Jornadas de ciência e tecnologia abertas no sul global

Ao longo dos quase 10 anos de BaixaCultura, sempre tivemos algumas colaborações de pessoas, próximas ou não, que se interessam pelas pautas que aqui falamos e buscam trazer para cá seus pontos de vista. Basta, por exemplo, buscar no arquivo textos do André Solnik, Luís Eduardo Tavares, da Aracele Torres, da Daiane Hemerich, entre outrxs, para ver que trazer textos e perspectivas que não somente a nossa aqui oxigena um pouco o espaço. E, também, apresenta olhares para temáticas não tao abordadas aqui não por falta de interesse, mas por questões de tempo e conhecimento do tema em questão.

É o caso desse relato aqui, escrito por Marina de Freitas, engenheira física recém formada pela UFRGS. Natural de Santo Ângelo, na região das missões, noroeste do RS, Marina se aproximou da ciência cidadã e do hardware aberto a partir de sua participação no Centro de Tecnologia da UFRGS (CTA, na foto acima; Marina é a com a guitarra vermelha), espaço muito ativo e interessante de aprendizado em tecnologias abertas localizado no Instituto de Física da universidade, no Campus do Vale, Porto Alegre quase Viamão (cidade da região metropolitana). No último FISL, em meados de julho de 2018, conversamos sobre o evento em que ela participaria em Santiago, as Jornadas Latinoamericanas de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología, e falamos sobre biohacking, hardware aberto e o que ela estava esperando encontrar no Chile. Daí saiu a vontade de escrever um relato sobre as jornadas, que cobre uma temática que, vocês vão ver, se relaciona muito com o que falamos aqui, embora não seja um tema tão frequente pela falta de conhecimento (e tempo) desse editor que aqui escreve e das pessoas mais próximas do Baixa. Quem sabe não abrimos um flanco aqui para falar mais de ciência aberta, open hardware e biohacking? Confira o relato de Marina logo abaixo.

Leonardo Foletto, editor

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O ESOCITE caiu em meus colos de surpresa. As Jornadas Latinoamericanas de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología (ESOCITE) estão na sua 12° edição e ocorrem desde 1995. Mas, para mim, uma novidade. Este ano foi sediada em Santiago do Chile, com o pertinente tema “Ciudadanías del conocimiento: nuevas formas y tensiones en el hacer y pensar la ciencia, la tecnología y la sociedad.”.

Durante os dias 18, 19 e 20 de Julho se reuniram na Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Chile pesquisadoras, ativistas, professoras e engenheiras para discutir e refletir sobre as mudanças nas arquiteturas e políticas de ciência, tecnologia e inovação, sobre as novas formas de ação cidadã e suas interpelações na ciência, sobre a nova demanda de construção de conhecimento fora das instituições tradicionais e necessidade de uma maior resposta aos aos problemas cidadãos e demandas sociais.

Foram 34 seções, com mais de 120 trabalhos apresentados, que discutiram a educação de ciência e tecnologia, a educação rural, as controvérsias tecnocientíficas, o futuro das cidades inteligentes, as ações de engenharia social e anti-hegemônica, passando pela biotecnologia, a nanotecnologia, a agroecologia, a saúde pública e o ativismo, sem excluir a história da ciência e tecnologia na América Latina, e culminando no acesso aberto e ciência aberta.

Não passou despercebido nesta história toda as marcas das Tomas Feministas, mais um elemento da Onda Feminista na América Latina. O espaço em que ocorreu a jornada, a Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Chile, esteve ocupada durante 3 meses por estudantes feministas que protestavam contra o assédio sexual na universidade e em defesa de uma educação não-sexista. Finalizadas no início de Julho, cartazes, pinturas e intervenções feministas preenchiam o espaço, impossíveis de não serem vistas. É neste clima energizante, que vivenciei esta jornada.

Que somos colônias, sabemos, mas me chamou atenção a fala da pesquisadora Lea Velho, na abertura do evento. Nos contou – como se estivéssemos todas em volta do fogo – sobre o “bem sucedido” caso de cooperação internacional da Estação Ecológica de Maracá, quando, apesar dos acordos firmados, os artigos publicados foram muito mais numerosos para os pesquisadores franceses, do que para os brasileiros. Revela como a internacionalização da produção científica da América Latina tem se resumido ao padrão colonial de exploração onde nós não fazemos parte do fazer ciência, apenas fornecemos dados. Ao contrário, gostaríamos que uma internacionalização da produção cientifica Latina levasse ao aumento na diversidade do pensar científico, contribuindo para a pluralidade de perspectivas e visões. Mas o que tem se visto é apenas uma sofisticação nos mecanismos de exploração. Sem muitas surpresas, o que não significa que não dói.

Nós, cientistas e tecnólogos, estamos sempre buscando argumentos para a pergunta “Por que ciência e tecnologia são importantes para as pessoas?”. O pesquisador Irlan Van Linsingen propôs uma sútil mudança nesta pergunta: que tal “De qual ciência e tecnologia necessitam as pessoas?”. Esta mudança de perspectiva dialoga diretamente com a descolonização da ciência e tecnologia. Enquanto produzimos o conhecimento (e os dados) que os gringos querem importar, nos motivando nas motivações deles, viramos as costas para nossa gente e para suas necessidades.

