BaixaCharla ao vivo #10: Não há saídas? com Elias Maroso

O artista e pesquisador Elias Maroso é um ávido buscador de saídas. Em 2009, no auge das políticas culturais do Governo Lula, criou, junto com outros artistas e produtores culturais de Santa Maria e Porto Alegre (RS), uma primeira saída para o espaço artístico tradicional: a Sala Dobradiça. “Operar dobras sobre as noções de espaço artístico, buscando diferentes modos de se produzir efeitos de arte aberto a interessados” foi o que a Dobradiça se propôs a fazer – e de fato fez, ao criar múltiplos de exposição portátil para obras reprodutíveis, formatos de ocupação do espaço público para a arte urbana, espaços-suportes para exposições itinerantes, entre outras diversas encarnações da SD, como algumas das imagens abaixo mostram.

Exposição “Palimpsesto III”, com banda Pele de Asno, na Sala Dobradiça (como espaço-suporte de exposição), 2009.

 

Formato expositivo para artistas convidados, Sala Dobradiça.

 

Espaço Recombinante na Gare da Antiga Estação Férrea de Santa Maria / RS, Ano de 2011. Paulo Fernando Machado.
Animação feita com registros do Itinerário SD 0.5 (SM-POA), 2010

Em sua tese de Doutorado, defendida no início de 2021 no programa de Artes Visuais da UFRGS, a pista de um caminho encontrado como saída já no nome: “Circuitos de entrada e de saída: por uma poética do atravessamento”. Atravessar o espaço físico de exposição e subvertê-lo, uma busca constante do trabalho de Elias, mas aqui também o atravessamento como conceito operatório, que inclui aportes teóricos, diferentes linguagens artísticas e circuitos de entradas e saídas para pensar o processo artístico em múltiplos espaços, impregnado das variações atmosféricas de cada um destes.

Em sua tese, tratou de mostrar em termos palpáveis essa poética do atravessamento a partir de quatro “cadernos-seção”: Espaço Mental, Sala Fechada, Zona de Passagem e Área Aberta. Em cada um deles, uma série de obras em técnicas diversas – desenhos, instalações, fotografias, registros de intervenções urbanas, ilustrações – que pensam “saídas” pela busca da autonomia tecnológica, o uso tático da linguagem e a opção de não se prender a um único caminho (ou técnica, ou tecnologia).

Trecho da capa da tese de Elias, 2021
Pablo Carlos Budassi, Universo Observável. Ilustração logarítmica do espaço sideral, bordeada pela radiação cósmica do Big Bang, com Sistema Solar ao centro. Fonte: BASCOM, 2017, inserida na tese de Elias.
Trecho da tese de Elias, 2021
“Dobras no espaço III”, inserida na tese de Elias, 2021

 

“Dedico-me a formas difíceis. Decompor e recompor modelos  cristalizados na consciência e nos espaços de contato. Esforço para novos calos  neurais, terminações sinápticas. Sempre há um ou mais problemas de visão pelos quais me perco e contaminam o que vejo. Tem vezes que consigo pôr a vontade em alguma imagem tangível. Outras se mantêm na teimosia – cabe lembrar de Ítalo Calvino, ao dizer que “quando tudo tiver encontrado uma ordem e um lugar em minha mente, começarei a não achar mais nada digno de nota” (CALVINO, 2011, p. 166).” (Trecho da tese de Elias Maroso, p.32, 2021)

Durante seu doutorado, Elias conseguiu também tematizar sua busca por saídas diversas de uma forma ainda mais evidente em, pelo menos, três trabalhos. Apenas uma Saída, de 2016, são sinalizações luminosas para espaços fechados concebidas com torções, dobras e quebras de placas de saída encontradas em espaços de circulação pública.

