RSS para fugir dos algoritmos das redes sociais

Victor Wolffenbüttel chegou até nós pelo caminho mais tradicional na internet: o e-mail. Nos escreveu para elogiar o trabalho aqui realizado e indicar um texto, de sua própria autoria, sobre o RSS, essa eficiente forma de organizar informação na rede infelizmente esquecida nestes tempos de redes sociais. O texto em questão, publicado aqui abaixo, faz um amplo panorama da história e da praticidade do RSS. É quase um artigo de arqueologia da mídia, pois descreve tanto a história do RSS quanto seu funcionamento técnico de forma simples, mas sem ser simplista. Mas além de descrever a técnica e apontar o lado subversivo de se usar RSS hoje em dia, ele também aponta caminhos, como um tutorial, para você mesmo construir seu próprio feed sem passar por algoritmos cada vez menos transparentes como as das redes sociais.

É a primeira colaboração de Victor aqui no BaixaCultura. Ele é estudante de Administração e mora em Novo Hamburgo, uma das maiores cidades da região metropolitana de Porto Alegre. Escreve sobre tecnologia e cultura, criador e editor da newsletter literária Quasar. Bem-vindo, Victor!

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Como e por que utilizar RSS

UMA FERRAMENTA PARA FUGIR DOS ALGORITMOS DAS REDES SOCIAIS

Em março de 2017, o criador da internet, Tim Berners-Lee, publicou um texto no jornal inglês The Guardian referente ao aniversário de 28 anos do protocolo web inventado por ele, o World Wide Web, principal forma de utilizar a internet até hoje — e que a maioria de nós, usuários comuns, tratamos como “a” internet. No seu texto, Barnes-Lee é sucinto: ele está preocupado com três coisas na rede moderna. Não há declarações de amor ou histórias de superação brega no seu artigo. A internet está com problemas, e precisa de respostas. Os três desafios na rede atual, segundo ele, são: como o usuário perdeu controle de seus próprios dados pessoais; como é fácil para informações falsas se espalharem na web; e a falta de transparência na propaganda política.

Eu poderia traduzir todo o texto numa tacada só, mas vou me conter e utilizar apenas um parágrafo de referência para onde quero chegar. Sobre a desinformação na web, o criador da coisa toda diz (tradução livre):

“Hoje, a maioria das pessoas encontram notícias e informações na web através de algumas redes sociais e buscadores. Esses sites faturam mais quando clicamos nos links que nos mostram, e eles escolhem o que nos mostrar através de algoritmos que aprendem com nossas informações pessoais, as quais eles coletam constantemente. O resultado é que esses sites nos mostram conteúdo que acham que nós vamos clicar — ou seja, desinformação e notícias falsas, as quais são surpreendentes, chocantes ou feitas para atrair nosso interesse, podem se propagar como um incêndio.”

A preocupação de Tim Bernes-Lee quanto a desinformação e aos algoritmos das redes sociais não é nova, e tem sido amplamente divulgada. O processo de adquirir informações está passando por alterações que afetam profundamente o jornalismo e a mídia como um todo. Na verdade, o jornalismo vem sofrendo mudanças drásticas e questionamentos sobre seu modelo de negócios. Dentro dessa preocupação geral e do cenário caótico, escrevo para propor uma ajuda ao usuário.

A INTERNET ATRAVÉS DO TEMPO

Nesses vinte e oito anos de existência da internet, muitos hábitos e muitas ferramentas já foram tendência, e os usuários mais antigos devem lembrar de uma tonelada desses. Para o brasileiro que estava lá quando tudo começou por aqui, aquele que usava internet discada durante a madrugada porque era de graça e acordava todo mundo em casa porque o barulho do modem era insano, podemos citar o Netscape, Cadê e o ICQ como ferramentas comuns. Depois, se estabeleceram Google, Orkut, Youtube, Kazaa, MSN, Fotolog, MySpace, Blogger, WordPress, os portais Uol e Terra, por exemplo. Hoje, nossas ferramentas, chamadas “aplicativos”, são Facebook, Twitter, Instagram, Whatsapp, Telegram, Snapchat, Tumblr, Medium, Netflix.

