Biblioteca do comum

bcomum divulga

Lançamos no início deste mês, a Biblioteca do Comum é uma biblioteca digital e de livre acesso sobre um conjunto de temas emergentes que apontam para novos paradigmas sociais, mais participativos, ecológicos e organizados de baixo para cima. Desenvolvida na plataforma livre Omeka, ela pode reunir materiais de diferentes formato de texto, áudio e vídeo como livros, revistas, fanzines, artigos, teses e dissertações, entrevistas, quadrinhos e filmes relacionados a Agricultura Urbana, Arte e Tecnologia, Bens Comuns, Ciência Cidadã, Cultura Livre, Economia Colaborativa, Educação Expandida, Participação Digital, Tecnologias Sociais, entre outros afins.

Ela nasce da fusão das bibliotecas do Instituto Intersaber e do Baixa Cultura com o objetivo de se constituir como um grande bem comum de conhecimentos para inspirar e fomentar a consciência pública para mudanças sociais e construção de novas institucionalidades, assim como praticar uma experiência de gestão coletiva de recursos compartilhados. Para tanto, ela mantém um chamamento permanente para organizações e pessoas que compartilham da generosidade intelectual e da defesa do livre acesso ao conhecimento a se juntarem com suas bibliotecas e materiais correspondentes a este escopo temático.

bcomumlogo

Bens Comuns de Conhecimento

Uma importante particularidade dos bens comuns de conhecimento é a de serem abundantes, isto é, nunca se esgotam pela quantidade de seu uso, mas, pelo contrário, podem ainda se multiplicar. Diferente dos bens comuns naturais que são escassos e necessitam de maior controle no seu uso para que não venham a faltar a quem deles extraia seu sustento. Se o material compartilhado é um arquivo digital, muitas pessoas podem acessá-lo, visualizá-lo e copiá-lo simultaneamente sem degrada-lo ou privar outros de fazer o mesmo. A Wikipédia é a maior realização nesse sentido e um produto da Internet. Por isso, defendemos o livre acesso ao conhecimento quando este trata de questões de interesse coletivo como o é o caso do conhecimento científico. O cercamento e bloqueio do acesso a esse bem comum por meio da propriedade intelectual cria uma escassez artificial que visa o oligopólio da capacidade de inovação àqueles que podem pagar.

Este oligopólio do conhecimento impõe pesadas sanções jurídicas para quem desafia seus propósitos como as que levou a morte o ativista do livre acesso ao conhecimento Aaron Swartz, autor do manifesto Guerrilla Open Access, após ele abrir na rede o acervo fechado da JSTOR, o maior sistema online de arquivamento de periódicos acadêmicos. Também não podemos esquecer o blog Livros de Humanas que compartilhava gratuitamente milhares de edições brasileiras de importantes livros de literatura, filosofia e ciências humanas e foi fechado em 2012 após ação movida pela ABDR – Associação Brasileira de Direitos Reprográficos.

Mas longe de conter tais iniciativas, estas censuras acabam por estimular a criação de novas experiências mais ousadas como é o caso da Sci-Hub e Library Genesis. Além disso, cresce mundialmente o movimento Open Access, reunindo inúmeros cientistas, pesquisadores, entidades e seus projetos de democratização do conhecimento. O conceito de Recursos Educacionais Abertos (REA) impulsionado pela UNESCO também faz parte desse movimento global. Importante também ressaltar como referência para nossa iniciativa a Digital Library Of the Commons, a maior biblioteca digital sobre bens comuns, criada ao longo de muitos anos por Elinor Ostrom e seu marido Vincent Ostrom em seu departamento de pesquisas na Universidade de Indiana.

A proposta da Biblioteca do Comum se insere no campo dessas iniciativas que visam remover essas barreiras de acesso para aprofundar uma comunidade de conhecimentos transdisciplinar, baseada numa interconectividade global sem hierarquias. Acreditamos que ela pode ser um meio fundamental para a resolução dos problemas de diversas matizes que consternam as sociedades e o planeta.

Diversidade de Pensamentos e Intercâmbios

Os conteúdos da Biblioteca do Comum concentram-se especialmente à uma produção iberoamericana, mas não exclusivamente. Com isso, visa possibilitar intercâmbios de trabalhos com distintas abordagens e enfoques sobre um mesmo assunto, conforme os variados contextos nacionais e culturais ou de grupos de pesquisa.

Ao mostrar as diferentes abordagens sobre estes assuntos em diferentes países, a partir dos contextos específicos existentes em cada um, queremos destacar que saberes e conhecimentos não são homogêneos e tampouco neutros e sublinhar as reciprocidades entre as preocupações teóricas e práticas dos cientistas e agentes sociais e suas condições de existência social.

Diferentes interpretações da realidade e dos fenômenos podem provir de uma multiplicidade de formas e se nutrirem de diferentes fontes. Há o conhecimento da ciência, da arte e da religião, todas elas subdivididas em muitos tipos como são as disciplinas científicas, as linguagens e movimento artísticos, e as crenças religiosas, cada uma com perspectivas e enfoques próprios. Além disso, se considerarmos que os saberes e conhecimentos partem da experiência, enquanto reconstrução mental dos estímulos que recebemos do mundo exterior, então reconhecemos que também são estruturados pelas condições locais, culturais, tecnológicas, de classe, de gênero, de época e mesmo subjetivas de indivíduos únicos que tem uma experiência única no mundo. Tudo isso forma uma pluralidade de camadas de saberes e conhecimentos que podem ser complementares ou antagônicas, que se ajustam reciprocamente, entram em conflitos e disputam hegemonia. Um tal entendimento deve servir para manter um pensamento crítico e ao mesmo tempo uma consciência ampliada da realidade.

Por meio da Biblioteca do Comum, alguém que tenha interesse ou esteja pesquisando sobre agricultura urbana ou economia colaborativa, por exemplo, pode encontrar o que se produz em diferentes países, sobretudo iberoamericanos, e por diferentes grupos de pesquisa. E, assim, conhecer as várias possibilidades de abordagens e tendências.

omeka

Plataforma e Licenças Livres

A Biblioteca do Comum utiliza a plataforma de código aberto Omeka, destinada ao desenvolvimento de bibliotecas virtuais, que funciona analogamente a um blog, dispõe de uma variedade de interfaces e pode ser facilmente manuseada.

Nossa plataforma utiliza o tema Avantgarde, que foi customizado pelo Instituto Intersaber. Adotamos como licença deste trabalho sobre a plataforma a Peer Production License, um tipo de licença Copyfair em que apenas comunitários, cooperativas e organizações sem-fins lucrativos podem compartilhar e reutilizar, não entidades comerciais com intenção de lucro.

Os materiais disponíveis podem apresentar diferentes licenças abertas. Desde o domínio público, totalmente livre, ou uma variedade de outras como as combinações entre permissões e restrições das licenças Creative Commons, entre tantas licenças existentes.

biblioteca digital e de livre acesso, organizada de forma coletiva. Ela está voltada para um conjunto de temas em torno do “comum” hoje: cultura livre, participação digital, agricultura urbana, ciência cidadã, bens comuns, educação expandida, tecnologias sociais.

(e aguarde que nas próximas semanas o BaixaCultura tem mais outras novidades!)

 

Resistência hacker em tempos de retrocessos

crypto3

Nos dias 6 e 7 de maio de 2017 ocorreu em São Paulo a 4º edição da CryptoRave, mais importante encontro brasileiro sobre segurança, criptografia, hacking, anonimato, privacidade e liberdade na rede. Inspirada na ação global e descentralizada da CryptoParty, a Crypto no Brasil é organizada por diversos coletivos – Escola de Ativismo, Saravá, Actantes, Encripta e Intervozes – e financiada por crowdfunding, via Catarse. Neste ano, a captação foi um pouco mais díficil do que nos últimos, com a meta sendo batida nos últimos dias e R$69.605 arrecadados para a produção do evento. O local escolhido foi a Casa do Povo, centro cultural no bairro do Bom Retiro, e não mais o Centro Cultural São Paulo como nas edições de 2015 e 2016.

A mudança de local, seja por questões financeiras, políticas ou outras não apuradas, trouxe ao evento um ar mais underground – mais hacker, alguém poderia dizer. Não se trata mais de um dos principais centros culturais da cidade, colado no metrô da linha azul, com diversas outras atividades e pessoas circulando como o CCSP: estamos falando de um centro cultural fundado por imigrantes judeus do leste europeu, um dos primeiros criados por imigrantes no Brasil, sediado no coração do Bom Retiro, bairro de ampla diversidade cultural (gregos, bolivianos, coreanos, judeus, entre outros), menos conhecido do circuito Paulista-Pinheiros-Faria Lima dos eventos de tecnologia em SP. A mudança escancara o que talvez seja conhecido de tod@s: a Cryptorave é um evento político, sobretudo de resistência tecnológica. E também ilustra o tamanho que o evento, em sua 4º edição, ganhou: durante a sexta e o sábado, um prédio amplo de quatro andares foi ocupado praticamente de modo exclusivo com pessoas a discutir tecnologia, política, segurança da informação, criptografia, entre outros vários tópicos correlatos destes. Se o cenário global não é favorável, a resistência parece angariar cada vez mais gente.

A fala de abertura deu uma amostra dessa posição política do evento: trouxe como palestrante James Bamford, jornalista e escritor dos EUA especializado em cobertura dos casos da NSA – a New Yorker o chamou de “cronista-chefe” da NSA neste perfil publicado em junho de 2013. Para uma plateia atenta e diversa, Bamford mostrou as diversas formas que a NSA espiona as informações que circulam na rede, trazendo imagens dos lugares físicos que isso acontece – o que nos faz lembrar que a internet é uma rede física, formada de cabos, roteadores, data-centers e outros espaços por onde as informações que cá circulam passam. Ele citou dois lugares por onde a NSA pode interceptar informações da rede: o NAP Barueri, talvez o mais importante Ponto de Troca de Tráfego (PTT) brasileiro, um local que interliga diversas redes de computadores, constituído de um datacenter que interliga os equipamentos de comunicação dos diversos provedores de internet existentes aqui; e o NAP America, um gigantesco conglomerado de 32 quadras de armazenamento de dados em Miami, espaço por onde passa a maior parte das informações que circulam na internet da América Latina para os EUA – Facebook, Google, Apple e outros serviços são dos EUA, vale lembrar. O brasileiro é um dos diversos pontos mundiais administrados pela Verizon, gigante de serviços de internet (dos EUA), enquanto que o NAP de Miami da Equinix. Será que estas estas empresas protegem os dados que lá circulam quando uma agência com o poderio da NSA está disposta a tudo para caçar whisteblowers como Snowden? É uma boa pergunta a se fazer, que o próprio Bamford já respondeu neste longo relato na Wired: não.

Bamford falou também sobre a iniciativa brasileira de construir um cabo submarino para que o tráfego de dados do país siga direto para a Europa sem ter que passar pelos Estados Unidos — a primeira obra deste tipo e sem contar com a participação estadunidense. Apesar de elogiar a iniciativa, o jornalista destacou que os EUA possuem um submarino que pode interceptar a captação de dados no meio do oceano, além de fazer acordos com outros países para obter tal interceptação em outra ponta. Com isso, ele quis frisar que o país deve fazer a inspeção do cabo de ponta a ponta, para tentar evitar espionagens, segundo relato publicado pelo Intervozes, um dos organizadores da Crypto deste ano.

Após a fala de abertura, as atividades se concentraram no 1º andar do prédio, onde lojinhas (dos produtos da própria Crypto, de livros de computação, de editoras anarquistas – do qual compramos uma edição artesanal comentada do clássico da filósofa/antropóloga Donna Haraway, na imagem acima), e comes/bebes garantiam a energia para conversas e algumas oficinas espontâneas que ocorreriam por ali durante a madrugada. O Baer Mate, sem gosto de ilex paraguiensis mas com muita cafeína, foi o combustível que deixou acordados hackers e outros cryptopunks corajosos que vararam a madrugada; o Preto Café, espaço baseado no centro de SP, fez uma versão para o evento mostrando todo seus custos de forma transparente, no esquema “pague quanto acha que vale”; outras comidas (opções vegetarianas/veganas costumam existir em quantidades em eventos de hackers, e aqui não foi exceção) e até uma cerveja artesanal com mate fizeram do hall do 1º andar o espaço mais frequentado durante toda a sexta e o sábado.

 

crypto5

O segundo dia de CryptoRave começou com a mesa “Resistindo à distopia – Práticas para dialogar com não especialistas”, com a mexicana Lili Anaz, pesquisadora e ativista em auto-defesa na web e desenvolvedora de tecnologias livres com perspectiva hackfeminista, no âmbito do Laboratório de Interconectividades, e Sasha Constanza-Chock, que leciona Mídia Civil no MIT, nos Estados Unidos, e publicou recentemente o livro “Out of the Shadows, Into the Streets! Transmedia Organizing and the Immigrant Rights Movement“. A mesa trouxe pra discussão um tema muito frequente pra quem fala de segurança da informação e criptografia, a saber: se estamos todos sendo espionados a todo momento pela NSA, empresas de internet e governos, como resistir?  Lili, por exemplo, vê a arte como uma saída possível para a resistência, e desenvolve projetos nessa linha, como o Mirada Sostenidas, projeto artístico transmídia que lembra e dialoga com vítimas de tortura sexual cometida por agentes do governo mexicano, caso denunciado no final de 2016 na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Sasha falou de alguns de seus projetos, como as DiscoTech, oficinas livres, abertas e multissetoriais para pessoas explorarem, compartilharem e discutirem experiências com vigilância,e o Bedtimes Stories, excelente projeto muiltimídia que conta as histórias de imigrantes detidos pelo governo dos EUA. A mesa pode ser assistida no canal da TV Drone no YouTube.

