legalizada. Muitas vezes, há quem assine um serviço legal, mas se utilize do torrent para acessar conteúdo que não lhe é disponibilizado. Há aqui um gerenciamento entre legal e ilegal. Uma gestão do (in)acessível em que o balanço se dá a partir de negociações de escolhas entre os melhores serviços a serem investidos, e o conteúdo a ser alcançado ilegalmente. Uma composição que enreda legal/ilegal para o alcance de uma harmonia.

Neste cenário também protagoniza os sensos de justiça de quem quer consumir. A reflexão sobre o que é justo e injusto na dimensão da distribuição e do acesso permeia as motivações de quem recorre ao torrent. A condicionalidade da cultura e da informação ao econômico faz com que muitos questionem o espaço da justiça neste arranjo, tornando o torrent receptivo (e mais justo).

Em uma conjuntura de sentidos de justiça semelhante, há também aqueles que, mesmo podendo arcar com o acesso, não o fazem nos moldes do mercado e do direito. Várias questões pessoais podem nortear tal opção, saliento a que mais se sobressaiu em minhas pesquisas: a questão ideológica.

Nestes casos, os formatos de distribuição de conteúdo, baseados em leis e punições, assim como em preços considerados inacessíveis, produzem emoções de oposição ao modelo do mercado. Grandes corporações são interpretadas como exploradoras, a liberdade de acessar a cultura e a informação é vista como cerceada por configurações liberais percebidas como injustas. Nesses casos, o torrent é utilizado como rejeição da cultura de mercado, às assimetrias das relações de poder entre mercado e consumidor. O torrent se torna um mecanismo de objeção, oposição, resistência.

O protocolo também mobiliza aqueles que percebem o conteúdo que querem acessar indisponível. Quando um bem passa de sua vida comercial, o torrent passa a dar uma sobrevida à cultura. É um modo de lembrar, de reintegrar, de existir. A recuperação da memória cultural é uma das prerrogativas de uma dinâmica distinta do mercado tradicional: a cultura não se dissipa em razão de lógicas comerciais e legais, ela é trazida à tona quando há vontade de compartilhá-la e vontade de acessá-la. Assim, motivações de restauração de um bem também atravessam o uso dos torrents.

O torrent também possibilita o acesso a bens difíceis de serem encontrados. Seja em razão de estarem banidos ou indisponíveis em determinadas regiões, ou mesmo raridades apreciadas por colecionadores. Um dos exemplos mais expressivos reside na disparidade de datas de estréias de conteúdo em diferentes localidades. Essa discrepância gera indignação e, mais uma vez, os sensos de injustiça são ativados para refletir os arranjos do mercado. O medo do spoiler, o sentimento de “ser deixado para trás”, de ser invisibilizado enquanto consumidor motiva um restabelecimento de uma justiça (simbolicamente violada) por meio do uso dos torrents.

Estes são apenas alguns exemplos que extrapolam noções que associam o uso do protocolo somente ao estigma da violação da lei, e à ganância. As motivações são permeadas por visões de mundo, sensos de justiça, emoções, valorização da cultura, entre outras reflexões sobre as configurações do mercado e do consumo. Ou seja, a cultura do torrent é mais complexa do que uma violação legal, é construída por vivências, pela experiência de seus usuários no mundo.

Mas, sobretudo, há um “espírito” de solidariedade/senso de comunidade nesta cultura.

Cultura do compartilhamento

Com o tempo, o compartilhamento dos arquivos via torrent ajudou a redefinir os modos de distribuição do entretenimento, assim como remodelou valores no campo do acesso, destacando a solidariedade como ética nas trocas, e reflexões contra a lógica dos direitos autorais.

Por vezes, quem faz uso do torrent acaba por compor uma rede permeada de dádivas, reciprocidades e obrigações. A colaboração não constitui apenas uma diretriz moral descompromissada, é um código de conduta que deve ser observado. Não basta somente receber arquivos, é importante que o usuário também os distribua a outros dispositivos em uma espécie de malha cooperativa.

A manutenção do sistema que mobiliza o torrent é baseada na lógica da reciprocidade. O sistema só sobreviverá, ou só operará de modo adequado e satisfatório se aqueles que recebem arquivos também os disponibilizarem proporcionalmente. Poucos compartilhadores, menos chances de fazer o download que se busca. Quanto mais pessoas possuem o arquivo, mais rápida será sua transmissão.

O equilíbrio entre dar e receber determina o êxito do acesso. Em termos de compartilhamento, algumas regras nos usos dos torrents reforçam o perfil colaborativo, ao mesmo passo em que produzem perspectivas, comportamentos e expectativas de reciprocidade.

De modo geral, espera-se que o usuário contribua com o upload de arquivos, e que apresente uma alta taxa de compartilhamento — indicativo de que está colaborando para o grupo, auxiliando ao menos uma pessoa a realizar o download. A etiqueta é importante: é esperado que doe a mesma proporção que recebeu. Quem se mostra mais generoso, é apreciado por seus pares. Em algumas ocasiões, quem compartilha mais é agraciado com downloads rápidos, em outras, a expressividade do compartilhamento passa a servir como moeda de troca para a entrada em grupos de trackers prestigiados. A ratio do compartilhamento também é medida para a manutenção do usuário em tal grupo.

Quem não colabora para o balanço da reciprocidade, é chamado de leecher, sanguessuga. São usuários que participam assimetricamente das dinâmicas de acesso, pois atuam de modo individual, sem compromisso com a comunidade. São percebidos como à margem do que é ser pirata.

Ser um pirata no cenário do torrent envolve mais do que acessar conteúdo ilegalmente. Compreende fazer parte de uma comunidade tecida e mantida por regras de cooperação em que a finalidade é compartilhar e servir à comunidade. É uma lógica de acesso parcialmente avessa à racionalidade do mercado. Enquanto que na cultura torrent a individualidade e o valor monetário não encontram amparo, no mercado convencional esses aspectos são valorizados.

Não se trata, assim, de questão que se esgote em dualidades de certo/errado. Não se resume a “pegar e tirar”. O torrent é sustentando por visões de mundo que dialogam constantemente com as inconsistências do mercado.

Todas as músicas em domínio público

Em 1997, uma banda chamada The Verve lançou a música “Bittersweet Symphony“, hit dos anos noventa indicado e vencedor de vários prêmios de música pop. Um extremo sucesso, tanto que é executada em rádios do mundo até hoje. A música começa com uma orquestra tocando um riff que está na cabeça de todo mundo que já ouviu pelo menos uma vez.

Este riff foi feito pelos Rolling Stones em 1965, em uma música qualquer deles, chamada “The Last Time“. O The Verve usou um sample de uma versão orquestrada da música, feita em outra ocasião para um songbook dos Stones. A gravadora da banda, sabendo que usariam um sample na música, pediu e recebeu a autorização para usar o trecho da original no seu sucesso. No entanto, tendo em vista o desempenho comercial estrondoso do single, um executivo cresceu o olho.

O ex-empresário dos Stones, detentor dos direitos das músicas da banda (percebam, o cara não é nenhum artista) processou o The Verve, alegando que o sucesso do hit era devido aos Rolling Stones, e que a banda tinha usado “mais que o autorizado” na música. O empresário ganhou e todos os direitos sobre a música, independente de ela ser completamente nova, passaram a ser dos Rolling Stones. Somente em 2019 Richard Ascroft (foto acima), co-fundador e vocalista do Verve, teve o direito pela música recuperado.

A indústria da música, talvez por ser o meio artístico mais popular da sociedade, é terreno da maioria dos casos de processo por direito autoral que conhecemos. As limitações criativas que o próprio meio da arte impõe em melodia também propiciam argumentos: são doze notas na música, sete tons e cinco semitons, e a partir disso podemos imaginar que existe uma quantidade limitada de coisas novas que se pode criar em termos de canção e melodia. Por maiores que sejam as possibilidades, elas têm um limite – menor que na literatura, por exemplo, onde as letras e palavras permitem mais combinações.

Poderíamos estender essa argumentação por mais parágrafos. Parece meio estranho, pra dizer o mínimo, que um artista diga “ei, eu inventei este pedaço de sons nesta sequência e por isso ele é meu”, ou “ei, esta frequência e timbre são exatamente da minha guitarra e por isso esta música é toda minha”, mas é o que acontece.

Apesar de artistas buscarem expandir as barreiras impostas pela melodia através de novos recortes, ritmos e arranjos, mesmo assim a indústria consegue fechar novas criações em velhos modelos, como já reportamos em casos de “plágio” por aqui, o que incitou também rebeldia musical, caso da plunderfonia, um dos momentos ilustrados da história da recombinação trouxemos aqui.

E é uma luta unicamente econômica. Se eu tivesse feito uma música, ano passado, exatamente igual ao novo hit da Anitta desta semana, eu poderia processá-la? Sim, se eu fosse capaz de arcar com as despesas. Eu ganharia? Provavelmente não. Ou se sim, em uns 30 anos. Agora, se experimentarmos o contrário pra ver o que acontece: lançamos uma música que se parece com algum hit da Anitta. Em três minutos recebemos uma intimação da Sony Music, ou Disney, ou sei lá qual gravadora, mandando tirar do ar ou pagar os royalties, além da difamação por ter copiado outro artista.

Acontece que, por mais que algum dia quisermos ser originais em se tratando de música, esbarraríamos no número de notas limitado, no número de frequências audíveis limitado e nas regras harmônicas, que nos conduzem por caminhos pré determinados. Cientistas estudam sequências de acordes e por que algumas nos dão a sensação de inacabadas ou acabadas; por que uma nota menor parece triste, e outra maior parece alegre. A coisa é tão reativa para nossos sentidos que boa parte da música pop foi escrita a partir das mesmas sequências e nem por isso nós comparamos “In the Airplane Over the Sea” do Neutral Milk Hotel com Friday da Rebecca Black.

Foi pensando nestas limitações e neste cenário mercadológico predatório que dois programadores resolveram propor uma solução para evitar que qualquer músico seja inibido a compor pela possibilidade de ser processado por alguma gravadora ou artista oportunista. Damien Riehl e Noah Rubin se uniram para gerar um código que registrasse todas as possibildades de melodias. Eles tomaram as oito notas dentro de uma oitava (um intervalo de frequência definido) e todos os doze intervalos possíveis (a cada trecho do intervalo é marcado um tom ou semitom) para compô-las, e registraram estas melodias em arquivos .midi – um formato que registra todas as características das músicas (mas não como áudio), o equivalente digital a uma partitura.

Depois de gravar todos os arquivos em um HD externo, as músicas foram registradas pelos autores como sua propriedade sobre licença Creative Commons Zero – o que significa que elas estão em domínio público, e ninguém pode reinvidicar direitos patrimoniais (de exploração comercial) sobre a obra – e disponibilizadas no site All the Music.

Qualquer artista agora pode escrever qualquer música, e se for processado, alegar que na verdade estava sendo influenciado por Damien e Noah. É uma defesa válida. Ao mesmo tempo, a partir da data em que as melodias foram registradas, os dois passam a ser detentoras destas, e nenhuma música nova pode ser plagiada por outra mais nova ainda.

Juristas estão se perguntando se isso funcionaria em um caso real, mas a verdade é que o que os dois criadores do All the Music demonstraram é que não faz sentido nenhum alegar propriedade sobre uma sequência de sons. O projeto já está sendo expandido para uma quantidade maior de oitavas, até eventualmente zerar o problema.

Quantas músicas podem ser feitas sem uma lembrar a outra? Que artista pode escrever uma música sem ter ouvido outra antes? Como não se influenciar, nem mesmo de forma inconsciente? Registrar todas as músicas possíveis e caçar artistas de qualquer porte para coletar royalties só interessa a quem tem dinheiro para acessar um tribunal em cada caso destes. Música nenhuma é de alguém mais do que as fronteiras dela própria, e talvez nem neste caso, porque ela veio de alguma ideia antes disso.

