Resistência hacker em tempos de retrocessos

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Nos dias 6 e 7 de maio de 2017 ocorreu em São Paulo a 4º edição da CryptoRave, mais importante encontro brasileiro sobre segurança, criptografia, hacking, anonimato, privacidade e liberdade na rede. Inspirada na ação global e descentralizada da CryptoParty, a Crypto no Brasil é organizada por diversos coletivos – Escola de Ativismo, Saravá, Actantes, Encripta e Intervozes – e financiada por crowdfunding, via Catarse. Neste ano, a captação foi um pouco mais díficil do que nos últimos, com a meta sendo batida nos últimos dias e R$69.605 arrecadados para a produção do evento. O local escolhido foi a Casa do Povo, centro cultural no bairro do Bom Retiro, e não mais o Centro Cultural São Paulo como nas edições de 2015 e 2016.

A mudança de local, seja por questões financeiras, políticas ou outras não apuradas, trouxe ao evento um ar mais underground – mais hacker, alguém poderia dizer. Não se trata mais de um dos principais centros culturais da cidade, colado no metrô da linha azul, com diversas outras atividades e pessoas circulando como o CCSP: estamos falando de um centro cultural fundado por imigrantes judeus do leste europeu, um dos primeiros criados por imigrantes no Brasil, sediado no coração do Bom Retiro, bairro de ampla diversidade cultural (gregos, bolivianos, coreanos, judeus, entre outros), menos conhecido do circuito Paulista-Pinheiros-Faria Lima dos eventos de tecnologia em SP. A mudança escancara o que talvez seja conhecido de tod@s: a Cryptorave é um evento político, sobretudo de resistência tecnológica. E também ilustra o tamanho que o evento, em sua 4º edição, ganhou: durante a sexta e o sábado, um prédio amplo de quatro andares foi ocupado praticamente de modo exclusivo com pessoas a discutir tecnologia, política, segurança da informação, criptografia, entre outros vários tópicos correlatos destes. Se o cenário global não é favorável, a resistência parece angariar cada vez mais gente.

A fala de abertura deu uma amostra dessa posição política do evento: trouxe como palestrante James Bamford, jornalista e escritor dos EUA especializado em cobertura dos casos da NSA – a New Yorker o chamou de “cronista-chefe” da NSA neste perfil publicado em junho de 2013. Para uma plateia atenta e diversa, Bamford mostrou as diversas formas que a NSA espiona as informações que circulam na rede, trazendo imagens dos lugares físicos que isso acontece – o que nos faz lembrar que a internet é uma rede física, formada de cabos, roteadores, data-centers e outros espaços por onde as informações que cá circulam passam. Ele citou dois lugares por onde a NSA pode interceptar informações da rede: o NAP Barueri, talvez o mais importante Ponto de Troca de Tráfego (PTT) brasileiro, um local que interliga diversas redes de computadores, constituído de um datacenter que interliga os equipamentos de comunicação dos diversos provedores de internet existentes aqui; e o NAP America, um gigantesco conglomerado de 32 quadras de armazenamento de dados em Miami, espaço por onde passa a maior parte das informações que circulam na internet da América Latina para os EUA – Facebook, Google, Apple e outros serviços são dos EUA, vale lembrar. O brasileiro é um dos diversos pontos mundiais administrados pela Verizon, gigante de serviços de internet (dos EUA), enquanto que o NAP de Miami da Equinix. Será que estas estas empresas protegem os dados que lá circulam quando uma agência com o poderio da NSA está disposta a tudo para caçar whisteblowers como Snowden? É uma boa pergunta a se fazer, que o próprio Bamford já respondeu neste longo relato na Wired: não.

Bamford falou também sobre a iniciativa brasileira de construir um cabo submarino para que o tráfego de dados do país siga direto para a Europa sem ter que passar pelos Estados Unidos — a primeira obra deste tipo e sem contar com a participação estadunidense. Apesar de elogiar a iniciativa, o jornalista destacou que os EUA possuem um submarino que pode interceptar a captação de dados no meio do oceano, além de fazer acordos com outros países para obter tal interceptação em outra ponta. Com isso, ele quis frisar que o país deve fazer a inspeção do cabo de ponta a ponta, para tentar evitar espionagens, segundo relato publicado pelo Intervozes, um dos organizadores da Crypto deste ano.

Após a fala de abertura, as atividades se concentraram no 1º andar do prédio, onde lojinhas (dos produtos da própria Crypto, de livros de computação, de editoras anarquistas – do qual compramos uma edição artesanal comentada do clássico da filósofa/antropóloga Donna Haraway, na imagem acima), e comes/bebes garantiam a energia para conversas e algumas oficinas espontâneas que ocorreriam por ali durante a madrugada. O Baer Mate, sem gosto de ilex paraguiensis mas com muita cafeína, foi o combustível que deixou acordados hackers e outros cryptopunks corajosos que vararam a madrugada; o Preto Café, espaço baseado no centro de SP, fez uma versão para o evento mostrando todo seus custos de forma transparente, no esquema “pague quanto acha que vale”; outras comidas (opções vegetarianas/veganas costumam existir em quantidades em eventos de hackers, e aqui não foi exceção) e até uma cerveja artesanal com mate fizeram do hall do 1º andar o espaço mais frequentado durante toda a sexta e o sábado.

 

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O segundo dia de CryptoRave começou com a mesa “Resistindo à distopia – Práticas para dialogar com não especialistas”, com a mexicana Lili Anaz, pesquisadora e ativista em auto-defesa na web e desenvolvedora de tecnologias livres com perspectiva hackfeminista, no âmbito do Laboratório de Interconectividades, e Sasha Constanza-Chock, que leciona Mídia Civil no MIT, nos Estados Unidos, e publicou recentemente o livro “Out of the Shadows, Into the Streets! Transmedia Organizing and the Immigrant Rights Movement“. A mesa trouxe pra discussão um tema muito frequente pra quem fala de segurança da informação e criptografia, a saber: se estamos todos sendo espionados a todo momento pela NSA, empresas de internet e governos, como resistir?  Lili, por exemplo, vê a arte como uma saída possível para a resistência, e desenvolve projetos nessa linha, como o Mirada Sostenidas, projeto artístico transmídia que lembra e dialoga com vítimas de tortura sexual cometida por agentes do governo mexicano, caso denunciado no final de 2016 na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Sasha falou de alguns de seus projetos, como as DiscoTech, oficinas livres, abertas e multissetoriais para pessoas explorarem, compartilharem e discutirem experiências com vigilância,e o Bedtimes Stories, excelente projeto muiltimídia que conta as histórias de imigrantes detidos pelo governo dos EUA. A mesa pode ser assistida no canal da TV Drone no YouTube.

Mas o que mais podemos fazer? Lili, que também já fez parte do coletivo Astrovandalistas, disse, em uma entrevista à MotherBoard Brasil que, num primeiro nível, “podemos gerar consciência crítica com as tecnologias que mediam a nossa noção de mundo e, com isso, mudar como nos comunicamos, como nos organizamos”. Ela acredita que, se vamos repensar as infraestruturas, “não devemos nos limitar apenas a repensar ou não uma tecnologia apenas. Temos que repensar por quais estruturas estamos passando para retomar nossas vidas.. O hacking, então, entraria como uma possibilidade de criação, que tem a ver com processos artísticos e outras formas de experienciar linguagem, não necessariamente ligadas à computação, e com possibilidades de gerar espaços de experimentação, subverter as linguagens e as relações. “Hacking tem muito mais a ver com essa intervenção que é extremamente política, no sentido de posicionamento. Um compromisso com o que se quer transformar”, afirma Lili.

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A partir das 11h, as múltiplas atividades paralelas nos 6 espaços trouxeram debates em torno de diversos temas. Assistimos nesse horário uma fala sobre design (in) seguro no espaço Alan Turing, com as designers Virgínia Stefanello e Patrícia Estevão. O embate de interface amigável X autonomia do usuário/privacidade é um assunto bastante presente em quem fala de segurança da informação, já que a popularização da privacidade na internet passa por um design mais fácil das ferramentas. Mas como facilitar sem tirar a autonomia do usuário? Como ensinar alguém a criptografar um e-mail sem passar por noções básicas de PGP e chaves? A discussão sobre popularização de princípios básicos de segurança da informação parece passar pelo design – e talvez por isso também havia pela Crypto um dos desenvolvedores do Tails, sistema operacional dos mais seguros existentes hoje, conversando com alguns usuários de modo a melhorar a usabilidade do sistema operacional. Outro SO indicado na mesa foi o Qube OS, que, além de ser de código aberto, tem uma interface amigável e permite níveis crescentes de autonomia, de acordo com o interesse de cada usuário. As duas designers sugeriram, ao final de suas falas, boas práticas para um design seguro, como por exemplo criar uma configuração default que represente a melhor situação de segurança e privacidade caso o usuário não mexa nela e combinar a maneira mais fácil de fazer uma tarefa dando o mínimo de autoridade (acesso ou recurso que o usuário pode controlar).

