É tempo de compartir

No primeiro sábado do BaixoCentro rolou o Piquenique do Compartilhamento com a ilustre presença do Ônibus Hacker, como falamos aqui na semana passada.

Enquanto o DJ Tutu Moraes saía da Praça Roosevelt e se dirigia ao Largo do Arouche com seu cortejo Santo de Rua, o Arouche foi o espaço para todos levaram seus notebooks, Hds e pendrives para compartilhar arquivos, seja filmes, músicas ou qualquer aplicativo. A ideia era fazer uma grande feira de troca de arquivos digitais. Tudo pelo compartilhamento!

Para primeira vez, foi um experimento deveras interessante. Em épocas de acirramento do debate da questão dos direitos autorais na rede, e de uma internet cada vez mais política, não deixa de ser um ato político trocar arquivos em plena praça pública; é naturalizar offline uma prática natural on-line.

E aqui política entendida não no sentido de representação institucional, mas de construção coletiva do presente e futuro comuns – o que o BaixoCentro como um todo tem feito muito bem até aqui, nestes 5 dias de atividades que tomaram de assalto as ruas de um (baixo) centro esquecido das políticas públicas governamentais.

[Desculpa aí a falta de isenção em analisar uma coisa da qual fazemos parte. Nunca dissemos que fazemos jornalismo, quanto mais “jornalismo isento”].

No Piquenique, as pessoas presentes no Arouche puderam assistir as bandas EletroUrbana e Os Augustos, trocar comes e bebes e acessar a internet livremente por meio de um hub de modems 3G criado pelo pessoal do Busão Hacker. Pedro Markun, da Transparência Hacker, capitaneou a criação do modem, que pegou uma rede surpreendentemente rápida. 

Outro destaque foi o a Rádio Livre do Busão Hacker. O pessoal tem uma antena ao melhor estilo gambiarra, que é colocada no alto de uma taquara tosca apoiada no ônibus. O sinal captado na antena vai para um transmissor (hardware livre) comprado  junto a Lorena Bravo, do projeto Palabra Radio, que esteve no Festival da Cultura Digital ano passado, no Rio (na foto mais abaixo, Loreta dá oficina no evento). De lá sai os cabos para ligar numa mesa de som, que por sua vez é plugada a um computador, que comanda a programação com o que bem entender.

A escolha da frequência a ser usada é ainda anterior a montagem da estrutura da rádio: basta pegar um aparelho de rádio e testar uma frequência que não esteja sendo usada – de preferência longe de alguma rádio tradicional, para evitar problemas. A usada no sábado foi a FM 105.9, que pegou num raio de 5Km à região, talvez um pouco menos, porque no Arouche tem muitos prédios e a antena não estava na altura destes.

Loreta Bravo e o projeto Palabra Radio, de onde veio o transmissor da Rádio do Ônibus Hacker

A ideia é que a feira/piquenique ganhe outras edições, talvez com uma periodicidade fixa; todos os que ali estiveram gostaram da atividade. Para continuar, é necessário algumas melhorias na estrutura, a começar pela troca de arquivos: os USBs 2.0 que usamos demoram demais para passar os arquivos, o que atrasou o processo e formou uma fila de pessoas esperando a sua vez.

Alternativas a isso não faltam: desde usar USB 3.0, mais rápidos, ou usar mais computadores (e HDs compatíveis a todos, não só os fechados da Apple) até criar um servidor próprio para cada edição da feira/piquenique, de modo que todos possam subir seus arquivos para esse servidor e de lá baixar os arquivos de maneira independente. Há a ideia de aperfeiçoar o modem-hub 3G e torná-lo uma Pirate Box, como falamos na semana passada.

E, no fim, surgiu também a possibilidade de criar uma espécie de “máquina de troca”. Funcionaria aos moldes de uma máquina de refrigerante: você deixa um computador com HD gigante, constrói uma interface externa com diversos USBs e um monitor grande, e pronto: a pessoa escolhe o arquivo a pegar como quem escolhe entre coca e sprite numa máquina. Quem sabe num futuro próximo não montamos uma dessas e deixamos nu lugar fixo, tipo na Casa da Cultura Digital?

