Legendando um anônimo

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A imagem é a linguagem universal, certo? Nem sempre. Existem imagens que não passam tudo que queremos e correm o risco de ser mal interpretadas. Isso é facilmente detectável quando assistimos algum vídeo no youtube e o nosso inglês auditivo, muitas vezes o meu, não é capaz de traduzir tudo que escuta. Felizmente o Youtube criou um aplicativo bem prático para que os usuários que possuem vídeos possam criar suas legendas. O CaptionTube surgiu oficialmente em abril deste ano e permite selecionar vídeos próprios ou alheios e editar traduções para que o máximo de pessoas possa compreendê-los. Para ter acesso ao aplicativo, basta ter uma conta de e-mail no google.

É um aplicativo feito no Google App Engine e a funcionalidade é muito simples, bem mais fácil de usar do que programas para editar legendas como o Subtitle Workshop por exemplo. Ainda existem três vídeos didáticos que explicam direitinho como o negócio funciona. Um ótimo exemplo de video legendado pelo sistema é a animação japonesaBlassreiter”, que foi “sapeada” em inglês.

Caso faça uma legenda para um vídeo que não seja seu, você precisa avisar por e-mail o outro usuário. Ainda  é possível que o aplicativo envie diretamente as legendas pelo sistema de mensagem do youtube. Foi o que fiz quando produzi uma legenda para o video logo aqui abaixo . É um discurso de um anônimo defendendo Peter Sunde e os criadores do Pirata Bay contra a condenação. O texto estava ali na descrição do vídeo mas resolvi treinar em cima dele. Foi bem fácil, no copiar, colar. Sites de letras de músicas poderiam fazer isso, pois acho bem melhor acompanhar as letras das músicas assistindo a imagem do que ficar lendo numa coluna ao lado. Espero que um dia o cara confira a mensagem e acople, no Youtube mesmo, mas sei que nem todo mundo que tem conta no site confere as atualizações – a maioriamais ali para ver os vídeos classificados como impróprios pra menores e pra escrever besteira nos comentários.



Enquanto aquele que subiu o video do discurso do anônimo não vê a mensagem (com as legendas) enviada, só resta colocar o texto aqui abaixo para que, pelo menos, você tente acompanhar o discurso no video:

Today, four people have been convicted.

Convicted for a crime they did not commit. Convicted for a crime that was invented by a handful of people jonesing for power. Convicted for a crime that was bought by lobbyists and by think tanks actively perverting our freedoms, hidden from the public eye, for their benefit. Convicted by a system that exists ostensibly for our protection, but whose actions directly and verifiably contradict that false justification. Mowed down by a system corrupted beyond recovery.

Coercion is wrong; every human being understands that, from the instant he is born. Assaulting peaceful people and robbing them blind is wrong; it doesn’t matter who orders the assault, whether he has a badge or not, whether he has a gun or not, whether he has a court or not. Putting peaceful people in cages is wrong, regardless of the circumstance. Forbidding people to use their legitimately owned things however they see fit, without physical harm to others, is tyranny. In short: Initiating force upon your fellow man is wrong. Everybody understands these elementary moral principles; thus, the results of that understanding comes as no surprise to anybody: everybody shares online.

But there are powerful people; a handful of individuals who would rather live off rent-seeking perpetually than wait tables for a decent, moral living. And they lie to everybody, insinuating that what we do is robbery. And they legislate water be dry and ideas be property, in open contradiction to the laws of Nature. And they enlist misguided authors and artists into their cause. And they co-opt the massive apparatus available in governments around the globe, expressly designed to literally rip resistors apart, to break their spirits in rape-infested cages, and to destroy their reputations so as to turn them into shells of their former selves.

We will not respect them. We will not respect that conviction. We will refuse to regard it as moral or just, because it is neither of those. We fully support Peter Sunde when he says that he will burn every dime he has to the ground before handing it to evildoers, and we will do the same. And if they come after us, they can expect us to respond in kind. No respect can be reserved to those who violate elementary morality, and no respect will be afforded to these perverts from this point onwards.

It is not riches and business ingenuity we oppose. It is merely the use of violence and coercion for profit, however “legalized” it has become. That is it.

Justice will only truly be served when aggressors are put to rest. By any means necessary.

[Esta é a primeira -esperamos que de muitas – colaboração do Marcelo De Franceschi para  BaixaCultura. Marcelo é estudante de jornalismo do 6º semestre da UFSM e de tanto fazer o papel de uma espécie de “revisor” das postagens por aqui, apontando erros de informação ou letras esquecidas ou acrescidas nos textos, acabou sendo convidado para estar do outro lado do balcão. Marcelo é natural da histórica São Sepé, região central do Rio Grande, cidade que tem esse nome em homenagem ao mais conhecido índio destas plagas, Sepé Tiarajú, um “herói guarani missioneiro rio-grandense” que vale a pena ter sua história conhecida.]

