Pirate Bay, jornalismo e cultura livre


Para engordar com qualidade nossa Biblioteca, vamos colocar lá a monografia (Graduação em Jornalismo, PUCRS) da Eliane Fronza, que tem o bonito e auto-explicativo título Jornalismo e Cultura Digital: um estudo de caso do The Pirate Bay na Folha de S. Paulo. Para isso, a moça faz uma interessante análise histórica de como nossa vida social foi reconfigurada pela Internet (no 1º capítulo) e discute conceitos e um pouco da história das redes de compartilhamento via Napster (2º capítulo), além de levantar questões sobre direito autoral e o creative commons criado por Lessig, de modo análogo ao que Marcelo fez em sua monografia.

Convidamos a própria Eliane para escrever uma pequena introdução informal à sua monografia, e é essa introdução que tu vai começar a ler no próximo parágrafo. Agradecemos a atenção e a disponibilidade da nova jornalista da PUCRS, que além de editar o bom blog Mas é Óbvio é leitora de Hakim Bey e moradora da aprazível capital gaúcha.

Pequena contribuição aos estudos sobre Pirate Bay, jornalismo e cultura livre

Um dos assuntos que mais me interessam na cibercultura é a forma como milhares de pessoas ao redor do mundo e conectadas em redeutilizam a Internet para compartilhar arquivos, para compartilhar cultura. O protagonista disso tudo foi o Napster, que virou o jogo no início da década passada, tirando o monopólio da divulgação e comercialização de músicas das grandes indústrias do entretenimento e colocando nas mãos de usuários. Anos depois, quem toma de assalto essa cena é o site sueco indexador de torrents The Pirate Bay.

Na época em que decidi tomar o Pirate Bay por tema do meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, da PUCRS, fazia pouco tempo que um dos fundadores do site, Peter Sunde, havia passado pelo Brasil, em especial, Porto Alegre, para participar do FISL. Os criadores também enfrentavam vários processos por violação de copyright, a venda do tracker também estava sendo concluída e meus interesses acadêmicos por cultura livre estavam mais claros. Naquele momento, o TPB dava sequência ao legado que o Napster havia deixado; agora, com uma nova tecnologia, o torrent, o debate foi acentuado e trazia questões políticas para o jogo.

A hipótese inicial era que as grandes indústrias de entretenimento se comportavam da mesma forma que muitos veículos de comunicação de massa reagiram frente aos novos modelos de comunicação mediados pelo computador. As redes de trocas de arquivos são vistas como um cataclismo econômico pelas corporações; por seus usuários, são celebradas como a mais democrática das formas de apropriação cultural. E foi essa interrogação sobre a mídia que aproximou o Jornalismo ao estudo. Escolhi o jornal Folha de S. Paulo para representar a imprensa brasileira e iniciar um trabalho sob o título: Jornalismo e Cultura Digital: um estudo de caso do The Pirate Bay na Folha de S. Paulo. O objetivo era descobrir como a imprensa, aqui representada por FSP, representava essa cultura para a sociedade.

A pesquisa reuniu material desde março de 2006 a agosto de 2009 presentes nas editorias de tecnologia (Informática) e cultura (Ilustrada) do jornal. Aqui, residia mais um desafio:  afinal, a reconfiguração cultural promovida pelas redes P2P dizem respeito, para a mídia, aos assuntos tratados em qual dessas duas esferas? A metodologia escolhida foi o Estudo de Caso, que estabeleceu 4 categorias de análise para melhor compreender o material: fontes, contexto, editoria e controvérsia. A partir disso, as questões que nortearam o estudo, tais como representação social da cultura de troca de arquivos, novas formas de apropriação cultural e direitos autorais online, permitiram proceder a uma dialética da cultura livre tendo por base a cobertura jornalística.

