Grandes Experimentais da Cultura Digital & Livre (1): Rubens Velloso

Damos início hoje a mais uma nova seção especial (que não sabemos onde vai dar) por aqui: chama-se conforme o título do post acima e tem como resumo “Entrevistas remixadas com experimentais (pouco) compreendidos da cultura digital & livre“. A primeira é com Rubens Velloso, diretor da companhia Phila 7 – talvez o principal grupo brasileiro que  trabalha na pesquisa de novas linguagens cênicas que levam em conta a questão digital, telepresença, corpos biomecânicos, conceitos relativos de espaço, tempo e narrativa, dentre outras questões correlatas.

Foi por acaso que tivemos a ideia dessa nova seção do Baixa. Eu (Leonardo, que a partir de agora, nesse post, deixa o plural de lado para assumir a 1º pessoa) estava fazendo uma entrevista para a pesquisa sobre teatralidade digital que tem me ocupado nestes até agora 6 meses de 2011 e pensei: mas por que não usar esse conteúdo também no Baixa?
[A pesquisa é oriunda de uma bolsa da Funarte, Reflexão Crítica em Mídias Digitais 2010, e vai resultar num livro reportagem tendo por foco o grupo Teatro para Alguém; tenho mantido este blog aqui como uma espécie de making off de tudo isso.]

Fotos de Play On Earth, montagem do Phila 7 de 2006

Rubens me recebeu em sua casa, na Lapa, zona oeste de São Paulo, numa noite de segunda-feira. É um ótimo papo; daquelas raras pessoas que tu pode perceber que está pensando muitas coisas a frente de nós (eu, tu e a gigantesca maioria dos habitantes dessa Terra). Em 2006, com seu segundo espetáculo, “Play on Earth”, o Phila 7 – a companhia na qual é diretor – tornou-se pioneira no uso da internet para a criação e apresentação de uma peça teatral que uniu três elencos em três continentes simultaneamente: Phila 7 em São Paulo, Station House Opera em NewCastle na Inglaterra e Cia Theatreworks em Cingapura. Três audiências, cada uma em sua cidade, a assistir às atuações em tempo real, formaram um quarto espaço imaginário.

Dois anos depois, um experimento ainda mais radical: “What´s Wrong with the World?” da série Play on Earth, um espetáculo ao vivo entre Brasil (Rio de Janeiro) e Inglaterra (Londres). Linkados pela internet, os atores atuaram ao mesmo tempo e ao vivo, fazendo do “mundo” seu palco numa proposta marcada pelo ineditismo de linguagem e estrutura dramática.

"What's Wrong With the World", 2º experimento cênico-digital do Phila 7

Rubens e o Phila 7 avançaram e estão para lançar, no fim deste ano e no 1º semestre de 2012, três “espetáculos” que dão prosseguimento à essa busca. Um deles Rubens chama sabiamente de “superfície de eventos“, porque está longe do que estamos acostumados a entender como teatro, cinema, perfomance, dança  – é tudo isso, mas também um embrião de uma outra coisa ainda sem nome.

O papo a seguir é uma versão editada e remixada de nossa conversa. [Mas se você quer ouvir na íntegra e na sequência correta pode ir lá para o fim do post que o áudio está lá, em duas partes, com qualidade não muito boa mas audível]. Rubens falou muito de teatro, facebook, internet, direitos autorais e outras coisas inevitáveis desses tempos. Mostrou seu trabalho de invenção de linguagens – e de criação de uma gramática para falar dela, como o “MCs de fluxos reflexivos” para se referir ao trabalho dos atores com que vem trabalhando nos processos que prepara para o final deste ano e 2012.

*********

BaixaCultura: Como você começou com essas experimentações de linguagens?

Rubens: Nessa contemporaneidade, eu me senti muito confortável, muito mais do que me sentia quando jovem. Porque eu fazia estas coisas – eu já misturava super-8 com 35mm, fazia teatro depois filmava, etc. Isso pra te explicar um pouco do que estou fazendo agora. Vou partir de três montagens pra te explicar o que é que eu to fazendo. Dois já estão armados com certeza, o outro eu to armando, vai acontecer.