Diagrama para Encontrar uma Saída, de 2018, é uma instalação que reúne diversos ensaios de objetos em torno da ideia do atravessamento da parede expositiva, conectados entre si por fios de cobre esmaltado. Exposto na Galeria da Fundação Ecarta, em Porto Alegre, conta também com dois desenhos circulares feitos com a fotocorrosão química de lâminas de cobre, esses afastados da parede por suportes de acrílico transparente. Os desenhos estão conectados a ímãs de neodímio e a um Arduino para receberem impulsos elétricos de baixa frequência em um ritmo pré-determinado.

Grifos de Saída, de 2019, que participou da exposição do  IV Concurso de Arte Impressa do Goethe-Institut de Porto Alegre, tem como peça central duas páginas de texto do conto de Franz Kafka chamado”Um Relatório para uma Academia”, de 1919, que trata a história de um macaco enjaulado que, no anseio de encontrar uma saída, acaba por se transformar em um europeu civilizado. Comprimido em apenas duas páginas, a tipografia, feita pelo próprio Elias (que já tinha desenhado outra fonte, “Recombinante”, disponível em formato .ttf para computadores e espalhado por algumas ruas de Santa Maria, Porto Alegre e Belém,), faz o conto parecer uma malha uniforme de signos/códigos a serem decifrados. Dessa malha de texto saem “grifos luminosos” todas vezes em que a palavra saída aparece. 

Apenas Uma Saída II. Cortes de acrílico, lâmpadas LED e fiação elétrica. 2018

 

Diagrama para Encontrar uma Saída, 2018.
Detalhe de Diagrama para Encontrar uma Saída. Conectores de metal, acrílico, clipes metálicos, lâmpadas LED, parafusos e fios de cobre esmaltado, 2018.
Vista geral de Grifos de Saída. Montagem na primeira exposição do IV Concurso de Arte Impressa do Goethe-Institut de Porto Alegre. Ano de 2019.

 

Detalhe de Grifos de Saída, 2019.

A busca da autonomia tecnológica como saída levou também Elias a aprender a construir suas próprias tecnologias. Uma parte dessa busca está em Diagrama 88.8 (Rádio Infinito) (2018-2019), uma instalação composta por protótipos de radiotransmissores FM, cortes de acrílico à laser, chapas de latão e cobre fotocorroídos, fios de cobre, parafusos e lâmpadas LED. Não sendo programador nem alocado na área da computação, ele aprendeu a fazer um protótipo de radiotransmissor FM artesanal com componentes eletrônicos, bateria de lítio de 3V, desenhos em latão fotocorroído quimicamente e peças de acrílico cristal cortados à laser. A faixa de rádio 88.8 FM tinha uma programação com audiodescrição (das obras) para cegos, trechos literários e ruídos, que poderiam ser escutados em um perímetro de cerca de 30 metros de distância do local onde estava exposta, o Espaço de Artes da UFCSPA.

A radiotransmissão é um recurso de interesse em minha prática artística, porque é uma maneira de atravessar limites físicos do espaço por meio das ondas eletromagnéticas. A parede não é um obstáculo para as ondas de rádio. Elas simplesmente cruzam o concreto e podem seguir de um lugar para o outro conforme a energia de seu impulso. A ideia de atravessar as paredes da exposição artística se baseia no pensamento de que a arte não precisa ser entendida apenas como um campo disciplinar do conhecimento fechado sobre si mesmo, mas também como uma dinâmica transformativa e viva da linguagem.

As rachaduras contêm dois centros de atração que podem se alinhar aos olhos da pessoa que vê. Os centros de ambos os desenhos de cobre são iluminados por lâmpadas LED, onde também estão as frases “não veja bem”e “tenha visões”.

 

À direita, sinalizações luminosas de acrílico e adesivo vinil autocolante. À esquerda, visitante de exposição escutando transmissão na faixa 88.8 FM em um aparelho de rádio doméstico. 2019.

