O manifesto do círculo de poetas sampler de São Paulo

 

O círculo de poetas sampler de São Paulo foi um movimento criado no final dos anos 90 e início dos 2000 que se espalhou por diversas regiões da capital paulista. Veio, como muitos dessa época, na esteira do movimento punk e anarquista e se somou a nascente cultura digital (pelo menos no que diz respeito a que conhecemos hoje) para propor a ideia do remix, cut-up, também na literatura. Foi, talvez, um dos primeiros grupo organizados a falar disso abertamente no Brasil.

Abertamente? Sim, eles deixaram poucos textos sobre o tema, e o único que encontramos é o que publicamos abaixo: Manifesto da poesia sampler. Ali estão todas as influências (Burroughs, copyleft, Oswald de Andrade, Lautreamont, Roberto Piva, etc) para falar do esgotamento da linguagem e da necessidade de reapropiação do que já foi produzido até hoje ao invés da criação. Preceitos que, de alguma forma, se relacionariam com a escrita não-criativa de Kenneth Goldsmith e aparecem no MixLit de Leonardo Villa-Forte, entre outras iniciativas.

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O manifesto (atenção: não confundir com o Manifesto da Literatura Sampler, de Fred Coelho e Mauro Gaspar, que tem 7 versões e em breve estará por aqui também) saiu no Rizoma, em 2002 – depois, foi compilado no ebook “Recombinação“. Continha uma introdução, em que se explica um pouco do círculo. Tudo muito caótico, mas que dá uma amostra do contexto anarquista da qual ele foi produzido.  Alguns trechos:

O círculo de poetas sampler de São Paulo foi criado na relação entre os cavaleiros templários e bruxas cidadãs, entre  sufraggetes e o movimento de poetas negros de Angola, entre @s escritor@s de Q e ladrões-ativistas do Leste Europeu, entre manifestantes anti-globalização no início deste século XXI, entre Seattle, São Paulo, Porto Alegre e Morro Agudo.

O Círculo de Poetas Sampler de São Paulo (tirado de um anagrama escrito pelo Bandido da Luz Vermelha na cadeia), está em todos os cantos. De marginais a altos postos do governo, infiltrados em movimentos de cultura digital picaretas e em espetaculosas palestras sobre o Nada. Este manifesto, escrito entre o IRC e pombos-correios se desmembrou em manifestações na qual o Círculo não impôs sua marca (mal de nossos tempos?), mas sim, subrepticiamente, subvertendo a retrô-subversão contemporânea que alia Estética e Poder de maneira tão vulgar quanto no início da Revolução Industrial.

Hoje pouco se sabe desse círculo e dos seus integrantes. Se ele ainda existe, é certo que deve ter se dissipado, ganhado outro nome ou se espalhado por governos, redes (Metareciclagem? THacker?), ou em movimentos de cultura digital picaretascomo diz a introdução. A publicação desse texto também é uma tentativa de achar alguma pista do paradeiro do círculo.

 

Manifesto da Poesia Sampler

“O plágio é necessário. O progresso o implica”
Lautreamont

Que as idéias voltem a ser perigosas.

Vivemos um momento de impasse poético (comecemos com frases de efeito). A poesia brasileira contemporânea está estilhaçada em todos os caminhos possíveis e sofre de uma falta de identidade sem parecer. A poesia brasileira contemporânea (que é bom frisar nem sempre é moderna) não sabe como se comportar. Não há mais (des)caminhos claros e definidos.

Queremos então aqui, levar ao máximo a falta de perspectiva, usar ao máximo a queda das utopias (política, existencial, artística) para apresentar a poesia sampler. A poesia sampler ou sampleadora é e se quer ser ilegal. Usando os princípios e termos da música eletrônica que literalmente rouba trechos de outras músicas para se compor, a poesia sampler rouba idéias, trechos, citações, põe palavras em outros contextos. A sua originalidade é a falta de tê-la.

O problema da linguagem é o cerne da poesia sampler. É a constatação do esgotamento total da linguagem, é a constatação de não ter mais saída para a linguagem, que já foi (des) (re) construída ao máximo. É se emaranhar no labirinto (in)finito das experimentações e das brincadeiras. É poesia irresponsável. É a volta da morte do Copyright (viva o Copyleft). É a volta da morte da autoria. É a volta do plágio. Como disse Lautreamont, o progresso o implica. A poesia deve ser escrita por todos.

