Cultura livre, comum e inovação cidadã em charla

Primeiro de março, final de manhã quente em Santos. Da rodoviária até o Instituto Procomum nos disseram que levava nem 20 minutos a pé. Nos disseram também que a viagem de São Paulo até Santos é rápida, e foi: de descer em Jabaquara, entrar no terminal, comprar passagem, pegar a Imigrantes para descer a serra e chegar na maior cidade do litoral paulista não deu 2h. Baixamos do ônibus com mochilas nas costas e seguimos a pé por uma praça grande de nome muito encontrado Brasil afora, Andradas. Atravessamos pelo meio das arvores centenários, cruzamos com pessoas sentadas nos bancos, vendedores de livros usados, até chegarmos numa daquelas típicas ruas centrais de cidades brasileiras, de calçadas estreitas tomadas de decoração de lojas, muitas lojas, de móveis, eletrodomésticos, roupas, tecidos, ferragens, lancherias e trecos em geral. As nuvens fartas disfarçam a queimação dos raios de sol na pele, mas não aliviam o calor, abafado e úmido que prenuncia chuva. Pouca gente na rua comercial, pelo menos não o suficiente para atrapalhar a caminhada, que segue rápida, ritmada, queremos chegar, largar as mochilas, tomar uma água, secar o suor. Agora viramos a esquerda numa rua com mais prédios, menos comércio, uma igreja grande, uma praça que parece antiga à esquerda, um posto na esquina; nessa esquina dobramos à esquerda novamente. Estamos na rua Sete de Setembro, que ao final dá no mar, no porto, no Mercado Municipal, região de casas antigas, prédios baixos, lojas de todos os tipos. Calçadas estreitas, em alguns pontos irregulares,  passamos por um muro de um colégio, um restaurante-bistrô, pequenos comércios, paradas de ônibus. Da calçada olhamos para o o outro lado da rua: número 52, uma porta fechada, um pavilhão grande. Deve ser aqui. Antiga sede da Associação Prato de Sopa Monsenhor Moreira, agora sede do Laboratório Santista. É.

Principal projeto do Instituto Procomum, o LabxS é um laboratório cidadão em formação. Os 1200 m² estão sendo ocupados aos poucos, com mutirões para cuidar da horta, fazer móveis, grafitar as paredes, decorar o ambiente. Já há quartos e banheiros enormes com vários boxes, resquício do tempo que o espaço recebia dezenas de moradores de rua por dia e oferecia comida, banho e um pouco de cuidado para estes voltarem para a rua no mesmo dia. Um dos banheiros coletivos já foi reformado e, nos próximos meses, vai ser usado na Colaboradora, projeto com inscrições até o próximo dia 29/4: trata-se de um um ambiente onde artistas, produtores e a comunidade aprendem juntos a solucionar os complexos problemas contemporâneos por meio da arte e da cultura. Um residência artística, mas não só. Um grande salão, antigo refeitório, já tem sido usado como auditório e local de grupos de trabalho, inclusive na 2º edição do Circuito Labs, realizada no início deste 2018. O circuito é um festival de inovação cidadã feito via chamada pública para realização de ações que promovem os bens comuns e as soluções de problemas de baixo para cima.

Muitos dos projetos do LabxS e do Instituto Procomum precisam de mais do que duas palavras de explicação. Ficam naquela intersecção entre várias áreas: não se tratam, por exemplo, de iniciativas culturais, nem de tecnologia, de empoderamento, nem de inovação, mas de tudo isso junto e misturado com outras várias coisas. Fomentam a solução de problemas no espaço público a partir de tecnologias digitais, metodologias colaborativas, pessoas e coletivos da região da Baixada Santista. Inovação cidadã e cultura livre, dois termos que definem o trabalho realizado pelo Procomum, não são facilmente compreensíveis hoje no Brasil. Quer dizer: não são termos complexos, acadêmicos, mas simples, tão simples que a vezes permitem muitas interpretações. Polissemia pura, que para fins de comunicação entre diferentes precisam ser definidos. Descrições e explicações são facilmente encontradas em todo o site do Procomum e do LabxS não por acaso.

A BaixaCharla abaixo não foi tão descritiva ou explicativa, mas afetiva. Nos conhecemos, eu (Leonardo), Rodrigo e Geórgia faz oito anos, trabalhamos juntos na CCD São Paulo em projetos como o Produção Cultural no Brasil, Fórum da Cultura Digital, BaixoCentro, além do principal projeto, a própria casa, criativa e louca como costumam ser as coisas difíceis de definir. “A Casa me deu régua e compasso do que eu não quero fazer”: frase forte de Rodrigo, citando Gil e “Aquele Abraço“, dá uma amostra do porquê a CCD foi tema de alguns bons minutos do papo. Não é fácil criar um espaço onde a experimentação se dava sem forçar, ação cotidiana “naturalizada” em cafés e conversas paralelas na cozinha que resultavam em projetos meio de brincadeira, meio a sério, que poderiam ser levados adiante e bancados por articulações financeiras num cenário – hoje percebemos bem – favorável de políticas culturais e investimentos públicos. “Prioridade pra quem se desloca” era um lema daqueles tempos, que jamais seria escrito como missão, regra, mandamento, a não ser que fosse de brincadeira, aí sim poderia pintar um dia na parede escrito à caneta, fruto empolgado de “horas felizes” no fim de tarde regadas à truco e cachaça. A lembrança com alguma distância temporal soa romântica, mas há de se recordar que o espontâneo daquela época acontecia pela ação de muitos “kamikazes financeiros” que adquiriam dívidas e compravam brigas nada sustentáveis e que durariam anos para curar. Mas que, ao contrário dos kamikazes originais, não morreram, e cá está uma das muitas provas.

O Instituto Procomum, e o LabxS, é como um irmão mais velho da CCD. Mais organizado, sustentável, feminista, negro, LGBT, com protocolos claros de convívio, hierarquia reconhecida e disposição para enfrentar o desafio da organização. O que não significa caretice nem engessamento eterno, mas sim que cada um assuma a sua responsabilidade, que colabore sem esquecer que o afeto é importante, que cuidar de todxs e trazer as emoções para conversar é fator diferencial de sobrevivência nesse brasil hostil de 2018 – politização do mal-estar, como apontou Amadeu Fernandéz no relato que produzimos em Enfrenta. Rodrigo e Geórgia passaram por muita coisa em governo, empresas privadas e organizações da sociedade civil para, hoje, saber o que querem. E também para se articular local e internacionalmente e buscar recursos para sustentar seus experimentos: o espaço da rua Sete de Setembro e os projetos já tocados pelo Procomum atestam isso.

A BaixaCharla girou da cultura livre à CCD, da política ao comum, do cuidado à inovação. Foi mais um papo informal e tão espontâneo quanto uma câmera na mão (da Sheila Uberti, parceira de todas as horas) torna possível. O primeiro em São Paulo – ou melhor, em Santos, na Rua Sete de Setembro, 52, Vila Nova, um dia calor de final de verão. As fotos depois do vídeo são do e LabxS e dos arredores do Mercado Municipal.

Uma newsletter quinzenal

Nos reunimos com a CCD POA para organizar, embasar e ir mais fundo nas informações que todos os dias postamos nas nossas redes sociais e plataformas como este site. Daí nasceu a nossa Newsletter em conjunto, para informar e debater temas como tecnopolítica, direitos digitais, privacidade, cultura livre, remix e (contra) cultura digital – e também informar as atividades que realizamos por aí e organizar uma agenda de eventos nessas áreas. Mais uma newsletter, vocẽ pode pensar: e é, sim, mais uma newsletter, e ao mesmo tempo não é: nosso objetivo é trazer um conteúdo diverso, aprofundado, olhando para o que acontece no presente e sobre as transformações que a internet está passando e nos fazendo passar enquanto sociedades. Mas também queremos olhar para trás, para lembrar de textos, fatos e histórias que nos ajudam a entender esse frenético cotidiano de hoje, por isso em todos os envios vamos resgatar algum texto ou acontecimento passado que, no mar de informações compartilhadas todos os dias, acaba por se perder.

Se inscreva a nos acompanhe! O 1º envio é nessa quinta, 19/4, e os próximos serão sempre às quintas, a cada 2 semanas, salvo em ocasiões especiais.



Lançamento da campanha de financiamento & continuidade

O cansaço já havia decidido por mim faz alguns meses: 15 de setembro de 2018 seria a data de morte do BaixaCultura. É o dia também de aniversário de 10 anos, idade simbólica para um projeto que nasceu quando as redes sociais eram menores e a internet era outra, mais livre, menos distópica. Estava escolhendo alguns dos textos mais representativos nessa década para organizar um livro de despedida, uma espécie de coletânea do que passou pelos nossos radares, dos debates esperançosos sobre a necessária reforma nas leis de direito autoral nos idos de 2009 às máquinas de vigilância disfarçadas de redes sociais como este Facebook, passando por muitos (mesmo) outros temas que passaram por nossas páginas.

Comentei com algumas pessoas desse desejo e ouvi algumas respostas que diziam: “mas agora que tem 10 anos vai acabar?”. De fato, existem poucos projetos vivos que documentam e produz cultura livre (e contra) cultura digital. Na era em que tudo é registrado, onde parece tão fácil documentar, muito tem se perdido. Um paradoxo, ainda mais visível e paradoxal no mundo onde me movo, dos projetos, pessoas e instituições de cultura livre, remix, artivismo, hackers, contracultura, software livre, etc.

Comecei a pensar: e se o BaixaCultura continuar? Diferente, mais ativo e frequente, como resistência mesmo, num mundo (e especialmente neste Brasil de 2018) cada vez mais difícil de resistir. Como poderia encarar o desafio da sustentabilidade fazendo, vá lá, um jornalismo tão artesanal, por muitas vezes lento, um laboratório de produção de conteúdo, experimentação e formação em cultura livre, independente de publicidade e com a parceria de muitxs?
Uma tentativa de responder as perguntas acima está na campanha de financiamento recorrente que começamos nesta semana. Apoiar o BaixaCultura no APOIA.se é acreditar na cultura livre, no conhecimento aberto, e dar um crédito todo mês para que nós continuemos fazendo (e qualificando) nosso trabalho nessas áreas. São várias opções de apoio, começando por R$5, e você escolhe de acordo com as suas possibilidades de colaboração. Nossas metas estão detalhadas de forma transparente, para que todxs saibam o quanto precisamos mensalmente para fazer o BaixaCultura. E tem recompensas também, de zines a newsletter, de surpresas (impressas!) a encontros presenciais, oficinas e cursos.
Chega mais, veja o vídeo, leia o texto, se quiser/puder/achar importante apoie, se não ajude a espalhar. Recorrente é maratona e não 100m rasos, então a questão ainda segue. https://apoia.se/baixacultura
Leonardo Foletto, editor

Um pacote semanal de arquivos offline

Quatro anos atrás hospedei em minha casa por alguns dias um programador cubano, que veio à Porto Alegre para um evento internacional de software livre, o FISL. Ele aproveitou a ocasião também para acompanhar alguns jogos da Copa do Mundo de 2014, então depois de Porto Alegre andou por várias outras cidades do Brasil, inclusive esteve no Rio de Janeiro quando ocorreu a final, aquele Alemanha X Argentina vencido pela primeira com um gol na prorrogação. Por conta das viagens, ele veio com uma mala grande, carregada com roupas para uma estadia longa e também com algumas lembranças de seu país, entre elas algumas garrafas de Rum para presentear seus anfitriões. Festeiro e alegre como boa parte dos cubanos que conheci, adorava sair pra dançar à noite; nos “aquecimentos” em nossa casa, ensinava a fazer mojitos com o rum que trouxe, completados com açúcar, água com gás e muita “hierbabuena” – como é chamado o hortelã em espanhol.