O que Damien e Noah fizeram é uma provocação contra um mercado predatório e fadado a saturação. Esperamos que a reflexão se estenda para toda criação, e que a sua reprodução não seja tratada além da sua própria existência. Reprodução é obra nova, recombinação que o diga.

Ou você acha que esta música é responsável pelo sucesso desta música?

[Victor Wolffenbüttel]

 

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Cultivando o território digital livre com Milpa

Milpa Digital é uma iniciativa da Código Sur para que brotem outros projetos de tecnologias livres na América Latina. Partiram do estilo gráfico de “La Página de Maíz“, publicação semanal sobre tudo elaborada por el Equipo Maíz de El Salvador, para trabalhar com temas ligados às tecnologias livres e à segurança digital em uma única folha ilustrada. A ideia é que seja distribuída impressa em comunidades América Latina e Caribe adentro e, com isso, facilite a popularização deste conhecimento e sirva de material de apoio para quem já ensina nestas temáticas.

Resolvemos republicar aqui alguns dos materiais gráficos porque eles explicam, de maneira detalhada e simples, diversas questões fundamentais para a produção da cultura e do conhecimento livre na rede. Eles estão sendo lançados toda semana no site do projeto também. Disfrutem e obrigado a todos de Código Sur por este belo trabalho.


Já passou da hora de repensar o movimento pelo aberto & livre

Os últimos meses de 2019 foram de muita discussão dentro dos movimentos do aberto (que inclui principalmente software e dados, mas não só) e do livre – em especial, do software livre e da cultura livre. Nas últimas semanas, um texto publicado no Medium “A bee with a blog“, lançado em uma lista de emails de discussão por Mandy Hank, causou certo furor nesse grupo. Antes de ir ao conteúdo, cabe explicar um tanto do contexto que tem provocado esses debates, uma das muitas consequências que envolvem o investidor pedófilo Jeffrey Epstein e boa parte do mundo da tecnologia baseado na costa leste dos Estados Unidos, tendo como referência central o MIT [se você já conhece o caso pode passar para o tópico 2].

1. O EFEITO EPSTEIN PARA STALLMAN E LESSIG

Richard Stallman, criador do software livre

Epstein, como amplamente divulgado no mundo da tecnologia digital, morreu em agosto de 2019 em um aparente suicídio na cadeia enquanto enfrentava acusações federais gravíssimas de tráfico e exploração sexual. Os promotores federais em Nova York afirmaram que ele, que já tinha histórico de crimes sexuais, explorou e abusou sexualmente de dezenas de meninas menores de 14 anos entre 2002 e 2005. A partir de suas fundações, Epstein, havia financiado cerca de 7,5 milhões de dólares em projetos no MIT. Fez fortuna e ganhou fama como consultor financeiro, depois teve sociedade na New York Magazine e participação em fundos que investiram milhões em startups mundo afora. Era próximo de políticos como Bill Clinton e Donald Trump, entre muitos outros em vários lugares do mundo.

Logo após a morte de Epstein, e de forma algo semelhante ao movimento #metoo no cinema dos EUA a partir dos abusos do produtor Harvey Weinstein, várias denúncias e discussões relacionadas começaram a aparecer. Uma delas envolveu Richard Stallman, criador do software livre e do copyleft, uma das figuras mais importantes da história da computação. Em uma discussão sobre o tópico dos crimes sexuais numa lista de e-mail interna do MIT, Stallman sugeriu que “o cenário mais plausível” é que as vítimas menores de idade estavam “totalmente dispostas”. A condenável defesa da pedofilia por Stallman no tópico envolvia outro cientista do MIT, Marvin Minsky, em uma acusação de assédio sexual com a então estudante do MIT Virginia Giuffre, de 17 anos, que também foi vítima de Epstein. Em resposta a uma estudante que apontou que Giuffre tinha 17 anos quando foi forçada a fazer sexo com Minsky nas Ilhas Virgens, Stallman disse que “é moralmente absurdo definir ‘estupro’ de uma maneira que depende de pequenos detalhes, como em qual país estava ou se a vítima tinha 18 anos ou 17 anos.” [A Vice detalhou o caso aqui]

Por conta dessa declaração desastrosa, Stallman foi afastado do MIT, onde ainda era cientista visitante no Laboratório de Ciência da Computação e Inteligência Artificial (CSAIL), e da presidência da Free Software Foundation (FSF), organização que ele criou em 1985. Em sua curta defesa, comentou que o que houve foi uma série de mal-entendidos. À frente da FSF, ele – figura genial, que muitas vezes esteve nestas páginas – era tido como uma pessoa problemática, com declarações preconceituosas e/ou desagradáveis que muitas vezes não representavam a comunidade do software livre. Também é diagnosticado com Síndrome de Asperger, uma perturbação do desenvolvimento caracterizada por dificuldades significativas a nível dos relacionamentos sociais e comunicação não verbal.

A polêmica com Stallman suscitou algumas discussões na comunidade da cultura e do software livre mundo afora. Uma delas foi a carta de Denis “Jaromil” Roio, CTO e co-founder da Dyne, uma organização que trabalha desenvolvendo aplicações com software livre para o mundo todo há quase 20 anos. Diz ele na carta, que circulou por diversas listas e grupos: “A era dos “ditadores benevolentes” em projetos de software livre provavelmente está chegando ao fim. E seremos aliviados e fortalecidos por isso: agora é a nossa vez de permanecermos fortes, unidos como um movimento, defender nossos valores sem comprometer e melhorar a qualidade de nossas interações. Agora é a nossa vez de reconhecer que, se um contexto é envenenado por bullying, machismo e comportamento sexista, não é apenas culpa de uma única pessoa, mas de todos aqueles que toleram e apoiam essas condutas.”

Lawrence Lessig, criador do Creative Commons

Por sua vez, outra figura importante no movimento da cultura livre, Lawrence Lessig, um dos criadores do Creative Commons e professor de direito em Harvard, se envolveu numa polêmica envolvendo o legado nefasto de Epstein. Ele entrou com um processo de difamação contra o The New York Times por uma entrevista que ele mesmo concedeu sobre o caso Epstein. A entrevista, publicada em setembro de 2019, tinha como título “Um professor de Harvard se dobra: se você pegar o dinheiro de Epstein, faça isso em segredo”. Ele afirma que a manchete deturpa sua entrevista, em que ele condena a doação, mas diz que “se você estiver indo pegar o dinheiro [de Epstein], é melhor torná-lo anônimo”.

Quando Joi Ito, ex-diretor do MIT e amigo de Lessig, admitiu no ano passado secretamente receber cerca de US$ 800 mil de Epstein, Lessig assinou uma carta de apoio e argumentou que aceitar doações secretas era melhor do que lavar publicamente a reputação de um criminoso – embora ele tenha dito que aceitar o dinheiro de Epstein estava, em retrospecto, errado. Lessig está acusando o NY Times de “clickbait defamation” (difamação “caça-cliques”).

2. SERIA HORA DE “CANCELAR” O MOVIMENTO ABERTO E LIVRE?

AfroPhyton, uma das iniciativas que tem buscado pensar a equidade na tecnologia e no livre

Suscitado pelas recentes atitudes desses dois nomes é que o texto que falamos inicialmente, “Open is Cancelled”, surgiu. Nele, há uma critica à postura de figuras ligadas aos movimentos aberto e open, pessoas “tóxicas”, segundo o texto, com comportamentos atroz que “não devem ser entendidos como falhas pontuais de homens específicos, mas como um reflexo de falhas mais profundas na filosofia subjacente por trás do open”. Ela então aponta que “precisamos mais que software” e que é hora de repensar estas ideias com foco não somente na liberdade (de informação), mas também na justiça social.

O texto faz uma crítica que ignora certas atitudades de alguns grupos ligados ao livre & aberto em prol de mais justiça social. Como é o caso da comunidade KDE no Brasil, que adotou um código de conduta rígido contra qualquer tipo de discriminação; ou da recente ação da comunidade do Phyton, que aboliu os termos “master/slave” de sua linguagem de programação; ou ainda de iniciativas em prol de igualdade de gênero e raça que ocorrido Brasil e mundo afora, como o AfroPhyton, PyLadies, entre outras iniciativas ciberfeministas que já listamos por aqui – que, aliás, já parecem ter os preceitos de justiça social, equidade e igualdade como tão ou mais importantes que o do aberto & livre de informação. “Há a impressão de que nada tem funcionado e somente esse texto teve a clareza de ver e propor algo novo”, como apontou Fred Guimarães, integrante da comunidade KDE e da Rede de Produtoras Colaborativas. Fabianne Balvedi,  diretora do filme livre “Olhar Contestado” e pesquisadora de mídias livres, também integrante da Rede, aponta que “é meio aquela coisa de jogar fora a água suja do banho junto com a criança lavada, uma ofensa às pessoas do movimento que tentam manter ele ético”.

Ademais das críticas acima, das quais concordamos, e também da mistura de entendimento entre o livre e o aberto, movimentos que compartilham de alguns princípios mas apresentam bastante diferenças, o texto traz boas questões para se repensar estas duas áreas. Resolvemos traduzir algumas partes aqui abaixo para propor o debate em torno de um ponto central: não seria a liberdade de informação e a abertura do código princípios “neutros”? Ao não dar a devida atenção em quem está abrindo, de que forma e para quem, a oposição aberto X fechado não estaria “sugando o oxigênio” da discussão sobre justiça social e equidade na rede e ajudando a perpertuar preconceitos de raça, gênero e orientação sexual no mundo da tecnologia digital, como aponta a autora?

3. “O ABERTO ESTÁ CANCELADO”, A bee with a blog

“Os líderes [do movimento de código aberto] se mostraram moralmente falidos. A comunidade é tóxica. As licenças de direitos autorais e de software falharam em controlar os maus atores e no suporte aos criadores marginalizados. A teoria subjacente é falha e superficial. É hora de seguir em frente e criar uma nova onda de ferramentas éticas de gerenciamento de comunidade para quem produz código e conteúdo.”

Esta não é a primeira avaliação séria da comunidade aberta, mas devemos garantir que seja a última. É hora de construir um novo movimento, adequado para uma era de fascismo crescente e justiça climática. Um movimento que se centra em criadores e usuários [que foram] marginalizados [até aqui]. Um movimento baseado em uma teoria da mudança que não é infantil nem ingênua em sua ênfase em documentos legais formais. Um movimento que tenha por foco o desmantelamento de estruturas de poder e na construção de solidariedade entre diversos grupos.

Precisamos criar o que Sarah Mei chama de “software orientado à justiça”. Mas precisamos mais do que software. Precisamos de dados “orientados para a justiça”, educação “orientada para a justiça”, ciência “orientada para a justiça”, governo “orientado para a justiça” e acesso “orientado para a justiça” à literatura acadêmica.

Eu quero ver toda uma internet “orientada para a justiça”. Porque a realidade é que a menos que sistemas, tecnológicos e sociais, sejam construídos com as necessidades dos grupos oprimidos em primeiro plano, tudo o que construímos servirá apenas para reforçar as desigualdades existentes.

E sim, justiça é um conceito escorregadio, cujo significado depende do contexto e [pode ser facilmente] contestado – assim como “aberto”. Tudo bem. Precisamos ter essas conversas sobre o que justiça [e equidade] significa. Essas conversas são uma parte essencial [da construção de um] discurso cívico [na internet] vibrante, [um discurso] que foi suprimido pelo enquadramento de “aberto” versus “fechado” na conversa sobre justiça no mundo digital.

O movimento aberto como existe hoje não conseguiu criar um mundo melhor. Pior que isso: está tornando mais difícil para o resto de nós construir esse mundo. Os fracassos do movimento aberto não são apenas com seus homens ou com seus líderes. São mais profundos: partem do núcleo da ideologia subjacente ao movimento. O movimento sugou o oxigênio da sala por muito tempo.

O movimento aberto falhou quando centralizou o debate na liberdade sobre a justiça. Falhou quando colocou princípios abstratos acima das vidas humanas reais. Fracassou novamente quando a misoginia, o racismo e o colonialismo ficaram sem controle e sem contestação. Quando o movimento não conseguiu entender as estruturas de opressão e optou por enfatizar as soluções individuais para os desafios coletivos, fracassou. Ele falhou várias vezes quando optou por privilegiar um racionalismo bizarro e fetichizado sobre as experiências vividas de seres humanos corporificados.