Mas o que mais podemos fazer? Lili, que também já fez parte do coletivo Astrovandalistas, disse, em uma entrevista à MotherBoard Brasil que, num primeiro nível, “podemos gerar consciência crítica com as tecnologias que mediam a nossa noção de mundo e, com isso, mudar como nos comunicamos, como nos organizamos”. Ela acredita que, se vamos repensar as infraestruturas, “não devemos nos limitar apenas a repensar ou não uma tecnologia apenas. Temos que repensar por quais estruturas estamos passando para retomar nossas vidas.. O hacking, então, entraria como uma possibilidade de criação, que tem a ver com processos artísticos e outras formas de experienciar linguagem, não necessariamente ligadas à computação, e com possibilidades de gerar espaços de experimentação, subverter as linguagens e as relações. “Hacking tem muito mais a ver com essa intervenção que é extremamente política, no sentido de posicionamento. Um compromisso com o que se quer transformar”, afirma Lili.

photo4965255311602591676

A partir das 11h, as múltiplas atividades paralelas nos 6 espaços trouxeram debates em torno de diversos temas. Assistimos nesse horário uma fala sobre design (in) seguro no espaço Alan Turing, com as designers Virgínia Stefanello e Patrícia Estevão. O embate de interface amigável X autonomia do usuário/privacidade é um assunto bastante presente em quem fala de segurança da informação, já que a popularização da privacidade na internet passa por um design mais fácil das ferramentas. Mas como facilitar sem tirar a autonomia do usuário? Como ensinar alguém a criptografar um e-mail sem passar por noções básicas de PGP e chaves? A discussão sobre popularização de princípios básicos de segurança da informação parece passar pelo design – e talvez por isso também havia pela Crypto um dos desenvolvedores do Tails, sistema operacional dos mais seguros existentes hoje, conversando com alguns usuários de modo a melhorar a usabilidade do sistema operacional. Outro SO indicado na mesa foi o Qube OS, que, além de ser de código aberto, tem uma interface amigável e permite níveis crescentes de autonomia, de acordo com o interesse de cada usuário. As duas designers sugeriram, ao final de suas falas, boas práticas para um design seguro, como por exemplo criar uma configuração default que represente a melhor situação de segurança e privacidade caso o usuário não mexa nela e combinar a maneira mais fácil de fazer uma tarefa dando o mínimo de autoridade (acesso ou recurso que o usuário pode controlar).

crypto4

Às 13h, Sérgio Amadeu, um dos mais atuantes e conhecidos ativistas pela liberdade na rede no país, trouxe em sua fala a infraestrutura de espionagem brasileira. Ele apresentou um breve histórico dos serviços secretos brasileiros e mostrou a intensificação do trabalho de vigilância na rede nos últimos anos. Pra uma sala que foi lotando na medida em que Sérgio inflamava mais seu discurso, contou que, hoje, são 31 serviços de inteligência estaduais no Brasil que fazem parte do sistema de espionagem brasileiro, juntamente com os orgãos nacionais Polícia Federal, Ministério Público e ABIN. Essa última, a partir das manifestações de junho de 2013 e especialmente com Temer, voltou ao lema da época da ditadura: o inimigo é interno. E aí tome vigilância em tudo e tod@s, com apoio e parceria dos EUA – Amadeu mostrou que o exército dos EUA voltou a fazer operações na Amazônia depois de quase 40 anos, a convite de Temer. A fala terminou com Sérgio apontando que, na verdade, o inimigo é os EUA, e que tanto a polícia e o exército sabem disso, mas não querem ver: tratam como inimigo as pessoas comuns, vigiando-as sem dó em aparatos cada vez mais complexos e caros – não por acaso, boa parte deles comprados dos EUA…

Após uma breve parada para o almoço, com uma feijoada vegana honesta a R$12, seguimos flanando pelos andares da Casa do Povo, e entre conversas rápidas e múltiplas com desconhecidos e amigos, paramos brevemente na mesa de Andrew Fischman, jornalista do Intercept Brasil, e Joana Varon, da Coding Rights, sobre o papel do jornalismo investigativo num mundo vigiado. O jornalista afirmou que falar que “nada adiantou” com as denúncias dos whisteblowers como Snowden ajuda a construir a ideia de que criptografia não nos protege, o que não é bem assim: se ela não nos protege totalmente (e ninguém está protegido totalmente de nada!), pelo menos ela dificulta. Joana apresentou alguns dos trabalhos produzidos pela sua organização, que busca mudar a narrativa sobre privacidade no dia a dia com iniciativas como Chupa Dados, um especial multimídia que explica como o funcionamento de aplicativos e outras tecnologias que usam nossos dados têm impacto – às vezes, negativo – nas nossas vidas. Também apresentou em primeira mão uma infografia sobre o aumento de vigilância em grandes eventos no Brasil, o Legado Vigilante. Vale também conhecer outros projetos da Coding Rights, como a Oficina de Antivigilância e o Safer Nudes.

No fim de tarde, caímos na laje, onde ocorreu uma roda de debate sobre uma das fronteiras mais importantes do ativismo digital hoje, as redes livres. Bruno Vianna falou sobre a Coolab, uma cooperativa formada no início deste ano que tem por objetivo fomentar as infraestruturas autônomas, através da capacitação técnica e ativação comunitária. Contou da chamada pública da rede, que a partir de um financiamento de 30 mil dólares obtido no Desafio Equal Rating, da Mozilla, quer montar redes e provedores comunitários Brasil afora. A gurizada da Casa dos Meninos, na extrema zona sul de São Paulo, é um dos grupos que estava presente na conversa e já tem uma rede livre faz alguns anos, chamada de Base Comum de Conhecimento Cidadão. É um sistema que foi construído a partir de sinal de antenas numa área próxima a 1 km, e que fornece um rede interna para diversas troca de informações na comunidade. A Artigo 19 esteve representada na roda por Laura Tresca, que comentou um pouco do trabalho que a organização tem feito em prol das redes livres – como esse excelente guia de como montar e regularizar um provedor comunitário.

Havia mais pessoas na mesa, houve mais debates, e conversas, mas como dá pra perceber, nem tudo consegue ser registrado. Depois do encerramento do evento, longe da Casa do Povo, no bairro central do Bixiga, ainda houve a parte “Rave” do evento, no Al Janiah, bar onde trabalham diversos refugiados e que tem se tornado espaço de resistência, em especial da esquerda paulistana. A Crypto encerrou com rock, eletrônico, kebabs, schwarmas, falafel, araques, cachaças, sambas, húmus: eclética.

Fotos: 1 (Rafael Zanatta), 2, 6, 9, 11, 12, 13, 14 (Cryptorave), 3, 4, 5, 7, 8, 10, 16, 17, 18 (BaixaCultura).

Percorrendo um LAB.Irinto

13131195_800969423368027_3003901014216679001_o

1. Laboratório é um espaço de experimentação de qualquer coisa, inclusive de sociedades. Inovação social é o processo de criação de metodologias, tecnologias, projetos e ações que têm como objetivo transformar a realidade a fim de alcançar maior inclusão social, por meio da redução da desigualdade e da defesa dos bens comuns. Cultura livre é uma perspectiva da cultura baseada nos princípios de liberdade do software livre que, principal de tudo, é a favor do compartilhar e não do restringir. Guarde bem a definição dessas três ideias e retome mentalmente quando precisar ao ler este relato.

2. Muita coisa aconteceu nestes dias, tantas ideias piscaram, desapareceram, foram anotadas e se perderam no inconsciente pra quem sabe voltarem mais adiante. Segue abaixo um relato recortado e resumido disso tudo.

3. Estamos falando de um Encontro de Inovação Cidadã e Cultura Livre, um “processo de debates, trocas de experiências e articulação internacional entre criadores da Baixada Santista, do Brasil e do mundo”, como diz o site do evento, que tem ocorrido desde abril de 2016 e teve na semana passada o seu encerramento, com dois dias de trocas de experiência, cocriação e um seminário internacional que subsidiou a criação do LABxS (Lab Santista), um laboratório de cultura livre e inovação cidadã. Quem organizou o evento foi o Instituto Procomum, por enquanto uma associação, também recém iniciada a partir do projeto Tecnologias e Alternativas, com a intenção de investigar as condições de desenvolver novas institucionalidades e uma interface para viabilizar ações de uma plataforma de pessoas que a ele queiram se associar.  O financiamento do evento veio da Fundação Ford, da Prefeitura de Santos, por meio da Secretaria de Desenvolvimento e Inovação, e da Secretaria Geral Ibero-Americana (SEGIB).

labpele

4. Antes do seminário teve dois dias (manhãs e tardes) de reuniões, conversas e compartilhamento de experiências entre os mais de 40 convidados de diferentes países. Houve divisões em GTs (Modelo de Negócio e Sustentabilidade, Programação e Conteúdo, Articulação e Rede, Gestão Institucional e Metodologias e Laboratórios e o Território de Atuação) e “conversas infinitas” que tinham entre os objetivos questionar a ideia do lab, subsidiar a concepção do LABxS e avançar na articulação internacional em torno da agenda de bens comuns. “Um jogo de colaboração e partilha, baseado nos conhecimentos que carregamos” escreveu Rodrigo Savazoni, articulador do evento e do LABxS junto a uma equipe grande (veja aqui) que não por acaso traz muitos participantes da experiência da Casa da Cultura Digital em São Paulo, um laboratório de vivências embrião/propulsor do Lab Santista (e de tantas outras coisas, como até este site/coletivo que vos escreve; este vídeo creio que talvez seja o melhor registro feito da CCD)

Entre os convidados, pessoas muito atuantes em labs ou em suas comunidades/redes/cultura digital do Brasil e do mundo, um foco especial em iniciativas da ibero-américa (Dardo Ceballos, do SANTALAB, ligado ao governo do estado de Santa Fé, Argentina; Paola Ricarte Quijano, OpenLabs, México; Raul Olivan, Zaragoza Activa, Espanha; Camilo Cantor, Colaboratório, Colômbia; Marcos García, MediaLab Prado, Espanha) e África (Muhammad Radwan, IceCairo, Egito e Nanjira Sambuli, Ihub, Nairóbi, Quênia). Não por acaso: estes LatinLabers, como Savazoni e outros (se) nomeiam, são partes também da Global Innovation Gathering, rede que tem forte presença africana e asiática e propõe a construção de uma rede de tecnologias desde o sul.

Tatiana Bazzicheli (Disruption Lab, de Berlin) é uma exceção do norte nessa rede. Curadora do Transmediale, um dos principais festivais de arte, cultura e inovação da Europa, pesquisadora e ativista, a italiana tem um trabalho importante na aproximação da arte com o hacktivismo e o mundo da inovação, como o livro “Networked Disruption: Rethinking Oppositions in Art, Hacktivism and the Business of Social Networking” (baixe aqui). E, no Disruption Lab, realiza eventos como o Deep Cables, uma série de conferências e rodas de conversa onde hackers, engenheiros, jornalistas investigativos, escritores, entre outros, buscaram entender como a Internet funciona e o papel preponderante que os cabos submarinos tem nessa infraestrutura física nem tão falada da rede. Temos que confessar: um laboratório de hacktivismo e arte com eventos tão interessantes como os que o Disruption organiza é o motivo de Tatiana ter ganho um parágrafo inteiro aqui.

Trasnware-300x294
5. O que é um lab? Raul Olivan, do La Colaboradorar e do Zaragoza Activa (um lab y rede social criado junto a prefeitura da cidade espanhola) resume no texto “Um lab é para a cidade o que poesia é para linguagem“: resolver o problema das pessoas. “Gerir o caos. Podemos tecer arquipélagos para começar, mas o objetivo deve ser o continente. É o não-modelo que se impõe, não por necessidade ou ausência de certezas, senão por desejo e como uma estratégia consciente. É o conjunto de valores, afetos, cuidados da rede que tece e compromete um LAB: TRANSWARE (imagem acima). A pulsão é transformar a sociedade (o ethos) com uma soma de ética hacker, sonho de riqueza generalizada e materialismo da 4º revolução industrial. Necessitamos dos hackers inside que abram a lata desde dentro do sistema, como faz o Hacklab da Câmara dos Deputados. Um LAB não pode ser uma abstração: ideologia não fertiliza a terra. A transparência é, provavelmente, mais importante que a horizontalidade”.

13442446_821998814598421_710226900638495221_o

6. O último dia do evento foi dedicado ao Seminário Internacional de Inovação Cidadã, realizado no amplo (750 lugares) teatro do Sesc Santos. Foram três mesas com convidados internacionais e um brasileiro mediando ou comentando ou relacionando o global com o local (glocal). A primeira mesa trouxe para o debate a questão do que é inovação cidadã a partir de quatro experiências, três internacionais e uma brasileira (Cíntia Mendonça, da Nuvem, que mediou). Marcos García apresentou o MediaLab Prado, referência mundial (e de muitos dos participantes) de laboratório de inovação cidadã e cultura digital. É um espaço alocado dentro de uma institucionalidade (Prefeitura de Madrid), mas que mesmo assim consegue promover inovação social para a comunidade e driblar algumas das dificuldades que uma instituição costuma ter para fomentar novidades. O amplo espaço do MediaLab Prado, localizado num antigo prédio de uma serraria belga no bairro de Las Letras, região central de Madrid, abriga e fomenta dehortas urbanas monitoradas por sensores a base da arduínos a makerspace colaborativo, de encontros de visualização de dados a produção de conhecimento colaborativo, passando por inúmeros seminários, cursos, exposições [este vídeo traduz em 1 minuto o que es o MediaLab Prado; vale assistir]. Qualquer pessoa pode propor uma ideia e tentar desenvolver ela (sempre em grupo) por lá, ainda que são as ferramentas que constroem (e fortalecem) comunidades as que ganham maior acolhida.

Paola Ricaurte Quijano trouxe uma outra configuração de laboratório, o OpenLabs, ligado a Universidade Tecnológica de Monterrey. Diferente em sua articulação, mas inspirado no modelo do MediaLab Prado e, sobretudo, na ideia de ser um espaço de transformação e de reconhecimento da inteligência distribuída, o OpenLabs é uma plataforma que quer abordar a complexidade do social a partir de princípios como abertura, experimentação, inclusão, participação e colaboração. Parece algo complexo ou carregado de um discurso pouco prático, mas saiba que tanto o OpenLabs como todos os outros labs presentes no evento são totalmente baseados na prática, no fazer do dia a dia com a comunidade onde estão inseridos. Dê uma olhada na convocatória deste ano do OpenLabs, “Ciudades que Aprenden“, e veja como funciona a sua metodologia.

A terceira experiência trazida foi o IceCairo, de Cairo, apresentado por Muhammad Radwan. O lab egípcio é parte de uma rede (que tem outros pontos na Etiópia e na Alemanha) que tem um enfoque na chamada “green tech innovation”, fomentando negócios sustentáveis. Mantém um espaço físico que funciona como co-working (característica comum de muitos labs, aliás) e, entre muitos projetos legais, destacamos o Hub in Box, um mergulho realizado em conjunto com outros Africa Labs e Impact Hubs de vários lugares do mundo na busca de identificar desafios e criar soluções sustentáveis para suas comunidades. Antes que você pergunte “mas qual a inovação que eles estão produzindo ao se reunir e discutir seus projetos?”, fazemos um alerta óbvio: assim como no LAB.Irinto, o processo é tão (ou mais) importante que o produto “inovador” criado. Encontros são essenciais, compartilhar é fundamental; o crescimento é coletivo. [Todas as três mesas do dia foram transmitidas e podem ser assistidas aqui].