Além da bagagem física, ele também trouxe uma bagagem considerável de arquivos em seu HD. Compartilhava com quem quisesse seu acervo: mais de 10 gigas de música e ouros tantos de filmes cubanos. Ainda que tivessem alguns clássicos de fácil circulação na internet, boa parte era material mais raro de conseguir, músicas e filmes que não estão no YouTube ou em outro serviço de streaming, e que talvez só seja encontrado na internet em clubes de download, ainda os melhores espaços para se baixar qualquer coisa na rede. O fato da velocidade de conexão em Cuba ser muito lenta torna bem mais difícil o compartilhamento de arquivos online e na “nuvem”, um dos motivos pelos quais nosso amigo programador usou constantemente nossa (meia boca) internet de 15 megas para baixar os mais diversos arquivos enquanto esteve em casa.

Soube depois, conversando com ele, que carregar arquivos digitais em pastas (em pendrives, HDs, etc) para compartilhar é um hábito comum em Cuba, onde a rede é acessado por uma minoria do país: algumas estimativas internacionais falam em 5% de pessoas com acesso na ilha em casa, enquanto que a “Oficina Nacional de Estadística de Cuba” disse que, em 2014, eram 27%, embora essa estatística reflita os conectados à intranet local. Mesmo estes 5%, o acesso ainda é lento e caro: na maioria das casas, a velocidade é 56 kbits, como nos velhos modens dos anos 1990, e há restrições de horas (a de meu amigo cubano é de 30h por mês). Há zonas de wifi públicas presentes em algumas das principais cidades cubanas e cybercafés públicos, mas ambos são caros: dados de 2016 dizem que a primeira saía em torno de US$2 dólares por hora e o segundo entre US$6 e 10 por hora – sendo que o salário médio no país gira em torno de U$$20 mensais. As torres de dados para telefonia móvil estão sendo implantadas e, por enquanto, o acesso ocorre apenas para algumas pessoas do governo ou de (poucas) instituições privadas, segundo me contou o programador da ilha.

Esta realidade de conexão ajudou a manter por lá o hábito do compartilhamento físico, offline, de arquivos dos mais variados. Um dos principais arquivos digitais compartilhados da ilha é o chamado “El Paquete Semanal“, um pacote de arquivos de quase 1 TB (contendo entre 15 e 18 mil) distribuídos toda semana ao redor do país com softwares, esportes, telenovelas, desenhos animados, mangás, películas, videogames, músicas, revistas e muito outros conteúdos que a internet traz. “É a melhor maneira de estar atualizado offline” me disse, meses depois, o amigo cubano.

São dois modos os mais comuns de receber o material de “El Paquete”. O primeiro é pagar entre U$1 e U$2 (ou CUC, o peso convertible cubano, usado mais por turistas; diferente do CUP, o peso cubano usado no dia a dia) e receber em sua casa, toda semana (segunda ou terça, dependendo da cidade), alguma pessoa com os arquivos em HDs portáteis ou em memórias flashs (cartões de memórias de máquinas fotográficas, por exemplo), que copia para o seu computador o que você escolher. A outra é comprar nas mais diversas lojas pelo país, especialmente a de aparelhos para smartphones, que revendem para outros clientes. Daí ele se espalha de mão em mão, tal qual um arquivo na internet.

No site de “El Paquete” é possível ver uma lista detalhada dos arquivos de cada semana, divididos por pastas e sub-pastas; na da segunda semana de março de 2018, por exemplo, havia 5 gigas de documentários, curtas, novelas e longas cubanos em “Cinemateca Cubana”; quase 4 GB de aplicações para Android e Iphone em “Aplicaciones para Móviles”; 20 GB em “Música MP3 2018”, com sub-pastas como “Top UK 40 Singles”, “Unreleased Puerto Rico”, “Temas de Estreno Internacionales”, “Top de Febrero”, entre outras; 30 GB de séries de países de língua inglesa em “Series en Transmision”, de “Outlander” a “Grey’s Anatomy”, de Law & Order” a “Arquivo X”; 4GB de revistas em inglês e espanhol, atualizadas semanalmente; entre muitos outros arquivos – lembrando que é quase 1 TB, a capacidade média de boa parte dos HDs que vem nos computadores portáteis hoje vendidos.

Além destes arquivos, “El Paquete” contém também os arquivos de um mercado digital chamado Revolico, que funciona de modo semelhante ao Craigslist: as pessoas compram e vendem todo tipo de coisas, de bicicletas à aulas de matemática, incluindo o próprio acesso à Internet a um preço com desconto. É considerado o principal mercado negro de Cuba, mas tem uma particularidade: é oficialmente bloqueado na ilha desde 2007, quando foi começado por expatriados cubanos na Espanha. Ainda assim, alguns conseguem acessar porque os fundadores do site criaram uma série de servidores proxy, soluções de DNS, endereços web privados e espelhos que mantém o site no ar em Cuba – há, inclusive, seções inteiras sobre o como acessar o site no próprio Revolico.

Os que não conseguem, que são a maioria dos usuários, baixam os arquivos de “El Paquete” e depois usam offline. Uma vez baixado do pacote, Revolico pode ser navegado normalmente em um navegador da Web, de modo que você poderá entrar em contato com os vendedores com um telefonema, assim como você faria se você encontrou o anúncio em um jornal. Em uma reportagem da Vice de 2015, um artista cubano que vive em Havana e consome o “El Paquete” diz que o Revolico é conhecido por todos no país, e é essencial para muita gente.

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A realidade de uma internet lenta e de pouca penetração não explica sozinha, claro, a escala e o alcance de “El Paquete”. No início dos 1970, cerca de dez anos após a revolução cubana e a nacionalização dos meios de comunicação social, uma economia baseada no aluguel de material de entretenimento começou a florescer em escala na ilhaCom o desenvolvimento de novas mídias, o comércio se adaptou: passou de revistas para as fitas de vídeo VHS e Betacam, depois CDs, VCDs e DVDs e hoje os HDs e pendrives. O Pacote Semanal é o resultado do desenvolvimento gradual dessas redes por mais de quatro décadas.

Não há informação precisa de quantos pacotes são distribuídos semanalmente. Até pouco tempo atrás, não se conhecia publicamente os distribuidores dos pacote. Muitos perguntam como, semanalmente, é possível baixar 1 TB de arquivos com a conexão lenta que existe em Cuba; alguns já especulam que ele vem diretamente dos Estados Unidos. No vídeo abaixo, produzido em 2015 pela CiberCubaTV, “El Transportador”, conhecido como criador de “El Paquete” dá mais detalhes de como funciona o esquema.

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Fotos: 1 e 3 print vídeo, 2 BBC.

 

Iniciativas feministas na cultura livre & ciberativismo #8M

Compilamos aqui neste post uma pequena série de projetos & textos feministas e/ou com uma perspectiva feminina sobre cultura livre, direitos digitais, cultura hacker, tecnologia e ciberativismo que publicamos em nossas redes sociais neste último dia 8 de março, dia da mulher.

PROJETOS

_ Cyborgfeministas “es un recurso para quienes quieran entender y explorar el punto donde se cruzan el género y las tecnologías”. É uma iniciativa de TEDIC, uma organização que defende os direitos digitais e promove o uso de tecnologias livres.


_ Economía Femini(s)ta (EF) “es una organización que nació en mayo de 2015 con el objetivo de visibilizar la desigualdad de género a través de la difusión de datos, estadísticas, contenidos académicos y producción original orientadas a todo público”;

_ GenderIT.org é um projeto internacional que pretende ser um think tank DE e PARA direitos da mulher, direitos sexuais e ativistas de direitos da internet, acadêmicos, jornalistas e defensores de uma variedade de disciplinas e contextos. A organização oferece um espaço de reflexão, influência e advocacia na política e cultura da internet, para ajudar a atender às necessidades das mulheres e não infringir seus direitos:

_ “Somos feministas interessadas em cultura hacker e os conhecimentos que unem política, gênero e suas tecnologias. Pautamos a interseccionalidade nas nossas ações, não toleramos machismo, homofobia, transfobia, misoginia, lesbofobia, xenofobia e racismo. Nosso objetivo é semear conhecimento, autonomia com corresponsabilidade e caminhos de mudanças sociais. Somos uma coletiva hackerfeminista”. Conheça a MariaLab.

_ Vedetas é uma servidora feminista produzida a partir de algumas integrantes do MariaLab. Ela existe para ajudar grupos feministas nas suas atividades online e aumentar a segurança e autonomia de mulheres na internet. Também há bastante material sobre cultura hacker, segurança da informação e feminismo.

 

_ Guia Prática de Estratégias e Táticas para a Segurança Digital Feminista foi construída pela Universidade Livre Feminista, o CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), Marialab e Blogueiras Negras e SOS Corpo (Instituto Feminista para a Democracia). A proposta é provocar o debate sobre mudança de comportamento no espaço virtual e no uso de ferramentas e dispositivos que acessam a internet visando a proteger mulheres das violências sofridas na rede.

_ Mulheres na Tecnologia (MNT) é uma organização sem fins lucrativos cuja missão é contribuir para o protagonismo feminino na construção de um mundo sustentável na era digital. Habilitam organizações para a jornada de promoção da equidade de gênero, conectam comunidades de mulheres em TI e organizam eventos, encontros e apoiam iniciativas de protagonismo feminino na tecnologia.

_ A PyLadies  é um grupo de mentoria com foco em ajudar mais mulheres a se tornar participantes ativas e líderes na comunidade open source Python. Sua missão é promover, educar e promover uma comunidade Python diversificada através de divulgação, educação, conferências, eventos e encontros sociais. No Brasil organiza diversas atividades e tem núcleos em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Campinas e Fortaleza, entre outras cidades.

_ A Django Girls é uma organização sem fins lucrativos e uma comunidade que capacita e ajuda as mulheres a organizar oficinas de programação gratuitas, de um dia, fornecendo ferramentas, recursos e suporte. “Somos uma organização de voluntariado com centenas de pessoas contribuindo para levar mulheres mais incríveis ao mundo da tecnologia. Estamos tornando a tecnologia mais acessível criando recursos projetados com empatia.” Durante cada um dos eventos, entre 30 e 60 mulheres criam sua primeira aplicação web usando HTML, CSS, Python e Django.