(É claro que essa linha do tempo de sites e serviços não ficou extremamente precisa, cada usuário conheceu alguma ferramenta a algum tempo, e podem haver questionamentos — um amigo meu ainda usa o ICQ no seu ambiente profissional, por exemplo. É claro que também esqueci um monte de outras saudosas aplicações, mas isso não vem ao caso.)

A tendência gritante entre os serviços citados é a transformação do acesso: o computador vem sendo abandonado. O navegador utilizado, seja ele o Firefox, Chrome, Opera ou Safari, não é mais necessário para acessar nenhum dos aplicativos listados por último. O abandono do desktop e dos browsers aponta para uma das novas tendências da internet: o cercamento do usuário. Tirando aquelas pessoas que trabalham na frente do computador e tem tempo livre para surfar na web e pesquisar páginas à vontade, quantos hoje em dia têm uma lista de sites favoritos? O usuário tem acessado suas informações pelos mesmos aplicativos e redes sociais. Se você não tem o aplicativo da Folha ou do Globo ou de qualquer outro grande jornal no celular, eu duvido que se informe por outro meio que não o Twitter ou Facebook. E a sua visão das notícias está condicionada a um algoritmo muito mais poderoso que a antiga disposição das informações nos cadernos dos jornais.

PÓS-INTRODUÇÃO: REDESCOBRINDO UMA FERRAMENTA

A partir desse ponto, eu poderia começar a direcionar o texto para qualquer um dos aspectos mencionados por Tim Bernes-Lee no seu parabéns-alerta de aniversário, os quais indicam uma internet prejudicada e prejudicial para o usuário comum: compartilhamento involuntário dos dados pessoais e privados; alienamento do usuário através de algoritmos que podem simplesmente apagar um assunto ou uma pessoa da sua vida; centralização da forma de obter informação; propaganda política disfarçada de informação; etc., etc. Mas o meu interesse nesse assunto todo é apresentar uma ferramenta (spoilers estão no título do texto), e fazer o leitor entender porque ela pode ser útil nesse mundo preocupante em que estamos. Quando eu digo preocupante, quero dizer, capaz de fazer um magnata sem nenhum preparo, intolerante e conservador ser eleito presidente do país mais poderoso do mundo.

O uso dessa ferramenta ajuda a evitar que casos como o de Myamar, um país asiático que mudou de um regime ditatorial para uma democracia há poucos anos, se tornem cada vez mais comuns. O Buzzfeed News fez uma matéria impressionante mostrando a inclusão digital do povo do pequeno país. Essa inclusão — feita através do acesso total da internet de uma hora pra outra — é integralmente baseada no Facebook (alguns usuários acreditam que “internet” e “Facebook” são a mesma coisa, deixando de aproveitar a vastidão de conteúdo online), e os novos hábitos virtuais da população têm aumentado a intolerância religiosa do país.

Não estou me referindo a um produto de uma nova startup que vai salvar o mundo. Não é um app que você baixa e milagrosamente muda a rotina da sua vida. É um recurso que está disponível na internet há muito tempo e que nunca foi muito popular, mas que se mostra poderosíssimo num mundo de algoritmos pré-definidos com critérios secretos de exibição de resultados. Do que eu estou falando? Do RSS. Às vezes chamado de feed, ou feed RSS, ou Atom, etc.

EM TERMOS TÉCNICOS E PRÁTICOS: O QUE É RSS

RSS é uma sindicação web. Sindicação é um termo oriundo da televisão, e uma prática muito comum em países como os Estados Unidos, onde canais de TV locais compram e vendem programas para exibição ao vivo e/ou gravada de outros canais em outras localidades. Qualquer ferramenta de sindicação web, então, seria uma adaptação disso: um meio de reproduzir o conteúdo lançado por um site através de outro site ou outro programa, enfim. A sigla RSS significa Really Simple Syndication, ou seja, “Sindicação Realmente Simples”.