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Às 13h, Sérgio Amadeu, um dos mais atuantes e conhecidos ativistas pela liberdade na rede no país, trouxe em sua fala a infraestrutura de espionagem brasileira. Ele apresentou um breve histórico dos serviços secretos brasileiros e mostrou a intensificação do trabalho de vigilância na rede nos últimos anos. Pra uma sala que foi lotando na medida em que Sérgio inflamava mais seu discurso, contou que, hoje, são 31 serviços de inteligência estaduais no Brasil que fazem parte do sistema de espionagem brasileiro, juntamente com os orgãos nacionais Polícia Federal, Ministério Público e ABIN. Essa última, a partir das manifestações de junho de 2013 e especialmente com Temer, voltou ao lema da época da ditadura: o inimigo é interno. E aí tome vigilância em tudo e tod@s, com apoio e parceria dos EUA – Amadeu mostrou que o exército dos EUA voltou a fazer operações na Amazônia depois de quase 40 anos, a convite de Temer. A fala terminou com Sérgio apontando que, na verdade, o inimigo é os EUA, e que tanto a polícia e o exército sabem disso, mas não querem ver: tratam como inimigo as pessoas comuns, vigiando-as sem dó em aparatos cada vez mais complexos e caros – não por acaso, boa parte deles comprados dos EUA…

Após uma breve parada para o almoço, com uma feijoada vegana honesta a R$12, seguimos flanando pelos andares da Casa do Povo, e entre conversas rápidas e múltiplas com desconhecidos e amigos, paramos brevemente na mesa de Andrew Fischman, jornalista do Intercept Brasil, e Joana Varon, da Coding Rights, sobre o papel do jornalismo investigativo num mundo vigiado. O jornalista afirmou que falar que “nada adiantou” com as denúncias dos whisteblowers como Snowden ajuda a construir a ideia de que criptografia não nos protege, o que não é bem assim: se ela não nos protege totalmente (e ninguém está protegido totalmente de nada!), pelo menos ela dificulta. Joana apresentou alguns dos trabalhos produzidos pela sua organização, que busca mudar a narrativa sobre privacidade no dia a dia com iniciativas como Chupa Dados, um especial multimídia que explica como o funcionamento de aplicativos e outras tecnologias que usam nossos dados têm impacto – às vezes, negativo – nas nossas vidas. Também apresentou em primeira mão uma infografia sobre o aumento de vigilância em grandes eventos no Brasil, o Legado Vigilante. Vale também conhecer outros projetos da Coding Rights, como a Oficina de Antivigilância e o Safer Nudes.

No fim de tarde, caímos na laje, onde ocorreu uma roda de debate sobre uma das fronteiras mais importantes do ativismo digital hoje, as redes livres. Bruno Vianna falou sobre a Coolab, uma cooperativa formada no início deste ano que tem por objetivo fomentar as infraestruturas autônomas, através da capacitação técnica e ativação comunitária. Contou da chamada pública da rede, que a partir de um financiamento de 30 mil dólares obtido no Desafio Equal Rating, da Mozilla, quer montar redes e provedores comunitários Brasil afora. A gurizada da Casa dos Meninos, na extrema zona sul de São Paulo, é um dos grupos que estava presente na conversa e já tem uma rede livre faz alguns anos, chamada de Base Comum de Conhecimento Cidadão. É um sistema que foi construído a partir de sinal de antenas numa área próxima a 1 km, e que fornece um rede interna para diversas troca de informações na comunidade. A Artigo 19 esteve representada na roda por Laura Tresca, que comentou um pouco do trabalho que a organização tem feito em prol das redes livres – como esse excelente guia de como montar e regularizar um provedor comunitário.

Havia mais pessoas na mesa, houve mais debates, e conversas, mas como dá pra perceber, nem tudo consegue ser registrado. Depois do encerramento do evento, longe da Casa do Povo, no bairro central do Bixiga, ainda houve a parte “Rave” do evento, no Al Janiah, bar onde trabalham diversos refugiados e que tem se tornado espaço de resistência, em especial da esquerda paulistana. A Crypto encerrou com rock, eletrônico, kebabs, schwarmas, falafel, araques, cachaças, sambas, húmus: eclética.

Fotos: 1 (Rafael Zanatta), 2, 6, 9, 11, 12, 13, 14 (Cryptorave), 3, 4, 5, 7, 8, 10, 16, 17, 18 (BaixaCultura).

Erros, acertos e experiências no jornalismo pós-industrial

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No início de junho de 2014 fiz um comentário breve no Facebook sobre boas novas pro jornalismo brasileiro a partir de um cenário otimista de expansão de iniciativas “independentes” dos grandes grupos de mídia (Globo, Folha, Estadão, RBS, etc). Fiz motivado pelo surgimento de “A Ponte“, um site de jornalismo de investigação focado em temas como direitos humanos, segurança pública e justiça, temas tão importantes quanto mal noticiados ultimamente.

O comentário também falava de como a crise do modelo industrial de informação poderia gerar uma “Idade de Ouro” no jornalismo, como acredita, por exemplo, o Bruno Torturra, ex-editor da “Trip”, um dos idealizadores da “Mídia Ninja” e ele mesmo, hoje, tocando um projeto independente de jornalismo, o estúdio “Fluxo“, que recentemente (final de julho de 2014) começou uma campanha de financiamento coletivo para o projeto.

Mais ou menos um mês depois do comentário, uma notícia quis que eu pensasse um pouco mais o tom otimista do comentário. A notícia é esta, publicada em 22 de julho de 2014: “O braço fraqueja às vezes: o Impedimento acabou“, que anuncia o fim de uma das iniciativas mais interessantes de jornalismo esportivo brasileiro, o site Impedimento. Na hora, senti o golpe no tom otimista, de cenário promissor, de explosão do jornalismo – da mídia de massas à massa de mídias, como diz o jornalista e professor francês Ignácio Ramonet em seu último livro – e escrevi o texto “Sobre o fim do Impedimento e o ecossistema do jornalismo“, no Brasil Post. Dizia, entre outras coisas:

“Hoje sabemos que o mundo é outro, que a publicidade por si só não paga o jornalismo na internet, e que, principalmente, o jornalista não está mais sozinho na produção de informação como em outros tempos. Muitas pessoas com o mínimo de acesso a internet podem cometer “atos de jornalismo” ao noticiar para milhares de pessoas em uma rede social, por exemplo, que um acidente de carro ocorreu em frente a sua casa. Neste cenário, como “premiar”, que seja com a continuidade, as melhores iniciativas de pessoas que trazem informações importantes para a nossa vida cotidiana? Como sustentar e qualificar uma quantidade grande de produtores de informação para bancar uma “dieta saudável” de informação, não dependente apenas de notícias “industrializadas” e, não rara, carregadas de quantidades tóxicas de interesses disfarçados? Como promover a continuidade de um jornalismo que seja um pouco mais transparente em seus interesses, um pingo mais sincero em sua forma de comunicar e que consiga, ainda assim, ter condições de ir atrás de histórias interessantes e importantes para a nossa vivência diária?

Talvez o comparativo com a produção da agricultura orgânica e/ou familiar possa servir para apontar um possível caminho para o aumento do “ecossistema”: pequenos produtores, menos (ou zero) fertilizantes, produção e consumo local, ecologicamente sustentável, menos intermediários, mais sinceridade no trato e menos cinismo. Talvez caminhar no fortalecimento dessa via seja uma boa coisa para a saúde desse ecossistema. Ou nos resta assumirmos que essas iniciativas que vem e vão são – nesse enquanto que o jornalismo tateia reinvenções – efêmeras, rotativas, e transformadoras dessa forma, no processo, no “foi bom enquanto durou”, como é (foi) o caso do Impedimento.”

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Marcelo Träsel, professor de jornalismo digital da PUCRS, recentemente fez uma ótima análise em seu blog sobre o caso Impedimento e o do blog Destemperados. Ambos iniciaram suas atividades como blogs amadores em Porto Alegre e ampliaram suas atividades ao longo do tempo, profissionalizando-se e buscando formas de financiar a atividade editorial. Entretanto, o Impedimento acabou e o Destemperados assumiu recentemente a direção do caderno de culinária da Zero Hora. Por quê? A resposta mais simples é que, enquanto o Impedimento produzia jornalismo no sentido estrito, o outro publicava crônicas agradáveis que registrassem estabelecimentos interessantes, sem criticar, mas servir como um guia. Inclusive, um dos dez mandamentos dos Destemperados é “não avaliarás”, algo que não soa bem para o jornalismo, sempre tão crítico a tudo e todos.

Träsel faz uma análise completa do histórico dos dois casos. Cita que o Impedimento buscava, dentro dos “limites operacionais estreitos de um grupo de repórteres sem esteio numa empresa ou instituição, publicar informação que alguém, em algum lugar, preferiria não ver publicada”. Já o Destemperados não tinha esse compromisso. Queria, sim, ser um mostruário de gastronomia, não um jornalismo crítico de culinária. O fato deste último ter, em seu quadro um publicitário, um advogado e uma profissional de Relações Internacionais, facilitava esse afastamento da “missão principal da imprensa”. Coisa que no Impedimento não acontecia, pois todos seus fundadores eram jornalistas. A partir das diferenças dois dois exemplos, o texto aponta 4 liçõessobre empreendimentos jornalísticos independentes hoje. A saber:

1. Se é um empreendimento, alguém na equipe deve assumir o papel de empresário. A principal diferença entre o Impedimento e o Destemperados foi a predominância de uma mentalidade jornalística no primeiro e de uma mentalidade empresarial no segundo. Deixando-se de lado esse fator, todas as outras condições e circunstâncias são muito semelhantes, assim como ambos apresentam boa qualidade de conteúdo dentro de suas propostas.

