Construa a programação do Festival BaixoCentro

Em novembro de 2011, fizemos um longo post que contava a até ali breve história do BaixoCentro, um movimento/festival de ocupação civil que pretende fissurar, hackear e disputar as ruas do centro de São Paulo.

Passados quase 4 meses, muita coisa aconteceu: o BaixoCentro não completou a captação do valor necessário no Catarse, mas ganhou 385 colaboradores e uma rede grande de articulações, além de contar com 461 no grupo do movimento/festival no Facebook e 122 na lista de e-mails, diretamente ligados à produção.

Além disso, durante três dias de janeiro houve um pré-BaixoCentro para expor algumas das intenções do Festival e, também, arrecadar recursos para a captação. O evento ocupou as ruas de Santa Cecília, Luz, Campos Elísios e Barra Funda, saiu em cortejo pelo Minhocão e em passeio com o Ônibus Hacker, organizou uma festa (o Samba na Casa do Gato), participou de um Churrascão na Cracolândia, colocou um protótipo do Carrinho Multimídia na rua e mostrou que, sim, as ruas podem ser para dançar.

Com essa mobilização, o BaixoCentro voltou ao Catarse, agora reformatado para uma semana de atividades – 23 de março a 1º de abril. [Se tu doou da outra vez, basta redirecionar o valor para este novo catarse]. Desde ontem, 27 de fevereiro, está aberta a chamada para propostas de ação para incluir na programação do evento.

Para enviar uma ideia, basta acessar http://chamadapublica.baixocentro.org, até o dia 10 de março, e detalhar a ideia num pequeno formulário: o que é, quantas pessoas envolvidas, que tipo de espaço e equipamentos você precisa, qual o horário planejado, e-mail e telefone de contato, dentre outras informações básicas.

Vale tudo na programação: teatro, música, performance, oficinas, debates, passeios, encontros, vídeos, artes visuais, cultura digital e o que mais a criatividade permitir. Os locais escolhidos para as ações estarão dentro do perímetro do BaixoCentro, que compreende os bairros Santa Cecília, Barra Funda, República, Luz, Campos Elísios e Vila Buarque – todos bairros da região central de São Paulo.

Como o festival será realizado nas ruas, vale lembrar que as responsabilidades pelas ações serão compartilhadas pela produção do Festival e pelos proponentes de cada atividade. Se tu quiser propor um show no Largo do Arouche às 4h da manhã, por exemplo, saiba que é, sim, possível – mas talvez mais prudente num horário em que a sisuda prefeitura paulistana incomode menos, como às 16h.

As ideias enviadas via chamada pública não passarão por curadores, mas sim por uma “cuidadoria” coletiva, que trabalhará com o objetivo de viabilizar a realização de todas as propostas. “Talvez algumas não poderão ser realizadas por questões técnicas ou falta de dinheiro. Mas tentaremos e trabalharemos muito (mesmo) pra tod@s participarem”, diz o texto de apresentação da chamada.

Toda a programação do Festival tem um pré-requisito básico: será gratuita, mesmo se ocorrer em espaços fechados, e aberta à intervenção. Nada mais natural, já que todo o financiamento do BaixoCentro é coletivo e associativo, via crowdfunding e outras formas independentes de arrecadação (leilão, rifa, doações).

Passeio pelo BaixoCentro com o ônibus hacker, em janeiro de 2012
Projeção de vídeo na Igreja de Santa Cecília, em SP, no Pré-BaixoCentro

Por falar em formas independentes de arrecadação, dia 13/3 às 20h vai rolar um leilão para arrecadar fundos para o Festival. São mais de 30 obras doadas por artistas, principalmente fotografias, ilustrações e esculturas. No hall de doadores, há figuras como Guto Lacaz, Henrique Oliveira,Tatiana Blass, Giselle Beiguelman, Felipe Morozini, Amanda Mei, dentre outros artistas.

O local escolhido para o leilão foi o Galpão do Teatro Folias, grudado no Minhocão. A ideia é subverter a lógica dos leilões tradicionais: lances iniciais são de R$200 e ao invés de um leiloeiro estimulando os lances, o próprio público cola pequenas etiquetas com os seus lances e nome, num modelo chamado de “Leilão de Parede”. Uma das obras que estarão lá é essa ilustração aqui abaixo, de Guto Lacaz.

Por fim, finalizamos este post com as palavras do BaixoCentro: estão tod@s convidad@s a intervir – com a voz, o corpo, as ideias.

Créditos fotos: Baixocentro.org, Guto Lacaz

Salve a (contra) cultura digital brasileira!

