BaixoCentro (ou as ruas são para dançar)

Nos últimos dias, quem nos acompanha via Twitter e Facebook deve ter visto falarmos do BaixoCentro. Aos que não entenderam do que se trata, mais detalhes aqui abaixo nesse post, a começar pelo teaser abaixo:

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O BaixoCentro é um festival (ou um movimento cultural, uma série de eventos, um fórum; escolha um nome e seja feliz) que vai iniciar em março de 2012, em São Paulo, na região central de São Paulo que convencionou-se chamar de Baixo Centro e que corresponde aos bairros Santa Cecília, Vila Buarque, Campos Elísios, Barra Funda.

Pretende reunir atividades culturais, artísticas, políticas e autorreguladas que vão desde a teatro de rua, piquenique no Largo do Arouche (ao lado do Minhocão, o epicentro desse Baixo Centro), saída fotográfica pelas vielas cinzentas do Minhocão (o viaduto por cima da Av. São João construído por Paulo Maluf em 1970 e, desde então, principal motivo da decadência social da região central), entre outras atividades listadas nesse post do site, além do carrinho multimídia, que será o carro-chefe-guia das atividades.

Nasceu da ebulição de um monte de gente criativa e de tantos fatores subjetivos que é até difícil de listar aqui. Mas tentaremos, trazendo três “eixos” originários da ideia. O primeiro é relacionado a Casa da Cultura Digital, um coletivo de pessoas (físicas e jurídicas) que de alguma forma trabalham com cultura (comunicação? política?) digital, alocados desde 2009 em quatro casas de uma vila operária italiana construída no início do século 20, na Barra Funda, em São Paulo.

[Quer captar um pouco do que é a Casa? Veja esse vídeo ]

Desde fins do ano passado, surgiu, entre algumas mais de 40 pessoas que trabalham lá ou volte e meia pintam para dar um alô ou participar de alguma atividade, uma vontade de produzir cultura na própria casa: torná-la um espaço cultural, não apenas um local de trabalho ou de produção (cultural, social, política) para outros locais.

Assim foi criado o “Núcleo de Cultura” dentro da Casa. Informalmente, ele se constituiu a partir do Samba na Casa do Gato, uma festa (que teve, por enquanto, três quatro edições) em que usava o belo jardim da vila para reunir pessoas em torno de um sambinha/chorinho e comes & bebes, a fim de tornar as tardes de domingo mais singelas. O relativo sucesso das três quatro edições fez com que o núcleo começasse a dialogar de forma mais efetiva com a vizinhança, na semi-degradada região da Barra Funda, na busca de parcerias para outros sambas, festas, projetos e produtos. E foi daí que surgiu a primeira menção ao nome BaixoCentro, no vídeo abaixo, que traz o outro “eixo” da discussão: a geografia.

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Como o próprio nome diz, a ideia do Baixo Centro está muito ligada as características do local que nomeia.

Aos que não conhecem (até porque a nomenclatura é informal, não oficial), o Baixo Centro é um amontoado de bairros que se avizinha ao centro velho (Anhangabaú, Sé, República), onde São Paulo nasceu, e também à região da Luz, ao norte, mais conhecida nos noticiários por conta da “Cracolândia”, mas que também abriga a Estação da Luz, a Pinacoteca do Estado e a Sala São Paulo – esta, a uma quadra do pico da cracolândia, num exemplo bizarro da convivência de suntuosidade e degradação que muito caracteriza São Paulo.

É uma região que, hoje, parece deveras degradada – e realmente é. A construção do Minhocão no governo militar, pelo então prefeito Paulo Maluf, colocou sombras, lixo e descuido no que era um dos locais mais belos de São Paulo. A pretexto de criar uma via rápida de ligação do centro a região oeste da cidade, construiu-se uma bizarra estrada em cima de avenidas e ruas, mal respeitando o limite mínimo de distância da janela dos prédios para essa via – em alguns casos, a distância é de apenas 5 metros. Além de ignorar todos os manuais de bons modos da arquitetura, o que, previsivelmente, acabou por desvalorizar (não só em questões de $$, mas socialmente) a região nos anos seguintes, trazendo um mórbido cinza-lixo ao que antes era uma viva região do centro.

Por tudo o que o Minhocão representa (transporte individual, carros, cinza, concreto, etc), ele acabou sendo adotado como uma espécie de “símbolo” do pior de São Paulo. E, com sua feiura, acabou por contagiar seu entorno – os bairros de Santa Cecília, Vila Buarque, Barra Funda, Campos Elísios, Bela Vista.

