Pós-fotografia, obsolescência programada e cultura digital em charla

Na quinta-feira 13 de julho de 2017 estreiou a “BaixaCharla”, nossa conversa mensal ao vivo, via streaming, com pessoas da cultura livre, remix, cultura hacker e subversões em geral, realizada em parceria com o FotoLivre.org. A charla pilota foi com o fotógrafo/artista visual Leo Caobelli, na Planta Baja, novo espaço cultural de Porto Alegre, sede da CalmaLab, empresa que Leo dirige. Falamos sobre remix, pós-fotografia, privacidade, obsloscência programada, até da Casa da Cultura Digital em SP, onde nos conhecemos em 2010, ele como integrante da Garapa, eu (Leonardo) ainda como parte da finada Fli Multimídia, empresa que fazia a comunicação/produção do Fórum da Cultura Digital 2010.

O mote da fala foi o último projeto de Leo, “Algum pequeno oásis de fatalidade perdido num deserto de erros“, que resgata imagens perdidas em HDs vendidos por kg como sucatas Brasil (e Uruguai e Nigéria) afora. O projeto é a pesquisa de mestrado em artes visuais no Instituto de Artes da UFRGS e tem circulado pelo RS com oficinas e exposições, onde aparatos (jogos!) foram montados para as pessoas brincarem com imagens do já grande acervo em HDs resgatados de Leo. Abaixo confira a charla na íntegra, seguido de fotos (por Sheila Uberti, do FotoLivre) e imagens do trabalho de Leo.

 

 

 

Reparar em vez de descartar

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Perguntas rápidas: você sabe trocar a resistência do chuveiro? consertar o abajur do lado da cama, quando ele abruptamente parou de funcionar? não se desespera quando seu computador não liga na 2º tentativa? Se sim, saiba que você tem tudo para ser um reparador, uma exceção nesse mundo que joga grandes quantidades de material fora, mesmo as coisas com quase nada de errado e que poderia obter um novo sopro de vida depois de um simples reparo.

Não é novidade nenhuma: vivemos numa cultura em que comprar um novo é muito mais fácil do que consertar o “velho”. Cito dois casos extremos: 1) as pernas (alumínio) de sua cadeira de praia estragaram, você quer levar a algum lugar que conserte. É muito provável, como já aconteceu por aqui, que você ganhe como resposta de qualquer lugar que procurar: “mas não vale a pena, compre outra que sai mais em conta”.  Mas e se eu quero que ela volte a funcionar, independente de “sair em conta” ou não?

Outro caso, na extremidade oposta: estragou uma peça no seu Iphone (o que, você usa Iphone?? :P). Se você for numa loja “autorizada”, qualquer peça que estraga costuma custar uma boa grana, só não o suficiente para você trocar seu telefone porque todos produtos Apple são exageradamente caros. As opções baratas se restringem ao mercado “negro”, em que os chineses são mestres. Talvez por isso mesmo é que o site IFixit, que traz uma grande variedade de manuais de reparo abertos e gratuitos, tem centenas de manuais dos produtos Apple. É como uma rebelião dos consumidores: “ah é, Apple, você vai incomodar tanto assim pra abrir ou reparar por conta própria um produto seu? Então nós vamos mostrar que sim, podemos fazer isso de modo colaborativo, sem vocês”.

No domingo 12/4, participamos de um evento que visa forlatecer essa cultura dos reparadores: o Café Reparo, projeto relacionado ao Ônibus Hacker e contemplado pelo edital Redes e Ruas (PMSP) da secretaria de cultura de SP. Ele prevê seis encontros voltados à cultura hacker que propõem laboratórios de pequenos reparos, discussões e proposições nos segundos domingos de cada mês no Centro Cultural São Paulo entre março e agosto de 2015. Estivemos do 2º encontro, buscando relacionar a ideia da cultura livre e do copyleft com a questão do reparo em vez do descarte. Ou você não acha que a cultura livre, ao expor o código-fonte da produção, não potencializa a autonomia também no reparo/manutenção dos objetos produzidos?

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Café Reparo na Holanda

O projeto foi abertamente inspirado por um movimento global chamado Repair Café, um conceito de café em que as pessoas de uma vizinhança se reúnem para consertar objetos quebrados em vez de jogá-los fora e comprar novos. O primeiro foi criado em Amsterdã, na Holanda, por Martine Postma. A ideia do café é simples: num determinado dia da semana, voluntários se reúnem para consertar itens que vão de brinquedos quebrados e roupas descosturadas a secadores de cabelo que não funcionam mais. Todos os reparos são feitos gratuitamente, como em uma troca de aprendizado entre os moradores de determinada região. Hoje são mais de 300 cafés desse jeito espalhados por 10 países – um deles no Brasil, em Santos, que acontece através da ANDES (Agência Nacional de Desenvolvimento Eco-Social).

O Repair Café não fala em competir com as assistências técnicas e as pessoas que fazem disso seu modo de ganhar a vida. Muito pelo contrário: a intenção é chamar a atenção para a possibilidade de cada um poder fazer o reparo de suas próprias coisas. De que você não tem que jogar fora tudo que “não funciona”: existem alternativas de conserto. Mas é claro que nem sempre vai se conseguir resolver o problema do objeto em questão, e quando isso acontece é que entram os (cada vez menos) técnicos disponíveis.