7. As experiências brasileiras presentes no LAB.Irinto foram apresentadas no dia anterior ao seminário internacional. Lembramos de algumas de cabeça: a Produtora Colaborativa.PE e a rede das produtoras colaborativas (sobre a qual já falamos aqui) e o Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados (que também já falamos aqui). A Nuvem, um hacklab rural rural voltado ara experimentação, pesquisa e criação vinculada à tecnologia (arquitetura, comunicação, geração sustentável de energia) e sustentabilidade (corpo, ecologias, alimentação, cultivos) no interior do Rio de Janeiro. O Bela Lab, localizado junto ao Galpão Bela Maré, no Rio de Janeiro, fruto do projeto Gambiarra Favela Tech, residência artística-tecnológica realizada ano passado em parceria com o Observatório de Favelas e Olabi. Laboratório de Cidades Sensitivas (LabCEUs), projeto que promoveu ocupações de inovação social e tecnológica em laboratórios multimídias em cidades do interior brasileiro, realizado pela UFPE, por meio do InCiti – Pesquisa e Inovação para as Cidades, em parceria com o Ministério da Cultura. O Ponto de Cultura Caiçaras, em Cananéia, litoral sul de São Paulo, que promove o resgate do fandango caiçara, entre outras ações com a comunidade local. Karenin Branco, do makerspace Crie Aqui, de Santos. Casa Rizoma, ocupação cultural localizada em Santos.

trans

8. Um dos projetos brasileiros na noite do dia 23 de junho, no Museu Pelé, foi o Transformatéria, uma pesquisa sobre possíveis pontos de contato entre, de um lado, a cultura maker e o universo da fabricação digital, e de outro a longa herança da produção artesanal e dos ofícios manuais. Criado por Felipe Fonseca (que toca o Ubalab e o Tropixel, entre outras cousas, e que já quase perfilado por aqui) e sua esposa, Carolina Striemer, ele se relaciona com uma rede que deu seus primeiros passos no evento: Trasformatório. A ideia desta rede é articular projetos que tem em comum o costume de transformar coisas em outras coisas – com ferramentas, métodos, equipamentos, ou mesmo com as próprias mãos. Algo que não é makerspace nem fablab, “um espaço ou momento de encontro de corpos e mentes com a intenção de mexer, mudar, manipular coisas”. A conversa foi registrada em áudio, foto e GIF e está disponível nessa wiki do Ubalab. Aos interessados, há um grupo de emails.

Participamos do Transformatório também com o interesse manifestado a partir do apoio na realização do Café Reparo em Porto Alegre. Já havia (com licença plural, quem fala agora é Leonardo) participado de um encontro dos 6 realizados em São Paulo, inclusive relatado aqui, mas dessa vez ajudei a organizar um aqui na cidade onde vivo atualmente. Foi tão interessante que teremos outros. Um detalhe pessoal: diferente da maioria, cheguei ao reparo a partir da teoria e não da prática “fuçadora”: abrir as “caixas-pretas” e entender as redes que ali percorrem, nos termos da Teoria Ator-Rede capitaneada por Bruno Latour, Michel Callon, John Law e que tem sido a base da minha tese de doutorado, me fez ver o quão importante (e divertido!) é a gente entender minimamente os objetos que nos rodeiam. E pra isso nada melhor que fuçar, reparar, consertar, desmontar, montar e errar de novo.

9. Como sobrevive um Lab? Não há uma regra, porque não há um único modelo (sustentável). Experimentar um lab é uma meta experiência que pode valer pelo caminho percorrido mais do chegar a algum destino. Como na ciência, não se sabe se vai ter alguma utilidade, mas é importante fazer. Mas há conselhos: começar devagar, com um espaço pequeno. Ter autonomia e não abrir mão dela ao buscar a sustentabilidade. Criar laços e uma comunidade forte para sobreviver a intempéries como a troca de governos ou o esgotamento do tesão em continuar. Documentar em ferramentas livres, que permitem a replicação. Nenhum lab sobrevive muito tempo como ilha.

baixada

10. Uma questão final pra sair do LAB.Irinto, que pode estar pairando em vocês, assim como por aqui também esteve: por quê Santos e Baixada Santista? Com a palavra, Savazoni: “Nessa apresentação eu postulo o ponto de partida, antes de começar o LAB.IRINTO e aqui eu enumero um pouco as razões de ser Santos: é uma região de 2 milhões de habitantes, um arquipélago, e Santos está em uma ilha, junto com São Vicente, uma das primeiras cidades do Brasil. Foi importante no Brasil Colônia, na industrialização, com o ciclo do Café, porta de entrada do mundo para o Brasil e ao mesmo tempo se deteriorou por conta das transformações todas, se tornando uma cidade de serviços, com uma população envelhecida – mais de 30% dos habitantes com mais de 55 anos podendo chegar à metade da população em dez anos. Tem também o fato de que pelas previsões, boa parte da cidade estará em baixo d’água devido ao aquecimento global. Inclusive onde eu moro.

É próxima de São Paulo, no sentido que facilita essa troca global, e eu pude comprovar isso produzindo o evento agora. Agora depois do LAB.IRINTO, eu somaria a essas razões todas o fato de ter encontrado uma rede subterrânea muito interessante, pessoas que querem fazer há muito tempo, outras que estão chegando agora, mas que começam a desenhar uma outra geografia, clandestina, fronteiriça, para a região. O LAB pode ser um impulsionador desse processo e isso me interessa sobretudo.

[Mais infos em ciudadania.org/entramosaolabirintocomrodrigosavazoni; Revista Fórum]

Fotos: Encontro Internacional de Cultura Livre e Inovação Cidadã (1, 4), Julinho Bittencourt (2), Raul Olivan (3), Transformatório (5), Rodrigo Savazoni (6)

Conexões Globais 2016

conexoes

O Conexões Globais 2016 acontece novamente em Porto Alegre, mas desta vez no Vila Flores, 1 e 2 de abril, e com foco no debate sobre cidades democráticas. A programação completa pode ser vista aqui, e traz mesas de debate, shows e oficinas sobre cultura digital – ativismo – feminismo – participação social – direitos humanos, entre outros temas. E a novidade é que vamos ser um dos retransmissores do streaming ao vivo das palestras e shows, no link abaixo. Depois, a ideia é fazer um relato do evento por aqui mesmo.

Quem quiser dar uma lida sobre cada um dos seis diálogos que tivemos nos dias 01 e 02 de abril, só conferir nos links abaixo (direto da equipe de comunicação do evento).

Quarto Distrito de Porto Alegre: um Polo da Economia Criativa e da Inovação Colaborativa

Participação Social na era da Internet

Brasil: Jornadas de Junho aos novos movimentos sociais em rede

Porto Alegre: Movimentos Sociais por uma Cidade Mais Democrática

Diversidade Sexual e de Gênero: Os desafios do Ativismo na Rede

Mulherada empoderada: os feminismos insurgentes nas ruas e nas redes

Invasão hacker de guerrilha no interior paulista

IMG_8164

De 16 a 19 de julho, participamos da 1º edição do Festival #Hashtag, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Produzido pelo Sesc Ribeirão Preto, o festival trouxe à cidade da boa cerveja Colorado (e seu bar de cervejas artesanais, o Cervejarium) ações de cultura digital: oficinas, debates e palestras, culminando com a Invasão do Ônibus Hacker em dois parques locais no final de semana.

IMG_8022

A primeira oficina foi a de Cultura livre: criação, pirataria e direito autoral na era digital. Mais uma fala do que propriamente uma oficina, tratou de discutir tópicos que abordamos aqui na página, do remix ao copyleft, passando (e focando) no software livre e no status quo do direito autoral hoje, com a internet a chacoalhar as estruturas daquilo que foi criado lá em 1710, com o Statute of Anne, como o Wu Ming nos conta em “Notas sobre copyright e copyleft II“. Foi uma versão atualizada e remixada das oficinas de pirataria que já fizemos algumas vezes no próprio Ônibus Hacker, a primeira em 2012. Já a apresentação utilizada como base é a mostrada nas referências da disciplina de Ciberativismo e Cultura Livre, na Unisinos.

É uma oficina que funciona como um panorama das últimas questões ocasionadas pelas transformações na cultura a partir da internet. Por conta disso, aborda diversos assuntos sem adentrar muito em cada um deles – precisaríamos de dias, talvez até semanas, pra tentar explicar como funciona em minúcias o direito autoral, a citação ou o plágio criativo, para citar três exemplos. Também em função disso, é uma conversa que conta com a participação do público: quase todo mundo tem uma opinião, uma experiência ou uma dúvida para falar sobre a criminalização do download, plágio na música, as vanguardas anticopyright ou o software livre, para citar temas que foram motivos de debate com as cerca de 15 pessoas que participaram da oficina na sala de internet livre, no centro de Ribeirão.

foto hashtag me poe na boa

IMG_8046

A segunda oficina que participamos no #Hashtag foi uma estreia: Guerrilha de Comunicação. Tratamos de apresentar ideias, exemplos e causos utilizados por coletivos que já falamos bastante por aqui, como os Adbusters, Wu Ming, Luther Blisset, Provos, BaixoCentro, e táticas como as de distanciamento, sobreidentificação, happenings, snipers (os franco-atiradores semióticos), nomes coletivos, fakes, entre outras. [Confira aqui a apresentação que fizemos]. A partir daí, conversamos sobre que situações e táticas poderíamos aplicar no final de semana, quando o Ônibus Hacker estaria com sua invasão na cidade. Levantamos informações sobre o que ocorreu recentemente em Ribeirão Preto e dois fatos gritaram por alguma ação guerrilheira-ativista: a eminente expulsão de moradores da comunidade João Pessoa para o aumento do aeroporto da cidade, Leite Lopes; e o recente aumento do salário de vereadores em 26%, combinado com a aprovação de um PL que assegura a correção anual do salário dos edis; até então, essa correção era de quatro em quatro anos.

Discutimos sobre que ação seria possível de por em prática em um final de semana. Foi o momento de brainstorming a partir dos exemplos vistos na oficina: a pintura das ruas na abertura do BaixoCentro, o vídeo das Olimpíadas de Santa Tereza feito pela Mídia Ninja/Casa Coletiva, a notícia (falsa?) da construção de um condomínio em pleno parque da Redenção, em Porto Alegre, entre outros. Eis que decidimos por uma ideia: produzir uma partida de futebol de 27s – o absurdo tempo que durou a sessão que os vereadores de Ribeirão Preto aprovaram a correção anual de seus salários – com, de um lado, o time dos que votaram a favor, 17, segundo contagem inicial; e do outro os 5 que votaram contra. Ficou decidido que usaríamos máscaras de todos os edis e teríamos uma narração como a de futebol no rádio. Fechados nessa ideia, combinamos de organizar tudo junto da invasão hacker e da oficina de Produção Cultural de Guerrilha, que a produtora Evelyn Gomes conduz faz alguns anos.

IMG_8068


img_8063

Optimized-IMG_8076

No sábado, a invasão hacker foi no parque Tom Jobim, um amplo e desconhecido local situado na periferia de Ribeirão Preto, achado só via Open Street Maps (e não no Google Maps, sabe-se lá porquê). Lá, sob um sol forte e um calor (25Cº) seco, saíram oficinas como as de animação em stop motion, construção de composteira de balde, eletrônica para pequenos, costura de legumes de pano, multimídia livre (alternativas em software livre para edição em vídeo e áudio), entre outras num dos cardápios mais variados de oficinas que o Ônibus Hacker já ofereceu em seus 5 anos de existência. O público, predominantemente infantil, foi intenso especialmente na de eletrônica com Luis Leão, que contou com a ajuda de vários Makey Makey Littlebits pra ajudar a criançada a entender a comunicação eletrônica dos objetos, e na de costura hacker, com Fabrício Zuardi, que ficou praticamente a tarde inteira sentado ao redor de uma mesa com uma máquina de costura lidando com as crianças e suas tentativas de fazer cenouras e tomates de pano, além de ensinar alguns pontos básicos de crochê.

Entre estas outras oficinas ocorridas no sábado, a de produção cultural de guerrilha reuniu parte do grupo da oficina que oferecemos no dia anterior + alguns interessados novos. Nos sentamos em círculo ao redor de Evelyn e um flipchart com palavras-chaves relacionadas a produção cultural: evento, logística, barulho, lixo, ocupação, pessoas, rua. Ela foi fazendo algumas perguntas básicas, como que é cultura e o que é guerrilha, e a partir daí discutimos que ação poderíamos fazer na rua, no dia seguinte, domingo, junto do 2º dia da invasão hacker. Optamos pela ideia da partida de futebol dos vereadores, já conversada antes, e combinamos os detalhes da produção para acontecer no parque Dr. Luis Carlos Raya, localizado num bairro de classe média-alta da cidade e reduto eleitoral de alguns dos vereadores que votaram a favor do aumento dos salários.

Além das atividades do ônibus, o parque também teve contação de história e um sarau comandado por Tiago Chapolin, agitador cultural da cidade. Ribeirão, assim como São Paulo e outras tantas cidades no país, tem visto florescer uma cena forte de saraus em que a literatura se mistura ao rap, ao ativismo contra o extermínio negro nas periferias e à poesia, pura e simples. Foi dando esse tom que o sarau no parque Tom Jobim encerrou as atividades do primeiro dia.

Optimized-IMG_8086

Optimized-IMG_8088

Optimized-IMG_8090

foto hashtag makey
Criançada com littlebits na oficina de Eletrônica

Optimized-IMG_8099

Optimized-IMG_8101

foto hashtag sarau

O domingo de invasão começou com um café da manhã tardio. Por volta das 13h, com o sol a pino, é que a maior parte dos participantes da invasão chegou ao local, uma antiga pedreira com um belo gramado, um lago e muitos patos. Vale dizer: fomos a pé (alguns de táxi) pois o Busão estava na oficina para conserto do alternador e da ré, estragadas no dia anterior, situação que rendeu um empurra coletivo já à noite para manobrar no parque sem precisar dar ré. O que seria do Ônibus Hacker sem as quebradas rotineiras, não? Uma equipe que acompanhou a viagem inteira do Busão gravou as imagens dos empurrões (e tropeções) no escuro para um documentário sobre o ônibus, que está sendo produzido via edital Jovem Doc.

As oficinas de domingo seguiram o amplo e diverso cardápio do dia anterior: origami, lambe-lambe, descartografia (com oferenda à Pachamama numa árvore do parque, a cargo do EcoaEcoa Coletivo) além da repetição da de costura hacker/crochê, sucesso de público da invasão, uma roda de conversa sobre segurança na rede e algumas instantâneas que não deu pra saber que estavam acontecendo. São tantas oficinas possíveis/realizadas (reza a lenda que já ocorreu até uma “oficina de conchinha”, numa viagem mais longa ao Uruguai) que uma piada interna metalinguística comum no Ônibus é a de que tem que acontecer uma “oficina de oficinas” coletiva.