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Roube este filme legendado

"eles parecem trabalhar como uma banda de rock"
“Eles parecem trabalhar como uma banda de rock”

O Leonardo anda fazendo uma sutil cobertura de uma questão judicial que vem atraindo muita atenção do mundo inteiro, como você pode ver aqui, aqui e aqui. O Pirate Bay canaliza em uma postura extremamente combativa as prerrogativas de inúmeros usuários de internet que compartilham conteúdo pelo mundo. Os caras têm sido acusados (e agora foram condenados) da maneira mais impiedosa e leviana possível de serem os responsáveis pelas infrações a copyright realizadas por todos que trocam arquivos por meio de seu tracker de bittorrent (o ótimo thepiratebay.org).

Meu objetivo neste post não é analisar se um tracker como o Pirate Bay se enquadra ou não em hipótese de armazenamento de obras não autorizadas ou qualquer coisa parecida. Estou aqui apenas para esclarecer a maneira como este exemplo de batalha judicial entre piratas e indústria cultural vem se desenrolando com o passar do tempo. E o que marca a peleja é uma previsível saraivada de golpes sujos, mas o interessante é que eles não têm sido aplicados pelos asquerosos e escrotos “piratas”. Os engravatados e poderosos dirigentes da indústria fonográfica, de Hollywood e suas organizações de lobby atacam sem piedade, e com ajuda de autoridades, um simples grupo de jovens nerds suecos, como se eles tivessem a ganância e o poder de um Bill Gates.

Mas não preciso ficar aqui discorrendo sobre isso quando temos um belo vídeo que trata dessa história. Steal This Film é um documentário lançado em 2006 por um grupo de produtores chamados The League of Noble Peers. Não me pergunte nada sobre eles, não sei muita coisa. Apenas que o endereço oficial da turma é esse aqui: www.stealthisfilm.com.

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O documentário, de uns 32 minutinhos, traz ao público a forma como entidades de lobby, como a MPAA, trabalharam sua influência sobre as autoridades na Suécia para causar um ataque ao Pirate Bay, bem como entrevistas com os responsáveis pelo site, usuários de tecnologia de compartilhamento de arquivos, produtores e dirigentes da indústria cultural. Um dos pontos altos que considero neste filme é quando o conhecido ator americano Richard Dreyfuss, em um depoimento, solta a seguinte frase:

Então, todos os caras que começaram este negócio trapacearam alguém para chegar onde estão e agora estão sendo trapaceados, provavelmente.

Fica nítido o ressentimento do ator para com seus patrões em Hollywood. É mais um exemplo de artista que não se sente muito protegido com o modelo de lucros do copyright.

O grande empecilho para a popularização desse documentário aqui no Brasil sempre me pareceu ser a falta de legendas em português. Portanto, me pus a fazê-las (com base nas originais em inglês) e disponibilizá-las em uma versão editada do vídeo pelo BaixaCultura. Acredito ser um ótimo momento para desfrutar da primeira parte desta série (que vai para sua terceira parte atualmente), uma vez que o Pirate Bay tem sido foco de atenção como réu e militante em questões de copyright. Estas legendas são um gesto de apoio a esses caras, que têm administrado muito bem a pressão de um monte de gente grande, e também uma forma de expor o substrato ilegítimo onde se erguem decisões oficiais como a que foi proferida nestes últimos dias.

Enfim, assista logo a essa bagaça e entenda como a indústria de música e filmes americana chegou aos tribunais da Suécia. É só clicar na imagem abaixo para baixar o vídeo legendado completo pelo rapidshare (depois é só clicar em “Free user”, esperar a contagem e clicar no sugestivo botão “download”).

Clique aqui para baixar o vídeo
Clique na imagem para baixar o vídeo

O vídeo disponível acima já possui as legendas embutidas. Se você já possui o vídeo original e quer apenas inserir um arquivo de legenda, pegue aqui o arquivo SRT da legenda. Ou então assista ao documentário em quatro partes em vídeos no Youtube, clicando aqui, ou vendo aí embaixo (sugiro maximizar o tamanho da tela e, àqueles com boa conexão, que liguem o botãozinho “HQ”).

Parte 1 de 4:

Parte 2 de 4

Parte 3 de 4

Parte 4 de 4

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[Edson Andrade de Alencar.]

Imagens:

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Cinema Livre e com legenda

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Começo o texto com uma explicação: a idéia desta pauta surgiu quando começamos a primeira leva de divulgação do BC, através de emails para conhecidos. Uma jornalista colega minha (Leonardo) retornou com uma sugestão de pauta: nas palavras dela, “apesar da minha porção jornalista andar meio adormecida, eu continuo adorando sugerir uma pauta .”

Ligada que sempre foi em cinema, tanto em apreciação quanto em produção, ela me falou do Movimento Cinema Livre, uma iniciativa com “o intuito de tornar mais acessível o chamado cinema autoral, disponibilizando gratuitamente legendas inéditas e/ou raras em português na internet“, segundo a própria apresentação do movimento.