O pesquisador Mariano Fressoli conectou tudo isso a ciência cidadã através do exemplo da Rhizomática, rede telefônica comunitária de Oaxaca, México. Redes essas construídas a partir da necessidade de uma comunidade, e não da necessidade de mercado de uma empresa, ou de pesquisa de uma instituição. Redes telefônicas auto-governadas, sem fins-lucrativos, sem-besteira. A conexão, no ESOCITE, foi reforçada institucionalmente pelas duas oficinas oferecidas: Oficina Ciencia Ciudadana e Open Knowledge Map. Ambas apontando a direção que caminham os debates sobre ciência, tecnologia e sociedade.

Sumário do Gosh Roadmap

Na sessão “Acesso Aberto e Ciência Aberto”, uma surpresa: a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) possui um grupo de trabalho de ciência aberta. A FIOCRUZ é uma das grandes instituições de pesquisa em saúde do Brasil, e o fato de possuírem um grupo de trabalho de ciência aberta indica um caminho promissor no Brasil para esta ciência. Não bastando, lançaram um livro sobre Ciência Aberta e Dados Abertos, intitulado “Livro Verde – Ciência Aberta e Dados Abertos: Mapeamento e Análise de Políticas, Infraestruturas e Estratégias em Perspectiva Nacional e Internacional”. Só felicidade!

Também marcou presença nesta sessão a comunidade do Global Open Science Hardware (GOSH) [openhardware.science], representada por eu mesma. Apresentei o GOSH Roadmap, o roteiro guia da comunidade de cientistas, artistas, engenheiras e pesquisadoras que desenvolvem e usam hardware aberto para ciência. Este documento foi escrito colaborativamente pela comunidade, e traz os passos que acreditamos ser necessários para que o Open Science Hardware (Hardware Científico Aberto) esteja difundido, a nível global, até 2025. Apesar de estar numa sessão repleta de pessoas acostumadas com a ciência aberta e dados abertos, a reflexão sobre a necessidade de que os instrumentos científicos sejam também livres e abertos foi uma novidade. Uma novidade muito bem recebida e acolhida.

A importância de considerar a territorialidade tanto na educação, quanto na própria produção de ciência e tecnologia se mostraram evidentes nos trabalhos compartilhados ao longo da Jornada. As relações, diretas e indiretas, com a ciência cidadã e ciência aberta despontavam aqui e ali, permeadas de ativismo, preocupação e esperança. As Jornadas terminaram, mas fica a vontade de produzir uma ciência aberta imersa numa cultura livre.

Marina de Freitas

Fotos: 1 (CTA), 2 (twitter), 3, 4, 5 (Marina) e 6 (gosh)

Redes livres, infraestruturas comunitárias

Instalação de uma antena da gufinet em Barcelona

No final do texto passado, “Ressaca da Internet, espírito do tempo”, fiz algumas perguntas que podem guiar a busca por uma (re) invenção da internet, cada vez mais cerceada por grandes empresas privadas (Google, Facebook, Amazon, Microsoft, Apple) e pela vigilância, tanto de agências de espionagem ligados à governos (vide NSA) como à realizada pelas mesmas empresas já mencionadas, que tem como modelo de negócios o comércio de dados. Repito aqui um dos questionamentos porque vai guiar a busca desse texto: de quais maneiras práticas os engenheiros de computação podem tornar o processamento da informação na internet mais descentralizado? Ou, visto de outro modo: quais são os jeitos de desmonopolizar o tráfego de informação nas redes? Falo aqui um pouco mais do maior gargalo: a infraestrutura.

Para você ler este texto aqui*, seja de um notebook, desktop, smartphone ou tablet, o esquema costuma ser o seguinte: você adquire (ou toma emprestado, ou aluga por um tempo determinado, caso das ainda resistentes lan houses) um dispositivo que, a partir de um componente eletrônico – uma entrada de cabo de rede, uma placa wifi, um pequeno artefato que dá acesso às redes 3G, 4G ou 5G – permite a conexão a uma rede que chamamos de internet. No caso de wifi ou cabo, você (ou a pessoa que é dona de seu computador) contrata um plano de alguma das operadoras de telefonia que fazem esse serviço; esta vai ser responsável por ligar a rede criada na sua casa à internet através de uma porta disponibilizada na sua rua, e dessa porta à uma central local, regional e assim os seus dados vão circular em cabos de fibra ótica terrestres e submarinos ao redor do mundo. Se for a partir de uma rede 3,4 ou 5G, o seu dispositivo, a partir de um microcomponente de rede instalado nele, vai acessar uma determinada frequência emitida por diversas antenas, que vai permitir o acesso à mesma internet dos cabos.  Com este aparato físico de ondas ou cabos por trás é que você vai ligar seu smartphone, notebook, desktop, abrir um navegador e digitar “https://outraspalavras.org” ou “http://baixacultura.org” e ler esse texto, ou chegar a ele através de um e-mail, ou pelas redes sociais, principalmente Twitter, Facebook e WhatsApp – ainda a opção mais comum de entrada em alguns sites.

Uma opção alternativa (ou complementar) de infraestrutura de comunicação cada vez mais popular no mundo inteiro são as chamadas redes livres, que funcionam como grandes redes sem fio abertas, montadas a partir de um grupo de roteadores conectados entre si que propagam o tráfego entre usuários e também emitem serviços em banda larga a partir de pontos conectados à internet. É comum o uso de topologia de rede em malha, ou mesh, que oferece maior estabilidade à comunicação e também facilita sua expansão a áreas mais remotas, já que sempre é possível agregar novos nós à rede. Estas redes costumam funcionar de duas maneiras: se não tem nenhum ponto conectado à internet, funcionam como grandes intranets, onde os usuários têm acesso a uma rede comunitária offline e podem se comunicar entre si da maneira que quiserem e usufruir serviços nesta rede. Se um dos pontos tem acesso a internet, então se tornam opções mais baratas de conexão à internet – o que propicia a criação de pequenos provedores comunitários estruturados, uma opção real especialmente para lugares de difícil acesso onde as operadoras de internet não veem interesse em chegar ou chegam com serviços caros e ruins.