Antes de iniciar o Estudo de Caso, foi preciso fazer uma análise histórica de como nossa vida social foi reconfigurada pela Internet, buscando o berço da cultura digital, encarada aqui através de um ponto de vista contracultural, e a história das redes de compartilhamento. Fundamental nessa discussão, um capítulo compreende a história e o contexto atual do direito autoral, com base nas teorias de Lawrence Lessig além de experiências nacionais. O estudo das leis atuais do copyright bem como suas implicações nas práticas culturais mediadas pelo computador é tema central nessas discussões.

A monografia foi aprovada com nota máxima em 26 de junho de 2010 e cabe reconhecer a fundamental orientação do professor Dr. André Fagundes Pase além das sábias e imprescindíveis colocações dos professores presentes na banca, Me. Ana Cláudia Chagas Nascimento e Me. Marcelo Ruschel Träsel. Esse trabalho também foi apresentado na categoria pesquisas acadêmicas do II Fórum da Cultura Digital Brasileira [aqui o link para os vídeos da rodada de apresentação das pesquisas acadêmicas], realizado em novembro de 2010, em São Paulo.

Para quem tiver interesse em conhecer a abordagem, os temas de apoio e os resultados obtidos, pode encontrar o estudo completo aqui abaixo.

[As imagens usadas no post foram print screens das irônicas intervenções do TPB em sua página inicial, usadas também no trabalho de Eliane.]

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A semana (já) foi de movimento

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10fisl

Em primeiríssimo lugar, quero dizer o que os que entram aqui já devem ter reparado: o blog está carecendo de atualizações. Como também já falei anteriormente, as outras ocupações nossas tem nos tomado muito tempo, e como elas, no momento, são as que no sustentam, é natural que o BC perca um pouco de seu ritmo de atualização. Esperamos que esses outros afazeres nos limitem até final de julho, de modo que até lá as atualizações serão mais escassas. Combinado?

O tempo hábil para escrevermos sobre os dois fóruns que ocorreram em Porto Alegre na semana retrasada, divulgados no post anterior, meio que passou; todos os que estavam interessados no assunto já sabem que

_ Lula falou mal do Projeto do Azeredo;

_ Até a ministra Dilma também esteve no evento;

_  O Festival de Cultura Livre, um dos muitos eventos dentros do 10fisl, teve seu auge no já clássico debate realizado no ocidente com Peter Sunde, do Pirate Bay, Elizabeth Stark, do movimento Free Culture (do qual já falamos por aqui),  e Marcelo Branco, coordenador do Software Livre Brasil e um dos organizadores do Fisl;

_ O 10ºfisl foi o maior até então, com 8.232 participantes de 27 países;

_ A maior caravana foi de Santa Maria (!), com 71 integrantes;

_  O 1ºFórum de Música para Baixar foi muito provavelmente o primeiro de muitos;

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Provavelmente, uma das melhores coisas que li por aí foi uma entrevista dada pelo Pete Sunde à repórter da Folha Daniela Arrais, que também comanda o ótimo blog don’t touch my moleskine, de modo que vou ter de reproduzir ela aqui abaixo. Sunde entende como poucos o tipo de mudança que está acontecendo hoje e que faz repensar uma série de situações, negócios, relações que perduraram durante todo o século XX.

Folha – A Justiça considerou que o juiz responsável pelo veredicto do Pirate Bay não foi tendencioso. Qual é o próximo passo que vocês darão?

Peter Sunde – Eu vou soar como uma pessoa que nunca desiste.

Você já assistiu a Monty Python? Há um cara lá que não desiste nunca. Um juiz decidindo se outro juiz foi tendencioso já é tendencioso. Não podemos mais apelar. A única maneira de conseguirmos isso é recorrendo à União Europeia de Direitos Humanos. Agora vamos ver se a Anistia Internacional nos ajuda. É um processo que vai levar cinco anos, por aí. A decisão é totalmente errada. Eles estão falando sobre eles, e não sobre a situação.

Folha – Christian Engström, do Pirate Party, disse que a decisão mostra que a única maneira de vencer essa batalha é por meio da política. Você concorda com ele?

