O manifesto do círculo de poetas sampler de São Paulo

 

O círculo de poetas sampler de São Paulo foi um movimento criado no final dos anos 90 e início dos 2000 que se espalhou por diversas regiões da capital paulista. Veio, como muitos dessa época, na esteira do movimento punk e anarquista e se somou a nascente cultura digital (pelo menos no que diz respeito a que conhecemos hoje) para propor a ideia do remix, cut-up, também na literatura. Foi, talvez, um dos primeiros grupo organizados a falar disso abertamente no Brasil.

Abertamente? Sim, eles deixaram poucos textos sobre o tema, e o único que encontramos é o que publicamos abaixo: Manifesto da poesia sampler. Ali estão todas as influências (Burroughs, copyleft, Oswald de Andrade, Lautreamont, Roberto Piva, etc) para falar do esgotamento da linguagem e da necessidade de reapropiação do que já foi produzido até hoje ao invés da criação. Preceitos que, de alguma forma, se relacionariam com a escrita não-criativa de Kenneth Goldsmith e aparecem no MixLit de Leonardo Villa-Forte, entre outras iniciativas.

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O manifesto (atenção: não confundir com o Manifesto da Literatura Sampler, de Fred Coelho e Mauro Gaspar, que tem 7 versões e em breve estará por aqui também) saiu no Rizoma, em 2002 – depois, foi compilado no ebook “Recombinação“. Continha uma introdução, em que se explica um pouco do círculo. Tudo muito caótico, mas que dá uma amostra do contexto anarquista da qual ele foi produzido.  Alguns trechos:

O círculo de poetas sampler de São Paulo foi criado na relação entre os cavaleiros templários e bruxas cidadãs, entre  sufraggetes e o movimento de poetas negros de Angola, entre @s escritor@s de Q e ladrões-ativistas do Leste Europeu, entre manifestantes anti-globalização no início deste século XXI, entre Seattle, São Paulo, Porto Alegre e Morro Agudo.

O Círculo de Poetas Sampler de São Paulo (tirado de um anagrama escrito pelo Bandido da Luz Vermelha na cadeia), está em todos os cantos. De marginais a altos postos do governo, infiltrados em movimentos de cultura digital picaretas e em espetaculosas palestras sobre o Nada. Este manifesto, escrito entre o IRC e pombos-correios se desmembrou em manifestações na qual o Círculo não impôs sua marca (mal de nossos tempos?), mas sim, subrepticiamente, subvertendo a retrô-subversão contemporânea que alia Estética e Poder de maneira tão vulgar quanto no início da Revolução Industrial.

Hoje pouco se sabe desse círculo e dos seus integrantes. Se ele ainda existe, é certo que deve ter se dissipado, ganhado outro nome ou se espalhado por governos, redes (Metareciclagem? THacker?), ou em movimentos de cultura digital picaretascomo diz a introdução. A publicação desse texto também é uma tentativa de achar alguma pista do paradeiro do círculo.

 

Manifesto da Poesia Sampler

“O plágio é necessário. O progresso o implica”
Lautreamont

Que as idéias voltem a ser perigosas.

Vivemos um momento de impasse poético (comecemos com frases de efeito). A poesia brasileira contemporânea está estilhaçada em todos os caminhos possíveis e sofre de uma falta de identidade sem parecer. A poesia brasileira contemporânea (que é bom frisar nem sempre é moderna) não sabe como se comportar. Não há mais (des)caminhos claros e definidos.

Queremos então aqui, levar ao máximo a falta de perspectiva, usar ao máximo a queda das utopias (política, existencial, artística) para apresentar a poesia sampler. A poesia sampler ou sampleadora é e se quer ser ilegal. Usando os princípios e termos da música eletrônica que literalmente rouba trechos de outras músicas para se compor, a poesia sampler rouba idéias, trechos, citações, põe palavras em outros contextos. A sua originalidade é a falta de tê-la.

O problema da linguagem é o cerne da poesia sampler. É a constatação do esgotamento total da linguagem, é a constatação de não ter mais saída para a linguagem, que já foi (des) (re) construída ao máximo. É se emaranhar no labirinto (in)finito das experimentações e das brincadeiras. É poesia irresponsável. É a volta da morte do Copyright (viva o Copyleft). É a volta da morte da autoria. É a volta do plágio. Como disse Lautreamont, o progresso o implica. A poesia deve ser escrita por todos.