Uma das principais referências em nível mundial é a guifi.net, na Espanha. Criada a partir de 2004, é uma rede de telecomunicação comunitária e auto-organizada que conta com mais de 35 mil nós ativos e cobre cerca de  46 mil km de conexão sem fio nas regiões da Catalunha e València, com alguns nós chegando até a fronteira com a França, Andorra e outras regiões da Espanha, como as ilhas Baleares, Madrid, Andaluzia e País Basco. Começou como uma forma de ligar locais (casas, escritórios, propriedades rurais, até edifícios públicos) da zona rural de Osona, na Catalunha, que tinham dificuldades de acessar banda larga com qualidade, e a partir daí foi se expandindo para outras regiões, com nodos conectados à internet e outros não. Para além da infraestrutura técnica de conexão, uma das razões do sucesso de guifi.net foi a organização social da rede; com a expansão surgiu uma comunidade de voluntários, pequenos provedores, empresas e coletivos de usuários que se tornaram responsáveis pela manutenção da rede e criaram um ecossistema de funcionamento que teve o reconhecimento (e em alguns casos, apoio) dos orgãos públicos locais e estaduais. Hoje, há uma fundação por trás da comunidade – Fundació Privada per a la Xarxa Oberta, Lliure i Neutral guifi·net– que trabalha com o acesso às telecomunicações como um direito humano e é, ao mesmo tempo, uma entidade de voluntariado, uma ONG e uma operadora de telecomunicações constituída legalmente.

Há diversas outras iniciativas de redes livres também nas Américas. Rhizomatica começou em 2009, no México, e hoje desenvolve alternativas em telecomunicação por vários lugares do planeta tendo como critério a autonomia comunitária, auto-organização, infraestrutura descentralizada e engajamento crítico com a tecnologia. Como conta Bia Martins no site Em Rede, o apoio da Rhizomatica foi fundamental para a construção de uma rede de rádio com software livre na região de Oaxaca, México, que atende a 17 comunidades e conta atualmente com cerca de 3 mil usuários de serviço de telefonia móvel autônoma. Na Argentina, também desde 2009 existe AlterMundi, nascida em Córdoba, no valle de Paravachasca. Sua base inicial está em La Quintana, uma comunidade de 1000 habitantes que administra a rede a partir de uma assembléia presencial. No lado intranet das rede há serviços como portal, listas de e-mails, serviços de chat, streaming de uma rádio local e um repositório digital que guarda material audiovisual produzido pela comunidade. AlterMundi também teve pontos na região de Tigre, no delta do Rio da Prata. Na Colômbia, há a NetWork Bogotá, mais recente, de 2015, e com diversos nós espalhados pela região periférica da cidade.

Reunião realizada num quilombo em Ubatuba com a Coolab para discutir a rede comunitária

No Brasil há um laboratório cooperativo, a Coolab, que desde 2016 tem instalados redes em lugares de difícil acesso no país. Ela surge como uma iniciativa que agrega diversas pessoas envolvidas com projetos de telecomunicação comunitária, muitas delas antes agrupadas no portal Redes Livres. Fazem parte da Coolab alguns integrantes antes envolvidos em projetos como a rede local (e conectada à internet) da Casa dos Meninos, zona sul de São Paulo; a Rede comunitária de Fumaça, em Resende (RJ), montada a partir de uma convocatória da Nuvem (Estação Rural de Arte e Tecnologia) na região ainda em julho de 2015;  além de provedores comunitários no município de Campos (RJ), iniciativas de transmissão de rádio digital por ondas curtas na Amazônia e de redes em Porto Alegre e Santa Maria (RS). A partir de um prêmio no Desafio Equal Rating da Mozilla como projeto mais inovador, em 2017, a Coolab recebeu 30 mil dólares para fazer uma chamada pública de locais, entidades e pessoas interessadas em instalação da rede. O resultado foram mais de 50 inscrições e instalações de, até agora, pelo menos 5 redes livres, entre elas em uma ligando quilombos e uma aldeia guarani no interior de Ubatuba; e uma em Juriti Velho, município paraense na fronteira com Amazonas.  Em cada um destes locais, o objetivo é levar internet a uma comunidade ainda sem conexão, ampliar a área de um determinado ponto de acesso, distribuir uma conexão por meio de redes sem-fio (WiFi) em malha (mesh); criação de uma rede local sem fio (Intranet via wifi) com serviços diversos – armazenamento de arquivos, publicação, comunicação, gestão e outros serviços totalmente autônomos e independentes da Internet; e instalação de rede GSM para telefones celulares realizarem localmente chamadas de voz e mensagens de texto a custo marginal zero, com possibilidade de interconexão para chamadas externas com VoIP a tarifas módicas de atacado.

Sobre a Coolab, conversamos ano passado com Rodrigo Troian, integrante do grupo, num papo em que ele contou em detalhes como funciona o trabalho na montagem e manutenção destas redes. além de falar de sua trajetória enquanto ativista do software livre.