[Felipe Fonseca, nos comentários, diz que essa máquina já existe: é a Burn Station, “a mobile copying station which – as it travels through suburban spaces – supports the free distribution music and audio. It is software as well as a local network”.
Também via comentários: a máquina que o Pedro se referia é essa aqui, linda também.]

Veja mais fotos da montagem e do andamento do Piquenique no sábado, e de algumas outras atividades do #baixocentro.

Ônibus Hacker estacionado no Largo do Arouche, ao lado do Mercado das Flores.

Troca de arquivos rolando
Pedro Belasco, o comandante/locutor da rádio Busão Hacker.
Arouche começando a lotar
Enquanto isso, o cortejo do Santo Forte arrastava mais de 1500 pessoas pelas ruas e se preparava para chegar no Arouche.
Chegou, ficou mais ou menos por uma hora, até que a chuva dispersou todos.

Mais fotos do BaixoCentro aqui.

 
Créditos fotos: 1 (Lucas Bonetti Octeto), 2, 4, 5, 6, 7, 8 (Kelli Garcia) , 3 Palabra Radio (Bruno Fernandes), 9, 10, 11 (Pedro Belasco/Busão Hacker), 12 (Casa fora do eixo), 13 e 14 (Fer Lingabue)

Piquenique do compartilhamento no BaixoCentro

O BaixoCentro está com todas as garras para começar nesta próxima sexta-feira, 23 de março, em diversos pontos do centro de São Paulo. A programação completa pode ser conferida neste mapa-site, com filtros por dias e por tipo de atividade (música, teatro, oficina, performance, etc); o festival vai até 1 de abril com atrações todos os dias.

É por conta da correria do #baixocentro que esta página, apoiadora assídua e sem vergonha do festival/movimento que tem como slogan o provoniano As ruas são para dançar, está um pouco devagar por estes tempos.

Mas sábado, dentro da programação do BaixoCentro, vai ocorrer um evento que tem tudo a ver com a cultura livre que sempre defendemos aqui: o “Piquenique do Compartilhamento” – ou “Sharing Picnic”, como Lucas Pretti, um dos articuladores/produtores do BaixoCentro, gosta de chamar, sem tantas sílabas. O piquenique vai ser uma grande celebração a cultura livre no Largo do Arouche, a partir das 13h. A ideia é que todos tragam comidas, bebidas e e seus HDs cheios de mídia (filmes, músicas, livros, etc) para uma tarde agradável de compartilhamento no Arouche, em pleno centro de São Paulo.

Lá, algumas tomadas, mesas, HDs e notes (como o deste que vos fala) estarão para auxiliar o sharing de arquivos & ideias. O Ônibus Hacker, comandado pela comunidade Transparência Hacker, vai estar estacionado ali para oferecer oficinas relacionadas ao tema (a de como fazer um torrent tá agendada) e ajudar na função toda. À tardinha, o DJ Tutu Moraes vai trazer sua festa Santo Forte para ocupar as ruas do centro em um cortejo que sai da Praça Roosevelt (saída às 16h, concentração às 15h) e chega no Arouche para encerrar o Piquenique.

“Meia-noite, em frente ao Largo do Arouche…”

O piquenique nasceu de uma ideia que há muito as pessoas que visitam e fazem esta página tem: a de uma feira de compartilhamento, que pudesse reproduzir o ambiente de troca de arquivos tão comum na rede também presencialmente. Por uma série de coisas a ideia nunca saiu do papel – até ser apresentada no BaixoCentro e ganhar a forma de um piquenique.

Em conversas com a Transparência Hacker, surgiu a ideia de fazer uma espécie de ‘reverse dead-drop’, um buraco USB onde você pluga seu pendrive e o sistema automaticamente troca todo o conteúdo dele por algum conteúdo randômico no HD de 1TB.  A ideia era tu colocar um pen-drive de 1gb e ele trocar 1gb de arquivo… e por aí vai.

Outra ideia levantada nas listas e corredores da Casa da Cultura Digital é fazer algo como a Pirate Box (acima), uma caixinha-hub wireless e que fornece rede (anônima) para todos nas proximidades compartilhar tudo que tem direito sem ter problema com a polícia do copyright.

