BaixaCharla ao vivo #10: Não há saídas? com Elias Maroso

O artista e pesquisador Elias Maroso é um ávido buscador de saídas. Em 2009, no auge das políticas culturais do Governo Lula, criou, junto com outros artistas e produtores culturais de Santa Maria e Porto Alegre (RS), uma primeira saída para o espaço artístico tradicional: a Sala Dobradiça. “Operar dobras sobre as noções de espaço artístico, buscando diferentes modos de se produzir efeitos de arte aberto a interessados” foi o que a Dobradiça se propôs a fazer – e de fato fez, ao criar múltiplos de exposição portátil para obras reprodutíveis, formatos de ocupação do espaço público para a arte urbana, espaços-suportes para exposições itinerantes, entre outras diversas encarnações da SD, como algumas das imagens abaixo mostram.

Exposição “Palimpsesto III”, com banda Pele de Asno, na Sala Dobradiça (como espaço-suporte de exposição), 2009.

 

Formato expositivo para artistas convidados, Sala Dobradiça.

 

Espaço Recombinante na Gare da Antiga Estação Férrea de Santa Maria / RS, Ano de 2011. Paulo Fernando Machado.
Animação feita com registros do Itinerário SD 0.5 (SM-POA), 2010

Em sua tese de Doutorado, defendida no início de 2021 no programa de Artes Visuais da UFRGS, a pista de um caminho encontrado como saída já no nome: “Circuitos de entrada e de saída: por uma poética do atravessamento”. Atravessar o espaço físico de exposição e subvertê-lo, uma busca constante do trabalho de Elias, mas aqui também o atravessamento como conceito operatório, que inclui aportes teóricos, diferentes linguagens artísticas e circuitos de entradas e saídas para pensar o processo artístico em múltiplos espaços, impregnado das variações atmosféricas de cada um destes.

Em sua tese, tratou de mostrar em termos palpáveis essa poética do atravessamento a partir de quatro “cadernos-seção”: Espaço Mental, Sala Fechada, Zona de Passagem e Área Aberta. Em cada um deles, uma série de obras em técnicas diversas – desenhos, instalações, fotografias, registros de intervenções urbanas, ilustrações – que pensam “saídas” pela busca da autonomia tecnológica, o uso tático da linguagem e a opção de não se prender a um único caminho (ou técnica, ou tecnologia).

Trecho da capa da tese de Elias, 2021
Pablo Carlos Budassi, Universo Observável. Ilustração logarítmica do espaço sideral, bordeada pela radiação cósmica do Big Bang, com Sistema Solar ao centro. Fonte: BASCOM, 2017, inserida na tese de Elias.
Trecho da tese de Elias, 2021
“Dobras no espaço III”, inserida na tese de Elias, 2021

 

“Dedico-me a formas difíceis. Decompor e recompor modelos  cristalizados na consciência e nos espaços de contato. Esforço para novos calos  neurais, terminações sinápticas. Sempre há um ou mais problemas de visão pelos quais me perco e contaminam o que vejo. Tem vezes que consigo pôr a vontade em alguma imagem tangível. Outras se mantêm na teimosia – cabe lembrar de Ítalo Calvino, ao dizer que “quando tudo tiver encontrado uma ordem e um lugar em minha mente, começarei a não achar mais nada digno de nota” (CALVINO, 2011, p. 166).” (Trecho da tese de Elias Maroso, p.32, 2021)

Durante seu doutorado, Elias conseguiu também tematizar sua busca por saídas diversas de uma forma ainda mais evidente em, pelo menos, três trabalhos. Apenas uma Saída, de 2016, são sinalizações luminosas para espaços fechados concebidas com torções, dobras e quebras de placas de saída encontradas em espaços de circulação pública.

Diagrama para Encontrar uma Saída, de 2018, é uma instalação que reúne diversos ensaios de objetos em torno da ideia do atravessamento da parede expositiva, conectados entre si por fios de cobre esmaltado. Exposto na Galeria da Fundação Ecarta, em Porto Alegre, conta também com dois desenhos circulares feitos com a fotocorrosão química de lâminas de cobre, esses afastados da parede por suportes de acrílico transparente. Os desenhos estão conectados a ímãs de neodímio e a um Arduino para receberem impulsos elétricos de baixa frequência em um ritmo pré-determinado.

