Metareciclagem e o cyberpunk de chinelos

Em meados de fevereiro, num calor de exigir chinelos, bermudas e camisetas, conversei com Felipe Fonseca, mais conhecido nas redes por Efefe, na sala de convivência da Casa da Cultura Digital. A entrevista durou cerca de duas horas e versou principalmente sobre a Rede Metareciclagem, que, sucintamente, pode ser definida como “uma rede auto-organizada que propõe a desconstrução da tecnologia para a transformação social”.

É, ao lado da Transparência Hacker, do Fora do Eixo e dos Pontos de Cultura, uma das principais redes ligadas a cultura digital no Brasil. Iniciou em 2002, em São Paulo, tendo o foco em ações de apropriação de tecnologia de maneira descentralizada e aberta – não apenas “reciclar computadores”, como inicialmente se fazia e pensava, mas para promover a desconstrução e apropriação de tecnologias de todas as ordens e origens.

Depois de ganhar prêmios de Mídia e Software Livre e menções honrosas no Prix Ars Electronica (2006), hoje a comunidade conta com algumas dezenas (centenas?) de pessoas, espalhadas por todo os cantos do Brasil, que mantém uma lista de email constantemente atualizada com milhares de coisas que possam se conectar (ou não) com o assunto tecnologia, cultura digital e gambiarras diversas. [Neste vídeo do projeto Retalhos, Felipe fala um pouco mais da rede].

Gravei toda a entrevista em áudio, que, a pretexto de falar da Metareciclagem, circundou por assuntos como os laboratórios de cultura digital experimental – ele foi um dos curadores do laboratório experimental do Festival CulturaDigital.br (foto acima) – , a redelabs, o evento Mídia Tática 2003 (da qual falamos bastante por aqui), a estada de Fonseca em Barcelona, Porto Alegre (sua terra natal), Ubatuba (e o Ubalab) e outros assuntos que dizem respeito a este inquieto pesquisador.

Felipe agora está no mestrado no Labjor na Unicamp e tenta trazer suas pesquisas independentes para dentro da estrutura rígida da academia. Uma das iniciativas que ele está envolvido nessa seara é a parceria da Metareciclagem na organização da Conferência Internacional em Gestão Ambiental Colaborativa – o Cigac, a se realizar no interior da paraíba em junho (na imagem abaixo).

Ainda tou devendo transcrever a entrevista inteira. Mas o fato que me fez lembrar dessa entrevista foi que no próximo final de semana a Metareciclagem faz um Encontrão Hipertropical em Ubatuba, litoral de São Paulo, de 25 a 27 de maio. Os Encontrões de MetaReciclagem, como explica Felipe, “são principalmente momentos de reconhecimento da rede – as boas-vindas aos novos integrantes, a atualização sobre os diversos projetos em que estamos envolvidos, a realimentação e reinvenção dos nossos mitos fundadores e mantenedores”.

Eles estão a cata de grana para bancar esse encontro – que é feito de forma totalmente independente – e, para isso, fizeram uma “vaquinha” para tentar viabilizar algumas presenças em Ubatuba – você pode ajudar com qualquer quantia, via PagSeguro e PayPal (mais informações sobre como doar).

A metareciclagem

Enquanto a transcrição da entrevista não sai, resolvi republicar um texto de Efe que diz muito de suas pesquisas e ações dentro da metareciclagem e fora dela: Cyberpunk de chinelos.

A começar pela bela sacada do título, que descontrói e “abrasileira” a imagem que acostumamos a ver relacionada ao “cyberpunk” das ficções científicas, o texto trata da onipresença da tecnologia na vida global, passando pelo papel da arte em puxar a experimentação com as novas tecnologias digitais e destacando uma ideia que só se atualiza de alguns anos pra cá: “o Brasil não vai virar uma Europa, como o mais provável é que o mundo inteiro esteja se tornando um Brasil – simultaneamente desenvolvido, hiperconectado e precário“.

O texto é o que abre o primeiro livro de Efe, Laboratórios do Pós-Digital, lançado em 2011, uma coletânea de artigos escritos entre 2008 e 2010 que pode ser baixado, comprado e acessado de diversas maneiras – e que merece uma leitura atenta de todos que se interessam pelos assuntos abordados neste texto que encerra aqui.