Muitos desenvolvedores trabalharam nessa ferramenta desde seu surgimento. Ela começou por iniciativa de alguns técnicos do falecido navegador Netscape, que lançaram a versão 0.9. Depois que o browser foi comprado pela AOL, o projeto foi deixado de lado, mas outros programadores continuaram aprimorando a sindicação, até ela chegar na versão 2.0 em 2005, na qual se mantém até hoje. A história do RSS é cheia de personagens e conflitos por direitos autorais. Por ter sido um trabalho abraçado pela web e desenvolvido abertamente durante algum tempo, os técnicos da Netscape tiveram problemas quando quiseram registrá-lo como propriedade intelectual, especialmente depois de ter abandonado a ideia na versão 0.9.

(Para quem quiser ler toda a história, está disponível na Wikipédia em português.)

Em termos de programação, o RSS é o que e os programadores chamam de “dialeto” dentro da linguagem XML (eXtensible Markup Language), a qual é utilizada para vários fins de organização de páginas. Olhando um arquivo XML puro, ele parece com HTML, exceto que podem ser criados novos dialetos e cada dialeto pode possuir diversas tags — daí o “eXtensível” no nome. RSS é então um arquivo em linguagem XML que é disponibilizado e atualizado automaticamente pelo site que o gera. Ele está disponível na maioria dos sites como uma página própria, a qual é facilmente acessível através do famosos ícone do RSS:

Você certamente já viu esse símbolo antes por aí

Resumindo tecnicidades em termos simples, RSS é um arquivo que se atualiza sempre que o site atualiza também. Qual o interesse nisso? Arquivos em linguagem XML não foram feitos para serem consumidos diretamente por humanos, mas sim interpretados por outras aplicações que então disponibilizam a versão final para as pessoas. O RSS se torna realmente interessante quando utilizado junto aos chamados leitores ou agregadores.

Como parecia o agregador mais famoso de todos, o Google Reader, antes dele ser extinto

Através dos agregadores, o usuário pode se inscrever nos seus sites favoritos e acompanhá-los diretamente pelo leitor de feeds. Todas as atualizações aparecerão lá diariamente e o usuário não precisa visitar a homepage. A princípio, pode parecer pouco interessante para quem acessa a homepage de apenas um site, por exemplo, o G1. Mas mesmo para esse usuário, é melhor utilizar o leitor de feed, pois não agride visualmente, não distorce as manchetes, e não tem publicidade. Texto puro, organizado para leitura no agregador, separado em postagens, classificados apenas em “lidos” ou “não lidos”.

O RSS se torna realmente interessante para quem gosta de acompanhar mais de uma página na web. Ele te dá o poder de concentrar todos os sites em só um e poder decidir se quer ler certo texto ou não, de forma simples!! Todo o conteúdo é listado verticalmente, tornando-se uma questão de escolha intelectual pura do leitor. Apesar de absurdamente simples, vou descrever um pequeno tutorial para começar a utilizar um agregador RSS e como adicionar os feeds.

UTILIZANDO RSS: INTRODUÇÃO AOS AGREGADORES

Basicamente, o que deve ser feito é baixar ou criar uma conta online em algum agregador de RSS. Existem centenas pela internet. Antigamente, essa função era praticamente monopolizada pelo Google Reader, um dos melhores leitores de feed que já houve, especialmente pela sua função social de compartilhar os textos lidos com outros usuários através de um verdadeiro Facebook de textos. Porém, o Google Reader foi descontinuado pelo Google devido à baixa popularidade (a quantidade de produtos do Google que foram abandonados por popularidade, independente de quão boa a ideia era, assusta).