Vale citar o trabalho, no Brasil, que Instituto Nupef e o capítulo brasileiro da Artigo 19 vem fazendo no fomento e divulgação do trabalho realizado com as redes livres e na governança de internet com as redes comunitárias. A Artigo vem participando de eventos internacionais com demonstrações das técnicas para montar provedores comunitários e produziu o guia mais completo e atual sobre “Como montar e regularizar um provedor comunitário” (disponível para download em PDF), publicação lançada no início de 2017 e que teve participação de vários grupos ligados tanto à infraestrutura de redes quanto da legislação sobre o tema. Já o Nupef, um espaço dedicado à reflexão, análise, produção de conhecimento e formação centrados em questões relacionadas às TICs, montou uma rede livre em Penalva, interior do Maranhão, a partir de uma demanda da comunidade, e tem usado sua experiência com redes do terceiro setor, criação de telecentros e uso do espectro de rede para articular iniciativas na construção de redes comunitárias e na formação de pessoas para gerir e trabalhar essas redes. Também é de iniciativa do instituto, com apoio de organizações como o CGI.br, a RNP e a Ford Foundation, entre outras, o portal espectro.org.br,  espaço que inclui informações de referência sobre práticas de rede relacionadas às TICs nas comunidades, incluindo material sobre novas tecnologias de rádio, TV Digital, telefonia e um acompanhamento das legislações de cada área.

Ainda que o acesso à Internet continua a depender de conexão com algum tipo de provedor público ou privado, portanto o mesmo esquema apontado anteriormente, as redes livres propiciam que comunidades inteiras se comuniquem correndo menos riscos de rastreamento.   O monitoramento só atuaria na comunicação de alguém da rede com alguém de fora da rede – no caso, à internet. Não é uma imunidade total ao vigilantismo, mas na prática já representa uma liberdade de expressão um pouco maior em relação às redes normais de conexão. São também mais difíceis de vigiar porque os dados oscilam de maneira imprevisível entre os nós da rede, sem um polo centralizado. E, com a expansão dos nós, as redes livres podem funcionar como uma pequena internet, com os mesmos serviços oferecidos, como é o caso da AlterMundi, da Gufi.net e também da alemã Freifunk, uma das maiores do planeta.

Voltando a pergunta inicial desse texto, podemos dizer que as redes livres têm sido pequenas alternativas que estão a desmonopolizar o tráfego de informação nas redes. Há diversas questões ainda a resolver para estes projetos se tornarem mais robustos, e a primeira delas é a questão da sustentabilidade. Se a infraestrutura técnica para montar redes livres (basicamente antenas, cabos e roteadores) é de baixo custo, o problema recai para a organização social que vai gerir a rede, dialogar com outros nós e iniciativas semelhantes e cuidar da manutenção permanente da estrutura. Não à toa, as mais bem sucedidas redes globais desse tipo, como a Guifi.net, souberam construir um arranjo em que pessoas, entidades e poder público trabalham juntos para a manutenção, organização e o financiamento da rede. Desde que começou, estabelecer uma organização social também tem sido o foco das instalações da Coolab, que leva a cada nova rede construída pelo menos um responsável técnico e uma pessoa que vai fazer a articulação com a comunidade local para replicar os conhecimentos utilizados e manter a rede depois que a cooperativa fizer a instalação. Pequenos lojas de bairro, instituições de ensino, patrocinadores externos e um preço estipulado para cada usuário (sempre mais baixo que o das operadoras) são maneiras que a Network Bogotá, a AlterMundi e a Coolab tem encontrado para custear a infraestrutura social (e técnica) de manutenção de sua rede.

Outro entrave para a propagação das redes livres foi (ou está sendo) superado: a legislação. A criação de um provedor comunitário é permitido por lei no Brasil, embora não seja um processo tão simples e não visto com bons olhos pelas principais empresas de telefonia que operam no Brasil, que sabemos ter um poder de lobby considerável no Congresso Nacional para alterar leis a seu favor. O já citado portal Rede Livre tem uma seção onde explica, passo a passo, todos os trâmites legais para operar dentro da lei atual. A versão mais atualizada dessa legislação foi produzida pela Artigo 19 e pode ser acessada neste link.

Project Loon, do Google

Um terceiro e último ponto é o mais ameaçador e nos remete à ressaca do texto anterior: o poderio das grandes empresas de internet como Google e Facebook. Ambos já têm serviços, em fase final de teste ou em funcionamento, de estruturas técnicas que vão oferecer conexão à internet para comunidades distantes e de difícil penetração de provedores locais, como em regiões na África e na Ásia. Mesmo com as muitas críticas que o Facebook recebeu com o Internet.org – projeto que visava oferecer alguns serviços da rede, escolhidos pela empresa, para locais com pouca infraestrutura – não foram suficientes para fazer o gigante do Vale do Silício desistir; documentos obtidos em julho de 2018 pela Wired por meio de uma lei de acesso à informação dos Estados Unidos revelam que a companhia está trabalhando em um satélite para esse fim, chamado Athena. Já o Google tem o Project Loon, que leva a internet via balões a comunidades remotas ou locais com infraestrutura precária, como regiões de Porto Rico atingidas pelo furacão Maria em 2017 e o Quênia.

É fácil de prever que, mais do que “querer dar internet a quem não tem”, estas empresas buscam também ampliar seu quase monopólio do tráfego na internet para a questão da infraestrutura, hoje dominada por empresas de telefonia privadas ou por alguns serviços públicos. Fazem isso a partir de um discurso tentador; se você morasse numa localidade que não chega sinal de internet, como não aceitar que uma empresa como estas ofereça esse serviço a um custo financeiro inicialmente baixo? As redes livres lutam contra gigantes que sabemos não serem fáceis de enfrentar, quanto mais derrotar.