Outra invenção foi os circuitos elétricos impressos em Ok/Cancel (2020), um projeto de uma placa de circuito impresso manufaturada que desempenha a função de bloquear sinais de telefones celulares nas faixas de transmissão 2g, 3g e 4g, em um perímetro doméstico de 5 metros. Acompanha o circuito (fotos abaixo) também um vídeo-tutorial que apresenta as etapas de montagem manual do circuito na atribuição de código aberto e autonomia tecnológica. Como ele explica no texto sobre o trabalho, “envolvido pelas emissões invisíveis que atravessam ambientes privados e públicos, esse trabalho é entendido como um convite a ser, ao mesmo tempo, cúmplice e rival das ondas informacionais”. 

Elias segue muito ativo nesse pandêmico 2021 desenvolvendo outras “saídas”, artísticas e de vida, a partir de ideias que valem a pena colocar sua energia vital mesmo sendo contraditórias e não completamente “redondas” – porque essas são facilmente capturadas e vendidas como mercadoria de (re) uso ad infinitum, ao estilo “ é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?” do Realismo Capitalista de Mark Fischer. Algum de seus próximos trabalhos estarão no KinoBeat Festival, em novembro de 2021, e na Bienal do Mercosul, em 2022. Podemos adiantar: a tecnologia segue forte em sua obra, se não como tema, como potência de linguagem, agora também em diálogo provocativo com a natureza. 

A décima BaixaCharla ao vivo, sétima de 2021, será foi uma conversa entre Leonardo Foletto e Elias a partir de suas obras (as citadas aqui e outras), da busca por autonomia, das saídas encontradas e a encontrar, dos atravessamentos possíveis entre arte, tecnologia e política, do realismo capitalista, da potência vicejante do rádio e outros temas correlatos. Seguimos na linha que propomos neste 2º semestre de 2021: debruçar no trabalho de alguns artistas que estão diretamente pensando as causas, consequências, saídas, desvios, para a encruzilhada que nos encontramos hoje. Se o espírito do tempo (ou zeitgeist) ainda é o de ressaca da internet (e do neoliberalismo como um todo), o desafio agora é pensar em saídas para nos manter vivos e ativos após isso tudo, quiçá também tirando beleza e potência da destruição, de forma a criar territórios a partir dos quais também se possa politizar e capitalizar a raiva para declarar e levar a luta adiante.

Quinta-feira, 21/10, 19h (horário no Brasil), no canal do Youtube do BaixaCultura, onde depois fica disponível – e em algumas semanas vira podcast para ouvir no site e nas plataformas de streaming. 

Assista (ou escute como podcast) aqui abaixo:

Retratos do ciclo copy, right?

Passaram pouco mais de uma semana do ciclo copy, right? em SP, tempo suficiente para digerir tudo do que aconteceu.

Mas como foram 4 dias de ciclo, 6 filmes exibidos, 7 convidados e muitas outras conversas aleatórias, deixemos as fotos e os vídeos do evento falar por si só. No decorrer dos próximos dias, meses e até anos vamos recuperando algumas das histórias ali ouvidas, conversadas, etc, e relacionando com outros temas factuais, subjetivos, afetivos, etc.

Uma possível constatação depois de tudo isso é: estamos bem informados sobre as batalhas “novo” e “velho mundo” da cultura/industria cultural/direitos autorais. A segunda, mais realista e pessimista, é que somos muito poucos: falamos de termos como copyleft e crowdfunding, para citar dois exemplos, como se fossem coisas que todo mundo sabe o que é – e não, a imensa maioria não faz nem ideia do que seja.

Daí que as duas conclusões se juntam numa só: precisamos ser didáticos para nos fazer ouvir. O mundo da cultura livre/digital é um ovo. E só quando deixar de ser é que vamos conseguir alterar a sociedade tal como a tecnologia (e a cultura) digital tem pedido.

[Leonardo Foletto]

P.s1: Ainda temos algumas imagens e especialmente vídeos para recuperar das palestras. Avisamos aqui.

P.s2: Há possibilidades concretas da próxima edição do ciclo ser em no FISL 2012, em julho deste ano, em porto alegre.