Um dos agregadores mais populares hoje em dia é o feedly, o qual adicionou uma penca de funções nos últimos anos, as quais, pra mim, só afastaram o usuário comum. Logo que o Reader acabou, eu tentei utilizá-lo, mas a bagunça visual me fez desistir. Outro feed conhecido é o The Old Reader, o qual se propõe a ser exatamente igual ao antigo Google Reader (o nome diz tudo), mas, pelo menos nas vezes em que tentei usar, pareceu extremamente instável e lento. Atualmente, utilizo o Digg Reader — depois de muitas tentativas com softwares baixados ou clientes de email (sim, é possível ler feeds de sites usando o Outlook, por exemplo). Não lembro como descobri que o Digg tinha um agregador, mas é esse que recomendo, por estar utilizando a mais tempo — mais tempo até do que usei o Google Reader. O aplicativo para celular também é muito simples, e permite leituras agradáveis dentro do possível (ler no celular nunca vai ser agradável). É possível se inscrever usando email ou alguma conta já registrada no Google, Facebook ou Twitter.

O Digg Reader é a minha recomendação pessoal, mas existem outros milhões de agregadores por aí. Como dito antes, é possível ler os feeds RSS até mesmo no cliente de email, o que vem bem a calhar quando se é usuário de um desses softwares, como Thunderbird ou Outlook. A configuração pode demorar um pouco mais, mas não é nenhum bicho de sete cabeças.

UTILIZANDO RSS: CATANDO OS LINKS PARA FEEDS 

Baixado o software ou inscrito no site, a segunda etapa é procurar o feed dos seus sites favoritos. Provavelmente, o famoso botão de RSS vai estar bem no alto ou bem embaixo do site, junto com os ícones de Facebook, Twitter e etc. Clique nesse botão, ele vai te direcionar para a página do arquivo XML. Copie o link da URL. Geralmente, ele se parece com http://[site].com/feed ou http://[site].com/rss ou algo do tipo, mas isso não é uma regra. Entre no seu agregador favorito e vá em alguma coisa parecida com “adicionar feed RSS” ou “inscrever-se em RSS” e cole o link lá. Pronto, você já está inscrito. A partir de agora, sempre que o site atualizar, o feed vai automaticamente carregar o texto no seu agregador. Ele estará disponível exatamente como no site, sem precisar sair do leitor.

Em alguns agregadores, está incorporado uma ferramenta de pesquisa de feeds, o que é ótimo, porque aí você não precisa procurar o link no site. Só digite o nome do site na busca, e ele vai providenciar o feed. O que pode acontecer é o site não possuir RSS. O G1, por exemplo, não tem. Nesse caso, recomendo começar a ler outro site, porque esse não está conforme os bons hábitos da internet, o que me leva a outro ponto: o feed não é só uma ferramenta qualquer, ele é histórico para a web.

O RSS ESTÁ POR TODA A INTERNET SÓ VOCÊ NÃO VIU

Antigamente, redes sociais como Twitter e Facebook geravam RSS para cada um dos perfis na rede. Era excelente, porque você poderia seguir as pessoas que você gostava sem nem mesmo possuir conta na rede social. Se adicionasse o link no seu agregador, todos os tuítes da pessoa apareceriam como atualizações, por exemplo. A função foi descontinuada pelas grandes redes. Hoje em dia, existem sites, como Queryfeed, que substituem a função nativa e geram os feeds de perfis. Um excelente incentivo para abandonar as redes e continuar acompanhando as páginas de interesse. Sites de torrent como Pirate Bay disponibilizam o link de RSS de todo o site, o que leva a uma prática interessante para os usuários: baixar automaticamente arquivos a partir do momento em que o feed atualiza com seus links magnéticos. Você pode se inscrever no link da sua série favorita e baixar os episódios assim que foram disponibilizados, por exemplo. Os clientes de torrent possuem agregadores de feed que são utilizados especificamente para essa prática, conhecida como Broadcatching.