Alguns dizem que a internet é um dos frutos da contracultura norte-americana – do Do It Yourself e da livre expressão/circulação/piração de mentes & informações que os beats, o existencialismo de Sartre, Timothy Leary e o LSD, primeiramente, os Provos, Beatles, happenings, Bob Dylan, o maio de 1968 e os hippies, para citar alguns poucos num 2º momento, trouxeram para as cabeças jovens mundo afora – e da parceria improvável dessa contracultura com as redes fechadas militares e de universidades é que a internet nasceu e se propagou, já nos 1990.

A questão de que a internet surgiu como um desdobramento da contracultura me traz uma questão anterior: a contracultura nasceu mesmo na década de 1960? Aliás, o que é contracultura? seria todos aqueles que contestam, de maneira articulada e reflexiva, a cultura dominante? Se for isso, a contracultura não seria anterior a 1960?

O que dizer da cultura em torno do grande pensador grego Sócrates, do ocultismo dos árabes Sufis a partir do século VIII (de quem o contemporâneo Hakim Bey bebeu – e estudou – muito), dos trovadores heréticos da Idade Média, dos trancendentalistas americanos (Ralph Waldo Emerson, H. D. Thoureau), como aponta o livro Contracultura através dos Tempos, de Ken Gofman e Dan Joy, importante referência para quem quer entender o assunto?

Não seriam os hippies e o que convencionou chamar de contracultura sessentista o berço da contracultura jovem? E o Tropicalismo, ícone nacional da cultura dos 1960, seria o pai dessa expressão da contracultura brasileira?

Divagações à parte, estas são questões para guardar e responder (se quiser) algum dia. O fato é que inevitavelmente lembrei dessa conversa ao saber de um dos bons projetos que surgiram ano passado, motivados pela bolsa da Funarte Reflexão Crítica em Mídias Digitais  (a mesma com que fizemos o Efêmero Revisitado), e que tentou dar um caldo brasileiro ao unir a indomável contracultura com a efervescente cultura digital.

ContraCultura Digital” é  um site e uma publicação coordenada por Thaís Brito, jornalista e mestre em Ciências Sociais pela UFBA. O projeto aprovado na Bolsa da Funarte propunha “analisar o contexto contemporâneo de apropriação de tecnologias livres” e constava, como produto final, a produção de uma revista com textos sobre a nascente contracultura digital brasileira, de relatos de experiências a ensaios filosóficos, passando por manifestos, ficções, traduções e outras coisinhas que o guarda-chuva do projeto entendia como pertinente.

O site Contra Cultura Digital surgiu antes da publicação, dentro da plataforma CulturaDigital.br, para documentar e ampliar a pesquisa, com materiais que vão desde vídeos relacionados ao tema até as referências utilizadas no trabalho, passando por textos complementares que valem uma fuçada na Home do projeto. No final de 2011, foi publicada a revista (ou seria um livro?), somente no meio digital – que pode ser livremente baixada e acessada aqui.

Ela contém 19 textos (muito) heterogêneos, dividos em três grandes guarda-chuvas: Experiências, que busca uma conexão com a realidade de pessoas/projetos e grupos da cultura digital; Poéticas, que, bem, trata-se de experiências póeticas envolvendo de algum modo o digital, seja através de relatos de viagem até poesia/desenho em linguagem de programação; e Filosofias, manifestos e ensaios mais teóricos/viajandões sobre temas como o Psico-Ativismo Neodarwinista e a Cultura Dialegital do Contra.

Seria a cultura copyleft uma contracultura?

Ademais do hermetismo de certos textos, de alguns descuidos na revisão (especialmente nas referências) e da edição bruta, quase tosca, a revista é um belo incentivo à deriva pela nascente contracultura digital. Deriva aqui entendida na acepção que os situacionistas nos despertaram nos 1960: andar sem rumo, para, assim, ser “estranhado” pelos passeios e atuar crítica e conscientemente no aprofundamento/revolução de um cotidiano específico.

Neste caso, a publicação estimula passeios por questões, (não) lugares e ideias não tão comentadas na cultura digital para, a partir daí, o leitor aprofundar (ou não) o seu interesse pelos assuntos abordados – e então criar seus próprios “mapas” de interesses/conexões com os temas discutidos.

Destaco aqui seis textos da publicação (com o respectivo link para ver direto no site, quando há esta opção):

_ “SISTEMA FORTUITO (DES)ENCONTRO: Estratégia Hacker De Um Sistema Telemático“, de Leonardo Galvão, um relato detalhado sobre o projeto que dá nome ao título, uma aplicação de estratégias de hackeamento de um site de relacionamento via webcam e sua retransmissão por projeção no espaço arquitetônico da cidade – arte digital pura.

_ “Azucrina Records : Relatos de uma experiência com selos virtuais (netlabels)“, uma investigação sobre comunidades online e sites de música eletrônica não-comercial que disponibilizam downloads gratuitos. Ao final, há uma compilação de sites de netlabels realizada pelo Azucrina, um circuito de experimentação eletrônica e sonora.