Grifos de Saída, de 2019, que participou da exposição do  IV Concurso de Arte Impressa do Goethe-Institut de Porto Alegre, tem como peça central duas páginas de texto do conto de Franz Kafka chamado”Um Relatório para uma Academia”, de 1919, que trata a história de um macaco enjaulado que, no anseio de encontrar uma saída, acaba por se transformar em um europeu civilizado. Comprimido em apenas duas páginas, a tipografia, feita pelo próprio Elias (que já tinha desenhado outra fonte, “Recombinante”, disponível em formato .ttf para computadores e espalhado por algumas ruas de Santa Maria, Porto Alegre e Belém,), faz o conto parecer uma malha uniforme de signos/códigos a serem decifrados. Dessa malha de texto saem “grifos luminosos” todas vezes em que a palavra saída aparece. 

Apenas Uma Saída II. Cortes de acrílico, lâmpadas LED e fiação elétrica. 2018

 

Diagrama para Encontrar uma Saída, 2018.
Detalhe de Diagrama para Encontrar uma Saída. Conectores de metal, acrílico, clipes metálicos, lâmpadas LED, parafusos e fios de cobre esmaltado, 2018.
Vista geral de Grifos de Saída. Montagem na primeira exposição do IV Concurso de Arte Impressa do Goethe-Institut de Porto Alegre. Ano de 2019.

 

Detalhe de Grifos de Saída, 2019.

A busca da autonomia tecnológica como saída levou também Elias a aprender a construir suas próprias tecnologias. Uma parte dessa busca está em Diagrama 88.8 (Rádio Infinito) (2018-2019), uma instalação composta por protótipos de radiotransmissores FM, cortes de acrílico à laser, chapas de latão e cobre fotocorroídos, fios de cobre, parafusos e lâmpadas LED. Não sendo programador nem alocado na área da computação, ele aprendeu a fazer um protótipo de radiotransmissor FM artesanal com componentes eletrônicos, bateria de lítio de 3V, desenhos em latão fotocorroído quimicamente e peças de acrílico cristal cortados à laser. A faixa de rádio 88.8 FM tinha uma programação com audiodescrição (das obras) para cegos, trechos literários e ruídos, que poderiam ser escutados em um perímetro de cerca de 30 metros de distância do local onde estava exposta, o Espaço de Artes da UFCSPA.

A radiotransmissão é um recurso de interesse em minha prática artística, porque é uma maneira de atravessar limites físicos do espaço por meio das ondas eletromagnéticas. A parede não é um obstáculo para as ondas de rádio. Elas simplesmente cruzam o concreto e podem seguir de um lugar para o outro conforme a energia de seu impulso. A ideia de atravessar as paredes da exposição artística se baseia no pensamento de que a arte não precisa ser entendida apenas como um campo disciplinar do conhecimento fechado sobre si mesmo, mas também como uma dinâmica transformativa e viva da linguagem.

As rachaduras contêm dois centros de atração que podem se alinhar aos olhos da pessoa que vê. Os centros de ambos os desenhos de cobre são iluminados por lâmpadas LED, onde também estão as frases “não veja bem”e “tenha visões”.

 

À direita, sinalizações luminosas de acrílico e adesivo vinil autocolante. À esquerda, visitante de exposição escutando transmissão na faixa 88.8 FM em um aparelho de rádio doméstico. 2019.

Outra invenção foi os circuitos elétricos impressos em Ok/Cancel (2020), um projeto de uma placa de circuito impresso manufaturada que desempenha a função de bloquear sinais de telefones celulares nas faixas de transmissão 2g, 3g e 4g, em um perímetro doméstico de 5 metros. Acompanha o circuito (fotos abaixo) também um vídeo-tutorial que apresenta as etapas de montagem manual do circuito na atribuição de código aberto e autonomia tecnológica. Como ele explica no texto sobre o trabalho, “envolvido pelas emissões invisíveis que atravessam ambientes privados e públicos, esse trabalho é entendido como um convite a ser, ao mesmo tempo, cúmplice e rival das ondas informacionais”. 

Elias segue muito ativo nesse pandêmico 2021 desenvolvendo outras “saídas”, artísticas e de vida, a partir de ideias que valem a pena colocar sua energia vital mesmo sendo contraditórias e não completamente “redondas” – porque essas são facilmente capturadas e vendidas como mercadoria de (re) uso ad infinitum, ao estilo “ é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?” do Realismo Capitalista de Mark Fischer. Algum de seus próximos trabalhos estarão no KinoBeat Festival, em novembro de 2021, e na Bienal do Mercosul, em 2022. Podemos adiantar: a tecnologia segue forte em sua obra, se não como tema, como potência de linguagem, agora também em diálogo provocativo com a natureza. 