2. Se ninguém na equipe mantém boas relações com empresários, políticos ou agências de publicidade, só há duas alternativas de financiamento: patrocínio do terceiro setor ou faturamento com venda direta à audiência. O problema do patrocínio do terceiro setor é depender também, em alguma medida, de boas relações políticas. Embora em geral a concorrência por bolsas seja mais aberta, baseada em editais, os selecionadores levam em conta a inserção de um determinado projeto numa comunidade de ativistas — por exemplo, o fato de algum dos proponentes já haver participado de outros projetos como voluntário ou funcionário. Além disso, em geral esse tipo de patrocínio se foca em jornalismo voltado a questões políticas e sócio-econômicas, o que eliminaria tanto o Impedimento quanto o Destemperados do concurso.

3. O problema de contar com financiamento direto pela audiência é ninguém ainda ter descoberto exatamente como vender notícias para leitores na era do jornalismo pós-industrial. Se alguém descobrir como fazê-lo, avise.

4. A terceirização parece ser uma via promissora, ao menos no Brasil. Além do Destemperados, há em Porto Alegre a experiência de agências como Cartola, Fronteira e República. Seus fundadores são repórteres jovens que, insatisfeitos com as restrições das redações tradicionais, pediram demissão e criaram suas próprias empresas. Hoje, prestam serviços para seus ex-empregadores e inclusive grandes veículos do Sudeste. Ganharam mais liberdade de escolha das pautas a serem perseguidas e, ao mesmo tempo, melhores salários e qualidade de vida.

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Marcela Donini, jornalista e professora de jornalismo da ESPM, também leu o texto de Träsel e comentou em outro artigo importante para entender a situação hoje, a começar pelo título: Não sabemos de nada. Ali, também a partir dos dois casos, ela aponta o que, nas palavras dela, todo mundo já sabe: nós, jornalistas, ainda não sabemos como bancar reportagens desde que as verbas publicitárias começaram a migrar para outros canais na internet. Ela aposta numa hipotése: não é que as pessoas não querem mais pagar pelo jornalismo, a maioria delas talvez nunca quis pagar, pagava porque não tinha opção.

O texto foi publicado no Farol Jornalismo, uma interessante iniciativa de ideias, produção e pesquisas sobre novas formas de jornalismo, um projeto dela e de Moreno Osório, também jornalista e pesquisador do tema. “As pessoas pagavam uma assinatura de jornal diário mas acabavam lendo só a seção de esportes. E nós jornalistas tínhamos a ilusão de que elas se interessavam por todo o nosso produto, porque era difícil medir. Na internet, é possível saber direitinho o que dá audiência e o que não dá – e por testemunhos nossos, de colegas e por experiência como leitores, sabemos que esportes, celebridades e serviço fazem, em geral, mais sucesso do que política e economia. É o eterno embate entre o que o público quer ler e o que os jornalistas acham que o público precisa ler.”

Jornalista com experiência de anos em redação, ela comenta que esteve com uma editora de um jornal que falou de um conteúdo multimídia bem acabado com vídeos e infográficos sobre os 25 anos da Constituição e cuja audiência foi pífia. Um tema relevante, mas que, infelizmente, não interessa a muita gente, ainda mais na rede, com zilhões de outros assuntos te pedindo atenção. A partir daí, ela conclui que o “problema do jornalismo hoje não é que essas 3 pessoas não pagam a execução de um especial multimídia como esse; as pessoas nunca financiaram inteiramente o jornalismo, quem sempre bancou a imprensa foram os anunciantes“.

Sabemos que o jornalismo moderno é fruto do alvorecer capitalista do século XVIII, e seus financiadores foram, principalmente, os partidos, naquela época (até meados do XIX) em que o jornalismo era em suma opinativo e ligado a política; e a publicidade, notadamente do final século XIX e todo o século XX, em que a objetividade serviu como garantia de uma suposta neutralidade necessária para aumentar – e depois manter – o esquema industrial de produção de notícias. Hoje talvez saibamos que a publicidade não dá mais conta de (ou não quer) pagar o jornalismo. Mas o que dá?

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Pergunta de um milhão.

Há iniciativas de vários lados, além das várias já citadas aqui: as financiadas por fundações privadas, em geral dos Estados Unidos, onde existe uma tradição de filantropia que potencializa iniciativas como a Pro Publica e a Agência Pública, no Brasil, que tem a Fundação Ford como principal financiador, além da Open Society e da Omydar, esta comandada pelo milionário Pierre Omydar, criador do E-bay, e que hoje está bancando outra iniciativa importante de jornalismo de investigação, o First Look Media, lar do The Intercept, comandado por Glenn Greenwald.

As “ongs” de jornalismo, como a Repórter Brasil, que trabalham com pesquisas, junto à governos (federal e estadual) ou a iniciativa privada (fundações e institutos) e também contam com doações, o que permite uma certa liberdade para tocar projetos de maior fôlego e que não teriam espaço nas publicações tradicionais, como é o caso do Moendo Gente, um especial multimídia sobre as condições de trabalho nos frigoríficos brasileiros. E, em especial, do Arquitetura da Gentrificação, uma investigação jornalística sobre o processo de gentrificação no centro de São Paulo financiada coletivamente – e que está em sua 2º edição em captação no Catarse. O AG tem por foco as medidas de higienização social adotadas durante as duas últimas administrações municipais de São Paulo (2005-2012), em especial as relações entre poder público e empresas privadas do setor de construção civil e ramo imobiliário – tradicionalmente, os dois ramos que mais investem na publicidade dos grandes jornais de SP, Folha e Estadão.

Existem, ainda, as startups, empresas pequenas que focam em soluções inéditas para problemas não-resolvidos (ou não pensados), em geral relacionadas a tecnologia digital e a internet. O cenário de muita experimentação e de crescimento da importância da tecnologia na produção do jornalismo (taí o jornalismo de dados para provar) parece ser favorável para o surgimento de pequenas empresas que criam produtos (aplicativos) ou serviços relacionados ao jornalismo. Nos Estados Unidos, onde a tradição empreendedora é forte, já existe até um centro de investigação com uma especialização nessa área, tocada por um Instituto ligado a Kony University e ao Knight Center.

Rosental Calmon Alves, brasileiro fundador da Knight Center para as Américas na Universidade do Texas, comentou, no último congresso da Abraji, que ele mesmo dá uma disciplina chamada jornalismo empreendedor (“Entrepreneurial Journalism”; dá uma olhada no currículo da universidade). A ideia da cadeira é que os estudantes criem uma startup, e para isso eles devem passar por “pitchings” diversos, inclusive o famoso “Elevador Pitching”, que consiste de apresentar a sua ideia em 3 minutos, como se estivesse num elevador com um investidor e aquela fosse tua única chance para convencê-lo a investir. Ao final, os alunos apresentam sua ideia para um jurado de investidores, que os avalia. No caso do Texas não há dinheiro de fato envolvido para os “vencedores” da turma, mas na especialização da Kony, por exemplo, esse mesmo processo dá R$50 mil para quem passar no pitching final.

Há um relatório sobre inovação no jornalismo, feito pela equipe do NY Times e muito citado por Rosental em sua fala, que aponta para o caminho das startups como um dos mais promissores na era do jornalismo pós-industrial. Vice, BuzzFeed, Huffington Post, Vox Media parecem dizer que esse é uma via em expansão – pelo menos nos Estados Unidos. No Brasil, há iniciativas que visam abertamente a incentivar a inovação no jornalismo, como é o caso da OrbitaLab, que surgiu para reunir quem tem projetos de mídia e quer tirá-los do papel e na última Campus Party fez uma maratona de debates sobre este assunto (estive lá e fiquei com a impressão que Marcela nomeou seu texto: não sabemos de nada. Estamos só testando. Quem errar melhor agora parece ter mais chance de acertar depois).

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Ocupação da Câmara Municipal de Porto Alegre, 2013.

Um assunto que nem sempre aparece relacionado ao ecossistema em expansão do jornalismo hoje é o debate sobre a democratização da mídia, em especial no que diz respeito as verbas de publicidade dos governos. Há no Brasil uma forte concentração de dinheiro da publicidade governamental no que se convencionou chamar de “grande mídia” (tvs, rádios, jornais, revistas e portais de notícias), frequentemente conglomerados de comunicação que contém vários meios. Alega-se que estes grupos e seus meios tem a maior audiência e, por isso, são os que mais recebem dinheiro, sobrando pouco para pequenas publicações, rádios e tvs comunitárias que poderiam diversificar o leque de canais de informação a disposição da população.

Para ficar num exemplo prático, vejamos o caso do Rio Grande do Sul. O Grupo RBS, dono da RBS TV, jornais Zero Hora e Diário Gaúcho e da Rádio Gaúcha, abocanhou 35% da verba de publicidade do estado do RS em 2013, segundo dados obtidos pelo site Jornalismo B, o que dá cerca de R$17,5 milhões. Só em TV, onde a produção jornalística requer mais equipamentos e investimentos, 65% da verba de publicidade para o interior do RS fica com a RBS; na capital Porto Alegre, são 45%. No rádio, são 46% na capital para a Rádio Gaúcha, enquanto que nas rádios do interior esse valor é amplamente diluído, ficando a rádio Gaúcha com 6%.