[O Teatro Paiol, localizado na rua Amaral Gurgel embaixo do Minhocão, foi um desses afetados pela construção do elevado. Inaugurado em 1969 pelo casal Perry Salles e Miriam Mehler, o teatro foi palco disputado em São Paulo em seus primeiros anos, até que a degradação da região acabou por afastar público (e investidores) do teatro, já na década de 1970. O teatro ainda resistiu nos anos 1980, mas fechou nos 1990 e esteve até poucos anos atrás ameaçado de ir abaixo por conta da construção de um (adivinhe) estacionamento. Teria sido espaço para mais carros no centro de SP se não fosse uma retomada de um de seus donos, que não quis vender o prédio e quer reformá-lo. O que ele tem a ver com o BaixoCentro? Em 2010, houve uma articulação de pessoas para fazer alguma coisa para que o teatro não fosse destruído – algumas delas, meses depois, acabariam envolvidas no BaixoCentro, assim como o próprio local é um dos mapeados para o movimento].

Minhocão aos domingos e feriados

Mas eis que, com o tempo, a obra horrorosa (alguns apontam como a mais feia da história) passou a ganhar iniciativas de subversão dessa imagem. Grafites, pinturas e atividades culturais passaram a adotar, de birra, os muros e os entornos do viaduto como os seus locais. Ir ao Minhocão nos domingos e feriados, quando ele é fechado para carros, passou a ser programa de muitos paulistanos, que passaram a usar o asfalto como terreno de corridas, passeios de bicicletas, uma simples caminhada ou até mesmo como cenários de belos vídeos – como esses do La Blogoteqhe com Thiago Petit – e de filmes conhecidos, tais como “Ensaio sobre a Cegueira“, adaptação de Fernando Meirelles da obra de Saramago, e “Não por Acaso“, de Philippe Barcinski.

É um pouco nessa “reavaliação” do Minhocão que visa se inserir o BaixoCentro. Tornar um lugar degradado novamente divertido de se conviver, de se fazer arte, de encontrar pessoas e grupos. Algo que tá explícito num trecho do manifesto do BaixoCentro:

Acreditamos que as pessoas possam de fato interagir. Interagir com as ruas, seus vizinhos, os espaços que habitam e transitam. Vivemos nesse ritmo frenético e sem confiança. Simplesmente passando… Nosso potencial humano de convivência, desenvolvimento e transformação embotados, ditados pelo tiritar de um tempo alheio ao bem-viver, numa ambientação mercadológica.

Com uma ânsia mais que premente, apostamos em mudar o rumo dessa história. Queremos com a força dos cidadãos, dos coletivos de arte, dos espaços políticos e humanos no sentido Lato da palavra, de todos que buscam por uma nova forma de relação cotidiana, iniciar este movimento que por hora chamamos BaixoCentro e que pretende adaptar-se em outras formações e centros.

Porque muita gente mora nesse espaço geográfico. Porque podemos a partir daqui ser uma mola propulsora das expressões populares nos espaços públicos e para que nossas ruas possam se transformar em palcos, de todos, todos os sonhos de todos.

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Mapa do BaixoCentro

O outro “eixo” que agrega a criação do BaixoCentro diz respeito ao www.producaocultural.org.br, um senhor projeto de entrevistas com produtores culturais brasileiros que foi lançado ano passado. Especialmente Lucas Pretti, um dos catalisadores do BaixoCentro, envolveu-se bastante nas entrevistas do projeto e se viu muito provocado pelas diversas falas sobre cultura (e produção de cultura) dos entrevistados, gente conhecida como Moraes Moreira, Luis Carlos Barreto, Nelson Motta, Inezita Barroso e outros que tu deveria conhecer, como Rui do Carmo, Diva Pacheco, Carlos Dowling, Paulo Henriques Britto e Tânia Rösing (clica aqui e escolha o que ver entre os 90 vídeos realizados ou aqui para baixar os cinco livros produzidos).

A partir do mergulho na produção cultural brasileira que foi o projeto (que, aliás, deve continuar nos próximos meses; em breve mais infos), surgiu a natural vontade de fazer mais cultura. Foi aí que a geografia do centro, o Minhocão, o Teatro Paiol, a Casa da Cultura Digital e seu núcleo de cultura, os Provos de Amsterdam (aqueles mesmos dos quais falamos), a cultura digital, as bicicletas, o teatro, o grafite, a dança, o ato de repensar as formas de socializar numa metrópole parece que feita para carros, e até mesmo os movimentos Ocupe Wall Street e da Primavera Árabe, se reuniram numa liga autônoma temporária (para citar Hakim Bey, também influência) para dar vida ao BaixoCentro. As ruas são para dançar.

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Desde quarta-feira passada, o BaixoCentro entrou no Catarse.me, a principal plataforma de crowdfunding no Brasil, para captar o valor necessário a sua realização. O período para doação/arrecadação vai até 18 de janeiro de 2012, daqui a pouco mais de dois meses.

Alguns podem até achar o valor exagerado, mas a planilha está aberta para tu conferir e, caso queira, contestar. O fato é que, para realizar de forma profissional e remunerando (mesmo que abaixo da média) as pessoas responsáveis (diríamos “catalisadoras” da coisa toda), é necessário grana.

