O TOR e a resistência a distopia da vigilância

 

Isabela Bagueros, que logo assume como Diretora executiva do TOR (sua foto já está no blog do projeto), fez uma fala potente na abertura da #CryptoRave2018 lotada, ao ar livre, no deck da Cinemateca Brasileira. Afirmou que as empresas de tecnologia tomaram a internet e fazem do nosso comportamento uma commodity, abusando de práticas no mínimo controversas, como bloquear acessos a serviços para forçar a criação de novas contas, compartilhar (e não vazar, como alega o Facebook) dados dos usuários com terceiros sem avisar, fazer os termos de serviço escrito naquelas letrinhas miúdas que raramente se lê… Ela defende que o modelo de negócio da internet baseado na comercialização dos nossos dados de uso tem que mudar. “Não podemos mais aceitar a comercialização abusiva dos nossos dados. A privacidade tem que ser padrão, não exceção”, disse, no que nós concordamos, embora saibamos também que essa é uma batalha MUITO difícil e que estamos no centro dela neste momento.

O TOR, é claro, é um elemento central nessa batalha por privacidade na rede. Isabela fez uma apresentação geral da ferramenta (o vídeo abaixo desenha como ele funciona), que tem 63 mil servidores (voluntários) espalhados pelo mundo e uma estimativa de 2 milhões de usuários, e falou do ecossistema por trás do software: uma ONG, que tem cerca de 30 pessoas trabalhando remuneradas, o conselho administrativo, os voluntários e os contribuidores – o Tor é um software livre, portanto é possível contribuir para seu aprimorar seu código ou mesmo detectar falhas de segurança. Afirmou que a forma de financiamento do TOR é baseada em doações, sendo menos da metade de governos (EUA, Suécia, Alemanha), e a outra parte vem de fundações (Mozilla, por exemplo), empresas privadas e pessoas de todos os lugares do mundo.

Os serviços Onion – sites que só podem ser acessados pelo TOR e compõe boa parte do que as pessoas chamam de “Deep Web” – também foram tema da keynote, Aliás, sobre isso Isabela deu uma declaração que, se houvesse jornalistas da mídia tradicional na Cryptorave, seria muito problematizada: “Não existe deep web ou dark web, isso é invenção da mídia. Na verdade a chamada deep web são os serviços onion, que permitem distribuição de conteúdos de forma anônima, o que é importante na nossa sociedade”.

Um dos focos do TOR hoje, e que vai ser uma das pautas tocadas por Isabela na Diretoria Executiva da organização, é a diversidade. “Precisamos ter servidores rodando em vários lugares, de diversos tipos, pessoas diversas, sistemas operacionais diversos. Isso fortalece a rede”, afirmou ela. Quanto mais pessoas e computadores diversos usarem TOR, menos a possibilidade de você ser o único da sua rua-bairro-cidade a usar o Tor para navegar anonimamente na rede – e talvez ser discriminado e perseguido por isso. Aliás, se o Tor é censurado em algum país, entre neste site e você tem todas as informações para continuar navegando anonimamente.

Outro foco é OONI, um aplicativo que que ajuda a detectar censura e vigilância na internet de vários lugares do mundo. Você executa o app e tem acessos a uma série de dados sobre os sites que são bloqueados e em que lugares, além de detectar a velocidade da rede que você acessa, entre outras funções ainda em desenvolvimento. Já dá pra baixar na Play Store e na F-Droid (a loja de aplicativos livres).

Assista a íntegra da palestra de Isabela no canal da TV Drone no Youtube:

_ O Coletivo Encripta, um dos co-organizadores da CryptoRave, fez um excelente tutorial em português chamado “Conhecendo e Desmistificando o Tor“.
_ Confira as matérias na MotherBoard, da Vice, que tratam do TOR ou de algum assunto que ele é relacionado.

 

Diálogos Abertos #1: O Caso facebook

Junto com o Hackerspace Matehackers e a Casa da Cultura Digital Porto Alegre, começamos na última quinta-feira, 26 de abril,  uma série de debates sobre temas ligados à cultura digital, tecnopolítica, direitos digitais, cultura livre, ética hacker e outros do nosso cotidiano digital. Nosso intuito foi, e continuará sendo com os próximos, dissecar esses temas num momento em que a internet que conhecemos está acabando, e que novas “internets” estão sendo construídas, num campo em ferrenha disputa que acontece hoje.

Para começar os Diálogos Abertos, não poderíamos deixar de falar do recente caso envolvendo o Facebook, que supostamente vazou (compartilhou, melhor dizendo) dados de cerca de 87 milhões de pessoas para a empresa de marketing político Cambridge Analytica por meio de testes de personalidade. A situação levou o criador da rede social, Mark Zuckerberg, a defender sua empresa no Congresso dos Estados Unidos e despertou um sonoro “eu já sabia” nos meios do ciberativismo de proteção de dados e antivigilante, além de queda do valor das ações da empresa na Bolsa de Valores e alterações na política de proteção de dados da rede social, que vão afetar os mais de 1 bilhão de pessoas com perfis no Facebook.

A conversa realizada no miolo do Vila Flores, condomínio cultural criativo que abriga o Matehackers, girou em torno desse e outros temas correlatos, e teve a condução de Janaína Spode, integrante da CCD POA, produtora cultural e ciberativista nas lutas pelos avanços políticos para reforçar os Direitos Humanos no mundo digital;  Fabricio Solagna, doutorando em sociologia pela UFRGS com pesquisa focada em governança da Internet e Marco Civil na Internet e que já realizou projetos de participação digital no governo do RS e na presidência da República; e Leonardo Feltrin Foletto, doutor em comunicação pela UFRGS, integrante do Matehackers, da CCD POA e editor desta página.

Diálogos Abertos marcou também o lançamento da Newsletter quinzenal CCD POA + BaixaCultura (inscrição e todas as infos aqui), e da campanha de financiamento contínuo do BaixaCultura no Apoia.se. Teve a presença de cerca de 20 pessoas e outras tantas online, na transmissão que fizemos no YouTube e que está disponível aqui abaixo. As fotos são de Sheila Uberti. A 2º edição será realizada em maio.

Cultura livre, comum e inovação cidadã em charla

Primeiro de março, final de manhã quente em Santos. Da rodoviária até o Instituto Procomum nos disseram que levava nem 20 minutos a pé. Nos disseram também que a viagem de São Paulo até Santos é rápida, e foi: de descer em Jabaquara, entrar no terminal, comprar passagem, pegar a Imigrantes para descer a serra e chegar na maior cidade do litoral paulista não deu 2h. Baixamos do ônibus com mochilas nas costas e seguimos a pé por uma praça grande de nome muito encontrado Brasil afora, Andradas. Atravessamos pelo meio das arvores centenários, cruzamos com pessoas sentadas nos bancos, vendedores de livros usados, até chegarmos numa daquelas típicas ruas centrais de cidades brasileiras, de calçadas estreitas tomadas de decoração de lojas, muitas lojas, de móveis, eletrodomésticos, roupas, tecidos, ferragens, lancherias e trecos em geral. As nuvens fartas disfarçam a queimação dos raios de sol na pele, mas não aliviam o calor, abafado e úmido que prenuncia chuva. Pouca gente na rua comercial, pelo menos não o suficiente para atrapalhar a caminhada, que segue rápida, ritmada, queremos chegar, largar as mochilas, tomar uma água, secar o suor. Agora viramos a esquerda numa rua com mais prédios, menos comércio, uma igreja grande, uma praça que parece antiga à esquerda, um posto na esquina; nessa esquina dobramos à esquerda novamente. Estamos na rua Sete de Setembro, que ao final dá no mar, no porto, no Mercado Municipal, região de casas antigas, prédios baixos, lojas de todos os tipos. Calçadas estreitas, em alguns pontos irregulares,  passamos por um muro de um colégio, um restaurante-bistrô, pequenos comércios, paradas de ônibus. Da calçada olhamos para o o outro lado da rua: número 52, uma porta fechada, um pavilhão grande. Deve ser aqui. Antiga sede da Associação Prato de Sopa Monsenhor Moreira, agora sede do Laboratório Santista. É.

Principal projeto do Instituto Procomum, o LabxS é um laboratório cidadão em formação. Os 1200 m² estão sendo ocupados aos poucos, com mutirões para cuidar da horta, fazer móveis, grafitar as paredes, decorar o ambiente. Já há quartos e banheiros enormes com vários boxes, resquício do tempo que o espaço recebia dezenas de moradores de rua por dia e oferecia comida, banho e um pouco de cuidado para estes voltarem para a rua no mesmo dia. Um dos banheiros coletivos já foi reformado e, nos próximos meses, vai ser usado na Colaboradora, projeto com inscrições até o próximo dia 29/4: trata-se de um um ambiente onde artistas, produtores e a comunidade aprendem juntos a solucionar os complexos problemas contemporâneos por meio da arte e da cultura. Um residência artística, mas não só. Um grande salão, antigo refeitório, já tem sido usado como auditório e local de grupos de trabalho, inclusive na 2º edição do Circuito Labs, realizada no início deste 2018. O circuito é um festival de inovação cidadã feito via chamada pública para realização de ações que promovem os bens comuns e as soluções de problemas de baixo para cima.

Muitos dos projetos do LabxS e do Instituto Procomum precisam de mais do que duas palavras de explicação. Ficam naquela intersecção entre várias áreas: não se tratam, por exemplo, de iniciativas culturais, nem de tecnologia, de empoderamento, nem de inovação, mas de tudo isso junto e misturado com outras várias coisas. Fomentam a solução de problemas no espaço público a partir de tecnologias digitais, metodologias colaborativas, pessoas e coletivos da região da Baixada Santista. Inovação cidadã e cultura livre, dois termos que definem o trabalho realizado pelo Procomum, não são facilmente compreensíveis hoje no Brasil. Quer dizer: não são termos complexos, acadêmicos, mas simples, tão simples que a vezes permitem muitas interpretações. Polissemia pura, que para fins de comunicação entre diferentes precisam ser definidos. Descrições e explicações são facilmente encontradas em todo o site do Procomum e do LabxS não por acaso.

A BaixaCharla abaixo não foi tão descritiva ou explicativa, mas afetiva. Nos conhecemos, eu (Leonardo), Rodrigo e Geórgia faz oito anos, trabalhamos juntos na CCD São Paulo em projetos como o Produção Cultural no Brasil, Fórum da Cultura Digital, BaixoCentro, além do principal projeto, a própria casa, criativa e louca como costumam ser as coisas difíceis de definir. “A Casa me deu régua e compasso do que eu não quero fazer”: frase forte de Rodrigo, citando Gil e “Aquele Abraço“, dá uma amostra do porquê a CCD foi tema de alguns bons minutos do papo. Não é fácil criar um espaço onde a experimentação se dava sem forçar, ação cotidiana “naturalizada” em cafés e conversas paralelas na cozinha que resultavam em projetos meio de brincadeira, meio a sério, que poderiam ser levados adiante e bancados por articulações financeiras num cenário – hoje percebemos bem – favorável de políticas culturais e investimentos públicos. “Prioridade pra quem se desloca” era um lema daqueles tempos, que jamais seria escrito como missão, regra, mandamento, a não ser que fosse de brincadeira, aí sim poderia pintar um dia na parede escrito à caneta, fruto empolgado de “horas felizes” no fim de tarde regadas à truco e cachaça. A lembrança com alguma distância temporal soa romântica, mas há de se recordar que o espontâneo daquela época acontecia pela ação de muitos “kamikazes financeiros” que adquiriam dívidas e compravam brigas nada sustentáveis e que durariam anos para curar. Mas que, ao contrário dos kamikazes originais, não morreram, e cá está uma das muitas provas.