Por fim, o melhor exemplo do poder do RSS na internet e da sua influência na história da redes são os podcasts. O conceito de podcast é exclusivamente baseado no uso de RSS para disponibilizar um arquivo de áudio baixável. Os podcasts feitos em site de streaming como Youtube e Soundcloud se proliferaram nos últimos anos, mas nenhum deles, se fosse catalogado, seria um podcast segundo o conceito original. Conforme definido pelo escritor Warren Ellis em sua newsletter [tradução livre], “Um podcast é um arquivo de áudio que um programa de podcasts pode capturar e baixar para um dispositivo. Um arquivo no Mixcloud ou Soundcloud não é um podcast”. É claro que o conceito original pouco importa para o sucesso desses programas, e até acredito que quem está fazendo audioblogs no Youtube hoje deve ter mais sucesso do que a maioria de podcasts perdidos em blogs, buscando alguns assinantes no seu feed que é baixado por aplicativos de celular. A importância da definição de podcast, nesse caso, é mais histórica que tecnológica: em 2004, não existia streaming, e o download automático do seu programa favorito era como a assinatura do seu jornal ou revista favoritas, que chegavam — esse verbo cada vez mais no passado — direto na sua casa.

O RSS É POLÍTICO

Sei que citar exemplos de torrent (uma tecnologia que, apesar de revolucionária, tem sido deixada de lado pela comodidade do streaming) e podcasts (um tipo de conteúdo que sempre foi marginal, com poucos exemplos de verdadeiro sucesso) pode parecer pouco mercadológico para o produto que estou tentando vender — e hoje em dia tudo tem que ser observado dentro de uma perspectiva do marketing. Mas não peço desculpas, porque a lógica é contrária: antes da internet, a criação de conteúdo e a informação eram amplamente monopolizadas. O interesse das massas era facilmente direcionado conforme o conteúdo exposto pela mídia através dos meios de comunicação. Com o surgimento da rede, abriu-se o espaço necessário para buscar novas fontes de informação, controle pessoal do que se consome e liberdade de pensamento. O relato mais preciso sobre a transformação da web foi feita pelo documentarista Adam Curtis no seu filme mais recente, HyperNormalisation [tradução livre]:

A internet atraiu as pessoas porque era hipnotizante. Era um lugar onde você poderia explorar e se perder da forma que quisesse. Mas através da tela, como num espelho de duas vias, agentes estavam te assistindo e prevendo e guiando a sua mão no mouse. […] Com o aumento na quantidade de dados obtidos pelos sistemas online, novas formas de controle começaram a surgir. As redes sociais criaram filtros, algoritmos complexos que observavam o que o indivíduo gostava, e os servia com mais disso. No processo, usuários começaram a ser atraídos, sem notar, para bolhas que os isolavam de enormes quantidades de outras informações. Eles só viam e ouviam o que gostavam. E o feed de notícias, cada vez mais, excluía qualquer coisa que poderia mudar seu ponto de vista pré-existente.

O controle vem sendo retomado por grandes grupos. Em um celular de usuário comum, o sistema operacional, o navegador, o buscador e o canal de vídeos (para dizer o mínimo) são todos da mesma empresa, o Google. Além disso, o Whatsapp, o Facebook, o Instagram e o Messenger são todos também da mesma empresa. Por isso, o uso de RSS, apesar de parecer datado, é essencial retomarmos as rédeas do consumo de informação, descentralizar e desalgoritmizar nossa internet. A comodidade tem nos levado para o mesmo lugar em que estávamos antes, mas o grande ponto da rede é não ser cômoda: é aproveitar a oferta máxima de conteúdo que pode existir para fazer o que você quer, e não deixar que algumas empresas te indiquem o caminho.

Tudo vigiado por máquinas de adorável graça

Nossa parceira de compartilhamentos digito-culturais, Aracele Torres, fez um belo post em seu blog sobre o documentário “All Watched Over by Machines of Loving Grace, produzido em 2011 pelo documentarista Adam Curtis em parceria com a BBC.

Tudo vigiado por máquinas de adorável graça” é uma densa e profunda viagem audiovisual a teorias e histórias que buscam entender/explicar/contar a cada vez mais complexa relação homem-máquina, a vigilância onipresente dos computadores e o excesso de informação a que estamos lidando diariamente.

