Erros, acertos e experiências no jornalismo pós-industrial

post industrial

No início de junho de 2014 fiz um comentário breve no Facebook sobre boas novas pro jornalismo brasileiro a partir de um cenário otimista de expansão de iniciativas “independentes” dos grandes grupos de mídia (Globo, Folha, Estadão, RBS, etc). Fiz motivado pelo surgimento de “A Ponte“, um site de jornalismo de investigação focado em temas como direitos humanos, segurança pública e justiça, temas tão importantes quanto mal noticiados ultimamente.

O comentário também falava de como a crise do modelo industrial de informação poderia gerar uma “Idade de Ouro” no jornalismo, como acredita, por exemplo, o Bruno Torturra, ex-editor da “Trip”, um dos idealizadores da “Mídia Ninja” e ele mesmo, hoje, tocando um projeto independente de jornalismo, o estúdio “Fluxo“, que recentemente (final de julho de 2014) começou uma campanha de financiamento coletivo para o projeto.

Mais ou menos um mês depois do comentário, uma notícia quis que eu pensasse um pouco mais o tom otimista do comentário. A notícia é esta, publicada em 22 de julho de 2014: “O braço fraqueja às vezes: o Impedimento acabou“, que anuncia o fim de uma das iniciativas mais interessantes de jornalismo esportivo brasileiro, o site Impedimento. Na hora, senti o golpe no tom otimista, de cenário promissor, de explosão do jornalismo – da mídia de massas à massa de mídias, como diz o jornalista e professor francês Ignácio Ramonet em seu último livro – e escrevi o texto “Sobre o fim do Impedimento e o ecossistema do jornalismo“, no Brasil Post. Dizia, entre outras coisas:

“Hoje sabemos que o mundo é outro, que a publicidade por si só não paga o jornalismo na internet, e que, principalmente, o jornalista não está mais sozinho na produção de informação como em outros tempos. Muitas pessoas com o mínimo de acesso a internet podem cometer “atos de jornalismo” ao noticiar para milhares de pessoas em uma rede social, por exemplo, que um acidente de carro ocorreu em frente a sua casa. Neste cenário, como “premiar”, que seja com a continuidade, as melhores iniciativas de pessoas que trazem informações importantes para a nossa vida cotidiana? Como sustentar e qualificar uma quantidade grande de produtores de informação para bancar uma “dieta saudável” de informação, não dependente apenas de notícias “industrializadas” e, não rara, carregadas de quantidades tóxicas de interesses disfarçados? Como promover a continuidade de um jornalismo que seja um pouco mais transparente em seus interesses, um pingo mais sincero em sua forma de comunicar e que consiga, ainda assim, ter condições de ir atrás de histórias interessantes e importantes para a nossa vivência diária?

Talvez o comparativo com a produção da agricultura orgânica e/ou familiar possa servir para apontar um possível caminho para o aumento do “ecossistema”: pequenos produtores, menos (ou zero) fertilizantes, produção e consumo local, ecologicamente sustentável, menos intermediários, mais sinceridade no trato e menos cinismo. Talvez caminhar no fortalecimento dessa via seja uma boa coisa para a saúde desse ecossistema. Ou nos resta assumirmos que essas iniciativas que vem e vão são – nesse enquanto que o jornalismo tateia reinvenções – efêmeras, rotativas, e transformadoras dessa forma, no processo, no “foi bom enquanto durou”, como é (foi) o caso do Impedimento.”

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impedimento

Marcelo Träsel, professor de jornalismo digital da PUCRS, recentemente fez uma ótima análise em seu blog sobre o caso Impedimento e o do blog Destemperados. Ambos iniciaram suas atividades como blogs amadores em Porto Alegre e ampliaram suas atividades ao longo do tempo, profissionalizando-se e buscando formas de financiar a atividade editorial. Entretanto, o Impedimento acabou e o Destemperados assumiu recentemente a direção do caderno de culinária da Zero Hora. Por quê? A resposta mais simples é que, enquanto o Impedimento produzia jornalismo no sentido estrito, o outro publicava crônicas agradáveis que registrassem estabelecimentos interessantes, sem criticar, mas servir como um guia. Inclusive, um dos dez mandamentos dos Destemperados é “não avaliarás”, algo que não soa bem para o jornalismo, sempre tão crítico a tudo e todos.

Träsel faz uma análise completa do histórico dos dois casos. Cita que o Impedimento buscava, dentro dos “limites operacionais estreitos de um grupo de repórteres sem esteio numa empresa ou instituição, publicar informação que alguém, em algum lugar, preferiria não ver publicada”. Já o Destemperados não tinha esse compromisso. Queria, sim, ser um mostruário de gastronomia, não um jornalismo crítico de culinária. O fato deste último ter, em seu quadro um publicitário, um advogado e uma profissional de Relações Internacionais, facilitava esse afastamento da “missão principal da imprensa”. Coisa que no Impedimento não acontecia, pois todos seus fundadores eram jornalistas. A partir das diferenças dois dois exemplos, o texto aponta 4 liçõessobre empreendimentos jornalísticos independentes hoje. A saber:

1. Se é um empreendimento, alguém na equipe deve assumir o papel de empresário. A principal diferença entre o Impedimento e o Destemperados foi a predominância de uma mentalidade jornalística no primeiro e de uma mentalidade empresarial no segundo. Deixando-se de lado esse fator, todas as outras condições e circunstâncias são muito semelhantes, assim como ambos apresentam boa qualidade de conteúdo dentro de suas propostas.