 *

1ºdia – 12/6
Centro Cultural da Espanha

“¡Copiad, Malditos! (2011)
“Produção audiovisual em cultura livre: Brasil X Espanha”
Stéphane M. Grueso (diretor do filme, videoconferência) e Rafael Frazão (Casa da Cultura Digital, Filmes para Bailar)

2ºdia – 16/6
Matilha Cultural

“Patent Absurdity” (2010), “Arduíno: o documentário” (2011).
“ Hardware & software livre: cultura e cidadania P2P
Rodrigo Rodrigues (Garoa Hacker Clube, MetaMáquina) e Bernardo Gutierrez (Future Media, 15M Espanha).
A apresentação de Bernardo foi gravada pela Raquel Diniz, sua esposa, e pode ser vista aqui. A do Rodrigo disponibilizamos aqui em breve.

3ºdia – 23/6
Matilha Cultural

“RIP: A Remix Manifesto” (2009)
Cultura remix, RIP & direito autoral: 2009-2012
Pedro Markun (Casa da Cultura Digital, Esfera e Transparência Hacker).

(Neste dia, estamos sem fotos; em breve vamos pegá-las com o pessoal da Matilha Cultural e colocamos aqui).

4ºdia – 26/6
Centro Cultural da Espanha

Feira do Compartilhamento
“Ctrl-V – Video Control (2011)”,  “Remixofagia – Alegorias de uma Revolução” (2011)
Produção e políticas públicas em cultura digital”.
Rodrigo Savazoni (Casa da Cultura Digital, Festival CulturaDigital.br) e Leonardo Brant (Cultura e Mercado, Empreendedores Criativos).

Créditos fotos: BaixaCultura (1, 2, 3, 5, 6, 7, 8,9, 11, 12); Regina Elias/CCE (4, 10, 13, 14, 15)

Arduíno e patentes de software no ciclo copy, right?

2º dia do ciclo copy, right? rola amanhã, 16 de junho, às 16h30, na Matilha Cultural, um centro cultural independente dos mais interessantes de São Paulo, localizado na rua Rêgo Freitas, 542, a poucas quadras da estação República do metrô, região central da cidade. 

Os dois filmes de amanhã – que vão ser exibidos na sala de cinema da Matilha, no 3º andar –  tocam em  duas questões primordiais da cultura digital: o software e o hardware livre.

O primeiro filme exibido, “Patent Absurdity” (2010, 28 min), dirigido por Luca Lacarini e produzido por Jamie King com o apoio da Free Software Foundation, fala da batalha travada pela indústrias dos softwares para manter o monopólio de patentes de seus programas e do quanto essa relação afeta a economia mundial.

Marcelo De Franceschi, ex-editor desta página, fez como uma de suas últimas colaborações a tradução, legendagem e a subida do video em três partes no Youtube (e no Vimeo). No nosso canal do Youtube estão as três partes para quem quiser ver – mas garanto que será melhor assistir o filme na bela sala de projeção da Matilha.

O segundo, “Arduíno – o documentário” (2011, 28 min), dirigido por Rodrigo Calvo e Raúl Diez Alaejos, trata do desenvolvimento da placa homônima, um “mini-computador” que pode sentir o estado do ambiente que o cerca por meio da recepção de sinais de sensores e que é um dos principais representantes do que se chama “hardware livre”.

As legendas do “Arduíno – o Documentário” foram feitas também por Marcelo, que puxou a escrita desse post sobre o assunto. Ali, dizemos, entre outras coisas, que:

“O atual problema que há é que, devido aos sistemas de padronização e patenteamento, muitas pessoas ficaram sem a possibilidade de aprender como as coisas funcionam” diz  o engenheiro e pesquisador David Cuartielles.

O open source hardware diminui essa diferença, facilitando o aprendizado da programação de circuitos eletrônicos que cercam as nossas atividades.  Tendo noções de como são efetuados os controles dos circuitos e das programações, não seremos facilmente ludibriados e podemos inovar.”