A poesia sampler pode servir como uma ponte para uma possível nova poesia e novos poetas. Ela pega esses cacos que todos já destruíram e brinca com eles e os muda de lugar e os troca, os confunde, os cita, os leva ao extremo da brincadeira poética.

Saturação da informação. Não mais novidades. Contra o mercado de novidades, contra a globalização e a mercantilização da novidade. O pensador moderno precisa saber escolher a informação. O poeta moderno precisa deslocar as mesmas palavras que conhece há séculos para outros contextos. Nem mesmo essa idéia é novidade. A poesia sampler, felizmente, está fadada ao jornal de ontem. Duchamp desce das escadas nu.

Desabando, logicamente, em Oswald de Andrade, nosso grande poeta antropófago: “Tudo que não é meu me pertence”. Lema do poeta e base da poesia mais inventiva e criativa brasileira. Diferente da chamada linha evolutiva da vanguarda poética brasileira
fincada no concretismo, a poesia sampler não é original ou melhor não se quer (é aí que tá o ovo de colombo). É poesia de poesias ou melhor, poesia que tira outras poesias do contexto e as coloca com outros sentidos, outras características, outra vida, incorporando até novas palavras, tanto é a liberdade da poesia sampler.

A poesia sampler já nasce velha. É criminosa, é pagã, é lírica, é crítica, é publicitária. Como no poema de um dos poetas sampler escrito em cima de um dos poemas mais (re)conhecidos de Oswald de Andrade: Erro de Português. O poeta sampler subverte a idéia original do poema, ou melhor, encontra nele, uma possível (re)interpretação. Eis:

Erro de Brazileiro
O português
quando aqui chegou
as índias todas ele comeu
o problema é que
elas continuam gozando
até hoje

A poesia sampler leva a tradição pra outro lugar, usando-a, anarquicamente. É a contradição máxima que vivemos. É seguir a tradição, negando-a. Não há mais diferenças entre nada. Tudo pode ser usado. Guerrilha Cultural. Abalar os conceitos das afirmações. São poetas sem poemas. Esses conceitos, além de terem surgido com a música eletrônica, também são influenciados pelos grupos filosóficos anarquistas, principalmente por Luther Blisset e os artistas neo-dadaístas e os situacionistas. Somos todos.

Somos um. Somos nenhum. Não temos reflexo em espelho algum. Literatura pra nossa geração. Somos poetas burros escrevendo para uma geração burra. Assassinamos jornalistas culturais com poemas de Eliot. Somos o oco da oca tupiniquim interplanetária. Soy loco por ti, America. Vivemos a era do não-criador. Era do sampleador. Acumulamos citações como heróicos saqueadores de túmulos. Sempre voltamos ao mesmo ponto: não há nada de novo debaixo do sol. O que podemos fazer é mudar o sol de lugar (terminemos com frases de efeito).

Assinado pelo Círculo de Poetas Sampler de São Paulo

e terminemos com mais um poeminha:
“Quando nossos poetas vão cair na vida?
deixar de ser broxas para ser bruxos?”
Roberto Piva

 Créditos imagens: 1 (sampler), 2 (Bliss),

Saudações, membros da OTAN. Nós somos Anonymous.

E o Anonymous ataca novamente. O bravo e misterioso grupo de hackers-ativistas mandou, no dia 5 de junho, um sinal para a cada vez mais famigerada Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em forma de uma carta aberta – de mesmo título deste post – dirigida aos 28 países membros da organização.

Foi uma (das) resposta(s) a um rascunho de relatório publicado pela OTAN no começo do mês que citava o terrível Anonymous como um grupo que possa conter possíveis “terroristas”.

No documento de nome “Informação e Segurança Nacional“, o relator geral do Reino Unido, Lord Jopling, diz que “not everything carried out under the ‘transparency labelis necessarily good for the government and its people” – nem tudo realizado sob a “etiqueta da transparência” é necessariamente bom para o governo e seu povo, em tradução ligeira.