Assim como dia anterior, a Rádio Hacker funcionou no sistema de som levado pelo SESC e também num dial FM ao redor do parque, num raio de 1 a 4 KM, através de um transmissor (livre) que o Ônibus carrega desde 2011. Tiago Luan (vulgo Tuiuiu) pilotou a rádio com música, chamadas pras oficinas e algumas entrevistas rápidas. Foi a partir dela que se deu a convocação para ação do futebol dos vereadores- chamada “A Partida De Futebol Mais Rápida do Mundo”: precisávamos de 22 participantes para dividir os times entre os que votaram a favor e contra o aumento dos salários.

Jogar futebol num parque com um belo gramado num domingo de sol a tarde parece convidativo, então dezenas de pessoas (a maioria, novamente, de crianças) se apresentaram para o jogo. Fizemos as máscaras dos vereadores a partir das imagens do jogo “Cara a Cara”, produzido pelo Labhacker de SP e distribuímos conforme a votação: 17 pra um lado, 5 pro outro. Produzimos um texto de apresentação da ação, para ser lido logo antes da narração da partida – que acabou ficando a cargo do próprio presidente da Câmara de Vereadores, Walter Gomes, com surpreendente traquejo de narrador, no vídeo transmitido pela TV Câmara (e disponível no Youtube) no dia da votação; simulamos duas traves a partir de cones e canos e um cronômetro, para marcar os 27s, numa TV grande ligada a um computador. Antes de começar, um participante da oficina, que esteve desde sexta feira de Guerrilha, apresentou a escalação de cada um dos jogadores/vereadores. Estava pronto o cenário pro happening.

Mas na hora da partida, é claro que tantos elementos “organizados” penderiam para o caos. E assim foi: a divisão dos times não se deu exatamente como na votação, e logo no início da partida dois “jogadores” saíram correndo com a bola pra um lado levando a marcação e praticamente todos os outros jogadores juntos, enquanto Walter Gomes narrava como um locutor esportivo nos alto-falantes o nome do projeto em votação. Uma cena nonsense que lembrou o famoso Futebol dos Filósofos do Monthy Phtyon, uma referência também mostrada na oficina. Quando bateram os 27s de partida, com o presidente da câmara na narração gritando “Aprovado!”, alguns dos jogadores se surprenderam: “ahhh, já acabou? só isso?”. Um menino, que havia insistido para ficar no time dos contrário ao aumento, falou: “mas não é justo! quero jogar um jogo justo”.

Ainda que bastante caótica, a ação funcionou como um “erro-experimento” de guerrilha a partir da técnica de criação de eventos para ressaltar o absurdo de uma situação real parodiada. E só aconteceu, mesmo que com vários “erros” de primeira vez, com a participação efetiva de muita gente, da oficina na sexta ao Ônibus Hacker no final de semana. Parece ser cada vez mais necessário, no mundo-vasto-mundo de informações da internet, por em prática uma ideia, mesmo que uma ainda em fase experimental e não acabada, do que ficar matutando uma ideia genial por meses e não conseguir por ela em prática.

No final da invasão, já a noite, ainda rolou a oficina pública de orçamento, em que Pedro Markun convidava os participantes a dividir o orçamento de sua cidade ideal conforme as pastas reais de uma cidade brasileira: educação, saúde, meio ambiente, cultura, legislativo, etc. Funciona como um jogo de tabuleiro: cada grupo escolhe quantos pontos vai para cada pasta, de um máximo total estimado do orçamento municipal. Depois, a distribuição do orçamento da cidade ideal foi confrontada com a de Ribeirão Preto, e com algumas discrepâncias notadas (por ex: a destinação para educação foi menor na ideal do que na Ribeirão Preto) vai se detalhando como funciona a distribuição de recursos públicos em um município. É uma ótima forma de aprender política jogando.

E, ufa, antes das 5h de viagem Ribeirão-Campinas-SP ainda teve uma nova roupa nova pro ônibus, a cargo dos grafiteiros Lelin, Lola e Brô.

Optimized-IMG_8125
Optimized-IMG_8123

Optimized-IMG_8259

Optimized-IMG_8160

Optimized-foto hashtag de cima

Optimized-IMG_8251
Optimized-IMG_8156

Optimized-IMG_8270
Optimized-IMG_8313

Fotos: Sheila Uberti (1,2,4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 12, 13, 15, 16, 17, 18, 19, 21, 22, 23, 24)
Me põe na boa (3, 11, 14), Raul Costa (20) Mais fotos aqui.

P.s (atualização 26/7): Fotos da “Partida De Futebol Mais Rápida do Mundo”, pelo coletivo Fuligem. Na sequência, os dois times escalados (1 e 2) e a partida (3 e 4). E o vídeo-registro, editado pelos participantes da oficina.

futebol hashtag ribeiraofutebol hashtag ribeirão 2futebol hashtag ribeirao 3futebol hashtag ribeirao 4

Reparar em vez de descartar

cafe reparo 1

Perguntas rápidas: você sabe trocar a resistência do chuveiro? consertar o abajur do lado da cama, quando ele abruptamente parou de funcionar? não se desespera quando seu computador não liga na 2º tentativa? Se sim, saiba que você tem tudo para ser um reparador, uma exceção nesse mundo que joga grandes quantidades de material fora, mesmo as coisas com quase nada de errado e que poderia obter um novo sopro de vida depois de um simples reparo.

Não é novidade nenhuma: vivemos numa cultura em que comprar um novo é muito mais fácil do que consertar o “velho”. Cito dois casos extremos: 1) as pernas (alumínio) de sua cadeira de praia estragaram, você quer levar a algum lugar que conserte. É muito provável, como já aconteceu por aqui, que você ganhe como resposta de qualquer lugar que procurar: “mas não vale a pena, compre outra que sai mais em conta”.  Mas e se eu quero que ela volte a funcionar, independente de “sair em conta” ou não?

Outro caso, na extremidade oposta: estragou uma peça no seu Iphone (o que, você usa Iphone?? :P). Se você for numa loja “autorizada”, qualquer peça que estraga costuma custar uma boa grana, só não o suficiente para você trocar seu telefone porque todos produtos Apple são exageradamente caros. As opções baratas se restringem ao mercado “negro”, em que os chineses são mestres. Talvez por isso mesmo é que o site IFixit, que traz uma grande variedade de manuais de reparo abertos e gratuitos, tem centenas de manuais dos produtos Apple. É como uma rebelião dos consumidores: “ah é, Apple, você vai incomodar tanto assim pra abrir ou reparar por conta própria um produto seu? Então nós vamos mostrar que sim, podemos fazer isso de modo colaborativo, sem vocês”.

No domingo 12/4, participamos de um evento que visa forlatecer essa cultura dos reparadores: o Café Reparo, projeto relacionado ao Ônibus Hacker e contemplado pelo edital Redes e Ruas (PMSP) da secretaria de cultura de SP. Ele prevê seis encontros voltados à cultura hacker que propõem laboratórios de pequenos reparos, discussões e proposições nos segundos domingos de cada mês no Centro Cultural São Paulo entre março e agosto de 2015. Estivemos do 2º encontro, buscando relacionar a ideia da cultura livre e do copyleft com a questão do reparo em vez do descarte. Ou você não acha que a cultura livre, ao expor o código-fonte da produção, não potencializa a autonomia também no reparo/manutenção dos objetos produzidos?

repair-cafe14

repair-cafe2
Café Reparo na Holanda

O projeto foi abertamente inspirado por um movimento global chamado Repair Café, um conceito de café em que as pessoas de uma vizinhança se reúnem para consertar objetos quebrados em vez de jogá-los fora e comprar novos. O primeiro foi criado em Amsterdã, na Holanda, por Martine Postma. A ideia do café é simples: num determinado dia da semana, voluntários se reúnem para consertar itens que vão de brinquedos quebrados e roupas descosturadas a secadores de cabelo que não funcionam mais. Todos os reparos são feitos gratuitamente, como em uma troca de aprendizado entre os moradores de determinada região. Hoje são mais de 300 cafés desse jeito espalhados por 10 países – um deles no Brasil, em Santos, que acontece através da ANDES (Agência Nacional de Desenvolvimento Eco-Social).

O Repair Café não fala em competir com as assistências técnicas e as pessoas que fazem disso seu modo de ganhar a vida. Muito pelo contrário: a intenção é chamar a atenção para a possibilidade de cada um poder fazer o reparo de suas próprias coisas. De que você não tem que jogar fora tudo que “não funciona”: existem alternativas de conserto. Mas é claro que nem sempre vai se conseguir resolver o problema do objeto em questão, e quando isso acontece é que entram os (cada vez menos) técnicos disponíveis.

No Café Reparo de SP, a estrutura montada no evento conta com dois monitores – um mais de hardware, outro mais de software – mais três integrantes/produtores do projeto, que ficam durante o dia, das 10 às 18h, para ajudar você mesmo a reparar o seu objeto. Que fique bem claro: eles não vão fazer o serviço sozinho, você vai fazer junto com eles. Do It Together. No domingo em que participamos, um abajur, uma torradeira e uma cafeteira foram reparados; um videocassete teve seu problema detectado, o que em muitos casos é a maior parte do problema. Veja aqui abaixo algumas fotos desse dia, por Milena Migrans.

café reparo 3

café reparo 5 café reparo 4

café reparo 8 café reparo 7 café reparo 6 cafe reparo 2

Há diversos motivos para justificar a cada vez mais necessidade de repararmos aquilo que usamos. Muitos deles foram bem descritos neste manifesto abaixo, desenvolvido pelo site Ifixit a partir de um texto publicado por Mister Jalopy em seu site – que, por sua vez, foi publicado inicialmente na Make Magazine nº4. Traduzimos apenas o início, a tradução completa faremos em conjunto com o pessoal do Café Reparo SP – se alguém quiser ajudar a por isso numa arte, bota o dedo aqui (nos comentários desse post).

1. Reparar é melhor que reciclar
Fazer nossas coisas durarem mais tempo é mais eficiente e barato do que buscar/extrair matérias-primas de baixo custo

2. Reparar poupa seu dinheiro
Consertar coisas muitas vezes é grátis e geralmente mais barato do que a substituição delas. Quando você mesmo conserta você economiza dinheiro.

3. Reparar ensina engenharia
A melhor maneira de saber como algo funciona é desmontá-lo.

4. Reparar salva o planeta
A Terra tem recursos limitados. Eventualmente, vai acabar. A melhor maneira de ser eficiente é reutilizar o que já temos.

repair 1

A ideia dos cafés reparos é, no fundo, mais uma das iniciativas globais que visam fortalecer a autonomia das pessoas. Que visa abrir as “caixas-pretas” que estão por trás de qualquer objeto técnico e mostrar como eles funcionam. Como este texto da revista Wired aponta, talvez mais do que um movimento de “fazedores”, se faz necessário um movimento de “reparadores”, que deem novos (ou mantenham os velhos) usos a centena de milhares de objetos que são desperdiçados por aí. Quantas empresas no século XX tem promovido objetos feitos para quebrar em menos tempo do que de fato a capacidade deles poderia aguentar? o ato de reparar é também um ato de resistência contra a obsolescência programada, essa maldição tecnológico do século XXI.

*
Se ficou interessado em saber mais do que rolou na conversa que fizemos no sábado, o pessoal do dispositivo – um projeto artístico-tecnológico-arquitetônico que vale muito a pena conhecer – fez uma gravação experimental da conversa, disponibilizada aqui abaixo. Como de praxe, versamos caoticamente sobre diversos temas relacionados a cultura livre, do nascimento do direito autoral aos movimentos de vanguarda do século XX, anticopyright por excelência, passando até por temas atuais e correlatos (?) como o Uber e o AirBnb. Fizemos uma apresentação, chamada cultura livre e copyleft, uma espécie de guia dos temas a serem falados, baseados em outras oficinas que demos de cultura livre e copyleft por aí.

 Créditos fotos: Milena Migrans (Café Reparo SP), Hypeness (Café Reparo da Holanda)

Produtoras colaborativas e uma tecnologia digital social

colab1

Quem trabalha com os princípios da cultura livre, especialmente a partir do software livre e das licenças Creative Commons, já passou pela situação: você apresenta seu projeto/pesquisa/produto pra alguém (ou um grupo de pessoas), é aplaudido, recebe os parabéns, vários “muito legal!”. Em determinado momento, depois ou mesmo durante os parabéns, surge alguém a questionar: “muito interessante o trabalho de vocês, mas como vocês se sustentam, se tudo é livre?” como ‘ganham dinheiro‘, se o software é dado de graça?”.

A resposta varia de acordo com cada um, mas costuma fazer a pessoa questionada condensar, em poucas frases, muitas e muitas horas de conversas, pensamentos e estudos sobre os princípios da cultura e do software livre. Por exemplo: software (e cultura) livre não significa software (e cultura) grátis, como diz Richard Stallman na sempre citada frasefree speech, not as in free beer“; nem toda troca precisa ter dinheiro envolvido – porque mesmo estando num sistema capitalista, em algum nível é possível sobreviver, sim, de trocas e moedas que não necessariamente o dinheiro; o sustento provém de atividades indiretamente relacionada aos serviços prestados ou produtos oferecidos de maneira gratuita, como consultoria, capacitação, ensino, personalização; ou, ainda, não me sustento com isso, faço porque gosto e quero que seja assim.

Penso nisso porque o II Encontro das Produtoras Colaborativas, que juntou mais de 10 coletivos na semana passada no NAEA, em Belém, trouxe essa questionamento em diversos momentos. E, mais do que isso, trouxe alguns exemplos que podem fornecer respostas criativas às perguntas já citadas. Por que desde que a internet cortou alguns intermediários e ressignificou outros, a realidade é clara: não existe mais um modelo único, pronto pra aplicar sem esforço, que vai sustentar tua produção cultural – seja ela cinema, música, software, eventos, etc. Como Gilberto Gil já dizia em 2009, aqui mesmo no BaixaCultura: “A digitalização não exige que toda obra de arte seja de graça, mas que um modelo próprio de comercialização seja criado para cada necessidade. A tendência atual é que pensemos não na propriedade, mas no comum, no compartilhado”.

colab2

A tecnologia social das produtoras colaborativas

Pensar no comum e no compartilhado é justamente a linha-mestra das produtoras colaborativas, que, por hora, podemos resumir como uma tecnologia social que reúne um conjunto de metodologias baseados na cultura e no software livre, no cooperativismo e nas moedas sociais. São metodologias que começaram a ser estudadas em 2006, nos pontos de cultura do Quilombo do Sopapo e da Biblioteca do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, e aplicados pela primeira vez pelos pontões de cultura iTEIA, CDTL e Caravana Arcoirís na Aldeia da Paz, realizada no Acampamento Intercontinental da Juventude dentro do Fórum Social Mundial de 2009, em Belém.