2. Se ninguém na equipe mantém boas relações com empresários, políticos ou agências de publicidade, só há duas alternativas de financiamento: patrocínio do terceiro setor ou faturamento com venda direta à audiência. O problema do patrocínio do terceiro setor é depender também, em alguma medida, de boas relações políticas. Embora em geral a concorrência por bolsas seja mais aberta, baseada em editais, os selecionadores levam em conta a inserção de um determinado projeto numa comunidade de ativistas — por exemplo, o fato de algum dos proponentes já haver participado de outros projetos como voluntário ou funcionário. Além disso, em geral esse tipo de patrocínio se foca em jornalismo voltado a questões políticas e sócio-econômicas, o que eliminaria tanto o Impedimento quanto o Destemperados do concurso.

3. O problema de contar com financiamento direto pela audiência é ninguém ainda ter descoberto exatamente como vender notícias para leitores na era do jornalismo pós-industrial. Se alguém descobrir como fazê-lo, avise.

4. A terceirização parece ser uma via promissora, ao menos no Brasil. Além do Destemperados, há em Porto Alegre a experiência de agências como Cartola, Fronteira e República. Seus fundadores são repórteres jovens que, insatisfeitos com as restrições das redações tradicionais, pediram demissão e criaram suas próprias empresas. Hoje, prestam serviços para seus ex-empregadores e inclusive grandes veículos do Sudeste. Ganharam mais liberdade de escolha das pautas a serem perseguidas e, ao mesmo tempo, melhores salários e qualidade de vida.

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farol

Marcela Donini, jornalista e professora de jornalismo da ESPM, também leu o texto de Träsel e comentou em outro artigo importante para entender a situação hoje, a começar pelo título: Não sabemos de nada. Ali, também a partir dos dois casos, ela aponta o que, nas palavras dela, todo mundo já sabe: nós, jornalistas, ainda não sabemos como bancar reportagens desde que as verbas publicitárias começaram a migrar para outros canais na internet. Ela aposta numa hipotése: não é que as pessoas não querem mais pagar pelo jornalismo, a maioria delas talvez nunca quis pagar, pagava porque não tinha opção.

O texto foi publicado no Farol Jornalismo, uma interessante iniciativa de ideias, produção e pesquisas sobre novas formas de jornalismo, um projeto dela e de Moreno Osório, também jornalista e pesquisador do tema. “As pessoas pagavam uma assinatura de jornal diário mas acabavam lendo só a seção de esportes. E nós jornalistas tínhamos a ilusão de que elas se interessavam por todo o nosso produto, porque era difícil medir. Na internet, é possível saber direitinho o que dá audiência e o que não dá – e por testemunhos nossos, de colegas e por experiência como leitores, sabemos que esportes, celebridades e serviço fazem, em geral, mais sucesso do que política e economia. É o eterno embate entre o que o público quer ler e o que os jornalistas acham que o público precisa ler.”

Jornalista com experiência de anos em redação, ela comenta que esteve com uma editora de um jornal que falou de um conteúdo multimídia bem acabado com vídeos e infográficos sobre os 25 anos da Constituição e cuja audiência foi pífia. Um tema relevante, mas que, infelizmente, não interessa a muita gente, ainda mais na rede, com zilhões de outros assuntos te pedindo atenção. A partir daí, ela conclui que o “problema do jornalismo hoje não é que essas 3 pessoas não pagam a execução de um especial multimídia como esse; as pessoas nunca financiaram inteiramente o jornalismo, quem sempre bancou a imprensa foram os anunciantes“.

Sabemos que o jornalismo moderno é fruto do alvorecer capitalista do século XVIII, e seus financiadores foram, principalmente, os partidos, naquela época (até meados do XIX) em que o jornalismo era em suma opinativo e ligado a política; e a publicidade, notadamente do final século XIX e todo o século XX, em que a objetividade serviu como garantia de uma suposta neutralidade necessária para aumentar – e depois manter – o esquema industrial de produção de notícias. Hoje talvez saibamos que a publicidade não dá mais conta de (ou não quer) pagar o jornalismo. Mas o que dá?

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publica

Pergunta de um milhão.

Há iniciativas de vários lados, além das várias já citadas aqui: as financiadas por fundações privadas, em geral dos Estados Unidos, onde existe uma tradição de filantropia que potencializa iniciativas como a Pro Publica e a Agência Pública, no Brasil, que tem a Fundação Ford como principal financiador, além da Open Society e da Omydar, esta comandada pelo milionário Pierre Omydar, criador do E-bay, e que hoje está bancando outra iniciativa importante de jornalismo de investigação, o First Look Media, lar do The Intercept, comandado por Glenn Greenwald.

As “ongs” de jornalismo, como a Repórter Brasil, que trabalham com pesquisas, junto à governos (federal e estadual) ou a iniciativa privada (fundações e institutos) e também contam com doações, o que permite uma certa liberdade para tocar projetos de maior fôlego e que não teriam espaço nas publicações tradicionais, como é o caso do Moendo Gente, um especial multimídia sobre as condições de trabalho nos frigoríficos brasileiros. E, em especial, do Arquitetura da Gentrificação, uma investigação jornalística sobre o processo de gentrificação no centro de São Paulo financiada coletivamente – e que está em sua 2º edição em captação no Catarse. O AG tem por foco as medidas de higienização social adotadas durante as duas últimas administrações municipais de São Paulo (2005-2012), em especial as relações entre poder público e empresas privadas do setor de construção civil e ramo imobiliário – tradicionalmente, os dois ramos que mais investem na publicidade dos grandes jornais de SP, Folha e Estadão.