_GenderHacker é um “un estado de eterna transición y negación del binarismo extremo por el que el cuerpo indeciso debe transitar de una de las dos identidades permitidas a la otra y nunca quedarse en medio”. Site com diversos projetos, obras e trabalhos da artista e ativista trans Diego Marchante.

_ Fembot Collective é um coletivo fundado em 2009 na Universidade de Oregon, nos EUA, que edita a publicação aberta ADA sobre gênero, novas mídias e tecnologias. Produziram também a “Zen and the art of making tech work for you”, uma publicação de 2015 que trabalha com segurança da informação, privacidade e técnicas anti-vigilância para mulheres.

_ I am the Code é um movimento fundamental para mobilizar governos, empresas e investidores para apoiar mulheres jovens em STEAMD (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes, Matemática e Design), aprendendo a codificar, aprender criativos e problemas de cracking.

TEXTOS & ENTREVISTAS & RELATÓRIOS

_ Relatório produzido pela organização Derecho Digitales sobre gênero, internet e feminismo na América Latina. Detalha vários projetos na área, alguns que já listados aqui, outros não. Vale acessar o texto completo, de 30 páginas.

 

_ A Revista Pillku, focada em cultura livre e procomún, trouxe como tema de sua edição de dez 2017 o ciberfeminismo. A edição fala desde “la resistencia, las identidades disidentes, la interseccionalidad, disputamos el acceso universal a internet, con deseos de inundar la red con contenidos feministas y descolonizar los medios digitales”.

_ Menstruapps é uma reportagem especial criado pela Coding Rights que documenta os aplicativos que monitoram a menstruação (e ganham dinheiro com isso). Reportagem, design e infográfico feito por mulheres, a partir de uma organização também com ênfase no ciberfeminismo.

_ “Ciberfeminismo“, livro sobre o empoderamento feminino através da tecnologia, produzido pela editora Monstro dos Mares e organizado por Cláudia Mayer com textos de várias autoras.

_ “Que se calem as musas: por que o feminismo deve se opôr ao copyright” é um texto da ciberativista argentina Evelin Heidel (Scann) que foi traduzido para o ptbr por Sheila Uberti e publicado no site da Casa da Cultura Digital Porto Alegre.

__ A Radios Libres é um projeto latino-americano que pretende ser um “espaço de formação e debate em torno das tecnologias livres e da cultura livre”. Nessa semana, entrevistaram a Loreto (Maka) Bravo de la Red de Radios Comunitarias y Software Libre y Palabra Radio, que explicou como o feminismo e as tecnologias livres são ferramentas que permitem lutar contra o patriarcado;

_ “Ciencia, Cyborgs y Mujeres: La Reinvención de la Naturaleza” é um livro de ensaios da antropóloga Donna Haraway. “O trabalho de Donna Haraway é uma verdadeira encruzilhada. Reúne diferentes disciplinas acadêmicas (Biologia, Antropologia, História), várias tecnologias (Fotografia, Manipulação Genética, Agricultura) e várias formas de construção de experiência (Turismo, Partidos Políticos). Seus ensaios são simultaneamente história da ciência, análise cultural, pesquisa feminista e posição política. Eles são escritos com a intenção de que aqueles que os abordem a partir de uma dessas perspectivas se encontrem caminhando pelos outros, já que nenhum deles é suficiente para capturar as nuances de textos polifônicos.”

Gracias a Sheila Uberti, Janaína Spode e outras várias mulheres que contribuírem para a lista, ainda em processo. Sabe de mais projetos? Nos escreva: info@baixacultura.org

 

 

Pillku e a cultura livre latino-americana

A cultura livre latino-americana é muitas vezes tão desconhecida pelos brasileiros quanto a música, os costumes e a literatura dos nossos vizinhos hispano-hablantes. Um dos elos de ligação mais importantes dessa cultura é a Pillku, uma revista digital com edições trimestrais publicada desde 2011, sempre com assuntos caros (ou tangenciando) à temática principal, cultura livre e o (pro) comúm.

Quem produz a revista é o coletivo Código Sur, grupo de pessoas, de diversos países da América Latina, que trabalham para fornecer serviços com tecnologias livres seguras para movimentos sociais, outros coletivos e pessoas que trabalhem em prol de causas como os direitos humanos, liberdades individuais, ecologia e outros tipos de processos sociais de emancipação. São uma organização da sociedade civil, com sede jurídica em San Juan, na Costa Rica, e integrantes espalhados por Argentina, Guatemala, México, Uruguay, que oferecem serviços variados que vão desde hospedagens de sites, em infraestruturas baseadas em software livre, até envio de newsletters, streaming, VPN e e-mail criptografados. Veja os serviços oferecidos e a política de associação (“membresía”) para coletivos, ongs, organizações e cooperativas ligadas às causas citadas acima.

Destacamos aqui abaixo algumas edições para você conhecer melhor Pillku, mas saiba que existe muita coisa interessante a consultar nas até agora 18 edições publicadas. Se tiver interesse também em publicar, fique atento também com o guia editorial e as chamadas de publicação de artigos da Pillku.

Nº7, LOS COMUNES.
A primeira edição de 2013 centra num tema que, hoje, cada vez mais se alia a discussão da cultura livre: o comum. Ainda que não seja nenhuma novidade na economia, a discussão sobre o comum relacionada aos meios digitais está sendo feita com maior intensidade de uns três anos pra cá, e esta edição se faz uma pergunta comum de se escutar hoje na discussão dos comuns: seriam os comuns uma ideia política para transformar o mundo? Aqui são sete entrevistas com conhecedores do assunto, seja de forma prática ou conceitual; o canadense Alain Ambrosi fala brevemente de Remix, the Commons, plataforma multimídia que documenta ideias e práticas em volta do Comum; Gustavo Castro habla desde Chiapas, no México, sobre os bens comuns na terra, também a partir da plataforma Otros Mundos Chiapas, capítulo local da organização internacional Amigos da Terra; a brasileira Carolina Moreno trata de seus 15 anos de experiência no trabalho com os bens comuns, boa parte como coordenadora da área de ecologia política na Fundação Heinrich Böll; entre mais outras 4 entrevistas que vale ler. Destaque também para o texto que discute feminismo e bem comum, a partir dos saberes e cuidados das mulheres, escrito por Angélica Schenerock, da organização mexicana Água y Vida.

 Nº8, CULTURA LIVRE.

Publicada em abril de 2013, esta edição traz textos e entrevistas que referenciam a cultura livre como um movimento social e cultural. Nessa linha está principalmente os artigos “Cultura Libre: redistribución del poder y trabajo entre pares“, por San Hoerth Moura y Angie Schenerock, que conceitualiza e aponta caminhos na discussão conceitual da cultura livre em nosso sofrido continente; e “Cultura libre: génesis y experiencias de un movimiento creciente“, escrito pelo coletivo que edita a revista, que aponta a origem do termo cultura livre (no software livre e nas quatro liberdades propostas por Stallman nos anos 1980), da ideia do código aberto e do Creative Commons, além de fazer um interessante mapeamento de iniciativas que trabalham sob esta perspectiva: rádios, editoras, cinema, redes e até mesmo coisas inusitadas como a interessante “Hacking My Vagina“.

Nº11, MÚSICA LIVRE.
Esta edição, de outubro de 2013, traz experiências de artistas que fazem música copyleft, principalmente liberando suas músicas em licenças livres. Nela, há um “Breve guía para iniciarse en la música libre“, com um explicativo de como funcionam as licenças livres, qual seu contexto histórico, sites referenciais que usam estas licenças e um pequeno passo a passo de como funciona a burocracia de registro convencional de músicas – baseado no contexto argentino, no brasileiro há algumas alterações pontuais. Na linha mais propositiva e conceitual, há um artigo tratando da gestão coletiva dos direitos de autor a partir do paradigma da liberdade, enquanto que na de experiẽncias há outro texto que fala da RedPanal, primeira plataforma livre e colaborativa de gestão musical da Argentina, quiçá uma das primeiras da Latino-América também – confere aqui a plataforma.

Nº18, CIBERFEMINISNO PARA HACKEAR EL PATRIARCADO
A penúltima edição da revista digital foi lançada em setembro de 2017 e fala desde “la resistencia, las identidades disidentes, la interseccionalidad, disputamos el acceso universal a internet, con deseos de inundar la red con contenidos feministas y descolonizar los medios digitales”. Há discussões desde a ainda pouca participação feminina na área de desenvolvimento do software livre, proposta por Cecília Ortemann, até a discussão sobre o ciber-eco feminismo, passando pelo debate sobre uma governança da internet feminista, sobre os trolls e tecnologia e feminismos anti-coloniais, esta última uma entrevista com a coletiva lésbica feminista autônoma Les Brujas. Uma edição-dossiê muito completa e com várias perspectivas sobre a temática.

A Pillku, é claro, também trabalha muito com questões consideradas “técnicas”, mas que também são políticas. Nesta postagem há um mapeamento de iniciativas que fornecem serviços digitais ativistas/livres e que protegem a privacidade de seus usuários, material fundamental para todes de nuestra América latina saberem a quem recorrer quando necessiterem destes tipos de serviços.

Todas as imagens usadas aqui são das edições de Pillku.

Hackerspaces, makers e caixas-pretas em charla

A BaixaCharla #5 teve como convidado Joel Grigolo, sociólogo, integrante do Matehackers, hackerspace situado em Porto Alegre criado em 2012, e do Machinarium, laboratório criativo de projetos na área digital. O papo girou em torno de assuntos nos quais Joel transita e fala com naturalidade – e de forma crítica: cultura hacker, maker, conhecimento livre, faça-você-mesmo, Porto Alegre, questões tecnológicas, políticas e de ensino no Brasil, ciência, objetividade… Além do próprio Matehackers, espaço do qual Joel está desde os primórdios.

A charla foi gravada em 12 de dezembro de 2017 no próprio Matehackers, na sala do Machinarium e na outra sala que compõe o espaço do matehackers, com a parceria da Sheila Uberti na câmera. Diferente das anteriores, nessa optamos por não transmitir ao vivo; gravamos em uma câmera digital com melhor qualidade de imagem. Esta foi a última charla da primeira série de entrevistas, um ciclo focado em pessoas de Porto Alegre. Em fevereiro de 2018 começamos um novo ciclo de charlas, dessa vez com pessoas da cultura livre/hacker/digital de São Paulo.

Joel é um “fazedor” nato. Desde a infância gosta de abrir caixas-pretas, fuçar em eletro-eletrônicos, montar e desmontar para ver como funcionam. Mas caixas-pretas não dizem respeito só a objetos técnicos, mas também a sistemas, como a sociedade: daí um dos motivos que fez Joel parar nas Ciências Sociais da UFRGS, e lá se envolver com a cibercultura, o movimento estudantil e a economia solidária. Lá sacou que a universidade é engessada e hierárquica demais para fazer circular um conhecimento livre, então foi trabalhar na Prefeitura de Porto Alegre, depois emalgumas ONGs (participou da fundação de duas), em trabalhos dedicados à geração de renda para adolescentes e trabalhadorxs na cidade, em especial na região da Vila dos Papeleiros, uma área com diversos problemas de tráfico, sujeira e violência situado na região centro norte de POA, próximo à Rodoviária.