O comportamento atroz e as palavras de homens como Lessig e Joi e Stallman não devem ser entendidos como falhas pontuais de homens específicos, mas como um reflexo de falhas mais profundas na filosofia subjacente por trás do open. Aberto como entendemos, vem da “Sociedade Aberta e Seus Inimigos”, de Karl Popper. Popper definiu aberto dentro de uma estrutura colonialista e masculinista.

Profundamente enraizada nos mitos de progresso, primitivismo e com uma arrogância epistemológica de tirar o fôlego, a visão de Popper da sociedade aberta apresenta uma gaiola de ferro de dualismos que moldaram as conversas sobre tecnologia por tanto tempo que as barras se tornaram um elemento invisível.

Nosso compromisso com a abertura impediu nossa imaginação. Enquanto o problema for definido como um dos ‘encerramentos’ [fechamentos], os projetos abertos ficarão cegos para outras políticas, outras maneiras de conhecer e entender como nos organizamos, compartilhamos poder e como imaginamos nosso futuro compartilhado. A definição de “aberto” e “fechado” nos deixa sem as ferramentas necessárias para enfrentar o extremismo violento, a radicalização online, a crescente desigualdade e a catástrofe ecológica.

O potencial libertador da Internet – o potencial de organização comunitária e de construção de solidariedade horizontal – só pode ser realizado quando nos libertarmos do pensamento dualista e abraçarmos o complexo mundo moral em que vivemos. Mais do que isso, porém, agora estamos trabalhando em uma escala de tempo compartilhada, ditada por nossas emissões de carbono ainda em ascensão. Assim como não podemos enfrentar e eliminar a misoginia de nossos espaços sem novos pensamentos, também precisamos de novos pensamentos para descarbonizar e gerenciar uma transição justa.

Uma vez que o movimento aberto consiga se libertar dos dualismos vinculativos, podemos então aprender a pensar de maneiras criativas e flexíveis. O tipo de pensamento de que precisamos agora reconhece e respeita a sabedoria indígena e as formas de conhecimento. Entende que uma grande variedade de ferramentas analíticas e tradições epistemológicas têm valor. Em vez de confiar em um racionalismo estreito e severo, esse novo pensamento abraçará a complexidade incorporada das experiências humanas vividas.

O privilégio extremo de um tipo específico de racionalismo domina o movimento aberto e seu discurso há tanto tempo que outras formas de conhecimento praticamente desapareceram do nosso discurso. O tipo de pensamento de que precisamos agora reconhece e valoriza a emoção como um aspecto importante de como entendemos e conhecemos o mundo.

Ao nos libertarmos da estrutura binária do pensamento aberto/fechado e dualístico, criamos o potencial para comunidades onde a misoginia, o racismo e o colonialismo podem ser nomeados e desafiados. Criamos o potencial de tipos inteiramente novos de construção da solidariedade e de novos tipos de relacionamentos sociais – mediados pela Internet, mas enraizados na bondade, compaixão e respeito mútuo.

[Leonardo Foletto, com a colaboração e discussão de Sheila Uberti, Fabianne Balvedi, Mariana Valente, Fred Guimarães e Denis “Jaromil” Roio]

Tecnopolítica & Contracultura em Porto Alegre

A terceira edição do curso”Tecnopolítica e Contracultura” chega a Porto Alegre em Outubro, no querido espaço da APPH (Associação de Pesquisas e Práticas em Humanidades), no centro da cidade. Serão três dias de intensas trocas sobre um pensamento tecnopolítico que atravessa os autonomistas italianos da década de 1970, passa pela explosão de criatividade (e otimismo) dos 1990, é alimentado pelas ideias e princípios hackers dos 1980, 1990 e 2000 e chega na encruzilhada do final desta década de 2010 buscando entender o que deu errado no mundo digital e o que pode (deve?) mudar para que possamos sair da “ressaca da internet” que tanto comentamos.

Atualizamos a bibliografia com novas leituras e organizamos melhor as referências do curso, que como os participantes das outras edições já sabem, disponibilizamos ao final (em PDF).

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Tecnopolítica e Contracultura: um passeio pelo pensamento de anarquistas, autonomistas, hackers e outros rebeldes
24, 25 e 26/10, na APPH, em Porto Alegre.
20 vagas. Inscrições aqui – Estudantes e apoiadores/as do BaixaCultura no Apoia.se ganham desconto.
Evento no Facebook.
Quer fazer o curso mas não tem como pagar agora? Nos escreva que conversamos: info@baixacultura.org
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Se nos anos 1990, com o casamento do digital com a internet, enxergávamos enormes possibilidades de libertação (da informação de grandes grupos midiáticos, de liberdade de falar o que bem quiser, de criar tecnologias e mundos novos), hoje parece que estamos a lidar com consequências nefastas, representadas em uma palavra na moda nestes tempos: distopia. Nos descuidamos – ou não conseguimos? – prestar atenção na ascensão de plataformas globais de tecnologia, que por sua vez construíram bolhas de informação que confirmam pontos de vista, espalham mentiras e criam realidades alternativas que em muitos casos não há informação comprovada que consiga mudar.

Como podemos compreender o contexto tecnopolítico hoje? Que caminhos podemos apontar para discutirmos e transformarmos a política que sempre está junto na construção de tecnologias? A proposta desse curso é buscar algumas respostas para estas perguntas olhando para o passado e o presente e passear por alguns pensamentos rebeldes sobre a tecnologia desenvolvidos na segunda metade do século XX até hoje. Começamos pelos autonomistas surgidos no ‘maio de 68’ italiano que durou mais de uma década, com foco especial em Antonio Negri, Franco “Bifo” Berardi, Paolo Virno e Mário Tronti. Passamos pela explosão de novidades da arte e do ativismo digital dos anos 1990, com Wu Ming, mídia tática, altermundistas, Critical Art Ensemble, zapatistas e autores como Pierre Levy, Manuel Castells, Bifo (novamente) e Richard Barbrook; continuamos com os hackers, “paranóicos visionários”, e seus princípios éticos de transparência, liberdade e autonomia com as tecnologias, a partir das ideias de Richard Stallman, Pekka Himanen, Sérgio Amadeu, Eric Raymond, César Rendueles, Aracele Torres, entre outres; e chegamos até hoje, com a ascensão das redes sociais como principais espaços de discussão pública nas redes digitais e o fim da internet como a conhecemos nos 1990 e 2000, no que chamamos de “ressaca da internet”, com autores como Jaron Lanier, Bifo (de novo!), Evgeny Morozov, Shoshana Zuboff, Jonathan Crary e Trebor Scholz.

Esta é terceira edição deste curso-experimento; a primeira foi realizada em 2/2019, em São Paulo, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc e a segunda em 6/2019 na UFSM, em Santa Maria-RS.

BaixaCharla ao vivo #2: Descolonizar as tecnologias, Fanon

Dando seguimento ao nosso experimento audiovisual, fizemos a segunda edição da BaixaCharla ao vivo, no YouTube e Instagram, na terça-feira, 6 de agosto, às 20h. Desta vez, o tema foi “Descolonizar as Tecnologias”, com a proposta de debater outras perspectivas do sul global para pensar a tecnopolítica e a cultura livre. Tivemos como convidado o historiador e professor Walter Lippold, Mestre em Educação e doutorando em História pela UFRGS, que falou sobre a relação do pensamento de Frantz Fanon – filósofo, psicanalista e jornalista nascido na Martinica, fortemente envolvido na Guerra da Argélia, ao norte da África – com a tecnologia.

Especialista em história afro-asiática pela FAPA (RS), Lippold é militante da cultura livre e integrante do coletivo Fanon, organização que visa divulgar obras de pensadores e pensadoras africanas e afrodiaspóricas e que leva o nome de um dos maiores pensadores africanos do século XX. A charla vai partir do uso da tecnologia na Guerra da Argélia para falar sobre descolonização e usos criativos dos aparatos tecnológicos a partir de olhares que não o dominante europeu e norte-americano. Para aquecer, Lippold disponibilizou pra nós um texto de 2017 que fez para a Revista Semana da África na UFRGS, chamado “Cultura e Luta anticolonial no Magreb: Os estudos de Fanon sobre a Argélia“, onde ele toca em algumas questões – sobretudo o uso do rádio – que conversamos na Charla.

A nossa proposta é, a partir de agora, alternar charlas de leitura e debate a partir de um determinado texto, como fizemos com “A Ideologia Californiana”, com outras com convidados/as, em que debateremos temas que são caros às nossas temáticas principais – tecnopolítica e cultura livre.

Terça, 7 de agosto, 20/8, no YouTube e no Instagram do BaixaCultura. Segue abaixo, na íntegra.

O grupo do telegram do Coletivo Fanon, citado na charla, tem também muitas obras citadas no vídeo e livros de Fanon em PDF. Segue abaixo algumas das obras citadas no vídeo para download (clique no nome delas), todas indicadas por Walter e disponibilizadas (ou escaneadas) pelo próprio ou por outros integrantes do coletivo.

DUSSEL, Enrique. 1492 – O encobrimento do outro (A origem do “mito da modernidade”). Vozes; Petrópolis, 1993.

FANON, Frantz. Sociologia de una revolución. Ediciones Era; México, 1968. Obra publicada em 1959. Nela Fanon analisa de modo intenso a Revolução Argelina. A questão da mulher argelina e o véu e a análise do papel do rádio e da mídia na revolucão são destaques.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Editora da UFBA; Salvador, 2008. Originalmente era o trabalho final de Fanon na medicina psiquiátrica, mas foi reprovado pela banca. Em 1952 ele publica a obra.

FANON, Frantz. Em Defesa da Revolução Africana. Livraria Sá da Costa Editora, 1980. São textos de Fanon, organizados cronologicamente, a maioria retirada do jornal argelino El Moudjahid. (Disponível pra download lá no grupo do telegram do Coletivo Fanon).

FANON, Frantz. Alienation and Freedom. Bloomberg; London, 2018. Escritos de Fanon sobre alienação e libertação. Um obra impactante para os Estudos Fanonianos. Artigos, discursos, cartas e outros textos de Fanon, muitos que nunca tinham sido publicados.

LANDER, Edgar (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina. setembro 2005.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Revista Arte $ Ensaios, PPGAV, UFRJ, nº 32, dez 2016.

QUEIROZ, Ivo Pereira de. Fanon, o reconhecimento do negro e o novo humanismo: horizontes descoloniais da tecnologia. 2013. 221 f. Tese (Doutorado em Tecnologia) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2013.

VALENCIA, Sayak. Capitalismo Gore. Melusina; España, 2010.

WALLERSTEIN, Immanuel. Ler Fanon no século XXI. Revista Crítica de Ciências Sociais, 82, Setembro 2008: 3-12.

 

Politizar as tecnologias & pistas para reinventar a internet

A quinta palestra de 2019 do ótimo programa “Politizar as tecnologias”, do Centro Universitário Maria Antônia (USP), foi uma versão resumida de nosso curso “Tecnopolítica e Contracultura: um breve passeio por autonomistas, altermundistas, hackers e outros rebeldes”. Ocorreu na quarta-feira, 31 de julho, das 19 às 21h30, foi conduzida por Leonardo Foletto e teve um público atento e animado às diversas discussões que apontamos e aos questionamentos instigados pelo texto abaixo:

Se nos anos 1990, com o casamento do digital com a internet, enxergávamos enormes possibilidades de libertação (da informação de grandes grupos midiáticos, de liberdade de falar o que bem quiser, de criar tecnologias e mundos novos), hoje parece que estamos a lidar com consequências nefastas, representadas em uma palavra na moda nestes tempos: distopia.