O Instituto Procomum, e o LabxS, é como um irmão mais velho da CCD. Mais organizado, sustentável, feminista, negro, LGBT, com protocolos claros de convívio, hierarquia reconhecida e disposição para enfrentar o desafio da organização. O que não significa caretice nem engessamento eterno, mas sim que cada um assuma a sua responsabilidade, que colabore sem esquecer que o afeto é importante, que cuidar de todxs e trazer as emoções para conversar é fator diferencial de sobrevivência nesse brasil hostil de 2018 – politização do mal-estar, como apontou Amadeu Fernandéz no relato que produzimos em Enfrenta. Rodrigo e Geórgia passaram por muita coisa em governo, empresas privadas e organizações da sociedade civil para, hoje, saber o que querem. E também para se articular local e internacionalmente e buscar recursos para sustentar seus experimentos: o espaço da rua Sete de Setembro e os projetos já tocados pelo Procomum atestam isso.

A BaixaCharla girou da cultura livre à CCD, da política ao comum, do cuidado à inovação. Foi mais um papo informal e tão espontâneo quanto uma câmera na mão (da Sheila Uberti, parceira de todas as horas) torna possível. O primeiro em São Paulo – ou melhor, em Santos, na Rua Sete de Setembro, 52, Vila Nova, um dia calor de final de verão. As fotos depois do vídeo são do e LabxS e dos arredores do Mercado Municipal.

Uma newsletter quinzenal

Nos reunimos com a CCD POA para organizar, embasar e ir mais fundo nas informações que todos os dias postamos nas nossas redes sociais e plataformas como este site. Daí nasceu a nossa Newsletter em conjunto, para informar e debater temas como tecnopolítica, direitos digitais, privacidade, cultura livre, remix e (contra) cultura digital – e também informar as atividades que realizamos por aí e organizar uma agenda de eventos nessas áreas. Mais uma newsletter, vocẽ pode pensar: e é, sim, mais uma newsletter, e ao mesmo tempo não é: nosso objetivo é trazer um conteúdo diverso, aprofundado, olhando para o que acontece no presente e sobre as transformações que a internet está passando e nos fazendo passar enquanto sociedades. Mas também queremos olhar para trás, para lembrar de textos, fatos e histórias que nos ajudam a entender esse frenético cotidiano de hoje, por isso em todos os envios vamos resgatar algum texto ou acontecimento passado que, no mar de informações compartilhadas todos os dias, acaba por se perder.

Se inscreva a nos acompanhe! O 1º envio é nessa quinta, 19/4, e os próximos serão sempre às quintas, a cada 2 semanas, salvo em ocasiões especiais.



Lançamento da campanha de financiamento & continuidade

O cansaço já havia decidido por mim faz alguns meses: 15 de setembro de 2018 seria a data de morte do BaixaCultura. É o dia também de aniversário de 10 anos, idade simbólica para um projeto que nasceu quando as redes sociais eram menores e a internet era outra, mais livre, menos distópica. Estava escolhendo alguns dos textos mais representativos nessa década para organizar um livro de despedida, uma espécie de coletânea do que passou pelos nossos radares, dos debates esperançosos sobre a necessária reforma nas leis de direito autoral nos idos de 2009 às máquinas de vigilância disfarçadas de redes sociais como este Facebook, passando por muitos (mesmo) outros temas que passaram por nossas páginas.

Comentei com algumas pessoas desse desejo e ouvi algumas respostas que diziam: “mas agora que tem 10 anos vai acabar?”. De fato, existem poucos projetos vivos que documentam e produz cultura livre (e contra) cultura digital. Na era em que tudo é registrado, onde parece tão fácil documentar, muito tem se perdido. Um paradoxo, ainda mais visível e paradoxal no mundo onde me movo, dos projetos, pessoas e instituições de cultura livre, remix, artivismo, hackers, contracultura, software livre, etc.

Comecei a pensar: e se o BaixaCultura continuar? Diferente, mais ativo e frequente, como resistência mesmo, num mundo (e especialmente neste Brasil de 2018) cada vez mais difícil de resistir. Como poderia encarar o desafio da sustentabilidade fazendo, vá lá, um jornalismo tão artesanal, por muitas vezes lento, um laboratório de produção de conteúdo, experimentação e formação em cultura livre, independente de publicidade e com a parceria de muitxs?
Uma tentativa de responder as perguntas acima está na campanha de financiamento recorrente que começamos nesta semana. Apoiar o BaixaCultura no APOIA.se é acreditar na cultura livre, no conhecimento aberto, e dar um crédito todo mês para que nós continuemos fazendo (e qualificando) nosso trabalho nessas áreas. São várias opções de apoio, começando por R$5, e você escolhe de acordo com as suas possibilidades de colaboração. Nossas metas estão detalhadas de forma transparente, para que todxs saibam o quanto precisamos mensalmente para fazer o BaixaCultura. E tem recompensas também, de zines a newsletter, de surpresas (impressas!) a encontros presenciais, oficinas e cursos.
Chega mais, veja o vídeo, leia o texto, se quiser/puder/achar importante apoie, se não ajude a espalhar. Recorrente é maratona e não 100m rasos, então a questão ainda segue. https://apoia.se/baixacultura
Leonardo Foletto, editor

Um pacote semanal de arquivos offline

Quatro anos atrás hospedei em minha casa por alguns dias um programador cubano, que veio à Porto Alegre para um evento internacional de software livre, o FISL. Ele aproveitou a ocasião também para acompanhar alguns jogos da Copa do Mundo de 2014, então depois de Porto Alegre andou por várias outras cidades do Brasil, inclusive esteve no Rio de Janeiro quando ocorreu a final, aquele Alemanha X Argentina vencido pela primeira com um gol na prorrogação. Por conta das viagens, ele veio com uma mala grande, carregada com roupas para uma estadia longa e também com algumas lembranças de seu país, entre elas algumas garrafas de Rum para presentear seus anfitriões. Festeiro e alegre como boa parte dos cubanos que conheci, adorava sair pra dançar à noite; nos “aquecimentos” em nossa casa, ensinava a fazer mojitos com o rum que trouxe, completados com açúcar, água com gás e muita “hierbabuena” – como é chamado o hortelã em espanhol.

Além da bagagem física, ele também trouxe uma bagagem considerável de arquivos em seu HD. Compartilhava com quem quisesse seu acervo: mais de 10 gigas de música e ouros tantos de filmes cubanos. Ainda que tivessem alguns clássicos de fácil circulação na internet, boa parte era material mais raro de conseguir, músicas e filmes que não estão no YouTube ou em outro serviço de streaming, e que talvez só seja encontrado na internet em clubes de download, ainda os melhores espaços para se baixar qualquer coisa na rede. O fato da velocidade de conexão em Cuba ser muito lenta torna bem mais difícil o compartilhamento de arquivos online e na “nuvem”, um dos motivos pelos quais nosso amigo programador usou constantemente nossa (meia boca) internet de 15 megas para baixar os mais diversos arquivos enquanto esteve em casa.

Soube depois, conversando com ele, que carregar arquivos digitais em pastas (em pendrives, HDs, etc) para compartilhar é um hábito comum em Cuba, onde a rede é acessado por uma minoria do país: algumas estimativas internacionais falam em 5% de pessoas com acesso na ilha em casa, enquanto que a “Oficina Nacional de Estadística de Cuba” disse que, em 2014, eram 27%, embora essa estatística reflita os conectados à intranet local. Mesmo estes 5%, o acesso ainda é lento e caro: na maioria das casas, a velocidade é 56 kbits, como nos velhos modens dos anos 1990, e há restrições de horas (a de meu amigo cubano é de 30h por mês). Há zonas de wifi públicas presentes em algumas das principais cidades cubanas e cybercafés públicos, mas ambos são caros: dados de 2016 dizem que a primeira saía em torno de US$2 dólares por hora e o segundo entre US$6 e 10 por hora – sendo que o salário médio no país gira em torno de U$$20 mensais. As torres de dados para telefonia móvil estão sendo implantadas e, por enquanto, o acesso ocorre apenas para algumas pessoas do governo ou de (poucas) instituições privadas, segundo me contou o programador da ilha.

Esta realidade de conexão ajudou a manter por lá o hábito do compartilhamento físico, offline, de arquivos dos mais variados. Um dos principais arquivos digitais compartilhados da ilha é o chamado “El Paquete Semanal“, um pacote de arquivos de quase 1 TB (contendo entre 15 e 18 mil) distribuídos toda semana ao redor do país com softwares, esportes, telenovelas, desenhos animados, mangás, películas, videogames, músicas, revistas e muito outros conteúdos que a internet traz. “É a melhor maneira de estar atualizado offline” me disse, meses depois, o amigo cubano.

São dois modos os mais comuns de receber o material de “El Paquete”. O primeiro é pagar entre U$1 e U$2 (ou CUC, o peso convertible cubano, usado mais por turistas; diferente do CUP, o peso cubano usado no dia a dia) e receber em sua casa, toda semana (segunda ou terça, dependendo da cidade), alguma pessoa com os arquivos em HDs portáteis ou em memórias flashs (cartões de memórias de máquinas fotográficas, por exemplo), que copia para o seu computador o que você escolher. A outra é comprar nas mais diversas lojas pelo país, especialmente a de aparelhos para smartphones, que revendem para outros clientes. Daí ele se espalha de mão em mão, tal qual um arquivo na internet.

No site de “El Paquete” é possível ver uma lista detalhada dos arquivos de cada semana, divididos por pastas e sub-pastas; na da segunda semana de março de 2018, por exemplo, havia 5 gigas de documentários, curtas, novelas e longas cubanos em “Cinemateca Cubana”; quase 4 GB de aplicações para Android e Iphone em “Aplicaciones para Móviles”; 20 GB em “Música MP3 2018”, com sub-pastas como “Top UK 40 Singles”, “Unreleased Puerto Rico”, “Temas de Estreno Internacionales”, “Top de Febrero”, entre outras; 30 GB de séries de países de língua inglesa em “Series en Transmision”, de “Outlander” a “Grey’s Anatomy”, de Law & Order” a “Arquivo X”; 4GB de revistas em inglês e espanhol, atualizadas semanalmente; entre muitos outros arquivos – lembrando que é quase 1 TB, a capacidade média de boa parte dos HDs que vem nos computadores portáteis hoje vendidos.

Além destes arquivos, “El Paquete” contém também os arquivos de um mercado digital chamado Revolico, que funciona de modo semelhante ao Craigslist: as pessoas compram e vendem todo tipo de coisas, de bicicletas à aulas de matemática, incluindo o próprio acesso à Internet a um preço com desconto. É considerado o principal mercado negro de Cuba, mas tem uma particularidade: é oficialmente bloqueado na ilha desde 2007, quando foi começado por expatriados cubanos na Espanha. Ainda assim, alguns conseguem acessar porque os fundadores do site criaram uma série de servidores proxy, soluções de DNS, endereços web privados e espelhos que mantém o site no ar em Cuba – há, inclusive, seções inteiras sobre o como acessar o site no próprio Revolico.