O primeiro chama On Ego, é um texto inglês contemporâneo [De Mick Gordon e Paul Broks] em que parte das questões da neurociência, da dissolução do eu e das redes neurais como expressão de você – você é uma narrativa de uma rede neural. Em On Eagle, eu trabalho com a ideia de que o cérebro – a rede neural que você tem – já te remete a uma visão muito radical e contemporânea do que é o indivíduo hoje. Muda para várias coisas, e uma questão que me interessa é que o eu já não é tão importante como manifestação, e sim como você se linka com o outro. Quer dizer, estamos falando aqui, mas existe uma outra coisa que está trabalhando aqui e que tá construindo uma ideia que aos poucos vai ficando em conjunto.

Cartaz da Leitura pública de On Ego, feita em 28 de março, em SP

O cérebro, de alguma maneira, depois de milhões de anos de evolução, ele cansou de que o homem, para transcender e entender as coisas todas, criassem deuses e coisas assim. Então, o que ele criou? Um simulacro, que são as redes. Ele criou um simulacro dele mesmo para você entender que as coisas precisam estar conectadas com um centro, mas podem estar rizomáticas. Ele criou os computadores para várias coisas, mas uma delas é para mapear ele mesmo e falar assim “Ó como eu sou”, e esse como eu sou é como você é.

A partir destas questões, e de outras questões geracionais muito claras depois do advento da internet – essa geração que nasceu com a internet tem o seu olhar todo modificado, no sentido de que a presença física e a presença virtual são vistas como duas formas de presença. Com manifestações diferentes, mas são presenças: uma presença carbônica, que é como nós estamos aqui, e a presença sílícia, quando tá na rede. Quando voce trabalha com isso, me interessa a potência do teatro na singularidade do local onde ele se dá. Me interessa o que está em torno – e que ainda está em fase embrionária e que tá começando a explodir sem rumo, o que é bom. Me interessa, a partir disso, potencializar estas duas formas de presença e quebrar as paredes do teatro, fazer com que ele, na força que ele tem como uma forma de presença, desdobrar essa reflexão pra fora dele e de fora dele lá pra dentro.

Eu já não penso mais em dramaturgia, mas tramaturgia, que é como você escreve – não só os diálogos mas todos os acontecimentos – como uma trama que vai se enredar nessas várias formas. Profanações [o 2º “espetáculo/superfície de eventos que Rubens e o Phila 7 preparam] é isso: tudo que vai acontecer – teatrais, imagéticas, virtuais – vão estar ali unidos por uma tramaturgia, onde os atores – que eu chamo de MCs de fluxos reflexivos – são os receptores e gerenciam isso junto ao público para que a ideia vá se construindo. É um pouco diferente do Teatro para Alguem porque eu nem estou interessado nem no teatro sozinho nem no teatro transmitido pela internet. Eu estou interessado nas potencialidades destas formas e em como nós podemos enredá-las para gerar uma potência que se espalhe como reflexão.

Em What's Wrong With the World, atores & projeções de atores & vídeos contracenam juntos

Não é teatro, nem cinema, e eu nem quero chamar de híbrido. Voce se apropria de todas as formas de produções estéticas – imagens, teatro, vídeo, formas de presença diferente, artes plásticas. Mas pra você chegar nisso tem que mudar o pensamento inteiro. Você não faz isso só intelectualmente, você tem que mudar a forma de pensar. Tá acontecendo comigo, eu faço exercícios. Por exemplo: Eu pego dois computadores e ligo, ponho dois filmes (ou videoarte) diferentes, ligo música aleatoriamente, deixo a sala do meu escritório aberta para fazer um frame com o real de senso comum, esse real que a gente se apoia. A partir desses fragmentos, eu vou construindo rapidamente uma narrativa, com a ajuda de livros – ponho quatro cinco livros junto disso tudo. Vou vendo onde estas coisas se conectam e vou construindo, na minha cabeça, uma narrativa que vai juntando tudo isso.

B :É a típica cognição da internet, não? Fazer várias coisas ao mesmo tempo.

R: Exato. Voce pega o que acontece no Facebook, por exemplo. Existem vários approachs [modos] pra entender isso, mas os dois mais comuns são 1) ah, isso é legal, mas é muito bobo; e 2) ah, isso é legal, o que me interessa mais. O bobo vai estar lá sempre, porque o bobo tá na vida da gente. Mas isso é legal: como eu posso captar isso como estrutura de reflexão, onde o teatro tem uma potência muito grande, e fazer a junção. Pra isso, você tem que mudar conceito de espaço, você tem que se educar para isso.