A poesia sampler pode servir como uma ponte para uma possível nova poesia e novos poetas. Ela pega esses cacos que todos já destruíram e brinca com eles e os muda de lugar e os troca, os confunde, os cita, os leva ao extremo da brincadeira poética.

Saturação da informação. Não mais novidades. Contra o mercado de novidades, contra a globalização e a mercantilização da novidade. O pensador moderno precisa saber escolher a informação. O poeta moderno precisa deslocar as mesmas palavras que conhece há séculos para outros contextos. Nem mesmo essa idéia é novidade. A poesia sampler, felizmente, está fadada ao jornal de ontem. Duchamp desce das escadas nu.

Desabando, logicamente, em Oswald de Andrade, nosso grande poeta antropófago: “Tudo que não é meu me pertence”. Lema do poeta e base da poesia mais inventiva e criativa brasileira. Diferente da chamada linha evolutiva da vanguarda poética brasileira
fincada no concretismo, a poesia sampler não é original ou melhor não se quer (é aí que tá o ovo de colombo). É poesia de poesias ou melhor, poesia que tira outras poesias do contexto e as coloca com outros sentidos, outras características, outra vida, incorporando até novas palavras, tanto é a liberdade da poesia sampler.

A poesia sampler já nasce velha. É criminosa, é pagã, é lírica, é crítica, é publicitária. Como no poema de um dos poetas sampler escrito em cima de um dos poemas mais (re)conhecidos de Oswald de Andrade: Erro de Português. O poeta sampler subverte a idéia original do poema, ou melhor, encontra nele, uma possível (re)interpretação. Eis:

Erro de Brazileiro
O português
quando aqui chegou
as índias todas ele comeu
o problema é que
elas continuam gozando
até hoje

A poesia sampler leva a tradição pra outro lugar, usando-a, anarquicamente. É a contradição máxima que vivemos. É seguir a tradição, negando-a. Não há mais diferenças entre nada. Tudo pode ser usado. Guerrilha Cultural. Abalar os conceitos das afirmações. São poetas sem poemas. Esses conceitos, além de terem surgido com a música eletrônica, também são influenciados pelos grupos filosóficos anarquistas, principalmente por Luther Blisset e os artistas neo-dadaístas e os situacionistas. Somos todos.

Somos um. Somos nenhum. Não temos reflexo em espelho algum. Literatura pra nossa geração. Somos poetas burros escrevendo para uma geração burra. Assassinamos jornalistas culturais com poemas de Eliot. Somos o oco da oca tupiniquim interplanetária. Soy loco por ti, America. Vivemos a era do não-criador. Era do sampleador. Acumulamos citações como heróicos saqueadores de túmulos. Sempre voltamos ao mesmo ponto: não há nada de novo debaixo do sol. O que podemos fazer é mudar o sol de lugar (terminemos com frases de efeito).

Assinado pelo Círculo de Poetas Sampler de São Paulo

e terminemos com mais um poeminha:
“Quando nossos poetas vão cair na vida?
deixar de ser broxas para ser bruxos?”
Roberto Piva

 Créditos imagens: 1 (sampler), 2 (Bliss),

Caiu na rede virou apócrifo

Caiu na rede é peixe, é pixel, é texto “lançado ao alto-mar das futuras combinações” como completaria o poeta Roberto Piva. Tantas recombinações que algumas vezes, intencionalmente ou não, alteram a atribuição ao primeiro mentor e redator do conjunto de ideias expressado.

Caiu na Rede, o livro da capa aí acima, se lançou nesse alto-mar das combinações infinitas com uma divertida tarefa:  compilar e discutir 67 textos apócrifos, aqueles de autenticidade diluída, repaginada ou mesmo roubada que certamente tu já deve ter tido contato via e-mail ou republicado em blogs e fóruns.

Na maioria das vezes, são crônicas singelas, indignadas, bem humoradas ou reflexivas, que não raro trazem uma “mensagem” que convida o leitor a passar adiante. Não demora muito e os atribuídos autores negam a responsabilidade da escritura – ou outros vêm reinvindicá-la. Um exemplo mais recente é o texto “A Vergonha” dado como de Luís Fernando Veríssimo, que refugou a benção.