Nas instituições públicas e partidárias, se desgostou da hierarquia extrema, do apagamento da voz individual em nome de uma (suposta?) voz coletiva, que não dava a oportunidade de decisão do discurso. Em meados de 2011, descobriu uma lista de pessoas interessadas a montar um hackerspace na cidade, “um bando de gurizada”, nas palavras dele, que foi a base do surgimento do primeiro hackerspace do Estado, o Matehackers, ainda no espaço conhecido como Bunker, uma (depois duas) salas num prédio da Avenida Independência, centro de Porto Alegre. Ali muitas das ideias que Joel buscava se encontraram: um espaço coletivo, autônomo, focado em tecnologia, funcionando a partir dos princípios da cultura hacker e que, agora sim, tratava e fazia de fato conhecimento livre. “Hackerspaces nao existiriam se a academia cumprisse seu papel” é uma frase muito falada por ele que sintetiza essa busca, agora (parcialmente?) encontrada no Matehackers.

No final de 2013 e início de 2014 o hackerspace migrou para o Vila Flores, então começando a se articular enquanto um centro cultural (e um empredimento comercial focado na economia criativa). Ali o Mate começa a agregar gentes diversas e se torna a referência, no Vila e na cidade, em questões voltadas à tecnologia, cultura hacker, conhecimento livre. A organização não-hierárquica, a liberade de atuação, a inter (trans) disciplinariedade –  que atrai de jornalistas à programadores, de produtores culturais à técnicos em eletrônica, de anarquistas à apoiadores do Bolsonaro – e a propensão ao compartilhamento de ideias e saberes faz do lugar ser um inusitado e divertido espaço de diversidade e de educação, como as escolas poderiam ser. Faz-se realidade uma certa utopia de vida de Joel.

Mas que chato seria se uma busca de vida encontrasse um fim. E o Matehackers não é uma utopia, mas uma realidade que traz desafios cotidianos. Não há “modelo de negócio” nem renda fixa para o lugar, mas custos fixos sim: aluguel, luz, água, manutenção de equipamentos, etc. Não há ninguém para limpar o espaço, mas todxs devem se responsabilizar por isso – o que exige uma atenção diária que na maior parte do tempo as cerca de 20 pessoas que frequentam o lugar toda semana (mais os 60-100 que conversam nos canais online do grupo) não conseguem ter. Os desafios de pagar o aluguel, manter o espaço organizado & ainda ser esse lugar para compartilhar o conhecimento são frequentes, difíceis e reais, muito reais.

Joel sabe disso tudo, e a charla não podia deixar de de pincelar algumas ideias sobre hackerspaces, sobrevivência, ética, política, tecnologia. O pai do Fabrício (15 anos) e parceiro da Maria também exerce na conversa sua veia crítica & irônica, conhecida por todxs que vão ao hackerspace e se deparam com o cabeludo/barbudo em frente a um computador, fumando e/ou tomando uma cerveja.  Conhecedor profundo da cultura hacker e maker, ele não gosta da apropriação que no Brasil se faz dessa última. “É o único lugar que se traz os nomes, se despe eles completamente de seus significados originais e os torna hypes. Olha o caso da comida de rua: aqui é o único lugar que comer na rua se torna mais caro do que em restaurantes, sendo que o movimento surgiu justamente para ser o contrário!”. Felizmente, diz ele, passou o hype sobre a cultura hacker, o que faz com que os hackerspaces que existam hoje, por exemplo, não tenham esvaziado tanto assim o significado original presente nos princípios da ética hacker: “O movimento hacker assusta. Ele é disruptivo, e há uma disputa na sociedade por ele. Não posso nem botar “hacker” no nome de uma empresa porque pode ser considerado apologia ao crime. O próprio desconhecimento do que é hacker nos ajudou, no final das contas”.

Assista a conversa abaixo.

Oficina de Pizzas no Matehackers
mascote do Machinarium

Nina Paley e a “Pumpriedade Intelectual”

Uma das principais dificuldades para quem atua na seara da cultura livre no Brasil é explicar o quê, afinal, é a cultura livre. Várias vezes já mencionamos aqui o quanto conceitos como o copyleft, criado cerca de 30 anos atrás, ainda suscita questionamentos do tipo “Mas na cultura livre tudo é de graça? Propriedade intelectual ajuda os artistas a sobreviverem!” “Copyleft é coisa de comunista, vai pra Cuba seu barbudo vermelho!”. Fizemos, inclusive, algumas falas por aí para explicar que muito do que se propaga por aí sobre a cultura livre é mito, causado por desinformação, em alguns casos deliberadamente difundida por defensores do copyright.

Mas em outros casos essa desfinformação também é fruto de uma dificuldade de entender a cultura livre como uma prática contracultural, anti status quo, num mundo ainda dominado pela ideia romântica de que criar é um ato individual e de que seu criador é um ser genial de ideias mirabolantes surgidas do nada. É certo que a internet ampliou o banco de dados da criação a números praticamente infinitos, e que práticas como o remix (e seus antepassados, que descrevemos aqui nos “Pequenos Grandes Momentos Ilustrados da História da Recombinação“) tem nos mostrado cada vez mais que nada se cria e tudo se copia, mas perante a maior parte das pessoas o ato de criar ainda é individual e proprietário. Para essa parte, portanto, a cultura livre ainda é difícil de compreender: como deixar “livre” (lembremos do mantra: livre não é grátis!) uma criação fruto de tanto esforço? Como não estocar num cofre uma ideia supostamente genial?

É nesse contexto que entra Nina Paley, artista nascida e atuante nos Estados Unidos e uma das mais talentosas vozes na defesa da cultura livre global. Com a animação “Sita Sings the Blues”, lançado sob uma licença livre (veja e/ou baixe você também), ela conseguiu mostrar, pra quem ainda não acredita, que é possível produzir produtos culturais de excelente qualidade (técnica, inclusive) utilizando-se dos princípios da cultura livre. E com o livro recém-lançado no Brasil, “Mimi e Eunice em Pumpriedade Intelectual”, pela Editora da UFBA, ela nos apresenta uma forma fácil, em tirinhas, de dialogar sobre propriedade intelectual, criação e cultura livre.

Com diálogos curtos e diretos, as personagens Mimi e Eunice convidam todos nós a pensar sobre o tema de forma inteligente e bem-humorada sobre o assunto. A tradução do jornalista André Solnik, colaborador deste site, consegue dar fluência ao texto. A entrevista com Paley que compõe o livro – primeiramente publicada aqui, em 2013 – esclarece algumas ideias que embasam a crítica da artista à propriedade intelectual. Por exemplo:

“Proteções anticópia colocam uma barreira entre o artista e a maioria das formas de apoio. Ao remover as barreiras de copyright, o artista torna possível o recebimento – tanto diretamente quanto por meio de distribuidores – de dinheiro e de outros tipos de apoio, aumentando assim suas chances de sucesso.

O prefácio é de autoria de Jorge Machado, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, e faz uma discussão histórica e conceitual sobre propriedade intelectual e suas armadilhas. Como neste trecho:

Com a “propriedade intelectual” surge a lógica de que todo conhecimento deve ter um “proprietário”. É como se a cultura herdada de nossos ancestrais não existisse como um bem coletivo. O resultado dessa lógica foi de que quanto maior a“propriedade intelectual”, mais restrito fica o conhecimento comum da humanidade. Mas o que mais chama a atenção é a aceitação de que bens intangíveis e inesgotáveis, como são as ideias, devem ter tratamento legal e moral equivalente a bens físicos, sujeitos às leis de escassez, como uma bicicleta ou um celular.”

O livro foi lançado no Brasil em licença CC BY SA e pode ser baixado aqui. Abaixo e no corpo desse post, algumas das tirinhas de Paley que estão no livre. Nina é desde 2009 é artista residente do site QuestionCopyright.org, onde escreve e desenvolve projetos ligados ao tema, e ainda tem um blog divertidíssimo na rede.

Tecnologias essenciais para a cultura livre (1): tratamento automatizado de textos

Para socializar a cultura é imprescindível democratizar certas tecnologias essenciais. Quando falamos de cultura livre, não falamos somente de acesso à materiais culturais, mas também da liberdade de reutilizar e transformá-los, o que necessita de acesso às ferramentas. Pensando nisso, iniciamos esta série de textos para falar em detalhes de algumas tecnologias que consideramos fundamentais para a cultura livre. Para começar, nos inspiramos num post do centro cultural 2.0 Artica, do Uruguay, para falar de ferramentas para o tratamento do texto escrito. Este texto, então, é uma tradução/adaptação da postagem publicada em Artica no dia 30/09/2017.

Desde tradutores automáticos até bots que escrevem textos a partir de dados brutos, as tecnologias para tratamento de texto escrito são utilizadas para realizar tarefas cada vez mais necessárias para organizar a grande quantidade de informação que a digitalização da cultura tem gerado. Consomem bastante energia e tempo para ajudar na realização da tarefa de tornar essa informação conhecimento que seja útil, relevante e contextualizado, e a partir daí gerar novas produções, com novos significados para novos contextos.

As ciências da computação tem gerado ferramentas que simplificam e automatizam processos complexos realizados com texto. Em algumas destas aplicações há um papel importante da inteligência artificial e, dentro dela, do processamento de linguagens naturais, uma área que trata da conversão de informação de bancos de dados de computadores em linguagem compreensível ao ser humano. Por serem bastante complexos, muitos destes projetos devem ser abordados de forma coletiva e multidisciplinar – e seus resultados não deveria ficar em mãos exclusivamente privadas, como muitas vezes acaba acontecendo. Como usuários, deveríamos pode distinguir estas tecnologias da pura e simples “mágica”, para então entender como elas podem e devem estar como um bem comum (procomún), onde qualquer um pode ter acesso para usar. Abaixo mencionamos algumas destas tecnologias que, em nossa opinião, são essenciais para socializar a cultura escrita em tempos digitais:

_ TRADUÇÃO AUTOMÁTICA

O procedimento mágico que o Google Tradutor faz por nós é resultado de décadas de avanços da linguística computacional que hoje permitem não apenas a tradução de palavras soltas, mas também de expressões e textos completos. Ainda que as traduções automáticas não sejam perfeitas, cada dia melhoram mais – veja isso especialmente quando você traduz de alguma língua para o inglês. O uso do Tradutor do Google é gratuito, mas seu código não é aberto, o que significa que para usá-la dependemos do que o Google, uma empresa privada, decide sobre sua ferramenta. Pior ainda: o valor que os usuários aportam para melhorar a ferramenta através de suas correções é ótimo para a empresa, que, por sua vez, não coloca à disposição estes dados de correções adicionados pelos usuários.

É por isso que são importantes projetos como Apertium, um sistema de código aberto para a tradução automática. Ele é utilizado, por exemplo, como motor de tradução automática pela Wikipedia, permitindo que os usuários obtenham versões de um artigo em um idioma diferente, o que facilita a tradução inicial de um verbete na enciclopédia. É um software desenvolvido por diversas instituições públicas e privadas da Espanha, Inglaterra, Catalunha e Romênia.