O cérebro sabe disso, de certa forma; na zona cognitiva e da razão, ele entende que “ah, onde nós conversamos agora é um espaço físico”. Mas se eu ligar um computador aqui, eu to com esse espaço e outro espaço que eu trouxe pra dentro de casa. Se eu ligar uma câmera, eu jogo esse espaço que eu estou – ou no mínimo um recorte dele – pra dentro de outro espaço, de uma outra pessoa, que está em outro lugar. Eu vou criando espaços conectados e formas de presença, vou enredando tudo isso de uma forma que, se você não se preocupar mais de que forma isso está vindo, você faz uma potência reflexiva espalhada violenta.

B: Ainda é difícil da gente não pensar em como isso está sendo feito.

R: É novo. Outro dia eu estava em um seminário sobre teatro e lá estava uma neurocientista. Falei isso que estou te falando e ela disse, “olha, você tem toda razão. O cérebro está constituindo redes de compreensão e ele entende toda a questão digital como extensão de seu corpo. É seu corpo extendido para fora de você, mas dizendo de você”. Mas é claro que isso tem um tempo de amadurecimento. Tanto que quem mais aproxima do nosso trabalho no Phila 7 não é o pessoal do teatro, mas sim o pessoal de multimeios. É que o olhar dessa moçada está mais ligado pra isso. Eu falo pra gente do teatro – que são aqueles que eu mais conheço – e muitos me olham assim, “ih, enlouqueceu, isso não é teatro”. Mas eu falo, “não quero que se chame de teatro, mas o teatro está lá. A teatralidade está lá, a potência do teatro está lá”. Mas não é como você aprendeu sempre, uma caixa preta, palco italiano, é outra coisa.

Making of de “What’s Wrong With the World”

B: No teatro é difícil achar interlocutores pra falar dessa relação com o digital, não?

R: Muito. Eu sou um ET. Às vezes a discussão morre em ver se é ou não é teatro. Mas meu pepino é maior que o do Teatro para Alguém, por exemplo. Porque, quando eles chamam de “teatro digital”, eles abrem essa discussão. Eu nem quero discutir isso. Eu não quero nomear nem de teatro nem de digital essas coisas todas. Eu to trabalhando com redes digitais, digineurais, você entende? Eu to criando um vocabulário pra isso, to escrevendo mesmo, pra poder me comunicar. Porque quando voce fala em teatro digital, voce nomeou duas coisas que já tem carimbo na sociedade. O pessoal do teatro, por questões óbvias, fala: isso não é teatro. Se eles [do Teatro para Alguém] chamassem de teatralidade digital, já começaria a ser mais aceito.

Eu to cagando pra se é teatro ou não é teatro o que eu faço. Mas o teatro está no que o Phila 7 faz, ele está lá linkado com outras coisas, ele não tem o formato que a gente acostumou a ter. Mesmo quando você rompe com o palco italiano – que nem o Vertigem, que foi fazer peça em cadeia, hospital – é um lugar, onde se forma uma singularidade e o teatro se instaura. Esse lugar sempre vai existir pra mim, só que não tem mais parede, dali é pra fora e de fora pra dentro.
[NE: O Teatro da Vertigem é uma companhia de São Paulo que busca trabalhar com espaços não convencionais. “Projeto Apocalipse”, um de seus espetáculos, circulou o Brasil e alguns lugares da Europa sendo apresentado em cadeias; BR-3 se passava num barco que navegava pelo rio Tietê, em São Paulo]

Mas imagina, não é fácil: teatro tem mil e mil anos, e você insere uma questão que, em primeira instância, seria o contrário do que ele é: a força do teatro está exatamente na preseça. De uma certa forma, é difícil derrubar isso. O que você tem de fazer é se desvincular disso. Esquece. Não to fazendo teatro. Mas existe teatro lá, e pode existir sim.

Espaço de convivência da sede "real" do Phila 7, na Rua Tito, 79, em São Paulo

B: Como viabilizar financeiramente uma prática que ainda não tem nome?