A décima BaixaCharla ao vivo, sétima de 2021, será uma conversa entre Leonardo Foletto e Elias a partir de suas obras (as citadas aqui e outras), da busca por autonomia, das saídas encontradas e a encontrar, dos atravessamentos possíveis entre arte, tecnologia e política, do realismo capitalista, da potência vicejante do rádio e outros temas correlatos. Seguimos na linha que propomos neste 2º semestre de 2021: debruçar no trabalho de alguns artistas que estão diretamente pensando as causas, consequências, saídas, desvios, para a encruzilhada que nos encontramos hoje. Se o espírito do tempo (ou zeitgeist) ainda é o de ressaca da internet (e do neoliberalismo como um todo), o desafio agora é pensar em saídas para nos manter vivos e ativos após isso tudo, quiçá também tirando beleza e potência da destruição, de forma a criar territórios a partir dos quais também se possa politizar e capitalizar a raiva para declarar e levar a luta adiante.

Será na próxima quinta-feira, 21/10, 19h (horário no Brasil), no canal do Youtube do BaixaCultura, onde depois fica disponível – e em algumas semanas vira podcast para ouvir no site e nas plataformas de streaming. 

BaixaCharla ao vivo #2: Descolonizar as tecnologias, Fanon

Dando seguimento ao nosso experimento audiovisual, fizemos a segunda edição da BaixaCharla ao vivo, no YouTube e Instagram, na terça-feira, 6 de agosto, às 20h. Desta vez, o tema foi “Descolonizar as Tecnologias”, com a proposta de debater outras perspectivas do sul global para pensar a tecnopolítica e a cultura livre. Tivemos como convidado o historiador e professor Walter Lippold, Mestre em Educação e doutorando em História pela UFRGS, que falou sobre a relação do pensamento de Frantz Fanon – filósofo, psicanalista e jornalista nascido na Martinica, fortemente envolvido na Guerra da Argélia, ao norte da África – com a tecnologia.

Especialista em história afro-asiática pela FAPA (RS), Lippold é militante da cultura livre e integrante do coletivo Fanon, organização que visa divulgar obras de pensadores e pensadoras africanas e afrodiaspóricas e que leva o nome de um dos maiores pensadores africanos do século XX. A charla vai partir do uso da tecnologia na Guerra da Argélia para falar sobre descolonização e usos criativos dos aparatos tecnológicos a partir de olhares que não o dominante europeu e norte-americano. Para aquecer, Lippold disponibilizou pra nós um texto de 2017 que fez para a Revista Semana da África na UFRGS, chamado “Cultura e Luta anticolonial no Magreb: Os estudos de Fanon sobre a Argélia“, onde ele toca em algumas questões – sobretudo o uso do rádio – que conversamos na Charla.

A nossa proposta é, a partir de agora, alternar charlas de leitura e debate a partir de um determinado texto, como fizemos com “A Ideologia Californiana”, com outras com convidados/as, em que debateremos temas que são caros às nossas temáticas principais – tecnopolítica e cultura livre.

Terça, 7 de agosto, 20/8, no YouTube e no Instagram do BaixaCultura. Segue abaixo, na íntegra.

O grupo do telegram do Coletivo Fanon, citado na charla, tem também muitas obras citadas no vídeo e livros de Fanon em PDF. Segue abaixo algumas das obras citadas no vídeo para download (clique no nome delas), todas indicadas por Walter e disponibilizadas (ou escaneadas) pelo próprio ou por outros integrantes do coletivo.

DUSSEL, Enrique. 1492 – O encobrimento do outro (A origem do “mito da modernidade”). Vozes; Petrópolis, 1993.

FANON, Frantz. Sociologia de una revolución. Ediciones Era; México, 1968. Obra publicada em 1959. Nela Fanon analisa de modo intenso a Revolução Argelina. A questão da mulher argelina e o véu e a análise do papel do rádio e da mídia na revolucão são destaques.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Editora da UFBA; Salvador, 2008. Originalmente era o trabalho final de Fanon na medicina psiquiátrica, mas foi reprovado pela banca. Em 1952 ele publica a obra.