_ “Uma chamada ao Exército do Amor e ao Exército do Software“, tradução coletiva de um texto de Franco Berardi e Geert Lovink de 2011 (original aqui) que finaliza com a profética frase: “O intelecto geral e o corpo social erótico devem se encontrar nas ruas e nas praças, e unidos irão quebrar as cadeias do Finazismo.” Finazismo, entenda-se, é o nazismo financeiro.

_ “A-própria-ação dos conceitos“, escrito pela organizadora da revista Thaís Brito, uma espécie de editoral às avessas (escrita no final da revista);

_ “Carta aos novos navegantes – breve itinerário de uma Viagem“, uma bela retrospectiva poética da cultura lado brasileira lado B, de Oswald de Andrade às saudosas e finadas editoras Ciência do Acidente e Livros do Mal, escrita por Leonardo Barbosa Rossato, do Massa Coletiva, de São Carlos. Curti o fim: Oswald hoje faria mixtapes:`Tudo que não é meu me pertence’ e estaria fazendo passeatas pelo matriarcado livre & a favor do ócio junto a Lautreamont, num free-style beleza: ‘A poesia deveria ser escritos por todos’.


_ “Cotidiano Sensitivo, incluído na seção Poéticas. O projeto dos cientistas da computação Ricardo Ruiz e Ricardo Brasileiro, também apresentado no Festival CulturaDigital.br ano passado, prevê 1) captação de dados sinestéticos (luminosidade, temperatura, freqüência de sinais) de alguns ambientes do nordeste brasileiro por hardwares e softwares, 2) a catalogação desses dados abstratos, 3) e a transformação desses dados em formas de visualização na plataforma web do projeto.

Na revista, Cotidiano Sensitivo está apresentado em 24 páginas de muitos códigos em linguagem de programação. No meio deles, alguns textos em “português”, que provocam o leitor que desconhece os termos usados a entender que diabos é esse monte de coisa (aparentemente) sem sentido. No final, ao observar todo o grande encadeamento de códigos-fonte, tu pode ver alguns desenhos formados – uma aranha, uma árvore, uma barata. Como diz o WordPressCode is Poetry? 

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ContraCultura Digital (org. Thaís Brito)
Disponível para Download 

[Leonardo Foletto]

Créditos imagens: Seja Marginal,  Cara y Señal e o restante screeshot das páginas
 

Compartilhamento & jornalismo com o Pirate Bay

Quase um ano depois, o Pirate Bay volta a ser assunto nesta página. E, não, não é porquê agora o maior tracker de bit torrrent do mundo lançou uma plataforma de divulgação de artistas, a PromoBay. Muito menos por conta de Paulo Coelho estar inaugurando este novo espaço, figurando na Home do PB e logo aqui em cima.

O assunto aqui é, como no texto de Eliane Fronza de quase um ano atrás, uma pesquisa acadêmica de fim de curso. O jornalista capixaba, anarco-individualista e caoísta autodidata Filipe Siqueira resolveu pesquisar a forma com que dois veículos jornalísticos vêem o compartilhamento na rede. Para isso, escolheu acompanhar a cobertura do já lendário caso do processo contra o Pirate Bay, que foi pauta frequente em 2009, tando dos cadernos que cobrem tecnologia e cultura digital (raros) quanto de blogs, como foi o nosso caso.

Filipe teve a irresponsabilidade de nos escolher como um desses veículos – embora até hoje não saibamos se é jornalismo o que aqui se encontra – o que nos deixou, de qualquer forma, muito honrados. Ao nosso lado, o capixaba estudou O Estado de São Paulo. Seria fácil imaginar que a nossa cobertura do caso e a do Estadão tenha sido beeeem diferente, dada às tradições “republicanas” e “conservadoras” do diário paulista e o nosso total descompromisso com estes dois “palavrões”. Além, é claro, da gritante diferença de tamanho das duas estruturas, que não vamos nem comentar.

Mas a coisa não foi beeeemassim. O melhor é ler o trabalho, intitulado “Compartilhamento e Jornalismo: Um estudo do Pirate Bay no jornal Estado de São Paulo e no blog BaixaCultura“, ao final desse post, para entender a que conclusão ele chegou.

Antes, como é de praxe por aqui, o próprio Filipe apresenta o trabalho e as motivações que o levaram a estudar o assunto.

Sou de uma geração que levou o ato de Compartilhar até às últimas consequências. Se essa habilidade potencialmente poderosa nos humanos foi um dos motivos mais primordiais por trás de nossa evolução, a partir da reta final do século passado, com o desenvolvimento de ferramentas digitais, ela deu origem a um embate cada vez mais entranhado nas decisões corporativas e governamentais. Siglas como o ACTA e SOPA são nomenclaturas de entidades ditatoriais que crescem cada vez mais para abocanhar uma das principais características da Internet: a liberdade de Compartilhamento.

