BaixaCharla ao vivo #4: Cooperativismo de Plataforma

A quarta BaixaCharla ao vivo vai tratar de um pequeno livro e uma ideia poderosa: cooperativismo de plataforma. Publicado em março de 2017 pela Editora Elefante em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, com tradução e comentários de Rafael Zanatta, o livro é fruto de uma conferência do autor – Trebor Scholz, professor associado da The New School, em Nova York, nos Estados Unidos – em que mais de mil participantes discutiram ideias para a criação de um novo tipo de economia online em contraponto à chamada economia do compartilhamento.

O texto de apresentação do livro, escrito por Daniel Santini e Ana Ruschë, introduz à crítica a esta nova roupagem de um velho sistema de exploração capitalista, agora alimentado por tecnologias vigilantes e desregulação de mercados. “A ideia de uma nova economia, mais inteligente e dinâmica, em que liberdade e facilidade valem mais do que posse absoluta e exclusiva de objetos, ganha força. Por que ter um carro se eu posso conseguir um com motorista em dois cliques no celular, a um preço razoável? Ou, invertendo a lógica, por que manter aquele quarto vazio nos fundos da casa quando alguém poderia aproveitar esse espaço? Para que deixar a bicicleta encostada ou um livro mofando? Por que não aproveitar melhor as coisas?”

Mas as coisas não são tão simples assim, como todo mundo que já tenha olhado para o lado e visto à abolição das leis trabalhistas no trabalho de entregadores de iFood, Rappi, Uber Eats e nos motoristas de aplicativos. “Seja pela noção ecológica de dar vida útil maior às coisas, seja pela sedução que as novas tecnologias nos imprimem em um cotidiano tão veloz, seja pela necessidade de complementação de renda ou pelo desemprego, o atual pacto do ubercapitalismo está acessível a poucos toques: em um aparelhinho na palma da tua mão. Cantando as maravilhas que sempre desejamos – horários flexíveis, valorização do acervo e das habilidades pessoais –, nos fisga com um desejo antigo: a ilusão de não se subordinar e de finalmente tomar as próprias decisões.”

O fenômeno está diretamente relacionado à fase atual do capitalismo e se repete, em diferentes intensidades, em todo o planeta, explicam Santini e Ruschë na apresentaçaõ.  Para ajudar a pensar em estratégias de fuga desse sistema, a ideia do Cooperativismo de plataforma proposta por Trebor Scholz questiona o modelo de propriedade para a Internet. Em vez da economia de compartilhamento vendida como um pacote de “ideias geniais” (cuidadosamente fomentadas por departamentos de marketing de empresas), o que o autor propõe são plataformas de cooperativismo “de propriedade coletiva, possuídas pelas pessoas que geram a maioria do valor nessas plataformas, [e que] podem revigorar essa mentalidade pública inicial. O cooperativismo de plataforma pode mudar o modo como pessoas comuns pensam sobre suas relações na Internet.”, diz o professor.

O tom otimista do livro reflete um momento histórico e um lugar: um começo de propagação de iniciativas cooperativas em alguns países do norte global, onde um sistema mais sólido de bem-estar social, com direitos trabalhistas e condições de emprego, moradia e alimentação mais robustas que o sul. Por isso, algumas ideias do livro podem soar utópicas para nós, brasileiros, ainda mais neste distópico 2019 de Bolsonaro. Mas, ainda assim, são ideias que tem a força de nos inspirar e imaginar realidades diferentes das atuais, algumas mais outras menos difíceis de serem implantadas.

“Daqui a trinta anos, quando enfrentaremos o fim das profissões e mais empregos serão ‘uberizados’, podemos
muito bem acordar e imaginar por que não protestamos contra essas mudanças. Podemos sentir remorso por não termos buscado alternativas, mas não podemos mudar o que não entendemos. Portanto, estou perguntando o que significa a ‘economia do compartilhamento’?”[Trebor Scholz]

O livro está disponível para download no site da Fundação Rosa Luxemburgo.

Esta é uma edição especial da BaixaCharla. Será realizada dentro de uma estúdio, em sala de aula da disciplina de Cibercultura, à convite do professor Andre Deak, na ESPM São Paulo. Por isso, terá a participação dele e de seus alunos, com perguntas e interações diversas na charla com Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, que detalhará as cinco partes dos livro relacionando com outros exemplos além dos citados na obra.

Fica ligado: quarta, 16/10, às 11h30, no YouTube e no Instagram do BaixaCultura.

 

 

Streaming e a “pirataria” digital atuam em parceria?

Faz alguns anos que, aqui no BaixaCultura, temos uma seção em que publicamos trabalhos acadêmicos (TCCs, dissertações e teses) sobre os temas que tratamos (cultura livre, direito autoral, compartilhamento, “pirataria”, guerrilha da comunicação, contracultura digital, tecnopolítica), acompanhados de textos mais soltos que apresentam os trabalhos. Alguns dos trabalhos trataram, por exemplo, da relação do jornalismo com o compartilhamento a partir do The Pirate Bay; das táticas antimidiáticas contra o biopoder de Luther Blisset; da batalha entre propriedade intelectual e a cultura livre; um zine-dissertação que fala de produção de conhecimento.

O de hoje é a tese de Andressa Soilo, pesquisadora e agora doutora em Antropologia Social pela UFRGS. Abaixo está o texto que ela fez especialmente pra apresentar sua tese; ao final, seu trabalho está disponível na íntegra.

[Leonardo Foletto, editor]

 

O tema de minha tese surgiu de meu interesse pela prática da pirataria, e da então atraente e promissora tecnologia streaming. Em 2015, quando ingressei no doutorado em Antropologia Social na UFRGS, quando ainda sondava a temática de minha futura tese, o streaming vivia o apogeu de sua popularidade enquanto meio de distribuição e consumo de entretenimento, e irrompia como promessa, esperança, solução para aqueles desconfortáveis com a prática dita “pirata” – acesso não-autorizado de conteúdo.

As expectativas e os novos ares que tal tecnologia mobilizava à época estavam associados, sobretudo, a um possível declínio, e até morte da pirataria em razão das (cativantes) plataformas de streaming existentes. Essa atmosfera mobilizou não apenas um estranho frenesi pelo possível óbito de uma prática que resistia há duas décadas a nível global, mas também meu interesse em analisar as relações entre as plataformas de transmissão instantânea e a pirataria. Afinal, seria o colapso de um meio de acesso a conteúdo altamente popular? Seria o fim da pirataria? Quem recorreria a tal prática após a sólida notoriedade de serviços como Spotify e Netflix? Estaria a pirataria tão distante de tal tecnologia?

As perguntas eram diversas. Não havia quem, em meu círculo social, que não comentasse de alguma série ou documentário que assistiram na Netflix, ou que não mencionasse as playlists que faziam ou que lhes eram recomendadas pelo Spotify. O que a pirataria tinha a ver com essa localização de diversos adoradores do entretenimento na legalidade? Muito.

No período de julho de 2015 a maio de 2019 analisei, através etnografia no campo digital, as relações entre pirataria e o mercado legalizado de streaming de filmes, músicas e produções correlatas. Minha pesquisa teve como interlocutores, dados, campo e meio de transporte ao campo, o espaço digital oportunizado pela internet. Os agentes, as interações observadas, os dados produzidos foram possíveis através de redes de transmissão de dados, backbones, provedores de acesso, url’s (Uniform Resource Locator), sites, programas, algoritmos, hardwares, entre tantos outros agentes sociotécnicos capazes de produzir e estabelecer mediações entre pessoas e o contexto digital.

Analisei, especialmente, manifestações de serviços de streaming que tem como principal finalidade a venda de acesso/assinatura, como Spotify, Deezer, Netflix, Tidal, Hulu e Amazon Prime Video; as agências de 314 interlocutores localizados em 31 países praticantes da “pirataria” na mídia social Reddit, mais especificamente no subreddit Piracy; e a agência do programador da plataforma de streaming Leonflix, plataforma considerada pirata.

Após inúmeras horas de interação e análise no campo digital e depois da coleta de centenas de relatos e discursos de interlocutores, foi a mim possível visualizar respostas às perguntas que inicialmente me instigaram a produzir minha tese.

A pirataria não se apresenta “fora” da distribuição e consumo legalizados do entretenimento. Ela é uma coautora de tal formato de acesso, influenciando, inspirando e dialogando com o circuito da indústria formal. Minha pesquisa permite argumentar que a “pirataria” e os serviços de streaming atuam dialogicamente de modo a integrarem uma maleável e mutável cadeia relacional de negociações atravessada por moralidades, sentidos de justiça, criatividades, interações com a lei e desejos.

Constantemente ajustada por segmentos considerados ilegais, o mercado do entretenimento em streaming é produzido tanto por CEOS’s, produtores e artistas, quanto por programadores e usuários “piratas” que estabelecem, muitas vezes através de vias extralegais, os padrões do “dever ser” da indústria.

[Andressa Soilo]

A tese, chamada Habitando a distribuição do entretenimento: o regime de propriedade intelectual, a tecnologia streaming e a “pirataria” digital em coautoria“, está disponível para consulta e download.

Como usar torrent e baixar conteúdo compartilhado grátis

 

Em setembro de 2019, o CGI liberou novos dados sobre o uso da internet no Brasil. Já chegamos a 70% da população com acesso à internet, e 97% desse grupo faz isso via celular. O número disparou desde os últimos levantamentos, considerando que o acesso via celular e rede móvel propaga-se com muito mais facilidade que a distribuição via estrutura de telefonia fixa e máquinas de mesa. Em alguns lugares do país, é muito provável que se tenha internet via smartphone e 3G mas não saneamento básico. A maioria das pessoas utiliza a rede pra solicitar carros, comida, ou consumir música e vídeo por streaming, conforme dados da mesma pesquisa, que pela primeira vez reportou também como é utilizada a internet.

Mas a rede nem sempre teve essa configuração de acesso e uso.

Depois do surgimento da banda larga, quando os usuários ainda eram equipados por computadores e notebooks, a rede viveu um período de explosão de compartilhamento gratuito entre usuários, e que muitas vezes configurava pirataria de músicas, filmes, séries, livros, software e jogos de videogame.

Durante anos, a indústria sangrou, sofrendo com a pirataria, lutando judicialmente em busca da derrubada de sites, retirada de links piratas dos buscadores, e até denunciando usuários, que infelizmente eram feitos de exemplo para o resto da rede e podiam acabar presos ou recebendo multas estratosféricas por consumir conteúdo protegido pelo tão injusto direito autoral.

Demorou, mas apoiados pelo aumento da capacidade de servidores e da velocidade de conexão, os estúdios cinematográficos e gravadoras aprenderam que o usuário pirata estava disposto a pagar se tivesse acesso a essa possibilidade e apresentaram os serviços de streaming, usados hoje nos mais diferentes produtos (inclusive piratas, como o conhecido Popcorn Time), provavelmente por resolverem a questão com a solução mais fácil de todas: clicar e consumir instantaneamente.

Com a popularização desses serviços de streaming, no entanto, os membros do seleto oligopólio do entretenimento começam agora a bater cabeça. Artistas passam a assinar contratos exclusivos com serviços de streaming (como Beyoncé no Tidal), os grandes estúdios de filme passam a criar seus próprios streamings e barrar seus filmes dos outros (como é o caso da Disney, prestes a lançar o Disney+), e o usuário é obrigado a escolher entre Amazon Prime, HBO, Globoplay, Netflix ou Disney+, pra ficar apenas no audiovisual recente.

Nesse cenário, por motivos diferentes dos quais originalmente fizeram o compartilhamento livre tão popular, uma velha tecnologia reaparece com importância: o torrent, capaz de nos entregar, pelas mãos de outros amigos usuários, o conteúdo que a indústria quer que sejamos obrigados a escolher dentro de seus muros pagos.

Como o boom de acesso à internet veio depois dessa nova era, equipada por redes e aparelhos móveis, uma geração inteira de usuários não aprendeu a usar o torrent, e nunca teve interesse pelo compartilhamento gratuito e acesso indiscriminado de conteúdo protegido por direito autoral, uma discussão que já deu muito pano pra manga, e está passando por um novo período no Brasil, com uma consulta pública aberta recentemente, afim de reformular a Lei do Direito Autoral do país, uma das mais restritivas do mundo.

Pois então, está na hora de aprender a usar o torrent.

O que é exatamente Torrent

“Torrent” acabou virando verbo e sinônimo, o nome da tecnologia, do arquivo, do programa, do site e do processo de baixar arquivos. Tudo é torrent na cabeça de quem usa a tecnologia, e talvez por isso ela pareça tão misteriosa para quem nunca aprendeu como funciona.

Em termos técnicos, torrent é um protocolo de comunicação para compartilhamento peer-to-peer (P2P), utilizado para transmitir arquivos eletrônicos (definição via tradução livre da Wikipédia em inglês). Mas o que importa desse conceito é saber que torrent é o meio pelo qual usuários compartilham arquivos uns com os outros, através de suas máquinas.

O grande diferencial desse meio é o fato dele ser descentralizado, e não depender da conexão com um servidor que hospede toda a informação que se deseja acessar. Através do P2P, a máquina que quer receber o arquivo se conecta com diversas outras que já possuem o arquivo, e recebe pequenas partes dele vindas de cada um até ter o arquivo inteiro.

Digamos assim: em vez de pedir pra um amigo trazer o fardo de cerveja para o churrasco, solicito uma lata pra doze amigos, dividindo o fardo entre todos. O churrasco recebe a mesma quantidade de cerveja, mas o risco do amigo não trazer a dúzia e deixar todo mundo na mão é pulverizado nos doze participantes, que além de dividirem os custos do fardo, dividem a responsabilidade de fornecimento, numa parcela reduzida.

Como funciona o P2P (peer-to-peer)

Comparativo: rede P2P vs rede com servidor centralizado

É diferente de como utilizamos a internet normalmente. Em vez de entrarmos no navegador ou aplicativo, digitarmos um endereço e solicitarmos uma conexão com o servidor do site que buscamos, o qual entrega essa conexão baseado na velocidade do servidor único, acontece mais ou menos o seguinte:

  1. Entramos em um site que hospeda torrents (aqui estou usando o termo genericamente);
  2. Procuramos por um link magnético daquele arquivo que queremos baixar;
  3. Esse link magnético contém um arquivo .torrent com um código (chamado hash) que é aberto em um programa (chamado cliente);
  4. O cliente abre o link magnético e solicita que se escolha onde se deseja salvar o arquivo e quais partes dele queremos baixar;
  5. O cliente, que está servido dos rastreadores (chamados trackers), usa o hash para buscar todos os usuários que possuem uma cópia do mesmo hash em seu computador e estão com seu próprio cliente de torrent aberto, podendo copiá-lo;
  6. O cliente de torrent faz a cópia do arquivo para a sua máquina no local onde escolheu salvar.

Essa cópia de arquivo é feita simultaneamente em diversas máquinas, até centenas, caso seja algo que muitas pessoas estão compartilhando (digamos, o último episódio lançado de Game of Thrones).

Percebe-se que diversas partes desse fluxo que relatei acima não são realizadas pelo usuário, apenas fazem parte da tecnologia. O que o usuário precisa fazer mesmo é baixar um cliente de torrent, entrar num site de torrent, escolher o arquivo pra baixar, e selecionar onde salvar ele na máquina. Só isso basta pra começar a utilizar torrent, e são essas etapas que vou descrever abaixo.

Como usar: Passo 1 – Baixar um cliente de torrent

O cliente de torrent é o programa que tem que estar instalado no seu computador para abrir os links magnéticos de torrent. Como descrevi antes, é ele que consegue pesquisar o hash na rede e descobrir outros usuários que tem o arquivo que será copiado pra sua máquina.

Existem diversos clientes de torrent internet afora, sendo o mais famoso o uTorrent, o qual eu não recomendaria porque nos últimos anos teve alguns problemas de ramsonware em anúncios com Flash que rodavam dentro do programa, e por minerar criptomoedas no computador de usuários [ref Tecnoblog].

Utilizo o qBitTorrent, que é muito satisfatório, possui todas as funcionalidades necessárias, e não tem anúncios. Nessa lista temos ainda outras opções de clientes, o que pode ser útil para ajudar a escolher.

Como usar: Passo 2 – Entrar num site de torrents

Sites de torrents são como uma mato fechado que volta a se fechar muito rapidamente depois de aberta uma trilha. É preciso entrar a facão toda vez que se deseja utilizar, mas depois de certo tempo começamos a conhecer a rotina e fica fácil. O usuário de torrent acaba se acostumando com o fato de que sites são derrubados e reativados todos os dias, e aprende como pesquisar de forma a sempre achar o melhor arquivo.

Recomendo pesquisar sempre pelo site torrentz2.eu. Esse nome engraçado é porque é uma reanimação do finado site torrentz, que foi fechado por questões ainda desconhecidas.

O torrentz2.eu é um buscador de torrents. Pesquise por ali o arquivo desejado, e receba numa lista todos os sites que hospedam aquele arquivo. Eu recomendo sempre escolher aquele site que oferece o arquivo com mais seeds, que pode ser facilmente entendido olhando no número indicado ao lado direito do nome do arquivo.

A homepage do torrentz2. Podemos ver que ele contabiliza quantos arquivos .torrent estão sendo buscados por ele
Uma página de buscas do torrentz2. Nessa lista estão todos os arquivos torrent que tem algo a ver com o que você pesquisou. Após clicar, você é redirecionado para uma página que contém os sites que hospedam aquele arquivo. Aí é só escolher uma página e aguardar ser redirecionado.

 

Depois de selecionar um arquivo, ele abre esta página, onde aparecem todos os sites que hospedam o arquivo. Clique em um dos sites para ser redirecionado ao arquivo.