A organizadora do livro, a jornalista Cora Rónai, tenta ir além da mera compilação de textos. Divide-os em oito tópicos, e em cada um deles produz um texto dando conta de entender como se dá o fetiche da transmutação de autores em cada agrupamento de casos. Duas justificativas para o fenômeno da troca de autor são ditos logo em “Os Veríssimos falsos”, o texto de apresentação do livro:

) a busca de um maior impacto pela adoração ao autor, pois deseja-se que a mensagem sejá espalhada através da credibilidade;
) é meio que o contrário do 1º), ou seja, um decaso com o autor, tanto o Anônimo quanto o Desconhecido, pois o que vale é a mensagem.

É claro que essa subjetividade de escolhas do leitor, potencializada agora aos milhões com a internet, não é coisa nova. Já em 1968, Roland Barthes, no ensaio “A Morte do Autor“, diz que um texto é feito de múltiplos textos e escritos, vindos não só de uma cultura, mas de diversas outras misturadas, relacionadas – e que essa multiplicidade se reúne não no autor, mas no leitor.

“O leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que  nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade  de um texto não está na sua origem, mas no seu destino“. Seriam alguns desses textos do livro dispensáveis da autoria fixa, como leis e textos publicitários? O corintiano Washington Olivetto apresenta nessa entrevista uma teoria discutível: “O autor dá muito certo quando certas coisas teoricamente ‘desaparecem’: aí todo mundo quer saber quem fez, e você fica conhecido”.

Uma constatação do livro é de que não há solução pros leitores nem pros autores: “O meio-de-campo da internet está tão embolado, e os apócrifos se espalham com tal velocidade, que qualquer tentativa de descobrir ou estabelecer autorias é, praticamente, uma batalha perdida“, diz Rónai nas primeiras das 158 páginas, muitas delas disponíveis no Google Books. Mas há tentativas de esclarecer, e ela mesmo indica o blog Autor Desconhecido, que depois migrou para um site, e a comunidade do orkut “Afinal, quem é o autor?”.

Na época de lançamento do livro (2005), foi criado também um blog para divulgar o conteúdo, que continha alguns dos textos publicados. De lá pra cá pouca coisa mudou e todos eles continuam sendo republicados, como se pode ver aí embaixo, com os textos linkados e separados pelos temas, incluindo poesia, tal qual o livro.

Até hoje surge gente trocando Jabores com Borges, Medeiros com Lispectors, Veríssimos com Drummonds de Andrade. E não há previsão que essa confusão cesse, por que como bem diz Godard, “com os celulares e tudo o mais, hoje todo o mundo é autor”. Ou seria que, sendo todo mundo autor, o autor está morto?

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Caiu na rede (índice com textos do livro)

Língua
O direito ao palavrão
Minha iNgUInorância é problema meu
Tipo Assim

Cotidiano
The summer is tragic!
Mamãe executiva
Na hora de cantar
Um dia de merda
Alguns motivos pelos quais os homens gostam tanto de mulheres!
Mulheres empresárias
Um dia de modess
Pedido de amigo
Orgasmo trifásico
Quem não tem namorado
A verdade sobre Romeu e Julieta
Casamento Moderno
Promessas matrimoniais
Desabafo de um marido
Marte e Vênus.

Celebridades
Ninguém mais
namora as deusas
Baba, Kelly Key
Duas vidas
No trabalho, e chocada

Diga não às drogras.

Moralizantes
Faz parte
Precisa-se de matéria-prima para construir um país
Ode aos gaúchos
Brasil e o mundo podem prejudicar a sua saúde
Por que no Brasil não há terrorismo.

Amor
A impontualidade do amor
Sobre o amor
Às vezes
Precisando de amor
As razões que o amor desconhece
Até a rapa
A dor que dói mais
Pot-pourri de assuntos.

A Vida, o Universo e tudo mais
Mulher, sua origem e seu fim
Bunda dura
Nada como a simplicidade
O velório
Dez coisas que levei anos para aprender
Oração dos Estressados
Quase
Marionete
Entrevista com Deus
Vida
Felicidade realista
Envelhecer
Solidão
O que faz bem à saúde
Como conseguimos sobreviver?.

Poesia
Não te amo mais
Trilogia sobre a arte de dar
A Morte Devagar
No caminho, com Maiakóvski
A pessoa errada
Há momentos
A orgulhosa
Instantes

Dos apócrifos
Precisa-se de matéria-prima para construir um país
Em trilha de paca, tatu caminha dentro
Eu não escrevi “Bunda dura”.
Quem copia o rabo amplia
Vaidade
Clonagem de textos
Presque
Apócrifos

[Marcelo De Franceschi]