 

_ RECONHECIMENTO ÓTICO DE CARACTERES (OCR)

Quando abrimos um texto escaneado e somos capazes de fazer seleções e buscas em seu interior, inclusive copiar e colar conteúdo, estamos a aproveitar as capacidades de uma tecnologia chamada “reconhecimento ótico de caracteres”, conhecida como OCR por sua sigla em inglês. Esta tecnologia nos poupa a transcrição de grandes massas de texto, que, ao ser digitalizado e reconhecido, pode ser tratado e manipulado. É particularmente útil em projetos de digitalização de publicações originalmente impressas. O OCR opera mediante algoritmos que, a partir de certos padrões, se encarregam de contrastar as imagens com os caracteres de um alfabeto. Estes algoritmos podem ser propriedade de uma corporação, mas também existem projectos livres e cada vez melhores que realizam esta tarefa com eficácia. Um deles é Tesseract, um motor de OCR desenvolvido pelo Google mas de licença livre, que pode ser utilizado através de programas livres, como gImageReader ou OCRFeeder, suíte de reconhecimento de caracteres padrão do GNOME disponível em quase todas as distros Linux e outras baseadas em Unix.

 

_ RECONHECIMENTO AUTOMÁTICO DE VOZ (transcrição de voz à texto)

A inteligência artificial aplicada neste campo permite processar as vozes e reconhecer a informação emitida por elas para as converter em texto, interactuar com um dispositivo mediante a voz (por exemplo, através de assistentes pessoais nos telefones móveis) ou automatizar serviços de ajuda, entre outras possibilidades. As aplicações que transformam a fala em texto são usadas para transcrição, mas também são uma forma de comunicação para pessoas com surdez ou dificuldades para captar a linguagem falada. Para que estas ferramentas funcionem, é necessário uma gramática (que é um “modelo linguístico”) e a informação acústica, ou seja, um corpus de vozes suficientemente grande no idioma desejado para obter um reconhecimento eficaz. Neste último ponto é que ainda não há um projeto de software livre tão bom como os proprietários, já que não se gerou um grande corpus de voz livre em todos os idiomas. Para diminuir esse problema, alguns projetos tem trabalhado nesse ponto fraco, em especial o Vosforge, que nesse texto traz em detalhes os desafios atuais para criar um sistema livre de transcrição/reconhecimento automático de voz, como o fato de as licenças restritivas impedirem o acesso a informação de possíveis colaboradores, os modelos acústicos não serem intercambiáveis, a necessidade de melhoria dos modelos linguísticos, entre outros pontos.

_ SÍNTESE DE VOZ (transcrição de texto para voz)

Para que possamos escutar o texto, as tecnologias TTS (text to speech) traduzem os caracteres escritos para sons inteligíveis por humanos. Estas ferramentas podem ser utilizadas no sistema operacional do computador, no navegador, num smartphone, e seu principal uso é a acessibilidade para pessoas cegas ou com dificuldades para ler. Portanto, contar no acervo comum da humanidade com motores e aplicações de transcrição de texto para voz, bem como com um repertório de vozes livres variado em idiomas e acentos locais, é fundamental para garantir o acesso à cultura a esses usuários.
As tecnologias TTS também podem ser usados para a criação de conteúdos audiovisuais em que se necessita produzir automaticamente áudio a partir de texto – como, por exemplo, para narração de um vídeo em um idioma que não dominamos, partindo de um texto traduzido. O Centro de investigações de Tecnologias da Linguagem da Universidade de Edimburgo, Universidade de Carnegia Mellon e outras universidades desenvolveram o Festival, um sistema de síntese de voz de uso geral para múltiplos idiomas bastante interessante. Existem outras diversas ferramentas livres para usar sistemas TTS por aí, desde aplicações web gratuitas até leitores de tela para Firefox e softwares para diversos sistemas operacionais. Uma dica: gravações de áudio a partir de sínteses de voz podem ser realizadas facilmente com Audacity.

_ EXTRAÇÃO DE DADOS

Extrair informação que originalmente não está estruturada na forma em que precisamos ler ou usar pode ser uma tarefa muito tediosa quando se realiza copiando e colando, um a um, os dados. Para superar este desafio existem diversos procedimentos automáticos que extraem a informação. São processos, por exemplo, para arquivar e examinar lugares de algum site (crawling), ou para reunir informação específica dos mesmos (scrapping), ou de qualquer tipo de documentos de texto. Esta tarefa pode ser útil para diferentes propósitos, como reunir dados sobre um tema (preços, clima, etc.), ou como forma de preservar versões de sites, como faz o Internet Archive.

O que faz o scrapping é, basicamente, a transformação de dados sem estrutura em dados estruturados, que vão ser armazenados e analisados em uma base de dados central ou em uma planilha. Um exemplo claro da aplicação deste tipo de ferramenta é o que explica a argentina Scann no blog “Taller de digitalización“, onde detalha como foi possível extrair dados de 1500 escritores argentinos a partir de um livro previamente escaneado e processado com OCR, e obter daí uma planilha bem estruturada.

A extração de dados geralmente é feita programando um script de busca e extração. Uma ferramenta livre para isso é o Scrapy, que pode ser usada também a partir da interface do Portia. Para tarefas de extração de dados menos complexas, também se pode utilizar extensões para Chrome e Firefox, assim como aplicações para extração de dados desde um PDF.

_ GERAÇÃO DE LINGUAGEM NATURAL (Natural Language Generation – NLG)

Talvez vocês já tenham escutado algo a respeito de notícias ou artigos criados automaticamente por software. Pode ser algo que soa ficção científica – e com frequência a temática é tratada dessa maneira, com grandes títulos falando de robôs que substituem a jornalistas e escritores, tema que inclusive já escrevemos por aqui, em 2014. Mas trata-se simplesmente de uma tecnologia que gera um texto escrito bem estruturado e inteligível a partir de dados. O conceito chave é “data to text”, dados a texto. Por exemplo, a partir de dados do clima ou de resultados esportivos, ou a partir de obras literárias, os softwares podem escrever um texto por sua própria conta, seguindo padrões de linguagem natural que incorporam através de léxicos, regras gramaticais e algoritmos que permitem ao software tomar decisões.

Mais do que substituir redatores humanos, estas ferramentas podem ser um apoio, facilitando a interpretação de dados brutos e acelerando a construção de um texto a partir de uma estrutura que depois vai ser checada e completada. Um exemplo bastante popular são os bots que escrevem (ou melhoram) artigos da Wikipedia, hoje imprescindíveis para manter a qualidade da enciclopédia. Além de realizar tarefas de manutenção, também são usados em alguns idiomas da Wikipedia para a criação de artigos a partir de informação organizada em dados brutos, como por exemplo artigos sobre asteróides, produzidos a partir de dados da NASA. Programados por colaboradores, estes bots devem estar dentro da política de bots e serem aprovados por votação da comunidade de wikipedistas.

Algumas corporações oferecem serviços de geração de texto em linguagem natural, mas ainda não existem muitos projetos de software livre que façam isso, ainda que no futuro isso poderia (e deveria) mudar, como explica esse texto (em inglês). Uma ferramenta livre aplicada à literatura computacional que parece muito interessante é a RiTa, software criado a partir de Java e JavaScript e que roda em ambientes Android, Processing, Node, and P5.js.

_ DEMOCRATIZAR AS FERRAMENTAS

Assim como é inegável que a alfabetização e o acesso a leitura e a escrita sejam direitos fundamentais, estas ferramentas aqui mostradas, cada vez mais avançandas, sofisticadas e generalizadas, deveriam estar ao alcance de qualquer pessoa que as necessite. Convém lembrar que, assim como não se faz inclusão digital somente dando computadores, democratizar a cultura também não é somente dar acesso, mas sim ampliar capacidades de uso e transformação destes materiais/softwares/computadores. As ferramentas em software livre são fundamentais para esta democratização porque, sendo abertas, possibilitam o compartilhamento das melhorias e correções para ampliar os idiomas, léxicos e vocabulários, o que por sua vez atende a diversidade cultural e a as necessidades de distintos coletivos com relação ao texto escrito. Nas próximas postagens desta série falaremos de outras ferramentas livres relacionadas à imagem e ao som. Hasta!

 

Redes, software e cultura livre em charla

Nosso convidado para a BaixaCharla #3 foi Rodrigo Troian, ativista de software livre desde 2004 e que desde 2008 vem pesquisando e fazendo redes em malha por wifi utilizando roteadores de baixo custo – as chamadas redes livres.

Troian participa desde 2010 da comunidade Latino Americana de Redes Livres, palestrando e organizando eventos em diferentes países da América do Sul. Entre 2011 e 2013 desenvolveu implementações de redes comunitárias na região sul do Brasil e no Chile. Desde 2016 atua como consultor externo para organizações nacionais e internacionais construindo redes e ministrando oficinas no Brasil e no exterior. É um dos integrantes do coletivo da Coolab – laboratório cooperativo de redes livres, colaborando na instalação e no modelo de sustentabilidade de provedores comunitários de Internet no Brasil.

Justo na hora da entrevista, tivemos um problema com a rede do Vila Flores/ Hackerspace Matehackers e não conseguimos fazer a transmissão ao vivo. Coisas que só acontecem quando o papo é, justamente, sobre redes…

Fizemos a charla igual e gravamos. Nela, nosso convidado contou de toda sua experiência desde os 2000 com a política & técnica na instalação de redes livres mundo afora, e como aquilo que já foi uma utopia apenas para “escovadores de bits” (a expansão das redes livres, seja para quem não tem acesso a internet, seja praqueles que querem ter uma rede paralela à internet) tem se tornado, nos últimos anos, uma realidade global. Terminamos o papo de forma otimista – sim, não só é possível como está acontecendo (it’s happening!): há redes livres enormes, redes mistas (com acesso a internet), intranets de comunidades inteiras, redes geridas por associações/cooperativas e muito mais.

Assista o vídeo. Abaixo dele e das fotos temos bonus tracks!

Alguns dos links das organizações/iniciativas citadas: Artigo 19, Nupef, AlterMundi, Libremesh, LibreRouter.

Instalação de uma rede livre em Juruti Velho, no Oesta do Pará, na Amazônia.

Em meados de 2013, fizemos um texto sobre redes livres aqui no Baixa que nunca conseguimos terminar, por uma série de fatores que não cabe aqui falar. Como ele trata de redes livres e é uma boa contextualização sobre o assunto, publicamos aqui abaixo, para complementar o relato já cheio de informações da BaixaCharla.

ASCENSÃO E QUEDA DAS REDES LIVRES COMUNITÁRIAS

Para você ler este texto aqui, seja de um notebook, desktop, smartphone ou tablet, o esquema costuma ser o seguinte: você adquire um dispositivo que permite a conexão à rede e contrata um plano de alguma das operadoras a disposição, que vai fazer a ligação da sua casa, ou do seu dispositivo, à internet através de uma porta disponibilizada na sua rua, no caso de internet a cabo e nas possíveis redes wifi criadas a partir daí, ou possibilitar o registro a um “espaço” no ar criado por uma antena 3G ou de rádio, por exemplo.