De 2009 pra cá, a tecnologia tem sido testadas em diferentes lugares, principalmente em Pontos de Cultura – projeto criado dentro do Cultura Viva e uma das maiores conquistas da história da cultura brasileira, referência internacional (olhaí o relato basco aqui no Baixa em que ele é destacado) e que desde 2014 é, por lei, política pública brasileira.

A Produtora Colabor@tiva.PE, que integra 6 pontos de cultura da região metropolitana de Recife mais um cineclube e um centro de recondicionamento de computadores, foi a primeira que aplicou de forma permanente, a partir de 2010, o conjunto das metodologias das produtoras colaborativas. Pedro Jatobá, um dos criadores da Colabor@tiva.PE, apresentou a tecnologia, em uma das falas do primeiro dia de encontro, a partir da metáfora da árvore: assim como as árvores precisam de nutrientes para gerar frutos, as produtoras necessitam de insumos para alimentar o processo de formação continuada e, assim, fomentar os ciclos de amadurecimento de novos empreendimentos.

colab3

Assim, os tronco são as 6 áreas de atuação: memória, gestão, produção, economia, educação e comunicação. Os galhos são os núcleos temáticos: fotografia, áudio, vídeo, comunicação, produção cultural, criação de páginas na internet, entre outros. As folhas são os produtos e serviços (clipe, registro fotográfico, curso de fotografia, mapeamento, site, etc); os frutos são a formação continuada, aquilo que cai e dá fruto, replica; e, por fim, tudo está estruturado em seis raízes sólidas, que vale destacar aqui:

cultura popular: atuar na divulgação e no fomento da cultura popular de cada local; ser a mídia livre da expressão cultural popular;
software livre: além de toda a questão social do software livre, ele é, também, a única maneira legalizada de funcionar numa comunidade sem precisar pagar fortunas por licenças de software.
cooperativismo: ser autogestionado, sem “patrão”, mas cooperativados; relação horizontal;
criatividade: buscar formas alternativas e criativas de não fazer “empacar” os projetos;
empreendedorismo: a necessidade de fazer a produtora funcionar, e minimamente pagar as contas;
moeda social: em muitas comunidades onde as produtoras atuam o dinheiro é escasso; então é criada uma moeda social pra balizar trocas dentro da comunidade. Ela pode fazer serviços pra fora da comunidade por dinheiro, mas dentro ela pode fazer serviços na moeda social, trocar a criação de uma página na internet por almoços, por exemplo. No caso da Colabor@tiva.PE, há a moeda social Concha, a primeira criada em Pernambuco, toda gestionada dentro da plataforma Corais.org, que, ademais, é um ambiente de criação/gestão de projetos todo criado em software livre e que reúne várias outras produtoras colaborativas e outras redes.

[Recomendo ver a apresentação completa para entender e ver como funciona na prática]

colab3
Mãe Beth de Oxum, do Centro Cultural Coco de Umbigada

É a partir dessa ideia que os produtos e serviços da Colabor@tiva.PE são estruturados. Eles incluem desde a digitalização de saberes e tecnologias locais até a produção de videoclipes de bandas locais, passando por oficinas de capacitação em vídeo e áudio com software livre e produção de eventos culturais. Um exemplo prático apresentado por Mãe Beth de Oxum (foto acima), do Centro Cultural Coco de Umbigada (ligada à colaborativa PE), foi o Contos de Ifa, um site que ensina a cultura afro-brasileira a partir de jogos onde os personagens são orixás (Ogum, Exú, Odé e Obadulaié). Do áudio ao design e a programação, tudo feito em software livre.

colab5
Jader Gama (Puraqué) e Larissa Carreira, da Produtora Colaborativa do Pará, no lançamento do livro “Coralizando”

Hackear a universidade: o caso do Pará

Outro exemplo que vale destacar aqui é o da Colaborativa do Pará e do Coletivo Puraqué, de Santarém. A primeira, criada em 2009, funciona a partir da tecnologia social das colaborativas, e oferece principalmente serviços de formação em software livre e produção de eventos (veja aqui a o portfólio). O segundo nasceu como um laboratório de informática na casa da mãe de Jader Gama, integrante do grupo, no início da década passada, e de aulas básicas de informática passou ao ensino de programação, entrou para as redes da Metareciclagem e dos telecentros, ajudou na organização de encontros regionais como o Fórum Amazônico de Software Livre (FASOL), Fórum Amazônico de Cultura Digital e, sobretudo, colocou a bela e longínqua Santarém, no encontro dos rios Tapajós e Amazonas, oeste do Pará, no mapa da cultura digital brasileira.

Na busca por recursos e sustentabilidade numa região com pouco dinheiro e onde as distâncias dificultam e encarecem a produção de qualquer evento/oficina/encontro, as duas produtoras/coletivos fizeram, de 2010 pra cá, um movimento orquestrado de “hacker a universidade”. Jader Gama e Larissa Carreira – do Puraqué e da Produtora Colaborativa, respectivamente – entraram para o mestrado na UFPA, no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), um centro de pesquisa acadêmico voltado ao desenvolvimento regional da Amazônia. Com membros de uma instituição organizada como o NAEA e ligados à Universidade, tiveram a possibilidade de pleitear verbas de convênios com diversos ministérios do Governo Federal, e partir daí passaram a promover eventos de formação e pesquisa também para o público de fora da universidade, através do grande guarda-chuva de projetos que é a “Extensão Universitária”. Relativamente desprezada dentro da pós-graduação, a extensão é o mecanismo que as universidades brasileiras tem de interagir com a comunidade e sair de seus muros: passam por ela desde eventos culturais até incubadoras tecnológicas, oficinas de formação e outros projetos que promovam a integração do espaço acadêmico com a localidade a qual está inserida.

Foi assim que as produtoras se abrigaram dentro do NAEA, aproveitando-se também da maior possibilidade de interlocução com outras áreas que um raro centro interdisciplinar de pós-graduação como o NAEA, criado em 1973, possibilita. E dessa maneira fizeram diversas oficinas formativas de software livre, de edição de vídeos a cartografias digital, propuseram projetos de pesquisa em seus mestrados relacionados às temáticas de seus trabalhos nas produtoras – Jader sobre transparência pública nos municípios paraenses, Larissa com comunicação comunitária e software livre – e, literalmente, ocuparam a Incubadora de Políticas Públicas da Amazônia, mecanismo de articulação institucional do qual o NAEA, junto de outros institutos de pesquisa e dos governos, faz parte. Vestiram a camiseta oficial da universidade para se relacionar de outra forma com a comunidade ao seu redor, promover a articulação efetiva entre esta mesma comunidade, o poder público e o espaço acadêmico, não raro centrado só em seu mundo – basta ver quantos estudantes de mestrado e doutorado você conhece que fazem algo de extensão.

*

colab7

O II Encontro e a sustentabilidade

Foi também através dessa parceria-ocupação que o NAEA e a UFPA sediaram o II Encontro das Produtoras Colaborativas, entre os dias 19 e 21 de março de 2015. Foi um momento das produtoras se conhecerem melhor, se familiarizar com a tecnologia social, para aquelas que não a usam integralmente, lugar de formação – o 2º dia do evento contou com oficinas variadas – e, também, para promover o debate conceitual e institucional sobre produção cultural e a cultura livre.

Participei da mesa sobre “Extensão e comunicação comunitária”, no sábado pela manhã, junto de Larissa Carreira, da colaborativa de Belém, Eduardo Lima e Pedro Jatobá (mediação), da colaborativa de Pernambuco e Daniel Luis (Umbigada no ar, um dos pontos da Colaborativa PE; foto acima). Falei um pouco da experiência recente da Casa da Cultura Digital Porto Alegre, em especial do Observatorio.cc e dos projetos ligados aos dados abertos (como o Open Data Day e o Hackday Tranporte Público), Daniel e Eduardo falaram das suas, com enfoque maior na experiência de ambos com software livre – Daniel trabalha com áudio e Eduardo com vídeo. Larissa contou de sua pesquisa com comunicação comunitária e da relação da produtora colaborativa com a universidade; um tanto do relato do tópico acima foi baseado em sua fala. Mesa ampla, assuntos diversos, discussão boa.

colab6

Um dos debates mais instigantes foi o que encerrou a manhã de sábado, sobre arranjos produtivos locais, autonomia e políticas públicas. Ricardo Poppi, da Secretaria Geral da Presidência, Ricardo Abramovay (professor da FEA-USP), Lula Dantas (Comissão Nacional dos Pontos de Cultura), Geórgia Haddad Nicolau, do MinC (atualmente na secretaria de políticas culturais, não mais na de economia criativa, que vai ser extinta), mediada por Luana Vilutis (Colaborativa.PE). Outra mesa bastante diversa, que teve por destaque o tom de cobrança que a plateia fez aos dois representantes do governo, Poppi e Geórgia. Ela, em especial, destacou que além de “hackear as políticas públicas”, tema bastante apontado nas questões da plateia e também por Poppi, se faz necessário que a população acompanhe o que está sendo feito no governo, para assim pressionar e cobrar o funcionamento das políticas que são criadas dentro dos mecanismos institucionais e, não raro, se perdem por falta de conhecimento ou de contribuição dos interessados.

Ela citou três temas centrais para acompanhar as políticas culturais do MinC, agora sob o comando do ministro Juca Ferreira, um oásis progressista numa escalação conservadora e reacionária de ministérios feita pelo governo Dilma. São eles: marco regulatório das organizações da sociedade civil (MROSC), que entra em vigor em julho de 2015; o sistema nacional do Procultura, que está para ser aprovado nos próximos meses; e a reforma da Lei de Direitos Autorais (LDA), que vai ser retomada agora com força e precisa de muita articulação da sociedade civil para conseguir barrar o forte (e bem pago) lobby da indústria do copyright – quem acompanha esta página já faz alguns anos sabe da importância de uma atualização da lei dos direitos autorais no cenário da tecnologia digital e da internet no Brasil e no mundo.

Ricardo Abramovay, referência no Brasil quando o assunto é economia colaborativa, trouxe apontamentos sobre o cenário atual: nunca tivemos tantos instrumentos de cooperação social, mas, de fato, estamos sabendo cooperar ou estamos sendo soterrados pela avalanche de informações e ferramentas pasteurizadas que as redes sociais nos jogam diariamente? Uma das falas que mais teve ressonância no encontro, e que se liga à abertura desse post, é a de que o ativismo precisa se organizar a partir da viabilidade econômica. Ele ressaltou a necessidade de pensar em empreendedorismo (no que pese o uso torpe dessa palavra pelos setores mais liberais da administração) para viabilizar ações ativistas, pois esta é um elemento fundamental para dar visibilidade a causas de interesse planetário, especialmente neste momento, que está mais visível do que nunca que o consumo exagerado e a busca por energia para alimentar esse consumo estão destruindo DE FATO o planeta (se ainda tiver dúvida, leia “Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins“, de Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski, e tente não se preocupar).

É uma questão polêmica, que muitos ativistas torcem o nariz – anarquistas, então, nem se fala. Mas talvez uma das melhores respostas atuais pra questão que abriu esse texto seja, justamente, a tecnologia social das produtoras colaborativas: ativista, sim, no uso do software livre, na propagação do conhecimento aberto e das culturas populares através das mídias livres e no desenvolvimento de uma economia baseada em produção orgânica e sustentável. Mas também com um pé criativo na relação com o “mercado”, em formas de viabilizar financeiramente a produção da cultura livre, seja através de editais públicos ou de outras formas a serem inventadas, para que não se torne refém de nenhuma forma de financiamento. Buscando, sempre quando possível, relações menos baseada no lucro e mais na colaboração. Utopia? Em construção.

[Leonardo Foletto]

Confira mais algumas fotos do evento na página das colaborativas no ITeia, portal criado para abrigar a produção multimídia de centros culturais nacionais e internacionais, em especial os Pontos de Cultura. Vale conferir também a organização do evento, toda realizada de forma transparente dentro da plataforma corais. O próximo encontro está previsto para 2017, em votação (também no Corais) se em Recife ou Porto Alegre.

Remezclas de Cortázar

Escritores-y-sus-gatos-Julio-Cortázar (1)

Entre gatos, cigarros e fotos, há 31 anos morria o gigante Cortázar, em Paris. Gigante literalmente: ele nunca parou de crescer por conta da acromegalia, doença semelhante ao gigantismo, mas que se manifesta na idade adulta. Aos 60 anos, Cortázar continuava crescendo, tinha pés e mãos disformes. Aos 70 anos, quando morreu, media 2,14m. Além disso, segundo o blog de uma das editoras que publica a sua obra no Brasil, envelhecia lentamente, sempre aparentando ser mais jovem. O amigo (também escritor) Carlos Fuentes contava que, certa vez, quando foi visitá-lo, quem abriu a porta foi um rapaz que aparentava ter 20 e poucos anos. Ele pediu ao garoto que chamasse seu pai, mas era o próprio Cortázar (já com 50 anos de idade!) quem o recebia.

Dias atrás, o jornalista Bernardo Gutierrez começou, em seu blog, uma campanha #FreeCortázar buscando que as obras do escritor sejam consideradas de domínio público, por serem consideradas “patrimônio da humanidade”. A campanha criou um abaixo-assinado para pedir a sua agente literária, que gestiona seus direitos autorais, que libere sua obra na internet. Assim diz o texto:

Todo el mundo debería tener derecho al libre acceso, copia y remezcla de la misma. Sin embargo, más de treinta años después de su muerte las obras continúan protegidas con copyright. En Argentina, país natal del autor, las obras pasarán a dominio público en 2054. En España, en 2064. Siendo Cortázar un autor extremadamente innovador, habiendo usado el pastiche o collage en ‘El libro de Manuel’, la aplicación rígida del copyright a la obra del escritor es una contradicción.

Não só em “El libro de Manuel” que Cortázar usa do pastiche e da colagem: de sua obra-prima Rayuela (“O Jogo da Amarelinha”) ao livro-almanaque “La vuela al día en ochenta mundos”, toda sua obra está permeada por estas técnicas de remezcla, como explica o crítico literário Roberto Ferro:

Desde la aparición de Rayuela, Cortázar ha recurrido en varias oportunidades a esa modalidad de composición de las páginas, como en sus libros almanaques La vuelta al día en ochenta mundos (1967) y Último round (1969), en los que el collage es el procedimiento dominante de disposición de los diversos componentes textuales. Asimismo, son frecuentes, desde ese período, los volúmenes en los que hay un diálogo intenso entre imágenes y textos verbales; dan cuenta de esa preferencia, entre otros: en Prosa del observatorio (1972) se incluyen imágenes fotográficas tomadas por el escritor; en Monsieur Lautrec (1980) los textos de Cortázar se disponen junto con dibujos y pinturas de Hermenegildo Sabat; en Alto el Perú (1984) alternan con fotografías de Manja Offerhaus. El collage también traspone e integra la reproducción de recortes periodísticos que se compaginan con el relato novelesco en Libro de Manuel (1973). Y todo esto se consuma en Los autonautas de la cosmopista escrito con Carol Dunlop, el último libro que publicó en vida.