Alguém pode alegar: nada demais nesses números. No que pergunto: recebem mais verba porque os veículos do grupo RBS são os mais vistos, ouvidos e lidos no RS, ou porque recebem mais verbas é que o produto final acaba sendo o mais lido? Há diversas explicações por trás dessa questão tipo “o ovo ou a galinha”, que se esmiuçadas nos ajudam a entender porque determinado grupo anda de mãos dadas ou jogando pedras em certos governos ao longo da história. Para ficar apenas em um exemplo: o jornal Zero Hora, hoje o principal do RS, foi criado em 4 de maio de 1964, um mês depois do golpe militar no Brasil. Não é coincidência que no seu início o jornal tenha saído abertamente pró-golpista, congratulando os militares que recém haviam tomado o poder e que nele permaneceram por duas décadas. Esse especial, também do Jornalismo B, esmiuça a relação da ZH com a ditadura militar brasileira.

Não tenho acesso ao orçamento do grupo RBS hoje, mas certamente o dinheiro da publicidade governamental não é a sua principal fonte de renda. Mas em algum momento foi para hoje não ser mais. O que me remete novamente ao contexto atual, de um novo ecossistema de informação, com milhares de novas publicações “não-industriais” e várias pessoas cometendo “atos de jornalismo” diariamente. Se ampliamos a distribuição de verbas do governo para novas mídias, blogs, jornais de bairro, tvs e rádios comunitárias, não estaríamos fomentando a proliferação de mais mídias, ampliando o ecossistema do jornalismo e proporcionando uma saudável concorrência por um jornalismo de qualidade? Ainda que haja críticas diversas a Lei dos Meios na Argentina, por exemplo, ela permitiu durante a última Copa do Mundo com que muitas comunidades humildes, indígenas, paróquias, municípios pequenos, pessoas jurídicas ou organizações não governamentais pudessem transmitir, sob a sua visão particular, os jogos, um ganho considerável em questão de pluralidade de pontos de vista.

Sabe-se que este certamente é um vespeiro difícil de mexer, dado a ferrenha oposição que os grandes grupos de comunicação brasileiros já demonstraram contra qualquer mudança no status quo da mídia no país, das concessões de tvs e rádios a criação de um conselho de jornalismo, batalhas estas da qual o coletivo Intervozes é a principal frente de oposição aos interesses corporativos. Não é preciso imaginar muito que estes mesmos grupos atacariam qualquer iniciativa de democratização da comunicação – possivelmente alegando palavras contrárias a “liberdade de expressão”, ou relacionando corrupção com investimento em blogs “governistas”, já que ser “tendencioso” é um risco que se corre com o investimento em pequenas mídias.

No mesmo RS, há uma tímida reação no sentido de democratização das verbas de comunicação com a criação da Política Estadual de Incentivo às Mídias Locais, Regionais e Comunitárias, lei aprovada na Assembléia Estadual em abril de 2014. Ela contempla 20% da verba de publicidade do governo do RS (executivo, legislativo e judiciário) para periódicos, jornais e revistas impressas com tiragem entre 2 mil e 20 mil exemplares editados sob responsabilidade de empresário individual, micro e pequenas empresas e veículos de radiofusão local – devidamente habilitados em conformidade com a legislação brasileira.

Não menciona qualquer linha as mídias na internet, o que é uma pena, dada a importância que a rede tem para a proliferação de pontos de vistas diferenciados. Mas uma exclusão compreensível, pelo menos em parte, pela relativa novidade (para o governo, sempre correndo atrás da sociedade) da questão, que põe lado a lado formas organizadas de pressão política (a realizada, ainda que timidamente, por jornais de bairro, tvs e rádios comunitárias) e a de blogs e mídias digitais, dispersas e não raro apartadas da política “tradicional” por recusa ao sistema político como está posto. Há, por fim, a justificativa da falta de formalização de muitas mídias digitais hoje, o que inviabilizaria que estas vencessem os trâmites burocráticos para concorrer as verbas do governo e abriria precedentes para diversas acusações de favorecimento de “amigos” – “mas como o blog Z ganhou X reais do governo?”, e coisas do tipo. A criação de um fundo estadual com esta verba, somada a regras bem claras e um conselho amplo que organizasse a distribuição, poderiam amenizar essa situação – mas achar que evitaria 100% estes casos ainda é, hoje, infelizmente uma utopia.

Ainda assim, a iniciativa não deixa de ser uma pequena vitória no sentido de fortalecer os pequenos veículos de comunicação e democratizar o fluxo das informações direcionadas à população. Talvez, nesse contexto caótico e afeito a novidades de hoje, esperava-se mais rapidez e avanços na proposta. Se o jornalismo está virando pós-industrial, os interesses políticos (e os da “indústria” da comunicação) ainda parecem estar fincados numa pesada e lenta era industrial.

[Leonardo Foletto]

Crédito fotos: 1, 2, Douglas Freitas (que ajudou na escolha da primeira foto também, valeu)

Robos e jornalismo – um futuro próximo?

robo e jornalismo

Na primeira semana de maio de 2014, li um texto que me instigou bastante: “um jornal impresso feito por robôs é o futuro da mídia ou apenas uma atividade secundária?”. Nele, o jornalista relatava o causo de que o The Guardian, um dos principais jornais da Inglaterra – certamente um dos mais inovadores do planeta, especialmente na seara digital – experimentou uma edição limitada de seu jornal impresso totalmente produzido por algoritmos, as sequências de cálculos automatizadas que estão por trás de todo software. E a partir da notícia, fazia a pergunta que dá título ao artigo, questionando também se é este, de fato, o jornalismo que queremos de nossos famigerados jornais impressos.

Como ando pesquisando a cultura hacker e o jornalismo no doutorado, esse é um assunto que me interessa. Não é de hoje que vemos um crescimento absurdo da influência da tecnologia digital em todos os processos e produtos jornalísticos. Enquanto trabalhamos como jornalistas, apuramos, escrevemos, filmamos, editamos, gravamos, fazemos fotos, publicamos e fazemos circular nossas matérias, reportagens, vídeos e fotografias em máquinas governadas por dígitos, combinações infinitas e complexas de binários (0 e 1).

Não importa o suporte que o jornalismo é veiculado, todos eles estão tomados por máquinas digitais em alguma – ou em todas – etapas. A não ser que você queira fazer um jornal artesanal, escrever a mão, copiar o texto em mimeógrafos (existem ainda?) e distribuir na rua, ou em bancas e livrarias, não há como escapar da digitalização.

Daí que, ao ler a matéria sobre o avanço dos “robôs” sobre os processos jornalísticos que antes humanos faziam, diversas questões vieram à tona. Se a competência da técnica é cada vez mais importante na produção do jornalismo, e se a forma de ‘objetividade’ na atividade jornalística, especialmente nas seções “últimas notícias” dos sites, desumaniza tanto o processo que fica fácil um robô fazer isso, o que aconteceria se eles, robôs (scripts, combinações várias de algoritmos bem construídos de seleção e hierarquização da informação) substituíssem de fato um editor de um jornal?

Teríamos um jornal somente da “bolha” de nossos amigos ou pessoas com pontos de vistas semelhantes, com informações sobre coisas que já demonstramos interesse em algum momento na rede, como é o caso da timeline do Facebook, o nosso “jornal diário” que consultamos diariamente (alguém de vocês não faz isso?) e mistura notícias importantes, exibição turística, gastronômica e apaixonada alheia, memes da internet e muito, mas muito comentário sobre tudo e todos?

Imagino que nem eu nem ninguém tenha respostas a estas questões. Para produzir um jornalismo de qualidade, que traz uma informação que as vezes nem sabíamos ser de suma importância para o interesse público, sempre foi necessário aquele “feeling” do repórter em buscar informações, sentir quando elas podem se tornar notícias relevantes e de que forma elas devem ser apresentadas para fisgar quem lê/assiste/ouve. Com a maior influência da tecnologia no jornalismo, e a onipresença das redes digitais, cada vez mais informações podem ser buscadas por ferramentas digitais, quanto mais avançadas as buscas melhor a qualidade e a possibilidade de cruzamentos dessa informação – e taí o jornalismo de dados (ou datajournalism) e as reportagens multimídia para provar o quão bom jornalismo é possível fazer dessa maneira.

Mas o “faro” de identificar “isto é notícia!” depende de tantos fatores, tantas variáveis e de tantas questões subjetivas, que fica difícil de elaborar, hoje, uma coleção de algoritmos (um “robô”) tão robusta que dê conta de fazer automaticamente esse processo. Os robôs do The Guardian talvez estejam tateando nesse caminho, mas se não houver quem os programe, quem coloque sentenças do tipo “se a informação X estiver na rede deve ser notícia, portanto publicada”, não há robô que dê conta.