Os que não conseguem, que são a maioria dos usuários, baixam os arquivos de “El Paquete” e depois usam offline. Uma vez baixado do pacote, Revolico pode ser navegado normalmente em um navegador da Web, de modo que você poderá entrar em contato com os vendedores com um telefonema, assim como você faria se você encontrou o anúncio em um jornal. Em uma reportagem da Vice de 2015, um artista cubano que vive em Havana e consome o “El Paquete” diz que o Revolico é conhecido por todos no país, e é essencial para muita gente.

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A realidade de uma internet lenta e de pouca penetração não explica sozinha, claro, a escala e o alcance de “El Paquete”. No início dos 1970, cerca de dez anos após a revolução cubana e a nacionalização dos meios de comunicação social, uma economia baseada no aluguel de material de entretenimento começou a florescer em escala na ilhaCom o desenvolvimento de novas mídias, o comércio se adaptou: passou de revistas para as fitas de vídeo VHS e Betacam, depois CDs, VCDs e DVDs e hoje os HDs e pendrives. O Pacote Semanal é o resultado do desenvolvimento gradual dessas redes por mais de quatro décadas.

Não há informação precisa de quantos pacotes são distribuídos semanalmente. Até pouco tempo atrás, não se conhecia publicamente os distribuidores dos pacote. Muitos perguntam como, semanalmente, é possível baixar 1 TB de arquivos com a conexão lenta que existe em Cuba; alguns já especulam que ele vem diretamente dos Estados Unidos. No vídeo abaixo, produzido em 2015 pela CiberCubaTV, “El Transportador”, conhecido como criador de “El Paquete” dá mais detalhes de como funciona o esquema.

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Fotos: 1 e 3 print vídeo, 2 BBC.

 

Iniciativas feministas na cultura livre & ciberativismo #8M

Compilamos aqui neste post uma pequena série de projetos & textos feministas e/ou com uma perspectiva feminina sobre cultura livre, direitos digitais, cultura hacker, tecnologia e ciberativismo que publicamos em nossas redes sociais neste último dia 8 de março, dia da mulher.

PROJETOS

_ Cyborgfeministas “es un recurso para quienes quieran entender y explorar el punto donde se cruzan el género y las tecnologías”. É uma iniciativa de TEDIC, uma organização que defende os direitos digitais e promove o uso de tecnologias livres.


_ Economía Femini(s)ta (EF) “es una organización que nació en mayo de 2015 con el objetivo de visibilizar la desigualdad de género a través de la difusión de datos, estadísticas, contenidos académicos y producción original orientadas a todo público”;

_ GenderIT.org é um projeto internacional que pretende ser um think tank DE e PARA direitos da mulher, direitos sexuais e ativistas de direitos da internet, acadêmicos, jornalistas e defensores de uma variedade de disciplinas e contextos. A organização oferece um espaço de reflexão, influência e advocacia na política e cultura da internet, para ajudar a atender às necessidades das mulheres e não infringir seus direitos:

_ “Somos feministas interessadas em cultura hacker e os conhecimentos que unem política, gênero e suas tecnologias. Pautamos a interseccionalidade nas nossas ações, não toleramos machismo, homofobia, transfobia, misoginia, lesbofobia, xenofobia e racismo. Nosso objetivo é semear conhecimento, autonomia com corresponsabilidade e caminhos de mudanças sociais. Somos uma coletiva hackerfeminista”. Conheça a MariaLab.

_ Vedetas é uma servidora feminista produzida a partir de algumas integrantes do MariaLab. Ela existe para ajudar grupos feministas nas suas atividades online e aumentar a segurança e autonomia de mulheres na internet. Também há bastante material sobre cultura hacker, segurança da informação e feminismo.

 

_ Guia Prática de Estratégias e Táticas para a Segurança Digital Feminista foi construída pela Universidade Livre Feminista, o CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), Marialab e Blogueiras Negras e SOS Corpo (Instituto Feminista para a Democracia). A proposta é provocar o debate sobre mudança de comportamento no espaço virtual e no uso de ferramentas e dispositivos que acessam a internet visando a proteger mulheres das violências sofridas na rede.

_ Mulheres na Tecnologia (MNT) é uma organização sem fins lucrativos cuja missão é contribuir para o protagonismo feminino na construção de um mundo sustentável na era digital. Habilitam organizações para a jornada de promoção da equidade de gênero, conectam comunidades de mulheres em TI e organizam eventos, encontros e apoiam iniciativas de protagonismo feminino na tecnologia.

_ A PyLadies  é um grupo de mentoria com foco em ajudar mais mulheres a se tornar participantes ativas e líderes na comunidade open source Python. Sua missão é promover, educar e promover uma comunidade Python diversificada através de divulgação, educação, conferências, eventos e encontros sociais. No Brasil organiza diversas atividades e tem núcleos em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Campinas e Fortaleza, entre outras cidades.

_ A Django Girls é uma organização sem fins lucrativos e uma comunidade que capacita e ajuda as mulheres a organizar oficinas de programação gratuitas, de um dia, fornecendo ferramentas, recursos e suporte. “Somos uma organização de voluntariado com centenas de pessoas contribuindo para levar mulheres mais incríveis ao mundo da tecnologia. Estamos tornando a tecnologia mais acessível criando recursos projetados com empatia.” Durante cada um dos eventos, entre 30 e 60 mulheres criam sua primeira aplicação web usando HTML, CSS, Python e Django.

_GenderHacker é um “un estado de eterna transición y negación del binarismo extremo por el que el cuerpo indeciso debe transitar de una de las dos identidades permitidas a la otra y nunca quedarse en medio”. Site com diversos projetos, obras e trabalhos da artista e ativista trans Diego Marchante.

_ Fembot Collective é um coletivo fundado em 2009 na Universidade de Oregon, nos EUA, que edita a publicação aberta ADA sobre gênero, novas mídias e tecnologias. Produziram também a “Zen and the art of making tech work for you”, uma publicação de 2015 que trabalha com segurança da informação, privacidade e técnicas anti-vigilância para mulheres.

_ I am the Code é um movimento fundamental para mobilizar governos, empresas e investidores para apoiar mulheres jovens em STEAMD (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes, Matemática e Design), aprendendo a codificar, aprender criativos e problemas de cracking.

TEXTOS & ENTREVISTAS & RELATÓRIOS

_ Relatório produzido pela organização Derecho Digitales sobre gênero, internet e feminismo na América Latina. Detalha vários projetos na área, alguns que já listados aqui, outros não. Vale acessar o texto completo, de 30 páginas.

 

_ A Revista Pillku, focada em cultura livre e procomún, trouxe como tema de sua edição de dez 2017 o ciberfeminismo. A edição fala desde “la resistencia, las identidades disidentes, la interseccionalidad, disputamos el acceso universal a internet, con deseos de inundar la red con contenidos feministas y descolonizar los medios digitales”.

_ Menstruapps é uma reportagem especial criado pela Coding Rights que documenta os aplicativos que monitoram a menstruação (e ganham dinheiro com isso). Reportagem, design e infográfico feito por mulheres, a partir de uma organização também com ênfase no ciberfeminismo.

_ “Ciberfeminismo“, livro sobre o empoderamento feminino através da tecnologia, produzido pela editora Monstro dos Mares e organizado por Cláudia Mayer com textos de várias autoras.

_ “Que se calem as musas: por que o feminismo deve se opôr ao copyright” é um texto da ciberativista argentina Evelin Heidel (Scann) que foi traduzido para o ptbr por Sheila Uberti e publicado no site da Casa da Cultura Digital Porto Alegre.

__ A Radios Libres é um projeto latino-americano que pretende ser um “espaço de formação e debate em torno das tecnologias livres e da cultura livre”. Nessa semana, entrevistaram a Loreto (Maka) Bravo de la Red de Radios Comunitarias y Software Libre y Palabra Radio, que explicou como o feminismo e as tecnologias livres são ferramentas que permitem lutar contra o patriarcado;

_ “Ciencia, Cyborgs y Mujeres: La Reinvención de la Naturaleza” é um livro de ensaios da antropóloga Donna Haraway. “O trabalho de Donna Haraway é uma verdadeira encruzilhada. Reúne diferentes disciplinas acadêmicas (Biologia, Antropologia, História), várias tecnologias (Fotografia, Manipulação Genética, Agricultura) e várias formas de construção de experiência (Turismo, Partidos Políticos). Seus ensaios são simultaneamente história da ciência, análise cultural, pesquisa feminista e posição política. Eles são escritos com a intenção de que aqueles que os abordem a partir de uma dessas perspectivas se encontrem caminhando pelos outros, já que nenhum deles é suficiente para capturar as nuances de textos polifônicos.”

Gracias a Sheila Uberti, Janaína Spode e outras várias mulheres que contribuírem para a lista, ainda em processo. Sabe de mais projetos? Nos escreva: info@baixacultura.org

 

 

A internet sob ataque cada vez mais forte

Estamos sendo todos vigiados, a internet é uma máquina de controle quase perfeita, nossos dados são o “novo petróleo” para empresas digitais, o Marco Civil foi desfigurado no congresso e na prática: a internet está sob ataque, e você sabe disso. A ideia improvável que uniu hackers, hippies, acadêmicos, militares e empresas nos anos 1960, e que se tornou uma realidade mundial na década de 1990, não é mais o que prometia ser. E ninguém sabe ao certo o que ela poderá se tornar, mas pelo menos ter um panorama do que está sendo feito hoje, neste quase final da segunda década dos anos 2000.

Todos os temas do parágrafo acima estão de alguma forma debatidos na mini-série “XPLOIT – Internet sob Ataque“, produção da TVDrone em parceria com a Actantes, TVT e Henrich Böll Stiftung, em 2017. Os seis episódios da série abordam “uma guerra silenciosa que acontece longe dos PCs, laptops e dispositivos móveis mas cujo o resultado interfere diretamente em nossas vidas online e offline”, como diz o texto de apresentação. Contou com a fala de um grupo de entrevistados que vai de Richard Stallman ao jornalista James Bamford, passando pela advogada Flávia Lefèvre, a jornalista Bia Barbosa (do Intervozes), a cientista social Esther Solano e o sociólogo e ciberativista Sérgio Amadeu da Silveira, e tem o mérito de introduzir qualquer pessoa em alguns meandros das disputas políticas políticas e econômicas que trazem consequências diretas em nossos diretos essenciais, dentro e fora do mundo digital. A direção de XPLOIT é de Fabrício Lima e a produção Executiva de André Takahashi. Vale destacar também que, no finald e 2017, receberam o prêmio de “Melhor Série de Documentário” no festival Rio WebFest.

Confira aqui abaixo (e na nossa BaixaTV) os 6 episódios da série

EPISÓDIO 1: Democracia Hackeada

O “Hackeamento” do Marco civil pelos poderes que deveriam zelar pelo estado democrático de direito e suas consequências direito uma democracia é o foco central do episódio. Há entrevistas com Sérgio Amadeu, Veridiana Alimonti, Bia Barbosa, Cristiana Gonzalez e Flávia Lefévre.

EPISÓDIO 2: Força Bruta

Neste episódio, fala-se da perseguição aos ativistas a partir das plataformas digitais, “23 do Rio”, o caso Balta Nunes e os ataques nos espaços periféricos. Entrevistas com Camila Marques, Esther Solano, Guilherme Boulos, Leonardo Sakamoto, de novo Sérgio Amadeu e Silvio Rhatto.