Quem sabe estes projetos todos não saíam do papel neste final de semana com o apoio da galera do ônibus hacker?  Se estiver em São Paulo, apareça lá no Largo do Arouche no sábado 24 de março e veja o que rolou.

Créditos Fotos: 1 (arouche) 2 (piratebox).

Construa a programação do Festival BaixoCentro

Em novembro de 2011, fizemos um longo post que contava a até ali breve história do BaixoCentro, um movimento/festival de ocupação civil que pretende fissurar, hackear e disputar as ruas do centro de São Paulo.

Passados quase 4 meses, muita coisa aconteceu: o BaixoCentro não completou a captação do valor necessário no Catarse, mas ganhou 385 colaboradores e uma rede grande de articulações, além de contar com 461 no grupo do movimento/festival no Facebook e 122 na lista de e-mails, diretamente ligados à produção.

Além disso, durante três dias de janeiro houve um pré-BaixoCentro para expor algumas das intenções do Festival e, também, arrecadar recursos para a captação. O evento ocupou as ruas de Santa Cecília, Luz, Campos Elísios e Barra Funda, saiu em cortejo pelo Minhocão e em passeio com o Ônibus Hacker, organizou uma festa (o Samba na Casa do Gato), participou de um Churrascão na Cracolândia, colocou um protótipo do Carrinho Multimídia na rua e mostrou que, sim, as ruas podem ser para dançar.

Com essa mobilização, o BaixoCentro voltou ao Catarse, agora reformatado para uma semana de atividades – 23 de março a 1º de abril. [Se tu doou da outra vez, basta redirecionar o valor para este novo catarse]. Desde ontem, 27 de fevereiro, está aberta a chamada para propostas de ação para incluir na programação do evento.

Para enviar uma ideia, basta acessar http://chamadapublica.baixocentro.org, até o dia 10 de março, e detalhar a ideia num pequeno formulário: o que é, quantas pessoas envolvidas, que tipo de espaço e equipamentos você precisa, qual o horário planejado, e-mail e telefone de contato, dentre outras informações básicas.

Vale tudo na programação: teatro, música, performance, oficinas, debates, passeios, encontros, vídeos, artes visuais, cultura digital e o que mais a criatividade permitir. Os locais escolhidos para as ações estarão dentro do perímetro do BaixoCentro, que compreende os bairros Santa Cecília, Barra Funda, República, Luz, Campos Elísios e Vila Buarque – todos bairros da região central de São Paulo.

Como o festival será realizado nas ruas, vale lembrar que as responsabilidades pelas ações serão compartilhadas pela produção do Festival e pelos proponentes de cada atividade. Se tu quiser propor um show no Largo do Arouche às 4h da manhã, por exemplo, saiba que é, sim, possível – mas talvez mais prudente num horário em que a sisuda prefeitura paulistana incomode menos, como às 16h.

As ideias enviadas via chamada pública não passarão por curadores, mas sim por uma “cuidadoria” coletiva, que trabalhará com o objetivo de viabilizar a realização de todas as propostas. “Talvez algumas não poderão ser realizadas por questões técnicas ou falta de dinheiro. Mas tentaremos e trabalharemos muito (mesmo) pra tod@s participarem”, diz o texto de apresentação da chamada.

Toda a programação do Festival tem um pré-requisito básico: será gratuita, mesmo se ocorrer em espaços fechados, e aberta à intervenção. Nada mais natural, já que todo o financiamento do BaixoCentro é coletivo e associativo, via crowdfunding e outras formas independentes de arrecadação (leilão, rifa, doações).

Passeio pelo BaixoCentro com o ônibus hacker, em janeiro de 2012
Projeção de vídeo na Igreja de Santa Cecília, em SP, no Pré-BaixoCentro

Por falar em formas independentes de arrecadação, dia 13/3 às 20h vai rolar um leilão para arrecadar fundos para o Festival. São mais de 30 obras doadas por artistas, principalmente fotografias, ilustrações e esculturas. No hall de doadores, há figuras como Guto Lacaz, Henrique Oliveira,Tatiana Blass, Giselle Beiguelman, Felipe Morozini, Amanda Mei, dentre outros artistas.