Essa guerra foi o principal gatilho na escolha do tema da minha Monografia – do curso de Jornalismo das Faculdades Integradas Espirito-Santenses (FAESA). Já tinha escrito várias matérias sobre a treta em volta do Pirate Bay para meu blog, o Nerds Somos Nozes, e considerava que já tinha uma certa base para cair de cabeça em uma pesquisa acadêmica.

Não deu outra. No início imaginei fazer uma reportagem investigativa profunda para descobrir a motivação de tais pessoas pelo ato de compartilhar. Mas após conversas com a orientadora do meu projeto, decidir me debruçar em um tema mais acadêmico, com uma pesquisa que usasse a mídia como principal suporte de investigação.

O resultado foi selecionar o Estadão e o blog BaixaCultura para servirem de veículos analisados – e com naturezas, imaginava eu, completamente opostas. Depois escolhi – obviamente – as notícias e artigos do emblemático ano de 2009, quando os fundadores (e o colaborador financeiro) do site foram julgados e condenados na Suécia, no fato mais importante para o compartilhamento desde 2006, para servirem como objeto de análise.

Uma das inspirações óbvias foi outro trabalho aqui da Biblioteca do BaixaCultura, Jornalismo e Cultura Digital: um estudo de caso do The Pirate Bay na Folha de S. Paulo, de Eliane Fronza, que decidi homenagear (alguns diriam remixar) até no nome, que ficou Compartilhamento e jornalismo – um estudo do Pirate Bay no jornal Estado de São Paulo e no blog Baixacultura.

Durante as pesquisas acabei por ir muito mais além do que achava que iria no início. Iniciei meu trabalho com um levantamento histórico do início das leis de direitos autorais e o motivo estritamente político e protecionista delas. Logo depois tratei de contar o processo de criação das modernas ferramentas de compartilhamento, a Internet e o ambiente social e contracultural da época. Sem grupos como os hackers, os hippies, os punks e os aditivos psicodélicos, provavelmente nunca veríamos uma Internet livre e vanguardista como a conhecemos.

Depois estudei a chamada Indústria Cultural, seus métodos e os efeitos do lobby representado por ela em governos. O resultado – nada surpreendente – termina por agrupar nas mesmas páginas o pioneirismo de Richard Stallman e a estratégia agressiva de grupos de tecnobrega, especialmente o Calypso. A lama dos métodos usados por grupos extremamente protecionistas terminou por dar vida a iniciativas inéditas que aproximou e democratizou o acesso do público de bens culturais.

Novidade? Não! Mas acredite, a frieza do Método Científico pode dar vazão a coisas essencialmente bem construídas e criativas – basta aplica-lo da forma correta. A reta final do meu trabalho consistiu em fazer um levantamento “completo” da história do Pirate Bay e do julgamento propriamente dito, reunido em pouco mais de 25 páginas.

As notícias e artigos analisados numa comparação metódica e explicada de forma completamente na reta final do trabalho guarda surpresas e uma série de hipóteses intrigantes. Como não sou de estragar surpresas, deixo para cada um ler e entender por si mesmo.

A banca me deu nota máxima – com um “Com Louvor” ao lado – após a apresentação, e os professores  me convidaram a escrever um artigo científico de 15 páginas sobre minha pesquisa para facilitar a inscrição dela em conferências de comunicação e outros eventos.

Pra mim foi um passeio, além de ter realizado parcialmente de um dia escrever um livro – 217 páginas de Monografia (160, se excluirmos os anexos) podem ser considerados um livro de respeito, creio. Gostei mesmo de colocar no mesmo estudo autores que considero fundamentais, como Robert Anton Wilson, Hakim Bey, Timothy Leary, Lawrence Lessig e Jean Baudrillard.

O estudo está aí abaixo, espero que curtam a viagem!

Filipe Siqueira

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Créditos imagens: Reprodução, Info.

BaixoCentro (ou as ruas são para dançar)

Nos últimos dias, quem nos acompanha via Twitter e Facebook deve ter visto falarmos do BaixoCentro. Aos que não entenderam do que se trata, mais detalhes aqui abaixo nesse post, a começar pelo teaser abaixo:

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O BaixoCentro é um festival (ou um movimento cultural, uma série de eventos, um fórum; escolha um nome e seja feliz) que vai iniciar em março de 2012, em São Paulo, na região central de São Paulo que convencionou-se chamar de Baixo Centro e que corresponde aos bairros Santa Cecília, Vila Buarque, Campos Elísios, Barra Funda.

Pretende reunir atividades culturais, artísticas, políticas e autorreguladas que vão desde a teatro de rua, piquenique no Largo do Arouche (ao lado do Minhocão, o epicentro desse Baixo Centro), saída fotográfica pelas vielas cinzentas do Minhocão (o viaduto por cima da Av. São João construído por Paulo Maluf em 1970 e, desde então, principal motivo da decadência social da região central), entre outras atividades listadas nesse post do site, além do carrinho multimídia, que será o carro-chefe-guia das atividades.