Existem, ainda, as startups, empresas pequenas que focam em soluções inéditas para problemas não-resolvidos (ou não pensados), em geral relacionadas a tecnologia digital e a internet. O cenário de muita experimentação e de crescimento da importância da tecnologia na produção do jornalismo (taí o jornalismo de dados para provar) parece ser favorável para o surgimento de pequenas empresas que criam produtos (aplicativos) ou serviços relacionados ao jornalismo. Nos Estados Unidos, onde a tradição empreendedora é forte, já existe até um centro de investigação com uma especialização nessa área, tocada por um Instituto ligado a Kony University e ao Knight Center.

Rosental Calmon Alves, brasileiro fundador da Knight Center para as Américas na Universidade do Texas, comentou, no último congresso da Abraji, que ele mesmo dá uma disciplina chamada jornalismo empreendedor (“Entrepreneurial Journalism”; dá uma olhada no currículo da universidade). A ideia da cadeira é que os estudantes criem uma startup, e para isso eles devem passar por “pitchings” diversos, inclusive o famoso “Elevador Pitching”, que consiste de apresentar a sua ideia em 3 minutos, como se estivesse num elevador com um investidor e aquela fosse tua única chance para convencê-lo a investir. Ao final, os alunos apresentam sua ideia para um jurado de investidores, que os avalia. No caso do Texas não há dinheiro de fato envolvido para os “vencedores” da turma, mas na especialização da Kony, por exemplo, esse mesmo processo dá R$50 mil para quem passar no pitching final.

Há um relatório sobre inovação no jornalismo, feito pela equipe do NY Times e muito citado por Rosental em sua fala, que aponta para o caminho das startups como um dos mais promissores na era do jornalismo pós-industrial. Vice, BuzzFeed, Huffington Post, Vox Media parecem dizer que esse é uma via em expansão – pelo menos nos Estados Unidos. No Brasil, há iniciativas que visam abertamente a incentivar a inovação no jornalismo, como é o caso da OrbitaLab, que surgiu para reunir quem tem projetos de mídia e quer tirá-los do papel e na última Campus Party fez uma maratona de debates sobre este assunto (estive lá e fiquei com a impressão que Marcela nomeou seu texto: não sabemos de nada. Estamos só testando. Quem errar melhor agora parece ter mais chance de acertar depois).

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ocupamidia
Ocupação da Câmara Municipal de Porto Alegre, 2013.

Um assunto que nem sempre aparece relacionado ao ecossistema em expansão do jornalismo hoje é o debate sobre a democratização da mídia, em especial no que diz respeito as verbas de publicidade dos governos. Há no Brasil uma forte concentração de dinheiro da publicidade governamental no que se convencionou chamar de “grande mídia” (tvs, rádios, jornais, revistas e portais de notícias), frequentemente conglomerados de comunicação que contém vários meios. Alega-se que estes grupos e seus meios tem a maior audiência e, por isso, são os que mais recebem dinheiro, sobrando pouco para pequenas publicações, rádios e tvs comunitárias que poderiam diversificar o leque de canais de informação a disposição da população.

Para ficar num exemplo prático, vejamos o caso do Rio Grande do Sul. O Grupo RBS, dono da RBS TV, jornais Zero Hora e Diário Gaúcho e da Rádio Gaúcha, abocanhou 35% da verba de publicidade do estado do RS em 2013, segundo dados obtidos pelo site Jornalismo B, o que dá cerca de R$17,5 milhões. Só em TV, onde a produção jornalística requer mais equipamentos e investimentos, 65% da verba de publicidade para o interior do RS fica com a RBS; na capital Porto Alegre, são 45%. No rádio, são 46% na capital para a Rádio Gaúcha, enquanto que nas rádios do interior esse valor é amplamente diluído, ficando a rádio Gaúcha com 6%.

Alguém pode alegar: nada demais nesses números. No que pergunto: recebem mais verba porque os veículos do grupo RBS são os mais vistos, ouvidos e lidos no RS, ou porque recebem mais verbas é que o produto final acaba sendo o mais lido? Há diversas explicações por trás dessa questão tipo “o ovo ou a galinha”, que se esmiuçadas nos ajudam a entender porque determinado grupo anda de mãos dadas ou jogando pedras em certos governos ao longo da história. Para ficar apenas em um exemplo: o jornal Zero Hora, hoje o principal do RS, foi criado em 4 de maio de 1964, um mês depois do golpe militar no Brasil. Não é coincidência que no seu início o jornal tenha saído abertamente pró-golpista, congratulando os militares que recém haviam tomado o poder e que nele permaneceram por duas décadas. Esse especial, também do Jornalismo B, esmiuça a relação da ZH com a ditadura militar brasileira.

Não tenho acesso ao orçamento do grupo RBS hoje, mas certamente o dinheiro da publicidade governamental não é a sua principal fonte de renda. Mas em algum momento foi para hoje não ser mais. O que me remete novamente ao contexto atual, de um novo ecossistema de informação, com milhares de novas publicações “não-industriais” e várias pessoas cometendo “atos de jornalismo” diariamente. Se ampliamos a distribuição de verbas do governo para novas mídias, blogs, jornais de bairro, tvs e rádios comunitárias, não estaríamos fomentando a proliferação de mais mídias, ampliando o ecossistema do jornalismo e proporcionando uma saudável concorrência por um jornalismo de qualidade? Ainda que haja críticas diversas a Lei dos Meios na Argentina, por exemplo, ela permitiu durante a última Copa do Mundo com que muitas comunidades humildes, indígenas, paróquias, municípios pequenos, pessoas jurídicas ou organizações não governamentais pudessem transmitir, sob a sua visão particular, os jogos, um ganho considerável em questão de pluralidade de pontos de vista.