Confesso que depois que o torrentz renasceu com esse novo nome, me tornei meio dependente dele.  Durante alguns meses do ano passado, ele ficou desativado (também por razões desconhecidas até hoje), e passei algum apuro pra encontrar arquivos. Vida longa ao torrentz2.eu, portanto. Para evitar isso, aqui tem uma lista de sites variados de torrent.

É isso: você entrou no site, achou o arquivo desejado, clicou no link magnético, e escolheu o lugar pra salvar o arquivo. Agora deve-se aguardar o arquivo ser copiado pra máquina, conforme a velocidade de download que o cliente informa em tempo real.

Como usar: Passo 3 – Navegar em um site de torrents

Sites de torrent estão um tanto defasados, eu diria. É claro que como os mantenedores estão preocupados em manter o pescoço sobre a água, tentando manter no ar um site que serve de abrigo para muita pirataria, não sobra muito tempo pra pensar em user experience e layouts intuitivos. Provavelmente a vida de um mantenedor desses sites deve ser infernal – e tudo costuma ser feito por motivação pessoal e esforço próprio.

Aqui abro um parênteses: a perseguição contra os sites de torrent deve ser sempre combatida pelo usuário. Fundadores do Pirate Bay já foram até mesmo presos com acusações muito duvidosas de infringir o direito autoral, sendo que o site de torrent não é responsável por pirataria de forma alguma. Perceba que nenhum arquivo pirateado é mantido dentro dos servidores do Pirate Bay, por exemplo. Os arquivos estão nas máquinas dos usuários. O trabalho deles é fornecer a chave que conecta um usuário interessado em copiar de outro interessado em repassar o arquivo copiável. Depois de uma das derrubadas do Pirate Bay, que viriam a se tornar frequentes, surgiu o doc”Steal This Film”, onde fica clara a luta da indústria contra o torrent. Exibimos certa vez ambos os filmes no ciclo copy, right?, lá em 2009, em Santa Maria-RS.

Além do mais, o torrent não é pirata por natureza. Se o conteúdo for compartilhado com licença Creative Commons ou for de domínio público, ele também pode ser dividido por torrent. Nem todo torrent é arquivo pirata, e nem todo arquivo pirata é torrent. Aqui um adendo: com receio de ser rastreado, muita gente tem o costume de usar VPN ao baixar um arquivo de torrent. O VPN (em inglês, Virtual Private Network) cria uma conexão segura e criptografada, como um túnel, entre o seu computador e um servidor operado pelo serviço VPN

Uma explicação sobre o compartilhamento aberto está nesse outro documentário, “Good Copy Bad Copy”, que também exibimos no ciclo copy, right? em 2009.

Pois bem, voltando aos sites de torrent: é recomendável baixar uma extensão bloqueadora de anúncios no navegador para evitar de clicar em um lugar errado dentro do site. Também é sempre bom passar o mouse por cima dos links e observar no navegador pra qual lugar eles direcionam antes de clicar.

O link correto pro arquivo magnético normalmente tem o desenho de um imã ou escrito “Download Magnet”, e quando se passa o mouse por cima do link vai aparece o endereço no canto inferior esquerdo do navegador como “magnet:[código aleatório]”
Como usar: Passo 4 – Achar o link magnético, abrir o arquivo no cliente de torrent e escolher onde salvar

Quando clicar no link, o navegador vai pedir para abrir no seu cliente de torrent. Aí é só aceitar e aguardar o seu cliente achar o arquivo na rede. Depois selecionar a pasta onde deseja baixar e clicar ok.

Depois de clicar no link, seu navegador pede pra abrir o tipo de arquivo com o programa de torrent do seu computador
Várias informações no cliente de torrent, mas destaco: qual arquivo virá dentro do torrent (só tem um, que é o episódio da série) e onde ele vai ser salvo.

É isso: você entrou no site, achou o arquivo desejado, clicou no link magnético, e escolheu o lugar pra salvar o arquivo. Agora deve-se aguardar o arquivo ser copiado pra máquina, conforme a velocidade de download que o cliente informa em tempo real.

Essa velocidade de download depende da quantidade de usuários online que estão te deixando copiar o arquivo naquele momento. E aí entra o conceito importante da utilização do torrent: seeds.

Como usar torrent corretamente (entendendo seeders e leechers)

Nesse ponto, consegui explicar como começar a copiar arquivos por torrent. O que foi explicado basta para o processo funcionar, mas para ele dar certo de verdade, é importante entender o próximo conceito.

Seeders e leechers (semeadores e sanguessugas) são como são referidos os usuários (peers) de torrent. Ao entrar no site de torrents e procurar o arquivo desejado, nota-se a quantidade de um e de outro que aquele arquivo possui.

SEEDERS são os usuários que possuem o arquivo completo e mantém o cliente de torrent aberto para que outros usuários possam copiá-lo.

LEECHERS, os sanguessugas, são os usuários que não tem o arquivo completo e não conseguem copiá-lo, e ao mesmo tempo também são aqueles usuários que não compartilham seus arquivos normalmente, seja porque diminuem a velocidade de upload ou porque não deixam o cliente de torrent aberto.

Ser um semeador ou sanguessuga depende de quanto tempo seu cliente de torrent fica aberto, e quantos arquivos você deixa outros usuários copiarem do seu computador. Ser um seeder faz com que você tenha prioridade nas filas de download, e ao baixar um arquivo ao mesmo tempo que diversas pessoas estão fazendo isso, você recebe o arquivo antes.

Ao deixar seu torrent aberto, você permite que outros usuários copiem arquivos do seu computador, e quando você precisar copiar, vai ter prioridade na fila.

Mas perceba que ter prioridade para baixar é apenas um bônus de ser um seeder. A verdade é que o torrent simplesmente não funcionaria se os usuários não deixassem o cliente de torrent aberto para outros poderem copiar.

Muitas vezes só encontramos aquele filme italiano dos anos 70 online porque algum usuário da Dinamarca deixou ele em seu cliente de torrent e manteve o programa aberto tempo o suficiente para que você possa copiar. E se você deixar aberto no seu computador também, já são dois usuários para que o terceiro possa copiar ainda mais rápido, e assim sucessivamente.

É por isso que baixamos arquivos quentes, como o episódio mais recente da série mais famosa, em até dois minutos. Muitas pessoas estão semeando esse arquivo ao mesmo tempo. Filmes e séries mais raros podem demorar mais, mas mesmo assim o torrent pode ser o único jeito de ter acesso aquela conteúdo que nos interessa. Eu mesmo só consegui terminar de assistir a série Friday Night Lights, uma série americana de 2004 que passava na televisão aberta, pela benevolência de algum usuário que até hoje mantém aquele arquivo semeado em seu computador.

Ou seja, para o sistema funcionar bem, é importante deixar o cliente de torrent aberto no computador. É claro que para não degradar a qualidade da sua navegação, é possível limitar a velocidade de upload, para digamos 100 kB/s. Dessa forma, você deixa a pessoa copiar o arquivo da sua máquina com no máximo essa velocidade, e a sua navegação não é prejudicada.

Retomar a independência online é importante

Usar serviços de streaming, como Netflix ou Spotify, se tornou um conforto incontornável. São milhares de músicas e filmes disponíveis para o usuário a um clique de distância. E muitas vezes não é preciso nem procurar: ele te sugere o que ver ou ouvir. E é no momento em que abdicamos de escolher ativamente o que queremos que perdemos a independência.

Mas apesar de oferecer milhares de filmes, é muito difícil sair da centena que o Netflix apresenta na primeira página. Alguns artigos na internet já surgiram distribuindo códigos para pesquisar mais profundamente nos anais do acervo, mas fazendo isso, perdemos toda a lógica de conforto que o serviço propõe (apesar de já ser melhor do que ficar olhando as mesmas séries banais recomendadas).

Mudando de mídia, imagine como era antigamente: ao adquirir um vinil, investíamos nosso dinheiro no valor que aquele álbum nos traria, e ele era nosso. O esforço se transformava em valor quando ouvíamos o disco, e podíamos escolher entre todos aqueles que estavam na nossa coleção, comprados por nós.

Agora, ao nos depararmos com a página inicial do Spotify, temos centenas de playlists indicando o que é mais ouvido, o que parece mais com nós, o que foi feito recentemente. Nosso gosto interessa levemente pra ele, o máximo suficiente para que paguemos pela sua atenção. Não é mais pela música que estamos pagando, e sim pelo serviço de nos dizer o que ouvir.

Mas como sabemos que o interesse de nos dizer o que ver ou ouvir é voltado pra nós?

Através do torrent, temos a liberdade de consumirmos o que quisermos, ao tempo que quisermos (sem a frustração do Netflix tirar a série que estávamos olhando) e podemos compartilhar o que quisermos, como retribuição.

Victor Wolffenbüttel

BaixaCharla ao vivo #3: Depois do Futuro, Bifo

Nossa terceira BaixaCharla falou de “Depois do Futuro”, de Franco Berardi, vulgo Bifo, publicado em 2009 na Itália e no Brasil este ano, na ótima coleção “Exit” da Ubu. Já citado nesse post e guia de nosso curso-experimento “Tecnopolítica e Contracultura“, o livro repassa as vanguardas do século XX para mostrar como o futuro, até os anos 1970, era visto com esperança e confiança. Depois de 1977, porém, o progresso como uma linha evolutiva para um mundo melhor, com mais conhecimento e tecnologia, se mostrou uma fantasia. Em vez de promissor e brilhante, o porvir que aguarda as novas gerações nascidas em berço digital, precarizadas e altamente conectadas, é incerto e amedrontador.

Como o texto de apresentação da obra comenta, “articulando referências culturais de arte, cinema e literatura e pensamento crítico, o filósofo e ativista italiano Franco “Bifo” Berardi, veterano do Maio de 1968, passa pelo Manifesto Futurista, pelo movimento punk do anos 1970 e pela revolução digital dos anos 1990 para concluir algo sobre o presente: somos incapazes de conceber o que ainda está por vir”. Bifo mistura em seu caldeirão de referências psicanálise, semiótica, filosofia, jornalismo, crítica cultural e da tecnologia, traz exemplos de situações e autores do Japão, Estados Unidos, Rússia e de sua pátria-mãe italiana para detalhar a perda de noção de que “no futuro será melhor”, tão em voga na modernidade, e que se exacerba com o zeitgeist de ressaca da internet que vivemos hoje.

Nessa charla, o editor do BaixaCultura, Leonardo Foletto, destrinchou a obra, especialmente seus capítulos 3 e 4, em que Bifo põe pra dialogar hackers, cyberpunks, pensadores e críticos da ideologia californiana do Vale do Silício. “Quando a disciplina industrial se dissolve, os indivíduos se encontram numa condição de aparente liberdade”. Nenhuma lei os obriga a se submeter às obrigações e à dependência. Mas àquela altura as obrigações foram introjetadas, e o controle social se exerce pela voluntária mas inevitável submissão a uma rede de automatismos”, escreve o filósofo italiano na página  do livro, e não poderíamos concordar mais.

Febbraio 1976. Iniziano le trasmissioni di Radio Alice dalla sede di via del Pratello. Una rara fotografia di Franco “Bifo” Berardi in diretta da via del PratelloArchivio Studio Camera Chiara

Ademais de um filósofo e pensador da arte, cultura e tecnologia contemporânea, Bifo também é um ativista e um ser da prática. Por isso, vamos também percorrer um pouco de sua trajetória enquanto ativista do “maio de 1968 que durou 10 anos” italiano, passando pelo coletivo A/Traverso, revista de efêmera e potente influência nos 1970; criação da Rádio Alice, em 1976, uma das primeiras rádios-livres europeias, que foi fechada em março de 1977, quando o estúdio foi invadido pelos carabinieri, como era conhecida polícia italiana. A Rádio influenciou muita gente da época e tem seu acervo parcialmente documentado online, além de ter uma base de sua história contada neste filme, Lavorare con Lentezza, lançado em 2004.

E seguimos falando um pouco de Bifo em sua estada em Paris, na França, onde conviveu com Félix Guattari e aprendeu muito da esquizonanálise que influenciaria sua abordagem teórica desde então. Viveu nos Estados Unidos, na década de 1980, onde escreveu sobre música, acompanhou de perto o movimento cyberpunk e a discussão sobre tecnologia no Vale do Silício, até voltar para sua Bologna natal, na Itália, nos 1990, onde esteve envolvido na criação de outro experimento midiático, a Orfeo TV, “a street television breaks the Italian regimented broadcasting network“, e do Rekombinant, um e-zine (já extinto, mas com parte do acervo aqui) que circulou entre 2000 e 2009, desenvolvido junto com Matteo Pasquinelli, outro autor importante italiano contemporâneo. Atualmente, leciona no Istituto Aldini Valeriani, uma instituição de ensino médio de Bolonha, e na Academia de Belas Artes de Brera, Milão.

Bifo tem mais de duas dezena de livros publicados em italiano, inglês e espanhol, de seu primeiro “Contra il lavoro”, de 1970, até seu mais recente, “Futurabilidade”, de 2019, publicado em italiano e em espanhol (pela Caja Negra, belíssima editora argentina), passando por “Ciberfilosfia” (1995), A Fábrica da Infelicidade” (2001), “Skizomedia. Trent’anni di mediattivismo” (2006), entre outros. No Brasil, até “Depois do Futuro”, só havia um único livro publicado, “A Fábrica da Infelicidade“, lançado em 2005 pela DP&A e hoje um tanto raro de se encontrar em livrarias físicas. Nos outros países da América Latina, porém, há mais traduções, das quais destacados também “Generación Post-Alfa”, da Tinta Limón, uma coletânea de textos lançada em 2007 que traz vários insights que estão em “Depois do Futuro” – vamos trazer alguns trechos deste livro também na charla, que está disponível para baixar em PDF de grátis.

Há um interesse crescente nos últimos anos na obra de Bifo, o que tem proporcionado muitas entrevistas em veículos jornalísticos, inclusive brasileiros, e algumas palestras que, transmitidas ao vivo, estão disponíveis na rede. Destacamos aqui duas entrevistas publicadas no IHU da Unisinos, no RS: “O que pode a vontade política contra a fúria financeira?“, de agosto de 2019; e “Para entender o fascismo dos impotentes“, de junho de 2019. E dois vídeos, também de 2019:

A charla foi ao ar no dia 3/9, às 20h30, conduzida por Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, e teve a participação (em áudios) de Leonardo Palma, a dupla que ministra o curso “Tecnopolítica e Contracultura”. Palma conhece a obra do filósofo italiano faz mais décadas e tem muito de sua bibliografia em PDF, que ele (garante) que vai disponibilizar para quem se interessar. Deixaremos aqui o roteiro do vídeo, com indicações de leitura, e o vídeo na íntegra. Dá para ler a introdução em PDF de “Depois do Futuro”, disponibilizada pela Ubu.

Aqui a conversa na íntegra:

 

Um empurrão para sair das redes sociais

Quantas horas você passa no celular por dia? Ver, ler, publicar, comentar, curtir e compartilhar nas redes sociais, e nos respectivos aplicativos nos dispositivos móveis, ocupam hoje em dia uma grande parte de nosso tempo. Seja do primeiro artefato que olhamos ao abrir os olhos ao último que levamos para nossas camas antes de dormir, nossos olhos estão sempre voltados para alguma tela. São aproximadamente 9 horas por dia para o brasileiro médio, geralmente dedicadas a alimentar redes sociais ou responder mensagens. Por meio de mecanismos que sequestram nossa atenção e moldam nosso conteúdo para ficarmos o máximo de tempo possível por lá, sofremos uma epidemia de procrastinações e ansiedades fabricadas por esse modelo. O quanto estaríamos perdendo fora destas plataformas? É realmente possível se relacionar sem uma rede social? Neste texto, Victor Veloso relata o que descobriu pensando nestas questões e, por fim, excluindo seu Facebook. É um empurrãozinho para os que possuem esse desejo mas não encontram motivos para fazê-lo.

Victor Veloso é atualmente mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo. Fez parte da equipe de Direitos Digitais no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), no qual esteve envolvido com tópicos de privacidade, transparência de algoritmos e acesso a Internet. Estuda atualmente a guerra cibernética entre Estados Unidos e China pelo controle da Internet e escreve no blog/Medium Pílula Tecnológica.

 

Se você já pensou em excluir suas redes sociais, aqui vai um empurrãozinho
Victor Veloso

Esse texto não é apenas a resenha de um livro. Ele também é um desabafo. É o resultado de um caminho mental que percorri com uma ideia gestada já há alguns anos. Desde que iniciei meus estudos sobre as relações entre tecnologia e sociedade, a parte que percebi quase onipresente na maioria dos debates contemporâneos foi referente a proteção de nossa privacidade em plataformas na internet, principalmente as redes sociais.

Ao conhecer o lado nocivo das transformações que o modelo de negócios e estratégias utilizadas por estas marcas trazia, o caminho natural seria de deleta-las. Afinal, ao tomar conhecimento das consequências de nossas ações, pode ser o suficiente para guiarmos as mesmas em outra direção, certo? Porém, foi mais complicado do que eu pensei.