EPISÓDIO 3: Colonialismo 2.0

Como a concentração da infraestrutura da internet nas mãos de alguns países e empresas e a monocultura das grandes aplicações acaba desenhando contornos que lembram o período colonial entre os séculos XVI e XX, impondo uma dependência para seu funcionamento e restringindo a pluralidade sonhada pelos seus pioneiros. Com Carla Jancz, Rodolfo Avelino, Marina Pitta e Carlos Cecconi.

EPISÓDIO 4: Big Brother Big Data

Informações pessoais são o novo commoditie. E para desfrutar desse mercado valioso, empresas em todos os setores realizam uma caça indiscriminada de dados particulares em todo o mundo com consequências reais nas vidas das pessoas mesmo fora do ambiente digital. Planos de saúde recusados, crédito pessoal negado e produtos mais caros estão diretamente ligados à “listas de risco” baseada em uso de aplicativos ou bancos de dados de serviços e a compra e venda de bancos de dados – inclusive de serviços públicos. Diante disso, o congresso nacional vai cedendo ao lobby das corporações e protelando há quase 10 anos uma lei fundamental de proteção de dados pessoais. Falas de Rafael Zanatta, Sérgio Amadeu e Marina Pitta.

EPISÓDIO 5: Da liberdade ao controle

No seu início a internet era um universo de possibilidades. O navegador era uma janela para múltiplos espaços, pensamentos e invenções. Mas o mundo que conhecemos antes da rede mundial de computadores ser criada, não pode permitir que nada exista sem controle. E para um mundo de regras rígidas e relações de poder constituídas inflexíveis não pode permitir que um outro mundo espelhado nele possa existir de uma forma diferente. Assim, tanto corporações quanto Estados nacionais foram se apropriando, amarrando, restringindo e moldando a Internet. Mas nem sempre a Internet esteve sob controle. Houve uma outra internet que muitos já nem se lembram. Neste episódio tem Richard Stallman, Leo Germani, Pegs, Carlos Cecconi e Sacha Costanza-Chock.

EPISÓDIO 6: Resistência

A internet de hoje consegue agregar os piores pesadelos dos Estados totalitários com o ultra-liberalismo econômico. Controle da inovação, restrição do fluxo de ideias, guerra cibernética e caça aos dados pessoais dos usuários. Mas diante desse panorama, é possível resistir? Como e porquê vamos resistir? Entrevistas com Richard Stallman, Pegs, Leo Germani, James Bamford e Sacha Costanza-Chock.

 

Nina Paley e a “Pumpriedade Intelectual”

Uma das principais dificuldades para quem atua na seara da cultura livre no Brasil é explicar o quê, afinal, é a cultura livre. Várias vezes já mencionamos aqui o quanto conceitos como o copyleft, criado cerca de 30 anos atrás, ainda suscita questionamentos do tipo “Mas na cultura livre tudo é de graça? Propriedade intelectual ajuda os artistas a sobreviverem!” “Copyleft é coisa de comunista, vai pra Cuba seu barbudo vermelho!”. Fizemos, inclusive, algumas falas por aí para explicar que muito do que se propaga por aí sobre a cultura livre é mito, causado por desinformação, em alguns casos deliberadamente difundida por defensores do copyright.

Mas em outros casos essa desfinformação também é fruto de uma dificuldade de entender a cultura livre como uma prática contracultural, anti status quo, num mundo ainda dominado pela ideia romântica de que criar é um ato individual e de que seu criador é um ser genial de ideias mirabolantes surgidas do nada. É certo que a internet ampliou o banco de dados da criação a números praticamente infinitos, e que práticas como o remix (e seus antepassados, que descrevemos aqui nos “Pequenos Grandes Momentos Ilustrados da História da Recombinação“) tem nos mostrado cada vez mais que nada se cria e tudo se copia, mas perante a maior parte das pessoas o ato de criar ainda é individual e proprietário. Para essa parte, portanto, a cultura livre ainda é difícil de compreender: como deixar “livre” (lembremos do mantra: livre não é grátis!) uma criação fruto de tanto esforço? Como não estocar num cofre uma ideia supostamente genial?

É nesse contexto que entra Nina Paley, artista nascida e atuante nos Estados Unidos e uma das mais talentosas vozes na defesa da cultura livre global. Com a animação “Sita Sings the Blues”, lançado sob uma licença livre (veja e/ou baixe você também), ela conseguiu mostrar, pra quem ainda não acredita, que é possível produzir produtos culturais de excelente qualidade (técnica, inclusive) utilizando-se dos princípios da cultura livre. E com o livro recém-lançado no Brasil, “Mimi e Eunice em Pumpriedade Intelectual”, pela Editora da UFBA, ela nos apresenta uma forma fácil, em tirinhas, de dialogar sobre propriedade intelectual, criação e cultura livre.

Com diálogos curtos e diretos, as personagens Mimi e Eunice convidam todos nós a pensar sobre o tema de forma inteligente e bem-humorada sobre o assunto. A tradução do jornalista André Solnik, colaborador deste site, consegue dar fluência ao texto. A entrevista com Paley que compõe o livro – primeiramente publicada aqui, em 2013 – esclarece algumas ideias que embasam a crítica da artista à propriedade intelectual. Por exemplo:

“Proteções anticópia colocam uma barreira entre o artista e a maioria das formas de apoio. Ao remover as barreiras de copyright, o artista torna possível o recebimento – tanto diretamente quanto por meio de distribuidores – de dinheiro e de outros tipos de apoio, aumentando assim suas chances de sucesso.

O prefácio é de autoria de Jorge Machado, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, e faz uma discussão histórica e conceitual sobre propriedade intelectual e suas armadilhas. Como neste trecho:

Com a “propriedade intelectual” surge a lógica de que todo conhecimento deve ter um “proprietário”. É como se a cultura herdada de nossos ancestrais não existisse como um bem coletivo. O resultado dessa lógica foi de que quanto maior a“propriedade intelectual”, mais restrito fica o conhecimento comum da humanidade. Mas o que mais chama a atenção é a aceitação de que bens intangíveis e inesgotáveis, como são as ideias, devem ter tratamento legal e moral equivalente a bens físicos, sujeitos às leis de escassez, como uma bicicleta ou um celular.”

O livro foi lançado no Brasil em licença CC BY SA e pode ser baixado aqui. Abaixo e no corpo desse post, algumas das tirinhas de Paley que estão no livre. Nina é desde 2009 é artista residente do site QuestionCopyright.org, onde escreve e desenvolve projetos ligados ao tema, e ainda tem um blog divertidíssimo na rede.

Colaboração, espaços urbanos e produção cultural em charla

Novamente o Vila Flores, desta vez o espaço conhecido como “Miolo”, foi o cenário da BaixaCharla #4. A convidada desta edição foi Aline Bueno, comunicadora social e gestora cultural, atualmente no Mestrado em Design Estratégico da Unisinos, onde faz parte do SeedingLab – Laboratório de Design estratégico para a inovação cultural e social da Unisino.

Se o Vila abriga (ou abrigou) diversos projetos interessantes, Aline também tem os seus: já fez parte do PortoAlegre.cc, projeto pioneiro de wikicidade criado em 2011 que acabou por impulsionar diversos outros, como a Serenata Iluminada, até hoje uma bela celebração aos espaços públicos de Porto Alegre que ocupa o Parque da Redenção em noites periódicas com cerveja artesanal, bandas diversas, comidas veganas, muita gente e uma auto organização interessante de ver.

Também da Casa da Cultura Digital Porto Alegre, coletivo de cultura digital formado em 2012 que realizou diversas atividades de formação e divulgação da cultura livre, de início na Casa de Cultura Mário Quintana, centro de Porto Alegre, depois em diversas cidades no interior do RS. Do Projeto Vizinhança, ação que busca ativar espaços ociosos da cidade, públicos e privados, e que desde 2012, através da ação coletiva, já transformou 11 lugares em palco de novas experiências, estimulando a convivência entre vizinhos, a troca e a aprendizagem em um ambiente lúdico, criativo e informal.

Entre outros projetos que Aline articulou e/ou fez parte, o Vila Flores, e Associação Cultural do Vila Flores criada para gerir o espaço, foi um dos temas debatidos na charla. Passeamos um pouco sobre alguns temas em comum que os projetos de Aline trouxeram, como a colaboração, a cultura digital, o espaço urbano, a gestão/produção cultural, o que rendeu histórias de breves utopias, realizáveis ou não; da própria CCD POA, espaço onde eu (Leonardo) e Aline nos encontramos e trabalhamos juntos por alguns anos, e do ColaborAmerica 2017, evento que nossa convidada participou no final de semana anterior à conversa no Rio de Janeiro (23 a 25 de novembro de 2017). As fotos da charla são de Sheila Uberti; depois do vídeo são dos projetos citados por Aline e, por fim, algumas que ela mesmo fez do ColaborAmerica no Rio.

P.s: nosso áudio da webcam esteve com problemas, então gravamos o sim via celular, que não está 100% sincronizado com a imagem, o que, cremos, não prejudica assistir/ouvir o vídeo.

 

Vila Flores
Projeto Vizinhança
Projeto Vizinhança & Café na Calçada
Projeto Vizinhança
1º edição do Cineclube CCD Poa, com a participação do coletivo Escuta o Som do Compositor
ColaboraAmerica
José Pacheco, educador português criador da Escola da Ponte, no ColaboraAmerica2017

Tecnologias essenciais para a cultura livre (1): tratamento automatizado de textos

Para socializar a cultura é imprescindível democratizar certas tecnologias essenciais. Quando falamos de cultura livre, não falamos somente de acesso à materiais culturais, mas também da liberdade de reutilizar e transformá-los, o que necessita de acesso às ferramentas. Pensando nisso, iniciamos esta série de textos para falar em detalhes de algumas tecnologias que consideramos fundamentais para a cultura livre. Para começar, nos inspiramos num post do centro cultural 2.0 Artica, do Uruguay, para falar de ferramentas para o tratamento do texto escrito. Este texto, então, é uma tradução/adaptação da postagem publicada em Artica no dia 30/09/2017.

Desde tradutores automáticos até bots que escrevem textos a partir de dados brutos, as tecnologias para tratamento de texto escrito são utilizadas para realizar tarefas cada vez mais necessárias para organizar a grande quantidade de informação que a digitalização da cultura tem gerado. Consomem bastante energia e tempo para ajudar na realização da tarefa de tornar essa informação conhecimento que seja útil, relevante e contextualizado, e a partir daí gerar novas produções, com novos significados para novos contextos.

As ciências da computação tem gerado ferramentas que simplificam e automatizam processos complexos realizados com texto. Em algumas destas aplicações há um papel importante da inteligência artificial e, dentro dela, do processamento de linguagens naturais, uma área que trata da conversão de informação de bancos de dados de computadores em linguagem compreensível ao ser humano. Por serem bastante complexos, muitos destes projetos devem ser abordados de forma coletiva e multidisciplinar – e seus resultados não deveria ficar em mãos exclusivamente privadas, como muitas vezes acaba acontecendo. Como usuários, deveríamos pode distinguir estas tecnologias da pura e simples “mágica”, para então entender como elas podem e devem estar como um bem comum (procomún), onde qualquer um pode ter acesso para usar. Abaixo mencionamos algumas destas tecnologias que, em nossa opinião, são essenciais para socializar a cultura escrita em tempos digitais:

_ TRADUÇÃO AUTOMÁTICA

O procedimento mágico que o Google Tradutor faz por nós é resultado de décadas de avanços da linguística computacional que hoje permitem não apenas a tradução de palavras soltas, mas também de expressões e textos completos. Ainda que as traduções automáticas não sejam perfeitas, cada dia melhoram mais – veja isso especialmente quando você traduz de alguma língua para o inglês. O uso do Tradutor do Google é gratuito, mas seu código não é aberto, o que significa que para usá-la dependemos do que o Google, uma empresa privada, decide sobre sua ferramenta. Pior ainda: o valor que os usuários aportam para melhorar a ferramenta através de suas correções é ótimo para a empresa, que, por sua vez, não coloca à disposição estes dados de correções adicionados pelos usuários.