Além disso, o documento classifica o hacktivismo como uma ciber ameaça contra estados e, em particular, à OTAN. Destaca o Anonymous como o mais proeminente desses grupos, descrevendo sua ascensão em fóruns de imagens e seu apoio ao Wikileaks.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=WpwVfl3m32w&w=480&h=390]

Uma carta do Anonymous, em 9 de dezembro de 2010

Mas os motivos cruciais geradores do texto foram dois: a invasão dos servidores da empresa de tecnologia de segurança HBGary em fevereiro; e os típicos ataques de negação de serviço (DDoS) ao site da Câmara de Comércio dos EUA em maio.

A primeira ação foi um contra-ataque à empresa que ajudava o FBI a identificar membros do grupo. O segundo ato foi uma consequencia do apoio da Câmara ao projeto PROTECT IP Act, que permitiria ao Departamento de Justiça estadunidense forçar mecanismos de buscas a bloquearem sites que infringissem o Copyright.

As investidas do Anonymous a sites de empresas, governos, políticos ou polícias em defesa da privacidade para os cidadãos e de leis de “propriedade intelectual” mais brandas estão resultando na caça de seus membros. É o que tem acontecido no Reino Unido, na Espanha e mais recentemente na Turquia, que busca instalar um sistema com filtros para o acesso à internet.

Mas é claro que não se desmembra assim tão facilmente uma rede sigilosa e descentralizada, sem líderes aparentes ou número determinado de integrantes, como o Anonymous. A batalha vai longe, pode escrever.

O texto da OTAN ainda conta um pouco sobre as origens do coletivo, que começou nos fóruns de imagens 4chan e 711chan, onde as postagens podem ser feitas de forma totalmente anônima. Segundo uma grande matéria do El País, eles só começaram a ser mais organizados a partir do site Why We Protest.

Uma das primeiras ações ocorreu em 2008, quando o foco dos “ataques” se deu sobre a Igreja da Cientologia. O motivo: a iniciativa da Igreja em remover um vídeo com uma entrevista de Tom Cruise, sob alegação de violação de copyright.  Como disse o grupo, “While the video itself was not enough to spark interest, the untamed aggression of the Church of Scientology to remove it did” – “enquanto o vídeo em si não foi suficiente para despertar interesse, a agressão selvagem da Igreja da Cientologia em removê-lo foi”, em tradução tosca.

[Nesse quesito, vale olhar a seção de liberdade de informação do site “Why We Protest”.]

Como o relatório da OTAN tinha afirmações anti-democráticas que vão de encontro a filosofia aberta do Anonymous, o grupo redigiu o texto no estilo do personagem que lhe empreta “rosto”: V, do filme V de Vinçançabaseado numa história em quadrinhos, inspirada na vida do soldado Guy Fawkes, uma espécie de Tiradentes inglês.

A mensagem, traduzida pelo caderno Link, se assemelha muito ao empolgante discurso do longa de 2006, e funciona quase como outros “editorais” do grupo – a carta endereçada à Mark Zuckerberg do Facebook, aos usuários da Internet e aos cidadãos do mundo, dentre outras.

Leia, reproduza, reflita, discuta.

“Em uma recente publicação, vocês destacaram o Anonymous como ameaça ao ‘governo e ao povo’. Vocês também alegaram que sigilo é ‘um mal necessário’ e que transparência nem sempre é o caminho certo a seguir.

O Anonymous gostaria de lembrá-los que o governo e o povo são, ao contrário do que dizem os supostos fundamentos da ‘democracia’, entidades distintas com objetivos e desejos conflitantes, às vezes. A posição do Anonymous é a de que, quando há um conflito de interesses entre o governo e as pessoas, é a vontade do povo que deve prevalecer. A única ameaça que a transparência oferece aos governos é a ameaça da capacidade de os governos agirem de uma forma que as pessoas discordariam, sem ter que arcar com as consequências democráticas e a responsabilização por tal comportamento.

Seu próprio relatório cita um perfeito exemplo disso, o ataque do Anonymous à HBGary (empresa de tecnologia ligada ao governo norte-americano). Se a HBGary estava agindo em nome da segurança ou do ganho militar é irrelevante – suas ações foram ilegais e moralmente repreensíveis. O Anonymous não aceita que o governo e/ou  os militares tenham o direito de estar acima da lei e de usar o falso clichê da ‘segurança nacional’ para justificar atividades ilegais e enganosas. Se o governo deve quebrar as leis, ele deve também estar disposto a aceitar as consequências democráticas disso nas urnas. Nós não aceitamos o atual status quo em que um governo pode contar uma história para o povo e outra em particular. Desonestidade e sigilo comprometem completamente o conceito de auto governo. Como as pessoas podem julgar em quem votar se elas não estiverem completamente conscientes de quais políticas os políticos estão realmente seguindo?