Sabe-se que este certamente é um vespeiro difícil de mexer, dado a ferrenha oposição que os grandes grupos de comunicação brasileiros já demonstraram contra qualquer mudança no status quo da mídia no país, das concessões de tvs e rádios a criação de um conselho de jornalismo, batalhas estas da qual o coletivo Intervozes é a principal frente de oposição aos interesses corporativos. Não é preciso imaginar muito que estes mesmos grupos atacariam qualquer iniciativa de democratização da comunicação – possivelmente alegando palavras contrárias a “liberdade de expressão”, ou relacionando corrupção com investimento em blogs “governistas”, já que ser “tendencioso” é um risco que se corre com o investimento em pequenas mídias.

No mesmo RS, há uma tímida reação no sentido de democratização das verbas de comunicação com a criação da Política Estadual de Incentivo às Mídias Locais, Regionais e Comunitárias, lei aprovada na Assembléia Estadual em abril de 2014. Ela contempla 20% da verba de publicidade do governo do RS (executivo, legislativo e judiciário) para periódicos, jornais e revistas impressas com tiragem entre 2 mil e 20 mil exemplares editados sob responsabilidade de empresário individual, micro e pequenas empresas e veículos de radiofusão local – devidamente habilitados em conformidade com a legislação brasileira.

Não menciona qualquer linha as mídias na internet, o que é uma pena, dada a importância que a rede tem para a proliferação de pontos de vistas diferenciados. Mas uma exclusão compreensível, pelo menos em parte, pela relativa novidade (para o governo, sempre correndo atrás da sociedade) da questão, que põe lado a lado formas organizadas de pressão política (a realizada, ainda que timidamente, por jornais de bairro, tvs e rádios comunitárias) e a de blogs e mídias digitais, dispersas e não raro apartadas da política “tradicional” por recusa ao sistema político como está posto. Há, por fim, a justificativa da falta de formalização de muitas mídias digitais hoje, o que inviabilizaria que estas vencessem os trâmites burocráticos para concorrer as verbas do governo e abriria precedentes para diversas acusações de favorecimento de “amigos” – “mas como o blog Z ganhou X reais do governo?”, e coisas do tipo. A criação de um fundo estadual com esta verba, somada a regras bem claras e um conselho amplo que organizasse a distribuição, poderiam amenizar essa situação – mas achar que evitaria 100% estes casos ainda é, hoje, infelizmente uma utopia.

Ainda assim, a iniciativa não deixa de ser uma pequena vitória no sentido de fortalecer os pequenos veículos de comunicação e democratizar o fluxo das informações direcionadas à população. Talvez, nesse contexto caótico e afeito a novidades de hoje, esperava-se mais rapidez e avanços na proposta. Se o jornalismo está virando pós-industrial, os interesses políticos (e os da “indústria” da comunicação) ainda parecem estar fincados numa pesada e lenta era industrial.

[Leonardo Foletto]

Crédito fotos: 1, 2, Douglas Freitas (que ajudou na escolha da primeira foto também, valeu)

Juremir Machado e os (finados?) direitos autorais na internet

O jornalista, doutor em Sociologia, escritor, tradutor e professor da PUC-RS, Juremir Machado da Silva andou expressando suas dúvidas e descréditos quanto aos direitos autorais dos escritores na internet. As opiniões saltaram do twitter para dois posts em seu blog no jornal Correio do Povo, no qual é colunista. Nos textos “a lei de Gerson da internet” 1 e 2, ele basicamente refaz a pergunta que assola o mundo há muito tempo: e o dinheiro? onde está o dinheiro dos direitos autorais na rede? Ele existe, ou a internet está acabando com o direito autoral?

A seguir, começamos um diálogo com os textos de Juremir, a fim de entendermos suas ideias e, também, de colocar as nossas, além de buscar outras informações que complementam a discussão. Claro que não temos um pingo da sabedoria e da ironia de quem lida com mercado editorial há pelo menos 20 anos, mas bora lá.

Deve existir direito autoral?

Entrei numa briga ao lado de um amigo, o editor da Sulina. Luis Gomes ficou chocado quando viu livros inteiros do seu catálogo disponíveis num blog chamado, se não me engano, “livrosletrasUSP”. Reclamou.

O nome da USP foi tirado.

A editora Jorge Zahar, pelo jeito, também se queixou da disponibilização de livros de Bauman, autor em voga.

A pressão aumentou. O site foi tirado “do ar”.

Virou polêmica no twitter.

Como toda polêmica, segundo o ritual, com boas tiradas, muitas provocações, alguma grosseria e até humor.

A questão é esta: ainda é possível e legítimo ganhar dinheiro com livros?

Ou: como resolver o conflito complexo entre o ideal de acesso gratuito e universal ao conhecimento e o respeito ao trabalho alheio e aos investimentos em torno desse trabalho? O que deve prevalecer?

Parece que os donos do blog são alunos da USP preocupados com os preços altos dos livros e com a livre difusão do conhecimento. Faz sentido. Muito sentido.

Eu acredito que o modelo atual de produção e comercialização de livros está comprometido. Deve caminhar para a relação direta entre editoras e leitores. Ou entre autores e leitores (consumidores?)

As dúvidas sobre a “pirataria digital” são frequentes e merecem ser discutidas, principalmente alguém com uma grande influência como Juremir. Como já dito, ele evidencia: “A questão é esta: ainda é possível e legítimo ganhar dinheiro com livros?“. Legítimo e possível, sim. Mas é muito difícil viver dos direitos dos livros, como já comentamos. Sobre ganhar alguns trocados, que o diga o mestre Paulo Coelho, que se autopirateia faz tempo e nem por isso deixou de vender. Vamos abrir um parenteses e atentar para alguns detalhes da supralinkada notícia:

[Sem o livro impresso e munido da tradução para o russo, Coelho decidiu disponibilizá-la em seu site.
Coincidência ou não, as versões do livro em papel, quando reeditadas naquela língua, bateram 1 milhão de exemplares vendidos.