Mas não só, claro: se você pode doar um projetor, por exemplo, o BaixoCentro aceita, e assim ele sairá do orçamento total. A ideia é, além de juntar $$, viabilizar ideias, produtos, serviços e presenças para que a coisa se realize. Quem sabe assim possamos dar um passo adiante para, realmente, compartilhar (do) espaço público.

[Se você quiser participar mais ativamente, só chegar no grupo do Facebook ou entrar na lista de e-mails da organização do movimento]

Créditos fotos: minhocã01, minhocão2.

O comercial e a propagação do Occupy Wall Street

Completados pouco mais de um mês dos protestos que começaram dia 17 de setembro, o movimento Occupy Wall Street – cuja versão em São Paulo sequer foi noticiada na TV – usou de uma nova estratégia para divulgar a causa. Dia 12 de outubro foi publicado no youtube uma propaganda de 30 segundos com depoimentos de diversos manifestantes. A intenção era veicular o vídeo em TVs por assinatura por meio do Google TV Ads, a plataforma digital para divulgação e mensuração de anúncios na TV. Depois de ter sido produzido pelo diretor  David Sauvage e pelo compositor Glenn Grossman, eram necessários 5 mil dólares para a veiculação, que foram arrecadados através de uma campanha no site de crowdsourcing LoudSauce. Conseguiram US$ 6,278.

Abaixo tu pode ver o resultado que foi ao ar, legendado por nós:

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Apesar dos rumores de dispersão, Occupy Wall Street ganha força no mundo inteiro. Especialmente a partir das manifestações do Global Change, em 15 de outubro, o movimento passou a ser internacional – muitas destas manifestações estão sendo mapeadas e documentadas no site Occupy Together, onde tu pode baixar de grátis o cartaz acima e mais outros tantos disponíveis. A cada semana colaboradores (entidades, organizações, pensadores) de peso se juntam, alastrando o lema “ocupar” para milhares de lugares e causas.

Por exemplo: em Nova York, foi lançado em 20 de outubro o Occupy Museums, que conclama o público a confrontar as regras de “um sistema de arte hierárquico, baseado na falsa escassez e na propaganda”, que visa apenas “o ganho monetário da elite das elites”, como nos conta Giselle Beiguelman, em relato especial para a revista Select. A manifestação dos artistas dos EUA segue na linha de uma dos escritores e aparece quase simultaneamente ao anúncio da convocação da #RobinHood Global March pelos ativistas do Ad Busters para o dia 29 de outubro, véspera do encontro do G20 em Paris.

[A taxa Robin Hood é uma bem humorada (mas ao mesmo tempo muito séria) proposta de taxa que pretende recolher 1% de toda e qualquer transação financeira e monetária para ser aplicado em um fundo e destinado a programas sociais e iniciativas de proteção ambiental.]

No Brasil, 15 de outubro foi a data inicial de diversos protestos/acampamentos em apoio ao Occupy Wall Street e contra a um sistema econômico/político que, definitivamente, não nos representa. Alguns dos mais salientes acampamentos são os de São Paulo e o do Rio de Janeiro; o #ocupario já tem um vídeo de apresentação/convocação:

Enquanto que o #acampasampa, localizado no Vale do Anhangabaú, extremo centro da cidade, já teve participação do rapper de brasília GOG, tem comunidade no Facebook, e, pelo que nos informa a antropóloga hacker Gabriella Coleman, está sendo observado/intimidado por um verdadeiro exército de PM, como mostra a foto abaixo, feita hoje (segunda, 24 de outubro). [NE: Fomos ao #acampasampa na quarta-feira dia 26 e conversamos com os acampados, que nos esclareceram que esta foto diz respeito a uma formatura de PMs, tradicionalmente realizada no vale. Dizem que os formandos foram até parceiros com o #acampasampa. Nada de intimidação, portanto.]

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Por fim, citamos em especial aqui dois discursos em Wall Street que correram as redes e listas mundo afora nas últimas semanas: o de Slavoj Zizek, o prolífico filósofo que, felizmente, teve sua visita ao parque Zucotti registrado em vídeo:

E o de Naomi Klein, uma das principais intelectuais e militantes anticapitalistas do planeta, autora de No Logo, uma crítica das multinacionais e do seu uso do trabalho escravo, e  A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre. Idelber Avelar, da Revista Fórum, traduziu o discurso e publicou no site da revista. Republicamos aqui abaixo, na íntegra, porque é uma leitura bonita e importante para entender toda essa chacoalhada planetária que já está tornado esse 2011 um ano histórico para a história recente:

Eu amo vocês.

E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.

Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.

Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo.

Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.

Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.

Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos anti-globalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.

O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.

Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.

Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.

Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.

Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.

Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.

Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.

Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.

A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.

A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.

Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.

É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.

Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:
Nossas roupas.
Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.
Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.
E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:
Nossa coragem.
Nossa bússola moral.
Como tratamos uns aos outros.

Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.

Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.

Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ele é. De verdade, ele é. Mesmo.

Crédito da foto: 1, 2, 3.

[Marcelo De Franceschi. Leonardo Foletto]