Nos descuidamos – ou não conseguimos? – prestar atenção na ascensão de plataformas globais de tecnologia, que por sua vez construíram bolhas de informação que confirmam pontos de vista, espalham mentiras e criam realidades alternativas que em muitos casos não há informação comprovada que consiga mudar. Como podemos compreender o contexto tecnopolítico hoje? Que caminhos podemos apontar para discutirmos e transformarmos a política que sempre está junto na construção de tecnologias?”.

Uma notícia breve no site do evento está aqui. Abaixo e na abertura da postagem, algumas fotos, feitas pela equipe de comunicação do Maria Antônia, um centro cultural histórico pra SP, palco de uma das mais conhecidas batalhas na Ditadura Militar Brasileira, em 1968, entre estudantes do Mackenzie e da USP.

uma parte do povo, antes de começar a fala
Os “chapéus” do nosso editor, Leonardo Foletto

Aqui está a apresentação que guiou a conversa. Destacamos aqui uma parte final da conversa:

A IDEOLOGIA CALIFORNIANA VENCEU

Sua visão utópica da Califórnia depende de uma cegueira voluntária frente a outras – e muito menos positivas – características da vida na costa oeste: racismo, pobreza e degradação do meio ambiente”

“As   tecnologias   da informação dão poder ao indivíduo, aumentam a liberdade pessoal e radicalmente reduzem a força do estado-nação. As estruturas de poder social, político e legal existentes irão murchar, para serem substituídas por interações irrestritas entre indivíduos autônomos e seus softwares.”

DEPOIS DO FUTURO, BIFO

“A sociedade internaliza a regra em formas tecnológicas. O capital pode renunciar a regra jurídica, à racionalidade política e se deixar conduzir pela aparente anarquia dos automatismos internalizados da biopolítica.”

“Quando a disciplina industrial se dissolve, os indivíduos se encontram numa condição de aparente liberdade”. “Nenhuma lei os obriga a se submeter às obrigações e à dependência. Mas àquela altura as obrigações foram introjetadas, e o controle social se exerce pela voluntária mas inevitável submissão a uma rede de automatismos.”

EM FRENTE RUMO AO PASSADO

“Membros da “classe virtual” e outros profissionais podem brincar de ser cyberpunks dentro da hiperrealidade sem ter de encontrar algum de seus vizinhos empobrecidos.”

“As tecnologias da liberdade estão se tornando os instrumentos da dominação”.

“ Não impeço você de fazer outra coisa e não o obrigo a fazer o que eu quero, simplesmente facilito para quem faz as coisas que me convêm” (Bifo)

DIANTE DISSO, O QUE FAZER? PISTAS PARA REINVENTAR A INTERNET

_ Regulação (Barbrook & Cameron)
A discussão sobre regular ou não a internet, uso de aplicativos, dados em redes sociais e outras no mundo internético ainda engatinha no Brasil, mas tem sido uma das frentes mais debatidas nos últimos tempos ao redor do mundo. Alugar um quarto por meio do AirBnB, por exemplo, estaria menos relacionado a práticas de consumo coletivo e consciente ou à criação de novos laços de confiança e muito mais ao consumo de um bem por um preço mais baixo e, claro, ao lucro da transação comercial. Na França, há uma lei, aprovada no primeiro semestre de 2019, que exigirá o pagamento de 3% sobre a receita que Google, Facebook e Apple, entre outras gigantes do Vale do Silício, tiverem em seu território. Barbrook e Cameron falava disso já ao final de “A Ideologia Californiana”, em 1995:

“O futuro digital será um híbrido de intervenção estatal, empreendedorismo capitalista e cultura faça-você-mesmo. Decisivamente, se o estado puder fomentar o desenvolvimento da hipermídia, ações conscientes poderiam também ser tomadas para evitar o surgimento do apartheid social entre os “ricos de informação” e os “pobres de informação”.

_ Abrir as caixas-pretas (hackers);
As linhas de fuga para muitos dos caminhos distópicos que nos encontramos hoje, em época de ressaca da internet, passa por nos tornarmos uma potente multidão em busca de abrir as caixas-pretas da tecnologia e entender como se dá essa louca composição humana+objetos que nos causa esperança e sofrimento, depressão e euforia, liberdade e prisão. Algo que hackers buscam fazer, reparadores também, como já comentamos e escrevemos.

_ Ressensibilizar a humanidade (Bifo)
Influenciados pela recente leitura do nem tão recente “Depois do Futuro” (2009, edição brasileira de 2019), de Franco Berardi “Bifo”, incorporamos a ideia do filósofo italiano.

“Podemos levantar a hipótese de uma relação direta entre a expansão da infoesfera, a aceleração dos estímulos, das solicitações nervosas e dos tempos de resposta cognitiva, e a desintegração da película sensível que permite ao seres humanos entender o que não pode ser verbalizado, reduzido a sinais codificados?” (p.164)
“Sentimos-nos presos em uma armadilha de automatismos tecnolinguísticos, as finanças, a competição global, a exaltação militar. Mas o presente é mais rico que o formato que o capital impõe, e as muitas possibilidades inscritas no presente não são canceladas, embora no momento pareçam inertes”. (p.183)

_ Autonomia, criptografia, cuidados digitais (criptopunks/anarquistas);
Saber lidar com as tecnologias que nos rodeiam, não perder de vista o vínculo entre processo e produto, matéria-prima e forma final, compreender os meandros do fazer e da diferença, eis um bom programa de vida & ação. Como diz Bifo em seu Manifesto Pós-Futurista:

“Afirmamos que a grandiosidade do mundo enriqueceu-se com uma beleza nova, a beleza da autonomia. Cada um tem seu ritmo e ninguém deve ser obrigado a correr em velocidade uniforme; sobretudo, não podem mais desempenhar a tarefa para a qual foram concebidos. A velocidade se tornou lenta. Os automóveis estão imóveis como estúpidas tartarugas no tráfego das cidades. Apenas a lentidão é veloz.”

_ Politizar as tecnologias;
Significa uma combinação: abrir as caixas-pretas, ver como funciona, como se monta, como se reproduz, como se transforma e perceber que a política está nos embutidas em códigos, em vieses que reproduzem preconceitos e desinformação generalizada, na elaboração de algoritmos que funcionam com mais inputs, seja eles ódios destilados ou fake news absurdas. Politizar as tecnologias é perceber isso, também tentar modificar, agir para tomar os meios de produção – ou pelo menos hackeá-los.

 

Tecnopolítica & contracultura em Santa Maria

 

Estamos orgulhosos de anunciar a segunda edição do nosso curso “Tecnopolítica e Contracultura: Um passeio pelo pensamento-ação tecnopolítico de anarquistas, autonomistas, hackers e outros rebeldes“, agora em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul.

O curso teve sua primeira edição em fevereiro de 2019 no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo (confira como foi) e agora chega em uma versão condensada e de guerrilha em Santa Maria. Além de discutir, vamos trazer (e disponibilizar) uma bibliografia reunida de anos e , também, propor movimentos práticos para a ação.

O disparador são os conceitos que atravessaram a contracultura e chegaram até o universo hacker atual, e além. Partindo dos movimentos das décadas de 60, 70 e 80 do século XX focamos em conceitos e práticas ligados ao pensamento e ao universo sociotécnico. Demonstramos a atualidade desses termos para pensarmos o hoje e sairmos da paralisia contemporânea que está nos arrastando para pontos de catástrofe, de não retorno.

Assim, frente aos esgotamentos das formas de representação social e política e das formas clássicas de organização do social, das instituições da modernidade, do público e do privado, como pensar esses deslocamentos, com que ferramentas e que aberturas ou brechas é possível cartografar? É possível cartografar nuvens e fumaça?

Para tentar fazer melhores perguntas e aproximarmos de respostas que nos convoquem para ação, propomos esse curso: “Tecnopolítica e Contracultura“, conduzido por Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, jornalista e doutor em comunicação pela UFRGS, e Leonardo Palma, pesquisador independente, agitador cultural radicado em Santa Maria, ativista da Rede Universidade Nômade e um profundo conhecedor da obra dos autonomistas italianos a partir da década de 1970.

O passeio teórico-prático busca resgatar um pensamento tecnopolítico em quatro momentos:
1) os autonomistas italianos da década de 1970;
2) pós-operaísmo, altermundistas, Fórum Social Mundial e mídia tática dos 1990; 3)
hackers: paranóicos visionários, dos 1980, 1990 e 2000;
4) hoje, com a ascensão das redes sociais como principais espaços de discussão pública nas redes digitais e o fim da internet como a conhecemos nos 1990 e 2000.

Será realizado dias 6 e 7 de junho, das 14h às 18h30, no Auditório do Nesaf (prédio 44F), no campus em Camobi da UFSM, em Santa Maria [para chegar no 44F, desça em frente ao CAL – Centro de Artes e Letras (CAL), passe o CCCR 1 (prédio 42), o CCR2 (44); atravessa a rua e lá está o 44F CCR e dentro o Auditório].

Por conta do apoio do Programa de Pós Graduação em Extensão Rural e do Núcleo de Estudos e Extensão em Desenvolvimento Territorial (NEDET) da Universidade Federal de Santa Maria, o curso custa R$10 (para estudantes universitários ou secundaristas) e R$30 (público geral). Pagamento realizado na hora, presencial.

Inscrições: https://forms.gle/HyUWsoNYFLTimcQV9

SERVIÇO
Tecnopolítica e Contracultura
6 e 7 de junho, 14h às 18h30
Auditório do Nesaf (prédio 44F), Campus UFSM
Santa Maria, RS
R$10 (para estudantes universitários ou secundaristas) e R$25 (público geral)
Evento Facebook
Pagamento realizado na hora

Apoios

Programa de Pós Graduação em Extensão Rural e do Núcleo de Estudos e Extensão em Desenvolvimento Territorial (NEDET) da Universidade Federal de Santa Maria
Rede Sina
Baleiro das Artes
Ultra Produtora
Disco Voador
PhotoCópias

Compartilhando processos: sobre como fazemos e nos sustentamos

Vocês talvez já devam ter ouvido falar do termo “Curadoria de informação“, ou “curadoria de conteúdo”? Trata-se de selecionar, entre os 30 milhões de terabytes (e contando…) de dados na internet, aqueles que são mais importantes para diversos fins. O termo “curar” vem mais das artes, onde o curador é alguém que, por exemplo, organiza uma exposição e seleciona as obras de determinado artista (ou de várias) para alguma mostra.

Aqui no BaixaCultura nós fazemos diariamente curadoria de informação (humana) voltada à tecnopolítica, contracultura digital e cultura livre. Isso significa que, por trás das postagens que vocês acompanham todo dia nas redes sociais (em especial, no canal do Telegram, Facebook, Twitter e Instagram), há algumas horas semanais de leituras de notícias, ensaios, artigos, livros, escuta de podcasts e visualização de vídeos da internet para trazer para vocês aquilo que acreditamos ser o mais importante nas áreas que trabalhamos.

Toda segunda-feira, dedicamos algumas horas, geralmente pela manhã, para fazer o que chamamos de “ronda”: ler o que foi publicado nos veículos, perfis em redes sociais e selecionar notícias/ensaios/vídeos e artigos para trazer em nossas redes. Agendamos, então, em nossos canais, algumas publicações para toda semana com informações que chamamos, no jargão jornalístico, de “frias”, ou seja, que não dizem respeito a um fato que acabou de acontecer; indicações de textos mais cabeças para ler, sites com acervos livres incríveis, indicação de filme/vídeo a assistir, uma entrevista com alguma pessoa que tem o que dizer na área, entre outros tipos de conteúdos.

No decorrer da semana, todos os dias, geralmente pela manhã, depois do café/desayuno/pequeno almoço, atualizamos nossa “ronda” com informações recém publicadas e que são “quentes”, ou seja, que acabaram de sair e que tem relevância para ontem. Essas informações – geralmente matérias jornalísticas, artigos de opinião, anúncios de governos/empresas, etc – são lidas e preparadas para a a publicação: selecionamos um trecho que julgamos resumir a informação, ou uma declaração potente, editamos, pegamos o link e, então, publicamos em nossas redes. Nosso noticiário tecnopolítico global ultimamente tem sido tenso e pesado, por isso, para aliviar um pouco, costumamos lançar algumas informações mais “leves” – dicas de site, vídeos, entrevistas, livros, etc – entre as notícias “quentes”, geralmente mais nas sextas e nos finais de semana.

