Turismo industrial e o consumo de lugares exóticos

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Uma das publicações interessantes que tivemos acesso no nosso breve tour espanhol em novembro de 2014 foi o MALPAÍS, um auto-intitulado “fanzine de crítica lugareña“. É produzido por um coletivo que faz a crítica do lugar desde o lugar; “al fin e al cabo, habitamos en lugares que, aquí y ahora, hemos de pensar y defender”, se lê já no início do “Sermón de presentación”.

A publicação, muito bem produzida graficamente, traz textos com a perspectiva de discutir as questões relativas ao lugar, em especial o espanhol, com textos que abordam desde a gentrificação do bairro de Lavapiés, região central de Madrid, a morte da rua como espaço cultural em algumas regiões espanholas, passando por relatos de defesas do espaço urbano comunitário contra aqueles que querem tornar a rua um Shopping Center “limpo”, “bonito” e consumista.

Um dos textos mais interessantes do zine é o que dá título a esse post: Turismo Industrial y consumo de lugares exóticos. Ali se apresenta uma breve introdução de como a ideia do consumo de lugares exóticos foi sendo construída como uma “saída” para aqueles presos numa rotina puxada de trabalho 8-18h. Uma “saída” entre aspas mesmo porque não é bem assim; o turismo se mostra como a “liberdade dos empregados de levar capital de um mercado a outro; a polinização do dinheiro”, como está no poemário Mañana sin amo, de Juako Escaso, que abre o texto.

O primeiro parágrafo explica ainda melhor:

“Viajar se ha convertido en esa mezcla bastarda de necesidad, derecho y premio que nos promete “cargar las pilas” y “desconectar” de la sofocante cotidianidad. Detrás de los anuncios de viajes asoma siempre la idea de que nuestro día a día es algo que bien merece una “escapada”, en una muestra de que el capitalismo es capaz incluso de rentabilizar la consciencia de que el mundo que ha creado es dificilmente suportable. Basta con ser ciudadanos documentados y trabajadores para ocupar una plaza en alguna de las lanzaderas del transporte moderno y aterrizar de forma rápida y confortable en cualquier oasis lejos de donde vivimos y trabajamos. Allí correrá el aire. Podremos, por fín, degustar cierta liberdad individual y disfrutar de um sinfín de comodidades y cosas bonitas. Un afuera en el cual alimentar nuestro espirito y gozar de experiencias intensas, olvidando inocentemente nuestras obligaciones. Con la sola condición, eso sí, de que el al cierre de este higiénico paréntesis volvamos más frescos a la tensión del trabajo, a las responsabilidades de la máquina de la que formemos parte”.

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A crítica aqui se dá em relação ao turismo de massas, em especial aquele que vende o exótico como o mais atrativo. Aquele tipo de turismo que, por exemplo, leva hordas de pessoas para conhecer  o sarcófago recém descoberto na beira do Rio Nilo no Egito. Praquela praia tranquila de natureza “intocada” no meio do Caribe, ou pra uma cidade litorânea com muita festa, cerveja e águas calmas. Lugares cujos habitantes jamais poderão devolver a visita aos turistas, a não ser que façam isso como força de trabalho imigrante.

Uma consequência da venda dos lugares exóticos em grande escala é aquela sensação de não ser estranho saber tudo sobre os povos exóticos da Malásia mas nada sobre o seu próprio bairro. De conhecer toda a Europa, das paradisíacas Ilhas Gregas ao frio da Lapônia, sem nunca ter caminhado pelo sua própria vizinhança. Ou andar de metrô em Paris e achar lindo, mas protestar contra a construção de uma nova estação em seu próprio bairro porque vai trazer “gente diferenciada“, para ficar no caso já folclórico dos habitantes de Higienópolis, em São Paulo.

Uma explicação para os excessos do turismo industrial e dos lugares exóticos que ele vende é a tal busca “para encontrar consigo mesmo”. Gente perdida buscando algo que esteja vivo. Como diz no texto,

La industria del turismo está siempre disponible para ayudar a sus clientes a buscar o construir su propia identidad, o incluso a sentirse más humanos. Se diría que salir de ese hostal y observar a gentes que de alguna forma tratan de conservar su cultura y modo de vida, ayuda al turista en esa “búsqueda parasitaria de las cosas perdidas”.

O que seriam estas coisas perdidas? O texto defende que, em especial na venda de lugares exóticos, seriam coisas “simples”, guiadas por uma nostalgia ancestral de uma vida sem tantas preocupações, em contato com a natureza e com uma cultura diferente (“de raiz”) que ainda não foi destruída pela homogeneização ocidental e pelo triunfo da mercadoria. Uma praia deserta que só habitam pescadores artesanais, uma comunidade de agricultores no meio das montanhas do Nepal. Mais uma vez, o paradoxo: o turismo industrial e o comércio massivo de lugares exóticos vende como “paraíso” justamente aquele lugar que supostamente estaria “fora” do sistema capitalista que o gerou. Como se o “sistema” dissesse você merece uma escapada dessa vida exaustiva, vá descansar num paraíso livre dos meus problemas – mas venha comigo que te mostro o melhor hotel, com o mais informado guia nativo, e ainda te dou um desconto e parcelo em 10x no cartão”.

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Vindo de um zine que faz a crítica do lugar desde o lugar, é natural que o aspecto de fortalecer a vida comunitária em seu próprio bairro ganhe força, em especial quando colocada em oposição aos lugares vendidos como exóticos. Um dos adesivos que vem encartado no Malpaís reforça essa tomada de lado na discussão: “Apoya las mercearías de tu barrio“, escrito ao lado de dois bonecos encapuzados só com os olhos de fora.

A crítica central do texto se dá não na dicotomia “turistas X viajantes”, que é considerado uma “armadilha” improdutiva. Se dá, sim, numa defesa da ideia de viagem sem os excessos do turismo industrial, que mercantiliza uma experiência e a transforma em um “troféu”, um produto para o turista depois exibir em sua casa ou rede social para os amigos através de fotos (quase) infinitas – mesmo que para isso tenha de reforçar estereótipos, forçar experiências, padronizar os lugares e criar monopólios econômicos de exploração destes.

Como é apontado no final do texto, o turismo industrial de lugares exóticos tem sido um dos últimos movimentos de conquista e consumo do outro por parte do sistema. Com o objetivo de fazer dinheiro, esta indústria produz espaços, significados e experiências a ponto de fazê-los perderem personalidade e singularidade, quando não desaparecerem. Desta forma, passam a ser substituídos por qualquer outro, como um produto qualquer, tudo o que um lugar está longe de ser. Caberia perguntar se em alguns anos haverá lugares suficientes para o turismo mercantilizar.

[Dá pra ver e baixar o fanzine em PDF na nossa Biblioteca. Se você tiver na Espanha, procure comprar a versão impressa nestes lugares.]