Com este aparato físico de ondas ou cabos por trás é que você, de posse de um identificador de sua rede (o “IP”), vai ligar seu dispositivo, abrir um navegador e digitar “http://baixacultura.org” e ler esse texto, ou chegar a ele através de alguma pessoa nas suas redes sociais, principalmente Twitter e Facebook – hoje, disparada a opção mais comum de entrada em alguns sites. Me arrisco a dizer que todas as pessoas que você conhece se conectam a rede dessa forma.

Pois bem, saiba que esta não é a única forma de se conectar a uma rede digital. Uma opção cada vez mais popular no mundo inteiro são as redes livres (ou redes “mesh”), que funcionam basicamente como grandes redes sem fio abertas, montadas a partir de um grupo de roteadores sem fio interconectados que propagam o tráfego entre usuários e também emitem serviços em banda larga a partir de nódulos conectados à internet.

Elas costumam funcionar de duas maneiras: se não tem nenhum ponto conectado à internet, funcionam como grandes intranets, onde os usuários têm acesso a uma rede comunitária offline e podem se comunicar entre si da maneira que quiserem nessa rede, além de usufruir serviços da rede.

Se um dos pontos tem acesso a internet, então se tornam opções mais baratas de conexão à rede – o que propicia a criação de pequenos provedores comunitários estruturados em organizações sem fins lucrativos, que podem comprar seus equipamentos e terem até 35 pessoas ligadas a sua pequena rede, segundo a lei brasileira.

Mais do que isso, a opção se torna ilegal  (não é mais)– muito por, sabemos, pressões das grandes operadoras nacionais, que não vêem com bons olhos as iniciativas de redes domésticas oferecendo serviços que poderiam ser melhores que as redes tradicionais.

Apesar dessa ilegalidade, em época de vigilância na rede (vide caso NSA) e de restrição de colocação de novos pontos de internet tem potencializado sobremaneira a expansão das redes livres, como relata essa matéria publicada no New York Times (e republicada na Folha) semana passada.

Como as redes abertas (offlines) são autônomas em relação à internet, elas não podem ser fechadas por um governo. São também mais difíceis de vigiar porque os dados oscilam de maneira imprevisível entre os nós da rede, sem um polo centralizado. E, com a expansão dos nós da rede, as redes livres podem funcionar como uma pequena internet, com os mesmos serviços oferecidos.

É o caso da maior e mais antiga rede desse tipo, a Athens Wireless Metropolitan Network, criada na Grécia em 2002 e que, hoje, conta com mais de 2.500 usuários em toda a área metropolitana de Atenas e nas ilhas vizinhas – em algumas áreas, oferece velocidades de mais de 100 Mbps por segundo. A AWMN tem serviços próprios de busca, compartilhamento, chats e telefonia VoIP (voz sobre IP, a maneira que o Skype funciona), o que muitas vezes faz com que os usuários nem precisam se conectar a internet, segundo afirma Joseph Bonicioli, presidente voluntário da associação que supervisiona a AWMN.

No Rio Grande do Sul

Durante algum tempo, uma rede livre funcionou em Santa Maria, criada em setembro de 2011 junto ao Centro Marista de Inclusão Digital (Cmid), por sua vez vinculado à escola Marista Santa Marta, na região da Nova Santa Marta, oeste da cidade. A intenção de montar o sistema na cidade surgiu no 3º Encontro Latino Americano de Redes Livres, realizado no mesmo período do 12º Fórum Internacional Software Livre (Fisl), em Porto Alegre, nos dias 1 e 2 de julho de 2011.

Do evento, a Associação de Software Livre (ASL) e o Centro Social Marista (Cesmar) partiram para a construção da rede livre em Porto Alegre, no bairro Mario Quintana, onde fica a sede do Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC). Ali surgia a Rede Livre Mário Quintana, a primeira que sem tem notícia no estado, que inspirou a criação da rede da Nova Santa Marta, a 2º, ambas construídas a partir de equipamentos – servidores, antenas de wi-fi, roteadores – doados pelo Ministério Público e o Governo Federal.

Aberta à comunidade e a visitantes, a rede (que era offline) tinha por objetivo armazenar e disponibilizar conteúdo próprio via wireless numa das áreas mais carentes da cidade. Continha blogs, dicionário, enciclopédia, fotos, vídeos, rádio online e material diático dos cursos oferecidos pelo Cmid. “Nós somos um fornecedor de conteúdo, não de internet, até porque legalmente nós não podemos ser um provedor de internet”, explicou em entrevista publicada aqui quando do lançamento da rede, o engenheiro eletricista Everton Bocca, engenheiro eletricista e um dos professores do Cmid na Nova Santa Marta. Instituição que, aliás, deveria ser um lugar mais reconhecido em Santa Maria, dado o trabalho de referência nacional que executa com os cursos que oferece a jovens de 5º a 9º séries (robótica, informática, meta-reciclagem e meta-arte; mais infos sobre eles aqui)

A rede livre, que funcionou durante alguns meses na cidade, era acessível gratuitamente para quem possuísse um computador com wi-fi nos 187 hectares da área do bairro cobertos por 12 antenas. Devido a população ser de baixa renda, à época muito poucos tiveram condições de utilizar o serviço, o que, somado a interesses particulares e a relação dúbia (à época) com a lei, acabou por fechar a rede. Uma pena.

A esperança é que, neste momento, com a ofensiva contra a espionagem comandada pelo governo brasileiro, as redes livres voltem com mais força a serem pautadas no país (e em Santa Maria). Iniciativas, como as citadas aqui, e o portal da nascente rede criada, são bons indicativos pra isso.

E hoje?

Assiste a BaixaCharla logo aqui em cima.

Fotos: Flickr Colab, Sheila Uberti (do dia da transmissão)

III Encontro SUL da Rede de Produtoras Culturais Colaborativas

Pelo terceiro ano consecutivo, as produtoras culturais colaborativas da região sul vão realizar seu encontro anual em Porto Alegre e região metropolitana. O III Encontro Regional SUL da Rede das Produtoras Culturais Colaborativas contará com debates, oficinas, install fest de software livre, roteiro pelos espaços coletivos de produção cultural de Porto Alegre e atrações culturais, com a participação das produtoras colaborativas da região Sul, representantes das produtoras das regiões Norte e Nordeste do Brasil e parceiros locais que trabalham com produção cultural, software livre e economia solidária. O evento vai de 4 a 7 de outubro (quarta-feira à sábado) em Porto Alegre, no Espaço Cultural 512 (Rua João Alfredo, 512, Cidade Baixa) e na Unisinos Campus Porto Alegre (Av. Dr. Nilo Peçanha, 1640, sala 307) e em Novo Hamburgo, no Espaço Sideral e na Casa Aberta Clube da Esquina (Rua Casimiro de Abreu, 272/251)

A edição deste ano do encontro tem o reconhecimento e apoio da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, através do edital Cultura e Redes, realizado em 2015, cujos recursos foram liberados somente este ano. As inscrições para todas as atividades são gratuitas e podem ser realizadas aqui.

A programação completa está abaixo. Todes estão convidados a cdiscutir/praticar/conhecer a tecnologia social das produtoras colaborativas, economia solidária, gestão de espaços coletivos de produção, tecnologias livres, criptomoedas, redes livres, comunicação alternativa e outros temas que vão ser debatidos nos dias de evento.

Programação completa
Evento Facebook

PROGRAMAÇÃO

1º DIA – 4 de outubro (quarta)
LOCAL: Recepção/ almoço/atividades – Espaço Cultural 512 (Rua João Alfredo, 512, Cidade Baixa, Porto Alegre – RS)

14h – Abertura
RODAS DE CONVERSA
15h – Como a web 3.0 pode ser um mutirão para fazer a inteligência coletiva emergir? Daniel Muller (ASL)
16h – Permacultura digital: intertextualizando a cultura da permanência. Fabianne Balvedi (PR), Pedro Jatobá (BA) e Leandro Atlas (RS)
17h – O Corais 20 tá chegando!: apresentação da nova versão da plataforma de gestão da Rede das Produtoras Culturais Colaborativas, Cooperativa EITA
19h – Install Fest – Oscar Luz e Associação do Software Livre (ASL)
19h – CINELIVRE: exibição de filmes produzidos em software livre e/ou distribuído em licenças livres. (Curadoria: Cláudia Archer)
20h30 – O Futuro do Software Livre no Brasil (Associação do Software Livre – ASL)
21h – Quarta Livre no 512
Shows: Mosaico Fluido, Áurea Vênus, Andrei Côrrea (vocalista/guitarrista da banda Trem Imperial) e convidado surpresa. Nos intervalos do show, DJ Virgulinux vai tocar suas seletas musicais nordestinas montadas só com músicas livres para baixar e de domínio público disponíveis na internet.

2º DIA – 5 de outubro (quinta-feira)
LOCAL: Unisinos Porto Alegre (Av. Dr. Nilo Peçanha, 1640, sala 307)

Seminário do III Encontro SUL das Produtoras Colaborativas
10h – Abertura. Mesa 1: As produtoras colaborativas e os arranjos locais de produção econômica
Tempos de “crise” são tempos de união e de criar novas (ou recriar velhas) formas de produção. Também são períodos para se buscar bons exemplos e soluções de viabilidade financeira que sejam, de fato, colaborativas. Como a tecnologia social das Produtoras Culturais Colaborativas pode contribuir para este cenário? Como a economia solidária pode dialogar com a economia colaborativa na produção de alternativas viáveis financeiramente e socialmente justas? Quais os principais desafios para quem quer sobreviver produzindo uma cultura livre, colaborativa e economicamente sustentável? Como, nas brechas da crise, detectar e potencializar arranjos locais de produção cultural livre? Estas e outras questões serão discutidas nessa mesa de abertura do Seminário do III Encontro SUL de Produtoras Culturais Colaborativas.
_ Pedro Jatobá (Iteia/Rede das Produtoras Colaborativas)
_ Aline Bueno (mestranda em design estratégico na Unisinos, integrante do SeedingLab e do Vila Flores);
_ Ana Mercedez Sarria Icasa (Núcleo de Estudos de Gestão Alternativa- NEGA, UFRGS);
_ Joel Grigolo (Matehackers/MachinariumLAB);
_ Leandro Anton (fotógrafo, Geógrafo e Educador Popular, integrante da Coordenação do Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo);

14h – Crise capitalista atual e possibilidade de um pós-capitalismo: o papel da democratização da cultura via militantes digitais
Gláucia Campregher (Professora do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS) e Rodrigo Brites (discente de Relacões Internacionais da UFRGS e pesquisador da internet como ferramenta de poder). A proposta da discussão é alertar para o alcance da cultura digital, principalmente aquela voltada para o desenvolvimento de práticas colaborativas, na proposição de alternativas à crise atual que aponta para maior concentração de riqueza, poder, e controle das produções materiais e imateriais, mesmo que ao mesmo tempo estas novas tecnologias permitam também alguma democratização na sua produção e consumo.

