A última piada do Monty Phyton

mp

Ainda lembro com carinho duma quilométrica greve que atravessei no tempo inicial da faculdade de jornalismo, tanto pela generosidade daquele tempo de ócio [que, tudo indica, jamais se repetirá] quanto porque foi no curso daquelas providenciais tardes que um velho amigo apareceu na casa em que eu morava imperativamente, assite isso. Considero O Sentido da Vida [ao lado de Peter Sellers em A Shot in the Dark] um dos muitos responsáveis por uma das muitas guinadas fundamentais de minha vida, que para não adentrar completamente o confessionário da ego-trip digo apenas que a menciono pra prestar a devida homenagem aos heróis que ora critico.

O Monty Phyton justifica assim sua decisão por criar um canal oficial no Youtube:

No more of those crap quality videos you’ve been posting. We’re giving you the real thing – HQ videos delivered straight from our vault. What’s more, we’re taking our most viewed clips and uploading brand new HQ versions. And what’s even more, we’re letting you see absolutely everything for free.
[Algo como “chega daqueles vídeos de merda que vocês têm postado. Estamos jogando a real pra vocês – Vídeos em alta definição tirados da nossa própria coleção. Mais do que isso, estamos disponibilizando em versão nova e de alta qualidade nossos clipes mais acessados. E mais ainda, estamos deixando que vocês assistam todas essas coisas de graça.“]

Gosto do grifo porque toca numa questão importante da cultura livre: a qualidade do que se compartilha. Pessoalmente acredito que a tecnologia é seu próprio remédio, e que não se enfrenta a má qualidade dos mp3 com discos de vinil, mas com formatos digitais de melhor qualidade. Mas imagine um futuro em que as mídias físicas tenham efetivamente desaparecido e só restem vídeos e arquivos de áudio com qualidade ruim – Caso desenvolvesse este raciocínio [do qual discordo], eu chegaria à conclusão de que acabaríamos todos nós menos sensíveis, nossos ouvidos embrutecidos pela falta de definição do que escutamos.

E discordo exatamente pelo grifado, pelo interesse que considero natural dos criadores de que o produto de seu trabalho alcance não apenas a maior quantidade possível de pessoas, mas o faça da melhor maneira possível. Só que se por um lado me empolgo ao ver um canal oficial do Monty Phyton no Youtube, por outro não consigo deixar de me incomodar com algumas coisas.

Por exemplo, com a suposta generosidade de me deixar assistir “todas essas coisas de graça“. Se tu clicar no link do canal e ler o texto na íntrega, vai ver que há no fim uma espertíssima contraproposta: ao invés dos meus comentários, o Monty Phyton quer que eu compense todos estes anos em que postei vídeos de má qualidade dos seus programas assistindo ao canal oficial e comprando os filmes e programas de TV.

Vários dos filmes do MP estão logo ali em minha estante, e se na próxima vez em que passar numa daquelas lojas de departamentos que vendem dvds e discos por módicos tostões eu encontrar um que nao tenha não hesitarei em comprá-lo. Mas não lembro de ver em nenhum dos filmes que tanto amo uma piada à altura desta: a de que a possibilidade de ver gratuitamente na internet tudo isso que comprei não vem da mídia em si, mas dos meus bondosos comediantes favoritos.

[Reuben da Cunha Rocha.]