Nasceu da ebulição de um monte de gente criativa e de tantos fatores subjetivos que é até difícil de listar aqui. Mas tentaremos, trazendo três “eixos” originários da ideia. O primeiro é relacionado a Casa da Cultura Digital, um coletivo de pessoas (físicas e jurídicas) que de alguma forma trabalham com cultura (comunicação? política?) digital, alocados desde 2009 em quatro casas de uma vila operária italiana construída no início do século 20, na Barra Funda, em São Paulo.

[Quer captar um pouco do que é a Casa? Veja esse vídeo ]

Desde fins do ano passado, surgiu, entre algumas mais de 40 pessoas que trabalham lá ou volte e meia pintam para dar um alô ou participar de alguma atividade, uma vontade de produzir cultura na própria casa: torná-la um espaço cultural, não apenas um local de trabalho ou de produção (cultural, social, política) para outros locais.

Assim foi criado o “Núcleo de Cultura” dentro da Casa. Informalmente, ele se constituiu a partir do Samba na Casa do Gato, uma festa (que teve, por enquanto, três quatro edições) em que usava o belo jardim da vila para reunir pessoas em torno de um sambinha/chorinho e comes & bebes, a fim de tornar as tardes de domingo mais singelas. O relativo sucesso das três quatro edições fez com que o núcleo começasse a dialogar de forma mais efetiva com a vizinhança, na semi-degradada região da Barra Funda, na busca de parcerias para outros sambas, festas, projetos e produtos. E foi daí que surgiu a primeira menção ao nome BaixoCentro, no vídeo abaixo, que traz o outro “eixo” da discussão: a geografia.

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Como o próprio nome diz, a ideia do Baixo Centro está muito ligada as características do local que nomeia.

Aos que não conhecem (até porque a nomenclatura é informal, não oficial), o Baixo Centro é um amontoado de bairros que se avizinha ao centro velho (Anhangabaú, Sé, República), onde São Paulo nasceu, e também à região da Luz, ao norte, mais conhecida nos noticiários por conta da “Cracolândia”, mas que também abriga a Estação da Luz, a Pinacoteca do Estado e a Sala São Paulo – esta, a uma quadra do pico da cracolândia, num exemplo bizarro da convivência de suntuosidade e degradação que muito caracteriza São Paulo.

É uma região que, hoje, parece deveras degradada – e realmente é. A construção do Minhocão no governo militar, pelo então prefeito Paulo Maluf, colocou sombras, lixo e descuido no que era um dos locais mais belos de São Paulo. A pretexto de criar uma via rápida de ligação do centro a região oeste da cidade, construiu-se uma bizarra estrada em cima de avenidas e ruas, mal respeitando o limite mínimo de distância da janela dos prédios para essa via – em alguns casos, a distância é de apenas 5 metros. Além de ignorar todos os manuais de bons modos da arquitetura, o que, previsivelmente, acabou por desvalorizar (não só em questões de $$, mas socialmente) a região nos anos seguintes, trazendo um mórbido cinza-lixo ao que antes era uma viva região do centro.

Por tudo o que o Minhocão representa (transporte individual, carros, cinza, concreto, etc), ele acabou sendo adotado como uma espécie de “símbolo” do pior de São Paulo. E, com sua feiura, acabou por contagiar seu entorno – os bairros de Santa Cecília, Vila Buarque, Barra Funda, Campos Elísios, Bela Vista.

[O Teatro Paiol, localizado na rua Amaral Gurgel embaixo do Minhocão, foi um desses afetados pela construção do elevado. Inaugurado em 1969 pelo casal Perry Salles e Miriam Mehler, o teatro foi palco disputado em São Paulo em seus primeiros anos, até que a degradação da região acabou por afastar público (e investidores) do teatro, já na década de 1970. O teatro ainda resistiu nos anos 1980, mas fechou nos 1990 e esteve até poucos anos atrás ameaçado de ir abaixo por conta da construção de um (adivinhe) estacionamento. Teria sido espaço para mais carros no centro de SP se não fosse uma retomada de um de seus donos, que não quis vender o prédio e quer reformá-lo. O que ele tem a ver com o BaixoCentro? Em 2010, houve uma articulação de pessoas para fazer alguma coisa para que o teatro não fosse destruído – algumas delas, meses depois, acabariam envolvidas no BaixoCentro, assim como o próprio local é um dos mapeados para o movimento].