 O vídeo pode ser assistido no nosso canal do Vimeo – e também na Baixa TV aqui do lado.

Na conversa pós-exibição dos filmes estarão Rodrigo Rodrigues, sócio da Metamáquina e integrante do Garoa Hacker Clube – o primeiro hackerspace do Brasil, sediado no porão da Casa da Cultura Digital, que realiza duas brincadeiras  semanais com a ferramenta:  a “Noite do Arduíno“, na quinta, e o ‘Arduino 100 noção‘, aos sábados.

A Metamáquina é uma empresa dedicada à impressão 3D de baixo custo que teve seu “start” através de uma bela campanha no Catarse – e que tem sede numa salinha pequena da Casa da Cultura Digital. A Metamáquina, como diversas outras novas empresas, não seria possível sem a popularização das impressoras 3D a partir dos hardwares abertos, que propiciaram a criação de projetos como a Makerbot – impressoras 3D que pegam um modelo de um objeto disponível na internet e imprimem esse objeto.

Junto com Rodrigo estará Bernardo Gutierrez, “pós-jornalista” espanhol que já trabalhou como correspondente em diversos países da América Latina e escreveu para várias revistas & jornais – como Público, El País, GEO, National Geographic, La Vanguardia, Interviú, La Repubblica o Der Tager Spiegel, dentre outras. Ele é hoje CEO do Future Media, consultoria de estratégias digitais, e blogueiro no diário espanhol 20 minutos.

Bernardo é também ativista do 15M espanhol, um dos grupos protagonistas da cada vez menos silenciosa Revolução Copyleft. É de lá que trará para o debate diversos exemplos de usos de arduínos em ocupações urbanas – e na relação das cidades com o software livre, no que ele chama de Urbanismo P2P, que nada mais é que a aplicação dos princípios da liberdade embutidos no copyleft para a arquitetura.

Um exemplo de sua “remezcla” sobre cidades copyleft é este texto, “Sonhei que era um DJ de Ruas“, onde ele aplica as principais liberdades do SL a cidade:

Libertad 0. Libertad para ejecutar la ciudad sea cual sea nuestros propósito

Libertad 1. Libertad para estudiar el funcionamiento de la ciudad y adaptarlo a tus necesidades – el acceso al código fuente es condición indispensable para eso.

Libertad 2. La libertad para redistribuir copias y ayudar así a tu vecino.

Libertad 3. La libertad para mejorar la ciudad y luego publicarlo para el bien de toda la comunidad.

Estas e outras provocações mais amanhã, na Matilha, de grátis. Apareçam!

Ciclo copy, right? em São Paulo

Desde meados de 2011 estavámos por fazer um ciclo de filmes sobre cultura livre em São Paulo, nos moldes que organizamos nas duas primeiras edições em Santa Maria (1º aqui, e 2º aqui).

Eis que temos o prazer de dizer que finalmente o ciclo vai sair por aqui, no Centro Cultural da Espanha e na Matilha Cultural, ambos lugares bem interessantes e que, junto com os parceiros desde que chegamos em terras paulistas da Casa da Cultura Digital, toparam a empreitada de discutir cultura livre em pleno coração da megalópole paulistana.

A ideia do ciclo é promover a exibição, difusão e discussão de filmes/conceitos/ideias/práticas relacionados a cultura livre. Algo que temos tentado fazer desde que esta página surgiu, em setembro de 2008.

Tentamos escolher produções que tratem da questão da propriedade intelectual, da cultura remix, do software e hardware livre – e que, de preferência, não tenham sido passadas nas outras edições; mas vamos repetir “RIP – A Remix Manifesto” por já ser uma espécie de “clássico”, e também porque teremos a presença de Brett Gaylor, diretor do filme, falando por videoconferência.

Para o debate posterior em cada dia de ciclo, pensamos em pessoas que trabalham, discutem ou vivenciam intensamente este admirável mundo das tecnologias digitais e suas implicações sociais e políticas na vida cotidiana.