Eu vivi nestes anos uma sensação estranha que algo além dessa parte racional agia sobre mim e me impedia de não utilizar essas plataformas. Era mais visível em alguns comportamentos e sentimentos que, analisados de maneira fria, eu achava bizarros. Exemplos:

  • Sentir que estar fora dessas plataformas me faria estar por fora da maioria das interações sociais. Provavelmente nunca teria o contato profissional dos sonhos ou não encontraria/manteria viva aquela amizade que estará por perto nos momentos mais necessários. Tudo isto só seria alcançado caso eu estivesse dentro destas redes. E quanto mais estas situações não aconteciam por esse meio, mais estranha minha presença se tornava ali.
  • Havia também a presença de um comportamento compulsivo de checagem constante das redes, em qualquer momento de tédio ou para procrastinar tudo. Um sequestro constante de minha atenção para um conteúdo raso e repetitivo, mas que me mantinha distraído por horas. Horas que poderiam ser voltadas para leitura de um bom livro, para escrita de um texto como esse, para atividades físicas e contato presencial com outras pessoas. (Eu me sentia em uma cena de um filme de terror e ficção científica quando havia um momento em que, numa reunião da família ou amigos, imperava um silêncio generalizado com todos mexendo em seus celulares).
  • Mas acho que o sentimento mais grave, que se associa a distopia constante do noticiário, é o de descolamento com outras realidades, as quais não mostravam sombra na minha timeline. Por meio das bolhas que a rede formava, a empatia pareceria mais uma exceção do que a regra em nossas comunidades. Era desesperador conversar com alguém de outra bolha, eu não entendendo nada do que ela falava e vice-versa, aparentemente. Um ambiente tóxico, que exalava competitividade por um suposto estrelato e evidência que a plataforma pode te oferecer e inundava-se de discursos de ódio e desinformação. A frustração por continuar a utilizar o produto de uma empresa que lucrava com o caos me confundia mais ainda.

Se você já alguma vez teve sensações parecidas e sentiu a mesma culpa pela improdutividade ou o mesmo desespero pela insanidade dos tempos atuais, aqui vai uma boa notícia: Talvez a culpa não seja sua. E talvez esse ambiente digital que você vive todos os dias esteja projetado para outros interesses do que para um convívio saudável. Leia esse texto como um empurrãozinho para experimentar uma dinâmica diferente de suas relações. Se você está feliz com essas plataformas, as reflexões deste texto podem te ajudar a mudar de ideia.

Sendo assim, aqui vai o meu desabafo.

(E também, uma breve resenha do livro 10 Argumentos para você deletar agora suas redes sociais, do tecnológo Jaron Lanier, que explora as estratégias obscuras das empresas do Vale do Sílicio e consequências do uso destas redes em nossas vidas. Se gostar deste texto, vale a leitura do livro)

Porque o Facebook é de graça?

Acho que a melhor resposta para essa pergunta seja contando a mentira implícita nela. É impossível que uma empresa bilionária, com valores que rondam a casa do 500 bilhões de dólares, esteja oferecendo algo ‘de graça’. E qual seria essa fórmula tão inovadora pra lucrar oferecendo algo sem custo? Bem, na verdade, o modelo de negócios do Facebook, como de qualquer outra rede social, não é novo.

Por mais que seja hoje um dos espaços de mídia que recebe mais atenção, a receita pro sucesso é mais antiga que as plataformas. Explorar comercialmente, por meio de anúncios, a atenção de uma audiência, geralmente atraída por entretenimento, já era algo utilizado pela televisão e pelo jornal há décadas. Entretanto, diferente de seus antecessores, o valor destas novas plataformas não recai em seu conteúdo e nas interações que os consumidores do conteúdo possuem. As interações que nós usuários temos entre nós e com a plataforma permite a estas empresas conhecerem nossos hábitos e prever nossos comportamentos. Mas para que isso serviria?

A obsessão no passado das agências de publicidade sempre foi a busca de uma mensagem que tocasse a maior parcela possível de uma população. Afinal, quanto mais afetados, maior o sucesso da propaganda. Tendo em vista nossas individualidades, o desafio seria superar as experiências subjetivas que cada um de nós possuímos, muito em parte do recorte social que participamos. Para complicar mais ainda, somam-se todas estas influências com nossa vivência individual. Como criar uma mensagem tão complexa que abranger tanto assim?

Com a passagem de nossa atenção da tela da TV para o smartphone, a busca se tornou quase oposta. Ao invés de abrangência, se buscava especificidade na transmissão da mensagem. Afinal, é mais efetivo que se encontre o cliente certo para o seu produto do que o seu produto ser encontrado pelo cliente certo.

Essa especificidade só foi possível por um fato novo que a migração para as plataformas digitais abriu: O poder de rastrear toda e qualquer ação de qualquer usuário ou usuária, estando ele dentro ou fora da plataforma. Poder este, claro, consentido pelo usuário à plataforma pela leitura rigorosa e atenta dos termos de uso que todo bom cidadão digital faz e da qual nem eu (e muito provavelmente você também) não faz parte.

Quando agregamos dos elementos mais explícitos, como, idade, gênero ou região, aos mais pequenos detalhes, como horário de uso da plataforma, tempo de leitura das publicações, termos escritos em comentários e publicações e até conversas privadas, é possível construir um gigantesco banco de informações, individual e coletivo, para a companhia.

(Ainda que fosse relevante falar sobre a quantidade e a variedade de dados que são coletados, isto ocuparia muito espaço. Se você nunca se preocupou com isso e quer tomar um susto, eu recomendo este, este e este link. E um aviso: A paranoia só cresce depois de um tempo)

Se algum momento você se sentiu familiarizado com essa conversa, deve estar esperando o famoso “Se você não paga, você é o produto’’. Este texto gostaria de ir um pouco mais longe. Você não está apenas entregando sua privacidade em troca de um serviço. Você está se sujeitando a uma máquina de manipulação comportamental, que está aos poucos deixando seu livre arbítrio de lado.

Viciar para manipular

A entrega de dados pessoais em troca de serviços não parece ser, à primeira vista, uma relação perigosa. Porque dar meu CPF, que não serve para nada no meu dia a dia, para um desconto na farmácia possa ser algo ruim? Na verdade, os prejuízos podem ser bem maiores que um desconto em seu desodorante favorito.

Incluindo a já citada coleta, o tratamento de dados na era digital também assumiu outro patamar. Além da grande quantidade e variedade, é possível fazer cruzamentos entre diferentes bases, encontrando relações que achávamos antes impossíveis. Imagine-se há algumas décadas atrás, fuçando em um baú velho com álbuns de fotos de família. Se você encontrasse uma foto de seu tio com um copo de cerveja na mão em uma festa no bar, sua reação provavelmente seria apenas rir das roupas e cabelos usados por aquele pessoal naquela época. Porém, na Internet isso é diferente.

A mesma foto postada em um álbum de qualquer rede pode ser escaneada, identificando o rosto de seu tio, o copo e vendo a localização de onde a foto foi tirada. Isso é muito interessante para companhias de seguro, já quem frequenta bares e bebe pode tanto morrer mais rápido quanto tem mais chances de bater o carro. Já imaginou uma seguradora entrando na sua casa, revirando seu baú de fotos até achar uma foto comprovando que seu tio bebe? É mais ou menos isso que acontece. Seria justo que hábitos tão íntimos possam ser expostos para outros agentes desta forma? Nossa privacidade tem preço?

Pode até ser justo, dadas algumas condições, mas essa discussão pode ficar para outro texto. Voltando pra bizarrice, a estratégia mais sci-fi destas plataformas está no chamado “behaviorismo”, uma área de pesquisa da psicologia que tem como principio geral o “aprendizado por reforço”. Ou seja, é possível educar (ou adestrar) alguém por meio de incentivos e recompensas para as ações que o educador considere corretas. É o petisco do cachorro quando ele faz o truque certo.

No caso das redes sociais, o petisco não é na barriga e sim no seu ego. Nossa expectativa nestas redes é de que ao nos expressarmos, teremos atenção de alguma maneira, seja por likes, comentários ou compartilhamentos de sua publicação. Há uma razão para sua foto de perfil nova ficar em evidência no newsfeed de seus amigos assim que você a troca: a sua expectativa de afagos e de aprovação social é a maior naquele momento. E faz com que a cada retorno seu a plataforma seja com a expectativa de mais likes e mais comentários sobre você surjam. Uma microdose de prazer é recebida pelo seu sistema nervoso. Nada melhor do que sua expectativa casando com a realidade.

Essa estratégia de manipular desejos é apenas uma das diversas feitas para literalmente viciar você nestas aplicações. A ótima reportagem da revista 1843, parte da The Economist, conta a história e traz outras estratégias como essas. Dela, cabe destacar uma citação que resume bem o modus operandi dessa artimanha (também destacada pelo engenhoso Podcast Tecnocracia):

“Não vamos nos distrair pelas nebulosas e impossíveis coisas de se observar como pensamentos e sentimentos, mas focar simplesmente em como o ambiente onde o usuário está inserido influencia o que ele faz. Entenda a caixa e você entenderá o comportamento. Crie a caixa certa e você controlará o comportamento”

Importante também entender que essa “caixa certa” é construída especialmente pra você. O algoritmo da plataforma não funciona de forma uniforme para todos. É dessa forma que o meu feed pode parecer muito diferente do seu ou do que uma pessoa de outra parte do complexo tecido social. A caixa possui, entre muitos, dois alicerces que gostaria de explorar: Manter e Engajar.

Manter é o que nós podemos traduzir como aquele constante reflexo de bater a mão nos bolsos para ver se o celular está vibrando ou checar o celular ao acordar de madrugada. Um tipo específico de ansiedade, presente em pelo menos metade dos usuários. Tem nome: Fear of Missing Out (Medo de estar por fora, na sigla em inglês FOMO). É a sensação de estar perdendo o próximo meme, a notícia bombástica ou a próxima vaga de emprego, somada a curiosidade de algum like, comentário ou mensagem, esperando a próxima dose de dopamina. A ansiedade e a tensão por estar fora desses meios apenas cresce, sendo quase inevitável não acessarmos o celular a toda hora.

Estando na plataforma, entram estratégias muito ligadas a indústria dos jogos de azar. Puxe a alavanca. Espere pelo prêmio. Puxe seu feed para baixo. Espere por conteúdo personalizado por você ou atenção em forma de interações na plataforma. O feed interminável também dá a impressão de existe algo para ser descoberta, já que o conteúdo da plataforma é produzido em escala massiva pelos próprios usuários, também presos pelas mesmas armadilhas.

Engajar é manter essa máquina girando. É manter os usuários produzindo mais interações, reagindo, comentando e compartilhando. Há, porém, dois tipos de conteúdo que engajam de forma mais efetiva o usuário do que o comum: o medo e o ódio. São sentimentos que apelam ao nosso lado animalesco de autoproteção e sobrevivência. Nossa hiperexposição a publicações como essas tem nos feito reagir exatamente da mesma forma.

Não que o engajamento feito desta maneira seja exclusivamente culpa da plataforma. Estudos em psicologia social tem indicado que há dois comportamentos que geralmente tendemos a seguir: o de lobo solitário e ou de alcateia. Os dois estão presentes em nós, podendo ser acessados e expressos, porém apenas um tem espaço por vez que pensamos e agimos.

Quando estamos como lobos, temos mais espaço para pensar, criar e improvisar. Existem maior cautela por falta de proteção, mas também maior liberdade para tomada de decisão. Quando estamos em alcateia, isso muda. Estar conectado e fazer parte do grupo ganha mais importância, podendo até superar a realidade objetiva que se apresenta para nós. Experimente colocar o espírito de alcateia em uma estrutura hierárquica e competitiva, como por exemplo em uma grande corporação, e observe para onde vai o senso de empatia e solidariedade dos indivíduos dali.

Nós não escolhemos estar em uma alcateia no mundo digital. O algoritmo que faz a curadoria da informação que escolheu por nós. E por isso sua linha do tempo está abarrotada com gente que concorda com você ou que pelo menos te provoca a ponto de você de ligar o modo textão. É um equilíbrio tênue, “não te provocar tanto para que você não abandone a plataforma de vez”, mas que pode ser muito efetivo para que você continue se engajando e provocando outros usuários também.

São estes alguns dos mecanismos que nos promovem horas de distração ininterruptas. No Brasil, a média é de mais de 3 horas em redes sociais e 9 horas na internet por dia. É mais do que a média global nas duas categorias. Estamos no foco de uma epidemia de distração, acompanhada de uma ansiedade e tensão generalizadas. Quem está ganhando com isso?

Manipular para vender (e algumas desilusões)

Voltando ao exemplo da “caixa certa”, novamente destaco que estas estratégias são utilizadas para todos, porém não de maneira uniforme. Indivíduos podem ter reações diferentes a estímulos iguais, da mesma forma que estímulos diferentes podem chegar a um mesmo resultado.

O algoritmo funciona da mesma forma. Ele se adapta a maneira que você responde ao estímulos oferecidos por ele. O “petisco’’ dado a você não funciona de primeira? Tudo bem, vamos mudar de agrado. Não funcionou novamente? Vamos ver com quem você está trocando mais mensagens em sua lista de contatos usando um aplicativo da mesma companhia. Que interesses estas pessoas possuem? Será que se eu recorrer aos milhões de parceiros comerciais que compartilham seus dados comigo, eu posso ter alguma ideia?

Neste ritmo de tentativa e erro, a plataforma alguma hora acertará. Seja por você ter ficado um minuto ou dois a mais na plataforma, reagido a um outro compartilhamento, acessado mais de uma vez ao dia, não importa. Esse será o caminho a ser seguido e novos testes serão feitos.

Com cada nova descoberta, uma teoria individual de como você funciona dentro da rede é criada. É dada luz a quais cordas o algoritmo precisa puxar para que você se movimente da maneira que ele queira. Quem define essa maneira são todos aqueles que alugam essa máquina. Nesse instante, o algoritmo age além do Manter e Engajar. Ele assume o papel que o contratante quiser. Os testes agora se voltaram para entender que conteúdo e sentimentos são necessários para os objetivos designados por quem está pagando. E daqui que comportamentos não tão éticos podem surgir.

Saber seu ciclo menstrual para te incentivar a comprar artigos de moda? Claro! Explorar a vulnerabilidade emocional de jovens com depressão para uma apresentação para um banco? Com certeza! Negligenciar o vazamento de dados de 87 milhões de pessoas para propaganda de desinformação direcionada de uma das eleições mais importantes do século? Sim!

Foram estes e muitos outros escândalos que aos poucos tiraram, para mim, a casca de inovação e solucionismo mágico que o Vale do Silício sempre utilizou como trunfo. Foi um processo lento, que acompanhou muitas desilusões até que esse texto saísse. O primeiro deles foi o “engajamento” e a participação social que as redes promoveram. Fiquei encantando em como estas redes estavam sendo utilizadas no começo da década com as revoluções que aconteciam em países do Oriente Médio, a chamada Primavera Árabe. Junho de 2013, então, era quase um “agora é nossa vez’’ aqui no Brasil. Triste pensar no caos político que esses movimentos desembocaram e que parecem sem horizonte para terminar.

A verdade é que não importa o quão importante e interessante uma comunidade possa se tornar, sempre haverá um trabalho para que seus membros e antagonistas entrem em modo alcateia. A polarização é sempre lucrativa nesse contexto. Um dos exemplos mais interessantes que Lanier traz em seu livro é sobre o Black Lives Matter, movimento que denuncia os abusos de autoridades policiais contra jovens negras e negros nos Estados Unidos.

Enquanto todo aquele movimento crescia de maneira orgânica, tudo era estudado, armazenado e compreendido. Aos poucos, toda arquitetura que poderia trazer maias “engajamento’’ era construída e adaptada para novas identidades que se formavam a partir dali. Como criar narrativas que pudessem estimular o uso da rede dos que poderiam concordar com o movimento? Como engajar os que tinham a propensão de serem contra?

No Brasil, não foi diferente. Se daqui a 50 anos te pedirem uma foto para traduzir o que foi a eleição de 2018 em nosso país, eu recomendaria a mosrada abaixo. Ela é o estudo produzido pelo Oxford Internet Institute das interações e consumo de notícias de usuários no Twitter um mês antes do primeiro turno eleição.

Pare por um momento e observe o abismo entre uma massa de convertidos que essa imagem representa. Todas as bolinhas azuis e verdes estão sendo alimentadas por um contexto próprio, que transmite e reafirma um contexto negativo do qual o outro lado faz parte. O diálogo e a política se tornam quase impossíveis dessa maneira. Não importa o que você diga, a mensagem chegará ao outro lado fora de contexto, provavelmente adaptada ao que a algoritmo possa achar de mais interessante para o “engajamento’’.

Se, em um exercício hipotético, pudéssemos pinçar alguém de uma bolha e jogar em outra, essa pessoa provavelmente seria estraçalhada. Talvez por humanos. E talvez por robôs. E, novamente, eu não gostaria de esse texto ficasse mais longo do que está, então recomendo a seleção de leituras que o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio fez para entender essa questão.

É claro, existem ótimos grupos e páginas em redes sociais, com bom conteúdo e que fugiam do que geralmente se via na plataforma. Muitas vezes, esses bons grupos sofriam com ataques de robôs e trolls, que sem uma moderação dedicada, faziam com o que grupo morresse. Mas grande parte sobreviveu e eles foram por muito tempo um motivo de estar no Facebook. Porém, essa conta parou de fechar. A balança de prejuízos ficou muito grande.

Esse texto é uma contribuição para aqueles que, assim como eu, já tiveram a vontade de se livrar de suas redes. Não é uma tarefa fácil, por tudo que escrevi acima. Mas se você tiver a mesma vontade, aproveito o momento e exclua as redes que você participa. E, se achar interessante, espalhe este texto por aí antes de fazer isso também. Nunca se sabe se quem está próximo de você pode precisar desse empurrãozinho.

PS: Aqui vão algumas dicas

Uma das grandes funcionalidades que as redes proporcionam é a facilidade agregar conteúdos e conhecer novidades. Pra muita gente, o FOMO maior vem daí, de perder todo um conteúdo que você acompanha com frequência. Pra contornar essa situação, aqui vão algumas dicas:

Podcasts – São uma ótima forma de absorver conteúdo, principalmente se você é uma pessoa que se desloca diariamente para o trabalho ou estudo. É ótimo também caso você tenha preguiça de lavar a louça. Para acessa-los, baixe um agregador de podcasts na sua loja virtual.