Los procedimientos de composición en forma de collages en la obra de Julio Cortázar integran en yuxtaposiciones la heterogeneidad de los materiales y de los lenguajes y géneros que dislocan toda ilusión de unidad preestablecida, formulando, desde otra perspectiva, una crítica a la homogeneidad uniforme y poniendo de manifiesto en la espacialidad de las páginas un campo de tensiones de recortes y fragmentos entre los que se producen pasajes de doble circulación.

La heterogeneidad del collage -que cada configuración compone de acuerdo con los materiales que lo integran y el diseño que los reúne- en las textualidades cortazarianas se presenta a la lectura como una provocación para producir significación que no podría ser ni unívoca ni inalterable. Cada elemento citado rompe con la continuidad o la linealidad del discurso y lleva necesariamente a un doble circuito de lectura: la del fragmento percibido en relación con el texto del que procede y la del mismo fragmento incorporado a un nuevo conjunto, a una totalidad diferente. La operatividad del collage consiste asimismo en no cancelar nunca por completo la alteridad de estos elementos reunidos en una composición espacio-temporal. Así el arte del collage demuestra ser una de las estrategias más eficaces para cuestionar las ilusiones de representación realista.

juliocortzarremix4

Sabemos que, embora faça sentido com sua forma de criar, é muito difícil que a obra de Julio esteja em domínio público na rede. Se não dá pra liberar tudo, a campanha pede, então, que se libere uma obra pequena, desconhecida de muitos fãs do escritor: Fantomas contra los vampiros de las multinacionales. É uma HQ publicada em que Cortázar, como roterista, torna um personagem já existente (e muito conhecido) na França, o vilão Fantomas, em um herói justiceiro que busca resolver um crime relacionado ao desaparecimento e a incineração de diversas obras culturais.

Publicada em 1975 no México, a história tem um fundo político de crítica às ditaduras latino-americanas da época. Cortázar é o personagem-narrador que compra uma revista de Fantomas para ler no trem; nesta história é relatada o incêndio de diversas bibliotecas no mundo e a proibição, sob ameaça de morte, de se escrever novas obras. Ao chegar em casa, o escritor descobre que o que se fala na revista está, de fato, acontecendo. A partir daí, escritores da época – como Octávio Paz, Susan Sontag, além do próprio – participam da trama que contém elementos noir e da linguagem cinematográfica, como a predominância dos diálogos sobre a narração, a utilização de onomatopéias (plok, chuip chuip, etc.), entre outros apontados por Hernán Martignone na crítica à história publicada no blog Sobre Historieta.

fantomas-contra-los-vampiros-multinacionalesfantomas-2fantomas-3

*

Em tempo: se a obra de Cortázar não é liberada legalmente, nos contentamos com a boa pirataria: aqui tem Fantomas em uma versão p&b pra baixar. Rayuela, na íntegra, na edição da Sudamericana. Historias de Cronopios y Famas. E aqui, na Biblioteca de Eduardo Sandéz, outros vários livros do argentino.

+ realidades do que canal de tv

capa

“existem + realidades q canais de tv, ouvi certa vez d1 pajé, e c/ isso na mente atravessei espaços, costurei os lances toques receitas notas relatórios projetos de lei sinais de fumaça testes caseiros truques e pixações deste relato, frutos coloridos da imaginação ao ar livre, experiências no espaço sideral interior ou no peito aberto das ruas, e as pernas sempre ventiladas da perambulação vagabunda por aí”.

As aventuras de cavalo dada em + realidades q canais de tv”, livro do amigo Reuben, que lá no longínquo setembro de 2008 esteve a frente da ideia que pôs em pé este blog, está disponível online no ISSUU. Também dá pra comprar a versão impressa no site da Pitomba, selo que lançou o trabalho, por R$20.

Reuben, vulgo Cavalo Dada, tem uma obra poética bem diversa de estilos, temáticas e performances. Zines, lambe-lambes, poemas, pixos transmídia, música, vocalizações, cantos fazem parte do material do maranhense de São Luís.

Sobre o que trata a obra? Vai lá conferir e depois diz aí o que achou. Umas imagens (fotos da Sheila Uberti) de aperitivo antes do livro embedado mais abaixo. Ele vai ficar também na nossa biblioteca.

pag_sozinha

pag_dupla

Um causo basco

Sobre Podemos, Ganemos, Marco Civil e a política ébria das ruas


DSC09478

Estava pelas ruas do Casco Viejo de Bilbao, com quatro hackers – um da tecnologia oriundo da américa latina, outros três da política & cultura livre oriundos do próprio País Basco (Euskal Herria, como eles chamam em Euskera, a língua mais antiga e esquisita da Europa Ocidental). Falávamos sobre tecnologia, vinhos, Bilbao, política, cultura, autonomia, Brasil, pintxos, política, Podemos, política, Ganemos, política.

[Abro aqui um parêntese gigante para falar que a cada dia alguém de diferentes origens e lugares da Espanha fala de Podemos. São hackers, a televisão, os jornais e suas capas, as pessoas e as ruas, todos surpresos – e esperançosos – com a ascenção rápida de um partido criado não faz nem um ano e que foi a 4º candidatura mais votada nas eleições para deputados europeus, a que em uma semana ganhou de todos os outros em seguidores nas redes sociais e que está liderando as pesquisas de intenção de voto direto para as eleições nacionais em 2015, tendo como figura mais proeminente Pablo Iglesias, um analista político televisivo e professor universitário cabeludo de 36 anos. Numa comparação tosca (e impossível) com a realidade brasileira, imagine que as manifestações de junho de 2013 tivessem produzido gente interessada em disputar a política de “dentro”. Que essa gente passasse a conversar a sério com esquerdistas indignados com o que se diz de esquerda e com militantes de um partido mais a esquerda que o atual governo, tipo o PSOL. Misture com a presença de inúmeros cientistas políticos gabaritados de uma universidade forte de uma capital – a USP ou a UFRJ, por exemplo. Acrescente uma pitada cirúrgica do poder de mobilização das redes digitais, um crowdfunding gigante para financiar a campanha, a crise e o desemprego desenfreado, e finalize com um discurso sedutor, ainda que disperso, contra a corrupção generalizada no Estado. Se existisse esse cenário no Brasil, seria algo parecido ao Podemos.]

De tanto se falar de política e de Podemos, veio o desafio. Eu e o hacker latino-americano fomos intimados a falar de bons “exemplos” políticos de nossos países. Tomando vinho no meio de uma daquelas calles algo medievais como a da foto que abre esse post, tínhamos uns pouco segundos para puxar exemplos, enquanto os três bascos discutiam Podemos e também do Ganemos, uma quase ramificação do Podemos voltado a disputa das municipalidades (prefeituras) na Espanha em 2015 –  dá uma olhada no Ganemos Madrid, “La democracia empieza en lo cercano“.

Comecei o desafio sacando o Marco Civil da Internet. Falei da construção pioneira e colaborativa do marco, de como ele visa garantir a neutralidade da rede e alguns direitos essenciais aos internautas (sabemos que não é beeem assim, mas estávamos numa discussão noturna numa rua, pô). Os bascos se olharam, e se convenceram quando falei também do respaldo internacional que o Marco teve, especialmente quando citei Lessig e os criptopunks que o apoiaram – Jeremie Zimmerman, Jacob Appelbaun, além do grão-mestre Julian Assange (leia relato sobre o fato no ArenaNet Mundial).

Foi a vez do hacker hermano latino. Que “fugiu” ao dizer que seu país-casa é a internet, e mais esperto ainda em citar o caso do Anonymous como um exemplo de organização anti-organização da internet que está mudando a forma de se fazer ativismo. Ia falar que “assim não vale” quando ele citou o novo livro de Gabriela Coleman, “Hacker, Hoaxer, Whistleblower, Spy: The Many Faces of Anonymous“, e convenceu todos.

Caiu na minha vez de novo. Como estávamos falando de política e cultura, puxei a rede dos pontos de cultura como exemplo de programa que espalhou a cultura (incluso a cultura livre) pros quatro cantos do país, especialmente a partir de uma ideia de cultura como cidadania, que valoriza a diversidade, não o espetáculo/comercial. Não precisei entrar muito além disso para ganhar os bascos, já que todos conheciam os pontos e o tinham como projeto exemplar – incluso, lamentaram que nunca havia tido algo na Espanha com a mesma abrangência e potência que no Brasil.

Mais goles de vinho, política, copyleft, pedaços de pintxtos e agora também pizzas (porque de tostas com coisas boas em cima não se sobrevive uma noite de caminhadas e política). Algum cansaço, vários compromissos, segunda-feira, um pouco de ficção e voltamos todos para suas casas, ocupas, hostels pelas ruas estreitas do Casco Viejo de Bilbao a falar e pensar ainda em Podemos.

[Leonardo Foletto]

P.s: Nas próximas semanas vem relatos-reportagens mais complet@s sobre as iniciativas espanholas que unem cultura digital, ocupação do espaço público, participação cidadã e cultura livre. Aqui mesmo nesse canal.
 
DSC09449
Os pintxos em momento glamour
DSC09477
País Basco e Catalunha livre

DSC09476

 

DSC09506
Zine Twiggy
DSC09548
Guggenheim
DSC09488
Plaza Unamuno, Casco Viejo
DSC09485
Para que os presos do ETA voltem para casa

DSC09494

DSC09535

DSC09470
Rolou também uma apresentação no congresso de jornalismo na UPV

Sobre direito autoral, cultura hacker e um leitor goiano

life computer

É sempre com muita gratidão que este site recebe uma contribuição linda de um leitor. No caso, o leitor é Rafael Pinto, recém advogado formado pela PUC de Goiás, que, influenciado por este contexto disperso de mudanças que esta página tenta retratar, fez uma monografia sobre a questão do direito autoral em tempos de cultura digital.

O trabalho do rapaz tá bonito, sem o juridiquês comum da área, e levanta com precisão um histórico necessário para entender a cultura livre de hoje: contracultura, aldeia global, cultura hacker, cibercultura, software livre, copyleft, crowdfunding, os commons, movimentos antiglobalização, ciberativismo e – ufa! – Wikileaks.

Pedimos para Rafael fazer uma breve apresentação de sua monografia, e cá está o texto, com o trabalho de conclusão ao fim – e desde hoje, também na nossa Biblioteca. Qualquer comentário, elogios ou críticas ou consultas jurídicas com o novo advogado, escrevam pra ele aqui: rafaelpinto.adv@gmail.com

E fica o lembrete: quem tiver algum trabalho acadêmico nessa vasta área que cobrimos e quiser nos enviar, envie! Publicamos e agradecemos.

**

Nos períodos iniciais de minha graduação em Direito, eu frequentemente nutria intenções de escrever monografia que delatasse a inutilidade das normas jurídica, propondo métodos extra-normativos para a “pacificação” social. No entanto, em meados de 2012, a efervescência de uma questão mais moderna e urgente chamou minha atenção de forma irresistível. 

A liberdade da internet, ferramenta que me permitira e permite vislumbrar horizontes além daqueles do meu contexto, de repente se encontrava ameaçada. A ofensiva da indústria do entretenimento deixava óbvio seu poder de lobby, enquanto processos judiciais e projetos de lei alimentavam perigosamente um monstrengo jurídico-capitalista: a propriedade intelectual.

O Baixa Cultura foi a primeira fonte de informações a me colocar em contato com a teorização da cibercultura. Foi neste momento em que percebi a amplitude de um tema que remonta à antiquada contracultura hippie, mas que se materializa em iniciativas muitíssimo recentes – como o copyleft, o creative commons, a cultura maker, o crowdfunding, o ciberativismo etc.

Minhas pesquisas buscaram formar uma visão transdisciplinar da Era da Informação, partindo da premissa de que o Direito é expressão cultural de um povo, em uma certa época e local. Somente assim se fez possível alcançar o objetivo-fim do trabalho: demonstrar a incompatibilidade da propriedade intelectual com a recente sociedade em rede.

O primeiro capítulo estuda as raízes da cibercultura, fincadas no movimento hacker e contracultural dos anos 60. O segundo capítulo busca teorizar a cultura da Era da Informação em seus aspectos social, político e econômico. O terceiro capítulo identifica as mais relevantes novidades deste momento, verdadeiras expressões de sua identidade. Por fim, o quarto capítulo estuda o Direito Autoral e sua conflituosa relação com a sociedade corrente.

Espero a compreensão do leitor para com possíveis erros, já que o trabalho foi produzido entre diversas ocupações, enquanto terminava minha graduação, atuava como estagiário no Ministério Público Estadual de Goiás e estudava para o exame da OAB. É com prazer que devolvo esta monografia à galáxia informacional e, principalmente, à biblioteca deste site, sem a qual esta tarefa teria sido mais árdua e menos interessante.

[Rafael Pinto]

Imagem: The Homebrew Computer Club – Life/Google

Governos, sociedade civil e ativistas debatem a Internet em SP

foto ccspNetMundial, #ArenaNET e Fórum da Internet: três eventos, uma cidade (São Paulo) e uma semana: esta.

Para explicar a importância desta semana para a internet global, começamos pelo evento “principal”, no sentido político da coisa: oNetMundial, Encontro Multissetorial Global Sobre o Futuro da Governança da Internet, que deve contar com delegação de 85 países distintos – de Ruanda a França, China a Suécia, Uruguai a Cuba, Estados Unidos a União Européia – a se reunir quarta e quinta-feira no Grad Hyatt Hotel, em São Paulo. A novidade do evento este ano é justamente o protagonismo brasileiro em tomar a frente e sediar o encontro, decisão motivada pelas revelações de Edward Snowden e de que a agência NSA, dos Estados Unidos, espionou (espiona ainda?) o Brasil a partir de diversos mecanismos de monitoramento e vigilância baseados na internet, inclusive com a anuência dos grandes Google, Apple, Facebook e Microsoft.