FANON, Frantz. Em Defesa da Revolução Africana. Livraria Sá da Costa Editora, 1980. São textos de Fanon, organizados cronologicamente, a maioria retirada do jornal argelino El Moudjahid. (Disponível pra download lá no grupo do telegram do Coletivo Fanon).

FANON, Frantz. Alienation and Freedom. Bloomberg; London, 2018. Escritos de Fanon sobre alienação e libertação. Um obra impactante para os Estudos Fanonianos. Artigos, discursos, cartas e outros textos de Fanon, muitos que nunca tinham sido publicados.

LANDER, Edgar (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina. setembro 2005.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Revista Arte $ Ensaios, PPGAV, UFRJ, nº 32, dez 2016.

QUEIROZ, Ivo Pereira de. Fanon, o reconhecimento do negro e o novo humanismo: horizontes descoloniais da tecnologia. 2013. 221 f. Tese (Doutorado em Tecnologia) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2013.

VALENCIA, Sayak. Capitalismo Gore. Melusina; España, 2010.

WALLERSTEIN, Immanuel. Ler Fanon no século XXI. Revista Crítica de Ciências Sociais, 82, Setembro 2008: 3-12.

 

Radialistas pela cultura livre

radialistas 1

Os Radialistas Apasionados – coletivo de rádio latino-americano, um dos organizadores do Festival da Cultura Livre (2013) que participamos, em Quito – lançou semana passada uma radionovela sobre a cultura livre. Trata-se de “¡Utopía va por la libre!” e conta a história de uma banda (Utopia) que se vê no dilema de apostar no “sistema” das gravadoras ou seguir pelo caminho livre através das licenças Creative Commons.

São 5 capítulos com episódios de 6 a 12 minutos, todos muito bem produzidos em espanhol de fácil entendimento, inclusive para aqueles que não são hispano-hablantes. É um trabalho muito interessante para explicar a cultura livre para um público mais amplo, fora da “bolha” da cultura digital e da contracultura. Segue aqui abaixo o texto de abertura da radionovela e os links para escutar na Radioteca, uma rede social de radialistas da América Latina que disponibiliza o áudio em streaming, para baixar e também com o roteiro completo para ler (e baixar em PDF, se quiseres fazer uma versão na tua própria aldeia). Tudo livre, sob uma licença CC BY SA.

Cada vez son más las músicas, artistas y escritores que “van por la libre”, al margen del sistema, ajenos a discográficas o editoras, huyendo de los intermediarios porque no los necesitan. Apuestan por el conocimiento abierto y la cultura libre.

Creen que el conocimiento se genera colectivamente y lo que crean lo devuelven a la colectividad de forma abierta y libre. Esta nueva generación se sirve de Internet para difundir su trabajo. Ganan dinero en los conciertos, con charlas y así pueden seguir creando. Exploran otros camino, no ven la cultura como una mercancía y son apoyados por nuevas discográficas que quieren ayudar más que hacerse ricas.

Es un nuevo mundo,… ¡el mundo libre!

Para quienes habitan en esa utopía hemos grabado esta radionovela. Con ella queremos animar a las nuevas agrupaciones musicales, a los escritores y artistas a “ir por la libre”, como “Utopía”. Una banda de rock que se enfrenta a la disyuntiva de rendirse ante “sistema” o apostar por las licencias Creative Commons.

Música, sueños, amor, utopías y mucho copyleft. Escucha ¡Utopía va por la libre!

CAPÍTULO 1 – SUEÑOS SIN DINERO

CAPÍTULO 2 – NACISTE PARA CANTAR

CAPÍTULO 3 – BASTA DE ROMANTICISMOS

CAPÍTULO 4 – USTEDES SON LOS ELEGIDOS

CAPÍTULO 5 – SIEMPRE LIBRES

radialistas2
O trabalho dos Radialistas em prol da cultura livre vai muito além dessa radionovela. No portal RadioLivres estão cursos livres, uma biblioteca com referências de software livre a produção radiofônica – inclusive, um completo manual urgente para radialistas livres de quase mais de 300 páginas. Além de uma videoteca com diversos filmes (docs, curtas) relacionados ao tema, parecida (mas mais ampla) do que a que mantemos na BaixaTV.