Além disso, outras questões surgem: e se as informações de alguma forma não estiverem digitalizadas em nenhum espaço na rede, como um robô irá saber quem entrevistar ou que esse acidente que aconteceu agora em frente a minha casa deve ser notícia? E se esse “jornal diário” feito pelos robôs, baseados nos nossos interesses demonstrados nas redes sociais (posts que curtimos, fanpagens que seguimos, pessoas que mais acompanhamos e comentamos), não trouxer informações básicas sobre o tempo, trânsito, horários e preços, informações básicas de interesse de uma coletividade organizada, em torno de uma cidade, por exemplo, consumiríamos assim mesmo esse produto?

Questões, questões e mais questões que hoje não têm resposta, mas que só o fato de poderem ser colocadas dão uma pista de como o mundo – e o jornalismo – está em profunda mutação.

[Leonardo Foletto]

* Texto publicado originalmente no site de Claudemir Pereira

Crédito imagem: Pepper Robot

Compartilhamento & jornalismo com o Pirate Bay

Quase um ano depois, o Pirate Bay volta a ser assunto nesta página. E, não, não é porquê agora o maior tracker de bit torrrent do mundo lançou uma plataforma de divulgação de artistas, a PromoBay. Muito menos por conta de Paulo Coelho estar inaugurando este novo espaço, figurando na Home do PB e logo aqui em cima.

O assunto aqui é, como no texto de Eliane Fronza de quase um ano atrás, uma pesquisa acadêmica de fim de curso. O jornalista capixaba, anarco-individualista e caoísta autodidata Filipe Siqueira resolveu pesquisar a forma com que dois veículos jornalísticos vêem o compartilhamento na rede. Para isso, escolheu acompanhar a cobertura do já lendário caso do processo contra o Pirate Bay, que foi pauta frequente em 2009, tando dos cadernos que cobrem tecnologia e cultura digital (raros) quanto de blogs, como foi o nosso caso.

Filipe teve a irresponsabilidade de nos escolher como um desses veículos – embora até hoje não saibamos se é jornalismo o que aqui se encontra – o que nos deixou, de qualquer forma, muito honrados. Ao nosso lado, o capixaba estudou O Estado de São Paulo. Seria fácil imaginar que a nossa cobertura do caso e a do Estadão tenha sido beeeem diferente, dada às tradições “republicanas” e “conservadoras” do diário paulista e o nosso total descompromisso com estes dois “palavrões”. Além, é claro, da gritante diferença de tamanho das duas estruturas, que não vamos nem comentar.

Mas a coisa não foi beeeemassim. O melhor é ler o trabalho, intitulado “Compartilhamento e Jornalismo: Um estudo do Pirate Bay no jornal Estado de São Paulo e no blog BaixaCultura“, ao final desse post, para entender a que conclusão ele chegou.

Antes, como é de praxe por aqui, o próprio Filipe apresenta o trabalho e as motivações que o levaram a estudar o assunto.

Sou de uma geração que levou o ato de Compartilhar até às últimas consequências. Se essa habilidade potencialmente poderosa nos humanos foi um dos motivos mais primordiais por trás de nossa evolução, a partir da reta final do século passado, com o desenvolvimento de ferramentas digitais, ela deu origem a um embate cada vez mais entranhado nas decisões corporativas e governamentais. Siglas como o ACTA e SOPA são nomenclaturas de entidades ditatoriais que crescem cada vez mais para abocanhar uma das principais características da Internet: a liberdade de Compartilhamento.

Essa guerra foi o principal gatilho na escolha do tema da minha Monografia – do curso de Jornalismo das Faculdades Integradas Espirito-Santenses (FAESA). Já tinha escrito várias matérias sobre a treta em volta do Pirate Bay para meu blog, o Nerds Somos Nozes, e considerava que já tinha uma certa base para cair de cabeça em uma pesquisa acadêmica.

Não deu outra. No início imaginei fazer uma reportagem investigativa profunda para descobrir a motivação de tais pessoas pelo ato de compartilhar. Mas após conversas com a orientadora do meu projeto, decidir me debruçar em um tema mais acadêmico, com uma pesquisa que usasse a mídia como principal suporte de investigação.

O resultado foi selecionar o Estadão e o blog BaixaCultura para servirem de veículos analisados – e com naturezas, imaginava eu, completamente opostas. Depois escolhi – obviamente – as notícias e artigos do emblemático ano de 2009, quando os fundadores (e o colaborador financeiro) do site foram julgados e condenados na Suécia, no fato mais importante para o compartilhamento desde 2006, para servirem como objeto de análise.

Uma das inspirações óbvias foi outro trabalho aqui da Biblioteca do BaixaCultura, Jornalismo e Cultura Digital: um estudo de caso do The Pirate Bay na Folha de S. Paulo, de Eliane Fronza, que decidi homenagear (alguns diriam remixar) até no nome, que ficou Compartilhamento e jornalismo – um estudo do Pirate Bay no jornal Estado de São Paulo e no blog Baixacultura.

Durante as pesquisas acabei por ir muito mais além do que achava que iria no início. Iniciei meu trabalho com um levantamento histórico do início das leis de direitos autorais e o motivo estritamente político e protecionista delas. Logo depois tratei de contar o processo de criação das modernas ferramentas de compartilhamento, a Internet e o ambiente social e contracultural da época. Sem grupos como os hackers, os hippies, os punks e os aditivos psicodélicos, provavelmente nunca veríamos uma Internet livre e vanguardista como a conhecemos.

Depois estudei a chamada Indústria Cultural, seus métodos e os efeitos do lobby representado por ela em governos. O resultado – nada surpreendente – termina por agrupar nas mesmas páginas o pioneirismo de Richard Stallman e a estratégia agressiva de grupos de tecnobrega, especialmente o Calypso. A lama dos métodos usados por grupos extremamente protecionistas terminou por dar vida a iniciativas inéditas que aproximou e democratizou o acesso do público de bens culturais.

Novidade? Não! Mas acredite, a frieza do Método Científico pode dar vazão a coisas essencialmente bem construídas e criativas – basta aplica-lo da forma correta. A reta final do meu trabalho consistiu em fazer um levantamento “completo” da história do Pirate Bay e do julgamento propriamente dito, reunido em pouco mais de 25 páginas.

As notícias e artigos analisados numa comparação metódica e explicada de forma completamente na reta final do trabalho guarda surpresas e uma série de hipóteses intrigantes. Como não sou de estragar surpresas, deixo para cada um ler e entender por si mesmo.

A banca me deu nota máxima – com um “Com Louvor” ao lado – após a apresentação, e os professores  me convidaram a escrever um artigo científico de 15 páginas sobre minha pesquisa para facilitar a inscrição dela em conferências de comunicação e outros eventos.

Pra mim foi um passeio, além de ter realizado parcialmente de um dia escrever um livro – 217 páginas de Monografia (160, se excluirmos os anexos) podem ser considerados um livro de respeito, creio. Gostei mesmo de colocar no mesmo estudo autores que considero fundamentais, como Robert Anton Wilson, Hakim Bey, Timothy Leary, Lawrence Lessig e Jean Baudrillard.

O estudo está aí abaixo, espero que curtam a viagem!

Filipe Siqueira

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Créditos imagens: Reprodução, Info.

Software como música (poesia, jornalismo…)

Tu já ouviu falar sobre o mais recente álbum da exótica baixinha aí de cima, né? Estamos falando do saudado disco “Biophilia“, lançado dia 11 de outubro, mas que causou frisson por também ser um aplicativo produzido especialmente para iPad. As dez músicas estão sendo lançadas, uma por uma, desde 27 de junho, quando a cantora islandesa se apresentou no Machester International Festival, na Inglaterra. Tratam-se de legítimos singles-programas, apps interativos com bem mais do que ‘só’ informações sonoras.

As músicas-aplicativos contêm jogos interativos, uma animação que ilustra os movimentos melódicos, partitura, letra, texto de apresentação e uma análise da musicóloga Nikki Dibben, tudo em inglês. É possível, por exemplo, que o ouvinte-interagente “toque” o baixo na segunda faixa, “Thunderbolt”, ou faça um remix da terceira, “Crystalline” [que ganhou um bonito clipe; toca e segue lendo]. Os créditos do arranjo são do estúdio de Scott Snibble, artista multimídia radicado nos Estados Unidos [que foi entrevistado pela revista select], e da dupla de designers franceses M/M Paris.

O conjunto de dez aplicativos tem a forma de uma constelação e se junta em um outro “aplicativo mãe”, gratuito, para formar uma galáxia tridimensional navegável. Para criar esse universo, além de utilizar o próprio aparelho da Apple, Björk se inspirou no livro “Musicophilia”, do neurologista britânico Oliver Sacks, que disserta sobre a empatia da mente pela música. No sistema dela, a empatia seria pela vida, pela natureza. Dá um rolê pelo video aí abaixo pra tu ter uma noção do negócio:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=dikvJM__zA4]

Como mostra essa matéria do jornal O Globo, “o projeto é mais um a se afastar do conceito tradicional de álbum, consagrado na segunda metade do século XX, mas em crise nesses tempos de mp3, iPods e torrents”. De fato, transformar ou adaptar as músicas para uma plataforma de interação é a grande sacada do lançamento de Bjork, que assim consegue chamar atenção para recursos informacionais e educativos para além da música, como ela mesmo explicou em entrevista ao Jornal da Tarde, de São Paulo:  “Procurei trabalhar com escalas, ritmos, acordes. Cada uma das músicas do disco aborda um desses elementos e os ilustra sempre da maneira mais simples possível para ensinar às crianças como música pode ser algo físico, tátil, em vez de teórico”.