Quando um governo é eleito, ele se diz ‘representante’ da nação que governa. Isso significa, essencialmente, que as ações de um governo não são as ações das pessoas do governo, mas que são ações tomadas em nome de cada cidadão daquele país. É inaceitável uma situação em que as pessoas estão, em muitos casos, totalmente não cientes do que está sendo dito e feito em seu nome – por trás de portas fechadas.

Anonymous e Wikileaks são entidades distintas. As ações do Anonymous não tiveram ajuda nem foram requisitadas pelo WikiLeaks. No entanto, Anonymous e WikiLeaks compartilham um atributo comum: eles não são uma ameaça a organização alguma – a menos que tal organização esteja fazendo alguma coisa errada e tentando fugir dela.

Nós não desejamos ameaçar o jeito de viver de ninguém. Nós não desejamos ditar nada a ninguém. Nós não desejamos aterrorizar qualquer nação.

Nós apenas queremos tirar o poder investido e dá-lo de volta ao povo – que, em uma democracia, nunca deveria ter perdido isso, em primeiro lugar.

O governo faz a lei. Isso não dá a eles o direito de violá-las. Se o governo não estava fazendo nada clandestinamente ou ilegal, não haveria nada ‘embaraçoso’ sobre as revelações do WikiLeaks, nem deveria haver um escândalo vindo da HBGary. Os escândalos resultantes não foram um resultado das revelações do Anonymous ou  do WikiLeaks, eles foram um resultado do conteúdo dessas revelações. E a responsabilidade pelo conteúdo deve recair somente na porta dos políticos que, como qualquer entidade corrupta, ingenuinamente acreditam que estão acima da lei e que não seriam pegos.

Muitos comentários do governo e das empresas estão sendo dedicados a “como eles podem evitar tais vazamentos no futuro”. Tais recomendações vão desde melhorar a segurança, até baixar os níveis de autorização de acesso a informações; desde de penas mais duras para os denunciantes, até a censura à imprensa.

Nossa mensagem é simples: não mintam para o povo e vocês não terão que se preocupar sobre suas mentiras serem expostas. Não façam acordos corruptos que vocês não terão que se preocupar sobre sua corrupção sendo desnudada. Não violem as regras e vocês não terão que se preocupar com os apuros que enfrentarão por causa disso.

Não tentem consertar suas duas caras escondendo uma delas. Em vez disso, tentem ter só um rosto – um honesto, aberto e democrático.

Vocês sabem que vocês não nos temem porque somos uma ameaça para a sociedade. Vocês nos temem porque nós somos uma ameaça à hierarquia estabelecida. O Anonymous vem provando nos últimos que uma hierarquia não é necessária para se atingir o progresso – talvez o que vocês realmente temam em nós seja a percepção de sua própria irrelevância em uma era em que a dependência em vocês foi superada. Seu verdadeiro terror não está em um coletivo de ativistas, mas no fato de que vocês e tudo aquilo que vocês defendem, pelas mudanças e pelo avanço da tecnologia, são, agora, necessidades excedentes.

Finalmente, não cometam o erro de desafiar o Anonymous. Não cometam o erro de acreditar que vocês podem cortar a cabeça de uma cobra decapitada. Se você corta uma cabeça da Hidra, dez outras cabeças irão crescer em seu lugar. Se você cortar um Anon, dez outros irão se juntar a nós por pura raiva de vocês atropelarem quem se coloca contra vocês.

Sua única chance de enfrentar o movimento que une todos nós é aceitá-lo. Esse não é mais o seu mundo. É nosso mundo – o mundo do povo.

Somos o Anonymous.

Somos uma legião.

Não perdoamos.

Não esquecemos.

Esperem por nós…”

Crédito das Imagens: 1, video, 2, 3.

[Marcelo De Franceschi]

Anais da Contracultura (1): Os Provos da Venturosa Amsterdam

Dando início a mais uma sessão inconclusa do BaixaCultura, falamos agora de alguns interessantes causos (a maioria pré-digital) contraculturais que surgiram mundo afora no ruidoso século passado (XX) que ajudaram a humanidade ser um pouco menos careta.