Fotos: Sheila Uberti (Enfrenta), Altermundi,  Coolab e Project Loon

*A produção desse tipo de conteúdo só tem sido possíivel graças aos apoios recebidos do público/comunidade que chega junto no financiamento contínuo no https://apoia.se/baixacultura. Chega lá 🙂

Redes, software e cultura livre em charla

Nosso convidado para a BaixaCharla #3 foi Rodrigo Troian, ativista de software livre desde 2004 e que desde 2008 vem pesquisando e fazendo redes em malha por wifi utilizando roteadores de baixo custo – as chamadas redes livres.

Troian participa desde 2010 da comunidade Latino Americana de Redes Livres, palestrando e organizando eventos em diferentes países da América do Sul. Entre 2011 e 2013 desenvolveu implementações de redes comunitárias na região sul do Brasil e no Chile. Desde 2016 atua como consultor externo para organizações nacionais e internacionais construindo redes e ministrando oficinas no Brasil e no exterior. É um dos integrantes do coletivo da Coolab – laboratório cooperativo de redes livres, colaborando na instalação e no modelo de sustentabilidade de provedores comunitários de Internet no Brasil.

Justo na hora da entrevista, tivemos um problema com a rede do Vila Flores/ Hackerspace Matehackers e não conseguimos fazer a transmissão ao vivo. Coisas que só acontecem quando o papo é, justamente, sobre redes…

Fizemos a charla igual e gravamos. Nela, nosso convidado contou de toda sua experiência desde os 2000 com a política & técnica na instalação de redes livres mundo afora, e como aquilo que já foi uma utopia apenas para “escovadores de bits” (a expansão das redes livres, seja para quem não tem acesso a internet, seja praqueles que querem ter uma rede paralela à internet) tem se tornado, nos últimos anos, uma realidade global. Terminamos o papo de forma otimista – sim, não só é possível como está acontecendo (it’s happening!): há redes livres enormes, redes mistas (com acesso a internet), intranets de comunidades inteiras, redes geridas por associações/cooperativas e muito mais.

Assista o vídeo. Abaixo dele e das fotos temos bonus tracks!

Alguns dos links das organizações/iniciativas citadas: Artigo 19, Nupef, AlterMundi, Libremesh, LibreRouter.

Instalação de uma rede livre em Juruti Velho, no Oesta do Pará, na Amazônia.

Em meados de 2013, fizemos um texto sobre redes livres aqui no Baixa que nunca conseguimos terminar, por uma série de fatores que não cabe aqui falar. Como ele trata de redes livres e é uma boa contextualização sobre o assunto, publicamos aqui abaixo, para complementar o relato já cheio de informações da BaixaCharla.

ASCENSÃO E QUEDA DAS REDES LIVRES COMUNITÁRIAS

Para você ler este texto aqui, seja de um notebook, desktop, smartphone ou tablet, o esquema costuma ser o seguinte: você adquire um dispositivo que permite a conexão à rede e contrata um plano de alguma das operadoras a disposição, que vai fazer a ligação da sua casa, ou do seu dispositivo, à internet através de uma porta disponibilizada na sua rua, no caso de internet a cabo e nas possíveis redes wifi criadas a partir daí, ou possibilitar o registro a um “espaço” no ar criado por uma antena 3G ou de rádio, por exemplo.

Com este aparato físico de ondas ou cabos por trás é que você, de posse de um identificador de sua rede (o “IP”), vai ligar seu dispositivo, abrir um navegador e digitar “http://baixacultura.org” e ler esse texto, ou chegar a ele através de alguma pessoa nas suas redes sociais, principalmente Twitter e Facebook – hoje, disparada a opção mais comum de entrada em alguns sites. Me arrisco a dizer que todas as pessoas que você conhece se conectam a rede dessa forma.

Pois bem, saiba que esta não é a única forma de se conectar a uma rede digital. Uma opção cada vez mais popular no mundo inteiro são as redes livres (ou redes “mesh”), que funcionam basicamente como grandes redes sem fio abertas, montadas a partir de um grupo de roteadores sem fio interconectados que propagam o tráfego entre usuários e também emitem serviços em banda larga a partir de nódulos conectados à internet.

Elas costumam funcionar de duas maneiras: se não tem nenhum ponto conectado à internet, funcionam como grandes intranets, onde os usuários têm acesso a uma rede comunitária offline e podem se comunicar entre si da maneira que quiserem nessa rede, além de usufruir serviços da rede.

Se um dos pontos tem acesso a internet, então se tornam opções mais baratas de conexão à rede – o que propicia a criação de pequenos provedores comunitários estruturados em organizações sem fins lucrativos, que podem comprar seus equipamentos e terem até 35 pessoas ligadas a sua pequena rede, segundo a lei brasileira.

Mais do que isso, a opção se torna ilegal  (não é mais)– muito por, sabemos, pressões das grandes operadoras nacionais, que não vêem com bons olhos as iniciativas de redes domésticas oferecendo serviços que poderiam ser melhores que as redes tradicionais.

Apesar dessa ilegalidade, em época de vigilância na rede (vide caso NSA) e de restrição de colocação de novos pontos de internet tem potencializado sobremaneira a expansão das redes livres, como relata essa matéria publicada no New York Times (e republicada na Folha) semana passada.

Como as redes abertas (offlines) são autônomas em relação à internet, elas não podem ser fechadas por um governo. São também mais difíceis de vigiar porque os dados oscilam de maneira imprevisível entre os nós da rede, sem um polo centralizado. E, com a expansão dos nós da rede, as redes livres podem funcionar como uma pequena internet, com os mesmos serviços oferecidos.