Minhocão aos domingos e feriados

Mas eis que, com o tempo, a obra horrorosa (alguns apontam como a mais feia da história) passou a ganhar iniciativas de subversão dessa imagem. Grafites, pinturas e atividades culturais passaram a adotar, de birra, os muros e os entornos do viaduto como os seus locais. Ir ao Minhocão nos domingos e feriados, quando ele é fechado para carros, passou a ser programa de muitos paulistanos, que passaram a usar o asfalto como terreno de corridas, passeios de bicicletas, uma simples caminhada ou até mesmo como cenários de belos vídeos – como esses do La Blogoteqhe com Thiago Petit – e de filmes conhecidos, tais como “Ensaio sobre a Cegueira“, adaptação de Fernando Meirelles da obra de Saramago, e “Não por Acaso“, de Philippe Barcinski.

É um pouco nessa “reavaliação” do Minhocão que visa se inserir o BaixoCentro. Tornar um lugar degradado novamente divertido de se conviver, de se fazer arte, de encontrar pessoas e grupos. Algo que tá explícito num trecho do manifesto do BaixoCentro:

Acreditamos que as pessoas possam de fato interagir. Interagir com as ruas, seus vizinhos, os espaços que habitam e transitam. Vivemos nesse ritmo frenético e sem confiança. Simplesmente passando… Nosso potencial humano de convivência, desenvolvimento e transformação embotados, ditados pelo tiritar de um tempo alheio ao bem-viver, numa ambientação mercadológica.

Com uma ânsia mais que premente, apostamos em mudar o rumo dessa história. Queremos com a força dos cidadãos, dos coletivos de arte, dos espaços políticos e humanos no sentido Lato da palavra, de todos que buscam por uma nova forma de relação cotidiana, iniciar este movimento que por hora chamamos BaixoCentro e que pretende adaptar-se em outras formações e centros.

Porque muita gente mora nesse espaço geográfico. Porque podemos a partir daqui ser uma mola propulsora das expressões populares nos espaços públicos e para que nossas ruas possam se transformar em palcos, de todos, todos os sonhos de todos.

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Mapa do BaixoCentro

O outro “eixo” que agrega a criação do BaixoCentro diz respeito ao www.producaocultural.org.br, um senhor projeto de entrevistas com produtores culturais brasileiros que foi lançado ano passado. Especialmente Lucas Pretti, um dos catalisadores do BaixoCentro, envolveu-se bastante nas entrevistas do projeto e se viu muito provocado pelas diversas falas sobre cultura (e produção de cultura) dos entrevistados, gente conhecida como Moraes Moreira, Luis Carlos Barreto, Nelson Motta, Inezita Barroso e outros que tu deveria conhecer, como Rui do Carmo, Diva Pacheco, Carlos Dowling, Paulo Henriques Britto e Tânia Rösing (clica aqui e escolha o que ver entre os 90 vídeos realizados ou aqui para baixar os cinco livros produzidos).

A partir do mergulho na produção cultural brasileira que foi o projeto (que, aliás, deve continuar nos próximos meses; em breve mais infos), surgiu a natural vontade de fazer mais cultura. Foi aí que a geografia do centro, o Minhocão, o Teatro Paiol, a Casa da Cultura Digital e seu núcleo de cultura, os Provos de Amsterdam (aqueles mesmos dos quais falamos), a cultura digital, as bicicletas, o teatro, o grafite, a dança, o ato de repensar as formas de socializar numa metrópole parece que feita para carros, e até mesmo os movimentos Ocupe Wall Street e da Primavera Árabe, se reuniram numa liga autônoma temporária (para citar Hakim Bey, também influência) para dar vida ao BaixoCentro. As ruas são para dançar.

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Desde quarta-feira passada, o BaixoCentro entrou no Catarse.me, a principal plataforma de crowdfunding no Brasil, para captar o valor necessário a sua realização. O período para doação/arrecadação vai até 18 de janeiro de 2012, daqui a pouco mais de dois meses.

Alguns podem até achar o valor exagerado, mas a planilha está aberta para tu conferir e, caso queira, contestar. O fato é que, para realizar de forma profissional e remunerando (mesmo que abaixo da média) as pessoas responsáveis (diríamos “catalisadoras” da coisa toda), é necessário grana.

Mas não só, claro: se você pode doar um projetor, por exemplo, o BaixoCentro aceita, e assim ele sairá do orçamento total. A ideia é, além de juntar $$, viabilizar ideias, produtos, serviços e presenças para que a coisa se realize. Quem sabe assim possamos dar um passo adiante para, realmente, compartilhar (do) espaço público.

[Se você quiser participar mais ativamente, só chegar no grupo do Facebook ou entrar na lista de e-mails da organização do movimento]

Créditos fotos: minhocã01, minhocão2.

Hakim Bey, Taz, anarquismo ontológico e outros nomes estranhos

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À primeira vista, nada indica que o senhor da foto acima, em trajes e barba que faria um mais desavisado crer que se está diante de um mendigo errante, é um dos mais brilhantes e polêmicos pensadores da atualidade. Mas em questão de conhecimento aparência não significa rigorosamente nada, não?