Pode parecer mas “Biophilia” não é o primeiro disco-aplicativo criado. Salvo antepassados que desconhecemos (se souberem de algum, nos avisem por e-mail ou comentários), o título de pioneiro nesta área pertence ao duo Bluebrain e seu “The National Mall”, lançado em maio de 2011 também para IPad.

A proposta desse é bem distinta: cada uma das músicas só toca se você estiver no lugar certo – no caso, o parque National Mall, em Washington, EUA. Funciona como uma trilha sonora para diversos pontos do local: se, por exemplo, tu estiver subindo as escadas em direção ao Lincoln Memorial, uma grande estátua de Abrahan Lincoln [aqui] no centro do parque, “o som dos sinos aumenta ao ponto que, quando você está aos pés de Lincoln, eles estão envolvendo você”, disse Ryan Holladay, um dos Bluebrain em entrevista à revista Época. Como isso funciona? Simples: o GPS do iPhone avisa para o aplicativo a hora certa de tocar. Dá uma olhada aqui abaixo no vídeo-teaser do disco:

[vimeo http://vimeo.com/25374903]

*

As iniciativas de Bjork e do Bluebrain são exemplos de uma certa “tendência” hoje no mundo digital: a de que os softwares sejam a fonte da música, não “apenas” programas. Para ficar num exemplo, pode ser que daqui em diante álbuns ou singles possam virar pop-ups em tablets, e não mais aquela história de um arquivo .rar ou .zip com todas as músicas comprimidas para download. Isso abre um espaço considerável para o remix, já que as novas formas rompem com a barreira de mera transposição de conteúdo e apostam na recriação do mesmo conteúdo para diferentes formatos.

Code is Poetry

Esta “tendência” potencializa a relevância do desenvolvedor na indústria de música, livros, jornais, revistas, e até na de filmes e séries. E também ajuda a colocar o antigo “nerd programador” em pé de igualdade com o “artista” , já que, afinal, ambos passam a ter participação igual na criação do produto/objeto artístico. Uma das frases de ordem mais vistas nos últimos tempos diz muito sobre esse novo status do programador/desenvolvedor:  “Código também é poesia“, que em uma variação em inglês, “Code is poetry”, virou lema do WordPress.org.

No caso de livros e revistas, em que é muito é mais comum vermos estes em formato de aplicativo do que como um próprio aplicativo, um trabalho interessante é o realizado no livro Our Choice, de Al Gore. A versão app foi publicada pela Push Pop Press, uma plataforma de publicação de livros digitais que quer revolucionar [todo mundo quer, meus caros] a publicação de livros na rede. Em Our Choice, o que vemos não é mais um e-book, mas outra coisa. Dá uma olhada no vídeo abaixo, em que Mike Matas, da PushPop e ex-Apple, apresenta o brinquedinho [a partir dos 35s]:

Assim escreveu o blogueiro Tiago Dória sobre o Our Choice:

O aspecto visual e tátil é bem explorado. Você pode ler os 19 capítulos do livro/aplicativo de forma não linear, arrastar ou maximizar as imagens. Em um mapa, o livro mostra a localização geográfica de diversas informações (localização de um país citado em um texto). O mais interessante são as animações e os infográficos, que intercalam os textos. Além de firulas na navegação, alguns são acompanhados de áudio para ajudar na compreensão (se você assoprar no microfone do iPad, alguns elementos na tela se mexem).

Desde o ano passado, o mesmo Doria tem  se perguntado: revistas podem se transformar em software? Exemplos como os apps da revista Select [somente para Ipad, infelizmente] e o da rede de TV CNN [também só para Iphones, maldita Apple!] não parecem (nem querem?) ser apenas transposição de conteúdos para um outro formato, mas uma outra coisa que ainda ninguém sabe o que é. Quando começarmos a pensar em softwares jornalísticos não somente para tablets e smartphones [da Apple!], mas também para desktops e notebooks, quem sabe daremos um passo adiante para um real “novo jornalismo” que se avizinha.

**

O mundo está mergulhado em software - e faz tempo.

Os casos acima são apenas alguns exemplos de software como mídia (ou música, poesia, jornalismo); certamente existem outros tantos, e em breve vão existir ainda mais. São produtos em que a mídia, além de digitalizada, é “softwarizada”, programada mesmo.

Um dos maiores pensadores da cultura digital, o russo Lev Manovich, chama atenção para um fato que permeia a criação desses novos softwares: de que adiantaria digitalizar (por meio de um software) se não houvesse um programas para por ordem nos dígitos? Com um mundo mais digital, é provável que passem a existir programas cada vez mais avançados para, mais do que por ordem nos dígitos, criar com eles.

Como diz Manovich no livro “Software takes command“, publicado em 2008, “a escola e o hospital, a base militar e o laboratório científico, o aeroporto e a cidade – todos os sistemas sociais, econômicos e culturais da sociedade moderna – são acionados via software. O software é a cola invisível que une tudo e todos.”

A partir de seus estudos na Universidade da California San Diego, sobre o qual já falamos um pouco,  o pesquisador russo também propõe um campo de estudos para o software, os software studies, ou Estudos de software (em linha com os Estudos Culturais de origem inglesa), em que pretende investigar a relação do software com a cultura, arte e a sociedade.

Outro pesquisador percursor na área, o britânico Matthew Fuller, chegou a afirmar na primeira Oficina de Estudos de Software, em 2006, que “todo o trabalho intelectual é agora ‘estudo de software‘”. Manovich é um pouco mais focado, como dá para perceber  nas primeiras partes de seu livro, publicadas aqui abaixo, em tradução do blog do grupo de pesquisa Software Studies Brazil, coordenado por Cicero Silva, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora e um dos curadores do Festival Cultura Digital.

Embora os estudos do software envolvam todos os softwares, temos especial interesse pelo que chamo de software cultural. Esse termo foi usado antes de maneira metafórica (por exemplo, ver J.M. Balkin, Cultural Software: A theory of Ideology, 2003), mas neste artigo uso o termo literalmente para me referir a programas como Word, PowerPoint, Photoshop, Illustrator, AfterEffects, Firefox, Internet Explorer e assim por diante. O software cultural, em outras palavras, é um subconjunto determinado de softwares de aplicação destinados a criar, distribuir e acessar (publicar, compartilhar e remixar) objetos culturais como imagens, filmes, seqüências de imagens em movimento, desenhos 3D, textos, mapas, assim como várias combinações dessas e de outras mídias.

Uma das capas possíveis do livro de Manovich

***

Uma questão que deriva dessa discussão é se o software pode ser aberto ou fechado, como bem aponta o professor Sérgio Amadeu em uma aula na Casper Líbero. Como são intermediários na nossa comunicação e na produção simbólica-cultural, eles condicionam e limitam nossas ações. Assim, “softwares fechados não possuem transparência e podem esconder fragilidades e possibilidades de intrusão e controle inaceitáveis para a sociedade em rede”, diz Amadeu. Já os softwares livres têm seu código-fonte disponível, o que permite adaptações para outras funções e/ou sistemas, além de, normalmente, serem transparentes com seus usuários.

A discussão sobre software livre e proprietário nos faz retornar a questão do disco-aplicativo da Bjork: quem não tem um tablet ou smartphone da Apple pode brincar com as novas músicas da Björk? Oficialmente, não. As pequenas gravadoras Universal e Warner ainda não licenciaram o produto para outras plataformas, pois, claro, querem vender o máximo possível na Apple. Todavia, Bjork já declarou ter uma posição mais livre: “Eu não deveria dizer isso, mas eu confio que os piratas não vão ficar de mãos atadas. É por isso que, quando nós criamos os programas, quisemos ter certeza de que eles poderiam ser transferidos para outros sistemas”.

É mais uma rodada da discussão que volte e meia retornamos aqui: o artista/desenvolvedor quer que sua arte/produto seja o mais apreciada/difundida possível, mas quem detém os direitos de cópia desses produtos não. Como resolver esse embate? Cena dos próximos capítulos.

Crédito das imagens: 1,2, 3, 4, 5.

[Marcelo De Franceschi]

Pirate Bay, jornalismo e cultura livre


Para engordar com qualidade nossa Biblioteca, vamos colocar lá a monografia (Graduação em Jornalismo, PUCRS) da Eliane Fronza, que tem o bonito e auto-explicativo título Jornalismo e Cultura Digital: um estudo de caso do The Pirate Bay na Folha de S. Paulo. Para isso, a moça faz uma interessante análise histórica de como nossa vida social foi reconfigurada pela Internet (no 1º capítulo) e discute conceitos e um pouco da história das redes de compartilhamento via Napster (2º capítulo), além de levantar questões sobre direito autoral e o creative commons criado por Lessig, de modo análogo ao que Marcelo fez em sua monografia.