A abertura ocorre dia 12 de junho, às 19h, no Centro Cultural de Espanha, com a exibição de “¡Copiad, Malditos! – Copyright (or right the copy)” (2011, 58min), dirigido Stéphane M. Grueso – documentarista espanhol, diretor da Elegant Mobile Films e integrante do movimento 15M – em parceria com a RTVE, televisão pública da Espanha.

O filme é uma investigação sobre os direitos autorais no mundo digital tendo por base três perguntas simples: o que é propriedade intelectual? Até que ponto pode se possuir uma ideia? Que direitos se emanam dessa propriedade? Finalizado em 2011, “¡Copiad” foi o primeiro filme licenciado sob uma licença livre (Creative Commons – CC BY-NC) a passar na TV pública espanhola.

Em fevereiro deste ano, falamos do Copiad!, depois de ter visto Stéphane falar no Conexões Globais. Escrevemos o seguinte sobre os “extras” do filme – que, aliás, mais do que um filme, é um projeto multimídia completo, a começar pelo site:

Um capítulo a parte sobre o projeto são os “extras” que o blog traz. São três séries de vídeos que os produtores resolveram “deslocar” do documentario original e ampliar seu contexto. O primeiro são as íntegras das entrevistas realizadas, com gente de todos os lados: de Richard Stallman a Simone Bosé, representante da EMI Iberia, de Javier de La Cueva (um dos primeiros advogados a defender juridicamente o copyleft na Espanha) a Pilar Reyes, diretora editorial da Alfaguara, de Blás Garzon (da editora Traficante de Sueños, que editou o Manual do Copyleft) a Antonio Guaisasola, presidente da Promusicae (productores de música de España), dentre mais outros que falam no Doc. Todas as entrevistas podem ser baixadas, via Archive.org.

Outro extra presente no blog é uma espetacular compilação de respostas a singela pergunta: para você, o que significa a palavra “copiar”? As mais de 40 respostas curtas, algumas com menos de 30 segundos, foram retiradas das entrevistas realizadas para o filme e mostram o quanto as pessoas podem pensar diferente sobre uma coisa aparentemente simples.

Após e exibição do filme, o diretor Stéphane M. Grueso participará de um debate, por videoconferência, sobre produção audiovisual em cultura livre e as diferenças e semelhanças entre Brasil e Espanha nessa seara. Para conversar com o diretor espanhol e trazer experiências do lado brasileiro, estará Rafael Frazão, integrante da Casa da Cultura Digital, sócio da produtora Filmes para Bailar e um dos realizadores de “Remixofagia – Alegorias de uma Revolução”.

Outra novidade desta 3º edição do ciclo é a Feira do Compartilhamento. No último dia do evento, com a ajuda inestimável da comunidade Transparência Hacker (especialmente dos Pedros, Markun e Belasco, e do Tiago Cardieri) vamos promover uma feira de troca de arquivos, a partir das 16h até o encerramento da exibição e dos debates – nos moldes da que rolou no BaixoCentro (foto).

Uma estrutura montada com um HD externo, um roteador e um HUB com entradas USB facilitarão a troca de arquivos digitais presencialmente: basta levar seu HD, Notebook, pendrive e escolher o arquivo a compartilhar ou copiar. A intenção é poder reproduzir o ambiente de troca de arquivos comum na rede também presencialmente. Vale lembrar que todos os seis filmes exibidos no ciclo estarão disponíveis para compartilhar neste HD, que ficará com um dos facilitadores da feira.

Detalhamos os outros 3º dias de programação quando estivermos mais próximos deles. Confira aqui abaixo a programação completa:

Ciclo copy, right?