16h – Mesa 3: Comunicação e cultura livre em tempos bicudos
Virou consenso dizer que o jornalismo brasileiro vive um “apagão” nos últimos anos, a partir do acirramento político que se deu em torno das Jornadas de Junho de 2013 e das eleições presidenciais de 2014. Ao mesmo tempo que o dito jornalismo tradicional está em crise,  é visível a expansão de coletivos de comunicação e jornalismo “contra-hegêmonico” pelo Brasil, que buscam construir narrativas sobre os acontecimentos de pontos de vista que não os tradicionalmente mostrados na mídia tradicional. De que formas estes coletivos conversam com o software e a cultura livre? Como produzir comunicação e jornalismo em tempos bicudos, de acirramento de lados que não dialogam? Como fugir da polarização e produzir informação qualificada sobre os acontecimentos hoje no Brasil? Essas e outras questões vão pontuar o debate com diversos integrantes de coletivos de comunicação do RS e SC.
_ Agência Ganesha (Florianópolis, SC)
_ Nonada Jornalismo Travessia (POA-RS)
_ Coletivo Catarse (Porto Alegre – RS)
_ Coletivo Maruim – Florianópolis, SC

Mediação: Leonardo Foletto (http://baixacultura.org/, doutor em comunicação e informação pela UFRGS)

3º DIA – 6 de outubro (sexta)

10h – Oficina Laboratório Fotodoc online com ferramentas livres (Sheila Uberti – http://fotolivre.org)
Atividade de apresentação e prática guiada sobre as possibilidades de publicar online a documentação fotográfica de projetos culturais. Falaremos sobre licenças, softwares, integração de ferramentas, atualização e manutenção dos conteúdos. Não é necessário conhecimento de nenhuma linguagem de programação ou de edição de imagens avançada.

LOCAL: Espaço Cultural 512 (Rua João Alfredo, 512, Cidade Baixa, Porto Alegre – RS)

14h – Passeio pelos Espaços coletivos de produção cultural em Porto Alegre (conhecidas também como “Casas Colaborativas”).
A proposta da atividade é conhecer os espaços e compartilhar informações sobre as atividades realizadas, as formas de gestão e de troca de informação entre os participantes.
Quilombo do Sopapo
Marquise51
Galpão Makers
Vila Flores – encerramento com roda de conversa sobre a reconfiguração das Casas Colaborativas

4º DIA – 7 de outubro (sábado)

15h -A tecnologia blockchain (Bitcoin¢) e seus impactos socioeconômicos (Lucas Alberto – ASL e convidados)
16h – Internet(s) possíveis para a cultura livre. Roda de conversa (Casa de Cultura Digital Porto Alegre)
17h – Redes Livres e/ou Provedores Comunitários no Brasil e mundo (Rodrigo Troian, Coolab – laboratório cooperativo de redes livres)

Local: Espaço Cultural 512 (Rua João Alfredo, 512, Cidade Baixa – Porto Alegre).

Festa de Encerramento

19h – Festa da Cultura Livre: Junção Primavera Cultural Novo Hamburgo  – Lúpulo Jah e Outro Mundo Acontece: Kalunga Quilombola (POA) e Expo Arte,

Local: Espaço Sideral (Rua Casemiro de Abreu, 272, Novo Hamburgo) e Casa Aberta Clube da Esquina (Rua Casemiro de Abreu, 251), uma na frente da outra.

SOBRE AS PRODUTORAS CULTURAIS COLABORATIVAS

As Produtoras Culturais Colaborativas (http://www.corais.org/colabor ativas) são uma tecnologia social que integra práticas formativas em software livre, metodologias de inclusão digital e produção cultural comunitária orientadas pelos princípios da economia solidária. São iniciativas de desenvolvimento local realizadas em telecentros onde jovens, produtores e gestores culturais, empreendedores e artistas, participam da gestão do espaço e do processo formativo, criando e comercializando produtos e serviços da economia criativa em software e licenças livres e de forma autogestionária. A tecnologia social qualifica espaços de inclusão digital em laboratórios de educação em cultura livre, contribuindo para o registro de suas comunidades. Existem pontos da rede em Recife e Olinda (PE), Belém e Santarém (PA), Porto Alegre e Novo Hamburgo (RS), Florianópolis (SC), Curitiba (PR), Salvador e Chapada Diamantina (BA).

Cultura digital, metareciclagem e zapatistas em charla

Na quarta-feira, 30 de agosto de 2017, a BaixaCharla #2 teve como convidada Elenara Vitoria Cariboni Iabel, “cidadã comum, cyberpunk de chinelos, cyberativista, produtora cultural, metarecicleira, comunicóloga social, fundadora da Themis – Genero, Justiça e Direitos Humanos, colaboradora da rede MetaReciclagem, dos festivais de Submidialogias, da Ciranda Internacional da Informação Independente e do ponto de cultura Afro-Sul Odomodê. Como ela mesmo fala, “não gosto de sistema operacional windows, de violência, de racismo, de homofobia e de machismo; sou mãe do Cauã, da Inaê, do Ariel e conhecida pela quantidade de pessoas amigas que amo.”

Lelex (como é conhecida por muita gente) falou um pouco de seus projetos e também de seu recente trabalho junto aos zapatistas, berço altermundista instalado em Chiapas, sul do México. “Participei dos dois compArte por la humanidad, em julho de 2016 e de 2017 e do conCiencias em dezembro de 2016 e da Assembléia do Congresso Nacional Indígena, realizado em maio de 2017, onde foi anunciado o nome de Marichuy como representante do consejo Indigena de gobierno para as eleições presidenciais do México”. A conversa perpassou também pela sua trajetória em projetos culturais na internet desde 1995, os pontos de cultura, a metareciclagem, a cultura digital na era Gilberto Gil no MinC, entre outros temas. Confira abaixo:

A BAIXACHARLA é uma conversa mensal ao vivo, transmitido via streaming desde julho de 2017, com pessoas da cultura livre, remix, cultura hacker e subversões em geral, realizada pelo BaixaCultura em parceria com o FotoLivre.org.

Chamada pública – III Encontro SUL das Produtoras Colaborativas

Pelo terceiro ano consecutivo, as Produtoras Culturais Colaborativas da região sul realizarão seu encontro anual em Porto Alegre e região metropolitana. As Produtoras Culturais Colaborativas são uma tecnologia social que reúne um conjunto de metodologias para que grupos autogestionários transformem seus espaços de atuação em empreendimentos criativos que oferecem produtos e serviços de audiovisual, produção cultural, comunicação comunitária e formação em cultura digital. A edição deste ano do encontro tem o reconhecimento e apoio da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, através do edital Cultura e Redes, realizado em 2015, cujos recursos foram liberados somente este ano.

O III Encontro Regional SUL da Rede das Produtoras Culturais Colaborativas contará com debates, oficinas, install fest e atrações culturais e terá a participação das produtoras colabrativas da região Sul, representantes das produtoras das regiões Norte e Nordeste do Brasil e parceiros locais que trabalham com produção cultural, software livre e economia colaborativa. Vai acontecer entre os dias 4 a 7 de outubro (quarta à sábado) em Porto Alegre e região metropolitana.

Estamos construindo a programação de forma colaborativa com os coletivos integrantes da Rede das Produtoras Colaborativas e com outrxs interessadxs em cultura livre e produção cultural colaborativa da região. Quem quiser propor sua atividade (roda de conversa, debate, oficina prática, atividade cultural – cineclube, shows, performances, lançamentos de livros/zines/revistas, etc) para o encontro, entre nesse formulário e preencha os campos até o dia 4/9, segunda-feira. 11/9, segunda-feira. O nosso objetivo é sistematizar as ações propostas e cuidar, junto com xs proponentes, pra que todas possam acontecer na programação do evento.

Por enquanto, já temos definido o 1º dia, quarta 4/10, que será dedicado à chegada dos coletivos e uma atividade de recepção, a partir das 14h, no Espaço Cultural 512, na Cidade Baixa, e a roda de encerramento, no sábado 7/10 às 17h, no mesmo 512. A programação do 2º (5/10, quinta), do 3º (6/10, sexta)  e de metade do 4° dia (7/10, sábado) estão abertas para a construção coletiva.

Se você quiser se inspirar para apresentar sua proposta, confira aqui o que já aconteceu nos dois últimos encontros:

I Encontro SUL (2015)
Material de divulgação
Cobertura

II Encontro SUL (2016)
Material de divulgaçãospot de rádio

Para saber mais sobre como funciona Rede das Produtoras Colaborativas, entre aqui.

Recife, Olinda & arredores

Caranguejo em homenagem à Chico Science, na Rua da Aurora

Passamos duas semanas de julho em Recife, Olinda e arredores e tivemos uma programação baixacultural de atividades.

A começar por uma fala/oficina/charla chamda “Visões de Cultura Livre no Brasil“, no espaço recém re-inaugurado CEÇA, no bairro Boa Vista em Recife. O (ou a) CEÇA é uma casa colaborativa que busca agregar diversas iniciativas relacionadas à cultura livre e a economia colaborativa na cidade, e promete ser um ponto de encontro importante para esses temas no centro do Recife.

A proposta da atividade lá foi fazer um panorama do que se identifica como cultura livre no Brasil hoje a partir de um recorrido por postagens deste BaixaCultura. A ideia de cultura livre – ou melhor, de um agrupamento de práticas culturais organizadas em torno desse nome – nasce inspirada pelo movimento do software livre e pela ideia de copyleft, que mudou as regras do que se produz, distribui e se pensa sobre software na década de 1980. No final dos anos 1990, a cultura livre se pauta como um movimento de resistência aos grandes monopólios dos direitos autorais no mundo, cuja consequência mais clara foi a privatização do conhecimento a partir da ideia de propriedade intelectual. Ideias e licenças, como o Creative Commons, surgem neste momento e se tornam chaves na perspectiva de trazer mais autonomia aos autores sobre suas próprias obras, enfrentando o status quo do copyright e buscando uma atualização das leis em face às mudanças trazidas pela tecnologia digital e a internet.

A partir dos anos 2000, a ideia de cultura livre se torna ainda mais heterogênea, um guarda-chuva a articular uma série de práticas e modos de fazer que se transformam ao longo dos anos. O software livre e as licenças livres continuam como tags centrais do movimento, mas temas como a produção de conhecimento aberto, a democratização da mídia, os recursos educacionais abertos, a transparência via dados abertos e inspirado pela ética hacker, as práticas artísticas em torno da recriação e do remix, as defesas da neutralidade da rede e da segurança da informação na internet, as políticas públicas culturais de Estado (em especial, a partir dos Pontos de Cultura no Brasil) e a economia colaborativa, entre outros, se tornam assuntos emergentes dentro do movimento. A partir da década dos 2010, a ideia do comum (procomún, em espanhol; commons, em inglês) ganha força na cultura livre como propulsora de modelos organizativos, econômicos e sociais mais justos, num diálogo constante com a economia solidária e o cooperativismo, também a partir das assembléias e Okupas espanholas pós 15M de 2011, até chegarmos aos laboratórios de inovação cidadã que se propagam na Ibero-américa neste 2017.