A pauta prometia uma matéria grande, com entrevistas aprofundadas com os fundadores  do movimento. Mas aqui surgiu um problema um tanto comum em jornalismo: a pauta não cumpriu o que prometia  (ou o jornalista foi incompetente em cumprí-la?). O Movimento Cinema Livre apareceu como uma comunidade no Orkut que depois também passou a ter um blog; só que, hoje, ambos estão relativamente parados – o último post do blog é de 25 de agosto deste ano. E, ainda por cima, o email anunciado como de contato no blog não respondeu a um pedido meu de entrevista feito faz quase duas semanas.

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Mas aí pergunto: e deixar de noticiar uma boa iniciativa, que disponibiliza mais de 1000 legendas de filmes raros, só porque ela anda meio parada e não nos concedeu uma entrevista? Sabemos bem que até umas aspas – no jargão jornalístico, uma fala direta de um entrevistado – pode ser conseguida através de uma boa vasculhada na rede.

E foi com isso em mente que achei esta matéria,  no blog Conversa de Botiquim, um blog de um estudante de jornalismo da Unisinos, de São Leopoldo-RS. Com aspas dos fundadores do grupo, explicando como  começou a iniciativa e como funciona a seleção dos filmes a serem legendados, tudo conforme manda o bom jornalismo.

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A matéria tá interessante e devido as condições supracitadas, citarei as aspas de lá.  Pra começar: como  se deu a criação do movimento? “Eu percebi que havia comunidades direcionadas para troca de legendas, mas nenhuma atendia aos filmes que o MCL atende. Além do mais, pensei em traduzir legendas, mas sozinho vi que levaria décadas. Então pensei em criar uma comunidade”, diz Thiago Mattos, fundador da comunidade.

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Uma breve pausa para explicação. Os  filmes que o MCL atende são O diferencial da coisa: são daqueles que a gente costuma classificá-los de “cinema autoral”, que passam longe de Hollywood e pertinho de Cannes. Filme de cineastas como Godard, Truffaut, Antonioni, Bergman, Bertolucci, Lars Von Trier, Cocteau, Cassavetes, Buñuel, dentre outros. Os típicos filmes que raramente encontramos em locadoras – e, quando encontramos, geralmente eles estão lá por aficcionados do tipo que participam do MCL.

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Voltando à história. Criada a comunidade, em novembro de 2006, Thiago e o grupo que se formava nela começaram a divulgá-la no próprio Orkut: “A gente espalhou trezentos tópicos por comunidades de cinema sobre o MCL. Era um texto gigante, que acho que nenhum ser humano chegou a ler”, comenta o fundador ironicamente .

Em alguns meses já contavam com mais de 2 mil participantes. Com toda essa gente, organizaram um esquema para melhor funcionamento: através de enquetes, definiam-se os filmes a serem legendados. Os usuários baixavam a legenda em outra língua – normalmente inglês e espanhol – e traduziam para o português. Com ela concluída, a legenda era enviada para o email da comunidade, e posteriormente é inserida no banco de dados do site Opensubtitles.

Aos poucos a idéia da comunidade se expandiu. Em maio de 2007, nasce o blog, onde também disponibilizavam resenhas e entrevistas (feitas pelos próprios participantes da comunidade ou retirada de sites especializados). Em alguns casos, encontrava-se ali o pacote completo: resenha, legenda e link para baixar o filme. Em fevereiro deste ano, surgiu a comunidade “Manifesto Cinema Livre“, uma expansão do MCL destinada à discussão de produção cinematográfica.

Em junho deste ano a comunidade original migra para a “Nuovo Cinema Livre“. Desde então, as comunidades e o blog estão praticamente parados. Ao que parece, o marasmo na comunidade e no blog devem-se a uma nova iniciativa do Movimento: a criação de uma revista digital, que  vai disponibilizar os links e informações gerais dos filmes trabalhados, a funcionar neste endereço aqui.

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Não consta que o MCL não teve problemas com relação à direitos autorais. Até porque a sua “pirataria” é voltada para um nicho  de filmes marginalizados no circuito comercial, que obviamente não são a menina dos olhos da indústria, preocupada mais com lucro$. A pergunta que o Movimento faz é a seguinte: Se são filmes que o mercado praticamente não liga, que mal há em disponibilizá-los na rede?

Não há nenhum mal, claro. Até porque antes ver um  Buñuel, um Bertolucci, um Antonioni (todos com cartazes de filmes neste post) no computador, com uma imagem não tão boa quanto deveria, do que esperar ad eternum algum cinema ou um Telecine Cult da vida passá-los. Porque um filme só tem sentido se é pra ser visto, não?

[Leonardo Foletto]

P.S: Tirando a imagem da abertura, as imagens que ilustram este post foram tiradas daqui. São cartazes de filmes de “cinema autoral”  versão polonesa, país que tem uma curiosa tradição de fazer cartazes de filme radicalmente diferentes dos originais.