Nem sempre conseguimos publicar as informações no “calor da hora”, porque nosso mundo é vasto, as informações circulam muito rapidamente e não conseguimos estar em condições de acompanhar e publicar na hora. Mas, sinceramente, tudo bem; nosso objetivo não é ser o primeiro a noticiar, mas trazer uma informação mais confiável, apurada, de uma fonte comprovada, que vai dar um panorama mais amplo da situação. Raramente publicamos um tweet, por exemplo; mais provável que escolheremos a notícia que repercutiu esse tweet e deu mais outras informações de contexto.

“Tecnopolítica e Contracultura”, curso em fev de 2019

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Esse é o trabalho de Curadoria de informação que fazemos no BaixaCultura. Ele leva tempo: pelo menos 10h por semana ficamos lendo e selecionando informação para publicar em nossas redes. E esse é apenas um dos trabalhos que fazemos: há ainda, pelo menos, outras quatro frentes.

1) a produção de texos inéditos, geralmente análises (como “Ressaca da Internet, espírito do tempo“), relatos sobre eventos que partiticipamos (CryptoRave 2019) e oficinas e cursos que realizamos (Tecnopolítica e ContraCultura, Como documentar um projeto cultural), além da eventual edição e revisão de textos de colaboradores (como o “RSS para fugir dos algoritmos das redes sociais“, do Victor Wolffenbüttel). Escrever um texto inédito, pra nós, é um trabalho de pelo menos 5h: há a escrita propriamente dita, feita a partir de alguma ideia a guiar o texto (no caso das análises) ou de uma série de informações a ser relatadas (no caso dos eventos); a pesquisa de sites, links e outras referências que dêem base ou mostrem aquilo que estamos escrevendo; a finalização e revisão, onde, depois de algum tempo a deixar sem mexer o texto, relemos e cortamos ou acrescentamos alguma parte, além de pesquisar e inserir fotos e vídeos que dialoguem com a postagem. O trabalho de edição de textos de colaboradores geralmente inclui as duas últimas partes somente.

Organizando zines e recompensas, maio de 2019

2) A produção de eventos dentro da nossa temática, como os encontros da rede de cultura livre do sul global, que resultou em 2018 no Encontro de Cultura Livre do Sul, e cursos, oficinas, palestras, como os citados acima e outros que ocorrem por demanda. No caso dos eventos da rede, há o trabalho de organização e articulação, que inclui o envio de muitos e-mails, algumas videoconferências, outras horas pesquisando as iniciativas, tecnologias e projetos envolvidos; conversas diversas e assíncronas nos chats (geralmente usamos o Telegram e o Signal), aprovação e produção de artes gráficas, textos para convidar as iniciativas e organizar as metodologias de trabalho, revisão e publicação em páginas diversas. No caso das oficinas, cursos e palestras, há uma parte de tempo envolvida que é de difícil quantificação: a leitura de livros, sites, conversas com pessoas, on ou offline, que trazem informações novas ou ideias que podem agregar às temáticas que pesquisamos, por exemplo, não são dados quantificáveis porque aleatórios e ocasionais. Mas a sistematização dessas ideias, referências, práticas e fazeres em uma metodologia de ensino sim: são mais pelo menos 10 horas (de acordo com a oficina/palestra/curso) de escrita, pesquisa, conversas (com pessoas próximas, ou oficineirxs parceirxs) e organização de um material de apresentação que sirva de apoio e guia da oficina/curso/palestra.

3) a produção de zines e outros eventuais produtos no que chamamos de “Loja” aqui no site. Para a produção de nossas publicações artesanais (geralmente zines), costumamos selecionar os textos a partir das pesquisas já comentadas para a publicação das postagens, realização dos cursos ou da curadoria de informação. Há, então, a fase de edição, que consiste de pensar a publicação como um todo: se for mais de um texto (caso de La Remezcla, por exemplo), quais vão entrar na edição, ajustes nos artigos (se algum se referir a um fato já ocorrido, por exemplo, hay que atualizar), revisão e encomenda ou escrita de algum texto extra, como uma apresentação, introdução ou posfácio. Há, então, a definição do projeto gráfico, que é realizada a partir do diálogo constante entre editores de texto e de arte (geralmente aqui são duas pessoas envolvidas): envio de um esboço, aprovação, correção, revisão, diagramação final, revisão. Por fim, há a parte de produção gráfica: há que escolher os tipos de papéis usados, qual vai ser a tiragem, negociar preços e entregas se a opção for escolher alguma gráfica a fazer o serviço; organizar a impressão caseira por algumas horas se for produção caseira, como nossas parcerias com a Monstro dos Mares, o que inclui também compra de papel, manutenção da impressora, grampos, cola, tesoura, acabamentos diversos, trabalho feito por pessoas.

Depois desses processos vem o gargalo mais difícil: a distribuição. Que no nosso caso se dá: 1) recompensas de nossas campanhas e venda direta online, onde a entrega é pelos Correios; 2) livrarias parceiras, que vendem publicações alternativas mediante alguma porcentagem para elas nas vendas, caso da Livraria Taverna, em Porto Alegre, e no Ônibus Rizoma, em São Paulo; 3) feiras gráficas e de livros, onde já participamos com banca própria, mas ultimamente deixamos nosso material com alguma livraria/iniciativa parceira, caso da Monstro dos Mares ou da Chupa Manga, por aboluta falta de tempo e condições; 4) Há também a distribuição e venda quando realizamos alguma atividade, como cursos, oficinas e palestras, onde quase sempre levamos algumas publicações;

4) Por fim, e não menos importante, há o trabalho de produção de nossa Newsletter em parceria com a Casa da Cultura Digital Porto Alegre, quase sempre quinzenal, que se aproveita dos trabalhos anteriores de curadoria de informação e pesquisa, mas também requer um tempo de pelo menos 4h antes de seu envio para edição e escrita dos textos, além de uma pesquisa extra para buscar informação nova e a diagramação; e outras tarefas ocasionais, como ajustes técnicos em nossa página, resposta de e-mails (toda semana há alguns para responder, via info@baixacultura.org) e de comentários nas redes sociais; produção da campanha de financiamento no Apoia.se, o que inclui um diálogo constante (pelo menos semanal) com xs apoiadorxs; impressão de adesivos; participação em eventos na área; manutenção do servidor do site e e-mail, organização de backup de textos e fotos; e, ufa, outras tarefas eventuais que agora não lembramos mas que certamente existem!

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Por quê estamos comentando isso, aqui e agora?

Primeiro, para explicar, em detalhes, o que fazemos. É um trabalho diário e árduo manter uma mídia alternativa e um laboratório de cultura livre online em tempos de desinformação constante e grandes monopólios fechados de informação na rede. Fazemos porque amamos e porque consideramos importante – muita gente considera também. Mas requer tempo e esforço.

Segundo, porque estamos com 14 meses da campanha de financiamento contínuo. É lá que estamos buscando recursos para manter nosso trabalho e remunerar as horas dedicadas ao BaixaCultura realizando todas as tarefas já citadas. A partir de R$5 mensais, menos que uma cerveja, você já apoia a continuidade do nosso trabalho.

Terceiro, para dizer que, passado esse período, estamos nos reorganizando para alcançar novos públicos. Fizemos algumas pequenas alterações nas metas e recompensas de nossa campanha que convidamos vocês a olharem.

Quarto, e por fim, para avisar que estamos preparando novidades. Usar mais vídeos (alguém falou de youtuber?) grupos de apoio em redes sociais, novos zines. Queremos saber também de vocês: o que vocês tem achado de nossa campanha, do site, das redes sociais, dos cursos? Alguma sugestão de como ampliar nossa campanha de financiamento e/ou alcance de nossos conteúdos? Nos escreva!

Commons desde o sul global

As fotos são da equipe da Tapera Taperá

O Creative Commons é um projeto que administra o principal conjunto de licenças livres no mundo, criado ainda em 2001 por iniciativa de algumas pessoas, entre elas Lawrence Lessig. Como você que acompanha o nosso trabalho nesses últimos 10 anos sabe, as licenças CC são hoje as principais licenças livres do planeta (não as únicas, como vocẽ também sabe se frequenta este sítio) e uma das principais responsáveis pela propagação do que chamamos hoje de cultura livre, um caldeirão de ideia/pessoas e movimentos que já foi apresentado por nós nesta postagem, embora de lá pra cá continue em mutação.

As licenças CC são também a infraestrutura jurídica para a criação de conhecimento na Wikipedia, o compartilhamento de ciência no Scielo, a produção e disseminação de jornalismo alternativo, e a disponibilização online de importantíssimos acervos de museus e arquivos por todo o mundo.

O CC existe já há 17 anos, mas nos últimos dois vem passando por algumas transformações importantes. Uma delas é que as licenças 4.0 são a primeira versão internacional das licenças CC – antes, cada país fazia sua própria versão, a partir da sua lei local, agora há uma licença única entre Brasil e Portugal, por exemplo.

E a outra é a rede global de voluntários e colaboradores: antes, em cada país havia uma única organização responsável pelo projeto; agora, há uma rede descentralizada de pessoas, e organizada em torno de temas (que são discutidos em plataformas temáticas, que são transnacionais). Em mais de 30 países ao redor do mundo já foram formados capítulos locais do CC, inclusive no Brasil, onde o 33º capítulo foi reestabelecido em janeiro de 2019. Em uma reunião de colaboradores locais, foram eleitas as lideranças pelo próximo ano e aprovado um documento de governança (aqui, na íntegra) para guiar as atividades e a representação do capítulo local no futuro.

Mariana Valente, diretora do InternetLab, advogada e pesquisadora na área de acesso ao conhecimento, foi escolhida como a Coordenadora Geral (“chapter lead”) e representante do CC Brasil no Global Network Council​, encontro anual que reúne pessoas de diversos capítulos ao redor do mundo e a equipe da sede da organização nos Estados Unidos. Os outros coordenadores são Juliana Monteiro, coordenadora de OpenGLAM (instituições de memória); Célio Costa, coordenador de projetos Wiki; Rodrigo Padula, coordenador de projetos de governo aberto; e este que cá edita o BaixaCultura, Leonardo Foletto, coordenador responsável pela comunicação, documentação e registros de atividades.

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Na quarta-feira 24 de abril de 2019 o CC realizou sua primeira reunião aberta na Tapera Taperá, livraria e espaço cultural do centro de São Paulo. A proposta foi (re) apresentar o Creative Commons Brasil para um público mais amplo, contar como ele está funcionando e também um pouco de sua história no Brasil. Vale lembrar: o CC existe há 10 anos por aqui, inicialmente ligado ao Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-RJ e tendo o nome de Ronaldo Lemos à frente. Depois, após algumas trocas de liderança, as iniciativas do CC passaram a diminuir de intensidade, ficando restritas à manutenção das licenças CC, do site e de algumas iniciativas esparsas de diálogos com instituições de memória. Essa situação ocorreu um tanto devido ao próprio tema ter perdido espaço na discussão tecnopolítica para a vigilância e a economia gerada em torno de aplicativos como Uber, AirbnB, Rappi, entre vários outros, para citar dois tópicos que ganharam um espaço que já foi o do debate da cultura e das licenças livres na década passada e até cerca de 2012; e outro tanto devido à questões internas de disputas de foco e interesse nas atividades ligadas ao CC. Pedro Mizukami, integrante do CC ao longo desse tempo e hoje diretor de pesquisa cntr., contou um um pouco dessa história na reunião.

