BaixaCharla ao vivo #9: Devastação, com Lucas Pretti

Ensaio de “Devastação”, de Lucas Pretti

No meio da década de 2000, uma promessa revolucionária de futuro da internet parecia se consolidar. Infinidades de novas aplicações desafiavam e destruiam indústrias a cada semana. Vingava a narrativa da contracultura californiana de que as conexões geradas pela rede e as relações humanas que aconteciam ali gerariam uma pulsão de vida alternativa e independente da economia neoliberal. Nada sobraria. Era a semente de uma nova sociedade baseada no comum partilhado. A “utopia da internet”.

A crença na revolução se espalhava. Gérmenes de futuros.

O movimento do software livre extrapolava a engenharia informática para forjar uma visão de mundo hacker. A cultura livre parecia um novo espírito do tempo. Saber como construir aplicações digitais, este saber já contendo em si o compartilhamento das novas tecnologias, significava algo como deter os meios de produção. Figuras como Linus Torvalds e as infinitas comunidades sem rosto pautadas na colaboração e na abertura prometiam que o futuro seria como a multidão, as comunidades, os coletivos quisessem. O código aberto e o torrent seriam as ferramentas.

Era tudo Ingenuidade millenial?*

2010 2020
redes sociais mal existem infocalipse
software livre como movimento privatização e modelos de negócios extrativistas
remix como estética da cultura livre dilução em gifs, stickers e emojis
multidão criando em colaboração narratocracia vigilada
pessoas em rede ‘usuários’ e bots
ampla infraestrutura p2p infraestrutura client-server em sua maioria

 

Ensaios visuais de “Devastação”

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O artista visual, ativista, editor e pesquisador brasileiro Lucas Pretti, parceiro de longa data do BaixaCultura, produziu em 2020 um trabalho chamado “Devastação”, um livro de artista formado por nove ensaios que articula links entre tecnopolítica e meio ambiente para desvelar forças operantes na silicolonização do mundo. Desde fins de 2018 radicado em Barcelona, Lucas usou de múltiplos formatos para compor uma obra que, vista em 2021, pode ser encarada como um manifesto do mal-estar generalizado com o Brasil de Bolsonaro sob a mediação (e a benção) das big techs. São fotos, adesivos, textos, mapas, prints, paródicos, irônicos, sempre críticos, que ressaltam tanto a agência da tecnologia na eleição de Bolsonaro quanto na destruição do meio ambiente e no adoecimento da sociedade.

O começo de “Devastação” veio com um vídeo gravado no dia da posse de Bolsonaro, quando apoiadores do então recém-eleito presidente gritaram “Whatsapp, Whatsapp, Facebook, Facebook” como forma de ataque a um repórter televisivo. O mal-estar contido nesse ato, em que as redes sociais ganham um status de contrapoder informacional íntimo, levaram ele a uma investigação dos diversos aspectos simbólicos dessa devastação ainda em marcha: do meio ambiente, das relações políticas e da identidade de um país.

“O incômodo com o vídeo gravado no dia da posse de Bolsonaro me habita desde que o assisti pela primeira vez. Logo após o Réveillon de 2018, circulou durante um ou dois dias nas timelines e chegou a ter seu espaço na imprensa com um enfoque exótico, “vejam que curioso os gritos contra a Globo”. Eu vejo mais do que isso. Vejo a materialização de um discurso tecnoapocalíptico, uma prova de que as redes digitais podem ser usadas ativamente para influenciar resultados de eleições – como se vem discutindo muito desde o escândalo Cambridge Analytica.”

Foto de “Make The Board Happy”, ensaio presente em “Devastação”.
“Silicon Empire”

Foi dentro do contexto da Change.org, empresa que Lucas atua como diretor global de comunicação, que ele ouviu a frase “we just need to make the board happy”, mote de um dos blocos do trabalho. “A cultura empresarial siliconiana, assim como a lógica de investimentos de todo o capital privado, prevê que a cada trimestre o comitê de administração receba um relatório das atividades da companhia – contém um balanço financeiro, indicadores de performance, principais decisões e projetos para os próximos três meses. É uma maneira de “to make the CEO accountable”. O board, na prática, encarna, dilui e apaga a figura do chefe capitalista de cartola e charuto difundida nos séculos XIX e XX. É o atual chefe supremo. O topo da carreira de um executivo é ser convidado para fazer parte do board de outra organização, e assim aumentar seu campo de influência. A cada trimestre, é necessário deixar o board feliz, para que os acionistas e investidores possam, por fim, rir também”, escreveu Lucas no ensaio que acompanha a obra, “Pacto de Sangre que todos hicieron y desconocen”, aqui em versão que foi publicada na revista n°3 do Internet Lab, Internet e Sociedade.

O trabalho iniciado por Make the Board Happy abriu caminho para ensaios correlatos e se tornou o próprio método de investigação de Lucas em “Devastação”. O impulso, diz ele, é “abrir o código” dessas corporações. Neste sentido, Devastação faz um tributo ao open source e à cultura livre. O colecionismo e indexação de imagens encontradas na internet se tornaram a matéria-prima de cada ensaio – uma prática que remonta aos primórdios da cultura remix.”

A nona BaixaCharla ao vivo, sexta de 2021, será uma conversa entre Leonardo Foletto e Lucas Pretti sobre e a partir de “Devastação”. Será na próxima quinta-feira, 23/9, excepcionalmente às 15h (horário no Brasil), no canal do Youtube do BaixaCultura, onde depois fica disponível – e em algumas semanas vira podcast para ouvir no site e nas plataformas de streaming. Esta charla  inaugura um novo ciclo de conversas sobre tecnopolítica neste 2021, agora a partir da arte (& technologia). Nos próximos meses, vamos nos debruçar no trabalho de alguns artistas que estão diretamente pensando as causas, consequências, saídas, desvios, para a encruzilhada social-política-tecnonológica que nos encontramos hoje. Se o espírito do tempo (ou zeitgeist) ainda é o de ressaca da internet, como apontamos nesse texto de 2018, o desafio agora é pensar em remédios que possam apontar curas para a ressaca – ou esmiuçar o diagnóstico distópico, ver a catástrofe de outras perspectivas, quiçá também tirar beleza da destruição, dançar enquanto tudo queima, despencar com paraquedas colorido, reiniciar o processo a partir de princípios da igualdade e não de competição.

Assista:

 

*Trecho remixado do ensaio “Pacto de Sangre que todos hicieron y desconocen”, de Lucas Pretti.