Newsletters – É uma ótima ferramenta para acompanhar notícias da mídia tradicional ou independente. Quase todo site deste tipo tem. Tem alguns também com conteúdos próprios, como o Canal Meio, que todo dia envia um resumo de tudo que você precisa saber no dia, e o Brasil Real Oficial, que faz um resumo semanal das principais decisões do diário oficial da união, além da nossa, feita em parceria com a CCD POA, onde quinzenalmente te mostramos o que de mais interessante ocorre no mundo da tecnopolítica e da cultura livre. Profissionalmente, muitas empresas também possuem newsletters sobre suas atividades e vagas. Vale a pena se inscrever nestas

Este (e outros) sites – Se você gostou deste texto e gostaria de conteúdos que fossem interessantes e mais densos para você, por que não valorizar o trampo de quem toma um tempo pra fazer esse conteúdo pra você? Se você se interessa por temas sobre tecnopolítica e cultura livre, experimente também nos apoiar em nosso financiamento recorrente; a partir de R$5 você já ajuda o BaixaCultura a semanter e pode ganhar diversas recompensas. Se te interessa tecnologia e sociedade, o Pílula Tecnológica pode ser também um conteúdo interessante pra você

BaixaCharla ao vivo #2: Descolonizar as tecnologias, Fanon

Dando seguimento ao nosso experimento audiovisual, fizemos a segunda edição da BaixaCharla ao vivo, no YouTube e Instagram, na terça-feira, 6 de agosto, às 20h. Desta vez, o tema foi “Descolonizar as Tecnologias”, com a proposta de debater outras perspectivas do sul global para pensar a tecnopolítica e a cultura livre. Tivemos como convidado o historiador e professor Walter Lippold, Mestre em Educação e doutorando em História pela UFRGS, que falou sobre a relação do pensamento de Frantz Fanon – filósofo, psicanalista e jornalista nascido na Martinica, fortemente envolvido na Guerra da Argélia, ao norte da África – com a tecnologia.

Especialista em história afro-asiática pela FAPA (RS), Lippold é militante da cultura livre e integrante do coletivo Fanon, organização que visa divulgar obras de pensadores e pensadoras africanas e afrodiaspóricas e que leva o nome de um dos maiores pensadores africanos do século XX. A charla vai partir do uso da tecnologia na Guerra da Argélia para falar sobre descolonização e usos criativos dos aparatos tecnológicos a partir de olhares que não o dominante europeu e norte-americano. Para aquecer, Lippold disponibilizou pra nós um texto de 2017 que fez para a Revista Semana da África na UFRGS, chamado “Cultura e Luta anticolonial no Magreb: Os estudos de Fanon sobre a Argélia“, onde ele toca em algumas questões – sobretudo o uso do rádio – que conversamos na Charla.

A nossa proposta é, a partir de agora, alternar charlas de leitura e debate a partir de um determinado texto, como fizemos com “A Ideologia Californiana”, com outras com convidados/as, em que debateremos temas que são caros às nossas temáticas principais – tecnopolítica e cultura livre.

Terça, 7 de agosto, 20/8, no YouTube e no Instagram do BaixaCultura. Segue abaixo, na íntegra.

O grupo do telegram do Coletivo Fanon, citado na charla, tem também muitas obras citadas no vídeo e livros de Fanon em PDF. Segue abaixo algumas das obras citadas no vídeo para download (clique no nome delas), todas indicadas por Walter e disponibilizadas (ou escaneadas) pelo próprio ou por outros integrantes do coletivo.

DUSSEL, Enrique. 1492 – O encobrimento do outro (A origem do “mito da modernidade”). Vozes; Petrópolis, 1993.

FANON, Frantz. Sociologia de una revolución. Ediciones Era; México, 1968. Obra publicada em 1959. Nela Fanon analisa de modo intenso a Revolução Argelina. A questão da mulher argelina e o véu e a análise do papel do rádio e da mídia na revolucão são destaques.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Editora da UFBA; Salvador, 2008. Originalmente era o trabalho final de Fanon na medicina psiquiátrica, mas foi reprovado pela banca. Em 1952 ele publica a obra.

FANON, Frantz. Em Defesa da Revolução Africana. Livraria Sá da Costa Editora, 1980. São textos de Fanon, organizados cronologicamente, a maioria retirada do jornal argelino El Moudjahid. (Disponível pra download lá no grupo do telegram do Coletivo Fanon).

FANON, Frantz. Alienation and Freedom. Bloomberg; London, 2018. Escritos de Fanon sobre alienação e libertação. Um obra impactante para os Estudos Fanonianos. Artigos, discursos, cartas e outros textos de Fanon, muitos que nunca tinham sido publicados.

LANDER, Edgar (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina. setembro 2005.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Revista Arte $ Ensaios, PPGAV, UFRJ, nº 32, dez 2016.

QUEIROZ, Ivo Pereira de. Fanon, o reconhecimento do negro e o novo humanismo: horizontes descoloniais da tecnologia. 2013. 221 f. Tese (Doutorado em Tecnologia) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2013.

VALENCIA, Sayak. Capitalismo Gore. Melusina; España, 2010.

WALLERSTEIN, Immanuel. Ler Fanon no século XXI. Revista Crítica de Ciências Sociais, 82, Setembro 2008: 3-12.

 

Politizar as tecnologias & pistas para reinventar a internet

A quinta palestra de 2019 do ótimo programa “Politizar as tecnologias”, do Centro Universitário Maria Antônia (USP), foi uma versão resumida de nosso curso “Tecnopolítica e Contracultura: um breve passeio por autonomistas, altermundistas, hackers e outros rebeldes”. Ocorreu na quarta-feira, 31 de julho, das 19 às 21h30, foi conduzida por Leonardo Foletto e teve um público atento e animado às diversas discussões que apontamos e aos questionamentos instigados pelo texto abaixo:

Se nos anos 1990, com o casamento do digital com a internet, enxergávamos enormes possibilidades de libertação (da informação de grandes grupos midiáticos, de liberdade de falar o que bem quiser, de criar tecnologias e mundos novos), hoje parece que estamos a lidar com consequências nefastas, representadas em uma palavra na moda nestes tempos: distopia.

Nos descuidamos – ou não conseguimos? – prestar atenção na ascensão de plataformas globais de tecnologia, que por sua vez construíram bolhas de informação que confirmam pontos de vista, espalham mentiras e criam realidades alternativas que em muitos casos não há informação comprovada que consiga mudar. Como podemos compreender o contexto tecnopolítico hoje? Que caminhos podemos apontar para discutirmos e transformarmos a política que sempre está junto na construção de tecnologias?”.

Uma notícia breve no site do evento está aqui. Abaixo e na abertura da postagem, algumas fotos, feitas pela equipe de comunicação do Maria Antônia, um centro cultural histórico pra SP, palco de uma das mais conhecidas batalhas na Ditadura Militar Brasileira, em 1968, entre estudantes do Mackenzie e da USP.

uma parte do povo, antes de começar a fala
Os “chapéus” do nosso editor, Leonardo Foletto

Aqui está a apresentação que guiou a conversa. Destacamos aqui uma parte final da conversa:

A IDEOLOGIA CALIFORNIANA VENCEU

Sua visão utópica da Califórnia depende de uma cegueira voluntária frente a outras – e muito menos positivas – características da vida na costa oeste: racismo, pobreza e degradação do meio ambiente”

“As   tecnologias   da informação dão poder ao indivíduo, aumentam a liberdade pessoal e radicalmente reduzem a força do estado-nação. As estruturas de poder social, político e legal existentes irão murchar, para serem substituídas por interações irrestritas entre indivíduos autônomos e seus softwares.”

DEPOIS DO FUTURO, BIFO

“A sociedade internaliza a regra em formas tecnológicas. O capital pode renunciar a regra jurídica, à racionalidade política e se deixar conduzir pela aparente anarquia dos automatismos internalizados da biopolítica.”

“Quando a disciplina industrial se dissolve, os indivíduos se encontram numa condição de aparente liberdade”. “Nenhuma lei os obriga a se submeter às obrigações e à dependência. Mas àquela altura as obrigações foram introjetadas, e o controle social se exerce pela voluntária mas inevitável submissão a uma rede de automatismos.”

EM FRENTE RUMO AO PASSADO

“Membros da “classe virtual” e outros profissionais podem brincar de ser cyberpunks dentro da hiperrealidade sem ter de encontrar algum de seus vizinhos empobrecidos.”

“As tecnologias da liberdade estão se tornando os instrumentos da dominação”.

“ Não impeço você de fazer outra coisa e não o obrigo a fazer o que eu quero, simplesmente facilito para quem faz as coisas que me convêm” (Bifo)

DIANTE DISSO, O QUE FAZER? PISTAS PARA REINVENTAR A INTERNET

_ Regulação (Barbrook & Cameron)
A discussão sobre regular ou não a internet, uso de aplicativos, dados em redes sociais e outras no mundo internético ainda engatinha no Brasil, mas tem sido uma das frentes mais debatidas nos últimos tempos ao redor do mundo. Alugar um quarto por meio do AirBnB, por exemplo, estaria menos relacionado a práticas de consumo coletivo e consciente ou à criação de novos laços de confiança e muito mais ao consumo de um bem por um preço mais baixo e, claro, ao lucro da transação comercial. Na França, há uma lei, aprovada no primeiro semestre de 2019, que exigirá o pagamento de 3% sobre a receita que Google, Facebook e Apple, entre outras gigantes do Vale do Silício, tiverem em seu território. Barbrook e Cameron falava disso já ao final de “A Ideologia Californiana”, em 1995:

“O futuro digital será um híbrido de intervenção estatal, empreendedorismo capitalista e cultura faça-você-mesmo. Decisivamente, se o estado puder fomentar o desenvolvimento da hipermídia, ações conscientes poderiam também ser tomadas para evitar o surgimento do apartheid social entre os “ricos de informação” e os “pobres de informação”.

_ Abrir as caixas-pretas (hackers);
As linhas de fuga para muitos dos caminhos distópicos que nos encontramos hoje, em época de ressaca da internet, passa por nos tornarmos uma potente multidão em busca de abrir as caixas-pretas da tecnologia e entender como se dá essa louca composição humana+objetos que nos causa esperança e sofrimento, depressão e euforia, liberdade e prisão. Algo que hackers buscam fazer, reparadores também, como já comentamos e escrevemos.

_ Ressensibilizar a humanidade (Bifo)
Influenciados pela recente leitura do nem tão recente “Depois do Futuro” (2009, edição brasileira de 2019), de Franco Berardi “Bifo”, incorporamos a ideia do filósofo italiano.

“Podemos levantar a hipótese de uma relação direta entre a expansão da infoesfera, a aceleração dos estímulos, das solicitações nervosas e dos tempos de resposta cognitiva, e a desintegração da película sensível que permite ao seres humanos entender o que não pode ser verbalizado, reduzido a sinais codificados?” (p.164)
“Sentimos-nos presos em uma armadilha de automatismos tecnolinguísticos, as finanças, a competição global, a exaltação militar. Mas o presente é mais rico que o formato que o capital impõe, e as muitas possibilidades inscritas no presente não são canceladas, embora no momento pareçam inertes”. (p.183)

_ Autonomia, criptografia, cuidados digitais (criptopunks/anarquistas);
Saber lidar com as tecnologias que nos rodeiam, não perder de vista o vínculo entre processo e produto, matéria-prima e forma final, compreender os meandros do fazer e da diferença, eis um bom programa de vida & ação. Como diz Bifo em seu Manifesto Pós-Futurista:

“Afirmamos que a grandiosidade do mundo enriqueceu-se com uma beleza nova, a beleza da autonomia. Cada um tem seu ritmo e ninguém deve ser obrigado a correr em velocidade uniforme; sobretudo, não podem mais desempenhar a tarefa para a qual foram concebidos. A velocidade se tornou lenta. Os automóveis estão imóveis como estúpidas tartarugas no tráfego das cidades. Apenas a lentidão é veloz.”

_ Politizar as tecnologias;
Significa uma combinação: abrir as caixas-pretas, ver como funciona, como se monta, como se reproduz, como se transforma e perceber que a política está nos embutidas em códigos, em vieses que reproduzem preconceitos e desinformação generalizada, na elaboração de algoritmos que funcionam com mais inputs, seja eles ódios destilados ou fake news absurdas. Politizar as tecnologias é perceber isso, também tentar modificar, agir para tomar os meios de produção – ou pelo menos hackeá-los.

 

BaixaCharla ao vivo #1: A Ideologia Californiana

Depois de um tempo organizando, planejando e refletindo. voltamos com as BaixaCharlas, nosso “programa” de conversas sobre tecnopolítica, contracultura e cultura livre. Dessa vez, diferente das outras até aqui seis já realizadas (chega mais em nosso canal no Youtube), fizemos ao vivo, via YouTube e nosso perfil no Instagram. e no Youtube.

A primeira dessa nova fase foi realizada na quarta-feira, 24/7 e tratou de encerrar um ciclo sobre o “A Ideologia Californiana“, obra seminal da crítica à um pensamento (hoje dominante) sobre a internet, de Richard Barbrook e Andy Cameron, primeira publicação da nossa coleção Tecnopolítica junto com a Monstro dos Mares. Tivemos Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, sistematizando alguns apontamentos sobre o texto colhido nos recentes lançamentos e debates sobre a obra em São Paulo, durante a CryptoRave 2019, em Salvador, no simpósio da Lavits, e em Recife, junto à grupos, pessoas e coletivos locais. A ideia foi destrinchar alguns aspectos do texto, detalhando os 10 tópicos com que os autores dividiram o texto, e a partir daí falamos sobre o que ele ainda tem de relevante nesse distópico mundo internético de hoje para refletir sobre o futuro da rede.

Aqui está o roteiro completo que nos baseamos para fazer a transmissão, com trechos do texto. E aqui abaixo o vídeo, no Youtube.

 

 

 

Ambiente digital de difusão: por onde circula a cultura online?

*Fizemos esse texto eu, Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, e André Deak, diretor do Liquid Media Lab, professor da ESPM-SP e parceiro de longa data na CCD em SP, sob encomenda para um livro de uma pesquisa chamada “Panorama Setorial da Cultura Brasileira 2017/2018”. A proposta era discutir principalmente a circulação da cultura na internet nas últimas décadas, sobretudo dos 2000 pra cá. Fizemos então um panorama particular e afetivo de plataformas, serviços e redes por onde a cultura digital circulou nesses tempos. Nada muito sistemático e rígido, mas bem apurado e com fontes pra tudo. Ficou grandão, saiu no livro*, mas também está agora no site e aqui.

No princípio da web, eram os sites. Uma das coisas mais interessantes em 1994 era visitar o endereço das enciclopédias, como a Barsa ou a Britannica, e perceber que não era mais necessário ter uma parede cheia de livros gigantes, capa dura, pesados. Nove em cada dez reportagens diziam que então todo aquele conteúdo estava à distância de um clique.

Passados dez anos, no início do século 21, e já estava claro que qualquer instituição ou empresa que não tivesse um site não existiria. Ou melhor, não apareceria nas buscas, e não seria encontrada, portanto — o que dava no mesmo que não existir. Foi quando museus e institutos culturais começaram a tratar das suas fachadas digitais, com mais ou menos afinco. Alguns acervos levariam ainda mais de uma década para entrar na rede, sendo que a maioria deles segue ainda hoje sem ter nem mesmo um projeto de digitalização. Na verdade, a situação de penúria dos museus é bastante conhecida, mesmo antes de o Museu Nacional do Rio de Janeiro ser reduzido à cinzas em setembro de 2018.

De qualquer forma, a cultura nunca circulou apenas dentro de museus, institutos culturais e enciclopédias, mas nos lugares mais diversos. Durante a pavimentação digital da internet, conforme a infraestrutura era construída, a cultura também se mostrava em todos os cantos possíveis. Nesse texto trazemos detalhes de alguns desses cantos, em especial aqueles que que milhares de pessoas escolheram como os seus espaços para consumir, produzir e fazer circular cultura ao longo dos pouco mais de 20 anos de internet comercial no mundo. Acreditamos que contar suas histórias nos permite entender melhor como se deu o impacto de produzir e consumir cultura com a junção das tecnologias digitais e a rede mundial dos computadores.

WIKIPEDIA

São poucos os websites que foram tão discutidos e que geraram tanto debate sobre quebras de paradigmas quanto aquele criado por Jimmy Wales e Larry Sanger em janeiro de 2001. Em 2018 a Wikipedia tem mais de 43 milhões de artigos, sendo mais de 1 milhão deles em português, o que nos coloca apenas no 15º entre 298 idiomas em termos de quantidade de artigos. Em 2014, calcularam que seriam necessárias mais de 1 milhão de páginas, divididas em 1.000 volumes de 1.200 páginas cada, para imprimir o conteúdo que estava lá — ocupando cerca de 80 metros de estantes. A última edição em inglês da Enciclopédia Britannica foi distribuída em 32 volumes com cerca de mil páginas cada.

Muitos anos foram gastos em faculdades de jornalismo e metros de páginas de revistas e jornais discutiram se o conteúdo da Wikipedia era confiável, e se seria uma enciclopédia melhor ou pior que uma Britannica, em que ocorre a tradicional curadoria e revisão por pares acadêmicos. Em 2006 a revista Nature publicou o primeiro estudo em que comparava as duas enciclopédias, observando 42 artigos científicos de acordo com os padrões mais elevados, e concluindo que “a diferença de acuidade entre as duas enciclopédias não era particularmente grande” (BENKLER, Yochai, p.71 de “The Wealth of Networks” – PDF aqui).