Não poderíamos deixar de começar pelo Provos, um “movimento” que surgiu na Holanda da década de 1960 e é, em muitos aspectos, precursor e inspirador do famoso Maio de 68 na França (tema de um próximo texto, quem sabe) e da cultura hippie que se alastrou no final da década de 1960 e início de 1970. Nas palavras de Matteo Guarnaccia em seu livro Provos – Amsterdam e o nascimento da contracultura, lançado pela Conrad pela famosa coleção Baderna (e que serve de base pra esse post), “juntamente com os Beatles, Allen Ginsberg e Bob Dylan, os Provos foram um dos elementos decisivos daquela estranha operação de alquimia que, por volta da metade dos anos 60, produziu uma deflagração de consciências“.

Se são tão importantes assim, tu deve estar se perguntando como que (provavelmente) nunca ouviu falar deles. Nós de pronto te respondemos que a culpa é do idioma, o pouco disseminado holandês, língua em que a maioria dos registros do movimento foram deixados – salvo raríssimas publicações em inglês. A única publicação de fôlego (em português) que temos conhecimento sobre os Provos é o livro de Matteo Guarnaccia.

PROVOS?

O nome “Provos” vem da abreviação de provokatie (provocação em holandês). O “movimento” Provos, se é que podemos chamá-lo de “movimento”, nasce da apatia em que um mundo imerso na sociedade de consumo pode provocar em seus habitantes. O excesso de conforto, de segurança e o amplo acesso aos bens de consumo na Holanda da década de 1960 deixava tudo muito chato, careta, sem graça, conformado. Na busca eterna do graal anti-marasmo, alguns jovens holandeses, herdeiros bastardos da tradição anarquista, passaram a fazer o que lhes parecia mais interessante no momento: provocar. Provocar a sociedade de consumo, o poder civil organizado, a apatia das pessoas perante aos meios de massa. Provocar.

A partir dessa insatisfação contra um suposto “nada”, manifestações espontâneas e isoladas de performáticos contestadores da indústria e da propaganda começaram a “pipocar” aqui e ali na venturosa Amsterdam, que por ser um lugar mais do que especial merece um tópico a parte.

AMSTERDAM

Não é novidade que Amsterdam sempre foi visto como uma cidade de vanguarda, representante da exceção, durante séculos acolhida de ideias e pessoas não convencionais – de judeus foragidos da Península Ibérica (entre os quais, a comunidade de origem do filósofo Spinoza) aos huguenotes franceses, brigados com a maioria católica na França dos séculos XVI e XVII – e morada estilos de vida francamente liberais e anti-militaristas. Guarnaccia nos conta que encontrar um acordo sobre um modo de convivência para melhorar o próprio estilo de vida foi, desde sempre, uma necessidade dos moradores daquele aglomerado que foi se desenvolvendo ao redor de um dique (dam, em holandês) no Rio Amstel, sempre sujeito à inundações e sem qualquer barreira natural de defesa. A população teve que, literalmente,”sair do pântano”, o que demandou uma relativa criatividade de sua população para a busca de um bem-estar social.

Essa, digamos, criatividade natural do povo de Amsterdam, somado à atitude de abertura à ideias e pessoas extravagantes, tornou a cidade (a única capital do governo a não ser sede do governo, que se localiza em Haia) particularmente turbulenta, resistente ao poder de quem fosse e cenário propício para o surgimento de formas criativas e radicais de protesto/provocação, como os happenings do próximo tópico.

HAPPENINGS!

Desde o início da década de 1960, diferentes movimentos contrários a ordem social conviviam em Amsterdam: os Nozems, conhecidos como vândalos dos bairros populares ao redor do porto da cidade, um dos maiores do mundo; jovens anarquistas, ansiosos em se rebelar contra algo; os Pleiners, uma cambada que se vestia de preto e que buscava no jazz, na filosofia e na arte novas formas de ver o mundo, possuindo um gosto particular pela cultura francesa; além de “toda aquela fauna formada por artistas, exibicionistas, beatniks, estudantes que largaram a escola, marginalizados felizes, degustadores de LSD, sonhadores, vagabundos e poetas, que desde sempre constituem o ingrediente básico de toda revolução“, como diz Guarnaccia no livro.