Hakim Bey é o (codi) nome em questão usado pelo senhor de alcunha Peter Lamborn Wilson, nascido em Baltimore, Estados Unidos, em 1945, que após estudar na tradicional Universidade de Columbia, em Nova Iorque, fez uma longa viagem à Ásia e Oriente Médio  em busca das raízes e dos templos do sufismo. Peter (ou Hakim) veio a se fixar por algum tempo no Irã, onde atuou como consultor e pesquisador do sufi, ainda nos anos da década de 1970 pré-Revolução Islâmica, que, quando chegou em 1979, levou o Aiatolá Khomeini ao poder e Hakim Bey de volta aos Estados Unidos.

É em sua américa natal que Hakim se vê picado pelo mosquito revolucionário do anarquismo. Une seus novos conhecimentos aos já consolidados em relação ao sufismo e daí surge uma estranha e originalíssima liga, auto-nomeada de anarquismo ontológico, uma, digamos, corrente de anarquismo criticada até mesmo pelos anarquistas, que a visualizam de modo pejorativo como um anarquismo individualista e apolítico, que mistura elementos (misticismo, obscurantismo) que não caem nada bem aos anarquistas tradicionais.

A partir da inusitada mistura de elementos culturais/ideológicos distintos é que a lenda de Hakim Bey ganha força, na mesma proporção que os seus textos – sobre assuntos tão distintos quanto máfias chinesas descentralizadas conhecidas (tongs), comunalismo experimental de Charles Fourier, conexões entre o sufismo e a antiga cultura Celta, tecnologia e internet, terrorismo poético, ludismo, turismo e o uso ritualizado de substâncias alteradoras da consciência, dentre outros – vão sendo difundidos pelos submundos deste planeta, especialmente em meados dos anos 80 e 90.

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Tudo isso sobre Hakim Bey seria por demais estranho em estar neste local se o senhor da foto que abre esta postagem não tivesse escrito o simpático livrinho da capa acima. Taz, Zona Autônoma Temporária, editado (e já esgotado) no Brasil pela Conrad, é nitroglicerina sequencialmente explosiva, e não somente para os (algo) deslocados/escondidos anarquistas, comunistas ou simpatizantes de ambas (?) ideologias. Seu poder de comunicação e sua verborragia explicativa e revolucionária chegou aos altos (e baixos) escalões da Cibercultura como uma tentativa de explicação pertinente ao mundo atual, ou pelo menos a uma parte dele, a que diz mais respeito a chamada rede (ou The Net, nas palavras de Hakim). Sua relativa aceitação por parte de pesquisadores de comunicação não deixa de ser surpreendente, ainda mais quando se constata o quanto a exótica figura de Hakim em nada se parece com tantos outros teóricos/pensadores adotados pela rigorosa academia.

Já a adoção dos textos de Hakim Bey – principalmente de Taz – entre os  frequentadores de raves e adeptos do que se convenciona chamar de cultura rave não é de todo surpreendente e até mereceu uma típica resposta do próprio pensador: “Os frequentadores de raves estão entre meus maiores leitores… Gostaria que eles pudessem repensar toda sua relação com a tecnologia – eles deixaram de lado parte do que escrevi”. (via Wikipédia)

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Mas, afinal, que diabos o misterioso Hakim Bey escreve, e o que teria a tal Zona Autônoma Temporária de especial para que públicos tão distintos quanto ravers e/ou comunicólogos a pensassem como aplicável para suas vidas/estudos?

Bueno, eu não me atreveria a tentar responder estas perguntas em duas frases e/ou um parágrafo, mas posso trazer o primeiro capítulo do dito Taz aqui abaixo, intitulado “Utopias Piratas“,  como uma amostra do que Hakim Bey diz e de como ele diz o que diz.  O trecho é retirado da digitalização do livro, realizada pelo coletivo Sabotagem, e que pode ser lido na íntegra aqui. A tradução para o português é de Patrícia Decia & Renato Resende. Antes da leitura um alerta: tanto o conteúdo quanto o estilo do texto são, digamos, polêmicos, além de algo herméticos. Podem incomodar – o que não duvido que seja a principal ideia do autor para com seus leitores.

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UTOPIAS PIRATAS

OS PIRATAS E CORSÁRIOS do século XVIII montaram uma “rede de informações” que se estendia sobre o globo. Mesmo sendo primitiva e voltada basicamente para negócios cruéis, a rede funcionava de forma admirável. Era formada por ilhas, esconderijos remotos onde os navios podiam ser abastecidos com água e comida, e os resultados das pilhagens eram trocados por artigos de luxo e de necessidade. Algumas dessas ilhas hospedavam “comunidades intencionais”, mini-sociedades que conscientemente viviam fora da lei e estavam determinadas a continuar assim, ainda que por uma temporada curta, mas alegre.