O debate que até hoje às vezes se escuta é que “não são profissionais que editam a Wikipedia”. No Brasil, por conta do debate sobre o fim da necessidade do diploma de jornalismo para exercer profissionalmente a função, também circulou esse debate com o mesmo moto: “não são jornalistas profissionais que estão produzindo essas notícias”. Hoje, a defesa do “profissional” em detrimento do “amador” já não está na lista de prioridades do debate. No caso da Wikipedia, ainda, uma das conclusões mais interessantes é a de que se trata não de um produto, mas de um processo. Com sistemas complexos de debate sobre a validade das revisões, os artigos estão o tempo todo sendo reescritos e revisados. Ninguém duvida hoje que a Wikipedia seja um ponto crucial de distribuição de cultura, normalmente o primeiro lugar onde estudantes encontram informações sobre qualquer coisa.

O fato é que a possibilidade da produção colaborativa, coletiva, e a facilidade com que os meios de produção e distribuição cresceram nos primeiros 10 anos da web fizeram com que conteúdos culturais circulassem muito mais livremente do que jamais haviam circulado antes. Clay Shirky sintetizou bem em “Here Comes Everybody” (p.40, 2008) : “O futuro que a internet apresentou é a publicação em massa de conteúdos amadores, o que mudou o modo de compreender o que deveria ou não ser publicado. Antes, se a pergunta era ‘por que publicar isso?’, agora passou a ser ‘por que não publicar isso?’”

Esse fato mudou o cenário e o mercado de maneira bastante drástica. Jornais, outro ícone da cultura, antes tidos como o “pedágio” entre a informação e o leitor, perceberam que cedo ou tarde teriam que rever conceitos, porque os anunciantes não mais necessariamente teriam que colocar suas propagandas ali para serem vistos. Não demorou muito para a crise financeira chegar: “o Google deve ficar com 42% do mercado de anúncios digitais em 2018 nos Estados Unidos; o Facebook, a concorrência mais próxima, deve ficar com 23% do mercado de anúncios digitais”, segundo o Washington Post. Enquanto isso, os investimentos em anúncios impressos — e mesmo nos digitais, em empresas de jornalismo — seguem em queda. O New York Times, grande parâmetro para a imprensa mundial, que fez um movimento em direção a assinaturas digitais, anunciou em 2018 queda de mais 10% nos anúncios. E, apesar de ter funcionado o modelo de paywall para o NYT, isso não quer dizer que as pessoas estejam dispostas de modo geral a bancar o jornalismo em qualquer parte do mundo com o próprio bolso. Conforme apostava em 2009 Chris Anderson em “Free – o Futuro dos Preços“, “se é digital, cedo ou tarde vai ser grátis”.¹⁰

Praticamente ao mesmo tempo em que ocorria o impacto do digital nos meios impressos, com a livre circulação da informação e da cultura por cabos ainda sem banda larga disseminada (o 3G chegaria apenas na segunda metade da primeira década de 2000, o 4G no início da década de 2010), e com os celulares inteligentes também no início de seu processo de conquista mundial dos mercados (o primeiro Iphone é de 2007), vimos outro mercado cultural sofrer um abalo sísmico que mudaria os rumos de uma cadeia produtiva inteira. E o nome deste terremoto em específico era Napster.

NAPSTER, O PRIMEIRO DESAFIANTE DO COPYRIGHT NA INTERNET

Criado por Shawn Fanning e Sean Parker como um programa de compartilhamento de arquivos em rede P2P em 1999, o Napster protagonizou a primeira luta importante entre a indústria fonográfica e as então nascentes iniciativas de distribuição de informação (e cultura) na internet. A sacada de Fanning e Parker (que depois seria um dos primeiros acionistas do Facebook e ganharia a cara de Justin Timberlake no filme “A Rede Social”, de 2010) foi criar um software de interface gráfica amigável, facilmente baixável nos computadores rudimentares da época, para que qualquer pessoa pudesse buscar suas músicas, em MP3, por nome do artista, disco, faixas e até gêneros inteiros, e fazer o download de uma cópia para suas máquinas. Era o velho hábito de compartilhar músicas, popularizado desde as fitas K7, levado à uma escala global sem precedentes, facilitado por um formato que permitia ao mesmo tempo compartilhar a música e mantê-la consigo nos HDs, CDs e disquetes da época. Uma música em MP3 baixada no Napster era um “bem não-rival” [Imre Simon e Miguel Said Vieira, desenvolveram um conceito que detalha melhor este exemplo: “rossio não-rival], que poderia coexistir em diferentes cópias e ser obtida de forma gratuita, o que quebrava o sistema industrial que as grandes gravadoras mantiveram como o seu modelo de comercialização de produtos durante décadas, ao mesmo tempo em que não remunerava os autores das músicas agora encontradas em diversos computadores de jovens mundo afora. Problema na certa.

Um ano depois de ter sido criado, em 2000, o Napster se tornou uma empresa, com diversas versões de seu software sendo lançadas quase mensalmente, número de usuários quadruplicando a cada semana, chegando a um pico de 8 milhões de pessoas conectadas simultaneamente. Mesmo com o sucesso obtido, os processos das gravadoras por quebra de copyright fizeram o Napster fechar já em 2001. Um dos mais notórios desses processos foi o do Metallica, com seu baterista Lars Ulrich à frente, que manifestou diversas vezes sua indignação com as pessoas que escutavam suas músicas sem pagar, embora ele mesmo tenha assumido que fez isso alguns anos depois, como escrevemos aqui no BaixaCultura em março de 2019.

Apesar do site de trocas ter perdido a batalha judicial, as pessoas passaram a considerar que a troca — ou o download — de músicas era algo tão natural quanto navegar na internet. Outra coisa ficou clara nesse processo: quando os donos do Napster disseram ser capazes de impedir 99,4% de trocas de materiais protegidos por leis de direitos autorais, a outra parte (as gravadoras) disse que não era o bastante. Lawrence Lessig, advogado, um dos criadores de um conjunto de licenças mais flexíveis que o direito autoral (o Creative Commons), notou que “se 99,4% não é o bastante, então essa é uma guerra contra o compartilhamento de arquivos e não a favor do direito autoral”, como escreveu no livro “Free Culture”, de 2006, traduzido no Brasil como “Cultura Livre – Como a grande mídia usa a tecnologia e a lei para controlar a cultura e bloquear a criatividade“.

Lessig esteve no Brasil algumas vezes e foi próximo da gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, entre 2003 e 2008, durante o governo Lula. A licença que ele foi um dos inventores, Creative Commons, é uma variação do direito autoral que permite, de antemão, que outros utilizem a obra criada, sem permitir a ação de intermediários legais. Foi o conjunto de licenças que mais se popularizou mundo afora baseada no copyleft, um conceito jurídico usado pelo criador do movimento do software livre, Richard Stallman, para permitir que determinadas obras, como softwares, continuem livres.

Poucos sabem que o Brasil é pioneiro na mudança ocorrida em relação ao direito autoral na música, ao compartilhamento de arquivos, ao reposicionamento mundial da indústria musical. Em Belém do Pará, o tecnobrega, que surge a partir das tecnologias de sampler, uma mistura do brega tradicional com batidas eletrônicas, desde o início abriu mão de fazer dinheiro vendendo CDs. Em nome da livre circulação, em feiras de CDs “piratas” distribuídos pelos próprios autores para que camelôs vendessem a R$ 1 ou R$ 2, os músicos estavam mais interessados na formação de público. Assim, conhecidos por uma massa de fãs, podiam depois vender ingressos para shows e ganhar com apresentações em várias cidades, ao invés de tentar proteger sua obra e ganhar com o produto CD. Quanto mais circulasse a música, melhor.

“A ausência de aplicação de leis de propriedade intelectual contribui fortemente para a construção de um mercado com dinâmica muito diferente daquele da indústria cultural formal e tradicional”.

apontavam os pesquisadores Ronaldo Lemos e Oona Castro em livro de 2008 (Tecnobrega: O Pará reinventando o negócio da música), resultado de pesquisa de anos anteriores.

Um ano antes, 2007, dois fatos importantes ocorreram na história da indústria musical: o Radiohead lançou seu disco “In Rainbows” direto na rede para download no modelo “pague-quanto-quiser”, e arrecadou mais do que se vendesse ao preço normal da época; e Madonna, ao perceber que a venda de CDs não sustentaria mais os artistas como no século passado, assinou um contrato “sem precedentes” com uma produtora de shows, passando a se importar mais com a venda de ingressos do que com a venda de música.

Depois de a música se tornar livre, e com uma banda mais larga, que já permitia o download de arquivos maiores, foi a vez de outra indústria ver seus pilares abalados: as produtoras de vídeo. Mas Hollywood e toda a multimilionária indústria do cinema norte-americano não ficariam sentados vendo seus conteúdos escorrerem pelos torrents.

PIRATE BAY, A NAVE-MÃO DOS TORRENTS

Já é razoavelmente conhecida a história de que a Disney e a Universal Studios tentaram impedir o desenvolvimento do vídeo cassete, sob a alegação de que isso iria acabar com o copyright quando as pessoas gravassem programas de TV (aqui em detalhes). O caso Betamax, como ficou conhecido, foi vencido pela Sony, dona da nova tecnologia, em 1984, e nem a TV nem o cinema acabaram então.

Assim, quando surgiu a nova tecnologia chamada torrent, uma evolução do P2P que agora quebrava os arquivos em partes mínimas e permitia a troca não apenas do arquivo completo, mas mesmo das pequenas partes sem que o usuário tivesse o arquivo completo, tornando o processo muito mais eficaz, um conglomerado de empresas de entretenimento mundiais, entre elas a própria Sony, entrou com um processo contra a Baía Pirata por quebra de copyright de milhares de arquivos de produtos culturais. Em 2009, na Suécia, os responsáveis que haviam criado e mantinham o site de trocas de torrents The Pirate Bay fazia seis anos perderam a causa, receberam uma multa recorde (8 milhões de dólares) e foram para a prisão (o que muitos consideraram bastante fora do comum e exagerado — o tribunal virou um filme documentário, The Pirate Bay AFK – Away From Keyboard, disponível no YouTube).

Porém, assim como o Napster, podemos dizer que venceram a “batalha na história”: as trocas de arquivos torrent continuam, ainda que em bem menor número do que antes, e mesmo o The Pirate Bay , o site que agregava links mas não hospedava os conteúdos protegidos por copyright alegados, se mantém na ativa, assim como diversos outros buscadores de torrents. Os responsáveis pelo site sueco, Frederik Neij, Gottfrid Svartholm Warg, Carl Lundstrom, Peter Sunde, estão soltos e tocando outros projetos — Sunde, inclusive, esteve muitas vezes no Brasil em eventos de cultura e software livre, como o Fórum internacional do Software Livre e o Conexões Globais, em Porto Alegre, além de ter criado, ainda em 2010, uma promissora plataforma de micropagamentos, Flattr.
O acesso à produtos culturais via P2P é uma prática comum na rede há quase duas décadas, mas ainda considerada, em sua maior parte, ilegal, o que a faz ser mais subterrânea do que outras e difícil de ser quantificável, já que não há dados atualizados e precisos sobre a quantidade de pessoas que se utilizam dessa forma para consumir cultura online.

Nos últimos anos, os torrents entraram numa nova era tecnológica: o streaming de arquivos. Não apenas a troca das partes se tornou possível, mas assistir a um filme em torrent, sem nem mesmo ter o arquivo completo baixado em seu computador, já é possível em algumas plataformas que mostraremos a seguir. Mas antes do streaming por torrents, vejamos os distribuidores de vídeo online que chegaram primeiro.

YOUTUBE, UM GIGANTE PARADIGMÁTICO NO CONSUMO ONLINE

Whindersson Nunes, 34 milhões de assinantes em seu canal (janeiro 2019)

Surgido em 2005, foi criado por Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim, então funcionários da PayPal que vislumbraram o crescimento da circulação de vídeos na rede a partir do aumento da velocidade de acesso à internet e a dos dispositivos móveis para elaborar uma plataforma que qualquer um pudesse publicar seu vídeo de forma fácil. Foi comprado pelo Google um ano depois por US$ 1,65 bilhões, um investimento gigantesco que consolidou o site como a principal plataforma de exibição e compartilhamento de vídeos na internet e uma “revolução na cultura participativa na internet”, como afirmaram Jean Burgess e Joshua Green em “YouTube e a Revolução Digital: como o maior fenômeno da cultura participativa transformou a mídia e a sociedade“, De 2009. É difícil de medir o tamanho da influência do YouTube na produção e no consumo de cultura online, mas alguns dados são importantes: é o 3º site mais acessado via web no Brasil em setembro de 2018 e o 2º do mundo nesse mesmo período, segundo dados da Alexa, empresa ligada à Amazon— os primeiros, em ambos os casos, é o Google (.com em 1º lugar mundial e 2º no Brasil, e .com.br o 1º aqui). O Android, sistema operacional mais utilizado em smartphones no mundo, vem em sua instalação padrão com o YouTube, o que significa que 85,9% dos dispositivos móveis vendidos no Brasil hoje trazem a plataforma de vídeos do Google, segundo dados do CanalTech.

NETFLIX, A REINVENÇÃO DA INDÚSTRIA NA CONSOLIDAÇÃO DO STREAMING

homepage Netflix de 1997

Talvez poucos se lembrem, mas a Netflix começou, ainda em 1997, como um serviço de aluguel de filmes em que você levava em sua casa os DVDs e depois retirava, tal como uma locadora. Durou 10 anos e em 2007 passou a oferecer streaming de conteúdos diversos, o início do que seria hoje um acervo online com mais de 124 milhões de assinantes no mundo, que ajudou a enterrou de vez o modelo de negócio de aluguel de filmes das videoocadoras — o Napster e os torrents já haviam começado este término, lembremos.

Em determinado momento, o Netflix percebeu que seria mais barato criar conteúdo pŕoprio do que licenciar conteúdos com direitos autorais pré-existentes para o mundo todo. Assim, começou a investir boa parte da sua receita em novas produções, com um detalhe: a escolha do que seria produzido é feita com base nas previsões do que seus usuários já gostariam de ver, mas ainda não existia na plataforma. O primeiro grande exemplo de sucesso dessa estratégia foi “House of Cards”, uma série sobre os bastidores da política institucional dos Estados Unidos lançada em fevereiro de 2013. Havia demanda por séries sobre política, com cenas de sexo, algo de violência. Claro, o algoritmo criado para coletar, processar e analisar os dados dos interesses dos assinantes não determina o sucesso de uma série — mas pode auxiliar ao menos a atirar no lugar certo. “Stranger Things”, série original Netflix lançada em julho de 2016, traz até hoje especulações (aqui uma delas) de que teria sido o primeiro caso de um produto audiovisual produzido a partir dos algoritmos de recomendação da plataforma, tamanho a quantidade de referências (dos anos 1980, sobretudo) que fizeram a série cair no gosto do público.

O fato é que, em 2018, podemos dizer que a Netflix é um dos principais lugares que as pessoas vão na internet (na web ou nos aplicativos em smartphones, tablets, smart TVs, ) para consumir cultura online. Virou a principal referência quando se fala de plataformas de streaming de conteúdo, ainda que esteja enfrentado a concorrência, cada vez mais acirrada, de plataformas como Hulu e Amazon Prime, e das criadas pelos outroras somentes canais de televisão, como Globo (Globo Play), HBO (HBO Go), ou operadoras de TV a Cabo (NET Now, Globosat Play), sem falar do já comentado YouTube, da Google Play e da Apple TV.

Para descrença daqueles que sempre baixaram seus conteúdos na internet (como os autores desse ensaio), o streaming virou realidade e não apenas uma tendência vaga que se imaginava com incredulidade em 2008, 2009. Milhares de famílias de classe média no Brasil tem o valor mensal para ter acesso às produções da plataforma como um dos gastos cotidianos da casa, como luz, água e internet, para não mencionar aqueles vários que dividem uma única conta, às vezes não necessariamente de forma legal. A indústria, e especialmente o Netflix, soube ouvir uma demanda de quem usava os torrents para ter acesso à diversas produções culturais mundiais: faça melhor que eu pago. Criaram uma plataforma com muitos produtos à disposição de forma fácil, numa interface amigável, já legendados e que funciona em diversos dispositivos, e com isso conseguiram tanto ganhar aqueles que tinham preguiça de baixar um filme e suas legendas como conseguiram legalizar o consumo cultural online, já que tudo aquilo que está no Netflix e seus concorrentes é disponibilizado de forma legal. Uma jogada de mestre, que contou com o considerável crescimento da velocidade na rede, com fibra óticas capazes de entregar mais de 100 Megabits por segundo de download e upload para muitos lugares do mundo, inclusive no Brasil.

Além de ser o principal serviço de streaming de produção audiovisual no mundo, o Netflix também influenciou outros projetos menores e igualmente importantes no Brasil.

O primeiro é o Afroflix, plataforma criada em outubro de 2015 traz produções que possuem pelo menos uma área de atuação técnica/artística assinada por uma pessoa negra. São filmes, séries, web séries, programas diversos, vlogs e clipes que são produzidos ou escritos ou dirigidos ou protagonizados por pessoas negras. Por enquanto só audiovisuais brasileiros. E o segundo é o Libreflix, projeto criado pelo jovem programador Guilmour Rossi, de Curitiba, uma plataforma de streaming aberta e colaborativa “que reúne produções audiovisuais independentes, de livre exibição e que fazem pensar” numa interface parecida com a de sua principal influência. A proposta do Libreflix, como eles mesmo comentam em seu FAQ, está diretamente ligada com a ideia de cultura livre, que defende a liberdade para modificar e principalmente distribuir obras criativas. Criado em 2017, o projeto não deixa de ser uma hackeamento do Netflix e da própria indústria do entretenimento online; se estes, como falamos, souberam bem se reinventar e legalizar o consumo audiovisual online na rede, o Libreflix mostra que os projetos desviantes e em prol da distribuição livre da informação sempre vão existir enquanto houver internet.