O local escolhido para o leilão foi o Galpão do Teatro Folias, grudado no Minhocão. A ideia é subverter a lógica dos leilões tradicionais: lances iniciais são de R$200 e ao invés de um leiloeiro estimulando os lances, o próprio público cola pequenas etiquetas com os seus lances e nome, num modelo chamado de “Leilão de Parede”. Uma das obras que estarão lá é essa ilustração aqui abaixo, de Guto Lacaz.

Por fim, finalizamos este post com as palavras do BaixoCentro: estão tod@s convidad@s a intervir – com a voz, o corpo, as ideias.

Créditos fotos: Baixocentro.org, Guto Lacaz

Festival CulturaDigital.br (3): notas pessoais e aleatórias

Continuemos de onde parou o relato sobre o FestivalCulturaDigital.br: da festa no primeiro dia, logo após a conferência de abertura oficial do evento e da palestra de Benkler.

A festa serviu para lavar a alma e matar a fome de diversão de muita gente que estava li no Odeon. Cerveja, champanhes e canapés liberados, mas extremamente disputados pela multidão que se apertava no hall, mezanino e entrada do Odeon, a maioria entretida com o tete a tete com amigos/conhecidos/novos amigos –  afinal de contas, são essas conversas uma das coisas mais importantes de um Festival como o CulturaDigital.br.

O fato do Odeon ser localizado em plena Cinelândia – região central do Rio, onde, por exemplo, o OcupaRio estava acampado até domingo passado – trouxe algumas intervenções à festa. Em especial, teve um grupo de teatro, devidamente maquiado e paramentado para uma performance que não bem lembro qual, que ficaram na frente do cinema, aparentemente felizes por haver um público grande para suas ações. Depois de alguma tensão, dizem que até que entraram no coquetel e se misturaram à plebe do Festival. Não recordo se houve incidentes no Odeon, mas o certo é que o coquetel (que virou balada) foi divertido e serviu para desfazer um pouco a sisudez da abertura oficial.

Leonardo e Lucas no debate sobre teatralidade digital

O lançamento do “Efêmero Revisitado” e apresentação do Teatro para Alguém, que estava marcado para o sábado às 18h, acabou ocorrendo no domingo, ao meio dia. O que tinha tudo para ser uma troca negativa, já que às 18h de sábado o Festival estava fervilhando de ideias e pessoas circulando, acabou sendo uma troca muito boa.

O pessoal que esteve presente na tenda de Visualidades estava interessado, perguntou, pegou seus livros e, ao que parece, gostou muito dos vídeos que Lucas, do Teatro para Alguém, mostrou, com destaque especial para este mostrado logo abaixo, que diz muito sobre a dificuldade de se encaixar nesse mundão fazendo algo que se gosta.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=qEzOcpveUnY]

Até o início da semana que vem, sem falta, o “Efêmero” estará para download. Aos que gostaram do TPA, vale acompanhar o site do grupo, que estreia novas produções semana que vem.

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[vimeo http://vimeo.com/29523075]

Projeto dos mais interessantes da Mostra de Experiências do Festival é o chamado “Deleted City“, que propõe um estudo arqueológico da rede através de um backup gigante do Geocities, aquela ferramente de construir sites popular nos anos 1990 que tu deve ter conhecido.

[Não ouviu falar? tratava-se de um serviço de hospedagem gratuito de sites do portal Starmedia. Ele contava com um bom espaço de armazenamento para a época e agrupava as páginas em “bairros” e “cidades”, conforme seus temas. Em 1999, o serviço foi comprado pelo Yahoo! (por 3,5 milhões de dólares!), e acabou sendo descontinuado em 2009]

Mariel Zasso, repórter da Revista Select e companheira de cervejas festivas, fez uma matéria sobre o projeto que inclui, também, uma entrevista com o holandês Richard Vigjen, idealizador do Deleted City. Um trechinho da conversa vai aqui abaixo; antes, brinque tu também com o Geocities-Izer, que transforma seu site em um “lindo” Geocities, como fiz com o Baixa aqui abaixo.