No Café Reparo de SP, a estrutura montada no evento conta com dois monitores – um mais de hardware, outro mais de software – mais três integrantes/produtores do projeto, que ficam durante o dia, das 10 às 18h, para ajudar você mesmo a reparar o seu objeto. Que fique bem claro: eles não vão fazer o serviço sozinho, você vai fazer junto com eles. Do It Together. No domingo em que participamos, um abajur, uma torradeira e uma cafeteira foram reparados; um videocassete teve seu problema detectado, o que em muitos casos é a maior parte do problema. Veja aqui abaixo algumas fotos desse dia, por Milena Migrans.

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Há diversos motivos para justificar a cada vez mais necessidade de repararmos aquilo que usamos. Muitos deles foram bem descritos neste manifesto abaixo, desenvolvido pelo site Ifixit a partir de um texto publicado por Mister Jalopy em seu site – que, por sua vez, foi publicado inicialmente na Make Magazine nº4. Traduzimos apenas o início, a tradução completa faremos em conjunto com o pessoal do Café Reparo SP – se alguém quiser ajudar a por isso numa arte, bota o dedo aqui (nos comentários desse post).

1. Reparar é melhor que reciclar
Fazer nossas coisas durarem mais tempo é mais eficiente e barato do que buscar/extrair matérias-primas de baixo custo

2. Reparar poupa seu dinheiro
Consertar coisas muitas vezes é grátis e geralmente mais barato do que a substituição delas. Quando você mesmo conserta você economiza dinheiro.

3. Reparar ensina engenharia
A melhor maneira de saber como algo funciona é desmontá-lo.

4. Reparar salva o planeta
A Terra tem recursos limitados. Eventualmente, vai acabar. A melhor maneira de ser eficiente é reutilizar o que já temos.

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A ideia dos cafés reparos é, no fundo, mais uma das iniciativas globais que visam fortalecer a autonomia das pessoas. Que visa abrir as “caixas-pretas” que estão por trás de qualquer objeto técnico e mostrar como eles funcionam. Como este texto da revista Wired aponta, talvez mais do que um movimento de “fazedores”, se faz necessário um movimento de “reparadores”, que deem novos (ou mantenham os velhos) usos a centena de milhares de objetos que são desperdiçados por aí. Quantas empresas no século XX tem promovido objetos feitos para quebrar em menos tempo do que de fato a capacidade deles poderia aguentar? o ato de reparar é também um ato de resistência contra a obsolescência programada, essa maldição tecnológico do século XXI.

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Se ficou interessado em saber mais do que rolou na conversa que fizemos no sábado, o pessoal do dispositivo – um projeto artístico-tecnológico-arquitetônico que vale muito a pena conhecer – fez uma gravação experimental da conversa, disponibilizada aqui abaixo. Como de praxe, versamos caoticamente sobre diversos temas relacionados a cultura livre, do nascimento do direito autoral aos movimentos de vanguarda do século XX, anticopyright por excelência, passando até por temas atuais e correlatos (?) como o Uber e o AirBnb. Fizemos uma apresentação, chamada cultura livre e copyleft, uma espécie de guia dos temas a serem falados, baseados em outras oficinas que demos de cultura livre e copyleft por aí.

 Créditos fotos: Milena Migrans (Café Reparo SP), Hypeness (Café Reparo da Holanda)

Life Hacks

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Sábado passado fui até a assistência buscar minha impressora. Comprei no mercado livre um complemento, um “hack”, chamado Bulk-ink. Recipientes externos ligados por cabos que alimentam o cartucho de tinta. Você compra a tinta em tubos e recarrega as cores despejando dentro desse recipiente.

A impressora é um ícone da obsolescência programada e pós-venda. Se você trabalha/estuda com uma, conhece o drama de recarregar um cartucho.

A relação entre o preço alto e a qualidade de impressão, cartuchos recarregados e remanufaturados que duram poucas recargas dão dimensões a sua dor de cabeça.

O Bulk-ink surgiu nesse mercado no melhor estilo “Robin Hood”. Você comprar um equipamento, recarrega com qualquer tinta compatível, que custa 10% ou 15% do valor de um cartucho original com uma autonomia de impressão que supera dezenas de cartuchos. Fim.

Normal, muita gente tem, já viu ou ouviu falar, trabalha com isso e etc… Agora já parou pra pensar nessa “pirataria” ou “hack”? Uma GRANDE empresa de impressoras parou e lançou em 2012 uma impressora que já vem com o sistema de “Tanques de tinta”.

É um forma de respeito ao consumidor, conhecimento de mercado, inteligência, sustentabilidade e outras tantas formas positivas de posicionamento de mercado, que eu honestamente, me perco ao enumerar.

Como consumidor eu não vou jogar algo fora, ficar atrelado aos seus préstimos pós-venda ou a sua manutenção técnica limitada. De forma romântica, admito, espero ver cada dia mais o comportamento do consumidor ditando as normas do mercado. Seja um produto que muda de posicionamento, encerra sua comercialização (Foie gras, quem sabe) ou se retrata.

Não custa acionar os SAC, pedir informações, fazer críticas sempre que necessário. Seu papel político passa por isso, não?

Isso me lembra o rap do Câmbio Negro de Brasília: “Vamos mostrar a todos o quanto somos fortes: boicote! boicote!”.

[Calixto Bento]