É por isso que são importantes projetos como Apertium, um sistema de código aberto para a tradução automática. Ele é utilizado, por exemplo, como motor de tradução automática pela Wikipedia, permitindo que os usuários obtenham versões de um artigo em um idioma diferente, o que facilita a tradução inicial de um verbete na enciclopédia. É um software desenvolvido por diversas instituições públicas e privadas da Espanha, Inglaterra, Catalunha e Romênia.

 

_ RECONHECIMENTO ÓTICO DE CARACTERES (OCR)

Quando abrimos um texto escaneado e somos capazes de fazer seleções e buscas em seu interior, inclusive copiar e colar conteúdo, estamos a aproveitar as capacidades de uma tecnologia chamada “reconhecimento ótico de caracteres”, conhecida como OCR por sua sigla em inglês. Esta tecnologia nos poupa a transcrição de grandes massas de texto, que, ao ser digitalizado e reconhecido, pode ser tratado e manipulado. É particularmente útil em projetos de digitalização de publicações originalmente impressas. O OCR opera mediante algoritmos que, a partir de certos padrões, se encarregam de contrastar as imagens com os caracteres de um alfabeto. Estes algoritmos podem ser propriedade de uma corporação, mas também existem projectos livres e cada vez melhores que realizam esta tarefa com eficácia. Um deles é Tesseract, um motor de OCR desenvolvido pelo Google mas de licença livre, que pode ser utilizado através de programas livres, como gImageReader ou OCRFeeder, suíte de reconhecimento de caracteres padrão do GNOME disponível em quase todas as distros Linux e outras baseadas em Unix.

 

_ RECONHECIMENTO AUTOMÁTICO DE VOZ (transcrição de voz à texto)

A inteligência artificial aplicada neste campo permite processar as vozes e reconhecer a informação emitida por elas para as converter em texto, interactuar com um dispositivo mediante a voz (por exemplo, através de assistentes pessoais nos telefones móveis) ou automatizar serviços de ajuda, entre outras possibilidades. As aplicações que transformam a fala em texto são usadas para transcrição, mas também são uma forma de comunicação para pessoas com surdez ou dificuldades para captar a linguagem falada. Para que estas ferramentas funcionem, é necessário uma gramática (que é um “modelo linguístico”) e a informação acústica, ou seja, um corpus de vozes suficientemente grande no idioma desejado para obter um reconhecimento eficaz. Neste último ponto é que ainda não há um projeto de software livre tão bom como os proprietários, já que não se gerou um grande corpus de voz livre em todos os idiomas. Para diminuir esse problema, alguns projetos tem trabalhado nesse ponto fraco, em especial o Vosforge, que nesse texto traz em detalhes os desafios atuais para criar um sistema livre de transcrição/reconhecimento automático de voz, como o fato de as licenças restritivas impedirem o acesso a informação de possíveis colaboradores, os modelos acústicos não serem intercambiáveis, a necessidade de melhoria dos modelos linguísticos, entre outros pontos.

_ SÍNTESE DE VOZ (transcrição de texto para voz)

Para que possamos escutar o texto, as tecnologias TTS (text to speech) traduzem os caracteres escritos para sons inteligíveis por humanos. Estas ferramentas podem ser utilizadas no sistema operacional do computador, no navegador, num smartphone, e seu principal uso é a acessibilidade para pessoas cegas ou com dificuldades para ler. Portanto, contar no acervo comum da humanidade com motores e aplicações de transcrição de texto para voz, bem como com um repertório de vozes livres variado em idiomas e acentos locais, é fundamental para garantir o acesso à cultura a esses usuários.
As tecnologias TTS também podem ser usados para a criação de conteúdos audiovisuais em que se necessita produzir automaticamente áudio a partir de texto – como, por exemplo, para narração de um vídeo em um idioma que não dominamos, partindo de um texto traduzido. O Centro de investigações de Tecnologias da Linguagem da Universidade de Edimburgo, Universidade de Carnegia Mellon e outras universidades desenvolveram o Festival, um sistema de síntese de voz de uso geral para múltiplos idiomas bastante interessante. Existem outras diversas ferramentas livres para usar sistemas TTS por aí, desde aplicações web gratuitas até leitores de tela para Firefox e softwares para diversos sistemas operacionais. Uma dica: gravações de áudio a partir de sínteses de voz podem ser realizadas facilmente com Audacity.

_ EXTRAÇÃO DE DADOS

Extrair informação que originalmente não está estruturada na forma em que precisamos ler ou usar pode ser uma tarefa muito tediosa quando se realiza copiando e colando, um a um, os dados. Para superar este desafio existem diversos procedimentos automáticos que extraem a informação. São processos, por exemplo, para arquivar e examinar lugares de algum site (crawling), ou para reunir informação específica dos mesmos (scrapping), ou de qualquer tipo de documentos de texto. Esta tarefa pode ser útil para diferentes propósitos, como reunir dados sobre um tema (preços, clima, etc.), ou como forma de preservar versões de sites, como faz o Internet Archive.

O que faz o scrapping é, basicamente, a transformação de dados sem estrutura em dados estruturados, que vão ser armazenados e analisados em uma base de dados central ou em uma planilha. Um exemplo claro da aplicação deste tipo de ferramenta é o que explica a argentina Scann no blog “Taller de digitalización“, onde detalha como foi possível extrair dados de 1500 escritores argentinos a partir de um livro previamente escaneado e processado com OCR, e obter daí uma planilha bem estruturada.

A extração de dados geralmente é feita programando um script de busca e extração. Uma ferramenta livre para isso é o Scrapy, que pode ser usada também a partir da interface do Portia. Para tarefas de extração de dados menos complexas, também se pode utilizar extensões para Chrome e Firefox, assim como aplicações para extração de dados desde um PDF.

_ GERAÇÃO DE LINGUAGEM NATURAL (Natural Language Generation – NLG)

Talvez vocês já tenham escutado algo a respeito de notícias ou artigos criados automaticamente por software. Pode ser algo que soa ficção científica – e com frequência a temática é tratada dessa maneira, com grandes títulos falando de robôs que substituem a jornalistas e escritores, tema que inclusive já escrevemos por aqui, em 2014. Mas trata-se simplesmente de uma tecnologia que gera um texto escrito bem estruturado e inteligível a partir de dados. O conceito chave é “data to text”, dados a texto. Por exemplo, a partir de dados do clima ou de resultados esportivos, ou a partir de obras literárias, os softwares podem escrever um texto por sua própria conta, seguindo padrões de linguagem natural que incorporam através de léxicos, regras gramaticais e algoritmos que permitem ao software tomar decisões.

Mais do que substituir redatores humanos, estas ferramentas podem ser um apoio, facilitando a interpretação de dados brutos e acelerando a construção de um texto a partir de uma estrutura que depois vai ser checada e completada. Um exemplo bastante popular são os bots que escrevem (ou melhoram) artigos da Wikipedia, hoje imprescindíveis para manter a qualidade da enciclopédia. Além de realizar tarefas de manutenção, também são usados em alguns idiomas da Wikipedia para a criação de artigos a partir de informação organizada em dados brutos, como por exemplo artigos sobre asteróides, produzidos a partir de dados da NASA. Programados por colaboradores, estes bots devem estar dentro da política de bots e serem aprovados por votação da comunidade de wikipedistas.

Algumas corporações oferecem serviços de geração de texto em linguagem natural, mas ainda não existem muitos projetos de software livre que façam isso, ainda que no futuro isso poderia (e deveria) mudar, como explica esse texto (em inglês). Uma ferramenta livre aplicada à literatura computacional que parece muito interessante é a RiTa, software criado a partir de Java e JavaScript e que roda em ambientes Android, Processing, Node, and P5.js.

_ DEMOCRATIZAR AS FERRAMENTAS

Assim como é inegável que a alfabetização e o acesso a leitura e a escrita sejam direitos fundamentais, estas ferramentas aqui mostradas, cada vez mais avançandas, sofisticadas e generalizadas, deveriam estar ao alcance de qualquer pessoa que as necessite. Convém lembrar que, assim como não se faz inclusão digital somente dando computadores, democratizar a cultura também não é somente dar acesso, mas sim ampliar capacidades de uso e transformação destes materiais/softwares/computadores. As ferramentas em software livre são fundamentais para esta democratização porque, sendo abertas, possibilitam o compartilhamento das melhorias e correções para ampliar os idiomas, léxicos e vocabulários, o que por sua vez atende a diversidade cultural e a as necessidades de distintos coletivos com relação ao texto escrito. Nas próximas postagens desta série falaremos de outras ferramentas livres relacionadas à imagem e ao som. Hasta!

 

Biblioteca do comum

bcomum divulga

Lançamos no início deste mês, a Biblioteca do Comum é uma biblioteca digital e de livre acesso sobre um conjunto de temas emergentes que apontam para novos paradigmas sociais, mais participativos, ecológicos e organizados de baixo para cima. Desenvolvida na plataforma livre Omeka, ela pode reunir materiais de diferentes formato de texto, áudio e vídeo como livros, revistas, fanzines, artigos, teses e dissertações, entrevistas, quadrinhos e filmes relacionados a Agricultura Urbana, Arte e Tecnologia, Bens Comuns, Ciência Cidadã, Cultura Livre, Economia Colaborativa, Educação Expandida, Participação Digital, Tecnologias Sociais, entre outros afins.

Ela nasce da fusão das bibliotecas do Instituto Intersaber e do Baixa Cultura com o objetivo de se constituir como um grande bem comum de conhecimentos para inspirar e fomentar a consciência pública para mudanças sociais e construção de novas institucionalidades, assim como praticar uma experiência de gestão coletiva de recursos compartilhados. Para tanto, ela mantém um chamamento permanente para organizações e pessoas que compartilham da generosidade intelectual e da defesa do livre acesso ao conhecimento a se juntarem com suas bibliotecas e materiais correspondentes a este escopo temático.

bcomumlogo

Bens Comuns de Conhecimento

Uma importante particularidade dos bens comuns de conhecimento é a de serem abundantes, isto é, nunca se esgotam pela quantidade de seu uso, mas, pelo contrário, podem ainda se multiplicar. Diferente dos bens comuns naturais que são escassos e necessitam de maior controle no seu uso para que não venham a faltar a quem deles extraia seu sustento. Se o material compartilhado é um arquivo digital, muitas pessoas podem acessá-lo, visualizá-lo e copiá-lo simultaneamente sem degrada-lo ou privar outros de fazer o mesmo. A Wikipédia é a maior realização nesse sentido e um produto da Internet. Por isso, defendemos o livre acesso ao conhecimento quando este trata de questões de interesse coletivo como o é o caso do conhecimento científico. O cercamento e bloqueio do acesso a esse bem comum por meio da propriedade intelectual cria uma escassez artificial que visa o oligopólio da capacidade de inovação àqueles que podem pagar.