Um tipo particular – e à época recém começado a ser chamado por este nome – de manifestação artística passou a ganhar a atenção de todos eles: o happening. [De forma muito didática e simplória, podemos dizer que o Happening é uma forma de fundir a arte com a vida diária, uma manifestação artística que pega elementos das artes visuais, das artes cênicas e da performance para criar situações artísticas em ambientes cotidianos como praças, ruas, parques, etc.]. Um desses muito “desocupados-artistas-exibicionistas”, Robert Jasper Grootveld (na foto abaixo), passa a liderar uma serie de happenings, se tornando o “mago” dos Provos e um dos pai bastardos de boa parta das revoluções acontecidas na década de 1960.

A primeira e mirabolante ideia de Grootveld é criar um templo antifumo, a Igreja da Dependência Consciente da Nicotina, onde passou a trabalhar em happenings contra o vício inconsequente da nicotina. Um exemplo: dezenas de “fiéis” entoava o mantra “cof, cof, cof, cof” pelo tempo e ruas próximas. Outro exemplo: Grootveld sai a pichar outdoors e cartazes com um “k” negro, inicial da palavra kanker (câncer). Mais um: o mesmo Grootveld sai pelas ruas de Amsterdam pedindo cigarro a todos que encontra. Em vez de jogar fora ou algo do tipo, ele fuma todos cigarros que consegue, virando uma chaminé de nicotina ambulante. Objetivo: mostrar, através de seu próprio corpo, o mal que faz o cigarro.

Dá uma olhada nesse enxerto do documentário “It’s a happening (1966)”, onde Grootveld explica/confunde/mostra seu happening:

Com uma seita considerável de malucos à sua volta, o “mago” passa a liderar happenings que acontecem todo sábado, uma praça na Spui, ao redor da estátua de Lieverdje – obra do escultor Carel Kneuman, que representa um menino de rua –, doada para Amsterdã por uma indústria de tabaco (na foto abaixo). Grootveld pousa seus olhos nessa estátua e decide fazer ali, toda noite de sábado, seus rituais contra a pasmaceira geral: cerimônias que incluem dança, canto, teatro, jogos e discursos absurdos (frutos do movimento dadaísta), que terminam com uma imensa fogueira alimentada pelos curiosos e uma “congregação” de jovens.

Happening na Spui, centro de Amsterdam

Os encontros eram organizados sob o espanto geral da população e da polícia, que enxergava ali uma porção de baderneiros que deveria banir com truculência. Sempre que aparecia na Spui, a polícia era recebida com risos e dispersão; um dos “preceitos” nascentes dos Provos era a não-violência e a provocação, sempre mais importante que o revide.

Na Europa, já temos de tudo: televisão, liqüidificadores e motocicletas. Já que na China eles ainda não têm liqüidificadores, seu único objetivo é de os terem o quanto antes. Quanto chegamos a possuir tudo, eis que inesperadamente chega uma espécie de vazio”, Robert Jasper Grootveld

Das junções na Spui surgem outros “xamãs” anunciando mudanças – Roel Van Duijin, Rob Stolk e Luud Schimmelpenninck, que vão ser dos mais destacados líderes Provos.

PROVOS EM AÇÃO

As milhares de pessoas que se uniam em torno dos happenings de Grootveld passam a se reunir com cada vez mais frequência. A partir dessas reuniões, Roel Van Duijin e  Rob Stolk encabeçam a publicação de uma revista mensal, intitulada Provos – que começa como um panfleto colocado clandestinamente dentro de jornais conservadores, onde defendem uma conduta antisocial (contra o bem-estar holandês), o nomadismo, a arte, a ecologia, o fim da monarquia, dentre outras bandeiras. Através da publicação, os Provos conclamam os jovens a se unirem contra toda a sorte de alvos (carros, polícia, igreja, monarquia, sociedade de consumo, etc) e se colocam a favor do uso da bicicleta, da emancipação sexual, do homossexualismo, da maconha, do fim da propriedade privada e de qualquer forma de poder ou proibição.