“Recebia muitos e-mails que faziam referência à edição pirata do site.” Entusiasmado, o escritor resolveu repetir a estratégia com outros livros em outras línguas colacionando links das obras dos sites troca de arquivos. “Criei o meu “Pirate Coelho!“]

Claro, Paulo Coelho é um escritor best-seller.  Por conta disso, é muito mais fácil fazer qualquer ação de marketing – mesmo que sem saber. Mas ele sacou (talvez à força ou sem querer, enfim) que existe alternativas de negócio na rede.

Continuando com Juremir, ele admite que o atual modelo de comercialização de livros está comprometido e que Deve caminhar para a relação direta entre editoras e leitores. Ou entre autores e leitores (consumidores?). É o já velho dogma que a internet trouxe sobre o fim da Indústria da Intermediação – que não temos como saber por enquanto se é só previsão furada ou de fato verdade.

Até se compreende que as potencialidades interativas do digital ainda não tenham sido experimentadas pela maioria das grandes editoras e escritores. O apego aos modelos antigos de comércio resulta em preguiça de inovar. E, talvez, os ganhos editorais ainda não sejam tão altos a ponto de fazer perder o medo na busca pelo diferente.

Paulo Coelho sacou, sem querer, que existem formas alternativas de negócio para na rede

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Quanto a produção acadêmica financiada com recursos públicos, já defendemos que ela deve ser disponibilizada sempre gratuitamente.

A produção acadêmica em curso não precisa mais de editoras e distribuidores. Pode simplesmente ser colocada na rede. Por exemplo, nos sites de cada instituição.

Por que isso não ocorre? Por falta de hábito ou porque alguns autores buscam um prestígio ainda ligado a editoras convencionais ou a livros em papel?

Disso ele levanta a questão de como determinar a qualidade se for tudo liberado. Obviamente que o conteúdo tera que ser lido/consumido para a avaliação e cita dois tipos de quem poderia avaliar: “Alguns apostam em comissões de especialistas. Outros, no julgamento difuso da população, o chamado tribunal das reputações intelectuais. Será que uma comissão consegue julgar sem preconceitos ideológicos ou de outra natureza?”. E por que não os dois? E como assim uma “comissão” conseguiria julgar SEM ideologia? Existe algo “puro”, não atravessado por uma ideologia?

Estes tempos ultra-modernos tem nos mostrado que uma coisa não mata outra: a convivência de diversas opções/mídias/modelos de negócio/modos de viver é possível e desejável. Mesmo que o caos predomine no início, haverá uma nova uma forma de se trabalhar com ele de modo produtivo.

Continuando com Juremir:

São questões em aberto. Certo é que o conhecimento acadêmico, especialmente aquele produzido com verba pública, pode e deve ser disponibilizado na rede.

Isso significa o fim do direito autoral?

Lessig, como secretário de justiça dos EUA, abolindo os direitos autorais. Ficção possível?

Lembremos do post passado, onde no filme “Prometeus” surge a previsão de que Lawrence Lessig abolirá o direito autoral quando chegar a secretário de Justiça dos EUA, nos idos de 2020. E também do texto de Rick Falkvinge, do Partido Pirata da Suécia: “se a legislação não for modificara”, a próxima geração de políticos vai abolir de uma vez só o monopólio do Copyright. O quanto isso é ficção ou previsão certeira só o tempo dirá. Mas é fácil de imaginar que, quando a geração que nasceu com a internet estiver no “poder”, daqui a uns bons 20 a 30 anos, o copyright vai se modificar radicalmente.

O que fazer com quem publica livros, mesmo de ciências humanas, sem verba pública e espera ter retorno financeiro e até viver das suas publicações?

Se até os escritores de ficção raramente “vivem de literatura” que dirá os acadêmicos que só são lidos por um seletíssimo público no Brasil.

O que fazer com uma editora que comprou os direitos de publicação de um livro estrangeiro, pagou a tradução, a editoração e a impressão?

É correto e justo pegar esse livro e disponibilizar na rede para acesso gratuito? Isso não pode ser visto como apropriação de trabalho e de investimento alheios?

Por exemplo, um livro de Bauman.

Alguns alegam que disponibilizar na rede não afeta as vendas. Será? Qual a comprovação disso? Por que não?

Vejamos um exemplo não muito novo: a série Harry Potter. Em 2007, quando foi lançado o último livro da série inglesa, leitores/consumidores/fãs traduziram as 784 páginas em 10 dias, na ânsia de saber o fim da história. Mesmo assim, a editora Rocco não deixou de lançar a edição pela tradutora oficial, Lia Wyler. E duvidamos que tenha dado prejuízo.

Com um autor como Bauman, mundialmente conhecido e citado, não deve ser muito diferente. Até porque quem não puder comprar, vai xerocar o livro, como muito pesquisador/professor precisa fazer para trabalhar.

Outros sugerem que cada um deve ser livre para comprar os livros que achar interessantes e baixar os desinteressantes, de interesse passageiro ou de leitura escolar. Os “desinteressantes” não têm custo?

Autores medíocres ou “desinteressantes” não devem ser protegidos pela lei do direito autoral?

A lei francesa permite até a prisão de quem baixa arquivos na internet ilegalmente.

O Brasil deve ser mais flexível?