A fala percorreu um pouco desse histórico da cultura livre trazendo casos, situações e coletivos para o debate, dialogando também com novas perspectivas de transformação social em tempos de retrocessos no Brasil e no planeta. A chuva atrapalhou o lindo cenário da varanda da Casa, mas o debate seguiu noite adentro nas futuras intalações da oficina de marcenaria da CEÇA até 22h e tanto. Aqui um pad com os posts mostrados no dia e algumas fotos da turma que ficou até o final, já passado das 22h (fotos do pessoal do Ceça). Gracias a Arthur Braga, um dos quatro responsáveis pela casa, designer, produtor cultural e nosso articulador local da função.

Também visitamos a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), orgão de pesquisa ligado ao Ministério da Educação, e especificamente a Villa Digital, espaço multiuso de pesquisa localizada em um casarão do século XIX e vinculada ao Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira Rodrigo Melo Franco de Andrade (Cehibra). A Villa Digital é um espaço físico muito interessante e versátil, embora ainda pouco ocupado pelos moradores da cidade. Como projeto, são responsáveis pelo processo de digitalização de uma parte do rico material da Fundaj – que, entre outras coisas, é responsável pelo Museu do Homem do Nordeste, um museu antropológico que organiza exposições contando a história do povo a partir de artefatos do dia a dia do nordestino, do sertão ao litoral, do catolicismo de Padre Cícero aos orixás do candomblé. Quando estivemos no espaço, estava lá sua exposição permanente do acervo e algumas temporárias, como as do grande xilogravurista J. Borges e uma chamada “Nordeste Mix”, literalmente uma curadoria remix entre tradição e novidade a partir do material do espaço. Desta última exposição vem o “Manifesto Regionalista”, texto provocador sobre a função dos museus hoje. Agradecimentos a Cristiano Borba, da Villa Digital, pelo convite à visita e pelo tour na Fundaj e no museu.

Na sexta-feira 28/7, fizemos um lançamento (o 3º!) do zine La Remezcla, desta vez em Olinda, no espaço Casa Azul, junto de uma roda de conversa sobre cultura livre. Articulado por Carlos Lunna, do coletivo Tear Audiovisual e da Produtora Colaborativa.PE, o evento foi uma ação da Rede de Produtoras Colaborativas, que une diversos coletivos Brasil afora, e do qual o Baixa faz parte na região sul. O sebo-livraria Casa Azul, local do evento, rende um capítulo a parte: criado faz poucos meses por Samarone Lima, jornalista e escritor, é situado na região do Carmo, Cidade Alta de Olinda. Tem uma seleção preciosa de livros de ficção e teoria, poucas e boas prateleiras que ocupam as duas salas da frente de um casarão típico daquela região da cidade, com uma estreita face virada para a rua que não sugere os diversos cômodos e o amplo pátio que se extendem ao longo da casa. Tem promovido alguns cursos, sediado algumas peças de teatro, tudo aos poucos, devagar como a vida em Olinda durante um inverno chuvoso sem (tantos) turistas. Samarone, inclusive, é poeta e cronista dos bons, e em sua página, Estuario, é possível ter uma amostra disso – das crônicas mais recentes, leia, em especial, “Anotações de um dono de sebo em Olinda“, relato de coisas simples que acontecem no seu dia a dia na Casa Azul.

A cobertura fotográfica do evento está nesta página do ITeia, site de acervo da produção multimidia cultural brasileira. A conversa teve a presença ilustre de Isabelita a vagar por cima dos zines e pelos colos das pessoas. E além de cultura livre e (re)criação, versou também sobre jornalismo alternativo – muito por conta da presença de integrantes do coletivo de comunicação Marco Zero – e futebol & política, esta puxada pelo pessoal do movimento Democracia Santa Cruz Futebol Clube. As fotos abaixo (as 2 últimas são de Samarone Lima, as outras nossas) ilustram um pouco de Olinda, da Casa Azul, do evento, nesta ordem.

Casa de Alceu Valença, Olinda

Um panorama de Enfrenta!

Projeto de mapeamento de coletivos que realizamos na Espanha no início deste 2017, Enfrenta! surgiu como um projeto ligado a nós, mas feito para andar sozinho. Nesta postagem, apresentamos um pouco do que descrevemos em nosso diário de viagem, das cidades que passamos e dos coletivos e pessoas que entrevistamos: o link de cada tópico leva para para o relato completo no site do projeto. Estamos neste final de 1º semestre de 2017 na 2º fase de Enfrenta!, que consiste em elaborar produtos a partir do material que trouxemos, entre eles as mais de 30 entrevistas que fizemos durante a viagem. No 2º semestre traremos mais informações sobre o livro, primeiro material a sair do projeto.

DERIVA POR LAVAPIÉS

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Chegamos em Madrid em pleno dia 25 de dezembro – mas no caminho do Aeroporto de Barajas ao centro só o comércio nas propagandas do metrô nos lembrou que era natal. Nos instalamos em Lavapiés, bairro da região central de Madrid, para ficarmos uns dias antes de uma viagem a Portugal. Por lá é que derivamos uns dias: bairro multicultural de Madrid, Lavapiés tem africanos, paquistaneses, indianos (ou seriam de Bangladesh?) que dominam as calles estreitas com seus restaurantes, mercados, lojas e em conversas acaloradas em diversos idiomas pelas esquinas do Bairro. Ouve-se menos o espanhol que o árabe ou alguma das diversas línguas do continente africano ou da Índia.

ZEMOS, ENREDA & ALAMEDA: SEVILLA

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A capital da Andaluzia foi nossa 2º parada da viagem espanhola. Ficamos uma semana, encontramos o Zemos98, coletivo parceiro neste intercâmbio, andamos por boa parte do Casco Antigo, um dos três mais antigos e extensos da Europa, entrevistamos o Enreda, uma cooperativa de soluções tecnológicas ativa há mais de 8 anos na Espanha. Alameda de Hércules foi o lugar que mais frequentamos na cidade, muito por conta de estarmos instalados há duas quadras dela, no hostel La Caja Habitada (que, aliás estava tendo durante os dias que lá estivemos um interessante encontro de peças curtas artísticas chamado Encuentros Concentrados).

CONHECENDO VALENCIA

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Das cidades que escolhemos para o mapeo de Enfrenta! em Espanha, Valencia, nossa 3º parada, era a que menos informações tínhamos de partida, apesar de ser a terceira maior do país, com 790 mil habitantes (e 1,5 milhão na região metropolitana). Ao final dos quatro dias que passamos na cidade, foi se descortinando uma Valencia menos convencional e de mais resistência ao status quo, em especial contra a gentrificação – esse ubíquo mal moderno – de alguns espaços públicos locais. Ajudou a enxergarmos isso a entrevista que fizemos com Irene Reig Alberolla e Laura Murillo Paredes, da La Factoria Cívica, organizada por integrantes do estúdio Carpe Via e com apoio da rede internacional Civic Wise, e localizada num interessante espaço na Marina de Valencia. A ainda a fala com Daniel Alvaréz e David Pardo, ambos professores da Universidade de Valencia e do espaço Hackers Cívicos da cidade.

BARCELONA LIVRE, HACKER, ATIVISTA & CRIATIVA

Barcelona foi, ao lado de Madrid, a cidade que mais dias permanecemos. Isso signfica que deu pra entender razoavelmente bem o que é e como funciona a cidade, apesar dos dias chuvosos e do frio que nos perseguiram por lá. Fizemos três postagens em nosso diário de viagem na cidade. A primeira dedicamos a uma questão política-urbanista, assunto da vez em janeiro de 2017 por lá: o PEUAT, plano de regulação de turismo proposto por Ada Colau e o Barcelona en Comú. A ideia é regular o crescimento de hotéis em áreas que estão saturadas de turistas, como na região em torno de La Rambla, Raval, Sagrada Família, Ciutat Vella, Barceloneta. Em algumas regiões não se poderão construir novos espaços para abrigar turistas nem mesmo quando fecharem outros; em outras, mais afastadas do centro, será permitido. Se pra alguns lugares turismo é sinônimo de cultura, $$ e “desenvolvimento”, em Barcelona também é de gentrificação: 15% do espaço da cidade tem mais de 50% das vagas de hospedagem, o que faz com que em alguns bairros tenha mais turistas que moradores.

A segunda tratou do catalão, essa língua peculiar pra nós, brasileiros, que às vezes remete a um português “errado”, fora do que se chama “norma culta” no Brasil, enquanto em outras parece mais um francês. E a terceira falou dos coletivos e pessoas que entrevistamos na cidade. Barcelona é uma cidade especial para o “enfrentamento” ao status quo: há um ecossistema de cooperativas, ativismo criativo & cultura livre que se reconhece e age em sintonia sem (muito) esforço. Há um histórico de décadas com (poucos) retrocessos grandes no âmbito político institucional, e essa continuidade, somada à uma efervescência cultural e de busca de autonomia que a cidade carrega há pelo menos um século, explica um pouco a quantidade de gente a buscar alternativas econômicas/políticas/de vida ao “capitalismo” que encontramos na cidade. Deixamos a Catalunya com uma certa alegria de ter vivido e registrado bons momentos, pensamentos e sensações.

BILBAO, DONOSTIA E O PAÍS BASCO COLABORATIVO

O quarto lugar de parada de #enfrenta pela Espanha foi o País Basco, mais precisamente Bilbao, maior cidade da região, 349 mil habitantes (na região em torno, 910 mil). Como na Catalunha (e até com mais peso histórico), o País Basco é um estado com autonomia relativa em relação à Espanha, um idioma (o milenar – nasceu antes do latim! – e curioso euskera) e um movimento separatista, que já foi mais forte com o ETA (em português, Pátria Basca e Liberdade) e hoje está menos intenso. Lá tivemos uma excelente conversa com Ricardo, um dos integrantes do coletivo Colaborabora e figura atuante na cena “procomún” da Espanha. Também demos uma breve passeada por Donostia (também chamada de San Sebastián), cidade cerca de 1h30 de Bilbao famosa pelas belas praias e por um conhecido festival de cinema internacional. Mas olhando de perto, com uma outra perspectiva, sempre se acha algo mais do que aquilo pelo qual uma cidade é famosa.

PELA MADRID DO COMUM

Dois meses, 7 cidades espanholas percorridas e algo em torno de 500 gigas de material gravado (vídeo, áudio e foto): encerramos a 1º fase de #enfrenta, a de viagem e coleta de material. Voltamos para o Brasil devendo o relato da última cidade que visitamos, Madrid, e um mês e umas merecidas férias depois encerramos o diário da viagem trazendo um pouco do que vimos e fizemos na capital espanhola, cidade em que mais permanecemos na Espanha – e que, por conta disso, mais material juntamos. Estamos agora organizando esse material para a produção de um livro, o que contamos mais em um próximo post.