Você comentou que a década de 1999-2009 foi um período em que a “world wide web” e seus netcitizens estava em busca de uma identidade. E hoje, quais você pensa que são as questões da web e dos seus webcidadãos?

Eu acho que a internet como um meio público é algo que foi tomando forma entre 1995 – 1999. Foi quando mais gente teve a oportunidade de participar, já que antes a internet era privilégio de grandes instituições. Quando a rede foi aberta ao público, ela passou a ser usada por pessoas cujo o primeiro interesse não era a tecnologia em si, mas o seu potencial de comunicação em relação a seus próprios interesses. E como a internet é um meio aberto por definição, as pessoas começaram a experimentar vários meios de fazer isso, baseados em metáforas como uma biblioteca digital, uma cidade virtual, e coisas do tipo – eram conceitos do mundo existente (ou da ficção científica) sendo aplicados a esse novo meio. A coisa mais importante para mim é isso, quando você compra o acesso a essa rede, como você deveria usá-la ou como ela deveria ser é deixado a seu critério. Os provedores não disseram como a internet deveria ser porque eles mesmos não sabiam.

Eu acho que hoje isso está mudando: ainda há uma evolução em como a internet é usada. De homepages para blogs, de redes sociais a pesquisas em tempo real. Mas esses conceitos cada vez mais vem sendo vendidos como um produto para você consumir. Especialmente com a internet migrando dos provedores de acesso, que apenas vendiam acesso, para celulares: o papel do usuário como consumidor está se tornando dominante. O mesmo acontece com a migração dos PCs de uso geral para dispositivos dedicados, como os tablets. E com os fabricantes e operadores de telefones e tablets vendendo a internet como um produto (quase como uma torradeira ou uma cafeteira), há menos espaço para seus usuários questionarem o sistema, para chegarem a novas soluções ou modelos alternativos.

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Umas das coisas mais inusitadas que aconteceu no FestivalCulturaDigital.br nada teve que ver (a priori) com o digital. Trata-se do “happening” da foto acima. Uma pessoa – não se sabe quem – surgiu nos jardins do festival com um pote com óleo e começou a girar, girar, até que soltou o pote contra as paredes do MAM. O que se formou foi um anel manchado de óleo, a que a pessoa acrescentou uma folha de papel com informações sobre o porquê do protesto – que tinha a ver com o vazamento de óleo na baía de Campos, interior do RJ, de um local explorado pela petroleira Chevron, ou com a Petrobras, uma das patrocinadoras do Festival, não se sabe ao certo.

A organização do MAM, por medo de estragar a fachada do prédio, mandou colocar areia para facilitar a retirada da mancha, como dá pra ver na foto abaixo, feito por Lucas Pretti, que, como diversos outros, não concordou com o “abafamento” do protesto.

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Outro dos muitos destaques da Mostra de Experiências que, aos poucos, vamos falando por aqui foi o “Mapa Sonoro do Estado do RJ“, uma plataforma para mapeamento das paisagens sonoras das cidades do Rio e de Niterói, produzido por uma equipe da  Universidade Federal Fluminense coordenada pela professora Simone Pereira de Sá.

A ideia, ainda em fase inicial de implementação, é tão simples quanto ótima: a pessoa grava um barulho característico de seu cotidiano (o cachorro chato da esquina, o chafariz de uma praça calma, o vendedor ambulante que vende Mate nas praias, etc), georeferencia no Google Maps, cria um pequeno texto explicando o porquê do barulho e publica um post na ferramenta. Juntando todos, temos uma interessante cartografia dos barulhos de uma cidade, dos afetivos aos incomodativos, dos tradicionais aos inusitados.