[Leonardo Foletto]

Cyberpunk de Chinelos 

Felipe Fonseca (Fonte: Laboratório de Pós-Digital)

O mundo virou cyberpunk. Cada vez mais as pessoas fazem uso de dispositivos eletrônicos de registro e acesso às redes – câmeras, impressoras, computadores, celulares – e os utilizam para falar com parentes distantes, para trabalhar fora do escritório, para pesquisar a receita culinária excêntrica da semana ou a balada do próximo sábado. Telefones com GPS mudam a relação das pessoas com as ideias de localidade e espaço. Múltiplas infra-estruturas de rede estão disponíveis em cada vez mais localidades. Essa aceleração tecnológica não resolveu uma série de questões: conflito étnico/cultural e tensão social, risco de colapso ambiental e lixo por todo lugar, precariedade em vários aspectos da vida cotidiana, medo e insegurança em toda parte. Mas ainda assim embute um grande potencial de transformação.

O rumo da evolução da tecnologia de consumo até há alguns anos era óbvio – criar mercados, extrair o máximo possível de lucro e manter um ritmo auto-suficiente de crescimento a partir da exploração de inovação incremental, gerando mais demanda por produção e consumo. Em determinado momento, a mistura de competição e ganância causou um desequilíbrio nessa equação, e hoje existem possibilidades tecnológicas que podem ser usadas para a busca de autonomia, libertação e auto-organização – não por causa da indústria, mas pelo contrário, apesar dos interesses dela. As ruas acham seus próprios usos para as coisas, parafraseando William Gibson. Em algum sentido obscuro, as corporações de tecnologia se demonstraram muito mais inábeis do que sua contrapartida ficcional: perderam o controle que um dia imaginaram exercer.

O tipo de pensamento que deu substância ao movimento do software livre possibilitou que os propósitos dos fabricantes de diferentes dispositivos fossem desviados – roteadores de internet sem fio que viram servidores versáteis, computadores recondicionados que podem ser utilizados como terminais leves para montar redes, telefones celulares com wi-fi que permitem fazer ligações sem precisar usar os serviços da operadora. Um mundo com menos intermediários, ou pelo menos um mundo com intermediários mais inteligentes – como os sistemas colaborativos emergentes de mapeamento de tendências baseados na abstração estatística da cauda longa.

Por outro lado, existe também a reação. Governos de todo o mundo – desde os países obviamente autoritários como o Irã até algumas surpresas como a França – têm tentado restringir e censurar as redes informacionais. O espectro do grande irmão, do controle total, continua nos rondando, e se reforça com a sensação de insegurança estimulada pela grande mídia – a quem também interessa que as redes não sejam assim tão livres.

Nesse contexto, qual o papel da arte? Em especial no Brasil, qual vem a ser o papel da arte que supostamente deveria dialogar com as tecnologias – arte eletrônica, digital, em “novas” mídias? Vêem-se artistas reclamando e demandando espaço, consolidação funcional e formal, reconhecimento, infra-estrutura, formação de público. São demandas justas, mas nem chegam a passar perto de uma questão um pouco mais ampla – qual o papel dessa arte na sociedade? Essa “nova” classe artística tem alguma noção de qual é a sociedade com a qual se relaciona?

É recorrente uma certa projeção dos circuitos europeus de arte em novas mídias, como se quisessem transpor esses cenários para cá. Não levam em conta que todos esses circuitos foram construídos a partir do diálogo entre arte e os anseios, interesses e desejos de uma parte da população que é expressiva tanto em termos simbólicos como quantitativos. Se formos nos ater à definição objetiva, o Brasil não tem uma “classe média” como a europeia. O que geralmente identificamos com esse nome não tem tamanho para ser média. Aquela que seria a classe média em termos estatísticos não tem o mesmo acesso a educação e formação. É paradoxal que a “classe artística” demande que as instituições e governo invistam em formação de audiência, mas se posicione como alheia a essa formação, como se só pudesse se desenvolver no dia em que a “nova classe média” for suficientemente educada para conseguir entender a arte, e suficientemente próspera para consumi-la.

