Campus Parte Final

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Eu prometi no post de sexta falar dos eventos dos dias finais da Campus Party 2009, especialmente do acalorado debate sobre a questão do futuro da internet no Brasil. Mas acontece que a canseira bateu, em todos os sentidos, e me senti obrigado a encarar dois dias sem internet para poder digerir melhor tudo aquilo que vi e ouvi pelo Imigrantes, até para fazer um balanço final da coisa toda.

Para começar: apesar dos pesares, não posso deixar de fazer um balanço mais positivo que negativo do evento. A programação da área Campus Blog, que acompanhei mais de perto, esteve na maior parte do tempo bastante interessante, com temas e convidados que tinham o que dizer sobre aquilo que estavam dizendo. Noutros momentos, não esteve tão boa, mas aí porque certos convidados – ou certos assuntos, ao meu ver – não renderam, o que é normal num evento de 5 dias com no mínimo 3 palestras a cada dia. Tudo bem que a superficialidade foi a tônica das palestras, mas creio que ninguém esperava muito mais que isso por ali.

Protestos no debate sobre a questão da Lei Azeredo
Protestos no debate sobre a questão da Lei Azeredo

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Sei que a maioria dos blogueiros que estava lá saiu reclamando de muitos problemas dessa edição, a começar pela presença gigantesca dos patrocinadores e pelas diversas falhas com a acústica de cada uma das áreas, já que falas de algumas áreas eram invadidas por outras com mais constância do que deveriam. Mas eu entendo que a maioria dos blogueiros é reclamona por demais, o que, afinal de contas, não é problema deles: simplesmente é muito mais fácil, para qualquer ser humano, apontar mais defeitos do que qualidades, descontinuidades do que continuidades.

A maioria dos problemas da #cparty, ao meu ver, decorreu do enorme tamanho que o evento adquiriu – muito maior do que a maioria dos presentes gostaria, é bem verdade, embora esses mesmos tenham adorado os diversos pontos positivos que só um evento dessa magnitude traz, a começar pela presença dos “notáveis” em sua programação. Se a segurança não foi 100% eficiente, já que a organização constou um notebook roubado, pode-se dizer que ela foi boa, porque, afinal de contas, um notebook roubado em meio a 4000 é uma média até aceitável num Brasil como o nosso. Se a acústica não foi boa, já que havia palestras simultâneas em 13 palcos muito próximos uns dos outros, como melhorar isso sem perder a liberdade de acesso de um palco a outro, e a interação inédita que isso proporcionava, que, penso eu, faz parte do espírito anárquico que permeia o evento?

Coelhinhas da Playboy, atrativos femininos para a nerdzada
Coelhinhas da Playboy, atrativos femininos para a nerdzada

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Disse Juca Kfouri, em uma entrevista no sábado, que este ano a Campus party estava muito “Salão do Automóvel” , algo que não foi ano passado,  sendo que ela não pode ser um Salão do Automóvel, principalmente pela natureza anárquica e nada hierárquica/ostentantiva que o evento tem como aspecto fundamental.

Acredito que um evento da magnitude da Campus Party 2009 só se diferenciará dum “Salão do Automóvel” quando houver uma participação genuinamente colaborativa entre seus participantes, e aí entra incluso a arrecadação para custear a coisa toda. Como isso é pouco provável – pelo evidente nível de organização que isso demandaria, e que ainda não estamos preparados para atingir –  a #cparty só continuará existindo  – e crescendo a cada ano – enquanto a parceria com as empresas privadas patrocinadoras do evento continuar existindo.

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Heresia dizer isso? Mas é verdade, sejamos sinceros. Porque hoje não há como montar uma estrutura daquele tamanho sem um dinheirinho bom das malvadas patrocinadoras do evento. E se a tendência do evento é crescer ainda mais nas próximas edições, é certo que teremos de lidar com ainda mais $$ das Telefonicas da vida.

Em tempo: O caderno Link, do Estadão, fez uma lista dos pontos positivos e negativos desta edição do evento. E também fez o seu balanço do evento, bem mais crítico do que o meu.

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Como esse post é para encerrar de vez o tema Campus Party, fiz uma seleção de vídeos que dão uma boa noção do que aconteceu no Imigrantes durante a semana passada:

1) Abertura,  com direito a discurso ufanista de Marcelo Branco, o organizador-chefe do evento;

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2) A Vingança dos Nerds; a manifestação da cambada nerd contra o show da banda Leme, capitaneada pelo rapper carioca De Leve, desde já um dos grandes momentos da Campus Party;

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3) Competição de robôs Lego, em vídeo feito pelo blog do IDG Now na Campus Party.