A proposta da conversa aberta foi, também, a de dialogar sobre outros temas que perpassam as licenças, como o comum, o movimento por cultura e conhecimento livre, a colaboração, os recursos educacionais abertos, o governo aberto e o acesso em instituições de memória (como museus, bibliotecas e arquivos). Licenciar em uma licença livre, seja ela alguma das CCs ou outras, é também tornar algo um bem comum, que não sendo nem privado nem estatal, deve ser gerido e mantido pela comunidade que a construiu e outras que queiram manter o comum. Também presente na Tapera Taperá, Rafael Zanatta, advogado e pesquisador na área dos direitos digitais e antivigilância , aproximou a discussão do CC com o comum, um diálogo que tem sido feito por boa parte do que costumamos chamar de “movimento” da cultura livre – quem acompanhou nosso Encontro de Cultura Livre do Sul em 2018 certamente viu essa questão lá discutida.

Também foi na linha de aproximar o CC do comum e da cultura livre minha contribuição na reunião aberta, assim como trazer a perspectiva do sul global para pensar a cultura livre hoje. Como escrevemos no Cultura Livre do Sul Global – um manifesto,  falar da questão das licenças, software e hardware livre são importantes, mas no sul global temos outras particularidades que não podemos deixar de lado: a desigualdade social, o acesso ao conhecimento, a criatividade gambiarrística dos que pouco tem, entre várias outras questões tornadas ainda mais urgentes no contexto proto (ou neo?) fascista que o Brasil (e uma parcela do mundo) se encontra hoje.

Como escrevemos no Manifesto: “Pensar e fazer a cultura livre desde o sul requer pensarmos na urgência das necessidades de sobrevivência do nosso povo. Requer nos aproximarmos da discussão sobre o comum, conceito chave que nos une na luta contra a privatização dos recursos naturais, como os oceanos e o ar, mas também dos softwares livres e dos protocolos abertos e gratuitos sob os quais se organiza a internet. Nos aproximar do comum amplia nosso campo de disputa no sul global e nos aproxima do cotidiano de comunidades, centrais e periféricas, que lutam no dia a dia pela preservação dos bens comuns.”

A questão de COMO fazer essa aproximação é o que nós, do BaixaCultura, e diversas outras pessoas e coletivos do sul global estamos pensando hoje. Inclusive esse tema é um dos focos no projeto de mentoria que estamos realizando, com o apoio da Mozilla Open Leaders, para a próxima edição do Encontro de Cultura Livre do Sul, também online, a ser realizado ainda neste 2019, e uma presencial para 2020. Nesse aspecto é importante lembrar que o comum, a partir do conceito-prática que nos relacionamos, é pensado como algo em processo, como um fazer comum (commoning em inglês). Isto é, não termos em vista somente o produto em si – livro, vídeo, música, hardware ou software livres – mas as nossas próprias práticas e dinâmicas através das quais juntos criarmos novas formas de viver, conviver e também produzir. Este é o fazer comum, e por isso o processo de construção aberta, transparente e colaborativa (de fato!) desse comum é tão ou mais importante que os produtos que por ventura possam ser gerados.

A reunião aberta do CC teve transmissão ao vivo, realizada via YouTube da Tapera Taperá, e está disponível aqui abaixo. Se você quiser fazer parte da discussão, que é aberta a todes e coletiva mesmo, há o canal de Telegram, além do site, com um blog contando o que o CC tem feito por aí nesses últimos tempos.

[Leonardo Foletto]

Como documentar um projeto cultural?

* Esta postagem foi feita em dois momentos: antes e depois do curso. Na primeira parte, está a parte de divulgação do curso; na segunda parte, o relato feito depois de finalizado a oficina.

Entre 2016 e 2017, quando fizemos Enfrenta! na Espanha, um dos desafios que tivemos foi a documentação dos projetos. Como relatar, gravar e registrar entrevistas  mais de 20 coletivos de diversos lugares e com várias diferenças (e semelhanças)? Optamos por um blog, e de alguns aprendizados desse processo, seja no documentar em si quanto no que os coletivos falaram sobre o processo de documentar, é que nasceu uma metodologia recombinante (de outras várias) e essa oficina.

Como podemos deixar um registro significativo dos projetos e das ações que realizamos? Ou como compartilhar o processo de criação antes, durante e depois de uma atividade? Aprender com os erros, refletir sobre o já feito e ativar a memória para que nossos projetos persistam, mesmo que como documentos que vão ajudar outrxs a fazer melhor, são alguns dos proveitos de realizar uma boa documentação de projetos. É certo que a internet e a tecnologia digital facilitam a produção de registros, porém documentar bem vai muito além de publicar uma foto em redes sociais: envolve sistematização de informação, trabalho com a memória e cuidado com o modo de arquivar o conteúdo. É também contar uma história, deixar registrada uma versão dos fatos.

A proposta da oficina, que vai ser realizada no CPF Sesc, em São Paulo, 13, 14 e 15 de março, das 10h30 às 13h30, é mostrar como proceder para garantir uma documentação de projetos, do nível mínimo ao qualificado. Vamos (eu, Leonardo Foletto, editor do Baixa; e Sheila Uberti, colaboradora do projeto) trabalhar sobre tópicos como questões introdutórias da importância da documentação e da memória, como selecionar e organizar o que será relatado das ações, o uso de ferramentas de registro e de arquivo (de preferência as livres), a organização das competências de cada pessoa para produzir bons registros e a publicação dos materiais nas redes digitais (mas também em nossos arquivos internos). O pré-requisito é que xs participantes façam parte de algum projeto cultural, ativista, social, de cuidados, comunicação, inovação e que tragam (ou que tenham acesso para buscar) informações de seus projetos, assim permitindo a realização da atividade prática de documentar.

Inscrições e mais detalhes aqui. Depois do curso, como não poderia deixar de ser, documentamos aqui e trazemos referências e o material utilizado na oficina.

EDIÇÃO PÓS-REALIZAÇÃO: RELATO

Como prometemos, segue um relato e o material (em PDF) que utilizamos na oficina.
Ela foi realizada durante três dias, no quarto andar do prédio da Fecomércio, em São Paulo, onde fica o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, uma unidade (das mais de 20 na Grande São Paulo) focada em oficinas, cursos e palestras muito interessantes.

Ao chegar na sala destinada à oficina, propusemos uma organização diferente das classes: em vez do tradicional formato sala de aula, em linhas, montamos um círculo, encaixando as mesas quebra-cabeças do espaço. O formato de roda permite que todos se vejam e proporciona maior proximidade, física e subjetiva, entre as pessoas.

Depois da apresentação de cada um (nome, como chegou no curso, o que faz, o que você entende por documentar?), apresentamos o roteiro, esboçado antes mas ajustado a cada momento, de acordo com os interesses e a quantidade dos participantes (fomos entre 12 e 15, nos três dias, além dos dois oficineiros). Para o primeiro dia, trouxemos um pouco de conteúdo sobre documentar, espaços de documentação, porquê documentar, processos de arquivo no meio digital. Ao final do primeiro dia, fizemos um exercício simples de documentação a partir do modelo do CTA, que adaptamos conforme as imagens abaixo do FlipChart. A proposta era organizar o que é mais importante de cada projeto para, ao longo dos dias, ir aprofundando esse relato. Dividimos a turma em duplas e trios e cada grupo escreveu sobre projetos que trouxeram, seja os que já trabalham como os que estão para realizar.

No segundo dia, iniciamos retomando alguns tópicos trabalhado na véspera e logo iniciamos a leitura dos relatos dos projetos feitos a partir do modelo. Comentamos brevemente cada um, de forma a alinhar e organizar a estrutura dos textos. Depois disso seguimos para a apresentação dos três eixos que escolhemos para guiar a documentação: formato, plataformas e ferramentas. Apresentamos formatos, ferramentas e plataformas para publicação na internet, dando preferência àquelas de código aberto. Explicamos também, a partir de um vídeo (tudo está na apresentação em PPT), como funciona um domínio e um servidor na rede – questões que são básicas para a autonomia em nossos projetos e assim não depender de “nuvens” (lembremos o meme: não são “nuvens”, mas sim computadores de outros) que não sabemos bem como funcionam. Por fim, nesse dia encerramos com o licenciamento, etapa que segue a de publicação da documentação na rede.

No terceiro dia, voltamos a algumas ferramentas e plataformas do dia anterior (falamos de muitas!), detalhamos mais alguns tópicos (como o de cultura hacker e as licenças livres) e, então, fizemos um segundo exercício MãonaMassa. Com os relatos simples construídos no primeiro dia, a proposta era detalhar, mesmo que no papel (não tínhamos computadores para todes), quais vão seriam os formatos, plataformas e ferramentas utilizados na construção da documentação de cada projeto. A partir daí, encerramos a oficina com dicas da última etapa do processo de documentação digital, a circulação nas redes. Falamos um pouco das redes sociais, de como empatizar com o nosso público, de SEO, do planejamento dos conteúdos e da importância de dar prioridade para nossos blogs, sites e plataformas na hora de publicar, e, a partir deles, espalhar nas redes sociais. Assim valorizamos as ferramentas e plataformas nas quais temos maior autonomia, e não redes como facebook e Twitter, que, para além das questões tecnopolíticas implicadas, dificultam a recuperação posterior do material.
A experiência de realizar essa oficina foi bastante interessante para nós, que trabalhamos documentando projetos alguns bons anos. Nos ajudou a organizar um processo que, muitas vezes, encaramos como “natural” e, por isso, não paramos para refletir com profundidade sobre suas etapas. Assim criamos um material e uma metodologia que ajuda a potencializar a criação de relatos consistentes e que possam permancer nessa grande biblioteca aparentemente infinita que é a internet. Criar uma memória significativa de projetos culturais ajuda tanto na contação das histórias como na recuperação desses processos para a criação de novos projetos além de ser um requisito indispensável na prestação de contas de qualquer tipo de projeto.

Tecnopolítica e contracultura: um experimento em ação

Terminou na última quarta-feira, 13 de fevereiro, a primeira edição do curso “Tecnopolítica & Contracultura”, um passeio pelo pensamento e ação de autonomistas, anarquistas, hackers e outrxs rebeldes. Durante três dias, propomos – este que cá escreve, Leonardo Foletto, e Leonardo Retamoso palma – uma jornada por ideias, conceitos, práticas, ações e referências em busca da retomada de um pensamento tecnopolítico que bebe muito na fonte dos autonomismo e operaísmo italiano da década de 1960 para encontrar saídas de análise e ação dessa “ressaca da internet” que nos metemos neste final de década de 2010. Um público muito diverso, de cerca de 30 pessoas nos 3 dias, aceitou nossa proposta e embarcou no passeio: de recém saídos do Ensino Médio a professores pós-doutores de universidades, passando por artistas, programadores, designers, jornalistas e arquitetas, nos tornamos uma potente multidão em busca de abrir as caixas-pretas da tecnologia e entender como se dá essa louca composição que nos causa esperança e sofrimento, depressão e euforia, liberdade e prisão.

O autonomismo italiano serviu como um primeiro recorte histórico de um movimento/período/grupo que, além de tomar ruas, fábricas e universidades, criou suas próprias tecnologias (como a Rádio Alice, pioneira rádio livre criada em 1977 e com boa parte de seu acervo nesse site) e não se furtou a disputar a tecnologia em vez de demonizá-la – ou idolatrá-la como a salvação para os problemas da humanidade, esquecendo do elemento humano e político em sua construção. Depois, os fabulosos 1990 trouxeram altermundistas, zapatistas, ciberativistas, hackers e militantes do software livre a compor uma poderosa frente contra o capital global que buscava (e ainda busca) a decomposição em busca da dominação. A criatividade, expressa na guerrilha da comunicação/artivismo, foi essencial nesse período, com os teatros midiáticos coletivos de Luther Blisset e Wu Ming, bem conhecidos de quem frequenta esse espaço virtual; os protestos pacíficos dos Tute Bianche, que iam para o front (mesmo) dos protestos com chamativas roupas e equipamentos de brinquedo para pontuar o ridículo do conflito armado; os sit-in virtuais em prol dos zapatistas, que interditavam sites estratégicos em prol de uma causa específica. Com esses e outros diversos exemplos, trouxemos a discussão para o presente e identificamos como a arte, quando formada pelo encontro ingovernável de corpos eróticos, é fundamental na mudança de perspectiva sobre ruas, computadores, governos, instituições e nós mesmos.