É o caso da maior e mais antiga rede desse tipo, a Athens Wireless Metropolitan Network, criada na Grécia em 2002 e que, hoje, conta com mais de 2.500 usuários em toda a área metropolitana de Atenas e nas ilhas vizinhas – em algumas áreas, oferece velocidades de mais de 100 Mbps por segundo. A AWMN tem serviços próprios de busca, compartilhamento, chats e telefonia VoIP (voz sobre IP, a maneira que o Skype funciona), o que muitas vezes faz com que os usuários nem precisam se conectar a internet, segundo afirma Joseph Bonicioli, presidente voluntário da associação que supervisiona a AWMN.

No Rio Grande do Sul

Durante algum tempo, uma rede livre funcionou em Santa Maria, criada em setembro de 2011 junto ao Centro Marista de Inclusão Digital (Cmid), por sua vez vinculado à escola Marista Santa Marta, na região da Nova Santa Marta, oeste da cidade. A intenção de montar o sistema na cidade surgiu no 3º Encontro Latino Americano de Redes Livres, realizado no mesmo período do 12º Fórum Internacional Software Livre (Fisl), em Porto Alegre, nos dias 1 e 2 de julho de 2011.

Do evento, a Associação de Software Livre (ASL) e o Centro Social Marista (Cesmar) partiram para a construção da rede livre em Porto Alegre, no bairro Mario Quintana, onde fica a sede do Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC). Ali surgia a Rede Livre Mário Quintana, a primeira que sem tem notícia no estado, que inspirou a criação da rede da Nova Santa Marta, a 2º, ambas construídas a partir de equipamentos – servidores, antenas de wi-fi, roteadores – doados pelo Ministério Público e o Governo Federal.

Aberta à comunidade e a visitantes, a rede (que era offline) tinha por objetivo armazenar e disponibilizar conteúdo próprio via wireless numa das áreas mais carentes da cidade. Continha blogs, dicionário, enciclopédia, fotos, vídeos, rádio online e material diático dos cursos oferecidos pelo Cmid. “Nós somos um fornecedor de conteúdo, não de internet, até porque legalmente nós não podemos ser um provedor de internet”, explicou em entrevista publicada aqui quando do lançamento da rede, o engenheiro eletricista Everton Bocca, engenheiro eletricista e um dos professores do Cmid na Nova Santa Marta. Instituição que, aliás, deveria ser um lugar mais reconhecido em Santa Maria, dado o trabalho de referência nacional que executa com os cursos que oferece a jovens de 5º a 9º séries (robótica, informática, meta-reciclagem e meta-arte; mais infos sobre eles aqui)

A rede livre, que funcionou durante alguns meses na cidade, era acessível gratuitamente para quem possuísse um computador com wi-fi nos 187 hectares da área do bairro cobertos por 12 antenas. Devido a população ser de baixa renda, à época muito poucos tiveram condições de utilizar o serviço, o que, somado a interesses particulares e a relação dúbia (à época) com a lei, acabou por fechar a rede. Uma pena.

A esperança é que, neste momento, com a ofensiva contra a espionagem comandada pelo governo brasileiro, as redes livres voltem com mais força a serem pautadas no país (e em Santa Maria). Iniciativas, como as citadas aqui, e o portal da nascente rede criada, são bons indicativos pra isso.

E hoje?

Assiste a BaixaCharla logo aqui em cima.

Fotos: Flickr Colab, Sheila Uberti (do dia da transmissão)

Resistência hacker em tempos de retrocessos

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Nos dias 6 e 7 de maio de 2017 ocorreu em São Paulo a 4º edição da CryptoRave, mais importante encontro brasileiro sobre segurança, criptografia, hacking, anonimato, privacidade e liberdade na rede. Inspirada na ação global e descentralizada da CryptoParty, a Crypto no Brasil é organizada por diversos coletivos – Escola de Ativismo, Saravá, Actantes, Encripta e Intervozes – e financiada por crowdfunding, via Catarse. Neste ano, a captação foi um pouco mais díficil do que nos últimos, com a meta sendo batida nos últimos dias e R$69.605 arrecadados para a produção do evento. O local escolhido foi a Casa do Povo, centro cultural no bairro do Bom Retiro, e não mais o Centro Cultural São Paulo como nas edições de 2015 e 2016.

A mudança de local, seja por questões financeiras, políticas ou outras não apuradas, trouxe ao evento um ar mais underground – mais hacker, alguém poderia dizer. Não se trata mais de um dos principais centros culturais da cidade, colado no metrô da linha azul, com diversas outras atividades e pessoas circulando como o CCSP: estamos falando de um centro cultural fundado por imigrantes judeus do leste europeu, um dos primeiros criados por imigrantes no Brasil, sediado no coração do Bom Retiro, bairro de ampla diversidade cultural (gregos, bolivianos, coreanos, judeus, entre outros), menos conhecido do circuito Paulista-Pinheiros-Faria Lima dos eventos de tecnologia em SP. A mudança escancara o que talvez seja conhecido de tod@s: a Cryptorave é um evento político, sobretudo de resistência tecnológica. E também ilustra o tamanho que o evento, em sua 4º edição, ganhou: durante a sexta e o sábado, um prédio amplo de quatro andares foi ocupado praticamente de modo exclusivo com pessoas a discutir tecnologia, política, segurança da informação, criptografia, entre outros vários tópicos correlatos destes. Se o cenário global não é favorável, a resistência parece angariar cada vez mais gente.