Exibição seguido de debates de filmes sobre cultura livre. Grátis (claro)

Abertura
12 de junho
19h – “¡Copiad, Malditos! (2011, 58 min)
“Produção audiovisual em cultura livre: Brasil X Espanha”
Stéphane M. Grueso (diretor do filme, videoconferência) e Rafael Frazão (Casa da Cultura Digital, Filmes para Bailar). Mediação: Leonardo Foletto (BaixaCultura, Casa da Cultura Digital, curador/produtor do ciclo).
Local: Centro Cultural de Espanha (Av. Angélica, 1091, Higienópolis – São Paulo).

16 de junho
16h30 – “Patent Absurdity” (2010, 28 minutos), “Arduíno: o documentário” (2011, 28 minutos).
“ Hardware & software livre: cultura e cidadania P2P”
Rodrigo Rodrigues (Garoa Hacker Clube, MetaMáquina) e Bernardo Gutierrez (Future Media, 15M Espanha).
Local: Matilha Cultural (Rua Rêgo Freitas, 542, República – São Paulo)

23 de junho
16h30 – “RIP: A Remix Manifesto” (2009, 86 min.)
Cultura remix, RIP & direito autoral: 2009-2012
Brett Gaylor (diretor do filme, videoconferência) e Pedro Markun (Casa da Cultura Digital, Esfera e Transparência Hacker). Local: Matilha Cultural (Rua Rêgo Freitas, 542, República – São Paulo)

26 de junho
19h – “Remixofagia – Alegorias de uma Revolução” (2011, 16 min) e “Ctrl-V – Video Control”, (2011, 53 min.)
“Produção e políticas públicas em cultura digital”
Rodrigo Savazoni (Casa da Cultura Digital, Festival CulturaDigital.br) e Leonardo Brant (Cultura e Mercado, Empreendedores Criativos).
Local: Centro Cultural de Espanha (Av. Angélica, 1091, Higienópolis – São Paulo).

Feira do Compartilhamento

26 de junho
16h até terminar o debate
Local: Centro Cultural de Espanha (Av. Angélica, 1091, Higienópolis – São Paulo).

Arduíno, o documentário do hardware livre, leve e solto

Um dos conceitos menos famosos da cultura livre é o chamado “open source hardware” ou “hardware livre“. Nesta visão, o princípio de que o código fonte do software de um componente eletrônico seja regido por uma licença aberta vale também para o próprio objeto físico, como o diagrama dos circuitos de um brinquedo ou de um liquidificador. Assim, é permitido o uso, alterações, distribuições, montagens e (re)venda para toda a comunidade.

Como um bom exemplo de open source hardware, “apresentamos”  o Arduíno, ou melhor, um documentário sobre o projeto que já é bastante comentado e experimentado na internet. Em 30 minutos, o filme conta o desenvolvimento da homônima placa de controle, projetada na Itália em 2005. Um grupo ligado ao finado Interaction Design Institute Ivrea, um centro de ensino e pesquisa em design de interação, decidiu produzir uma placa que reduzisse os custos dos alunos referentes ao aprendizado de hardware nas aulas. Começaram com as placas Wiring, um pouco mais complexas.

Para ajudar os estudantes, eles planejaram uma placa que tivesse uma linguagem de programação de fácil compreensão. A  programação aqui não é só a de programas que rodassem no hardware, mas a do próprio programa do hardware – o software embutido ou firmware, no caso. Para isso, resolveram mixar duas linguagens de código aberto, a Processing e a Wiring, para que comunidades interessadas dessem continuidade ao projeto, já que eles sabiam que o instituto estava fechando por causa da falta de intere$$e da financiadora, a Telecom Italia.

Se todos os direitos de utilização do projeto fossem da instituição – que ia morrer -, poderia haver restrições legais quanto à utilização do projeto. Felizmente, não foi o que aconteceu. Com o hardware e o software definidos e devidamente liberados para reutilizações, surgiram artistas, designers, e artesãos de todos os tipos que botaram a mão na massa e construíram instrumentos eletrônicos, pequenos robôs e máquinas interativas. Protótipos, em suma.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=sLVXmsbVwUs&w=420&h=315]

Hoje, segundo o site oficial, o Arduino é um mini computador que “pode sentir o estado do ambiente que o cerca por meio da recepção de sinais de sensores e pode interagir com os seus arredores, controlando luzes, motores e outros atuadores.” Para se ter uma ideia, no doc isso aparece no projeto dos chocalhos digitais, que espalhavam ‘confetes’ em uma projeção numa festa, ou também, no caso de motores, no projeto Makerbot, impressoras 3D que pegam um modelo de um objeto disponível na internet e imprimem esse objeto. Objetos abertos, usáveis e modificáveis por qualquer um.