Convidamos a própria Eliane para escrever uma pequena introdução informal à sua monografia, e é essa introdução que tu vai começar a ler no próximo parágrafo. Agradecemos a atenção e a disponibilidade da nova jornalista da PUCRS, que além de editar o bom blog Mas é Óbvio é leitora de Hakim Bey e moradora da aprazível capital gaúcha.

Pequena contribuição aos estudos sobre Pirate Bay, jornalismo e cultura livre

Um dos assuntos que mais me interessam na cibercultura é a forma como milhares de pessoas ao redor do mundo e conectadas em redeutilizam a Internet para compartilhar arquivos, para compartilhar cultura. O protagonista disso tudo foi o Napster, que virou o jogo no início da década passada, tirando o monopólio da divulgação e comercialização de músicas das grandes indústrias do entretenimento e colocando nas mãos de usuários. Anos depois, quem toma de assalto essa cena é o site sueco indexador de torrents The Pirate Bay.

Na época em que decidi tomar o Pirate Bay por tema do meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, da PUCRS, fazia pouco tempo que um dos fundadores do site, Peter Sunde, havia passado pelo Brasil, em especial, Porto Alegre, para participar do FISL. Os criadores também enfrentavam vários processos por violação de copyright, a venda do tracker também estava sendo concluída e meus interesses acadêmicos por cultura livre estavam mais claros. Naquele momento, o TPB dava sequência ao legado que o Napster havia deixado; agora, com uma nova tecnologia, o torrent, o debate foi acentuado e trazia questões políticas para o jogo.

A hipótese inicial era que as grandes indústrias de entretenimento se comportavam da mesma forma que muitos veículos de comunicação de massa reagiram frente aos novos modelos de comunicação mediados pelo computador. As redes de trocas de arquivos são vistas como um cataclismo econômico pelas corporações; por seus usuários, são celebradas como a mais democrática das formas de apropriação cultural. E foi essa interrogação sobre a mídia que aproximou o Jornalismo ao estudo. Escolhi o jornal Folha de S. Paulo para representar a imprensa brasileira e iniciar um trabalho sob o título: Jornalismo e Cultura Digital: um estudo de caso do The Pirate Bay na Folha de S. Paulo. O objetivo era descobrir como a imprensa, aqui representada por FSP, representava essa cultura para a sociedade.

A pesquisa reuniu material desde março de 2006 a agosto de 2009 presentes nas editorias de tecnologia (Informática) e cultura (Ilustrada) do jornal. Aqui, residia mais um desafio:  afinal, a reconfiguração cultural promovida pelas redes P2P dizem respeito, para a mídia, aos assuntos tratados em qual dessas duas esferas? A metodologia escolhida foi o Estudo de Caso, que estabeleceu 4 categorias de análise para melhor compreender o material: fontes, contexto, editoria e controvérsia. A partir disso, as questões que nortearam o estudo, tais como representação social da cultura de troca de arquivos, novas formas de apropriação cultural e direitos autorais online, permitiram proceder a uma dialética da cultura livre tendo por base a cobertura jornalística.

Antes de iniciar o Estudo de Caso, foi preciso fazer uma análise histórica de como nossa vida social foi reconfigurada pela Internet, buscando o berço da cultura digital, encarada aqui através de um ponto de vista contracultural, e a história das redes de compartilhamento. Fundamental nessa discussão, um capítulo compreende a história e o contexto atual do direito autoral, com base nas teorias de Lawrence Lessig além de experiências nacionais. O estudo das leis atuais do copyright bem como suas implicações nas práticas culturais mediadas pelo computador é tema central nessas discussões.

A monografia foi aprovada com nota máxima em 26 de junho de 2010 e cabe reconhecer a fundamental orientação do professor Dr. André Fagundes Pase além das sábias e imprescindíveis colocações dos professores presentes na banca, Me. Ana Cláudia Chagas Nascimento e Me. Marcelo Ruschel Träsel. Esse trabalho também foi apresentado na categoria pesquisas acadêmicas do II Fórum da Cultura Digital Brasileira [aqui o link para os vídeos da rodada de apresentação das pesquisas acadêmicas], realizado em novembro de 2010, em São Paulo.

Para quem tiver interesse em conhecer a abordagem, os temas de apoio e os resultados obtidos, pode encontrar o estudo completo aqui abaixo.

[As imagens usadas no post foram print screens das irônicas intervenções do TPB em sua página inicial, usadas também no trabalho de Eliane.]

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Apontamentos acadêmicos de um novo jornalista

Junto com um novo visual, o Baixacultura ganha mais um jornalista formado. Um dos nossos editores, o Marcelo, terminou seu maior post já feito: sua monografia. O trabalho de conclusão de curso, de Jornalismo da UFSM, relaciona a circulação da informação jornalística com o Creative Commons, através de um mapeamento de dois posts do blog jornalístico Meio Desligado. Diz que foi difícil, exigente, alienante – mas isso sempre é, para todo mundo.

Para fazer o TCC, foi preciso esclarecer os conceitos de direitos autorais e retomar brevemente o surgimento destes. Assim, pode-se falar das seis licenças Creative Commons, e sua base copyleftiana. Depois disso, foi descrita a circulação da informação no ciberespaço e como os blogs jornalísticos dispõem suas produções para os leitores. Então foi feito o mapeamento, por meio de buscas na web e análise de relatórios do Google Analytics do blog.

Deve-se reconhecer a compreensão e confiança vindas do jornalista mineiro Marcelo Santiago, responsável pelo Meio Desligado. Ele liberou – sem nunca ter visto Marcelo presencialmente – o acesso livre a todos os dados de visitas do blog, respondendo às entrevistas e divulgando a pesquisa publicamente em seu espaço. Dizem que isso não é lá muito comum, mas ele foi atencioso e educado desde o primeiro contato. Esperamos que o caso de Santiago sirva de exemplo para pesquisas futuras.

A defesa foi no último dia 13 de dezembro e a monografia foi aprovada com nota máxima. É de se ficar muito satisfeito, mas cabe aqui uma crítica a forma como se dá o sistema de avaliação de trabalhos acadêmicos: por nota. Não fica bem avaliar o desempenho e esforço intelectual humano através de uma simples estatística.

Seria interessante que a conversa que os professores componentes da banca tem com o orientador fosse transcrita e formasse um parecer a ser entregue para o aluno. As considerações ditas talvez não precisassem ser entregues, mas seria mais apropriado ter um parecer de avaliação do trabalho. Do jeito que está, com notas de aprovação de 7 a 10, é tudo muito obscuro – não se sabe exatamente o que foi levado em conta, nem se o resultado vale o quanto pesa. Difícil mudar todo esse pomposo sistema, mas fica aqui a sugestão.

O maior campus do mundo, como diria @O_Bairrista

O segundo apontamento a ser feito, mas mais restrito ao âmbito da Universidade Federal de Santa Maria (a foto acima cobre uma parte do campus da UFSM) é sobre a disponibilização dos TCCs. Por se tratar de uma universidade federal, sustentada por impostos de todo o país, todo o trabalho produzido nela deveria ser público. Atualmente na UFSM não há algo do tipo. Caberia talvez a, quem sabe, algum professor do Curso de Arquivologia fazer um projeto desses. Seria gratificante inclusive para os acadêmicos, já que não há muito sentido em gastar seis meses da vida escrevendo algo que vai ser provavelmente lido por apenas três professores.

O grupo de pesquisa no qual o TCC de Marcelo foi feito – o Jordi – publica todas as monografias produzidas sobre jornalismo digital, mas seria interessante que todos os cursos criassem um repositório digital de suas produções acadêmicas. Para citar um bom exemplo, a UFRGS tem o Lume, no qual divulga artigos, monografias, dissertações e teses, em creative commons. Isso não só dá visibilidade aos bons e variados trabalhos, mas também contribui para trabalhos futuros – além de tornar mais acessível o pensamento da por vezes distante academia.

Afinal, é na transparência que o conhecimento científico se funda, não é? Quem diz que alguma coisa é de um jeito, é porque leu em algum lugar antes que era assim. Ninguem aqui é ingênuo de achar que foi o primeiro a perceber que a Terra é redonda, certo? Esse pensamento pode ser potencializado no meio digital, em que é possível mostrar diretamente onde estão as obras, usando-se os links nas referências bibliográficas. O que vai acontecer no dia em que todos os trabalhos acadêmicos puderem ser baixados? Haverá mais citações? A qualidade vai melhorar? O número de “plágios preguiçosos” vai diminuir? Aí que tá.

Marcelo tentou fazer isso deixando link para boa parte das citações de livros, que podem ser baixados e depois lidos/conferidos na rede. E o que seria um trabalho acadêmico senão uma coleção de trechos de outras obras remixadas com reinterpretações em que são agregados novos trechos. Dá pra dizer que se as obras não estivessem na internet, a monografia não ia sair. Mas saiu e ta aí embaixo.

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[Marcelo De Franceschi]

Efeméride remixada

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Ontem, dia 15 de setembro, o BaixaCultura completou dois anos.

Quando completou seu primeiro ano, em 2009, fizemos até umas “Felicitaciones“.

Agora, com dois anos, melhor não. É um pouco que nem namoro, onde a gente só comemora mesmo no primeiro ano.

Como em 15 de setembro de 2009,  novamente prometemos algumas mudanças, editoriais e de layout. Dessa vez, elas já estão em andamento.