A fala de abertura deu uma amostra dessa posição política do evento: trouxe como palestrante James Bamford, jornalista e escritor dos EUA especializado em cobertura dos casos da NSA – a New Yorker o chamou de “cronista-chefe” da NSA neste perfil publicado em junho de 2013. Para uma plateia atenta e diversa, Bamford mostrou as diversas formas que a NSA espiona as informações que circulam na rede, trazendo imagens dos lugares físicos que isso acontece – o que nos faz lembrar que a internet é uma rede física, formada de cabos, roteadores, data-centers e outros espaços por onde as informações que cá circulam passam. Ele citou dois lugares por onde a NSA pode interceptar informações da rede: o NAP Barueri, talvez o mais importante Ponto de Troca de Tráfego (PTT) brasileiro, um local que interliga diversas redes de computadores, constituído de um datacenter que interliga os equipamentos de comunicação dos diversos provedores de internet existentes aqui; e o NAP America, um gigantesco conglomerado de 32 quadras de armazenamento de dados em Miami, espaço por onde passa a maior parte das informações que circulam na internet da América Latina para os EUA – Facebook, Google, Apple e outros serviços são dos EUA, vale lembrar. O brasileiro é um dos diversos pontos mundiais administrados pela Verizon, gigante de serviços de internet (dos EUA), enquanto que o NAP de Miami da Equinix. Será que estas estas empresas protegem os dados que lá circulam quando uma agência com o poderio da NSA está disposta a tudo para caçar whisteblowers como Snowden? É uma boa pergunta a se fazer, que o próprio Bamford já respondeu neste longo relato na Wired: não.

Bamford falou também sobre a iniciativa brasileira de construir um cabo submarino para que o tráfego de dados do país siga direto para a Europa sem ter que passar pelos Estados Unidos — a primeira obra deste tipo e sem contar com a participação estadunidense. Apesar de elogiar a iniciativa, o jornalista destacou que os EUA possuem um submarino que pode interceptar a captação de dados no meio do oceano, além de fazer acordos com outros países para obter tal interceptação em outra ponta. Com isso, ele quis frisar que o país deve fazer a inspeção do cabo de ponta a ponta, para tentar evitar espionagens, segundo relato publicado pelo Intervozes, um dos organizadores da Crypto deste ano.

Após a fala de abertura, as atividades se concentraram no 1º andar do prédio, onde lojinhas (dos produtos da própria Crypto, de livros de computação, de editoras anarquistas – do qual compramos uma edição artesanal comentada do clássico da filósofa/antropóloga Donna Haraway, na imagem acima), e comes/bebes garantiam a energia para conversas e algumas oficinas espontâneas que ocorreriam por ali durante a madrugada. O Baer Mate, sem gosto de ilex paraguiensis mas com muita cafeína, foi o combustível que deixou acordados hackers e outros cryptopunks corajosos que vararam a madrugada; o Preto Café, espaço baseado no centro de SP, fez uma versão para o evento mostrando todo seus custos de forma transparente, no esquema “pague quanto acha que vale”; outras comidas (opções vegetarianas/veganas costumam existir em quantidades em eventos de hackers, e aqui não foi exceção) e até uma cerveja artesanal com mate fizeram do hall do 1º andar o espaço mais frequentado durante toda a sexta e o sábado.

 

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O segundo dia de CryptoRave começou com a mesa “Resistindo à distopia – Práticas para dialogar com não especialistas”, com a mexicana Lili Anaz, pesquisadora e ativista em auto-defesa na web e desenvolvedora de tecnologias livres com perspectiva hackfeminista, no âmbito do Laboratório de Interconectividades, e Sasha Constanza-Chock, que leciona Mídia Civil no MIT, nos Estados Unidos, e publicou recentemente o livro “Out of the Shadows, Into the Streets! Transmedia Organizing and the Immigrant Rights Movement“. A mesa trouxe pra discussão um tema muito frequente pra quem fala de segurança da informação e criptografia, a saber: se estamos todos sendo espionados a todo momento pela NSA, empresas de internet e governos, como resistir?  Lili, por exemplo, vê a arte como uma saída possível para a resistência, e desenvolve projetos nessa linha, como o Mirada Sostenidas, projeto artístico transmídia que lembra e dialoga com vítimas de tortura sexual cometida por agentes do governo mexicano, caso denunciado no final de 2016 na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Sasha falou de alguns de seus projetos, como as DiscoTech, oficinas livres, abertas e multissetoriais para pessoas explorarem, compartilharem e discutirem experiências com vigilância,e o Bedtimes Stories, excelente projeto muiltimídia que conta as histórias de imigrantes detidos pelo governo dos EUA. A mesa pode ser assistida no canal da TV Drone no YouTube.

Mas o que mais podemos fazer? Lili, que também já fez parte do coletivo Astrovandalistas, disse, em uma entrevista à MotherBoard Brasil que, num primeiro nível, “podemos gerar consciência crítica com as tecnologias que mediam a nossa noção de mundo e, com isso, mudar como nos comunicamos, como nos organizamos”. Ela acredita que, se vamos repensar as infraestruturas, “não devemos nos limitar apenas a repensar ou não uma tecnologia apenas. Temos que repensar por quais estruturas estamos passando para retomar nossas vidas.. O hacking, então, entraria como uma possibilidade de criação, que tem a ver com processos artísticos e outras formas de experienciar linguagem, não necessariamente ligadas à computação, e com possibilidades de gerar espaços de experimentação, subverter as linguagens e as relações. “Hacking tem muito mais a ver com essa intervenção que é extremamente política, no sentido de posicionamento. Um compromisso com o que se quer transformar”, afirma Lili.