Há alguns anos, vasculhei uma grande quantidade de fontes secundárias sobre pirataria esperando encontrar algum estudo sobre esses enclaves – mas parecia que nenhum historiador ainda os havia considerado merecedores de análise. (William Burroughs mencionou o assunto, assim como o anarquista britânico Larry Law – mas nenhuma pesquisa sistemática foi levada adiante.) Fui então em busca das fontes primárias e construí minha própria teoria, da qual discutiremos alguns aspectos neste ensaio. Eu chamei esses assentamentos de Utopias Piratas¹.

Recentemente, Bruce Sterling, um dos principais expoentes da ficção cientifica cyberpunk, publicou um romance ambientado num futuro próximo e tendo como base o pressuposto de que a decadência dos sistemas políticos vai gerar uma proliferação de experiências comunitárias descentralizadas: corporações gigantescas mantidas por seus funcionários, enclaves independentes dedicados à “pirataria de dados”, enclaves verdes e  social-democratas, enclaves de Trabalho-Zero, zonas anarquistas liberadas  etc. A economia de informação que sustenta esta diversidade é chamada de  Rede. Os enclaves (e o título do livro) são Ilhas na Rede.

Os Assassins² medievais fundaram um “Estado” que consistia de  uma rede de remotos castelos em vales montanhosos, separados entre si por  milhares de quilômetros, estrategicamente invulneráveis a qualquer invasão,  conectados por um fluxo de informações conduzidas por agentes secretos,  em guerra com todos os governos, e dedicado apenas ao saber. A tecnologia  moderna, culminando no satélite espião, reduz esse tipo de autonomia a um  sonho romântico. Chega de ilhas piratas! No futuro, essa mesma tecnologia livre de todo controle político – pode tornar possível um mundo inteiro de  zonas autônomas. Mas, por enquanto, o conceito continua sendo apenas  ficção científica – pura especulação.

Estamos nós, que vivemos no presente, condenados a nunca  experimentar a autonomia, nunca pisarmos, nem que seja por um momento sequer, num pedaço de terra governado apenas pela liberdade? Estamos reduzidos a sentir nostalgia pelo passado, ou pelo futuro? Devemos esperar  até que o mundo inteiro esteja livre do controle político para que pelo menos um de nós possa afirmar que sabe o que é ser livre? Tanto a lógica quanto a  emoção condenam tal suposição. A razão diz que o indivíduo não pode lutar  por aquilo que não conhece. E o coração revolta-se diante de um universo tão cruel a ponto de cometer tais injustiças justamente com a nossa, dentre  todas as gerações da humanidade.

Dizer “só serei livre quando todos os seres humanos (ou todas as  criaturas sensíveis) forem livres”, é simplesmente enfurnar-se numa espécie  de estupor de nirvana, abdicar da nossa própria humanidade, definirmo-nos  como fracassados.

Acredito que, dando consequência ao que aprendemos com  histórias sobre “ilhas na rede”, tanto do passado quanto do futuro, possamos coletar evidências suficientes para sugerir que um certo tipo de “enclave livre” não é apenas possível nos dias de hoje, mas é também real. Toda  minha pesquisa e minhas especulações cristalizaram-se em torno do  conceito de ZONA AUTÔNOMA TEMPORÁRIA (daqui por diante  abreviada por TAZ). Apesar de sua força sintetizadora para o meu próprio  pensamento, não pretendo, no entanto, que a TAZ seja percebida como algo mais do que um ensaio (“uma tentativa”), uma sugestão, quase que uma  fantasia poética. Apesar do ocasional excesso de entusiasmo da minha linguagem, não estou tentando construir dogmas políticos. Na verdade,  deliberadamente procurei não definir o que é a TAZ – circundo o assunto,  lançando alguns fachos exploratórios. No final, a TAZ é quase  utoexplicativa.Se o termo entrasse em uso seria compreendido sem dificuldades… compreendido em ação.

1: Utopias Piratas: Mouros, hereges e renegados, de Peter Lamborn Wilson. Publicado no Brasil pela Editora Conrad.

2: Assassins: antiga ordem secreta muçulmana do século XI. Seu nome vem da palavra “Hashshashin” (usuários do haxixe).

Em tempo: outro texto que trata da web é o intitulado “Sedução dos Zumbis Cibernéticos“, escrito ainda em 1997 e disponível aqui. E outro livro editado no Brasil de Hakim Bey é o “Caos: Terrorismo Poético e outros Crimes Exemplares, uma coletânea de devaneios filosóficos/poéticos/anarquistas que tem sido responsável por uma certa “febre” Hakim Bey, como bem escreve Cláudio Tognolli. E para saber de mais textos do homem, vá a este blog, em português, ou esta página, em inglês; ambas contém boa parte da obra do autor e permitem o acesso gratuito à ela gratuitamente.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1,2,