R: Tenho pensado nisso. Inclusive, vou te chamar quando isso acontecer. Vai se chamar “Churrascão da Arte Diferenciada” (risos). Eu acho que ele pode se financiar na medida em que o coletivo se apropria disso, principalmente através da rede. Você pode, por exemplo, fazer dramaturgias porosas onde as pessoas das redes virtuais – ou mesmo presencialmente – vão construir na decisão do espetáculo. Elas contribuem com ideias e esse financiamento vem dessas proprias comunidades. Eu acho que isso é viável a médio prazo.

B: Como um crowdfunding?

R: Exatamente. Mas você nao faz a oferta da coisa; você começa a debater, ver onde a ideia se encaixa e vai construindo com ela. Eu tenho uma ideia que a pessoa tem o direito de acompanhar todo o processo, enviar imagens ou textos que elas achem pertinentes. E quando a coisa acontecer, ela tem um acesso a essa coisa – sempre tem um centro onde ela acontece. Você percebe que tudo isso ainda é futuro. Eu to falando de um presente que espera um devir, né. Mas alguem tem que meter a mão na massa, alguém tem que fazer o trabalho sujo.

B: E a colaboração das pessoas, como fica?

R: É complicada, tudo é complicado. Voce tem que mudar seu pensamento. No Profanações, eu me reuni com essas cabeças que vamos trabalhar: a ideia é isso, agora vamos construir juntos. É difícil, primeiro, aceitar que não temos uma coisa feita. A 2º coisa dificil é: pra você fazer esses trabalhos, a questão do ego tem que ser subvertida. Se você for trabalhar não a ideia mas sim o que você quer dessa ideia, e não do que você pode compor com ela, fudeu.

Você tem que trabalhar em outras instâncias da sua relação com a arte. Eu escrevo lá no Facebook só pra provocar as pessoas: processos desse tipo são propriedades de uma inteligência coletiva, não de uma inteligencia individual que direciona tudo. É uma inteligência coletiva que constrói a coisa toda. Eu vi que há uma narrativa mas é sempre aberto a experimentações, a novas ideias. Não é uma coisa fechada. Nunca tá pronto. É processo. Eu não estou trabalhando mais com coisas fechadas

Eu não estou atrás de sucesso, entendeu. Não to mesmo. To cagando. Eu sou um sujeito fadado ao fracasso, porque eu trabalho no fracasso. O que eu faço não é sedimentado, e você não pode se importar com isso. E te falo, parece utopia, mas é possível. Eu detesto quando alguém fala assim: você tem um projeto. E fala projeto para não falar produto. Eu não tenho e não quero ter. Não tenho nem produto pra te dar. Eu tenho uma coisa que nem é minha, é coletiva. Se é pra fazer o mais do mesmo, isso eu já fiz pra caracoles na minha vida. Na verdade nem fiz, já misturava, já era problema, mas não tão radical. Eu não tenho nenhum interesse no espetáculo ficar prontinho, bonitinho, se repetir toda a noite.

"WeTudo: Desesperando Godot" (2009) último "espetáculo" do Phila 7, dirigido por Rubens

B: Existe uma dificuldade de gerações mais velhas em entender que o direito autoral, do jeito que é posto hoje, não tem mais serventia.

R: Acabou! Acabou o direito autoral. Acabou mesmo. Tem que achar outra coisa. Isso já era. E quer saber, eu acho do caralho! Faz parte da inteligência coletiva, é genético, DNA, coisa da consciência humana. Pra mim, pro meu trabalho, jogar esse jogo (do direito autoral) seria negar tudo o que eu estou fazendo. É negar tudo. Claro, eu sou um artista, temos que ganhar dinheiro para sobreviver. Mas nós temos que construir outras formas desse dinheiro chegar na gente.

B: E isso não está estabelecido ainda, o que angustia as pessoas. Vai substituir pelo quê? Ninguém sabe ainda.

R: O problema é que ninguém sabe porque ninguém pensa diferente. Eles ficam pensando em como substituir o direito autoral e eles ainda pensam em direito autoral como uma propriedade privada que vai valer pelo resto da minha vida e quem quiser usar vai pagar pra mim. Não tem mais isso! Acabou! Tem que ter outro jeito.