O doc está dividido em 3 partes: “Amor e Poder“,”O uso e abuso dos conceitos vegetacionais” e  “O macaco dentro da máquina e a máquina dentro do macacos“, cada uma com cerca de uma hora de duração.

Resolvemos roubar e republicar aqui abaixo o post de Aracele no Cibermundi, com os devidos créditos & reconhecimentos. E, claro, com as três partes do doc, na íntegra e com legendas em português – (que estarão na nossa BaixaTV também). Enjoy!

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doc-bbc
All watched over by machines of loving grace é um documentário produzido no ano passado por Adam Curtis em parceria com a BBC. Seu título faz referência a um poema publicado em 1967 sob o mesmo nome, cujo o autor, Richard Brautigan, falava de uma sociedade onde os homens estavam livres de trabalho e a natureza tinha alcançado seu estado de equilíbrio, tudo graças ao avanço da cibernética.

O documentário de Adam Curtis é dividido em 3 partes diferentes, cada uma falando de um subtema relacionado à nossa crença nas máquinas e no seu poder de transformar a vida humana. Na verdade, o doc faz uma crítica à essa crença, à sobrevalorização das máquinas, defendendo que elas não conseguiram cumprir o papel libertador esperado.

A primeira parte, intitulada “Amor e Poder“, aborda as implicações da teoria do Objetivismo de Ayn Rand, que propunha uma sociedade livre do altruísmo, sobre o mercado financeiro norte-americano e também sobre os produtores de tecnologia do Vale do Silício. Esta primeira parte do documentário mostra como o casamento entre a teoria de Ayn e a crença no poder das máquinas produziu a ilusão de uma sociedade que prescindia, entre outras coisas, de políticos e que se autogovernava e se autoregulava com a ajuda dos computadores.

A segunda parte do doc, “O uso e abuso dos conceitos vegetacionais”, mostra o entrelaçamento entre a teoria da cibernética e a teoria do ecossistemas naturais, que produziu a crença de que a natureza era um sistema autorregulado e estável. Aqui Adam fala sobre a emergência das comunidades hippies nos anos 60 e dos cientistas da computação da contracultura, descrentes com a política e desejosos de uma sociedade sem líderes e organizada em forma de redes.

A terceira parte, “O Macaco dentro da Máquina e a Máquina dentro do Macaco“, encerra o vídeo com a discussão em torno da teoria sobre o comportamento humano moldado por códigos matemáticos genéticos – o ser humano como uma máquina controlada por seus genes. Nessa parte final, Adam fala sobre como pensamos ser máquinas e de como isso provocou guerras étnicas.

Adam arremata seu documentário com uma critica contundente à tradição tecno-utópica. Para ele, o fato de depositarmos nossas esperanças de revolução nas máquinas e, muitas vezes, também nos enxergamos como máquinas, é uma forma de desculpa e justificativa para nossa incapacidade política de mudar o mundo.

O documentário de Adam é um verdadeiro passeio por acontecimentos e ideias que marcaram e ainda marcam a nossa sociedade da utopia tecnotrônica.  Vale a pena dar uma conferida!

Aracele Torres, Cibermundi

Crédito: Capa do Livro de Brautigan

Os livros da UNESP para download. Mas só pra isso. [Ou não, a gente dá um jeito]


Semanas atrás foi muito divulgado e prometido que a Universidade Estadual Paulista (UNESP) disponibilizaria, no dia 27 de abril, 50 livros para download totalmente de grátis. Cumpriram. Os títulos integram o selo Cultura Acadêmica (criado em 1987) e dão continuidade à Coleção Propg Digital, que oferece obras inéditas para baixar. A primeira fase do programa foi em 2010, quando lançaram 46 obras.

Vale mencionar como foi o lançamento dos livros em que havia uma “Degustação Literária”, oferecendo aos presentes a oportunidade de acessar, em 49 iPads, cada uma das obras lançadas. O objetivo era aproximar o público do real propósito do projeto, além de exibir a versão digital dos textos. A meta é publicar mil títulos em 10 anos, permitindo maior acesso à produção acadêmica da universidade. Ou seja, é uma ação exemplar para todas as universidades públicas (e privadas também). Mas nem tanto.