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Ginger Coons (na foto acima) foi uma das presenças internacionais na cobertura multimídia do evento. A moça veio de Toronto, no Canadá, especialmente para cobrir o Festival pela revista em que é a publisher, a Libre Graphics Magazine, revista de design e cultura focada alinhada com a filosofia do software livre. Ela fez diversos tuítes sobre o evento (@ossington, do dia 2 a 5 de dezembro), além de posts para o blog de sua revista. Destaco em especial dois: DIY and Criticality, em que ela começa dizendo ter se surpreendido com popularidade dos hackerspaces, e neste texto sobre Hugues Sweeney, seu compatriota, diretor de interatividade do National Film Board of Canada.

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Entrada do "estúdio" do Buraco Cavernoso
... e dentro do estúdio improvisado

Outra iniciativa deveras interessante que esteve no Festival foi o Buraco Cavernoso, um programa de uma webtv chamada Angu TV. Capitaneada pelo carioca Márcio Bertoni (o de amarelo à direita), o Buraco usa um sistema baratíssimo (pelo menos em comparação a outros sistemas audiovisuais) baseado em câmera de segurança, que, além de relativamente simples de mexer, dá uma estética interessante para a exibição na web.

No festival, o Buraco gravou diversas coisas na íntegra, especialmente os debates políticos da Arena. No terceiro dia, Bertoni montou seu estúdio numa salinha do espaço multimídia e, nele, fez diversas entrevistas – inclusive com este que vos escreve. Bertoni, figuraça flamenguista que não nega o sotaque chiado de sua terra, puxava as pessoas que estavam dando sopa pelos arredores e arrastava para uma conversa bem informal no estúdio improvisado, que tinha uma bandeira pirata como seu símbolo. Vale conferir os vídeos produzidos no festival no link http://www.ustream.tv/channel/buraco-cavernoso.

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Por fim, não dá pra esquecer a bela junção de encerramento do festival. Começou ali por volta das 17h, quando a Orquestra Voadora, um grupo/bloco de músicos do RJ que toca tudo quanto é música somente com instrumentos de sopro e percussão, se reuniu para um grande ensaio aberto nos jardins do MAM. Logo começou a juntar gente, mais gente depois do encerramento do Brasileirão 2011, no que culminou numa grande celebração alto-astral, coisas que só o RJ e a vista da baía da Guanabara conseguem dar o clima certo.

Ali pelas 19h30, a orquestra liderou o cortejo para uma tenda, onde a Spok Frevo Orquestra encarregou de fazer o show de encerramento, um frevo-jazz quase todo instrumental pra lá de dançante. Lindo desfecho para um belo Festival, que as fotos abaixo dão uma mostra.

[Leonardo Foletto viajou ao Rio para participar da cobertura colaborativa do festival].

Créditos fotos: Pedro Caetano (1, 5, 11), Rafael Vilela (8, 12) e Bruno Fernandes (9, 10, 12, 13), da equipe de fotógrafos oficiais do Festival (Flickr), e Leonardo Foletto (2), Francelle Cocco (3), Lucas Pretti (6).

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Festival Cultura Digital.br (2): um balanço geral e subjetivo

Foi diferente do ano passado. Nem melhor nem pior, mas diferente.

Em 2010, a Cinemateca, com sua beleza cuidada a pão de ló, e São Paulo, com sua ordem e praticidade às vezes fria, tornaram as coisas mais geométricas, para remixar a metáfora da Estética do Frio de Vitor Ramil.

Este ano o palco do agora Festival Cultura Digital.br foi o Rio de Janeiro – mais precisamente o MAM, às marges da baía de Guanabara. E o Rio é o clichê brasileiro: a malandragem, a desordem, a beleza incontestável e a espontaneidade convivendo juntas, as vezes num caos insuportável por sua ineficiência e as vezes num mesmo caos maravilhoso pela sua fricção – seguida de combustão – criativa.

O Festival este ano teve um pouco desses dois lados do caos, embora o lado bom do não previsto se salientasse mais que o da bagunça. A seguir, um panorama geral e subjetivo em alguns parágrafos e fotos sobre os dias 2 e 4 de dezembro de 2011, no MAM-RJ.

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Pátio do MAM-RJ à noite

O local escolhido como sede do Festival se revelou uma boa surpresa – pelo menos para quem desconhecia o MAM. Uma das principais obras modernistas do país, erguida em 1948 em projeto do arquiteto Afonso Reidy, o museu é, na verdade, um grande parque aberto, com pátio repleto de verde que se estende até a baía de Guanabara.