Eu falo: “não fica sonhando com coisas que não vão acontecer mais”. A música já entendeu, tá aprendendo na marra. O cinema, a mesma coisa. Mas ele fica inventando coisas, tipo o 3D. Eu sou partidário – falo isso com gente de cinema, e sou xingado – de uma ideia intermediária. É assim: quando voce faz um filme pela lei do audiovisual, você, cineasta, já ganha por isso, o seu valor já tá embutido no valor obtido. A empresa que patrocina, não patrocina porra nenhuma, é o povo que patrocina o cinema brasileiro. Bradesco nao patrocina pica nenhuma, nem Petrobras. É tudo lei de incentivo, tu não paga o imposto lá e joga aqui.

Portanto, nós deveríamos pegar o filme e disponibizá-lo de todas as formas possíveis, pra maior quantidade de pessoas possivel. A arrecadação que possa vir tem que formar um fundo de cinema pra gente começar a ser independente do cinema mercadológico. Entendeu? Você ir lá pedir dinheiro pro Bradesco e ele perguntar “ah, mas vai ter ator da Globo?”, “o filme é comportado? tem uma linguagem certinha?”. O fundo seria pra ficar livre disso, experimentar outras coisas, outras linguagens. Isso é uma solução intermediária, e nem isso o pessoal do cinema topa…

Eu adoro essas revoluções que estão acontencendo agora, que às vezes parecem eufóricas e juvenis. O que eu adoro nelas é que elas não tem centro, é uma ideia. “Marcha da liberdade“, por exemplo. Cada um vai lá gritar liberdade do que lhe interessa. E tá chegando (no Brasil), vai chegar no mundo inteiro.

Essa geração nova [que tá organizando essas pequenas revoluções] já tem introjetado coisas que você não precisa mais trabalhar para introjetar. Essa moçada que eu chamei pra trabalhar raramente ia ao teatro. Esse pessoal gosta de um monte de coisa legal, mas detesta teatro. Eles só se interessaram por teatro porque eu os chamei para trabalhar nessas ideias. Temos que construir um olhar pra poder ver o teatro, se não ele vai virar ópera, com aquele público senil, aquela coisa formal.

É necessário aprender a ouvir também. Eu falo dessas conversas do Facebook, que parecem idiotas, mas não são por um motivo muito simples: pra essa geração mais nova, a questão da presença é muito diferente do que a gente caracteriza como “estar presente”, do “estar aqui vendo uma imagem”. Nada. São formas de presença. Aquele bate-bapo ali é como se estivessem numa mesa de botequim. Não há diferença entre essas formas de presença pra eles.

Claro, existe muita merda no facebook, mas acho que a arte é um caminho para fazer a reflexão sobre isso. Ela tem que gerar reflexão, gerar conteúdo, gerar proposta, pensamento. As pessoas estão abertas pra isso, mas você tem que chegar nelas de algum jeito. Cabe as artes respectivas entrar ali e gerar atrito para gerar conteúdo. Eu acho isso, e é o que eu to tentando fazer.

Parte 1: [soundcloud url=”http://api.soundcloud.com/tracks/16697089″]

Parte 2: [soundcloud url=”http://api.soundcloud.com/tracks/16711475″]

Créditos fotos: Site Phila 7

O Manual de Desobediência da catalisadora Lei Sinde

O grupo espanhol Hacktivistas lançou o livro Manual de Desobediência da Lei Sinde em abril. A públicação é da editora Traficantes de sueños – a mesma de “Copyleft: Manual de Uso” cuja introdução traduzimos – e do periódico Diagonal. A intenção é ser um atestado de ineficácia da arbitrária Lei que vigora na Espanha. “Em vez de promover a cultura, ilegalizam aqueles que estão dispostos a criá-la”, dizem os autores na Introdução das 57 páginas, que contém instruções de como burlar algumas barreiras impostas pela censura governamental, tipo bloqueios de IP, URL e DNS.

A rede Hacktivistas se formou em novembro de 2008, conforme um integrante do grupo numa entrevista de 2010, durante o Hackmeeting de novembro de 2008, em Málaga. Muitos dos participantes vêm do movimento hacker e planejam suas táticas tal como boa parte dos movimentos desse tipo: numa lista IRC e numa wiki. Entre algumas das ações, o grupo tem no currículo uma contracampanha chamada “Si eres legal, comparte“, em resposta a campanha promovida de 2008 do Ministério da Cultura hispânico.