É possível baixar os livros, mas não imprimir e nem selecionar o conteúdo das páginas. E assim é com todos os livros da Coleção. Todos estão protegidos com senha. Tentamos subir um dos livros (do qual falamos abaixo) para o Scribd e não conseguimos. Mas calma. Demos um jeitinho de quebrar isso. A solução foi baixar esse programinha bem leve aqui ó, o “Portable PDF Password Remover 3.0”. Depois, abrir com o programa o livro baixado da Unesp e salvar de novo. Pronto, já pode imprimir e fazer o que quiser.

Para baixar os livros do site oficial, é preciso realizar um cadastro, com Nome, E-mail, Cidade e Estado como campos obrigatórios. Nas páginas das obras há até audio de entrevistas com os autores. Mas fazendo uma busca no Google com o nome dos livros, os arquivos aparecem diretamente. O cardápio é bem rico, tem de muitos sabores: agronomia, antropologia, arquitetura, comunicação, design, direito, economia, educação, geografia, filosofia, história, literatura, matemática, medicina, meteorologia, música, política, entre outras áreas mais específicas.

O livro que nos interessou, e que tiramos a senha de proteção, foi Criação, proteção e uso legal da informação em ambientes da World Wide Web. A obra resulta da dissertação de mestrado de Elizabeth Roxana Mass Araya, orientada por Silvana Aparecida Borsetti Gregório Vidotti e defendida em 2009. As 147 páginas são divididas em três capítulos, que fazem uma boa contextualização de como as leis dos direitos autorais não estão adaptadas aos meios de informação digitais – algo que, tu sabe, temos falado aqui quase que semanalmente.

No primeiro capítulo do documento, “Ambientes informacionais digitais“, é feita uma revisão histórica da internet como Tecnologia da Comunicação e Informação, do desenvolvimento da Arpanet, das redes BBS, até a Web, chegando na chamada Web 2.0 e na ainda-mais-promessa-do-que-realidade Web semântica. Da Web Colaborativa, como Elizabeth denomina a web 2.0, surgem os problemas com arte, autoria, e propriedade, devido principalmente a constante modificação na forma de criar e recriar conteúdos informacionais e à desatualização da legislação sobre propriedade intelectual, que é anterior à esse cenário.

Em “Autoria e Legislação de Conteúdo Intelectual“, o capítulo 2, há uma revisão não só histórica mas conceitual sobre direitos autorais. São relatadas noções de propriedade antes da escrita, passando pela invenção da imprensa e pelo primeiro privilégio de copyright, em 1557 – do qual, aliás, também já andamos comentando por aqui.

Após a oficialização da lei, 1710, os princípios ingleses são levados para os Estados Unidos, que acabam se tornando a base para muitas legislações sobre direitos autorais no planeta – inclusive a repressiva e limitada lei brasileira de 1998 que está em vias de ser reformulada hoje. O funcionamento da Lei dos Direitos Autorais (LDA) brasileira e do nitidamente falho Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (do que mesmo?), o ECAD,  é contado, juntamente a algumas normas internacionais.

O terceiro capítulo apresenta ações da sociedade na Web que entram em conflito com a antiquada lei. A Campus Party, com seus usuários baixando e subindo arquivos à todo instante, é citada, ao lado das frequentes retiradas de videos, colocados por usuários, do Youtube. Como alternativas de flexibilização dos direitos autorais na internet,  o conceito de copyleft e o projeto Creative Commons, além do subprojeto Science Commons, são mostrados.

Cabe destacar também o subcapítulo “Acesso livre ao conhecimento científico”, responsável por um apanhado das publicações livres digitais e que ainda traz um relato dos (ex)esforços do Ministério da Cultura para a discussão sobre cultura livre. Aquele papo da Reforma da Lei dos Direitos Autorais sabe? Que era aberta e pública. Como deveria ser a coleção também.

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Créditos: 1, 2.

[Marcelo De Franceschi]