*

Enquanto isso, saiu o e-book “Novos Jornalistas: para entender o jornalismo hoje“, disponível aqui para download. O livro é uma coletânea que reúne trinta e oito textos de profissionais da mídia brasileira (jornalistas e não jornalistas), que tratam de algumas novas habilidades que supõem-se úteis aos jornalistas “modernos”, depois de toda essa revolução tecnológica que já nem parece tão revolução de tão embuída que está no nosso dia a dia.

O e-book e o blog onde os textos foram postados inicialmente vão ter uma versão em inglês – aliás, o blog em inglês já está com alguns textos, outros sendo traduzidos. Dos colaboradores, tem bastante gente interessante, como Ana Brambilla, Marcelo Costa, Rodrigo Savazoni, José Murilo Junior, Sergio Vilas Boas, Tiago Doria, André Deak, dentre outros.  Um dos textos da coletânea foi escrito por nós. Por conta disso, disponibilizamos ele aqui abaixo, com ligeiras modificações para o da coletânea. Disfrute, e se quiser mais baixe o e-book.

*

Jornalismo é remix

A  recombinação não é nem nunca foi nenhuma novidade, mas sim uma prática milenar que, agora, com a facilidade que a internet nos proporciona, tem sua ação potencializada aos montes. No jornalismo, então, a recombinação é parte inseparável de sua prática desde sempre. Tanto nas técnicas empregadas quanto na dita produção de seu conteúdo, o processo jornalístico se caracteriza por ser múltiplo e heterogêneo. Um sem número de produções, sejam elas grandes reportagens ou pequenas notícias, já foram feitas tendo como base estudos e pesquisas realizadas nos mais diversos campos do saber. Nada mais do que apresentações de novas informações, decorridas das transformações naturais, reajustadas às informações previamente existentes. Recombinação.

Como diz Nilson Lage, professor aposentado da UFSC e das figuras que mais entendem de jornalismo nesse país, a própria natureza do jornalismo requer recombinação. “Vejo o campo jornalístico como um campo próprio para a reutilização de conhecimentos de outros campos. Ele toma das ciências o que lhe convém, disse o mestre em seu twitter (que, por sinal, vale e muito a pena acompanhar). O jornalismo, comumente um saber do imediato e do singular, não tem condições de usar, de maneira aprofundada, o vasto e atemporal conhecimento das ciências. O tempo em que ele é praticado não permite essa extravagância, por assim dizer, muito embora deva se buscar ao máximo esse objetivo sempre que for possível.

O jornalismo toma das ciências aquilo que lhe é possível aplicar no tempo em que é feito. E esse possível é nada mais que uma pequeníssima parcela da filosofia aqui, uma outra da lingüística ali, um tantinho da lógica, outro tento de história e uma parcelinha de geografia (outras áreas podem ser utilizadas, a depender do assunto tratado; essas são as mais comuns). É do “remix” dos prévios conhecimentos dessas áreas combinados com a matéria-prima da qual vive o jornalista – a informação da atualidade – que vai ser produzido aquilo que sempre costumamos chamar de jornalismo.

A constante interpretação e atualização da informação já existente, e agora digitalmente mais acessível, tem se intensificado em frequência, e ao mesmo tempo em desafio. É o que comentam outros pesquisadores e profissionais do jornalismo, como, por exemplo, Marcelo Trasel, que aponta como um dos desafios do jornalismo de hoje o de “atualizar dados em matérias antigas, que ficam disponíveis via buscadores”.

Com todas as reportagens, notícias e opiniões possíveis disponíveis na internet, a maior dificuldade do(s) jornalismo(s) existente(s) parece ser a de tornar este emaranhado de informação e opinião em algo singular. Algo que seja ao mesmo tempo atrativo ao leitor e importante para a sociedade. Que seja novidade, mas que também não se restrinja só em ser a mais-nova-informação-da-última-hora, e sim que traga um mínimo necessário de aprofundamento. O que, por sua vez, evitaria o afogamento na hipernovidade desprovida de qualquer sentido, um dos males tão ordinários hoje em nosso cotidiano recheado de links e esvaziado de significado.

Uma das formas que o jornalismo tem para usar a seu favor nestes tempos ultramodernos é, justamente, a recombinação. Se existe tanta coisa assim para nos informar e nos deixar perdido, então que aproveitemos esse contexto ímpar na história para o cruzamento enlouquecido de informações. Que com isso se busque significados que vão além da superfície e que se rompa as amarras da última novidade para propor uma ligação firme com a vida presente de cada um.

Para o jornalismo, a recombinação vale não só para a busca de informação exclusiva, ainda e por muito tempo só obtida através de fontes confiáveis, mas também para o cruzamento da informação que todo mundo tem com as mais variadas possíveis bases de dados. É claro que para isso acontecer um monte de outras coisas devem aparecer (formação adequada para o tratamento com bases de dados, informações públicas mais disponíveis e abertas a todos, iniciativas e financiamento para um trabalho jornalístico independente) e desaparecer (o preconceito de muitos com o maravilhoso mundo da informática, o comodismo das redações tomadas pelos critérios mercantis de noticiabilidade, a condição de assédio moral tomada como praxe em muitas redações).

Com tudo isso acontecendo (ou não), quem sabe não passamos a pensar na idéia que o escritor William Gibson trouxe no texto “Confissões de um Plagiador”, que republicamos alguns meses atrás: A gravação, e não o remix, é a anomalia hoje. O remix é a verdadeira natureza do digital. Em outras palavras: é a essência da comunicação dos nossos tempos. Nos arriscamos a dizer que o remix seria tão “natureza” do digital que nem mais haveria de existir uma distinção entre o próprio registro (objeto) e a recombinação (um processo). Tudo seria (e não é?) recombinação.

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Créditos das imagens: [1], [2]

Publicações disponibilizam acervo digitalizado

A liberação dos arquivos de revistas/jornais está mesmo se alastrando. Falamos aqui do arquivo fotográfico da Life, e hoje voltamos ao assunto graças ao anúncio da disponibilização de todo o arquivo da revista Veja, desde 11/09/1968, data da primeira edição. O esquema para visualizar as edições é simples e intuitivo, apesar de ainda um pouco lento. Dá para ver desde a primeira edição até a da semana passada.

Procurando um pouquinho, nota-se que há outras iniciativas semelhantes interessantes. Um dos principais jornais da Espanha, o La Vanguardia, editado em Barcelona, está com sua hemeretoca aberta desde outubro, o que significa que podemos ver todas as edições do jornal desde a sua fundação, em 1881. Outro dos grandes jornais da Espanha, o El País, também disponibiliza seu arquivo – desde 1976 – gratuitamente.

Na Inglaterra, o jornal The Times disponibiliza online 200 anos de seu acervo: de 1785 a 1985 (a não ser entre dezembro de 1978 e novembro de 1979, período em que o jornal não circulou). O acesso aos 20 milhões de artigos e cerca de 35 milhões de imagens é gratuito, mas exige que o leitor se cadastre. Nos EUA, a revista Popular Science, publicada entre 1870 e dezembro de 2006, colocou todas as suas edições para consulta aqui, via Google Books. Além das matérias, aqui se destacam as hilárias propagandas de produtos  hoje (bem) ultrapassados, como essa vitrola aqui abaixo:

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Voltando ao Brasil. O tradicional Roda Viva tem seu arquivo aberto através do projeto “Memória Roda Viva“. Não tem programa no país que tenha recebido mais entrevistados ilustres que este. Para ficar só em alguns nomes,  já passaram por lá Adolfo Bioy Casares, Pedro Almodóvar, Anthony Giddens, Darcy Ribeiro, Fidel Castro, Noam Chonsky, Edgar Morin, Pierre Lévy, Manuel Castells, dentre inúmeros outros.

Há passos mais lentos, é o que também faz o jornalista Sandro Fortunato, criador do Memória Viva. O site não é especialista em memória da mídia, mas é possível encontrar conteúdo de publicações históricas, como da revista O Cruzeiro.

Segundo esta notícia, Fortunato estava com tudo pronto para trabalhar na disponibilização do acervo do Pasquim. Como se trata de uma notícia de 2006, é possível supor [entramos em contato para sanar a dúvida, mas não obtivemos resposta] que o jornalista tenha desistido ou que tenha sido impedido quando, no mesmo ano, foi publicado o primeiro volume da Antologia O Pasquim. Que, aliás, não é exatamente um livro barato, além de tratar-se de um arquivo de memória editado na fonte, e não pelo leitor, como é o caso das iniciativas online e uma de suas vantagens.

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O jornalismo brasileiro costuma cultivar uma postura romântica em relação ao seu próprio passado. Não é raro, embora nem sempre seja fato, ouvir que esta ou aquela revista era melhor nos primeiros anos, ou que certas épocas abrigaram experiências jornalísticas jamais repetidas [como o Pasquim dos anos de chumbo], ou que o jornalista não é mais o que costumava ser, e tal. Sem aprofundar o mérito da reclamação, trata-se de um contexto excelente para esse tipo de iniciativa – seja para que novos profissionais aprendam com melhores épocas, seja para que se perceba o quanto de folclore há na nostalgia.

[Leonardo Foletto e Reuben da Cunha Rocha]