Também eufemizada de “Lei de Economia Sustentável“, a Ley Sinde foi aprovada em 15 de fevereiro, e determina o bloqueio ou fechamento de sites de download em no máximo dez dias. Prevê ainda a criação de uma Comissão Administrativa, com função de mediação e arbitragem, para dirimir conflitos, a partir das denúncias recebidas. Desde o primeiro momento, todo o processo prevê acompanhamento de um juiz, mas talvez falte juiz para julgar tanto site. O nome da lei é uma referência a Ministra da Cultura de lá, Ángeles Gonzáles-Sinde, que disputa pau a pau com Ana de Hollanda o fictício cargo de pior ministra da cultura da história.

A SGAE é o ECAD espanhol, entendeu?

A indignação contra Ley Sinde foi um dos ingredientes iniciais de toda a linda #spanhishrevolution que ocorreu em maio e que não parece morrer tão cedo. Começou com um movimento, o No Les Votes, para não votar nos partidos que apoiaram a aprovação da lei: o da situação Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE); e os da oposição, Partido Popular (PP) e Convergència i Unió (CiU). O professor universitário e um dos iniciadores do movimento, Enrique Dans, disse ao caderno Link que os três partidos “Agiram em nome da indústria fonográfica e de cinema e não em prol do povo, que era contra a Lei”. Sindegate foi o nome dado a toda palhaçada.

Com reuniões e a criação de páginas na internet, a ideia de protestar logo se espalhou pelo país ibérico, e a estes revoltosos se juntou a outros grupos de contestação. Um deles foi o Juventud Sin Futuro (“Sem casa, sem carro, sem pensão, sem medo“), formado por universitários sem perspectivas. Não à toa, considerando que a taxa de desemprego atinge 20 % da população na Espanha – a maior em 14 anos – e 44 % de jovens. Outra protocooperação ocorrida foi com o movimento Democracia Real Ya! (Não somos mercadoria em mãos de políticos e banqueiros).

O resto foi organizado com os cidadãos interagentes do Twitter e do Facebook e demais sites de redes sociais. Batizando o movimento como 15-M, 15 de maio foi a data escolhida para o protesto – quando cerca de 130 mil foram as ruas em mais de 60 cidades, 35 mil ou mais só na praça Puerta del Sol em Madri que foi streamada nesse link. A maioria levou barracas e muitos estão acampando até hoje, os quais criaram um site para reportar as assembléias e demais atividades.

Como resultado, apenas 3 milhões de votantes foram as urnas no dia 22 de maio. Em Barcelona, no dia 28, havia a final da Champions League distraindo o mundo, e o governo achou que tudo estava acabado. Tentaram remover os acampados abaixo de laço com 400 policiais, mas não conseguiram. A indignação contagiou não só outras cidades castelhanas, como Málaga, Alicante, Valência, mas também outros países em crises, tanto políticas quanto econômicas: em Lisboa, Portugal, com 600 pessoas; e em Atenas, Grécia, com mais 10 mil pessoas em frente ao Congresso.

A desobediência, a revolta contra a não-reforma da Lei do Direito Autoral, a corrupção política endêmica, a truculência das reações policiais, a insatisfação geral com TUDO – ou com o NADA, como nos lembram os saudosos Provos holandeses – levará o Brasil a situação parecida um dia?

O Churrasco da Gente Diferenciada e a Marcha da Liberdade – uma reação amplificada da proibida Marcha da Maconha que trouxe muita gente, cartazes irônicos e singelos protestos com flores ao centro de São Paulo no último sábado – dão algumas esperanças de que alguma coisa pode ser feita. Nesse exercício de suposição, Marcelo Branco dá alguns palpites:

“Também não gosto de fazer previsões de futuro, pois em geral elas falham. Mas o certo é que exite, neste momento, uma tendência e um potencial global democratizante questionador dos limites da democracia representativa e que aponta para uma nova democracia participativa tendo a internet como plataforma de mobilização e viabilização desta nova relação direta dos cidadãos com a democracia”.

[scribd id=55452025 key=key-1knerkr2zg53b1gwrkn2 mode=list]

Crédito das imagens: 1, 2, 3.

[Marcelo De Franceschi]