Muita gente não entendeu que não só o Brasil não vai virar uma Europa, como o mais provável é que o mundo inteiro esteja se tornando um Brasil – simultaneamente desenvolvido, hiperconectado e precário. Não entendeu que o Brasil é uma nação cyberpunk de chinelos: passamos mais tempo online do que as pessoas de qualquer outro país; desenvolvemos uma grande habilidade no uso de ferramentas sociais online; temos computadores em doze prestações no hipermercado, lanhouses em cada esquina e celulares com bluetooth a preços acessíveis, o que transforma fundamentalmente o cotidiano de uma grande parcela da população – a tal “nova classe média”. Grande parte dessas pessoas não tem um vasto repertório intelectual no sentido tradicional, mas (ou justamente por isso) em nível de apropriação concreta de novas tecnologias estão muito à frente da elite “letrada”.

Para desenvolver ao máximo o potencial que essa habilidade espontânea de apropriação de tecnologias oferece, precisamos de subsídios para desenvolver consciência crítica. Para isso, o mundo da arte pode oferecer sua capacidade de abrangência conceitual, questionamento e síntese. Vendo dessa forma, as pessoas precisam da arte. Mas a arte precisa saber (e querer) responder à altura. Precisa estar disposta a sujar os pés, misturar-se, sentir cheiro de gente e construir diálogo. Ensinar e aprender ao mesmo tempo. Será que alguém ainda acredita nessas coisas simples e fundamentais?

Créditos fotos: Alosyio Araripe e Bruno Fernandes.

Confissões de um plagiador, por William Gibson

Escritor de no mínimo nove livros de ficção, pai do ciberespaço e do steampunk, tuiteiro, William Gibson contribuiu para uma reportagem de capa da revista Wired (de novo ela) em 2005. A matéria “Remix Planet” versava sobre o estado das recombinações até então, seja na literatura de Gibson, na música do Gorillaz, no cinema de Tarantino ou em outras diversas áreas que sempre tiveram referências explícitas e implícitas em outras obras.  Em seu texto, o autor conta um pouco da influência que teve de outro William escritor, o beat Burroughs, e de sua visão da cultura remix. Novamente, não foi um texto fácil de se passar para o português, portanto se algum estudioso da obra dele aparecer por aqui, como a Adriana Amaral ou o Fábio Fernandes, por favor nos corrijam. É ano de copa, e mais grave ainda mês de copa, então estamos numa fase atribulada. A rica reportagem também trazia um gráfico mui interessante sobre a história do remix no século XX, conferível logo depois da tradução. Apreciem que mais coisa da revista vem por aí.

Confissões de um artista plagiador

Quando eu tinha 13 anos, em 1961, eu secretamente adquiri uma antologia da Geração Beat – pressentindo, corretamente, que minha mãe não iria aprovar.

Imediatamente, e para minha grande excitação, eu descobri Allen Ginsberg, Jack Kerouac, e um William S. Burroughs – autor de alguma coisa chamada Almoço Nu, extraído ali com todo o seu brilhantismo cintilante.

Burroughs era então como um literato radical tal como o mundo tinha para oferecer, e na minha opinião, ele ainda detém o título. Nada, em toda a minha experiência de literatura até então, foi tão marcante para mim, e nada jamais teve um efeito tão forte sobre o meu senso das íngremes possibilidades da escrita.

Mais tarde, tentando entender esse impacto, descobri que Burroughs havia incorporado fragmentos de textos de outros escritores em seu trabalho, uma ação que eu sabia que meus professores teriam chamado plágio. Alguns destes empréstimos foram furtados da ficção científica americana dos anos 40 e 50, adicionando um choque secundário de reconhecimento para mim.

Até então eu sabia que este “método cut-up”, como Burroughs chamava, era central para o que seja que ele pensou que estava fazendo, e que literalmente acreditava que fosse semelhante à magica. Quando ele escreveu sobre o seu processo, os cabelos do meu pescoço se levantaram, tão palpável foi a emoção. Experimentos com fita de áudio inspiraram-no de uma maneira similar: “brinquedinho de Deus” foi como seu amigo Brion Gysin chamou o toca-fitas deles.

Sampling. Burroughs estava interrogando o universo com uma tesoura e um pote de cola, e a mínima imitação de outros autores não era considerada plágio.