Outros dois trabalhos que vale destacar aqui são os spots de cultura livre, produzidos em agosto do ano passado, chamados “El mito…mata. ¡Mata el mito!” São 6 pequenos (até 1 min.) spots para desmistificar os direitos de autor e a cultura livre. Bem bom pra mostrar praquele seu amigo cabeça dura que acha que cultura livre é “tudo grátis” ou a “mata de fome” os artistas. Confere aqui abaixo que vale a pena:

1. MÚSICA Y DERECHOS DE AUTOR

2: LIBROS Y DERECHOS DE AUTOR

3: COPYLEFT VS COPYRIGHT

4: ORIGINALIDAD Y CULTURA LIBRE

5: CULTURA LIBRE NO ES UN “TODO GRATIS”

6: ACCESO AL CONOCIMIENTO EN LAS UNIVERSIDADES

**

radialistas 3

Por fim, e não menos importante, outro material fundamental produzido pelos Radialistas em formato de guia: 10 mitos sobre la cultura libre y el acceso abierto al conocimiento. Editado por Santiago García Gago, espanhol radicado na América Latina e nos Radialistas faz alguns anos, é um texto essencial para informar corretamente sobre a cultura livre, com argumentos básicos pra não propagar mentiras como verdades absolutas. Confira os 10 mitos aqui abaixo, em tradução para o português, e descarregue o guia, em PDF, que destrincha cada um deles.

1º mito: As obras culturais são criações completamente originais.
FALSO: toda criação é coletiva.

2º mito: A cultura e o conhecimento sempre foram mercadorias suscetíveis de serem vendidas.
FALSO: a cultura e o conhecimento são bens comuns.

3̣º mito: Os direitos autorais foram criados para proteger os artistas dos que copiavam seus livros.
FALSO: foram criadas principalmente para proteger os artistas dos editores.

4º mito: A cultura livre não protege quem cria e se pode roubar suas produções
FALSO: não há nenhum risco em licenciar as tuas obras de forma livre.

5º mito: A cultura livre promove a cópia e isso é promover a pirataria
FALSO: democratizar o conhecimento não é pirataria. Pirata é quem se apropria de algo que não é seu e o conhecimento é um bem comum.

6º mito: A internet e a cultura livre matam de fome os artistas
FALSO: A cultura livre promove modelos em que as pessoas tem acesso a cultura e os autores vivem de suas criações.

7º mito: Cultura livre é “tudo grátis”
FALSO: o modelo que a cultura livre propõe não é necessariamente o da gratuidade, mas sim o do livre acesso.

8º mito: A cultura livre não tem validade legal
Falso: As licenças livres, como as Creative Commons, tem validade legal na maioria dos países e você pode processar as pessoas que não respeitam os termos que estão em suas licenças

9º mito: Ninguém usa este tipo de licenças
FALSO: Fazem uso das CCs, por exemplo, da Casa Branca ao Banco Mundial, passando por periódicos, blogs e fotógrafos.

10º mito: Não posso fazer nada. A cultura livre não vai comigo.
FALSO: toda a sociedade pode apoiar este movimento e fazer mais acessíveis e livres a cultura e o conhecimento.

P.s: Alguém afim de ajudar a traduzir todo o guia sobre os mitos da cultura livre? Escreva pra baixacultura@gmail.com (ou baixacultura@riseup.net) que a gente tá querendo ajuda pra essa tarefa.

É tempo de compartir

No primeiro sábado do BaixoCentro rolou o Piquenique do Compartilhamento com a ilustre presença do Ônibus Hacker, como falamos aqui na semana passada.

Enquanto o DJ Tutu Moraes saía da Praça Roosevelt e se dirigia ao Largo do Arouche com seu cortejo Santo de Rua, o Arouche foi o espaço para todos levaram seus notebooks, Hds e pendrives para compartilhar arquivos, seja filmes, músicas ou qualquer aplicativo. A ideia era fazer uma grande feira de troca de arquivos digitais. Tudo pelo compartilhamento!

Para primeira vez, foi um experimento deveras interessante. Em épocas de acirramento do debate da questão dos direitos autorais na rede, e de uma internet cada vez mais política, não deixa de ser um ato político trocar arquivos em plena praça pública; é naturalizar offline uma prática natural on-line.

E aqui política entendida não no sentido de representação institucional, mas de construção coletiva do presente e futuro comuns – o que o BaixoCentro como um todo tem feito muito bem até aqui, nestes 5 dias de atividades que tomaram de assalto as ruas de um (baixo) centro esquecido das políticas públicas governamentais.