Por fim, trouxemos os hackers e sua ética de liberdade e transparência, fundamental para a construção da internet livre como a conhecíamos até pouco tempo atrás. Pontuamos no debate os princípios contraculturais da ética hacker (aqui tem bastante material sobre isso, feito para minhas aulas de Cultura Hacker e Jornalismo), mas ouvimos o feedback que, por menos discriminatórios que sejam alguns dos princípios hackers, a prática nos diz que muitos hackers e programadores endossam o machismo e a misoginia. Para reverter esse processo é fundamental o trabalho de iniciativas que relacionam as questões feministas e LGBTQ com as tecnologias digitais e a cultura hacker, como muitas das que divulgamos nesse post no 8 de março de 2018, hackerspaces como MariaLab, grupos como Mulheres na Tecnologia e iniciativas recentes como o portal Acoso Online, que trata de trazer informações sobre publicação sem consentimento de imagens e vídeos íntimos por meios eletrônicos.


Finalizamos, nas duas horas finais das 12h de curso, com algumas inquietações, sugestões de ações e trechos de textos que nos convidam a agir.
Abrir as caixas-pretas, da tecnologia e dos sistemas políticos, econômicos e institucionais, em busca da transparência desses sistemas é um objetivo sempre em vista.
Que a urgência desse momento de tantos retrocessos e conservadorismo global seja uma inquietação para agir, não para se desesperar; há muito o que se construir, se unir e (re) lembrar afinal porque somos humanos e porque o conhecimento que produzimos pode servir para a busca de justiça social e redução das desigualdades.
Que, na aceleração da infoesfera que nos entope de informação, limitar (ou organizar) os muitos estímulos vindo de todos lados é não somente razoável como necessário para agir.
Que é importante politizar o mal-estar, como nos fala Amador Fernandez-Savater; que esse mal-estar geral que vivemos em torno dos retrocessos e ascensão de práticas relacionadas ao que chamamos de fascismo pode ser elaborado enquanto força afirmativa de transformação e de construção de possibilidades e modos de viver. Não deixar o choro e o sofrimento em casa, mas sim trazê-los, junto com o mal-estar, para o debate (hay que vir llorado de casa!) e falar sobre ele. Mesmo que não se saiba onde essa discussão vai dar: no caminho podem ocorrer mudanças que nos tiram do imobilismo da crítica pela crítica. Aprender a viver a partir e com a crise é um primeiro passo para sair dela, o que inclui não negar o subjetivo e os afetos na política, mas unir estes afetos, destrinchá-los e trabalhar com eles, compartilhando vulnerabilidades – situações como a dos três dias de curso que propomos são algumas das possíveis de fazer essa discussão.

“A ação da multidão não é outra coisa que esta proliferação contínua de experiências vitais que têm em comum a negação da morte, a recusa radical e definitiva do que paralisa o processo da vida”. (Antonio Negri)]

[A ‘deserotização’ da vida cotidiana é o pior desastre que a humanidade pode conhecer…é que se perde a
empatia, a compreensão erótica do outro…” (Franco Berardi, Bifo)]

[“A ação … diz respeito, antes de mais nada, ao sentir. Agir significa modificar a maneira de sentir junto…” (Maurizio Lazzarato)]

[“Refiro-me à multidão de festa, à multidão de alegria, à multidão espontaneamente amorosa, embriagada apenas pelo prazer de se reunir por se reunir.” (Gabriel Tarde)]

[“… o mais profundo é a pele…” (Paul Valéry)]

“Tecnopolítica e Contracultura” é um experimento disparador de ideias e ações que visam a nos tirar da letargia do “não há nada a fazer”. Como tal, segue em outros locais e com outras pessoas; nas próximas semanas vamos avisando os próximos passos e datas. Aqui está o material guia utilizado no curso. Adelante!

 

Encontro de Cultura Livre do Sul no Mozilla Open Leaders

Nosso Encontro/projeto Cultura livre do Sul foi selecionado, no início de janeiro, para participar de um procesos de mentoria junto ao programa Mozilla Open Leaders. Desde essa semana, e durante mais 13, vamos imaginar e desenhar um novo encontro para pensar e construir coletivamente a cultura livre desde o sul global.

Cultura Livre do Sul é uma ideia que surgiu em 2018 em uma conversa entre amigos de vários coletivos de ibero-américa  (Ártica, Baixa Cultura, Nodo Común, Em Rede, Rede das Produtoras Culturais Colaborativas y Ediciones de la Terraza) sobre a necessidade de criar uma instância, desde o sul global, para debater e pôr em discussão a cultura livre – e também criar maneiras de fomentar práticas desde a experiência cotidiada dos coletivos da região.

O Primeiro Encontro Online de Cultura Livre se desenvolveu durante os dias 21, 22 e 23 de novembro de 2018 através de textos disparadores, mesas de discussão, mapeamento de iniciativas de cultura livre e uma curadoria de projetos editoriais livres. Como resultado, um conjunto de coletivos, entre os quais os cinco organizadores, escrevemos um manifesto que compartilhamos em nossas páginas web, onde tomamos uma postura sobre a cultura livre que incorpora a articulação com outros movimentos pela igualdade social e em favor dos bens comuns

Com mais de 200 participantes inscritos durante os três dias do encontro, pensamos sobre as especificidades da cultura livre no sul global em relação ao norte. A discussão sobre a liberdade de utilização e de produção de tecnologias livres foi fundamental para a cultura livre desde o princípio, mas acreditamos que, no sul, temos a urgência maior de nos perguntarmos para que e para quem serve nossas tecnologias livres. Não basta discutir se vamos usar ferramentas produzidas em software livre o se vamos optar por licenças livres em nossas produções culturais: necessitamos pensar em tecnologias, ferrametnas e processos livres que seja usados para dar espaço, autonomia e respeito aos menos favorecidos, econômica e tecnologicamente, de nossos continentes, e para diminuir as desigualdades sociais em nossas regiões, que são ainda mais visíveis no contexto da ascenção fascista global que vivemos desde 2018.

Nosso grupo e hora de participação em Mozilla Open Leaders

Como parte do desejo compartilhado dos coletivos organizadores de seguir aprofundando o debate começado no primeiro encontro, inscrevemos, ao final de novembro de 2018, o projeto Cultura Livre do SUl no chamado da Mozilla Open Leaders, um programa da Fundação Mozilla que oferece mentoria e assessoramento a projetos do mundo todo que buscam construir espaços abertos na internet para discussão e ação coletivas.

Estamos participando em um grupo junto a outros projetos selecionados, onde poderemos aprender e dialogar sobre nossa experiência, e temos uma mentora especialmente destianda para o projeto, Josefina Caro Magaña, com quem estamos trabalhando mais próximo para dar forma ao futuro de Cultura Livre do Sul.

E como será esse próximo encontro? Como prosseguiremos com o Encontro de Cultura Livre do Sul? Ainda não sabemos, também porque é o que vamos buscar no processo de mentoria. Nossa ideia aprovada foi a de organizar uma nova edição do Encontro de Cultura livre do Sul, explorando as possibilidades de realizar um encontro presencial, desenhar estratégias para a sustentabilidade do projeto ao longo do tempo e avaliar nossas práticas para assegurarmos que sejam as mais abertas possíveis, tanto no que diz respeito ao uso de tecnologias como as dinâmicas de participação.

Nos próximos meses contaremos por aqui os avanços do projeto via Open Leaders. Tudo também está sendo disponibilizado no nosso repositório em GitHub. Ao final do processo, esperamos propor novas instâncias abertas de intercâmbio para seguir construindo cultura livre desde nossa região.

Post do Artica Online livremente traduzido para o PTBR

Tecnopolítica e contracultura – a estreia de um curso


Se nos anos 1990, com o casamento do digital com a internet, enxergávamos enormes possibilidades de libertação (da informação de grandes grupos midiáticos, de liberdade de falar o que bem quiser, de criar tecnologias e mundos novos), hoje parece que estamos a lidar com consequências nefastas, representadas em uma palavra na moda nestes tempos: distopia.

Nos descuidamos – ou não conseguimos? – prestar atenção na ascensão de plataformas globais de tecnologia, que por sua vez construíram bolhas de informação que confirmam pontos de vista, espalham mentiras e criam realidades alternativas que em muitos casos não há informação comprovada que consiga mudar. Como podemos compreender o contexto tecnopolítico hoje? Que caminhos podemos apontar para discutirmos e transformarmos a política que sempre está junto na construção de tecnologias?

Para tentar fazer melhores perguntas e aproximarmos de respostas que nos convoquem pra ação, propomos esse curso: “Tecnopolítica e Contracultura“, que vai estrear no Centro de Pesquisa e Formação do SESC, em São Paulo, nos dias 11, 12 e 13 de fevereiro, das 14h às 18h, conduzido por o editor desta página, Leonardo Foletto, e Leonardo Palma, pesquisador independente, agitador cultural radicado em Santa Maria-RS, ativista da Rede Universidade Nômade e um profundo conhecedor da obra dos autonomistas italianos a partir da década de 1970. O curso busca resgatar um pensamento tecnopolítico em quatro momentos: 1) os autonomistas italianos da década de 1970;  2) pós-operaísmo, altermundistas, Fórum Social Mundial e mídia tática dos 1990; 3) hackers: paranóicos visionários, dos 1980, 1990 e 2000; e o 4) hoje, com a ascensão das redes sociais como principais espaços de discussão pública nas redes digitais e o fim da internet como a conhecemos nos 1990 e 2000.

Começamos nosso percurso pelos autonomistas surgidos no maio de 68′ italiano que durou mais de uma década. Falaremos do contexto de surgimento desse, digamos, movimento, sua construção no final dos 1960 com o importante papel das revistas (em especial, Quaderni Rossi, Clase Operaia, Primo Maggio) em tornar palpável a produção de subjetividade, por em circulação e entendimento certos conceitos e ideias; da articulação com a universidade (estudantes e professores) e com os operários das fábricas italianas; da construção de alguns aparatos sociotécnicos baseados nas ideias em circulação, como a Rádio Alice; e de como todo o fértil cenário contracultural estabelecido na Itália dessa época foi dissolvido, com a criminalização e o exílio de muitos de seus participantes. Trabalharemos nessa parte com autores e histórias de Antonio Negri, Franco “Bifo” Berardi, Paolo Virno, Maurizio Lazaratto, Mário Tronti, Giorgio Agamben, Silvia Federici, entre outrxs.

Passamos então para um segundo momento, final dos 1980 e início dos 1990, trazendo histórias, textos & aparatos do pós-operaísmo, altermundistas, net-art e mídia tática. A partir da saída de Negri da prisão (1983) e seu exílio na França, sua obra começa a ser redescoberta por uma esquerda ligada mais a Foucault, Deleuze e Guatarri do que aos “partidos” institucionalizados. Os Zapatistas de Chiapas, no México, recuperam os autonomistas italianos e praticamente inauguram um ciberativismo/hackativismo na então novata internet dos 1990, com ações na rede e fora dela que vão influenciar a potencialização do movimento altermundista e na Ação Global dos Povos, que explode a partir de 1999, em Seattle, e segue pelo menos até 2003. Essa rede pós-operaísmo está articulada com o nascimento do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, 2001; com um movimento potente de cultura digital (“networked cultures”) que propagou o conceito de mídia tática, muito propagado e trabalho no brasil dos 2000;  com coletivos como Luther Blisset, Wu Ming, Critical Art Ensemble; e com muitxs pesquisadores em torno da Nettime, lista de e-mails, até hoje ativa, que reúne alguns teóricos-práticos europeus da área, como Geert Lovink, Felix Stalder, John Holloway, Trebor Scholz, Bruce Sterling, entre outrxs.