POP CORN TIME E STREMIO, OS TORRENTS AGORA TAMBÉM SÃO STREAMING

Pop Corn Time é um software livre, criado em 2014, com uma interface simples que permite assistir filmes ou séries compartilhando arquivos, mas sem necessariamente deixá-los no seu computador após serem vistos. Os próprios desenvolvedores tiraram o software de circulação quando foram ameaçados pela indústria do cinema, mas como era um software livre, foi copiado e replicado em inúmeras versões. Stremio é uma das versões, de 2016, que inclusive insere legendas de outros sites nos torrents.

Tanto uma quanto a outra representam uma outra forma de consumo e compartilhamento de produtos online: o streaming via torrents. São sistemas automatizados que rastreiam as partes dos arquivos torrents em diversos computadores mundo afora e que apresentam o arquivo completo para um usuário final a partir da soma das partes. É a junção do compartilhamento P2P com um player — um software de visualização de arquivos multimídia — num único produto, seja um site na web como um aplicativo a ser baixado em dispositivos móveis. Uma solução à margem da legalidade, como os torrents, mas com uma interface que lembra os melhores serviços de streaming, com os sistemas de recomendação, a imagem dos cartazes dos filmes e séries e outras facilidades que não são encontradas quando se procura um arquivo para baixar nos buscadores de torrent.

Entramos de fato num período de distribuição de áudio e vídeo em tempo real, sem a necessidade do download. Todas as perspectivas apontam que a transmissão de vídeo online é o futuro, o tráfego que mais aumenta na internet. Por exemplo: no Brasil, 84% das pessoas que usam internet assistem vídeos; entre estes, o consumo é de 38 horas por semana. Sete em cada 10 brasileiros tem um smartphone, e quase 90% deles consome audiovisual no celular, segundo pesquisa do Google. Produção audiovisual, sem dúvida, é a aposta para distribuição e consumo de cultura nos próximos anos.

REDES SOCIAIS,  DE COMUNIDADES DE NICHOS À MANIPULAÇÃO MASSIVA PELOS ALGORITMOS

Redes sociais existem desde que foi criado o mundo, mas as redes sociais online no Brasil tem um marco importante: o Orkut, uma plataforma que durou 10 anos — lançada em 2004, encerrada em 2014 — e que marcou a internet brasileira na primeira década do século XXI. Seu projetista chefe, Orkut Büyükkökten, engenheiro turco do Google, pensou no público norte-americano, mas acertou em cheio no brasileiro. O Brasil chegou a 30 milhões de usuários no auge da rede social, entre 2006 e 2009, antes de cair em vertiginosa queda com a ascensão do Facebook, lançada em 2004 mas só popularizada para milhões no final da década passada. Uma história conhecida por pouca gente no Brasil é que o estopim da explosão do Orkut no país teve como responsável o ativista da internet livre — e letrista da legendária banda Grateful Dead — John Perry Barlow. Ocorre que, no início, como estratégia, só entrava na rede quem tinha um convite. Orkut deu 100 convites a Barlow, que distribuiu estes convites quase todos a brasileiros que ele conhecia. A teoria de Barlow, um dos fundadores da Electronic Frontier Foundation, é que o Brasil seria uma sociedade em rede pronta para receber uma rede social, porque as redes sociais já existiriam no país de maneira analógica com muita força.

Sem entrar no mérito da razão do brasileiro aderir com tanta vontade às redes sociais, o fato é que o Brasil tem um uso diferenciado das redes. Mergulhou no Orkut, e depois no Facebook, com milhões de usuários que passam lá mais horas do que outros países.

Grupos de compartilhamento de produtos culturais, de discografias inteiras de artistas às obras completas de filósofos, já foram um dos principais motivos que fizeram os brasileiros passarem horas nessas plataformas, em especial no Orkut, onde o grande fluxo de informação se dava nos grupos, dos mais diversos assuntos possíveis, um mosaico de tão incríveis diversidades que, na época que começou a queda da plataforma criada pelo engenheiro turco, em 2011, alguns pesquisadores, como o brasileiro Ronaldo Lemos, chegaram a levantar a possibilidade de salvar a memória da plataforma dada à sua importância no Brasil. “Se a nossa Biblioteca Nacional tiver um mínimo de visão e conexão com o presente, deveria começar a agir já. É preciso preservar o conteúdo integral do Orkut, criar um espelho público do site que registrou boa parte do que aconteceu nessa incrível década passada”, escreveu Lemos em “Salvem a Memória do Orkut!“. Não houve interesse da Biblioteca Nacional nem de nenhuma outra instituição de memória brasileira nem internacional, e o que circulou no Orkut lá morreu.

A queda do Orkut e a ascensão do Facebook como principal rede social mundial, em 2018 com a impressionante marca de mais de 2 bilhões de usuários em todo o planeta, também marca o aumento de uma internet que, por falta de termo melhor, podemos chamar de “algoritmizada”. Com cada vez mais pessoas conectadas à internet, mais rastros digitais foram sendo deixados, o que permitiu a criação de algoritmos — processos que automatizam outros processos, à grosso modo — de monitoramento, cruzamento e apresentação de informações de nosso comportamento online. O resultado dessa mudança é amplamente conhecido: mais conforto para nós, que não precisamos mais nos esforçar para encontrar produtos e informação na rede, basta deixar as próprias plataformas sugerirem o que queremos a partir de nossos dados de navegação na web ou em aplicativos. E também mais facilidade para a manipulação de grandes massas de população através de métodos psicológicos baseados no comportamento online dos indivíduos, vide o escândalo da Cambridge Analytica, caso que mostrou ao mundo até que ponto o uso de big data — outro termo popularizado pós-Orkut — pode ser usado para influenciar eleições, seja a de Donald Trump nos EUA ou o processo do Brexit na Inglaterra.

Vale lembrar que, simultaneamente ao desenvolvimento e à massificação dos smartphones vimos surgir também uma infinidade de aplicativos para celular, os chamados apps. Atualmente, o maior uso que se faz dos apps está diretamente relacionado a redes sociais ou variações disso, grupos de troca de mensagens que podem ser considerados micro-redes sociais (às vezes com centenas de pessoas). A lista dos apps mais populares em 2017 tanto para Android quanto Iphone, no mundo, feita pela Fortune, incluía Whatsapp, Snapchat, YouTube, Facebook Messenger, Instagram, Facebook, Google Maps, Netflix, Spotify e Uber. Nos EUA, Twitter e Pinterest também integram a lista com o maior número de usuários ativos em 2018.

Para finalizar e resumir nossa discussão aqui, podemos dizer que a questão que dá origem a este ensaio, “por onde circula a cultura na internet”, talvez já não seja a maior preocupação atual, no entanto. A cultura e a informação em geral circulam mais pela internet do que jamais circularam antes, por múltiplos canais, produzidas em todas as partes, por todo mundo, com as mais variadas qualidades. Outras questões agora começam a ser formuladas. Quando o acesso é praticamente ilimitado, como encontrar qualidade? Como ter acesso à diversidade, dentro dos filtros-bolha? Quem fará a curadoria de tal massa cultural mundial? Quem programa os algoritmos que escolhem por você? Quem determina as sugestões que serão oferecidas a você pelas inteligências artificiais, e quais são os verdadeiros propósitos dessas sugestões? São as perguntas que, em 2018, dominam as pesquisas acadêmicas em múltiplas áreas (da computação à antropologia, da sociologia ao design) e dominam o noticiário mundial, preocupando todos aqueles que se importam em escolher o que consomem na rede mais do que serem escolhidos pelos próprios produtos a serem consumidos.

* O livro inteiro pode ser baixado aqui. É um livraço (em conteúdo e peso, rs) pra quem se interessa por cultura. Temos 10 exemplares, quem quiser um grátis nos escreva: info@baixacultura.org

Compartilhando processos: sobre como fazemos e nos sustentamos

Vocês talvez já devam ter ouvido falar do termo “Curadoria de informação“, ou “curadoria de conteúdo”? Trata-se de selecionar, entre os 30 milhões de terabytes (e contando…) de dados na internet, aqueles que são mais importantes para diversos fins. O termo “curar” vem mais das artes, onde o curador é alguém que, por exemplo, organiza uma exposição e seleciona as obras de determinado artista (ou de várias) para alguma mostra.

Aqui no BaixaCultura nós fazemos diariamente curadoria de informação (humana) voltada à tecnopolítica, contracultura digital e cultura livre. Isso significa que, por trás das postagens que vocês acompanham todo dia nas redes sociais (em especial, no canal do Telegram, Facebook, Twitter e Instagram), há algumas horas semanais de leituras de notícias, ensaios, artigos, livros, escuta de podcasts e visualização de vídeos da internet para trazer para vocês aquilo que acreditamos ser o mais importante nas áreas que trabalhamos.

Toda segunda-feira, dedicamos algumas horas, geralmente pela manhã, para fazer o que chamamos de “ronda”: ler o que foi publicado nos veículos, perfis em redes sociais e selecionar notícias/ensaios/vídeos e artigos para trazer em nossas redes. Agendamos, então, em nossos canais, algumas publicações para toda semana com informações que chamamos, no jargão jornalístico, de “frias”, ou seja, que não dizem respeito a um fato que acabou de acontecer; indicações de textos mais cabeças para ler, sites com acervos livres incríveis, indicação de filme/vídeo a assistir, uma entrevista com alguma pessoa que tem o que dizer na área, entre outros tipos de conteúdos.

No decorrer da semana, todos os dias, geralmente pela manhã, depois do café/desayuno/pequeno almoço, atualizamos nossa “ronda” com informações recém publicadas e que são “quentes”, ou seja, que acabaram de sair e que tem relevância para ontem. Essas informações – geralmente matérias jornalísticas, artigos de opinião, anúncios de governos/empresas, etc – são lidas e preparadas para a a publicação: selecionamos um trecho que julgamos resumir a informação, ou uma declaração potente, editamos, pegamos o link e, então, publicamos em nossas redes. Nosso noticiário tecnopolítico global ultimamente tem sido tenso e pesado, por isso, para aliviar um pouco, costumamos lançar algumas informações mais “leves” – dicas de site, vídeos, entrevistas, livros, etc – entre as notícias “quentes”, geralmente mais nas sextas e nos finais de semana.

Nem sempre conseguimos publicar as informações no “calor da hora”, porque nosso mundo é vasto, as informações circulam muito rapidamente e não conseguimos estar em condições de acompanhar e publicar na hora. Mas, sinceramente, tudo bem; nosso objetivo não é ser o primeiro a noticiar, mas trazer uma informação mais confiável, apurada, de uma fonte comprovada, que vai dar um panorama mais amplo da situação. Raramente publicamos um tweet, por exemplo; mais provável que escolheremos a notícia que repercutiu esse tweet e deu mais outras informações de contexto.

“Tecnopolítica e Contracultura”, curso em fev de 2019

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Esse é o trabalho de Curadoria de informação que fazemos no BaixaCultura. Ele leva tempo: pelo menos 10h por semana ficamos lendo e selecionando informação para publicar em nossas redes. E esse é apenas um dos trabalhos que fazemos: há ainda, pelo menos, outras quatro frentes.

1) a produção de texos inéditos, geralmente análises (como “Ressaca da Internet, espírito do tempo“), relatos sobre eventos que partiticipamos (CryptoRave 2019) e oficinas e cursos que realizamos (Tecnopolítica e ContraCultura, Como documentar um projeto cultural), além da eventual edição e revisão de textos de colaboradores (como o “RSS para fugir dos algoritmos das redes sociais“, do Victor Wolffenbüttel). Escrever um texto inédito, pra nós, é um trabalho de pelo menos 5h: há a escrita propriamente dita, feita a partir de alguma ideia a guiar o texto (no caso das análises) ou de uma série de informações a ser relatadas (no caso dos eventos); a pesquisa de sites, links e outras referências que dêem base ou mostrem aquilo que estamos escrevendo; a finalização e revisão, onde, depois de algum tempo a deixar sem mexer o texto, relemos e cortamos ou acrescentamos alguma parte, além de pesquisar e inserir fotos e vídeos que dialoguem com a postagem. O trabalho de edição de textos de colaboradores geralmente inclui as duas últimas partes somente.

Organizando zines e recompensas, maio de 2019

2) A produção de eventos dentro da nossa temática, como os encontros da rede de cultura livre do sul global, que resultou em 2018 no Encontro de Cultura Livre do Sul, e cursos, oficinas, palestras, como os citados acima e outros que ocorrem por demanda. No caso dos eventos da rede, há o trabalho de organização e articulação, que inclui o envio de muitos e-mails, algumas videoconferências, outras horas pesquisando as iniciativas, tecnologias e projetos envolvidos; conversas diversas e assíncronas nos chats (geralmente usamos o Telegram e o Signal), aprovação e produção de artes gráficas, textos para convidar as iniciativas e organizar as metodologias de trabalho, revisão e publicação em páginas diversas. No caso das oficinas, cursos e palestras, há uma parte de tempo envolvida que é de difícil quantificação: a leitura de livros, sites, conversas com pessoas, on ou offline, que trazem informações novas ou ideias que podem agregar às temáticas que pesquisamos, por exemplo, não são dados quantificáveis porque aleatórios e ocasionais. Mas a sistematização dessas ideias, referências, práticas e fazeres em uma metodologia de ensino sim: são mais pelo menos 10 horas (de acordo com a oficina/palestra/curso) de escrita, pesquisa, conversas (com pessoas próximas, ou oficineirxs parceirxs) e organização de um material de apresentação que sirva de apoio e guia da oficina/curso/palestra.

3) a produção de zines e outros eventuais produtos no que chamamos de “Loja” aqui no site. Para a produção de nossas publicações artesanais (geralmente zines), costumamos selecionar os textos a partir das pesquisas já comentadas para a publicação das postagens, realização dos cursos ou da curadoria de informação. Há, então, a fase de edição, que consiste de pensar a publicação como um todo: se for mais de um texto (caso de La Remezcla, por exemplo), quais vão entrar na edição, ajustes nos artigos (se algum se referir a um fato já ocorrido, por exemplo, hay que atualizar), revisão e encomenda ou escrita de algum texto extra, como uma apresentação, introdução ou posfácio. Há, então, a definição do projeto gráfico, que é realizada a partir do diálogo constante entre editores de texto e de arte (geralmente aqui são duas pessoas envolvidas): envio de um esboço, aprovação, correção, revisão, diagramação final, revisão. Por fim, há a parte de produção gráfica: há que escolher os tipos de papéis usados, qual vai ser a tiragem, negociar preços e entregas se a opção for escolher alguma gráfica a fazer o serviço; organizar a impressão caseira por algumas horas se for produção caseira, como nossas parcerias com a Monstro dos Mares, o que inclui também compra de papel, manutenção da impressora, grampos, cola, tesoura, acabamentos diversos, trabalho feito por pessoas.

Depois desses processos vem o gargalo mais difícil: a distribuição. Que no nosso caso se dá: 1) recompensas de nossas campanhas e venda direta online, onde a entrega é pelos Correios; 2) livrarias parceiras, que vendem publicações alternativas mediante alguma porcentagem para elas nas vendas, caso da Livraria Taverna, em Porto Alegre, e no Ônibus Rizoma, em São Paulo; 3) feiras gráficas e de livros, onde já participamos com banca própria, mas ultimamente deixamos nosso material com alguma livraria/iniciativa parceira, caso da Monstro dos Mares ou da Chupa Manga, por aboluta falta de tempo e condições; 4) Há também a distribuição e venda quando realizamos alguma atividade, como cursos, oficinas e palestras, onde quase sempre levamos algumas publicações;

4) Por fim, e não menos importante, há o trabalho de produção de nossa Newsletter em parceria com a Casa da Cultura Digital Porto Alegre, quase sempre quinzenal, que se aproveita dos trabalhos anteriores de curadoria de informação e pesquisa, mas também requer um tempo de pelo menos 4h antes de seu envio para edição e escrita dos textos, além de uma pesquisa extra para buscar informação nova e a diagramação; e outras tarefas ocasionais, como ajustes técnicos em nossa página, resposta de e-mails (toda semana há alguns para responder, via info@baixacultura.org) e de comentários nas redes sociais; produção da campanha de financiamento no Apoia.se, o que inclui um diálogo constante (pelo menos semanal) com xs apoiadorxs; impressão de adesivos; participação em eventos na área; manutenção do servidor do site e e-mail, organização de backup de textos e fotos; e, ufa, outras tarefas eventuais que agora não lembramos mas que certamente existem!

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Por quê estamos comentando isso, aqui e agora?

Primeiro, para explicar, em detalhes, o que fazemos. É um trabalho diário e árduo manter uma mídia alternativa e um laboratório de cultura livre online em tempos de desinformação constante e grandes monopólios fechados de informação na rede. Fazemos porque amamos e porque consideramos importante – muita gente considera também. Mas requer tempo e esforço.

Segundo, porque estamos com 14 meses da campanha de financiamento contínuo. É lá que estamos buscando recursos para manter nosso trabalho e remunerar as horas dedicadas ao BaixaCultura realizando todas as tarefas já citadas. A partir de R$5 mensais, menos que uma cerveja, você já apoia a continuidade do nosso trabalho.

Terceiro, para dizer que, passado esse período, estamos nos reorganizando para alcançar novos públicos. Fizemos algumas pequenas alterações nas metas e recompensas de nossa campanha que convidamos vocês a olharem.

Quarto, e por fim, para avisar que estamos preparando novidades. Usar mais vídeos (alguém falou de youtuber?) grupos de apoio em redes sociais, novos zines. Queremos saber também de vocês: o que vocês tem achado de nossa campanha, do site, das redes sociais, dos cursos? Alguma sugestão de como ampliar nossa campanha de financiamento e/ou alcance de nossos conteúdos? Nos escreva!