Com seus metros e metros de gramas e sombras de árvores para sentar debaixo, é um lugar convidativo, que muitos cariocas costumam frequentar espontaneamente no final de semana. Aliado a isso o fato de que o MAM é encravado no centro do Rio, a algumas quadras da Cinelândia, têm-se uma mudança quase radical de cenário para o evento no ano passado, a Cinemateca, espaço deveras bonito mas ermo e fechado.

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O Ônibus Hacker foi o grande xodó do Festival – se tu preferir, foi o destaque “hype” da programação, como bem apontou este infográfico que circulou no O Globo sobre a programação do evento.

[Caso tu ainda não conheça, aí vai: o ônibus é um projeto da comunidade Transparência Hackday e é, neste 2011, um dos maiores cases de crowdfunding no Brasil, com quase R$60 mil arrecadados via Catarse]

O busão teve sua chegada festejada na quinta à noite, promoveu oficinas e mini-cursos e, o principal de tudo, foi a atração turística do Festival. Todos que lá estiveram quiseram dar uma conferida nos seus interiores e ver de perto o que ali se passava. Inclusive Gilberto Gil, embaixador do Festival e que muito circulou pelos aposentos do MAM, acompanhado de Claudio Prado, Jorge Mautner e Nélson Jacobina, como mostra a foto abaixo.

Ainda que em fase embrionária, sem muitos apetrechos nos seus interiores, o busão destacou-se também por sua versatilidade. Nele que foi projetado a transmissão ao vivo dos jogos das rodada final do Brasileirão 2011, auxiliado pela internet wifi de 10 gigabits oferecida pela RNP e a Proderj e por aqueles sites que sempre “pirateiam” a transmissão dos jogos de futebol no Brasil.

Diga-se que o sinal não foi dos melhores, caía nas horas mais importantes, mas serviu para juntar pelo menos umas 30 pessoas a volta e ecoar alguns gritos de torcida rivais – caso de Corinthians e Palmeiras, que tinham o maior nº por ali. A foto abaixo dá um panorama geral da coisa.

Final do Brasileirão 2011 live at Festival Cultura Digital.br

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Sala onde ocorreu a Mostra de Experiências

A Mostra de experiências foi a única atividade no MAM realizada num lugar totalmente fechado – no caso, a Cinemateca do museu. É a que teve o maior número de projetos do exterior, de China a Holanda, passando por Estados Unidos, Colômbia, Inglaterra, França, Japão, Estônia, México, além de projetos de inúmeros locais do Brasil.

Funcionava de um modo semelhante aos congressos acadêmicos, com cada pessoa/grupo apresentando sua experiência em 15 minutos, só que sem o espaço para o debate, já que as experiências eram muitas e o tempo para isso pouco. Nessa estrutura, a mostra era como um grande mosaico de coisas, em que o púbico assistia e, se gostasse muito ou quisesse trocar uma ideia com  o palestrante da vez, procurava a pessoa em questão ao final da apresentação.

No último post apontamos alguns projetos que nos pareceram interessantes, e foi uma pena que conseguimos ver apenas alguns dos citados e falar com alguns dos envolvidos. Boa parte dos projetos apresentados merecem um post a parte, e é por isso que deixaremos para as próximos semanas para comentarmos um pouco mais de cada um deles. Enquanto isso, tu pode ter mais uma noção do que ali ocorreu nesse relato de Daniel Castro, monitor do streaming do lugar. Aliás: em breve, todos os vídeos deste espaço (que foram transmitidos ao vivo pela rede) estarão disponíveis no site do culturadigital.org.br.

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Fachada do Odeon na abertura oficial do Festival, na sexta 2 de dezembro

O Cine Odeon, maravilhoso cinema incrustado em plena Cinelândia, foi palco das Palestras, reservados aos nomes conhecidos da cultura digital, da literatura e da cultura em geral.  Não estivemos na maioria dos debates do Odeon, e, confessamos, também ouvimos pouco falar deles; das pessoas com quem conversamos, ouvimos ótimos comentários do velho conhecido Kenneth Goldsmith, do UbuWeb e de Hughes Sweeney, do National Film Board of Canada, que realiza os documentários interativos mais fantásticos do planeta, auxilados por uma estrutura que, infelizmente, só países como o Canadá parecem ter condições de ter hoje.