Na terceira parte, miramos um grupo de fazedores e pensadores que atua em paralelo aos autonomistas e altermundistas, às vezes se relacionando com estes e em outras não: os hackers. Surgidos enquanto grupo de pessoas e uma (contra) cultura no final dos 1960, os hackers se propagam pelos 1970, com a criação da internet e o começo da popularização dos computadores pessoais, pelos 1980, com o movimento do software livre, do copyleft e via hackerspaces, laboratórios de garagem que serão a base de um movimento, em especial em sua versão européia e latino-americana, que pratica a (contra) cultura tecnológica a partir dos princípios da autonomia digital, da segurança da informação e das táticas antivigilências. Aqui, destacamos alguns textos, ideias e projetos de Richard Stallman, criador do movimento do software livre e ainda hoje preside de Free Software Foundation, Gabriela Coleman, Tatiana Bazzichelli, Eric Raymond, Richard Barbrook, Pekka Himanen, Chaos Computer Club, Julian Assange, Linus Torvalds, entre outrxs também brasileirxs ligados aos grupos da MetaReciclagem, Transparência Hacker, BaixoCentro, Casa da Cultura Digital.

No desfecho, falamos do espírito da “Ressaca da Internet” já comentado em texto por aqui, mas que aprofundaremos no curso. e dos tempos de “decomposição” que vivemos, onde cada vez mais o “autômato” está tomando toda nossa força de imaginação, como fala Bifo em recente palestra na Argentina, em Novembro de 2018. Bifo, aliás, é um dos elos entre todos s momentos do curso; está presente da Itália dos 1970 aos altermundistas dos 1990, ainda hoje ativo pensando, escrevendo e propagando a ideia de que não devemos nos acomodar com a ascenção fascista que nos cerca, em especial no Brasil e na América Latina, e que a força de nosso pensamento e do conhecimento é demasiadamente mais rica do que a que apresentada neste cenário brutal em que vivemos neste 2019.

Como aperitivo do curso, o vídeo de Bifo acima comentado está aqui abaixo e sintetiza algumas questões a serem abordadas entre 11 e 13 de fevereiro. Aos que não forem de SP, aguardem, montamos esse curso com muito estudo e gosto para circular em outras cidades também. Inscrições e mais informações no site do Sesc.

Créditos imagens: divulgação do curso; autonomismo italiano; altermundismo; hackers;

Retrospectiva 2018

Na última edição do ano de nossa newsletter (já assinou?) em parceria com a CCD POA, fizemos uma retrospectiva de 2018 a partir das nossas 18 edições enviadas quizenalmente, entre abril e dezembro. Mais uma vez começamos uma tradição que não sabemos quanto tempo vai durar, mas desde o princípio do Baixa gostamos disso. Segue abaixo a recompilação mês a mês, com os links para as íntegras de cada boletím e a data do mês em que cada uma foi enviada. Ao final, apresentamos uma nuvem de tag com todas as 137 páginas de texto Arial 11 espaçamento simples que renderam as 18 edições dos boletins. Aguarde a próxima em 10 de janeiro de 2019, com novidades. Boa virada e que 2019 seja um ano potente!

abraços,
Leonardo Foletto,
editor do BaixaCultura

Abril (19)

Nossa news começou em abril com um tema que seria comum aqui até o final do ano: Ressaca da Internet, que depois viraria texto no BaixaCultura e no Outras Palavras. Também foi a edição em que comentamos o “vazamento” dos dados do Facebook via Cambridge Analytica, uma situação que criaria ainda diversas notícias no ano, como o depoimento de Mark Zuckerberg no Senado Americano, e desencadearia uma crise na maior rede social digital do planeta que não parece terminar em 2019. Falamos também do financiamento recorrente do BaixaCultura no Apoia.se, um primeiro experimento para tentar viabilizar a mídia alternativa digital sobre cultura livre & tecnopolítica, que continua firme e querendo ser maior – em dezembro de 2018 temos 42 apoiadores mensais, das quais agradecemos muito. A íntegra dessa edição primeira pode ser lida aqui.

Maio  (3, 10 – edição especial Cryptorave, 24)

Maio foi um mês com três boletins. A edição #2 (leia completa) teve um texto que, hoje, soa até mais instigante que antes – Que tal nós mesmos usarmos e agregarmos valor aos dados que produzimos na internet? E também começamos os inúmeros relatos sobre o dilema Google x Ética. Teve edição especial (leia aqui) com a cobertura da CryptoRave 2018, realizada em 4 e 5 de maio na linda Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Foi também momento de discutir ética e inteligência artificial e a moribunda neutralidade da rede nos EUA, em nossa edição #4 (leia completa). Já nos informes nossos, publicamos no BaixaCultura uma BaixaCharla com Rodrigo Savazoni e Geórgia Nicolau, do Instituto Procomum, em Santos, lugar a qual um dos que cá escreve nesse boletim, Leonardo Foletto, voltaria algumas vezes ainda em 2018 para documentar o processo da instigante Colaboradora; e o Diálogos Abertos #1, nosso programa de conversa por streaming, no qual falaríamos, é claro, do caso do Facebook (disponível aqui na íntegra).

Junho (7 e 21)

Em junho começamos a relatar mais de perto a votação da Lei de Proteção de Dados Pessoais, como se percebe na edição #5 (aqui na íntegra), que entre outros vários assuntos, traz um alerta sobre as mudanças no WhatsApp impostas pelo Facebook (e que abriram as portas para o caos dos impulsionamentos de “notícias”), divulga a interessante pesquisa de Bia Martins sobre os hackerspaces do Brasil e a polêmica compra do GitHub pela Microsoft. Devido a série de notícias e informações que publicamos à época e que de alguma forma põe fim a utopia de uma internet livre e neutra, nossa edição número #6 (íntegra aqui) teve como texto inicial “A distopia da realidade”, onde, entre outros tópicos, falamos que todo esse mundo de vigilância digital que vivemos hoje foi “previsto” pelos hackers e pelos ativistas mais antigos do software livre, como o próprio Richard Stallman – que sempre foram chamados de paranóicos… Não por acaso, nossa segunda edição do Diálogos Abertos debateu do fim da internet como a conhecemos.

Julho (5 e 19)

Julho foi o mês de, além de acompanhar as votações no congresso e a pauta tecnopolítica global, falar do caso da Abin e o seu desejo em ser a NSA brasileira e do insólito caso do “El Paquete Cubano”, como vocês podem ler na edição #7 da newsletter. Também foi mês de dar dicas de leitura, vídeos e bots para acompanhar, falar um pouco do machismo no mundo da tecnologia a partir de uma situação do 18º FISL (Fórum Internacional do Software Livre), de retomar o sempre pertinente assunto da reforma da lei de direitos autorais, e de divulgar os resultados da State of Commons, mapeamento anual de produtos licenciados em Creative Commons  ao redor do mundo, como vocês podem ler na edição #8 do boletim.

Agosto (2, 16 e 30)

Agosto teve três edições de nossa newsletter. Na primeira (#9), nos (re) perguntamos, dados às situações à época ocorridas, se a democracia estaria ameaçada pelo uso malicioso da tecnologia – mal sabíamos que nas eleições teríamos um caso para chamar de nosso nesse contexto… Falamos da epidemia das fake news e fizemos uma terceira edição do Diálogos Abertos justamente sobre isso. Também citamos as primeiras preocupações com aplicações indevidas da tecnologia de reconhecimento facial e novamente, Google x Ética. No BaixaCultura, fizemos uma “reportagem work-in-progress” (ou seja, sempre em construção) sobre as redes livres, trouxemos um relato do ESOCITE (Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología) em Santiago do Chile e falamos de como o RSS pode ser usado para fugir dos algoritmos nada transparentes que selecionam as informações para nós nas redes sociais. Você pode ler tudo mais que informamos em agosto nas edições #10 e #11, com destaques para os vetos da nossa LGPD (ainda não derrubados, pois é), a culpa do zero rating na propagação das fake news e o lançamento do Fato jurídico da quinzena.

Setembro (14 e 27)

Na seara dos direitos digitais, em setembro tivemos duas notícias importantes vindas da Europa: a condenação do serviço de inteligência britânico GCHQ pelo programa de vigilância em massa das comunicações, prática revelada lá em 2013 por Snowden. E a aprovação, pelo Parlamento Europeu, do projeto de lei de direitos autorais chamado de “Copyright Directive”, que, se posto em prática, criará um cenário de restrição pesado de liberdade de expressão no Velho Continente, o que certamente respingará por aqui. Detalhamos ambas notícias na nossa edição #12, enquanto que na seguinte destacamos o aniversário (10 anos!) do BaixaCultura, apresentamos o Diálogos Abertos #4 com um bate-papo e uma apresentação de ferramentas para acessar uma internet livre e segura e comentamos sobre o perigoso projeto Dragonfly, um mecanismo de pesquisa feito pela Google sob medida para a China, com a censura já colocada desde o princípio. O projeto foi cancelado agora em dezembro, se tornando um ótimo exemplo de como ações de oposição às grandes corporações as vezes funcionam.

Outubro (11 e 25)

Em plena eleições brasileiras, nos perguntamos: como os bots arruinaram o click ativismo? Enxurrada de bots, perfis falsos de redes sociais, envio ilegal de mensagens de WhatsApp… as edições de outubro – a #14 e a #15 – trouxeram uma seleção de informações e comentários que foram influenciados pela batalha eleitoral que tivemos neste 2018. Mas não só: falamos também da possibilidade de criminalização da criptografia, trouxemos uma agenda só de eventos de tecnologia voltado para mulheres, via Ada.vc; no BaixaCultura, trouxemos um longo e importante texto de como pesquisar anonimamente com o melhor e mais seguro buscador na rede, DuckDuckGo, enquanto que realizamos, como co-organizadores ao lado da Data Privacy Brasil e da Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP), o Workshop Lei de Proteção de Dados Pessoais, em Porto Alegre.

Novembro  (8 e 22)

Se antes das eleições brasileiras já falávamos em distopia, depois, com a eleição de Jair Bolsonaro como presidente no Brasil e um congresso tomado pela bancada BBB (bala, boi e Bíblia) e outros péssimos governantes como deputados e governadores, aí a distopia virou mesmo realidade. Retomamos, tanto na #16 quanto na edição #17, a questão da dependência tecnológica que ameaça a democracia, assim como voltamos (ou melhor: nunca paramos de) a falar do Facebook, que agora passou a vender nossas mensagens privadas por 10 centavos. Também falamos de coisas boas: o Encontro de Cultura Livre do Sul, que reuniu cerca de 200 pessoas de toda a ibero-américa em 3 dias intensos de debates, rodas de conversa, exposições em videoconferências na rede que já estão todas disponíveis no link acima. E do(s) lançamento(s) do novo zine do BaixaCultura, “A Ideologia Californiana”, de Richard Barbrook e Andy Cameron, primeiro volume da coleção Tecnopolítica, editada em parceria com a Monstro dos Mares.

Dezembro (7)

Começamos o último mês do ano, este que ainda estamos enquanto você recebe esse boletim de informações por e-mail, um pouco cansados de tudo que passou nesse intenso 2018. Mas não deixamos de trazer notícias e análises importantes, como uma excelente matéria no El País que se pergunta: ainda é possível resgatar a essência da web como espaço aberto e neutro? Nela,  são apresentados o que alguns pioneiros (Tim Berners-Lee, Jaron Lanier, Douglas Rushkoff) tem trabalhado em projetos que buscam um retorno à essência da web como espaço aberto, gratuito, neutro, seguro e construído por todos. Na edição #18, falamos também das criptofestas que ocorreram no final do ano, em especial a CripTRA, em Maquiné-RS, que participamos com algumas rodas de debate sobre mídia, privacidade, criptografia e articulação de uma rede de apoio para a segurança na internet aqui no Sul.

O top10 das palavras mais utilizadas nas newsletter desse ano:
Dado: 341; Rede: 240; Internet: 237; Livre: 203; Lei: 199; Direito: 183; Ser: 175; Projeto: 171; Tecnologia: 169; Empresa: 165.
Essas palavras dizem algo para você? Talvez não muito, mas é interessante e divertido de “resumir” nossos textos em algumas palavras mais usadas.