Cryptorave 2019 e a distopia ideológica da Califórnia

Crédito: Sérgio Amadeu

A Cryptorave 2019 ocorreu em São Paulo, dia 3 e 4 de maio, num local diferente dos últimos anos: a biblioteca Mário de Andrade, próximo ao Vale do Anhangabaú, bem no centro de São Paulo. Como nos últimos anos, teve uma programação intensa e robusta – pra ter uma noção, acesse aqui ela completa. O encerramento rolou também no dia 04 de maio, com o DJ Craca. E ainda teve o after party da CryptoRave 2019, na Trackers, festerê que seguiu madrugada adentro no centrão de SP com o projeto Dispersão e muito Pure Data.

Trẽs impressões gerais dessa edição:

1. Muita gente em (quase) todas as atividades;
O fato da Biblioteca estar situada no centro de SP, próximo de estações de 3 linhas de metrô e de outras tantas de ônibus ajudou. Também colaborou o fato do espaço ser grudado em diversos outros locais de muito público, o que misturou públicos – notoriamente no sábado, onde no mesmo hall ocorria uma feira de publicações independentes de poesia. Nas últimas duas edições não havia tanto movimento perto do local do evento, o que dessa vez ocorreu: é como se a Crypto, na Mário de Andrade, estivesse mais integrada à cidade, o que pode ter propiciado a circulação de pessoas diferentes nos diversos espaços de oficinas, debates e palestras. É claro que ajudou a ter grande público a popularidade que o tema da tecnopolítica e da vigilância tem ganhado nos últimos anos. E a credibilidade construída pela organização do evento, que esse ano bateu recorde de valor (não de pessoas colaborando) arrecadado (94 K) via financiamento coletivo.

Apesar das dificuldades para conseguir lugar, dada que o anterior (a Cinemateca Brasileira, palco da de 2018) cancelou pouco mais de 1 mês antes do evento, a escolha da Biblioteca nos pareceu acertada pelos motivos já falados. Os poucos problemas (de comunicação das alterações das salas, do calor em algumas delas) podem ser corrigidos com maior tempo de organização para a próxima edição.

2. Mais variedade de palestras filosóficas, contextuais, históricas;
Essa é uma impressão nossa e de algumas pessoas com quem conversamos: poderia ter tido mais discussões conceituais mais densas na programação. É uma impressão que pode parecer polêmica e parcial, dado que trabalhamos justamente nessa seara de informação e conhecimento sobre cultura livre e tecnopolítica, e é mesmo parcial. Mas percebemos uma curiosidade genuína de muitas pessoas em saber mais sobre conceitos, práticas e histórias ligadas à vigilância, criptografia, segurança digital, espionagem, tecnopolítica. Além das conversas com algumas pessoas durante e depois do evento, tomamos como base a nossa mesa de discussão sobre “A Ideologia Californiana”, que esteve lotada e com muita gente (nova) querendo saber mais sobre o termo, as histórias por trás desse debate e os conceitos que brotam dele (logo abaixo um relato mais detalhado da mesa). Diríamos que há um interesse em saber sobre as histórias das tecnologias, dos debates políticos envolvendo as redes sociais e os aplicativos de mensagens instantâneas e mesmo das ferramentas antivigilância. Histórias de iniciativas que estão se alinhando contra a vigilância global das empresas e dos governos, mesmo que em pequena escala; ideias um pouco mais gerais que organizem certas impressões dispersas e isoladas sobre o mundo do ciberativismo.

A nossa impressão é de que pode haver, nas palestras ditas mais “técnicas”, uma comunicação maior sobre o porquê aquela ferramenta, prática, código, iniciativa é importante, relacionando-a com o contexto pessoal (e cotidiano) da vida de cada um, o que pode furar bolhas de interesse e popularizar o enorme conhecimento que circula num evento como a Crypto. E de que, nas ditas mais “filosóficas”, pode ocorrer um aprofundamento maior de certas ideias, relacionando-as com as técnicas e ferramentas disponíveis e abordando questões relacionadas à subjetividade, arte e filosofia. Utopicamente desejamos uma mistura maior entre técnica e política a ponto de não precisar fazer essa distinção. Mas para deixar claro: isso é um desejo particular. O evento é construído pelas propostas de atividades das pessoas, quem dá o equilíbrio temático são elas (nós).

3. É um dos grande encontros nacionais da tecnopolítica no Brasil
Como costuma acontecer na maioria dos eventos como a CryptoRave, tanto quanto o conteúdo em si das palestras, os encontros entre as pessoas são importantes. É o dia da comunidade se ver, conversar, saber o que x outrx está fazendo, o que, em se tratando de uma área tão árida quanto a segurança digital e a política das tecnologias, é ainda mais importante. E nesse aspecto também reside a importância do evento: buscar ser um encontro em que é possível falar de tecnologia e política ao mesmo tempo, um a alimentar o outro. São raros os eventos de tecnologia em que se fala tanto de política como na Crypto, assim como ainda mais raro são eventos políticos/ativistas em que se discute tanto tecnologia. Esse é um dos pontos fortes, que já diferencia o evento de diversos outros do calendário brasileiro e sul-americano.

 

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Esse ano propusemos uma atividade para o evento também. A mesa (roda de conversa) se chamou “A Ideologia Californiana e o capitalismo de vigilãncia: 24 anos depois, a distopia é real?” e ocorreu no sábado, 4/5, às 16h10, no espaço Ian Murdock, 1º andar da Biblioteca (Hemeroteca). Apresentamos assim a atividade:

“Hoje considerado um clássico da tecnopolítica, “A Ideologia Californiana” é o guia para esta mesa discutir o cenário atual do capitalismo de vigilância e das megacorporações que cada vez mais dominam a internet. Para isso, participam da mesa:
_ Aracele Torres, doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), atuando na área de História da Ciência e da Tecnologia e desenvolvendo trabalhos sobre história da tecnologia digital, software livre, ciber-libertarianismo, ideologias e utopias relacionadas às tecnologias da informação;
_ Camila Montagner, jornalista e pesquisadora, doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp;
_ Tiago Soares, doutorando em História Econômica pela USP, mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp;”

A mediação foi do editor do BaixaCultura, Leonardo Foletto, que apresentou a edição, o contexto atual de sua publicação e leu alguns trechos da introdução. Perguntou também sobre quem conhecia o texto, que foi escrito em 1995 e circula pela internet já faz uns bons anos. Para surpresa geral, poucos disseram que conheciam.

Primeira a falar, Aracele abordou a história da ideologia conhecida como Californiana (ou da Califórnia), um misto de romantismo na crença da libertação do ser humano a partir das tecnologias somado ao neoliberalismo dos livres mercados que se auto-regulam. Sua tese estudou a questão da neutralidade da rede nos EUA e no Brasil e recuperou um tanto da história da Ideologia Californiana que dá base a atuação das grandes empresas da internet hoje.

Camila abordou, entre outros aspectos, algumas ideias de “Futuros Imaginários”, livro de barrbook, co-autor de “A Ideologia”, que retoma alguns eventos da história das tecnologias do século XX para discutir o futuro em seus aspectos sociais, econômicos e políticos. “Devemos deixar o futuro para depois, em modo de espera das suas promessas, ou presentear o futuro com a imaginação da realidade que deve ser vivida já?” pergunta o livro, disponível em PDF para download (e bastante raro em sua versão física) questão que também ecoa no debate sobre o que fazer hoje para dar um fim ao monopólio criado pelas empresas que seguem à risca a Ideologia Californiana.

Tiago, por fim, fez uma fala sobre a globalização, cultura online e as transformações infraestruturais das redes de comunicação e processamento de informação a partir da perspectiva da economia política. Comentou que, de modo irônico, a crítica ao Capitalismo de Vigilância é de certo modo uma nostalgia das promessas criticadas em “A Ideologia Californiana”: “o ponto é menos sobre a crítica do neoliberalismo do que sobre sua captura”. O Capitalismo de Vigilância (conceito desenvolvido por Shoshana Zubofff; aqui uma boa explicação, via Projeto Draft) é uma outra fase, irmã ou filha, das ideias presentes na ideologia originada na Califórnia, algo que foi perguntado no debate ao final da mesa.

Outra questão levantada na parte final continua ecoando por estas páginas: quais alternativas ao capitalismo de vigilância? existe futuro alternativo à vigilância onipresente? Se a ideologia californiana “venceu” e predomina hoje na base das principais empresas de tecnologia mundiais, qual a resposta a ela? Existe alguma? Talvez o Cooperativismo de Plataforma? Se a ideia do software e da cultura livre, que em algum momento se mostrou como alternativa víável para a manutenção de uma internet livre, não tem se mostrado mais factível, então qual seriam as alternativas? Aliás, será mesmo que perdemos a batalha pela internet livre e ainda estamos na Ressaca da Internet e não conseguimos nos recuperar nem mesmo para imaginar um futuro que não seja distópico?

Questões que ficam para um próximo texto, conversa, curso.

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Alguns breves comentários sobre duas iniciativas acompanhadas na CryptoRave 2019. “Segurança de pé descalços” é um projeto e uma estratégia que visa estruturar ações práticas de modo a manter ou expandir a ideia de segurança holística – total, integrada. Vale acompanhar.

Quer tornar seu roteador doméstico mais seguro? Aqui um passo a passo de Douglas Esteves, que esteve no evento com uma palestra sobre o assunto.

Commons desde o sul global

As fotos são da equipe da Tapera Taperá

O Creative Commons é um projeto que administra o principal conjunto de licenças livres no mundo, criado ainda em 2001 por iniciativa de algumas pessoas, entre elas Lawrence Lessig. Como você que acompanha o nosso trabalho nesses últimos 10 anos sabe, as licenças CC são hoje as principais licenças livres do planeta (não as únicas, como vocẽ também sabe se frequenta este sítio) e uma das principais responsáveis pela propagação do que chamamos hoje de cultura livre, um caldeirão de ideia/pessoas e movimentos que já foi apresentado por nós nesta postagem, embora de lá pra cá continue em mutação.

As licenças CC são também a infraestrutura jurídica para a criação de conhecimento na Wikipedia, o compartilhamento de ciência no Scielo, a produção e disseminação de jornalismo alternativo, e a disponibilização online de importantíssimos acervos de museus e arquivos por todo o mundo.

O CC existe já há 17 anos, mas nos últimos dois vem passando por algumas transformações importantes. Uma delas é que as licenças 4.0 são a primeira versão internacional das licenças CC – antes, cada país fazia sua própria versão, a partir da sua lei local, agora há uma licença única entre Brasil e Portugal, por exemplo.

E a outra é a rede global de voluntários e colaboradores: antes, em cada país havia uma única organização responsável pelo projeto; agora, há uma rede descentralizada de pessoas, e organizada em torno de temas (que são discutidos em plataformas temáticas, que são transnacionais). Em mais de 30 países ao redor do mundo já foram formados capítulos locais do CC, inclusive no Brasil, onde o 33º capítulo foi reestabelecido em janeiro de 2019. Em uma reunião de colaboradores locais, foram eleitas as lideranças pelo próximo ano e aprovado um documento de governança (aqui, na íntegra) para guiar as atividades e a representação do capítulo local no futuro.

Mariana Valente, diretora do InternetLab, advogada e pesquisadora na área de acesso ao conhecimento, foi escolhida como a Coordenadora Geral (“chapter lead”) e representante do CC Brasil no Global Network Council​, encontro anual que reúne pessoas de diversos capítulos ao redor do mundo e a equipe da sede da organização nos Estados Unidos. Os outros coordenadores são Juliana Monteiro, coordenadora de OpenGLAM (instituições de memória); Célio Costa, coordenador de projetos Wiki; Rodrigo Padula, coordenador de projetos de governo aberto; e este que cá edita o BaixaCultura, Leonardo Foletto, coordenador responsável pela comunicação, documentação e registros de atividades.

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Na quarta-feira 24 de abril de 2019 o CC realizou sua primeira reunião aberta na Tapera Taperá, livraria e espaço cultural do centro de São Paulo. A proposta foi (re) apresentar o Creative Commons Brasil para um público mais amplo, contar como ele está funcionando e também um pouco de sua história no Brasil. Vale lembrar: o CC existe há 10 anos por aqui, inicialmente ligado ao Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-RJ e tendo o nome de Ronaldo Lemos à frente. Depois, após algumas trocas de liderança, as iniciativas do CC passaram a diminuir de intensidade, ficando restritas à manutenção das licenças CC, do site e de algumas iniciativas esparsas de diálogos com instituições de memória. Essa situação ocorreu um tanto devido ao próprio tema ter perdido espaço na discussão tecnopolítica para a vigilância e a economia gerada em torno de aplicativos como Uber, AirbnB, Rappi, entre vários outros, para citar dois tópicos que ganharam um espaço que já foi o do debate da cultura e das licenças livres na década passada e até cerca de 2012; e outro tanto devido à questões internas de disputas de foco e interesse nas atividades ligadas ao CC. Pedro Mizukami, integrante do CC ao longo desse tempo e hoje diretor de pesquisa cntr., contou um um pouco dessa história na reunião.

A proposta da conversa aberta foi, também, a de dialogar sobre outros temas que perpassam as licenças, como o comum, o movimento por cultura e conhecimento livre, a colaboração, os recursos educacionais abertos, o governo aberto e o acesso em instituições de memória (como museus, bibliotecas e arquivos). Licenciar em uma licença livre, seja ela alguma das CCs ou outras, é também tornar algo um bem comum, que não sendo nem privado nem estatal, deve ser gerido e mantido pela comunidade que a construiu e outras que queiram manter o comum. Também presente na Tapera Taperá, Rafael Zanatta, advogado e pesquisador na área dos direitos digitais e antivigilância , aproximou a discussão do CC com o comum, um diálogo que tem sido feito por boa parte do que costumamos chamar de “movimento” da cultura livre – quem acompanhou nosso Encontro de Cultura Livre do Sul em 2018 certamente viu essa questão lá discutida.

Também foi na linha de aproximar o CC do comum e da cultura livre minha contribuição na reunião aberta, assim como trazer a perspectiva do sul global para pensar a cultura livre hoje. Como escrevemos no Cultura Livre do Sul Global – um manifesto,  falar da questão das licenças, software e hardware livre são importantes, mas no sul global temos outras particularidades que não podemos deixar de lado: a desigualdade social, o acesso ao conhecimento, a criatividade gambiarrística dos que pouco tem, entre várias outras questões tornadas ainda mais urgentes no contexto proto (ou neo?) fascista que o Brasil (e uma parcela do mundo) se encontra hoje.

Como escrevemos no Manifesto: “Pensar e fazer a cultura livre desde o sul requer pensarmos na urgência das necessidades de sobrevivência do nosso povo. Requer nos aproximarmos da discussão sobre o comum, conceito chave que nos une na luta contra a privatização dos recursos naturais, como os oceanos e o ar, mas também dos softwares livres e dos protocolos abertos e gratuitos sob os quais se organiza a internet. Nos aproximar do comum amplia nosso campo de disputa no sul global e nos aproxima do cotidiano de comunidades, centrais e periféricas, que lutam no dia a dia pela preservação dos bens comuns.”

A questão de COMO fazer essa aproximação é o que nós, do BaixaCultura, e diversas outras pessoas e coletivos do sul global estamos pensando hoje. Inclusive esse tema é um dos focos no projeto de mentoria que estamos realizando, com o apoio da Mozilla Open Leaders, para a próxima edição do Encontro de Cultura Livre do Sul, também online, a ser realizado ainda neste 2019, e uma presencial para 2020. Nesse aspecto é importante lembrar que o comum, a partir do conceito-prática que nos relacionamos, é pensado como algo em processo, como um fazer comum (commoning em inglês). Isto é, não termos em vista somente o produto em si – livro, vídeo, música, hardware ou software livres – mas as nossas próprias práticas e dinâmicas através das quais juntos criarmos novas formas de viver, conviver e também produzir. Este é o fazer comum, e por isso o processo de construção aberta, transparente e colaborativa (de fato!) desse comum é tão ou mais importante que os produtos que por ventura possam ser gerados.

A reunião aberta do CC teve transmissão ao vivo, realizada via YouTube da Tapera Taperá, e está disponível aqui abaixo. Se você quiser fazer parte da discussão, que é aberta a todes e coletiva mesmo, há o canal de Telegram, além do site, com um blog contando o que o CC tem feito por aí nesses últimos tempos.

[Leonardo Foletto]

Pela liberdade de Julian Assange e Ola Bini

Julian Assange foi preso pela polícia britânica na quinta-feira 11 de abril, na Embaixada do Equador em Londres, onde o hacker australiano de 47 anos estava abrigado desde 2012. A polícia disse que prendeu Assange depois de ser “convidada a entrar na embaixada pelo embaixador, após a retirada do asilo pelo governo equatoriano”. Há muita coisa envolvida nessa prisão que vamos explicar (ou tentar) aqui nesse texto.

ACUSAÇÃO

Glenn Greenwald e Micah Lee, no The Intercept, explicam que o conteúdo da acusação contra Julian Assange, revelado pelo Departamento de Justiça dos EUA de Trump, “representa grande ameaça à liberdade de imprensa, não apenas nos EUA, mas em todo o mundo”. O documento de denúncia, acompanhado do pedido de extradição pelo governo dos EUA, que foi usado pela polícia do Reino Unido para prender Assange tão logo o Equador suspendeu oficialmente o asilo diplomático, pretende criminalizar diversas atividades que fazem parte da essência do jornalismo investigativo. Por exemplo: Assange é diretamente acusado de tentar ajudar Chelsea Manning a se conectar aos computadores do Departamento de Defesa empregando um nome de usuário diferente, para que ela pudesse manter seu anonimato enquanto fazia o download de documentos de interesse público e os encaminhava ao WikiLeaks para publicação. Na prática, é uma acusação que caracteriza como condutas criminosas ações como a proteção do anonimato, algo que os jornalistas não apenas podem, mas devem tomar para praticar uma atividade jornalística sensível na era digital.