Aí está a grande questão levantada pelo documentário. “O atual problema que há é que, devido aos sistemas de padronização e patenteamento, muitas pessoas ficaram sem a possibilidade de aprender como as coisas funcionam” diz  o engenheiro e pesquisador David Cuartielles. Fechamento, só para ficar na cultura digital, efetuado pelos que mais enriqueceram com caros sistemas operacionais e tecnologias móveis, como Bill Gates com o Window$ e o falecido Steve Jobs com os iPhones, iPad e assemelhados,  cujas modificações ainda estão ao alcance de poucas pessoas entendidas.

O open source hardware diminui essa diferença, facilitando o aprendizado da programação de circuitos eletrônicos que cercam as nossas atividades.  Tendo noções de como são efetuados os controles dos circuitos e das programações, não seremos facilmente ludibriados e podemos inovar. Um grande exemplo de incentivo ao aprendizado é que até o Google já criou um produto baseado no open source hardware do Arduino. O buscador lançou o conjunto “Android Open Accessory” do seu sistema operacional aberto de smartphones, o Android, para que os usuários desenvolvam acessórios controlados pelo celular ou tablet.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=l2SG2fnUL5I&w=420&h=315]

No Brasil, existem vários sites dedicados a plataforma como o Arduino.com.br, o Arduino Brasil, e o ArduinoRS. O blog Planeta Sustentável, do chapa Thiago Carrapatoso, lembra que um dos grupos que estuda o Arduíno é o Garoa Hacker Clube, um hackerspace que funciona no porão da Casa de Cultura Digital – se você estiver pelos idos da Barra Funda, em São Paulo, vale dar uma passada à noite no porão, e, sem cerimônia, pedir explicação sobre as traquitanas que ali habitam, especialmente sobre a já citada Makerbot. Melhor ainda se for nas quintas-feiras, quando o Garoa organiza a Noite do Arduíno, para ajudar o pessoal a iniciar na programação. Outro trabalho importante sobre o Arduíno por aqui é o do físico Radamés Silva, mostrado no programa Olhar Digital.

Arduíno – o documentário” foi lançado em janeiro de 2011, sendo encomendado pelo LABoral Centro de Arte y Creación Industrial, um outro instituto dedicado a promover a interseção de cultura digital, arte e industrias criativas localizado em Gijon, Espanha. A direção é de Rodrigo Calvo Eguren e Raúl Díez Alaejos, que fizeram grande parte das filmagens durante o encontro Arduino Uno Punto Zero, ocorrido em Nova York em 2010. Não foi lançado com legendas em português, mas encontramos uma tradução aqui, revisamos e acoplamos no vídeo que tu pode ver aí embaixo.

A plataforma só não é o “exemplo perfeito” [como se existisse algum] de código aberto por conta dos fabricantes expressarem a vontade do nome Arduíno ser de uso único deles, como diz na página de Questões Frequentemente Perguntadas: “‘Arduino’ is a trademark of Arduino team and should not be used for unofficial variant”. Por isso surgiram alguns “clones” citados na página da wikipedia do projeto. Existem ainda alternativas de placas controladoras, mostradas nessa apresentação. Contudo, é inegável a popularidade do projeto e sua força na divulgação do conhecimento livre.

 

Ps.: Outros exemplos legais da utilização do Arduíno, explicados por gente que entende bem de Engenharia Eletrônica, podem ser vistos aqui.

[Marcelo De Franceschi]