Não há nenhuma razão para o Brasil adotar a Lei Hadopi. Por que o Brasil deve continuar a se sujeitar e ser maria-vai-com-as-outras?  O Hadopi é uma lei radical que determina o corte da internet caso um usuário baixe conteúdo protegido pelo desatualizado copyright. Há até uma pesquisa, de franceses inclusive, dizendo que o esse tipo de lei pode ter um efeito reverso e aumentar a “pirataria”.

Eu sou a favor de mudanças na lei do direito autoral vigente no Brasil. Acho que o tempo para cair em domínio público deve baixar bastante. A parte do autor no preço de um livro deve ser sempre maior que a do editor. Atravessadores devem ser eliminados. Sonho com livros a R$ 1 real na internet. O trabalho intelectual tem preço. Livros esgotados devem ser copiados. Governos devem investir muito mais em bibliotecas. Isso deve conduzir ao fim do direito autoral? Ganhar com livros é ilícito?

Por que Chico Buarque não seria proprietário das suas canções? Por que ele não poderia viver da venda de gravações das suas músicas? Por que jogadores têm direito de imagem e intelectuais não seriam proprietários das suas ideias, boas ou ruins, brilhantes ou medíocres?

Depois dessas especulações, Juremir sugere uma operação “libertação dos livros”, em que estudantes comprariam direitos de livros estrangeiros ou obteriam a liberação de autores e editoras para liberar na rede.

Eu sou a favor de sites com livros integrais. Sugiro que jovens brilhantes ou não, com ajuda dos seus professores, mergulhem numa operação “libertação de livros”: comprem direitos de livros estrangeiros, ou obtenham a liberação com seus autores e editoras, façam as traduções e disponibilizem na rede. Poderiam começar por Habermas, cuja obra principal não tem tradução no Brasil.

Que tal usar o crowdfunding para isso? Financiar a compra dos direitos autorais de livros estrangeiros, a tradução e a disponibilização na rede? Alô, Catarse.

Agora, simplesmente pegar o que outros fizerem e disponibilizar parece uma apropriação indébita. É fácil ver o editor como o capitalismo selvagem sedento de lucros. Boa parte das editoras é pequena. Elas mal sobrevivem. Criam empregos. Gastam. Querem retorno.

Por que nossos bravos guris da USP não botam na rede inteiro o excelente catálogo da Cia. das Letras? Por que não a atacam por não favorecer essa operação? Será que não querem se queimar com uma editora charmosa e com prestígio? Querem ter a porta aberta para publicar lá?

Vai ver ainda não tiveram a oportunidade de escanear os livros da Cia. das Letras.

Essa questão tem várias pontas. Uma delas é o acesso ao conhecimento. Outra, a carência dos estudantes. São questões legítimas. Quem deve pagar a conta? As editoras? Os autores? É possível um modelo que contemple todos os envolvidos? A internet não é uma biblioteca qualquer. Parece mais uma livraria sem pagamento. O efeito é diferente. Por que não estão na rede, que eu saiba, em sites ou blogs comentados e divulgados, livros como “1808” e “1822”? Algumas editoras e autores são poupados?

Não haveria por trás disso uma ideologia anticapitalista radicalizada e contraditória pela qual o livro, em alguns casos, não pode ser mercadoria?

Uma busca rápida no google com as palavras “1808 download” achou 11.300.000 resultados. Algum deles deve estar funcionando, não?

Por que eu, mesmo medíocre, não poderia ser dono das minhas ideias e dos meus livros? Por que alguém poderia dispor deles para reprodução ilimitada sem me consultar?

Dado que a tecnologia permite reprodução ilimitada, devemos abrir mão da possibilidade de viver da venda de livros? De qualquer livro? Ou só de ciências humanas? Ou só de ciências humanas com financiamento público?

Cristovão Tezza acha que o livro em papel e digital vão conviver juntos

O livro ainda pode (e deve) ser vendido, tanto digital quanto fisicamente. Mas saiba que, com os preços abusivos atuais no Brasil, por exemplo, ele também será encontrado para baixar na internet. Mas há uma questão extra que, por enquanto, tem salvado os escritores, como disse o escritor babaca que não vende livro Cristovão Tezza nesta entrevista de 2009:

[Baixar um livro é infinitamente mais fácil que baixar um filme e mesmo uma música, mas a leitura digital de um texto longo no monitor é desconfortável – é isso, até aqui, que vem salvando os escritores. Com a chegada dos livros digitais, isso pode mudar. Até porque, parece que não há formato de arquivo, por mais exclusivo que seja, que não acabe convertido em outro de uso corrente.]

O despreparo das editoras é visível também nas livrarias online. Dois casos ilustram isso: o da versão do livro digital ser mais cara que a do livro impresso, e o de e-books com frete. Em 2009, a editora Plus alertou que o preço da versão digital do livro O Seminarista, de Ruben Fonseca, estava custando mais caro do que o da versão impressa em lojas virtuais indicadas pela Editora Ediouro. Pouco depois a Editora baixou o preço da versão digital (mas continuava caro). Outro empecilho para a venda de livros digitais é o prazo da entrega, ou seja, o frete dos bits. Em 2010, o Gizmodo mostrou a difícil compra do e-book “1822”, e que iria demorar quatro dias para chegar ao consumidor. Será que os clientes estão sem razão?

Todos os artistas que brigam por direitos autorais defendem direitos mercantis ilegítimos e repugnantes?

A lei não deve ser aplicada a estudantes e professores que defendem a universalização do saber?

Não cansemos de repetir: a lei está desatualizada.

São imbecis e fascistas todos aqueles que pretendem ganhar dinheiro com seus livros e que defendem o respeito a contratos firmados com editoras ou com gravadoras?

É moralmente superior pregar a apropriação do trabalho alheio, com todos os seus custos e expectativas, em nome de uma suposta universalização do conhecimento?