Uns 20 anos depois, quando nossos caminhos finalmente se cruzaram, eu perguntei à Burroughs se ele ainda estava escrevendo em um computador. “Para que eu ia querer um computador?” perguntou ele, com evidente desgosto. “Eu tenho uma máquina de escrever.”

Mas eu já sabia que um processador de texto era outro dos brinquedinhos de Deus, e que a tesoura e o pote de cola estavam sempre lá para mim, no desktop do meu Apple IIc. Os métodos de Burroughs, que também funcionaram para Picasso, Duchamp e Godard, foram construídos para a tecnologia através da qual eu agora componho minhas próprias narrativas. Tudo o que eu escrevi, acreditava instintivamente, era uma extensa colagem. Finalmente o significado parecia uma questão de dados adjacentes.

Depois, explorando possibilidades do (assim chamado) ciberespaço, eu preenchi minhas narrativas com referências a um ou outro tipo de colagem: o AI em Count Zero [romance de Gibson, publicado em 1986, traduzido para o Brasil com o mesmo título] que emula Joseph Cornell, o ambiente de assembléia construído sobre a Ponte da Baía em Virtual Light [outro romance de Gibson, publicado em 1993, sem tradução para o português].

Enquanto isso, no início dos anos 70 na Jamaica, King Tubby e Lee “Scratch” Perry, grandes visionários, foram desconstruindo a música gravada. Usando um espantosamente primitivo hardware pré-digital, eles criaram o que chamaram de versões. A natureza recombinante dos seus meios de produção rapidamente se espalhou para DJs em Nova York e Londres.

Nossa cultura não se importa mais em usar as palavras como apropriação ou empréstimo para descrever estas muitas atividades. A audiência de hoje não está escutando tudo; está participando. Na verdade, audiência é um termo tão antigo como gravação, um arcaicamente passivo, outro arcaicamente físico. A gravação, e não o remix, é a anomalia hoje. O remix é a verdadeira natureza do digital.

Hoje, um processo interminável, recombinante e fundamentalmente social gera horas incontáveis de produto criativo (um outro termo antigo?). Dizer que isso representa uma ameaça para a indústria fonográfica é simplesmente cômico. A indústria do disco, embora não saiba ainda, tem seguido o caminho da gravação. Em vez disso, o recombinante (o bootleg, o remix, o mash-up) se tornou a característica central na virada dos nossos dois séculos.

Vivemos em um momento peculiar, em que o registro (um objeto) e a recombinação (um processo) ainda, embora brevemente, coexistem. Mas parece haver poucas dúvidas quanto à direção que as coisas estão indo. A recombinação é manifestada em formas tão diversas como a graphic novel de Alan Moore, A Liga Extraordinária, machinimas [imagens de games editadas como se fossem um filme] geradas com mecanismos de jogo (Quake, Doom, Halo), toda a biblioteca metastasiada de remixes do Grito de Dean, distorção de gênero fan fiction dos universos de Star Trek ou Buffy ou (mais satisfatório, de longe), ambos de uma vez, a Edição Fantasma sem JarJar Binks (som de uma audiência votando com seus dedos), tênis esportivos híbridos de marcas, felizmente transgressores de logotipo de salto em distância, e produtos como as figuras Kubrick, colecionáveis do Japão que são astutamente mascarados como desalmadas unidades corporativas, resgatados do anonimato através da aplicação de uma cuidadosa e agressiva pintura “customizada”.

Nós raramente legislamos sobre novas tecnologias que nascem. Elas surgem, e nós mergulhamos com elas em quaisquer vórtices de mudança que elas gerem. Nós legislamos após o fato, em um jogo perpétuo de pega-pega, tanto melhor quanto podemos, enquanto nossas novas tecnologias nos redefinem – tão certamente e talvez tão terrível como temos sido redefinidos pela televisão.

“Quem é o dono das palavras?” perguntou uma desencarnada mas muito persistente voz durante a maior parte da obra de Burroughs. Quem é o dono delas agora? Quem é dono da música e do resto da nossa cultura? Nós somos. Todos nós.

Embora nem todos saibamos disso – ainda.

O mais recente romance de William Gibson é Reconhecimento de Padrões [edição brasileira pela Aleph, tradução de Fábio Fernandes].

Fontes das imagens: foto, capa da revista.

[Marcelo De Franceschi]