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4) Parte da Dança do Ventre que relatei no post Causos da Campus Party, por Luana Hazine, que foi ajudada pelo post, segundo comentário seu no mesmo.

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5) Debate sobre o substitutivo de lei proposto pelo senador Azeredo, no momento da explanação de José Henrique Portugal, representando o senador juntamente com o Desembargador mineiro Fernando Botelho, enquanto Sérgio Amadeu e Ronaldo Lemos, no lado esquerdo do vídeo, preparam seus argumentos para a réplica;

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6) Show de um grupo de Maracatú (penso eu) de Campinas, um dos momentos mais interessantes do evento por justamente não fazer parte do imaginário da maioria das pessoas que estavam por ali. A energia presente no momento foi algo inexplicável, bonito de se ver e sentir.

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7) A “dança das cadeiras” promovida pelos campuseiros na sexta à noite, totalmente sem sentido ou explicação. É aquela coisa: um resolveu fazer uma “ola”, outros foram atrás, e quando se vê….

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[Leonardo Foletto, enviado especial e conclusivo a São Paulo]

Créditos Fotos: 1 e 2,  Flickr de Tuca Hernandes; 3 e 4 do Flickr oficial do evento.

Um detentor de direitos autorais reivindicou o conteúdo de um de seus vídeos

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O título acima é o mesmo do email que recebi dias atrás. Em linguagem tão simples quanto ridícula, o nosso querido Youtube anunciava que “Um detentor de direitos autorais afirmou que possui parte ou todo o conteúdo de áudio do seu vídeo“. Como continuação, dizia: “Infelizmente a reprodução de seu vídeo foi bloqueada devido a problemas com os direitos das músicas“.

O vídeo em questão é Pare Olhe Escute, um curta que eu e mais dois amigos fizemos sobre nossas andanças em cima dos trens aqui da região de Santa Maria. Ao contrário do que dizem, ainda dá para ver ele lá no Youtube, só que o som inteiro foi desativado. O motivo do comunicado amável do site é que, na nossa trilha, tinha a música “Gallows Pole”, do Led Zeppelin, como também tinha “Biding my time“, do Pink Floyd e outras. Mas a justificativa da suspensão do som do vídeo recai sobre a música do Led.

Há uma boa dose de ironia nisso tudo. Vejamos: “Gallows Pole” é uma das muitas versões de The Maid Freed from the Gallows, uma velha e tradicional canção folk  que teve origem na Europa, não se sabe se na Finlândia, Noruega e ou Alemanha. Trazida para o inglês, ela se  popularizou em 1939, quando foi feita a primeira gravação em disco, pelo cantor folk  Huddie Ledbetter, mais conhecido como Leadbelly.

A música foi rebatizada como “Gallis Pole” e é um pouco diferente da do Led, principalmente na batida nervosa que Leadbelly dá em seu violão – dá para baixá-la aqui. O Led fez a sua versão em 1970, no Led Zeppelin III. No álbum, a música é creditada como “Tradicional: arranjos por Jimmy Page e Robert Plant“.

[O pior é ver ainda o Youtube escrever no email coisas do tipo: “Não se preocupe, temos muitas músicas disponíveis para você. Visite nossa biblioteca do AudioSwap para aprender como é fácil substituir o áudio de seu vídeo por qualquer faixa de nossa biblioteca de músicas totalmente licenciadas.”]

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Suspeito que a banda não tenha nada que ver com a coisa toda, e quem esteja por trás da iniciativa seja a gradavora do Led por meio da nossa velha conhecida RIAA. Aliás, taí uma incoerência das grandes: usar o Led Zeppelin como balizador no combate à pirataria na rede, sendo que a banda é um paradigma clássico de artistas que se aproveitaram de trechos – ou músicas inteiras – de outros e não se deram ao trabalho de dar o crédito. Se há dúvidas à respeito, olhe essa página e esclareça: de “Babe I’m Gonna Leave You” à “Dazed and Confused“, passando por “Wholla Lotta Love“, “Hey, Hey, What Can I Do” e “Communication Breakdown“, todas elas tem grande semelhanças com outras que nã o levaram os créditos. Aqui você pode escutar as versões originais de onde a banda chupou para fazer as suas.

[Leonardo Foletto]

A última piada do Monty Phyton

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Ainda lembro com carinho duma quilométrica greve que atravessei no tempo inicial da faculdade de jornalismo, tanto pela generosidade daquele tempo de ócio [que, tudo indica, jamais se repetirá] quanto porque foi no curso daquelas providenciais tardes que um velho amigo apareceu na casa em que eu morava imperativamente, assite isso. Considero O Sentido da Vida [ao lado de Peter Sellers em A Shot in the Dark] um dos muitos responsáveis por uma das muitas guinadas fundamentais de minha vida, que para não adentrar completamente o confessionário da ego-trip digo apenas que a menciono pra prestar a devida homenagem aos heróis que ora critico.