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A partir das 11h, as múltiplas atividades paralelas nos 6 espaços trouxeram debates em torno de diversos temas. Assistimos nesse horário uma fala sobre design (in) seguro no espaço Alan Turing, com as designers Virgínia Stefanello e Patrícia Estevão. O embate de interface amigável X autonomia do usuário/privacidade é um assunto bastante presente em quem fala de segurança da informação, já que a popularização da privacidade na internet passa por um design mais fácil das ferramentas. Mas como facilitar sem tirar a autonomia do usuário? Como ensinar alguém a criptografar um e-mail sem passar por noções básicas de PGP e chaves? A discussão sobre popularização de princípios básicos de segurança da informação parece passar pelo design – e talvez por isso também havia pela Crypto um dos desenvolvedores do Tails, sistema operacional dos mais seguros existentes hoje, conversando com alguns usuários de modo a melhorar a usabilidade do sistema operacional. Outro SO indicado na mesa foi o Qube OS, que, além de ser de código aberto, tem uma interface amigável e permite níveis crescentes de autonomia, de acordo com o interesse de cada usuário. As duas designers sugeriram, ao final de suas falas, boas práticas para um design seguro, como por exemplo criar uma configuração default que represente a melhor situação de segurança e privacidade caso o usuário não mexa nela e combinar a maneira mais fácil de fazer uma tarefa dando o mínimo de autoridade (acesso ou recurso que o usuário pode controlar).

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Às 13h, Sérgio Amadeu, um dos mais atuantes e conhecidos ativistas pela liberdade na rede no país, trouxe em sua fala a infraestrutura de espionagem brasileira. Ele apresentou um breve histórico dos serviços secretos brasileiros e mostrou a intensificação do trabalho de vigilância na rede nos últimos anos. Pra uma sala que foi lotando na medida em que Sérgio inflamava mais seu discurso, contou que, hoje, são 31 serviços de inteligência estaduais no Brasil que fazem parte do sistema de espionagem brasileiro, juntamente com os orgãos nacionais Polícia Federal, Ministério Público e ABIN. Essa última, a partir das manifestações de junho de 2013 e especialmente com Temer, voltou ao lema da época da ditadura: o inimigo é interno. E aí tome vigilância em tudo e tod@s, com apoio e parceria dos EUA – Amadeu mostrou que o exército dos EUA voltou a fazer operações na Amazônia depois de quase 40 anos, a convite de Temer. A fala terminou com Sérgio apontando que, na verdade, o inimigo é os EUA, e que tanto a polícia e o exército sabem disso, mas não querem ver: tratam como inimigo as pessoas comuns, vigiando-as sem dó em aparatos cada vez mais complexos e caros – não por acaso, boa parte deles comprados dos EUA…

Após uma breve parada para o almoço, com uma feijoada vegana honesta a R$12, seguimos flanando pelos andares da Casa do Povo, e entre conversas rápidas e múltiplas com desconhecidos e amigos, paramos brevemente na mesa de Andrew Fischman, jornalista do Intercept Brasil, e Joana Varon, da Coding Rights, sobre o papel do jornalismo investigativo num mundo vigiado. O jornalista afirmou que falar que “nada adiantou” com as denúncias dos whisteblowers como Snowden ajuda a construir a ideia de que criptografia não nos protege, o que não é bem assim: se ela não nos protege totalmente (e ninguém está protegido totalmente de nada!), pelo menos ela dificulta. Joana apresentou alguns dos trabalhos produzidos pela sua organização, que busca mudar a narrativa sobre privacidade no dia a dia com iniciativas como Chupa Dados, um especial multimídia que explica como o funcionamento de aplicativos e outras tecnologias que usam nossos dados têm impacto – às vezes, negativo – nas nossas vidas. Também apresentou em primeira mão uma infografia sobre o aumento de vigilância em grandes eventos no Brasil, o Legado Vigilante. Vale também conhecer outros projetos da Coding Rights, como a Oficina de Antivigilância e o Safer Nudes.

No fim de tarde, caímos na laje, onde ocorreu uma roda de debate sobre uma das fronteiras mais importantes do ativismo digital hoje, as redes livres. Bruno Vianna falou sobre a Coolab, uma cooperativa formada no início deste ano que tem por objetivo fomentar as infraestruturas autônomas, através da capacitação técnica e ativação comunitária. Contou da chamada pública da rede, que a partir de um financiamento de 30 mil dólares obtido no Desafio Equal Rating, da Mozilla, quer montar redes e provedores comunitários Brasil afora. A gurizada da Casa dos Meninos, na extrema zona sul de São Paulo, é um dos grupos que estava presente na conversa e já tem uma rede livre faz alguns anos, chamada de Base Comum de Conhecimento Cidadão. É um sistema que foi construído a partir de sinal de antenas numa área próxima a 1 km, e que fornece um rede interna para diversas troca de informações na comunidade. A Artigo 19 esteve representada na roda por Laura Tresca, que comentou um pouco do trabalho que a organização tem feito em prol das redes livres – como esse excelente guia de como montar e regularizar um provedor comunitário.

Havia mais pessoas na mesa, houve mais debates, e conversas, mas como dá pra perceber, nem tudo consegue ser registrado. Depois do encerramento do evento, longe da Casa do Povo, no bairro central do Bixiga, ainda houve a parte “Rave” do evento, no Al Janiah, bar onde trabalham diversos refugiados e que tem se tornado espaço de resistência, em especial da esquerda paulistana. A Crypto encerrou com rock, eletrônico, kebabs, schwarmas, falafel, araques, cachaças, sambas, húmus: eclética.

Fotos: 1 (Rafael Zanatta), 2, 6, 9, 11, 12, 13, 14 (Cryptorave), 3, 4, 5, 7, 8, 10, 16, 17, 18 (BaixaCultura).