Muitos veículos de mídia, explica o The Intercept, “repercutiram sem pensar a manchete do comunicado de imprensa do DOJ, que alegava que Assange estaria sendo acusado por condutas criminosas de “hacker”, muito embora a denúncia não contenha nenhuma acusação nesse sentido. Assange está sendo acusado simplesmente de tentar ajudar Manning a escapar da identificação. Isso não é “hackear”, é simplesmente uma obrigação fundamental do jornalismo.”

EXTRADIÇÃO

Continuam Greenwald e Lee: “O governo dos EUA está determinado a indiciar Julian Assange e o WikiLeaks pelo menos desde 2010, quando o grupo publicou centenas de milhares de documentos de guerra e telegramas diplomáticos que revelavam inúmeros crimes de guerra e outros atos de corrupção cometidos pelos EUA, pelo Reino Unido e por outros governos de todo o mundo. Para atingir esse objetivo, o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) do período Obama convocou um júri em 2011 e conduziu uma investigação aprofundada sobre o WikiLeaks, Assange e Manning. Em 2013, porém, o DOJ de Obama concluiu que não poderia acusar criminalmente Assange pela publicação dos documentos, porque não havia forma de distinguir o que o WikiLeaks fazia daquilo que o New York Times, o Guardian e diversos veículos de mídia do mundo inteiro fazem regularmente: a saber, trabalhar com fontes para publicar documentos confidenciais.

Com Trump, o DOJ não escondeu esforços para criminalizar o jornalismo em geral e foi assim, que, depois de dois anos de esforços em coagir o Equador a terminar com o asilo diplomático de Assange, conseguiu o que queria. Encontrou em Lenin Moreno, atual presidente equatoriano, um submisso aliado, e a partir daí não foi difícil encontrar motivos para tirar Assange da embaixada, o que permitiria que o Reino Unido realizasse a prisão sob acusações de descumprimento de intimação judicial em um processo em Londres. A acusação de abuso sexual que Assange tinha na Suécia foi encerrado não vale mais, , não por terem concluído que ele era inocente, mas porque passaram anos tentando extraditá-lo sem sucesso. Mesmo dizendo que não vai, o governo britânico pode acatar um pedido de extradição do governo dos EUA para deportá-lo para um país com o qual ele não tem relação (os EUA) para ser julgado pelos documentos vazados.

“Trata-se de um pedido de extradição para os Estados Unidos, com a possibilidade de Julian enfrentar muitos anos na prisão por ter publicado documentos que revelaram crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão”, diz em entrevista à Pública o editor-chefe do WikiLeaks, o jornalista islandês Kristinn Hrafnsson.”

Outra questão importante nesse caso foi levantada em reportagem da MotherBoard: Um membro da equipe que examinou as condições médicas de Julian Assange nos últimos dois anos disse a três grupos internacionais de direitos humanos que ele apresentava “efeitos negativos psicológicos e físicos”, de seus sete anos de detenção na embaixada equatoriana em Londres. A médica acredita que a “severidade acumulada da dor e sofrimento infligidos ao Sr. Assange – tanto físicos quanto psicológicos – é uma violação da Convenção Contra a Tortura de 1984”.

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

Slavoj Zizek, filósofo esloveno, fez um texto certeiro sobre a prisão de Assange. Escreve ele: “Agora podemos ver porquê Assange precisou ser silenciado: depois do escândalo da Cambrigde Analytica vir à tona, todos os esforços dos que estão no poder se voltaram a reduzir o caso a um “mau uso” particular, de algumas empresas privadas e partidos políticos. (…) Hoje sabemos que não foram hackers russos (com Assange) que empurraram o povo para Trump. Em vez disso, eles foram impulsados por próprias agências ocidentais de processamento de dados, que se uniram a forças políticas”. Algo que Assange, o Wikileaks e diversos outros hackers e criptopunks chamados de paranóicos denunciam faz mais de uma década.

“A maior conquista do novo complexo cognitivo-militar”, continua Zizek, “é que a opressão direta e óbvia não é mais necessária: os indivíduos podem ser muito melhor controlados e orientados na direção desejada, quando continuam a se enxergar como pessoas livres e como agentes autônomos de suas próprias vidas. Esta é mais uma lição-chave do Wikileaks: nossa falta de liberdade é mais perigosa quando vivenciada como o próprio meio de nossa liberdade. O que poderia ser mais livre do que o incessante fluxo de comunicação que permite que cada indivíduo possa popularizar sua opinião e formar comunidades virtuais por vontade própria?. O que pode ser mais livre que nossa navegação irrestrita na rede?” Em nossas sociedades, permissividade e livre escolha foram elevadas a valores supremos. Por isso, o controle social e a dominação não parecem infringir a liberdade subjetiva. Aparecem (e são sustentadas) como a própria auto-experiência de indivíduos livres.

É por isso, finaliza o esloveno, “que se torna absolutamente imperativo manter as redes digitais longe do controle do capital privado e do poder do Estado”. Se não privado nem estatal, então comum? Taí: fortalecer a ideia de que as redes digitais e a internet tornem-se um comum, como chegaram a ser nos primeiros anos, onde quem organiza e controla são as próprias pessoas, a partir de diversas instâncias de participação e cuidado, é uma boa e difícil (aposta de) luta para os próximos tempos.

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Ola Bini, desenvolvedor de software livre e ativista pela liberdade na rede, foi detido no aeroporto de Quito, Equador, no mesmo 11 de abril em que Assange foi preso, quando embarcava para o Japão. Após mais de 24 horas sem direito a acesso a intérprete, advogado e sem notificar o seu país de origem (Suécia), a detenção foi convertida em prisão preventiva, que pode chegar até 90 dias. Sem uma acusação concreta, as autoridades do Equador anunciaram que o caso seria de um ‘hacker ligado ao Wikileaks’ e divulgaram em redes sociais o que seriam as evidências apreendidas em sua casa: laptops, tablets, celulares, hds e livros como “Cyber War” de Richard A. Clarke… Equipamentos que muitos profissionais da área da segurança da informação usam no dia a dia.

Desde 2015 Ola Bini participa como palestrante e apoiador da Cryptorave. Na sexta edição, que vai ocorrer 3 e 4 de maio deste ano, ele participaria com uma atividade sobre desenvolvimento de software com segurança por padrão. Familiares, colegas de trabalho, amigos e ativistas ao redor do mundo estão organizando uma rede por sua liberdade e um site: FreeOlaBini. Abaixo uma carta do próprio:

Carta de Ola Bini da prisão de El Inca, Equador

1. Primeiro, quero agradecer a todas as pessoas que estão me apoiando aí fora. Me contaram da atenção que este caso despertou no mundo todo e isso é algo que agradeço mais do posso expressar com palavras. A minha família, meus amigos, a todos os que estão próximos, mando todo meu amor. Tenho sempre em meus pensamentos.

2. Acredito firmemente no direito a privacidade. Sem privacidade não é possível agir e sem agir, somos escravos. Por isso dediquei a minha vida a esta luta. A vigilância é uma ameaça para todos nós, e nós devemos pará-la.

3. Os líderes do mundo estão promovendo uma guerra contra o conhecimento. O caso contra mim é baseado nos livros que eu tenho lido e da tecnologia que eu tenho. Isso é algo Orwelliano – uma Crimideia. Não podemos deixar que isso aconteça. O mundo se fechará mais e mais ao nosso redor até que não nos reste mais nada. Se o Equador pode fazer isso, outros também podem. Temos que parar essa ideia agora, antes que isso seja tarde demais.

4. Eu tenho confiança que será óbvio que não há substância para esse caso, e que isso acabará em nada.

5. Não posso evitar de falar algo sobre o sistema penal equatoriano. Eu estou sendo detido nas melhores circunstâncias e ainda assim é terrível. É necessário uma séria reforma. Meus pensamentos vão para todos os demais presos no Equador.

Ola Bini

 

Privacidade na rede: táticas e técnica de segurança digital

Alexandre Kupac / FISL

Desde pelo menos as primeiras denúncias de Edward Snowden sobre a NSA, em junho de 2013, já sabemos que os governos e as empresas vigiam nossas comunicações digitais na rede. O cerceamento da internet por um pequeno apanhado de empresas privadas – Google, Facebook, Amazon e Apple – tornou ainda mais fácil a vigilância.

Em troca de acesso “grátis” a serviços e sites da internet, oferecemos dados valiosos sobre nossa vida: o que comemos, onde moramos, que lugares frequentamos, quem são nossas amigas, quais nossas artistas favoritas, por onde nos deslocamos pelo mundo, em quem votamos, que causas somos a favor ou contra, entre outras milhares de informações que fornecemos nas redes sociais, nos aplicativos de nossos smartphones e em nossas navegações diárias na internet.

Nesse cenário, como os indivíduos podem proteger minimamente sua privacidade de grandes empresas que controlam ainternet e também de governos? Faremos, na próxima terça-feira 12/3, das 14 às 18h, uma oficina de “Privacidade na rede: táticas e técnica de segurança digital“, no CPF-SESC, em São Paulo. A proposta é conversar sobre como lidamos com nossos rastros digitais, quem nos rastreia, onde isso é feito e porquê. O objetivo também é apresentar estratégias, ferramentas e formas de navegar na web e usar seu smartphone de forma segura, para evitar ou minimizar o rastreamento.

Serão mostradas ferramentas de navegação anônima e antivigilância, aplicativos de trocas de mensagens instantâneas seguros e uma introduçãobásica à criptografia, de modo que qualquer pessoa, sem conhecimento aprofundado da internet e da tecnologia, possa se proteger minimamente nas redes digitais.

Inscrições aqui. Depois contamos aqui como foi e mostramos o material utilizado na oficina.

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A oficina teve a presença de 20 pessoas e foi uma conversa guiada sobre o assunto, organizada em dois momentos:

1. CONTEXTO: COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI?

Ressaca da Internet, espírito do tempo;:

Capitalismo de dados/vigilância, economia da atenção; redes sociais modulando nossas emoções;
_ A Sociedade de Controle: Manipulação e modulação nas redes digitais. Joyce Souza, Rodolfo Avelino, Sérgio Amadeu da Silveira (2019, Hidra);
_ Capitalismo de Vigilãncia, Shoshana Zuboff:
“A direção através de mais e mais extração de dados e analise. / O desenvolvimento de novas formas contratuais usando monitoramento computacional e automação / O desejo de personalizar e customizar os serviços oferecidos para os usuários de plataformas digitais / O uso de infraestrutura tecnológica para executar experimentos futuros em seus usuários e consumidores”.
_ O que é privacidade hoje?
Público X privado; dados pessoais X dados sensíveis;

2. E AGORA?

Resistir ou re-existir na rede?
Outra forma de usar a rede. Proteção de dados pessoais. Meus dados, minhas regras. Regulação? GDPR
Direito à privacidade: fundamental para garantir articulação dos mais frágeis diante dos grupos de poder;
Transparência nos algoritmos. Software Livre (“como orgânico”). Autonomia.

SEGURANÇA DIGITAL: de quem nos proteger? Estado, empresas, outras pessoas?
FreeNet.

Programa básico
Signal – Tor – Servidores de e-mail alternativos – criptografia –
compartimentalização de identidades: uma estratégia eficiente é, aos poucos, irmos criando perfis diferentes, de acordo com nossos usos das redes, de modo que pelo menos seja mais difícil ligar os pontos para montarmos nossa identidade principal. Se vivemos em um mundo ultra-fragmentado, porque também não fragmentamos nossa identidade na rede? Quel tal sermos outrxs, diversos e múltiplos?
DATA DETOX

Aqui o pad com o roteiro da oficina completa.

Abaixo tem uma foto do oficineiro tirada por Jean Paz, jornalista do Sesc (que tb fez a oficina).

Tecnopolítica e contracultura: um experimento em ação

Terminou na última quarta-feira, 13 de fevereiro, a primeira edição do curso “Tecnopolítica & Contracultura”, um passeio pelo pensamento e ação de autonomistas, anarquistas, hackers e outrxs rebeldes. Durante três dias, propomos – este que cá escreve, Leonardo Foletto, e Leonardo Retamoso palma – uma jornada por ideias, conceitos, práticas, ações e referências em busca da retomada de um pensamento tecnopolítico que bebe muito na fonte dos autonomismo e operaísmo italiano da década de 1960 para encontrar saídas de análise e ação dessa “ressaca da internet” que nos metemos neste final de década de 2010. Um público muito diverso, de cerca de 30 pessoas nos 3 dias, aceitou nossa proposta e embarcou no passeio: de recém saídos do Ensino Médio a professores pós-doutores de universidades, passando por artistas, programadores, designers, jornalistas e arquitetas, nos tornamos uma potente multidão em busca de abrir as caixas-pretas da tecnologia e entender como se dá essa louca composição que nos causa esperança e sofrimento, depressão e euforia, liberdade e prisão.

O autonomismo italiano serviu como um primeiro recorte histórico de um movimento/período/grupo que, além de tomar ruas, fábricas e universidades, criou suas próprias tecnologias (como a Rádio Alice, pioneira rádio livre criada em 1977 e com boa parte de seu acervo nesse site) e não se furtou a disputar a tecnologia em vez de demonizá-la – ou idolatrá-la como a salvação para os problemas da humanidade, esquecendo do elemento humano e político em sua construção. Depois, os fabulosos 1990 trouxeram altermundistas, zapatistas, ciberativistas, hackers e militantes do software livre a compor uma poderosa frente contra o capital global que buscava (e ainda busca) a decomposição em busca da dominação. A criatividade, expressa na guerrilha da comunicação/artivismo, foi essencial nesse período, com os teatros midiáticos coletivos de Luther Blisset e Wu Ming, bem conhecidos de quem frequenta esse espaço virtual; os protestos pacíficos dos Tute Bianche, que iam para o front (mesmo) dos protestos com chamativas roupas e equipamentos de brinquedo para pontuar o ridículo do conflito armado; os sit-in virtuais em prol dos zapatistas, que interditavam sites estratégicos em prol de uma causa específica. Com esses e outros diversos exemplos, trouxemos a discussão para o presente e identificamos como a arte, quando formada pelo encontro ingovernável de corpos eróticos, é fundamental na mudança de perspectiva sobre ruas, computadores, governos, instituições e nós mesmos.

Por fim, trouxemos os hackers e sua ética de liberdade e transparência, fundamental para a construção da internet livre como a conhecíamos até pouco tempo atrás. Pontuamos no debate os princípios contraculturais da ética hacker (aqui tem bastante material sobre isso, feito para minhas aulas de Cultura Hacker e Jornalismo), mas ouvimos o feedback que, por menos discriminatórios que sejam alguns dos princípios hackers, a prática nos diz que muitos hackers e programadores endossam o machismo e a misoginia. Para reverter esse processo é fundamental o trabalho de iniciativas que relacionam as questões feministas e LGBTQ com as tecnologias digitais e a cultura hacker, como muitas das que divulgamos nesse post no 8 de março de 2018, hackerspaces como MariaLab, grupos como Mulheres na Tecnologia e iniciativas recentes como o portal Acoso Online, que trata de trazer informações sobre publicação sem consentimento de imagens e vídeos íntimos por meios eletrônicos.


Finalizamos, nas duas horas finais das 12h de curso, com algumas inquietações, sugestões de ações e trechos de textos que nos convidam a agir.
Abrir as caixas-pretas, da tecnologia e dos sistemas políticos, econômicos e institucionais, em busca da transparência desses sistemas é um objetivo sempre em vista.
Que a urgência desse momento de tantos retrocessos e conservadorismo global seja uma inquietação para agir, não para se desesperar; há muito o que se construir, se unir e (re) lembrar afinal porque somos humanos e porque o conhecimento que produzimos pode servir para a busca de justiça social e redução das desigualdades.
Que, na aceleração da infoesfera que nos entope de informação, limitar (ou organizar) os muitos estímulos vindo de todos lados é não somente razoável como necessário para agir.
Que é importante politizar o mal-estar, como nos fala Amador Fernandez-Savater; que esse mal-estar geral que vivemos em torno dos retrocessos e ascensão de práticas relacionadas ao que chamamos de fascismo pode ser elaborado enquanto força afirmativa de transformação e de construção de possibilidades e modos de viver. Não deixar o choro e o sofrimento em casa, mas sim trazê-los, junto com o mal-estar, para o debate (hay que vir llorado de casa!) e falar sobre ele. Mesmo que não se saiba onde essa discussão vai dar: no caminho podem ocorrer mudanças que nos tiram do imobilismo da crítica pela crítica. Aprender a viver a partir e com a crise é um primeiro passo para sair dela, o que inclui não negar o subjetivo e os afetos na política, mas unir estes afetos, destrinchá-los e trabalhar com eles, compartilhando vulnerabilidades – situações como a dos três dias de curso que propomos são algumas das possíveis de fazer essa discussão.

“A ação da multidão não é outra coisa que esta proliferação contínua de experiências vitais que têm em comum a negação da morte, a recusa radical e definitiva do que paralisa o processo da vida”. (Antonio Negri)]

[A ‘deserotização’ da vida cotidiana é o pior desastre que a humanidade pode conhecer…é que se perde a
empatia, a compreensão erótica do outro…” (Franco Berardi, Bifo)]

[“A ação … diz respeito, antes de mais nada, ao sentir. Agir significa modificar a maneira de sentir junto…” (Maurizio Lazzarato)]

[“Refiro-me à multidão de festa, à multidão de alegria, à multidão espontaneamente amorosa, embriagada apenas pelo prazer de se reunir por se reunir.” (Gabriel Tarde)]

[“… o mais profundo é a pele…” (Paul Valéry)]

“Tecnopolítica e Contracultura” é um experimento disparador de ideias e ações que visam a nos tirar da letargia do “não há nada a fazer”. Como tal, segue em outros locais e com outras pessoas; nas próximas semanas vamos avisando os próximos passos e datas. Aqui está o material guia utilizado no curso. Adelante!