Este oligopólio do conhecimento impõe pesadas sanções jurídicas para quem desafia seus propósitos como as que levou a morte o ativista do livre acesso ao conhecimento Aaron Swartz, autor do manifesto Guerrilla Open Access, após ele abrir na rede o acervo fechado da JSTOR, o maior sistema online de arquivamento de periódicos acadêmicos. Também não podemos esquecer o blog Livros de Humanas que compartilhava gratuitamente milhares de edições brasileiras de importantes livros de literatura, filosofia e ciências humanas e foi fechado em 2012 após ação movida pela ABDR – Associação Brasileira de Direitos Reprográficos.

Mas longe de conter tais iniciativas, estas censuras acabam por estimular a criação de novas experiências mais ousadas como é o caso da Sci-Hub e Library Genesis. Além disso, cresce mundialmente o movimento Open Access, reunindo inúmeros cientistas, pesquisadores, entidades e seus projetos de democratização do conhecimento. O conceito de Recursos Educacionais Abertos (REA) impulsionado pela UNESCO também faz parte desse movimento global. Importante também ressaltar como referência para nossa iniciativa a Digital Library Of the Commons, a maior biblioteca digital sobre bens comuns, criada ao longo de muitos anos por Elinor Ostrom e seu marido Vincent Ostrom em seu departamento de pesquisas na Universidade de Indiana.

A proposta da Biblioteca do Comum se insere no campo dessas iniciativas que visam remover essas barreiras de acesso para aprofundar uma comunidade de conhecimentos transdisciplinar, baseada numa interconectividade global sem hierarquias. Acreditamos que ela pode ser um meio fundamental para a resolução dos problemas de diversas matizes que consternam as sociedades e o planeta.

Diversidade de Pensamentos e Intercâmbios

Os conteúdos da Biblioteca do Comum concentram-se especialmente à uma produção iberoamericana, mas não exclusivamente. Com isso, visa possibilitar intercâmbios de trabalhos com distintas abordagens e enfoques sobre um mesmo assunto, conforme os variados contextos nacionais e culturais ou de grupos de pesquisa.

Ao mostrar as diferentes abordagens sobre estes assuntos em diferentes países, a partir dos contextos específicos existentes em cada um, queremos destacar que saberes e conhecimentos não são homogêneos e tampouco neutros e sublinhar as reciprocidades entre as preocupações teóricas e práticas dos cientistas e agentes sociais e suas condições de existência social.

Diferentes interpretações da realidade e dos fenômenos podem provir de uma multiplicidade de formas e se nutrirem de diferentes fontes. Há o conhecimento da ciência, da arte e da religião, todas elas subdivididas em muitos tipos como são as disciplinas científicas, as linguagens e movimento artísticos, e as crenças religiosas, cada uma com perspectivas e enfoques próprios. Além disso, se considerarmos que os saberes e conhecimentos partem da experiência, enquanto reconstrução mental dos estímulos que recebemos do mundo exterior, então reconhecemos que também são estruturados pelas condições locais, culturais, tecnológicas, de classe, de gênero, de época e mesmo subjetivas de indivíduos únicos que tem uma experiência única no mundo. Tudo isso forma uma pluralidade de camadas de saberes e conhecimentos que podem ser complementares ou antagônicas, que se ajustam reciprocamente, entram em conflitos e disputam hegemonia. Um tal entendimento deve servir para manter um pensamento crítico e ao mesmo tempo uma consciência ampliada da realidade.

Por meio da Biblioteca do Comum, alguém que tenha interesse ou esteja pesquisando sobre agricultura urbana ou economia colaborativa, por exemplo, pode encontrar o que se produz em diferentes países, sobretudo iberoamericanos, e por diferentes grupos de pesquisa. E, assim, conhecer as várias possibilidades de abordagens e tendências.

omeka

Plataforma e Licenças Livres

A Biblioteca do Comum utiliza a plataforma de código aberto Omeka, destinada ao desenvolvimento de bibliotecas virtuais, que funciona analogamente a um blog, dispõe de uma variedade de interfaces e pode ser facilmente manuseada.

Nossa plataforma utiliza o tema Avantgarde, que foi customizado pelo Instituto Intersaber. Adotamos como licença deste trabalho sobre a plataforma a Peer Production License, um tipo de licença Copyfair em que apenas comunitários, cooperativas e organizações sem-fins lucrativos podem compartilhar e reutilizar, não entidades comerciais com intenção de lucro.

Os materiais disponíveis podem apresentar diferentes licenças abertas. Desde o domínio público, totalmente livre, ou uma variedade de outras como as combinações entre permissões e restrições das licenças Creative Commons, entre tantas licenças existentes.

biblioteca digital e de livre acesso, organizada de forma coletiva. Ela está voltada para um conjunto de temas em torno do “comum” hoje: cultura livre, participação digital, agricultura urbana, ciência cidadã, bens comuns, educação expandida, tecnologias sociais.

(e aguarde que nas próximas semanas o BaixaCultura tem mais outras novidades!)

 

Resistência hacker em tempos de retrocessos

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Nos dias 6 e 7 de maio de 2017 ocorreu em São Paulo a 4º edição da CryptoRave, mais importante encontro brasileiro sobre segurança, criptografia, hacking, anonimato, privacidade e liberdade na rede. Inspirada na ação global e descentralizada da CryptoParty, a Crypto no Brasil é organizada por diversos coletivos – Escola de Ativismo, Saravá, Actantes, Encripta e Intervozes – e financiada por crowdfunding, via Catarse. Neste ano, a captação foi um pouco mais díficil do que nos últimos, com a meta sendo batida nos últimos dias e R$69.605 arrecadados para a produção do evento. O local escolhido foi a Casa do Povo, centro cultural no bairro do Bom Retiro, e não mais o Centro Cultural São Paulo como nas edições de 2015 e 2016.

A mudança de local, seja por questões financeiras, políticas ou outras não apuradas, trouxe ao evento um ar mais underground – mais hacker, alguém poderia dizer. Não se trata mais de um dos principais centros culturais da cidade, colado no metrô da linha azul, com diversas outras atividades e pessoas circulando como o CCSP: estamos falando de um centro cultural fundado por imigrantes judeus do leste europeu, um dos primeiros criados por imigrantes no Brasil, sediado no coração do Bom Retiro, bairro de ampla diversidade cultural (gregos, bolivianos, coreanos, judeus, entre outros), menos conhecido do circuito Paulista-Pinheiros-Faria Lima dos eventos de tecnologia em SP. A mudança escancara o que talvez seja conhecido de tod@s: a Cryptorave é um evento político, sobretudo de resistência tecnológica. E também ilustra o tamanho que o evento, em sua 4º edição, ganhou: durante a sexta e o sábado, um prédio amplo de quatro andares foi ocupado praticamente de modo exclusivo com pessoas a discutir tecnologia, política, segurança da informação, criptografia, entre outros vários tópicos correlatos destes. Se o cenário global não é favorável, a resistência parece angariar cada vez mais gente.

A fala de abertura deu uma amostra dessa posição política do evento: trouxe como palestrante James Bamford, jornalista e escritor dos EUA especializado em cobertura dos casos da NSA – a New Yorker o chamou de “cronista-chefe” da NSA neste perfil publicado em junho de 2013. Para uma plateia atenta e diversa, Bamford mostrou as diversas formas que a NSA espiona as informações que circulam na rede, trazendo imagens dos lugares físicos que isso acontece – o que nos faz lembrar que a internet é uma rede física, formada de cabos, roteadores, data-centers e outros espaços por onde as informações que cá circulam passam. Ele citou dois lugares por onde a NSA pode interceptar informações da rede: o NAP Barueri, talvez o mais importante Ponto de Troca de Tráfego (PTT) brasileiro, um local que interliga diversas redes de computadores, constituído de um datacenter que interliga os equipamentos de comunicação dos diversos provedores de internet existentes aqui; e o NAP America, um gigantesco conglomerado de 32 quadras de armazenamento de dados em Miami, espaço por onde passa a maior parte das informações que circulam na internet da América Latina para os EUA – Facebook, Google, Apple e outros serviços são dos EUA, vale lembrar. O brasileiro é um dos diversos pontos mundiais administrados pela Verizon, gigante de serviços de internet (dos EUA), enquanto que o NAP de Miami da Equinix. Será que estas estas empresas protegem os dados que lá circulam quando uma agência com o poderio da NSA está disposta a tudo para caçar whisteblowers como Snowden? É uma boa pergunta a se fazer, que o próprio Bamford já respondeu neste longo relato na Wired: não.

Bamford falou também sobre a iniciativa brasileira de construir um cabo submarino para que o tráfego de dados do país siga direto para a Europa sem ter que passar pelos Estados Unidos — a primeira obra deste tipo e sem contar com a participação estadunidense. Apesar de elogiar a iniciativa, o jornalista destacou que os EUA possuem um submarino que pode interceptar a captação de dados no meio do oceano, além de fazer acordos com outros países para obter tal interceptação em outra ponta. Com isso, ele quis frisar que o país deve fazer a inspeção do cabo de ponta a ponta, para tentar evitar espionagens, segundo relato publicado pelo Intervozes, um dos organizadores da Crypto deste ano.

Após a fala de abertura, as atividades se concentraram no 1º andar do prédio, onde lojinhas (dos produtos da própria Crypto, de livros de computação, de editoras anarquistas – do qual compramos uma edição artesanal comentada do clássico da filósofa/antropóloga Donna Haraway, na imagem acima), e comes/bebes garantiam a energia para conversas e algumas oficinas espontâneas que ocorreriam por ali durante a madrugada. O Baer Mate, sem gosto de ilex paraguiensis mas com muita cafeína, foi o combustível que deixou acordados hackers e outros cryptopunks corajosos que vararam a madrugada; o Preto Café, espaço baseado no centro de SP, fez uma versão para o evento mostrando todo seus custos de forma transparente, no esquema “pague quanto acha que vale”; outras comidas (opções vegetarianas/veganas costumam existir em quantidades em eventos de hackers, e aqui não foi exceção) e até uma cerveja artesanal com mate fizeram do hall do 1º andar o espaço mais frequentado durante toda a sexta e o sábado.

 

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O segundo dia de CryptoRave começou com a mesa “Resistindo à distopia – Práticas para dialogar com não especialistas”, com a mexicana Lili Anaz, pesquisadora e ativista em auto-defesa na web e desenvolvedora de tecnologias livres com perspectiva hackfeminista, no âmbito do Laboratório de Interconectividades, e Sasha Constanza-Chock, que leciona Mídia Civil no MIT, nos Estados Unidos, e publicou recentemente o livro “Out of the Shadows, Into the Streets! Transmedia Organizing and the Immigrant Rights Movement“. A mesa trouxe pra discussão um tema muito frequente pra quem fala de segurança da informação e criptografia, a saber: se estamos todos sendo espionados a todo momento pela NSA, empresas de internet e governos, como resistir?  Lili, por exemplo, vê a arte como uma saída possível para a resistência, e desenvolve projetos nessa linha, como o Mirada Sostenidas, projeto artístico transmídia que lembra e dialoga com vítimas de tortura sexual cometida por agentes do governo mexicano, caso denunciado no final de 2016 na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Sasha falou de alguns de seus projetos, como as DiscoTech, oficinas livres, abertas e multissetoriais para pessoas explorarem, compartilharem e discutirem experiências com vigilância,e o Bedtimes Stories, excelente projeto muiltimídia que conta as histórias de imigrantes detidos pelo governo dos EUA. A mesa pode ser assistida no canal da TV Drone no YouTube.