A decisão mexeu com os brios da presidenta Dilma Roussef, que desde então vem tomado como uma missão pessoal trabalhar a favor da privacidade e da busca por mais autonomia no uso da internet, já que, como se sabe, embora a rede seja (ainda) livre, a maioria das decisões técnicas sobre ela e sobre a infra-estrutura de cabos e armazenamento de arquivos ainda recaem sobre os Estados Unidos, principalmente, e a Europa. Espera-se que deste encontro saíam algumas decisões e articulações a respeito dessa governança. A principal delas é a ideia de um “carta magna” global, uma proposta de legislação internacional que possa garantir os direitos dos usuários, a governança e a neutralidade da rede, algo similar ao que o poderá ser o nosso marco civil, recentemente aprovado na Câmara e agora em discussão no Senado – e que pode ser votado ainda esta semana, dizem.

arena clone

Apesar da promessa, a mais recente versão do documento NETmundial “Princípios de Governança da Internet” não aborda explicitamente a neutralidade e a corrida armamentista de ciber-armas, outro tema esperado no documento. Este foi um dos fatos que motivou a criação, por parte de ativistas do mundo inteiro, de uma campanha global chamada #OurNetMundial. Foi criado, no início desta semana, um clone do site oficial do evento, que tem uma carta aberta escrita a muitas mãos intitulada “Pelo fim da Vigilância Global e por uma Internet Livre”, assim como uma petição online que busca colher assinaturas para apoiar a iniciativa, e este vídeo que apresenta a ideia de forma rápida.

Muitos dos grupos que estão a frente dessa iniciativa vão participar também do evento paralelo ao NetMundial, o #ArenaNETMundial, que promete ser um grande encontro de ativistas, pesquisadores, gestores públicos e artistas no Centro Cultural São Paulo, talvez o mais importante centro cultural da maior cidade da américa latina. Serão três dias de mesas de debate, com nomes como Tim Berners-Lee, Manuel Castells, Gilberto Gil, Ronaldo Lemos, Javier Toret, entre muitos outros alocados na intensa programação, que conta com uma ampla variedade de oficinas, encontros auto-gestionados e shows de artistas importante da música brasileira, como Tom Zé, Emicida e Jorge Mautner (que encerram as três noites de shows).

Sem a pompa política e o aparato de segurança que envolve o NETMundial, o Arena promete ser o principal encontro do ano das pessoas que discutem, militam e trabalham com cultura digital do país, e espera-se que da fricção dessa gente também saiam algumas iniciativas importantes para a luta por uma internet livre no país, seja nas questões relacionadas ao marco civil, software livre, a neutralidade da rede e a reforma das leis de direitos autorais a partir do cenário, cada vez mais presente, da cultura do compartilhamento.

Por fim, o último destaque da semana é o Forum da Internet, terceira edição do principal evento nacional de debate e decisão sobre a internet, organizado pelo Comitê Gestor da Internet (CGI), também apoiador dos outros eventos da semana. Imagina-se que o Fórum este ano seja bastante propositor, haja vista que o debate mesmo já terá sido feito nas duas instâncias – e por muitas das mesmas pessoas, que aproveitaram o feriado prolongado de páscoa para invadir São Paulo e já ficar a semana inteira.

Foto: Flicrk #ArenaNET

Equador: rumo a uma economia do bem comum?

equador 1Projeto do governo equatoriano junta pesquisadores e ativistas do conhecimento livre em prol da construção de uma economia voltada ao bem comum, baseada no respeito a natureza, no software e na cultura livre

 [Leonardo Foletto]

Quando fui ao Equador, em maio de 2013, para participar do II Festival de Cultura Libre, em Quito, uma das coisas que mais me chamou atenção no país foi o nível da discussão em torno da cultura e do software livre. Só a existência do evento já era digno de nota: uma grande junção de gente da latino-américa, do Uruguai ao México, para discutir, durante dois dias, software livre, formatos abertos, repositórios, crowdfunding, práticas culturais colaborativas e outros temas relacionados ao grande guarda-chuva do conhecimento livre.

Não vou me alongar aqui em relatar o que aconteceu porque isso já foi feito – aqui mesmo no BaixaCultura, no site do Ártica, em relato de Mariana Fossati, e no Global Voices, em texto de Juan Arellano. Mas atento para a participação de Antonio Pardo e Daniel Vázquez, diretores do aLabs e integrante dos Hackativistas, coletivo de ativistas espanhóis que, àquela época, chegava a Quito para começar a desenvolver um trabalho junto ao governo equatoriano. Chegavam para ficar, com ganas e experiência – junto ao movimento 15M – de trabalhos em ferramentas e práticas colaborativas livres, ainda que, naquela semana do evento, estavam sem quaisquer informações do que fariam e mesmo de onde se instalariam.

Pois bem. Passados quase um ano, eis o que os hackativistas, agora já bem instalados na capital equatoriana, ajudaram a plantar: a FLOK (Free/Libre Open Knowledge) Society, um projeto inovador de investigação e desenho participativo para levar o Equador rumo a uma matriz econômica focada no commons, o conhecimento aberto e compartilhado – e que tem Dani Vázquez como um de seus diretores e mentores. É um projeto que se integra a uma série de iniciativas do governo equatoriano em prol do buen vivir, conceito originário do quechua sumak kawsay e que, desde 2008, está incorporado a Constituição do País, sendo inclusive um programa especial do governo.

equador 3

Mas o que significa, afinal, esse buen vivir? e como a FLOK se insere nisso? Em poucas palavras, o buen vivir busca trazer o conhecimento ancestral indígena – ecologicamente sustentável, em harmonia com a natureza, focado na comunidade e na cultura colaborativa – para o desenvolvimento econômico equatoriano. O plano do governo de Rafael Correa, presidente do país desde 2006, busca uma transição da matriz produtiva do país, hoje dependente dos recursos limitados (finitos) como o petróleo, por exemplo, para uma matriz de recursos ilimitados (infinitos) tais como a ciência, a tecnologia e o conhecimento. Criar um ambiente “pós-capitalista” em harmonia com a natureza e o conhecimento livre, de menos consumo e mais colaboração, como explica esse artigo de David Boiller, pesquisador e autor de diversos livros sobre a economia do commons.

A questão é que, segundo Michel Bauwens, diretor de investigação da FLOK Society e fundador da P2P Foundation, “o buen vivir é impossível sem um “buen conocer”. Aí é que a FLOK entra, criando políticas e ações em rede, colaborativas e abertas a participação da população, em prol de uma economia do conhecimento aberto. Algumas frases da “Carta Abierta a los Trabajadores del Procomún del Mundo“, publicada no final de 2013, dá uma noção das intenções: “Imagina una sociedad que está conectada al procomún del conocimiento abierto, basada en conocimiento, código y diseño libres y abiertos, que pueden ser utilizados por todas y todos los ciudadanos (…) Imagina una economía ética y sostenible que se basa en la creación de una riqueza común cooperativa basada en la reciprocidad, el mutualismo, la producción entre pares.”

*

A proposta contida na apresentação do projeto, e explicada no vídeo acima, é ousada: “las tradiciones indígenas originarias del yachay, de (re)producción de saberes comunitarios y, por otro, las nuevas formas de colaboración del procomún digital de la cultura y la ética hacker. Resuenan los principios de reciprocidad (randi-randi) y organización del trabajo comunitario (maki-maki) en lo que podríamos llamar una Pacha Mama digital del conocimiento (el commons del general intellect)”. Hardware, software e cultura livre articulados com open data, educação e cultura tradicionais. Ética hacker com cultura andina. Yachay com Arduíno. P2P com la minga. Utopia?

Bauwens acredita que não, e dá alguns detalhes concretos do que andam fazendo o grupo de pesquisadores da FLOK Society hoje: “este grupo está planeando pasar los próximos meses investigando, por ejemplo, cómo hacer viable una biblioteca abierta para los colegios del país que substituya el sistema de caros libros de texto privados. También se plantea una comunidad de diseño abierto para máquinas de pequeños agricultores”. O jornalista Bernardo Gutierrez cita, nesta matéria, que José Luis Vivero Pol, da universidade belga de Lovaine, está trabalhando na frente de “comida aberta” da FLOK, que tem a ideia de “plantear una manera de producir, distribuir y consumir alimentos diferente del modelo consumista, extractivista, injusto y sostenible que tenemos”.

Outras ações realizadas são as #beer2peer, conversas informais (ou “desconferências”) em bares de Quito com pesquisadores e experts de diversas áreas – na 2º edição, Jérome Zimmerman, um dos 4 Cypherpunks do programa de Assange que re-publicamos aqui, esteve presente. Outro evento, marcado para o próximo dia 21 de março, é a Minga En Red, um mapeamento do ecossistema colaborativo do Equador. O grupo da FLOK Society, hoje, conta com 9 pesquisadores, dos mais diversos países, além de pessoal de suporte técnico, operacional e administrativo, e está ligado ao Ministério do Conhecimento e Talento Humano, SENESCYT (Secretaría Nacional de Educación Superior, Ciencia, Tecnología e Innovación) e ao IAEN (Instituto de Altos Estudios del Estado). 

Trabalhar com conhecimento aberto supõe, também, trabalhar em defesa de uma internet livre, com cultura e software livre. Pelo menos no que diz respeito ao SL, o Equador já está avançado: existe uma lei federal desde abril de 2008 que obriga a todas repartições públicas a usarem software livre em seus sistemas e equipamentos, o que potencializou a circulação e o desenvolvimento do SL no país. A presença de Julian Assange na embaixada em Londres, que já completou 1 ano e 6 meses, tem inspirado o Equador também a ser considerado a “casa da internet livre”, como apontado neste texto de Rosie Gray no Buzz Feed, tornando a neutralidade da rede – o tema mais polêmico da discussão hoje, março de 2014, sobre o Marco Civil no Brasil – um horizonte real.

Já a cultura livre está sendo acionada desde a ampla adoção de licenças Creative Commons até a discussão sobre os processos da FLOK em wikis e pads, inclusive na produção colaborativa de um Código Orgânico de Economia Social do Conhecimento e na guerra contra o copyright deflagrada pelo governo, como bem afirmou em entrevista ao jornal El Comercio o Secretario Nacional de Educación Superior, Ciencia, Tecnología e Innovación do Equador, René Ramirez:

Va a haber una reestructura completa del IEPI (Instituto Ecuatoriano de Propiedad Intelectual). Este Instituto ha tenido una perspectiva ‘hiperprivatista’ del conocimiento, cuando lo que necesitamos es la difusión del conocimiento, que exista desagregación tecnológica que permita que la industria nacional desarrolle productos que, con poco esfuerzo, otros países lo están haciendo.

equador 2

O projeto da FLOK Society – e, de resto, o buen vivir  do Governo Correa – tem sido bem recebido no cenário internacional, como mostra a lista de textos produzidos sobre o projeto no site oficial. Fala-se do caráter inovador de uma política de estado adotar diretrizes que, em suma, vão “contra” ao capitalismo de mercado, ainda que muitas práticas não sejam de todo contrárias a ele, como escreve o jornalista Oliver Bach em matéria no The Guardian. Pega-se o caso do consumo, por exemplo: o que se defende é o consumir menos, “Small is beautiful”, como diz um dos coordenadores do projeto Eduardo Gudynas:

“Small-scale production has a number of benefits: it’s more likely to reflect and enhance local culture, to include local people and to protect the local environment. Importantly, it also has a higher probability of serving local needs too. The days of industrial agriculture geared for export would be numbered therefore”.

Antes que você queira colocar o Equador junto do Uruguai na rota possível de migração do Brasil, há alguns pontos ainda não esclarecidos e contraditórios nas iniciativas equatorianas. A transparência e a liberdade de expressão estão em desacordo com a polêmica Lei de Medios, muito criticada pelo excessivo controle estatal, por exemplo. A internet livre, outro ponto fundamental para a FLOK Society, fica em cheque com a intenção do governo de montar sua própria agência de vigilância ao estilo “NSA”, como diz o BuzzFeed, citando documentos que comprovam a procura por equipamentos de espionagem de empresas israelenses -e, também, afirmam que o Governo Correa monitora seus adversários políticos. 

Em final de maio (27 a 30) a FLOK Society vai realizar um encontro internacional de ativistas e pesquisadores do conhecimento livre, uma ocasião em que estas contradições certamente serão debatidas. Será a vez de ver o quanto avançou o pensamento e, principalmente, a prática do conhecimento livre no Equador desde aquele dois dias do final de maio de 2013, na Biblioteca da Flacso, onde o II Festival de Cultura Libre tomou parte.

Imagem: 1: Luke Macgregor / Reuters (Buzzfeed)

A sutileza poético-ativista PORO

perca-tempo-panfleto

Fazia tempo que queríamos conversar um pouco com PORO e eis que neste fevereiro de 2014 isso foi possível. Por quê?

Bem, vamos por partes. A primeira coisa a dizer sobre eles, antes de qualquer explicação, e caso você não os conheça, é: vá ao site e flaneie pelas intervenções urbanas e ações efêmeras, projetos, publicações, vídeos, fontes (sim, eles produzem fontes!). Não se esqueça de ir na seção de downloads, cheia de material para baixar e espalhar por aí.

Foi?

Então a segunda coisa que vamos dizer aqui é que eles são uma dupla mineira – Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada. A terceira é que eles atuam desde 2002 em “trabalhos que buscam apontar sutilezas, criar imagens poéticas, trazer à tona aspectos da cidade que se tornam invisíveis pela vida acelerada nos grandes centros urbanos, refletir sobre as possibilidades de relação entre os trabalhos em espaço público e os espaços “institucionais”, lançar mão de meios de comunicação popular para realizar trabalhos, reivindicar a cidade como espaço para a arte”, segundo a explicação que eles apresentam no site.

Este belo doc aqui abaixo conta um pouco da trajetória do PORO.

 

A quarta é que lembramos deles neste fevereiro de 2014 por conta do lançamento do ebook do livro deles “Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos“. No trabalho, disponível pra download gratuito, está um panorama da produção do grupo nos 14 anos de vida até hoje, relacionando a produção do Poro a uma discussão sobre ações artísticas que promovem a percepção sobre o espaço público, cidade, patrimônio, memória, trabalho colaborativo, inserções artísticas e relações entre arte e política.

Desde já, é uma obra de referência sobre a produção contemporânea de arte pública (public art) e suas conexões com a mídia tática, apropriações midiáticas, culture jamming, site specific, entre outros temas que volte e meia também tratamos por aqui. Recomendamos a compra do exemplar impresso (R$35), mas caso você não queira ou possa no momento, leia aqui abaixo, no Issuu:

*

O papo rolou por e-mail, com alguns complementos por chat. No final da entrevista, publicamos alguns cartazes e as capas dos panfletos de algumas intervenções do PORO – que, lembrando sempre, você pode (e deve) baixar e sair espalhando por sua cidade.

B: Vcs começaram em 2002 a trabalhar com uma arte que não deixa de ser ativista (ou um ativismo que é arte), e fazem isso até hoje. Como vcs chegaram a este modelo/estratégia de “ativismo poético”? veio de um processo natural de inquietação com as formas de arte ditas tradicionais?