É lícito que alguém assine um contrato com uma editora, em busca de prestígio ou de dados para o seu currículo, sendo beneficiado por um investimento, e depois disponibilize o livro na rede pensando, ou até dizendo, “azar do editor, eu já consegui o que precisava”?

E-book de Chico Buarque mais caro do que a versão impressa. Prejuízo de quem? [clique para ampliar]

Se a relação custo/benefício da compra do livro impresso valer a pena, as pessoas vão comprar o livro. Entram aí diversas questões, como a qualidade da edição e o quanto (não) é cômodo ler este livro no computador.

Lendo algumas das mensagens dos garotos da USP, que me foram repassadas, simpatizei com eles: irônicos, espírito libertário, debochados, sarcásticos, discípulos, talvez de Guy Debord… Posso me permitir pensar que estão analisando parcialmente o problema?

Sinto-me tranquilo para falar: faço campanha permanente pela queda dos preços dos livros. Acho absurdo que um livro saia da gráfica por R$ 2 e seja vendido por R$ 40. Aposto na tecnologia para que isso seja mudado.

A melhor mudança é liquidar o direito autoral?

Liquidar? Talvez. Apropriá-lo para o meio digital seria a opção mais sensata.

Andei escrevendo Cossac em lugar de Cosac. Imaginei uma editora brasileira recente de autores soviéticos tardios. Uma editora fashion sustentada por banqueiros idealistas e comprometidos com a arte. Tudo bobagem da minha cabeça. Foi só um erro. Essa editora só me chama a atenção pelas capas duras e os livros feios e caros.

Sou preconceituoso, implicante, grosseiro, sem importância e maldito, o Bolsonaro do direito autoral.

Defendi a prisão dos copiadores de livros. Mas sem cela especial, pois, se bem entendi, eles ainda não se formaram. Já os professores…

Pirata que é pirata precisa rir de si mesmo.

Salvo se for algo mais simples, um pragmatismo libertário:se não gosto ou não acho importante, não pago, mas uso. Ou, se dá para copiar, por que pagar?

Afinal, o prejuízo é de outros mesmo.

O estopim para os textos de Juremir foi o caso do blog, já deletado (na imagem acima), LetrasUSp Download, que depois mudou para Livros de Humanas, e foi apagado, e agora está no twitter [Leiauma entrevista com o responsável]. Um novo modelo de negócio da produção intelectual escrita é preocupação não só aqui, mas no exterior há bastante tempo, como mostra essa matéria do The New York Times traduzida pelo Terra há dois anos. O cenário era quase o mesmo. Algumas editoras de lá empregam funcionários para rastrearem links que contenham obras protegidas, mas não adianta muito:

[“É uma caça interminável”, disse Russell Davis, autor e presidente da Escritores de Ficção Científica e Fantasia da América, uma associação comercial que ajuda escritores a perseguir piratas digitais. “Você acaba com um e outros cinco aparecem”.]

O texto termina com uma frase do escritor Cory Doctorow, que será tema de um próximo post aqui, defendendo as cópias digitais, pois elas atraem novos leitores: “”Realmente sinto que meu problema não é a pirataria”, Doctorow disse. “É a obscuridade”.

Terminemos o diálogo com Juremir com três exemplos/possibilidades. O primeiro vem de Robert Darnton, diretor da biblioteca de Harvard, que escreveu um texto chamado “Cinco mitos sobre a idade da informação“, que foi traduzido pelo Observatório da Imprensa. Lá no meio do texto, Darnton tenta acabar com a visão maniqueísta de “e-books contra livros”:

[Uma visão mais sutil recusaria a noção comum de que livros velhos e e-books ocupam os extremos opostos e antagônicos num espectro tecnológico. Devia-se pensar em livros velhos e e-books como aliados, e não como inimigos.]

O segundo trata de uma bem azeitada fala de Bob Stein, presidente do Institute for the Future of the Book, que veio ao Brasil ano passado, no Fórum da Cultura Digital 2010.

“O futuro do livro segue em duas direções. O livro impresso se transformará em um objeto de arte. Em outras palavras, pessoas abastadas poderão comprar lindas versões de livros impressos. Eles terão mais ilustrações e servirão como um souvenir. Já a maioria dos livros terá como padrão o formato digital. Você poderá imprimi-lo, se quiser, e a leitura se tornará muito mais social e dinâmica.

Oráculo de Palomas, o vidente juremiriano

E o terceiro é do próprio Juremir. Apocalíptico, o ácido profe/escritor/pensador/cronista usa seu “Oráculo de Palomas” – personagem inspirado em sua cidade preferida, Palomas, um vilarejo fictício baseado em uma vila perto de Santana do Livramento, terra de Juremir e cidade fronteiriça do RS com o Uruguai – para fazer algumas previsões sobre o futuro de toda essa discussão, via twitter.

_ A tecnologia vai acabar com o direito autoral, salvo se politicamente não se quiser. Isso vai acabar com as editoras.

_ O fim de editoras e livros em papel pode não ser tragédia. A tragédia, sem direito autoral, será o fim do escritor.

_ Músicos fazem shows. Escritores, sem direito autoral, viveram de quê? De palestras? E os que são ruins nisso? Fim.

_ Com o fim das editoras e dos direitos autorais, voltaremos ao dilentantismo e ao beletrismo. Os melhores desistirão.

_ O fim do direito autoral levará ao fim de editoras e autores. Ainda bem que tudo isso será suplantado pelo fim da escrita.

_ Com o fim da escrita, compreenderemos que Tiririca estava na vanguarda. O problema do analfabetismo estará enfim resolvido.