Mas o que mais podemos fazer? Lili, que também já fez parte do coletivo Astrovandalistas, disse, em uma entrevista à MotherBoard Brasil que, num primeiro nível, “podemos gerar consciência crítica com as tecnologias que mediam a nossa noção de mundo e, com isso, mudar como nos comunicamos, como nos organizamos”. Ela acredita que, se vamos repensar as infraestruturas, “não devemos nos limitar apenas a repensar ou não uma tecnologia apenas. Temos que repensar por quais estruturas estamos passando para retomar nossas vidas.. O hacking, então, entraria como uma possibilidade de criação, que tem a ver com processos artísticos e outras formas de experienciar linguagem, não necessariamente ligadas à computação, e com possibilidades de gerar espaços de experimentação, subverter as linguagens e as relações. “Hacking tem muito mais a ver com essa intervenção que é extremamente política, no sentido de posicionamento. Um compromisso com o que se quer transformar”, afirma Lili.

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A partir das 11h, as múltiplas atividades paralelas nos 6 espaços trouxeram debates em torno de diversos temas. Assistimos nesse horário uma fala sobre design (in) seguro no espaço Alan Turing, com as designers Virgínia Stefanello e Patrícia Estevão. O embate de interface amigável X autonomia do usuário/privacidade é um assunto bastante presente em quem fala de segurança da informação, já que a popularização da privacidade na internet passa por um design mais fácil das ferramentas. Mas como facilitar sem tirar a autonomia do usuário? Como ensinar alguém a criptografar um e-mail sem passar por noções básicas de PGP e chaves? A discussão sobre popularização de princípios básicos de segurança da informação parece passar pelo design – e talvez por isso também havia pela Crypto um dos desenvolvedores do Tails, sistema operacional dos mais seguros existentes hoje, conversando com alguns usuários de modo a melhorar a usabilidade do sistema operacional. Outro SO indicado na mesa foi o Qube OS, que, além de ser de código aberto, tem uma interface amigável e permite níveis crescentes de autonomia, de acordo com o interesse de cada usuário. As duas designers sugeriram, ao final de suas falas, boas práticas para um design seguro, como por exemplo criar uma configuração default que represente a melhor situação de segurança e privacidade caso o usuário não mexa nela e combinar a maneira mais fácil de fazer uma tarefa dando o mínimo de autoridade (acesso ou recurso que o usuário pode controlar).

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Às 13h, Sérgio Amadeu, um dos mais atuantes e conhecidos ativistas pela liberdade na rede no país, trouxe em sua fala a infraestrutura de espionagem brasileira. Ele apresentou um breve histórico dos serviços secretos brasileiros e mostrou a intensificação do trabalho de vigilância na rede nos últimos anos. Pra uma sala que foi lotando na medida em que Sérgio inflamava mais seu discurso, contou que, hoje, são 31 serviços de inteligência estaduais no Brasil que fazem parte do sistema de espionagem brasileiro, juntamente com os orgãos nacionais Polícia Federal, Ministério Público e ABIN. Essa última, a partir das manifestações de junho de 2013 e especialmente com Temer, voltou ao lema da época da ditadura: o inimigo é interno. E aí tome vigilância em tudo e tod@s, com apoio e parceria dos EUA – Amadeu mostrou que o exército dos EUA voltou a fazer operações na Amazônia depois de quase 40 anos, a convite de Temer. A fala terminou com Sérgio apontando que, na verdade, o inimigo é os EUA, e que tanto a polícia e o exército sabem disso, mas não querem ver: tratam como inimigo as pessoas comuns, vigiando-as sem dó em aparatos cada vez mais complexos e caros – não por acaso, boa parte deles comprados dos EUA…

Após uma breve parada para o almoço, com uma feijoada vegana honesta a R$12, seguimos flanando pelos andares da Casa do Povo, e entre conversas rápidas e múltiplas com desconhecidos e amigos, paramos brevemente na mesa de Andrew Fischman, jornalista do Intercept Brasil, e Joana Varon, da Coding Rights, sobre o papel do jornalismo investigativo num mundo vigiado. O jornalista afirmou que falar que “nada adiantou” com as denúncias dos whisteblowers como Snowden ajuda a construir a ideia de que criptografia não nos protege, o que não é bem assim: se ela não nos protege totalmente (e ninguém está protegido totalmente de nada!), pelo menos ela dificulta. Joana apresentou alguns dos trabalhos produzidos pela sua organização, que busca mudar a narrativa sobre privacidade no dia a dia com iniciativas como Chupa Dados, um especial multimídia que explica como o funcionamento de aplicativos e outras tecnologias que usam nossos dados têm impacto – às vezes, negativo – nas nossas vidas. Também apresentou em primeira mão uma infografia sobre o aumento de vigilância em grandes eventos no Brasil, o Legado Vigilante. Vale também conhecer outros projetos da Coding Rights, como a Oficina de Antivigilância e o Safer Nudes.

No fim de tarde, caímos na laje, onde ocorreu uma roda de debate sobre uma das fronteiras mais importantes do ativismo digital hoje, as redes livres. Bruno Vianna falou sobre a Coolab, uma cooperativa formada no início deste ano que tem por objetivo fomentar as infraestruturas autônomas, através da capacitação técnica e ativação comunitária. Contou da chamada pública da rede, que a partir de um financiamento de 30 mil dólares obtido no Desafio Equal Rating, da Mozilla, quer montar redes e provedores comunitários Brasil afora. A gurizada da Casa dos Meninos, na extrema zona sul de São Paulo, é um dos grupos que estava presente na conversa e já tem uma rede livre faz alguns anos, chamada de Base Comum de Conhecimento Cidadão. É um sistema que foi construído a partir de sinal de antenas numa área próxima a 1 km, e que fornece um rede interna para diversas troca de informações na comunidade. A Artigo 19 esteve representada na roda por Laura Tresca, que comentou um pouco do trabalho que a organização tem feito em prol das redes livres – como esse excelente guia de como montar e regularizar um provedor comunitário.

Havia mais pessoas na mesa, houve mais debates, e conversas, mas como dá pra perceber, nem tudo consegue ser registrado. Depois do encerramento do evento, longe da Casa do Povo, no bairro central do Bixiga, ainda houve a parte “Rave” do evento, no Al Janiah, bar onde trabalham diversos refugiados e que tem se tornado espaço de resistência, em especial da esquerda paulistana. A Crypto encerrou com rock, eletrônico, kebabs, schwarmas, falafel, araques, cachaças, sambas, húmus: eclética.

Fotos: 1 (Rafael Zanatta), 2, 6, 9, 11, 12, 13, 14 (Cryptorave), 3, 4, 5, 7, 8, 10, 16, 17, 18 (BaixaCultura).

Percorrendo um LAB.Irinto

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1. Laboratório é um espaço de experimentação de qualquer coisa, inclusive de sociedades. Inovação social é o processo de criação de metodologias, tecnologias, projetos e ações que têm como objetivo transformar a realidade a fim de alcançar maior inclusão social, por meio da redução da desigualdade e da defesa dos bens comuns. Cultura livre é uma perspectiva da cultura baseada nos princípios de liberdade do software livre que, principal de tudo, é a favor do compartilhar e não do restringir. Guarde bem a definição dessas três ideias e retome mentalmente quando precisar ao ler este relato.

2. Muita coisa aconteceu nestes dias, tantas ideias piscaram, desapareceram, foram anotadas e se perderam no inconsciente pra quem sabe voltarem mais adiante. Segue abaixo um relato recortado e resumido disso tudo.

3. Estamos falando de um Encontro de Inovação Cidadã e Cultura Livre, um “processo de debates, trocas de experiências e articulação internacional entre criadores da Baixada Santista, do Brasil e do mundo”, como diz o site do evento, que tem ocorrido desde abril de 2016 e teve na semana passada o seu encerramento, com dois dias de trocas de experiência, cocriação e um seminário internacional que subsidiou a criação do LABxS (Lab Santista), um laboratório de cultura livre e inovação cidadã. Quem organizou o evento foi o Instituto Procomum, por enquanto uma associação, também recém iniciada a partir do projeto Tecnologias e Alternativas, com a intenção de investigar as condições de desenvolver novas institucionalidades e uma interface para viabilizar ações de uma plataforma de pessoas que a ele queiram se associar.  O financiamento do evento veio da Fundação Ford, da Prefeitura de Santos, por meio da Secretaria de Desenvolvimento e Inovação, e da Secretaria Geral Ibero-Americana (SEGIB).

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4. Antes do seminário teve dois dias (manhãs e tardes) de reuniões, conversas e compartilhamento de experiências entre os mais de 40 convidados de diferentes países. Houve divisões em GTs (Modelo de Negócio e Sustentabilidade, Programação e Conteúdo, Articulação e Rede, Gestão Institucional e Metodologias e Laboratórios e o Território de Atuação) e “conversas infinitas” que tinham entre os objetivos questionar a ideia do lab, subsidiar a concepção do LABxS e avançar na articulação internacional em torno da agenda de bens comuns. “Um jogo de colaboração e partilha, baseado nos conhecimentos que carregamos” escreveu Rodrigo Savazoni, articulador do evento e do LABxS junto a uma equipe grande (veja aqui) que não por acaso traz muitos participantes da experiência da Casa da Cultura Digital em São Paulo, um laboratório de vivências embrião/propulsor do Lab Santista (e de tantas outras coisas, como até este site/coletivo que vos escreve; este vídeo creio que talvez seja o melhor registro feito da CCD)

Entre os convidados, pessoas muito atuantes em labs ou em suas comunidades/redes/cultura digital do Brasil e do mundo, um foco especial em iniciativas da ibero-américa (Dardo Ceballos, do SANTALAB, ligado ao governo do estado de Santa Fé, Argentina; Paola Ricarte Quijano, OpenLabs, México; Raul Olivan, Zaragoza Activa, Espanha; Camilo Cantor, Colaboratório, Colômbia; Marcos García, MediaLab Prado, Espanha) e África (Muhammad Radwan, IceCairo, Egito e Nanjira Sambuli, Ihub, Nairóbi, Quênia). Não por acaso: estes LatinLabers, como Savazoni e outros (se) nomeiam, são partes também da Global Innovation Gathering, rede que tem forte presença africana e asiática e propõe a construção de uma rede de tecnologias desde o sul.

Tatiana Bazzicheli (Disruption Lab, de Berlin) é uma exceção do norte nessa rede. Curadora do Transmediale, um dos principais festivais de arte, cultura e inovação da Europa, pesquisadora e ativista, a italiana tem um trabalho importante na aproximação da arte com o hacktivismo e o mundo da inovação, como o livro “Networked Disruption: Rethinking Oppositions in Art, Hacktivism and the Business of Social Networking” (baixe aqui). E, no Disruption Lab, realiza eventos como o Deep Cables, uma série de conferências e rodas de conversa onde hackers, engenheiros, jornalistas investigativos, escritores, entre outros, buscaram entender como a Internet funciona e o papel preponderante que os cabos submarinos tem nessa infraestrutura física nem tão falada da rede. Temos que confessar: um laboratório de hacktivismo e arte com eventos tão interessantes como os que o Disruption organiza é o motivo de Tatiana ter ganho um parágrafo inteiro aqui.