Sim, podemos dizer que isso veio naturalmente a partir da soma natural de vários desejos: ocupar o espaço público de forma crítica e poética; refletir sobre as questões das cidades contemporâneas; atuar na esfera do simbólico e do imaginário urbano; investigar o aspecto gráfico das formas de comunicação popular; criar pequenos intervalos de silêncio e encantamento na malha urbana; experimentar possibilidades de uma arte expandida, para além do sistema institucional da arte (às vezes criando diálogos e transbordamentos com esse sistema).

Nunca tivemos nada contra as formas de arte mais “tradicionais” pelo contrário a gente se interessa do mesmo jeito, mas desde o início de nossa trajetória sentimos uma espécie de mal estar com as relações institucionais que de alguma maneira burocratizam a arte. Daí foi que caminhamos para fazer uma trilha mais livre, mais solta, buscando experimentações plásticas/gráficas, buscando espaços para ocupar/atuar, tentando tecer redes de pessoas e grupos de várias partes do Brasil e buscando uma rede de produção paralela às instituições, baseada na amizade e no contato com pessoas que têm os mesmos desejos.

E a cidade veio como um lugar também natural, onde era possível sentir a pulsão na nossa frente, e a nossa poética foi se estabelecendo a partir da vontade de interferir, mesmo que numa escala do sutil, nos modos como as cidades estão se transformando. Talvez chegamos às nossas táticas de atuação tentando responder à pergunta: Como discutir a cidade de uma maneira poética e próxima aos contextos onde os problemas urbanos acontecem?

B: Quais as principais dificuldades que vcs encontram pro trabalho? polícia, financiamento, não-entendimento/fruição do público?

Tem dificuldade não! O trabalho de arte para nós não deve ser algo difícil, complicado. Pelo contrário deve ser prazeroso, fácil de produzir e de circular. Talvez por sua simplicidade, o trabalho do Poro consegue estabelecer diálogos com diversas pessoas com os mais diferentes backgrounds, o que tem proporcionado circular nosso trabalho também fora do campo específico das Artes (com A maiúsculo) e está por aí, na cidade, nas casas das pessoas, nas festas, nas prateleiras… Gostamos disso: das diversas formas de fruição e compreensão do trabalho. Inclusive quando ele se mistura com outras coisas e às vezes se torna “não-arte”, isso é ótimo!

Acreditamos muito na filosofia do “faça-você-mesmo” e sempre produzimos com o que temos à mão. A questão é fazer!
Já ganhamos alguns editais e prêmios onde foi possível produzir os trabalhos de maneira mais estruturada. Mas achamos que o artista não deve ficar dependendo disso, até porque quem tem a pulsão criativa não aguenta esperar!

B: As ações de vcs são estão muito ligadas a rua, ao espaço urbano tomado como possível expressão poética da cidade. Já pensaram em usar a internet como palco/plataforma para apontar sutilezas e criar imagens poéticas também no mundo digital?

Desde o início da nossa atuação, usamos a web como canal de difusão de nossas ações, seja através da veiculação de registros das intervenções, seja distribuindo as matrizes digitais dos panfletos/adesivos/carimbos, seja circulando proposições para que as pessoas experimentassem realizar as intervenções em suas cidades. Para isso já usamos as mais diversas táticas, como o que chamávamos de panfletagem eletrônica (via email) ou os convites para imprimir, xerocar e distribuir os trabalhos (a partir de nosso site).

No caso da circulação dos registros das intervenções, a produção e edição dos vídeos e fotos dos trabalhos passa pela criação de novas narrativas sobre aquela intervenção. Pois os registros vão ressaltar determinados aspectos do trabalho e vão ser fruídos em locais totalmente diferentes daqueles onde as intervenções foram feitas. Isso cria novas camadas de percepção sobre os trabalhos e sobre o espaço público.

Vale ressaltar que a internet é nossa grande aliada na “permanência” de nossas obras. Explicando: como a maioria de nossos trabalhos são efêmeros, ou muito sutis, passam muitas vezes despercebidos no espaço urbano e os registro e sua circulação pela web provocam um outro tipo de duração e significados.

Inclusive convidamos os leitores para baixar um de nossos últimos trabalhos: a fonte digital PARKING.TTF (disponível em www.poro.redezero.org/fonte), uma fonte digital inspirada nos estacionamentos das grandes cidades. Bora fazer arte no editor de texto do seu computador!

B: Em ano de Copa, mil holofotes apontados para o Brasil e outros tantas manifestações previstas/necessárias, vocês planejam alguma ação específica? Uma pergunta/desafio: como usar esse fardo gigantesco da copa pra dar luz a lugares/pessoas esquecidas e fazer algo pra mudar essa relação?

Essa coisa toda é super complexa. As paisagens das cidades estão borradas, sem poesia. Temos participado deste processo todo de outras formas também, além da arte, participando das reuniões e debates, protestos e mobilizações.

Mas o movimento mais importante já está sendo feito: uma mudança na consciência simbólica das pessoas. Muita gente está manifestando, ou está em reuniões de assembléias populares, conversando sobre política, dormindo nas ocupações, pulando catraca pela primeira vez… Isso é incrível e é um aprendizado fantástico, para nós todos e especialmente para os mais jovens. A experiência fica impregnada em quem participa. E todo mundo passa a entender a cidade de outra forma. Ampliando o olhar sobre as formas de viver e fazer política. As pessoas estão ocupando as cidades e esse sempre foi o nosso sonho!

Ainda não realizamos um trabalho específico sobre a copa, mas temos algumas coisas em gestação… fiquem de olho no nosso site e no Facebook do Poro.

B: Como vocês perdem tempo?

Lemos artigos no Baixacultura (que a gente adora). E além daquelas 20 maneiras que publicamos nos panfletos da série Perca Tempo, a gente também: anda de bicicleta, percorre paisagens, encontra os amigos, cuida de plantas, faz sucos experimentais de frutas, joga conversa fora, desenha, fotografa, faz inúmeras anotações em caderninhos, inventa moda, arruma problema… na verdade a gente não para quieto…

foto poro 1

foto poro 2

imagem poro 4

imagem poro 5

poste poro

siga-sem-pensar

10-maneiras-incriveis-de-perder-tempo

Quem tem medo de hacker?

A burglar opening a safe that is a computer screenLaboratório Hacker na Câmara dos Deputados, que inaugura hoje, promete ser o posto mais avançado de influência política de uma cultura fundamental na internet

Você ainda se assusta quando houve o termo “hacker”? Acha que eles são seres exóticos, madrugadores diante de uma tela preta de código alimentados a pizza e coca-cola que quando menos se espera descobrirão todas as suas senhas, apagarão todos os seus arquivos, rodarão scripts que vão “raspar” todos os seus dados na rede e ainda escreveram mensagens engraçadinhas em cores berrantes na tela de seu computador ?

Se você está lendo esse texto provavelmente não acha nada disso, embora algumas das ações escritas acima são  mesmo corriqueiras no mundo hacker (descubra qual/quais e ganhe um doce!). Já não é de hoje que o termo perdeu aquele nefasto significado de “piratas de computador” que filmes e jornalistas usavam e abusavam na década de 1990 até pouco tempo atrás, para falar dos “perigos” da internet. Com a onipresença da tecnologia digital e o “big data”, hoje  dá até pra dizer que o hacker está mais pra herói do que vilão – é aquele que, armado com dados abertos e conhecimentos avançados de linguagens de programação (mas não só; conhecimento de qualquer coisa pode servir para “hackear algo”) ajuda a sociedade a entender como funciona para, então, agir nela com eficiência e transparência.

Uma das mais importantes provas desse “hackeamento” simbólico do termo acontece hoje, junto ao todo-poderoso Congresso Nacional. Lá vai se dar a inauguração “oficial” do Laboratório Hacker, um espaço aberto de encontro de hackers diversos para a troca de conhecimentos sobre transparência, dados abertos, políticas públicas, cultura livre e o que mais caber no caldeirão de assuntos que interessa aos hackers (e a sociedade). Durante todo o dia de hoje (18) e amanhã (19) serão realizadas atividades sobre estas temáticas, com a participação de gente de todo o Brasil, além da apresentação das competências e objetivos do LabHacker, planos de trabalho, conversas sobre como funcionará o laboratório, palestras e conversas com deputados – até o presidente atual da casa, Henrique Eduardo Alves, estará no espaço, às 11h da quarta feira 19 (confira aqui a programação completa dos dois dias).

*

Uma referência fundamental para entender que diabos é este tal hacker é o livro de Steven Levy, “Hackers – Heroes of the Computer Revolution”, publicado em 1984 nos Estados Unidos e em 2001 no Brasil. Nele, Levy analisa o período de 1958 a 1984 para dizer que os primeiros hackers surgiram a partir da década de 1950, primeiramente dentro do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e depois na Califórnia, quando professores e alunos passaram a usar o termo para descrever pessoas com grande habilidade técnica na informática, que aprendiam fazendo, através da prática, e se tornavam excelentes programadores e desenvolvedores de sistemas, mas não raro péssimos alunos – muitos nem chegavam a terminar a graduação.

Estes hackers – alguns dos que Levy cita são Steve Jobs e Steve Wozniak, criadores da Apple, e Ken Willians, um dos primeiros desenvolvedores de games – são (ou foram) autodidatas, apaixonados pela solução de problemas a ponto de varar madrugadas na resolução de algo que não tivesse funcionando. Com esta determinação é que foram se convertendo em excelentes programadores de sistemas e desenvolvedores de hardwares, e, com isso, personagens importantes no desenvolvimento da informática e da internet que hoje conhecemos.

É do trabalho mais recente da antropóloga Gabriella Coleman, de 2013, uma das mais precisas definição de hacker: “computer aficionados driven by an inquisitive passion for tinkering and learning technical systems, and frequently committed to an ethical version of information freedom”. Como principais características do grupo, a pesquisadora traz a subscrição a ideais de liberdade de acesso à informação, que levam a uma ética de compartilhamento, e a apropriação de tecnologias, no sentido de compreender seu funcionamento e desenvolver a capacidade de modificá-las, para benefício próprio ou coletivo. Coleman chegou a estas características a partir de um estudo etnográfico com hackers envolvidos no movimento open source e as apresenta no livro “Coding Freedom: The Ethics and Aesthetics of Hacking”, recém lançado e disponível pra download de graça.

**

Hackathon

Voltando ao Laboratório Hacker: vale lembrar que apesar de hoje ser a inauguração “oficial”, ele está em pleno funcionamento desde janeiro, tendo já realizado duas reuniões (abertas) para discutir o funcionamento do espaço e sua função junto a câmara. Ele também não nasceu “do nada”; é  fruto de articulações diversas que já acontecem faz alguns bons anos, especialmente a partir de congressistas e pessoal “.gov” com integrantes da Transparência Hacker, uma comunidade de cerca de 1500 hackers, jornalistas, acadêmicos, ativistas, designers, programadores, advogados que trabalham em prol de transparência pública e dados abertos.

Um dos pontos-chaves para a criação do Lab se deu nos dias 30 de outubro a 1 novembro de 2013, quando foi realizado o 1º Hackathon da Câmara dos Deputados. “Hackathon”, pra quem não é familiarizado com o termo, é como se costuma chamar maratonas de desenvolvimento de ferramentas/aplicativos/sites com dados, normalmente públicos, em um tipo de prática que tem se espalhado no mundo inteiro a partir das políticas de transparência e “open data” adotadas por diversos governos no mundo (outra hora eu talvez fale um pouco mais disso por aqui). No caso do hackathon da câmara, 27 projetos – selecionados entre 99 inscritos – levaram cerca de 45 hackers para os aposentos do Congresso Federal para trabalhar na produção de ferramentas com os dados abertos disponibilizados pela Câmara. Os três”vencedores”, que ganharam 5k cada para tocar em frente seus projetos, foram O “Meu Congresso Nacional“, que acompanha de perto os dados das movimentações dos Deputados e Senadores no Congresso Nacional; .”Monitora Brasil”, um serviço para celulares que serve para que o eleitor acompanhe as atividades dos deputados; e o Deliberatório, jogo de cartas criado a partir da simulação dos processos legislativos da Câmara.

Nos dias do hackathon, um momento útil pra entender o processo foi o tete-a-tete com o já citado Henrique Eduardo Alves e o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), mediado por Daniela Silva, integrante da Transparência Hacker. No vídeo acima, que mostra esse encontro, ali pelos 12min e 40s, Pedro Markun, também integrante da THacker, questiona o deputado: ‘transparência não é só dado aberto, mas também processo político. E abertura de processo político é muito mais difícil de fazer do que abertura dos dados. Se a gente quiser mudar realmente a cultura, vamos precisar de algo permanente”.

É a deixa para Henrique Alves elogiar a atitude do hacker e se comprometer, publicamente, na manutenção desse espaço permanente. “Eu vou determinar o diretor geral da câmara que, encerrado esse trabalho, nós possamos ter um movimento permanente do hack dessa casa”. Ali ganhava corpo o Lab, uma ideia que tem sua origem também num rascunho de lei sobre a criação de um “hackerspace” na Assembléia Legislativa de São Paulo, ideia por sua vez “jogada” por Markun no Facebook no dia 3 de outubro.

Com um laboratório permanente de hackers no centro do poder nacional, o desafio agora é que ele busque transformar também os processos legislativos, tornando-os, no mínimo, mais transparentes e participativos – atendendo inclusive uma das principais demandas reivindicadas nas ruas desde os protestos de junho de 2013.  Afinal, quem (ainda) tem medo de hacker?

***

Paradoxos do Brasil brasileiro: no mesmo dia que inaugura o LabHacker está marcado, finalmente, para votação na Câmara o Marco Civil da Internet, a “Constituinte” da internet que deveria garantir os direitos de quem usa a internet no Brasil. Deveria, porque a versão proposta em 11/12 do ano passado prevê a coleta em massa obrigatória de metadados (informações para identificar, localizar e gerenciar os dados) de pessoas não suspeitas. Segundo o art. 16, qualquer funcionário administrativo, policial ou membro do Ministério Público pode requerer os chamados logs de aplicação, que são os metadados dos serviços que você frequenta na Internet. Na explicação de ativistas que acompanham as discussões do marco faz anos, isso significa que se criaria no Brasil legislação que permita vigiar todos nós, assim como a NSA faz com cidadãos de todo o mundo, sem que para isso tenha que se ter uma suspeita razoável. O relator do projeto, deputado Alessando Molon (PT-RJ), diz que não fará nenhuma alteração neste artigo. Será que vai acabar nossa privacidade de vez na rede?

[L.] 

Foto: EBC