[Desculpa aí a falta de isenção em analisar uma coisa da qual fazemos parte. Nunca dissemos que fazemos jornalismo, quanto mais “jornalismo isento”].

No Piquenique, as pessoas presentes no Arouche puderam assistir as bandas EletroUrbana e Os Augustos, trocar comes e bebes e acessar a internet livremente por meio de um hub de modems 3G criado pelo pessoal do Busão Hacker. Pedro Markun, da Transparência Hacker, capitaneou a criação do modem, que pegou uma rede surpreendentemente rápida. 

Outro destaque foi o a Rádio Livre do Busão Hacker. O pessoal tem uma antena ao melhor estilo gambiarra, que é colocada no alto de uma taquara tosca apoiada no ônibus. O sinal captado na antena vai para um transmissor (hardware livre) comprado  junto a Lorena Bravo, do projeto Palabra Radio, que esteve no Festival da Cultura Digital ano passado, no Rio (na foto mais abaixo, Loreta dá oficina no evento). De lá sai os cabos para ligar numa mesa de som, que por sua vez é plugada a um computador, que comanda a programação com o que bem entender.

A escolha da frequência a ser usada é ainda anterior a montagem da estrutura da rádio: basta pegar um aparelho de rádio e testar uma frequência que não esteja sendo usada – de preferência longe de alguma rádio tradicional, para evitar problemas. A usada no sábado foi a FM 105.9, que pegou num raio de 5Km à região, talvez um pouco menos, porque no Arouche tem muitos prédios e a antena não estava na altura destes.

Loreta Bravo e o projeto Palabra Radio, de onde veio o transmissor da Rádio do Ônibus Hacker

A ideia é que a feira/piquenique ganhe outras edições, talvez com uma periodicidade fixa; todos os que ali estiveram gostaram da atividade. Para continuar, é necessário algumas melhorias na estrutura, a começar pela troca de arquivos: os USBs 2.0 que usamos demoram demais para passar os arquivos, o que atrasou o processo e formou uma fila de pessoas esperando a sua vez.

Alternativas a isso não faltam: desde usar USB 3.0, mais rápidos, ou usar mais computadores (e HDs compatíveis a todos, não só os fechados da Apple) até criar um servidor próprio para cada edição da feira/piquenique, de modo que todos possam subir seus arquivos para esse servidor e de lá baixar os arquivos de maneira independente. Há a ideia de aperfeiçoar o modem-hub 3G e torná-lo uma Pirate Box, como falamos na semana passada.

E, no fim, surgiu também a possibilidade de criar uma espécie de “máquina de troca”. Funcionaria aos moldes de uma máquina de refrigerante: você deixa um computador com HD gigante, constrói uma interface externa com diversos USBs e um monitor grande, e pronto: a pessoa escolhe o arquivo a pegar como quem escolhe entre coca e sprite numa máquina. Quem sabe num futuro próximo não montamos uma dessas e deixamos nu lugar fixo, tipo na Casa da Cultura Digital?

[Felipe Fonseca, nos comentários, diz que essa máquina já existe: é a Burn Station, “a mobile copying station which – as it travels through suburban spaces – supports the free distribution music and audio. It is software as well as a local network”.
Também via comentários: a máquina que o Pedro se referia é essa aqui, linda também.]

Veja mais fotos da montagem e do andamento do Piquenique no sábado, e de algumas outras atividades do #baixocentro.

Ônibus Hacker estacionado no Largo do Arouche, ao lado do Mercado das Flores.

Troca de arquivos rolando
Pedro Belasco, o comandante/locutor da rádio Busão Hacker.
Arouche começando a lotar
Enquanto isso, o cortejo do Santo Forte arrastava mais de 1500 pessoas pelas ruas e se preparava para chegar no Arouche.
Chegou, ficou mais ou menos por uma hora, até que a chuva dispersou todos.

Mais fotos do BaixoCentro aqui.

 
Créditos fotos: 1 (Lucas Bonetti Octeto), 2, 4, 5, 6, 7, 8 (Kelli Garcia) , 3 Palabra Radio (Bruno Fernandes), 9, 10, 11 (Pedro Belasco/Busão Hacker), 12 (Casa fora do eixo), 13 e 14 (Fer Lingabue)