P.s: Pedimos sinceras desculpas ao mestre por reproduzir suas falas. Como bom defensor da propriedade e da privatização de seu próprio intelecto, da venda de tudo que sai dele, e da fiscalização e da cadeia para quem vender sem sua autorização, como andou dizendo estes tempos em seu twitter, Juremir está convidado a aparecer aqui neste espaço e reinvindicar seus centavos pelo nosso roubo de ideias. Grato. 

Crédito das imagens: 1, 2, 3 , 4.
 

[Marcelo De Franceschi. Leonardo Foletto]

Pirate Bay, jornalismo e cultura livre


Para engordar com qualidade nossa Biblioteca, vamos colocar lá a monografia (Graduação em Jornalismo, PUCRS) da Eliane Fronza, que tem o bonito e auto-explicativo título Jornalismo e Cultura Digital: um estudo de caso do The Pirate Bay na Folha de S. Paulo. Para isso, a moça faz uma interessante análise histórica de como nossa vida social foi reconfigurada pela Internet (no 1º capítulo) e discute conceitos e um pouco da história das redes de compartilhamento via Napster (2º capítulo), além de levantar questões sobre direito autoral e o creative commons criado por Lessig, de modo análogo ao que Marcelo fez em sua monografia.

Convidamos a própria Eliane para escrever uma pequena introdução informal à sua monografia, e é essa introdução que tu vai começar a ler no próximo parágrafo. Agradecemos a atenção e a disponibilidade da nova jornalista da PUCRS, que além de editar o bom blog Mas é Óbvio é leitora de Hakim Bey e moradora da aprazível capital gaúcha.

Pequena contribuição aos estudos sobre Pirate Bay, jornalismo e cultura livre

Um dos assuntos que mais me interessam na cibercultura é a forma como milhares de pessoas ao redor do mundo e conectadas em redeutilizam a Internet para compartilhar arquivos, para compartilhar cultura. O protagonista disso tudo foi o Napster, que virou o jogo no início da década passada, tirando o monopólio da divulgação e comercialização de músicas das grandes indústrias do entretenimento e colocando nas mãos de usuários. Anos depois, quem toma de assalto essa cena é o site sueco indexador de torrents The Pirate Bay.

Na época em que decidi tomar o Pirate Bay por tema do meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, da PUCRS, fazia pouco tempo que um dos fundadores do site, Peter Sunde, havia passado pelo Brasil, em especial, Porto Alegre, para participar do FISL. Os criadores também enfrentavam vários processos por violação de copyright, a venda do tracker também estava sendo concluída e meus interesses acadêmicos por cultura livre estavam mais claros. Naquele momento, o TPB dava sequência ao legado que o Napster havia deixado; agora, com uma nova tecnologia, o torrent, o debate foi acentuado e trazia questões políticas para o jogo.

A hipótese inicial era que as grandes indústrias de entretenimento se comportavam da mesma forma que muitos veículos de comunicação de massa reagiram frente aos novos modelos de comunicação mediados pelo computador. As redes de trocas de arquivos são vistas como um cataclismo econômico pelas corporações; por seus usuários, são celebradas como a mais democrática das formas de apropriação cultural. E foi essa interrogação sobre a mídia que aproximou o Jornalismo ao estudo. Escolhi o jornal Folha de S. Paulo para representar a imprensa brasileira e iniciar um trabalho sob o título: Jornalismo e Cultura Digital: um estudo de caso do The Pirate Bay na Folha de S. Paulo. O objetivo era descobrir como a imprensa, aqui representada por FSP, representava essa cultura para a sociedade.

A pesquisa reuniu material desde março de 2006 a agosto de 2009 presentes nas editorias de tecnologia (Informática) e cultura (Ilustrada) do jornal. Aqui, residia mais um desafio:  afinal, a reconfiguração cultural promovida pelas redes P2P dizem respeito, para a mídia, aos assuntos tratados em qual dessas duas esferas? A metodologia escolhida foi o Estudo de Caso, que estabeleceu 4 categorias de análise para melhor compreender o material: fontes, contexto, editoria e controvérsia. A partir disso, as questões que nortearam o estudo, tais como representação social da cultura de troca de arquivos, novas formas de apropriação cultural e direitos autorais online, permitiram proceder a uma dialética da cultura livre tendo por base a cobertura jornalística.

Antes de iniciar o Estudo de Caso, foi preciso fazer uma análise histórica de como nossa vida social foi reconfigurada pela Internet, buscando o berço da cultura digital, encarada aqui através de um ponto de vista contracultural, e a história das redes de compartilhamento. Fundamental nessa discussão, um capítulo compreende a história e o contexto atual do direito autoral, com base nas teorias de Lawrence Lessig além de experiências nacionais. O estudo das leis atuais do copyright bem como suas implicações nas práticas culturais mediadas pelo computador é tema central nessas discussões.

A monografia foi aprovada com nota máxima em 26 de junho de 2010 e cabe reconhecer a fundamental orientação do professor Dr. André Fagundes Pase além das sábias e imprescindíveis colocações dos professores presentes na banca, Me. Ana Cláudia Chagas Nascimento e Me. Marcelo Ruschel Träsel. Esse trabalho também foi apresentado na categoria pesquisas acadêmicas do II Fórum da Cultura Digital Brasileira [aqui o link para os vídeos da rodada de apresentação das pesquisas acadêmicas], realizado em novembro de 2010, em São Paulo.

Para quem tiver interesse em conhecer a abordagem, os temas de apoio e os resultados obtidos, pode encontrar o estudo completo aqui abaixo.

[As imagens usadas no post foram print screens das irônicas intervenções do TPB em sua página inicial, usadas também no trabalho de Eliane.]

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