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5. O que é um lab? Raul Olivan, do La Colaboradorar e do Zaragoza Activa (um lab y rede social criado junto a prefeitura da cidade espanhola) resume no texto “Um lab é para a cidade o que poesia é para linguagem“: resolver o problema das pessoas. “Gerir o caos. Podemos tecer arquipélagos para começar, mas o objetivo deve ser o continente. É o não-modelo que se impõe, não por necessidade ou ausência de certezas, senão por desejo e como uma estratégia consciente. É o conjunto de valores, afetos, cuidados da rede que tece e compromete um LAB: TRANSWARE (imagem acima). A pulsão é transformar a sociedade (o ethos) com uma soma de ética hacker, sonho de riqueza generalizada e materialismo da 4º revolução industrial. Necessitamos dos hackers inside que abram a lata desde dentro do sistema, como faz o Hacklab da Câmara dos Deputados. Um LAB não pode ser uma abstração: ideologia não fertiliza a terra. A transparência é, provavelmente, mais importante que a horizontalidade”.

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6. O último dia do evento foi dedicado ao Seminário Internacional de Inovação Cidadã, realizado no amplo (750 lugares) teatro do Sesc Santos. Foram três mesas com convidados internacionais e um brasileiro mediando ou comentando ou relacionando o global com o local (glocal). A primeira mesa trouxe para o debate a questão do que é inovação cidadã a partir de quatro experiências, três internacionais e uma brasileira (Cíntia Mendonça, da Nuvem, que mediou). Marcos García apresentou o MediaLab Prado, referência mundial (e de muitos dos participantes) de laboratório de inovação cidadã e cultura digital. É um espaço alocado dentro de uma institucionalidade (Prefeitura de Madrid), mas que mesmo assim consegue promover inovação social para a comunidade e driblar algumas das dificuldades que uma instituição costuma ter para fomentar novidades. O amplo espaço do MediaLab Prado, localizado num antigo prédio de uma serraria belga no bairro de Las Letras, região central de Madrid, abriga e fomenta dehortas urbanas monitoradas por sensores a base da arduínos a makerspace colaborativo, de encontros de visualização de dados a produção de conhecimento colaborativo, passando por inúmeros seminários, cursos, exposições [este vídeo traduz em 1 minuto o que es o MediaLab Prado; vale assistir]. Qualquer pessoa pode propor uma ideia e tentar desenvolver ela (sempre em grupo) por lá, ainda que são as ferramentas que constroem (e fortalecem) comunidades as que ganham maior acolhida.

Paola Ricaurte Quijano trouxe uma outra configuração de laboratório, o OpenLabs, ligado a Universidade Tecnológica de Monterrey. Diferente em sua articulação, mas inspirado no modelo do MediaLab Prado e, sobretudo, na ideia de ser um espaço de transformação e de reconhecimento da inteligência distribuída, o OpenLabs é uma plataforma que quer abordar a complexidade do social a partir de princípios como abertura, experimentação, inclusão, participação e colaboração. Parece algo complexo ou carregado de um discurso pouco prático, mas saiba que tanto o OpenLabs como todos os outros labs presentes no evento são totalmente baseados na prática, no fazer do dia a dia com a comunidade onde estão inseridos. Dê uma olhada na convocatória deste ano do OpenLabs, “Ciudades que Aprenden“, e veja como funciona a sua metodologia.

A terceira experiência trazida foi o IceCairo, de Cairo, apresentado por Muhammad Radwan. O lab egípcio é parte de uma rede (que tem outros pontos na Etiópia e na Alemanha) que tem um enfoque na chamada “green tech innovation”, fomentando negócios sustentáveis. Mantém um espaço físico que funciona como co-working (característica comum de muitos labs, aliás) e, entre muitos projetos legais, destacamos o Hub in Box, um mergulho realizado em conjunto com outros Africa Labs e Impact Hubs de vários lugares do mundo na busca de identificar desafios e criar soluções sustentáveis para suas comunidades. Antes que você pergunte “mas qual a inovação que eles estão produzindo ao se reunir e discutir seus projetos?”, fazemos um alerta óbvio: assim como no LAB.Irinto, o processo é tão (ou mais) importante que o produto “inovador” criado. Encontros são essenciais, compartilhar é fundamental; o crescimento é coletivo. [Todas as três mesas do dia foram transmitidas e podem ser assistidas aqui].

7. As experiências brasileiras presentes no LAB.Irinto foram apresentadas no dia anterior ao seminário internacional. Lembramos de algumas de cabeça: a Produtora Colaborativa.PE e a rede das produtoras colaborativas (sobre a qual já falamos aqui) e o Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados (que também já falamos aqui). A Nuvem, um hacklab rural rural voltado ara experimentação, pesquisa e criação vinculada à tecnologia (arquitetura, comunicação, geração sustentável de energia) e sustentabilidade (corpo, ecologias, alimentação, cultivos) no interior do Rio de Janeiro. O Bela Lab, localizado junto ao Galpão Bela Maré, no Rio de Janeiro, fruto do projeto Gambiarra Favela Tech, residência artística-tecnológica realizada ano passado em parceria com o Observatório de Favelas e Olabi. Laboratório de Cidades Sensitivas (LabCEUs), projeto que promoveu ocupações de inovação social e tecnológica em laboratórios multimídias em cidades do interior brasileiro, realizado pela UFPE, por meio do InCiti – Pesquisa e Inovação para as Cidades, em parceria com o Ministério da Cultura. O Ponto de Cultura Caiçaras, em Cananéia, litoral sul de São Paulo, que promove o resgate do fandango caiçara, entre outras ações com a comunidade local. Karenin Branco, do makerspace Crie Aqui, de Santos. Casa Rizoma, ocupação cultural localizada em Santos.

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8. Um dos projetos brasileiros na noite do dia 23 de junho, no Museu Pelé, foi o Transformatéria, uma pesquisa sobre possíveis pontos de contato entre, de um lado, a cultura maker e o universo da fabricação digital, e de outro a longa herança da produção artesanal e dos ofícios manuais. Criado por Felipe Fonseca (que toca o Ubalab e o Tropixel, entre outras cousas, e que já quase perfilado por aqui) e sua esposa, Carolina Striemer, ele se relaciona com uma rede que deu seus primeiros passos no evento: Trasformatório. A ideia desta rede é articular projetos que tem em comum o costume de transformar coisas em outras coisas – com ferramentas, métodos, equipamentos, ou mesmo com as próprias mãos. Algo que não é makerspace nem fablab, “um espaço ou momento de encontro de corpos e mentes com a intenção de mexer, mudar, manipular coisas”. A conversa foi registrada em áudio, foto e GIF e está disponível nessa wiki do Ubalab. Aos interessados, há um grupo de emails.

Participamos do Transformatório também com o interesse manifestado a partir do apoio na realização do Café Reparo em Porto Alegre. Já havia (com licença plural, quem fala agora é Leonardo) participado de um encontro dos 6 realizados em São Paulo, inclusive relatado aqui, mas dessa vez ajudei a organizar um aqui na cidade onde vivo atualmente. Foi tão interessante que teremos outros. Um detalhe pessoal: diferente da maioria, cheguei ao reparo a partir da teoria e não da prática “fuçadora”: abrir as “caixas-pretas” e entender as redes que ali percorrem, nos termos da Teoria Ator-Rede capitaneada por Bruno Latour, Michel Callon, John Law e que tem sido a base da minha tese de doutorado, me fez ver o quão importante (e divertido!) é a gente entender minimamente os objetos que nos rodeiam. E pra isso nada melhor que fuçar, reparar, consertar, desmontar, montar e errar de novo.

9. Como sobrevive um Lab? Não há uma regra, porque não há um único modelo (sustentável). Experimentar um lab é uma meta experiência que pode valer pelo caminho percorrido mais do chegar a algum destino. Como na ciência, não se sabe se vai ter alguma utilidade, mas é importante fazer. Mas há conselhos: começar devagar, com um espaço pequeno. Ter autonomia e não abrir mão dela ao buscar a sustentabilidade. Criar laços e uma comunidade forte para sobreviver a intempéries como a troca de governos ou o esgotamento do tesão em continuar. Documentar em ferramentas livres, que permitem a replicação. Nenhum lab sobrevive muito tempo como ilha.

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10. Uma questão final pra sair do LAB.Irinto, que pode estar pairando em vocês, assim como por aqui também esteve: por quê Santos e Baixada Santista? Com a palavra, Savazoni: “Nessa apresentação eu postulo o ponto de partida, antes de começar o LAB.IRINTO e aqui eu enumero um pouco as razões de ser Santos: é uma região de 2 milhões de habitantes, um arquipélago, e Santos está em uma ilha, junto com São Vicente, uma das primeiras cidades do Brasil. Foi importante no Brasil Colônia, na industrialização, com o ciclo do Café, porta de entrada do mundo para o Brasil e ao mesmo tempo se deteriorou por conta das transformações todas, se tornando uma cidade de serviços, com uma população envelhecida – mais de 30% dos habitantes com mais de 55 anos podendo chegar à metade da população em dez anos. Tem também o fato de que pelas previsões, boa parte da cidade estará em baixo d’água devido ao aquecimento global. Inclusive onde eu moro.

É próxima de São Paulo, no sentido que facilita essa troca global, e eu pude comprovar isso produzindo o evento agora. Agora depois do LAB.IRINTO, eu somaria a essas razões todas o fato de ter encontrado uma rede subterrânea muito interessante, pessoas que querem fazer há muito tempo, outras que estão chegando agora, mas que começam a desenhar uma outra geografia, clandestina, fronteiriça, para a região. O LAB pode ser um impulsionador desse processo e isso me interessa sobretudo.

[Mais infos em ciudadania.org/entramosaolabirintocomrodrigosavazoni; Revista Fórum]

Fotos: Encontro Internacional de Cultura Livre e Inovação Cidadã (1, 4), Julinho Bittencourt (2), Raul Olivan (3), Transformatório (5), Rodrigo Savazoni (6)

Conexões Globais 2016

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O Conexões Globais 2016 acontece novamente em Porto Alegre, mas desta vez no Vila Flores, 1 e 2 de abril, e com foco no debate sobre cidades democráticas. A programação completa pode ser vista aqui, e traz mesas de debate, shows e oficinas sobre cultura digital – ativismo – feminismo – participação social – direitos humanos, entre outros temas. E a novidade é que vamos ser um dos retransmissores do streaming ao vivo das palestras e shows, no link abaixo. Depois, a ideia é fazer um relato do evento por aqui mesmo.

Quem quiser dar uma lida sobre cada um dos seis diálogos que tivemos nos dias 01 e 02 de abril, só conferir nos links abaixo (direto da equipe de comunicação do evento).

Quarto Distrito de Porto Alegre: um Polo da Economia Criativa e da Inovação Colaborativa

Participação Social na era da Internet

Brasil: Jornadas de Junho aos novos movimentos sociais em rede

Porto Alegre: Movimentos Sociais por uma Cidade Mais Democrática

Diversidade Sexual e de Gênero: Os desafios do Ativismo na Rede

Mulherada empoderada: os feminismos insurgentes nas ruas e nas redes