[Sweeney organizou alguns vídeos no Festival para a chamada Mostra Tudo, e a Revista Select compilou alguns desses num post. Olha lá]

Assim como a Mostra de Experiências, as Palestras serão subidas para o site oficial, e esperamos vê-las para sacar o que rolou de legal nelas. Particularmente, queremos entender o que Paulo Coelho falou de pirataria e se ele, assim como o pessoal do Festival no guia de programação, também confundiu pirataria com copyleft, uma falha infelizmente comum.

Momento vergolha alheia na abertura do festival
A Sergio Mamberti, do MInC, coube ler a carta de Ana de Hollanda

A palestra de Abertura do Festival, na noite de sexta-feira, merece um comentário à parte. Iniciou com algum atraso, o que deixou impaciente o público que lotava os mais de 500 lugares do Odeon. E começou mal, com uma mesa composta de representantes da Petrobras, RNP, MAM, Secretaria de Cultura do RJ, MinC, além de Rodrigo Savazoni, diretor geral do Festival, e Ivana Bentes, professora da UFRJ (mas que não se sabe porquê esteve ali, ainda mais sendo a primeira a apresentar o Festival). Uma politicagem que, ainda que compreensível pelos arranjos feitos para a realização do Festival, se mostrou longa e desnecessária para a abertura de um evento.

O auge da coisa toda foi mostrar um vídeo de Eliane Costa, gerente de patrocínio da Petrobras. Ela comentou um pouco sobre a importância do festival e, a certa altura, falou que não estava presente ali por ter ido à França iniciar seu doutorado na Sorbonne. Perguntas de boa parte do público: que diabos eu tenho que ver com isso? Por que esse vídeo está sendo mostrado aqui, na abertura do festival, espaço dos mais nobres?

Na sequência de Eliane, aconteceu o momento mais polêmico da noite. Sérgio Mamberti, atual secretário de Políticas Culturais do MinC, leu uma carta de sua chefe, a ministra Ana de Hollanda – e por tudo que a gestão de Ana fez com a cultura digital neste ano, era mais que esperado que  haveria vaias da plateia na simples menção de seu nome.

Em resumo bem simplificado, a carta lida por Mamberti dizia que a atual gestão do MinC não “rompeu” com a cultura digital como alguns falam, e que ela, a cultura digital, teve avanços sim em sua gestão. A resposta de uma parte da plateia foi “Ministra do ECAD!”, seguida do coro “Não, não nos representa!“, o que causou algum constrangimento entre todos.

No fim das contas, há de se salientar a coragem de Sérgio Mamberti em ler até o fim a carta – justo ele, já um senhor de idade, muito simpático e mais alinhado aos avanços digito-culturais do que a ministra Ana.

O poderoso Benkler solito no palco
… e num papo arretado com Gil

Depois da abertura oficial, lá pelas 21h e pouco, iniciou a conferência de abertura propriamente dita, de Yochai Benkler, um dos principais teóricos do digital e autor de livros fundamentais como “The Wealth of Networks” e “The Penguin and the Leviathan“, que defendeu muito dos preceitos da internet livre e animou muita gente a fazer o mesmo.

Uma frase muito tuítada proferida na palestra, dita em resposta ao revelação de entrevistador Gilberto Gil, deu o tom da fala: “Manteremos a liberdade na internet? Benkler: Not if we don’t fight“.

[Leonardo Foletto viajou ao festival para participar da cobertura colaborativa].

 
Créditos fotos: Aloysio Araripe (1), Bruno Fernandes (2, 3,4, 5, 6, 8, 9), Rafael Vilela (12) e Pedro Caetano (10, 11, 13) da ótima equipe de fotógrafos do Festival (fotos disponíveis no Flickr oficial do evento) e Leonardo Foletto (7).