As “bandeiras” provos dão origem aos Planos Brancos, uma série de textos veículados nas várias edições da revista Provos e que acabaram constituindo o grosso das ideias/ações do movimento para a cidade.  Alguns deles (ou todos) são extremamente avançados para o pensamento da época (e ainda para hoje), de modo que vale a pena resumir um pouco deles aqui abaixo:

_ Plano da Bicicleta Branca:
Iniciado por Schimmelpennick, o plano previa o fechamento do centro de Amsterdam para todos que andassem com veículos motorizados, incluindo motos. A ideia era fazer com que pelo menos 40% das pessoas usassem o transporte público da cidade. Táxis eram aceitos, desde que fossem movidos a eletricidade e que não passasem de 25 km/h. O plano previa a compra, pelo governo municipal,  de 20 mil bicicletas por ano, que deveriam ser espalhadas pela cidade para uso público. Como o plano não foi aceito pela prefeitura holandesa, o Provos resolveu tocar o plano à sua maneira; reuniram mais de 50 bicicletas, pintaram-as de branco e espalharam pela cidade. A polícia apreendeu as bicicletas, alegando que elas não podiam ser deixadas pelo município sem estar cadeadas, e as devolveu para os Provos, que buscaram uma solução criativa para o impasse: colocaram cadeados em cada uma e pintaram a combinação do cadeado em preto no corpo de cada bicicleta (como dá para ver na imagem acima desse parágrafo).

_ Plano do Cadáver Branco;
Propunha que, a cada morte por atropelamento em Amsterdam, o assassino em questão, sob escolta da polícia, deveria esculpir no asfalto os contornos de sua vítima com formão e martelo, numa profundidade de 3cm, e preencher o espaço com argamassa branca. Desse modo, diziam os Provos, “os outros aspirantes a assassinos tirarão o pé do acelerador por um instante, ao se aproximar do funesto local“.

_ Plano das Galinhas Brancas;

Buscava uma reorganização da polícia de Amsterdam e propunha a transformação do policial em um trabalhador social. Para isso, tinha como objetivos que  a) que a polícia andasse desarmada e de branco, b) que fosse submetida à Câmara de Veradores, e não à Prefeitura, c) que cada municipalidade tivesse o direito de escolher o Chefe de Polícia democraticamente. O nome”galinha” é usado porque era com esse termo (“kip“, em holandês) que os Provos se referiam aos policiais, tipo o “porco” usado para o mesmo fim no Rio Grande e acreditamos que em diversos estados do Brasil.

_ Plano das Chaminés Brancas;
Queria a cobrança de multa para quem poluísse o ar com substâncias radioativas e tóxicas e a construção obrigatória de incineradores, além da pintura de branco (é claro) das chaminés dos maiores poluídores.

_ Plano das Mulheres Brancas;
Exigia a criação de clínicas públicas que oferecessem, de grátis, conselhos e contraceptivos para mulheres a partir dos 16 anos. E argumentavam também, para o bem do controle populacional, que era imprescindível para a sociedade que as mulheres não casassem virgens, e sim que experimentassem bem antes de casar e ter filhos.

_ Plano das Moradias Brancas;
Propunham que o Estado interviesse na especulação imobiliária, freando-a, e que os prédios desocupados – enquanto estivessem na espera de algum ação de seus donos ou mesmo do poder público – fossem disponibilizados gratuitamente para habitação temporária de quem precisasse.

JOGO BOM É JOGO RÁPIDO

Material da Campanha Provos para a Câmara de Amsterdam

A partir do crescente sucesso da ação do movimento – particularmente depois do casamento real da princesa Beatriz e do ex-nazista Claus von Amsberg, em 10 de março de 1966, onde os Provos, com suas bombas de fumaça branca, tomaram a dianteira dos protestos –  o movimento deixou de ser “underground” e tiveram suas idéias assimiladas por grande parte da população holandesa. Dentro do movimento, articulou-se a criação de um partido político, cujos líderes seriam alguns dos dirigentes da organização, que acabam candidatos para a Câmara de Vereadores de Amsterdam, numa campanha que é puro Provos, com sutiãs & janelas pintados com o número 12 da chapa, decorações natalinas disfarçadas de propaganda, esculturas florescentes e bonecos coloridos divulgando o “12”. Mesmo com tamanho jogo anti-político, e atrapalhados pelo fato de que só maioires de 23 anos votavam na Holanda da época, os Provos conquistam 2,5% dos votos e conquistam uma cadeira.