O Monty Phyton justifica assim sua decisão por criar um canal oficial no Youtube:

No more of those crap quality videos you’ve been posting. We’re giving you the real thing – HQ videos delivered straight from our vault. What’s more, we’re taking our most viewed clips and uploading brand new HQ versions. And what’s even more, we’re letting you see absolutely everything for free.
[Algo como “chega daqueles vídeos de merda que vocês têm postado. Estamos jogando a real pra vocês – Vídeos em alta definição tirados da nossa própria coleção. Mais do que isso, estamos disponibilizando em versão nova e de alta qualidade nossos clipes mais acessados. E mais ainda, estamos deixando que vocês assistam todas essas coisas de graça.“]

Gosto do grifo porque toca numa questão importante da cultura livre: a qualidade do que se compartilha. Pessoalmente acredito que a tecnologia é seu próprio remédio, e que não se enfrenta a má qualidade dos mp3 com discos de vinil, mas com formatos digitais de melhor qualidade. Mas imagine um futuro em que as mídias físicas tenham efetivamente desaparecido e só restem vídeos e arquivos de áudio com qualidade ruim – Caso desenvolvesse este raciocínio [do qual discordo], eu chegaria à conclusão de que acabaríamos todos nós menos sensíveis, nossos ouvidos embrutecidos pela falta de definição do que escutamos.

E discordo exatamente pelo grifado, pelo interesse que considero natural dos criadores de que o produto de seu trabalho alcance não apenas a maior quantidade possível de pessoas, mas o faça da melhor maneira possível. Só que se por um lado me empolgo ao ver um canal oficial do Monty Phyton no Youtube, por outro não consigo deixar de me incomodar com algumas coisas.

Por exemplo, com a suposta generosidade de me deixar assistir “todas essas coisas de graça“. Se tu clicar no link do canal e ler o texto na íntrega, vai ver que há no fim uma espertíssima contraproposta: ao invés dos meus comentários, o Monty Phyton quer que eu compense todos estes anos em que postei vídeos de má qualidade dos seus programas assistindo ao canal oficial e comprando os filmes e programas de TV.

Vários dos filmes do MP estão logo ali em minha estante, e se na próxima vez em que passar numa daquelas lojas de departamentos que vendem dvds e discos por módicos tostões eu encontrar um que nao tenha não hesitarei em comprá-lo. Mas não lembro de ver em nenhum dos filmes que tanto amo uma piada à altura desta: a de que a possibilidade de ver gratuitamente na internet tudo isso que comprei não vem da mídia em si, mas dos meus bondosos comediantes favoritos.

[Reuben da Cunha Rocha.]

As olheiras de Noah, ou CineYoutube (1)

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Acordo. Tropeço até a sala. Estão todos acordados. Finjo que não estou tonto. Volto pro quarto. Olho pro espelho. Ao invés das linhas da vida nas mãos, posso ver minha história nas olheiras no rosto do meu reflexo. Lembro de ter feito um comentário parecido quando minha namorada me apresentou o trabalho de Noah Kalina, o novaiorquino que aos 19 anos começou uma fotografia que hoje, aos 27, ainda não terminou.

Noah K. Everyday é o nome da obra em construção, registro digital do processo de envelhecimento do fotógrafo. Que é também meu e teu: é isso que penso quando reparo que quanto mais escrevo a respeito de Noah mais sua imagem se assemelha para mim à do próprio tempo, quem sabe o tempo seja isso, a medida da profundidade de nossas olheiras. É provável que o impacto que senti tenha vindo menos das fotografias e mais da velocidade que não esperava do meu próprio desgaste, e é por isso que sugiro que tu veja o primeiro dos vídeos disponibilizados por Noah, que organiza as fotografias dos primeiros 2356 dias [entre os anos 2000 e 2006] do projeto:

O próximo vídeo será lançado no aniversário de 10 anos do projeto, segundo o fotógrafo. Depois disso a idéia é disponibilizar um vídeo a cada cinco anos de trabalho, até acabar. Quando acaba? Quando Noah morrer, ora.

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Em tempo. Entenda que a coisa cresceu tanto que já rolou até paródia dos Simpsons.

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Ainda em tempo. Esta é a primeira de uma série de resenhas de vídeos de youtube, esse formato ainda pouco apreciado pela crítica cultural. E tal.

[Reuben da Cunha Rocha.]