De Vries (de branco), o galã Provo que virou vereador

Bernad De Vries (na foto, à direita) é o escolhido. Seu comportamento na câmara é exemplar: veste-se sempre de branco, ocasionalmente pintando o rosto e as mãos da mesma cor, anda sempre descalço e inicia suas falas com um sonoro arroto. É  prova de que os Provos não estavam interessados e/ou não sabiam o que fazer com o poder. A partir das eleições e da desistência da vida política por De Vries (que vai tentar ser galã de cinema, onde teve poucas chances), ocorreram divisões no movimento e os líderes acabaram optando pelo seu fim. Sob a alegação de que os Provos eram “um grande choque” enquanto eram considerados anti-sociais, porém, assim que o sistema começou a acolhê-los, seu real significado dissipara-se, o grupo optou pela dissolução.

Mas, como bons provocadores que eram, sua despedida não passaria em “branco”. Foi espalhado um Boato Branco, dizendo que as universidades americanas tinham interesse em adquirir os “arquivos provo“, documentos que na verdade não existiam. A Universidade de Amsterdam, temendo que o “tesouro sociológico” (basicamente uma caixa de papelão com todos os números de Provo) pudesse desaparecer além mar, rapidamente fez uma oferta que os provos não poderiam recusar. E assim, tão rápido quando surgiu, dissipou-se o movimento Provo.

REPERCUSSÃO

Segundo Guarnaccia, a Revolta Provo – que durou efêmeros 2 anos, de 1965 a 1967 – foi o primeiro movimento em que os jovens, como grupo social independente, tentaram influenciar a política, fazendo-o de modo absolutamente original, sem propor ideologias, mas um novo e generoso estilo de vida anti-autoritário e ecológico. Caminhando contra a corrente do “cair fora” beat, pensavam em descaradamente permanecer “dentro” da sociedade, para provocar nela um curto-circuito”. À diferença do maio de 1968 na França, que queria levar a imaginação ao poder, o Provo utilizou a imaginação contra o poder ; semearam, por meio de imagens, as sementes de um novo modo de vida, um dos meios mais poderosos de influenciar pessoas.

Os Provos amam a vida, sua cidade, Amsterdam, e seus habitantes. Encenam exibições de tosse em massa contra os cigarros, o símbolo mais ‘evidente’ do consumidor sem escolhas, escravizado (…) agem contra a destruição de árvores e contra os jornais que fazem lavagem cerebral nas pessoas. Invadem os caminhões que transportam os rolso de papel para impressão e em seguida os desenrolam como tapetes nas ruas de trânsito mais intenso. (…)
Planejam uma cidade sem automóveis e propõem bindes gratuitos e a distribuição de 70 mil bicicletas ao dispor de todos os cidadãos. Querem que os agentes de polícia se tornem assistentes sociais e que no lugar de armas carreguem sacos brancos cheios de doces e frutas a serem distribuídos aos transeuntes”, San Francisco Oracle, Yes Provos, No Yankees (fac-símile, org. Allen Cohen, Regent Press, 1991)

Provo é uma imagem

Alguns projetos dos Provos vingaram e ainda hoje fazem parte da rotina de Amsterdam, como as bicicletas brancas e a liberalização da maconha. Além disso, os Provos tem muita cupla da cidade ser conhecida como “A cidade das bicicletas” e ter, em 2006, quase 500 mil bicicletas para uma população de pouco mais de 750 mil habitantes. O que parece permanecer, sobretudo, é semente de um outro modo de vida na sociedade holandesa, manifestada em falas como a desse artigo do conservador Telegraph, reproduzido no livro de Guarnaccia: “A sociedade holandesa nunca se recuperou das loucuras hippies, do flower power e das viagens para fora da realidade provocadas pela droga. Enquanto todas as sociedades ocidentais foram trazidas de volta à Terra, a sociedade holandesa ficou nas nuvens”.

Links
_ Além do livro de Guarnaccia, outra referência fundamental é esta matéria da revista High Times de janeiro de 1990, de Teu Voeten;
_ Colocamos o “Provos – Amsterdam e o nascimento da Contracultura”, de Matteo Guarnaccia, na nossa Biblioteca, em versão scaneada;


Agradecimentos
_ Aos textos do Gambiarre.org e do JorWikiUSP, do qual muitos parágrafos desse post foram inspirados e/ou plagiados;

Créditos das Fotos
International Institute of Social History (1, 2,5,7, 8, 10);
_ High Times (4, 6, 9);
_ Larqdesign (3);