Sunde – Nós precisamos mudar a política a longo prazo. A curto prazo, precisamos ser ativistas para quebrar o sistema ou modificá-lo para que ele funcione da maneira como deve funcionar. O que nós fazemos é desobediência civil legal. Nós não infringimos a lei. Nós fazemos coisas que ainda são legais e não devemos ser condenados. Temos que incentivar mais pessoas a agirem contra esse tipo de coisa. Precisamos de pessoas se rebelando e dizendo que isso é errado.

Folha – Você não teme ser preso?

Sunde – Não serei preso. Vamos recorrer e vencer no final. Até agora, o juiz não disse o motivo de nossa condenação.

Folha – Você acredita que as pessoas estão começando a ficar preocupadas com as consequências de seus atos na internet?

Sunde –As pessoas estão de saco cheio de ouvir grandes corporações dizendo como elas devem agir. É ruim para a sociedade ter poucas companhias muito ricas dizendo como elas devem ou não devem agir. Não é produtivo. E o Pirate Bay se tornou o símbolo disso.

Folha – Você acha que advogados e juízes ainda não sabem lidar com questões ligadas à internet?

Sunde – Eles não entendem sobre tecnologia. E ainda dizem que ela não é tão ou mais importante do que a lei. A maioria dos juízes é muito velha, provavelmente vai ser trocada, em breve, por novos juízes que têm experiência no assunto. A tecnologia de hoje em dia é muito avançada para aqueles que se formaram há 30 anos. Enquanto isso não acontece, temos que atuar como ativistas.

Folha – Como você enxerga as críticas de grandes corporações ao compartilhamento na internet?

Sunde – Elas não têm opção. Ou mudam ou vão perder ainda mais espaço. Elas têm que adotar novas tecnologias, inventar outras também. Elas não têm um problema de dinheiro, mas um problema de controle. As vendas continuam altas, não tanto em suporte físico, mas elas ganham dinheiro com licenciamentos para televisão, rádio. Mais gente usa a mesma música em diversos suportes. No final, elas sabem que estão perdendo controle sobre como o conteúdo está sendo espalhado. E isso as assusta.

Folha – E a atitude dos artistas sobre o mesmo assunto?

Sunde – São artistas que não produzem há muito tempo aqueles que se contrapõem ao compartilhamento de arquivos. Prince e Village People tentaram processar a gente. Nenhum deles está fazendo música desde os anos 1980.

Mas eles se incomodam por não vender coletâneas de melhores sucessos.

No entanto, sem a internet, os novos músicos não seriam nada –ela abriu possibilidades. As pessoas não vão pagar pelo que já pagaram. Em que tipo de trabalho você ganha dinheiro toda vez que alguém usa o que você fez? É assim que o copyright atua. Por 70 anos, você paga todas as vezes que usar uma obra. Imagine se você tivesse uma casa e precisasse pagar US$ 1 a cada vez que entrasse nela? Não estou dizendo que as obras não devem ser pagas, mas sim que a forma como elas são pagas deve ser revista.

Folha – O que você achou da quase aprovação da lei antipirataria francesa?

Sunde – O que aconteceu é realmente estúpido e mostra como os políticos não têm a menor ideia do que é a internet.

Se alguém entra na sua casa e rouba alguma coisa, você não consegue bloquear a rua por onde ele passou. O mesmo acontece com a internet. Se alguém faz algo supostamente ilegal, você não pode bloqueá-la. A internet não é a razão pela qual as pessoas cometem um crime, é apenas uma conexão.

Você tem que consertar os problemas da sociedade para que as pessoas não cometam crimes, e não dizer que o meio que elas usam para isso é ilegal. A internet é a forma de comunicação das novas gerações. Nenhum crime iria desconectar você da internet por um ano.

Folha – E como fica a imagem do presidente francês, Nicolas Sarkozy, após esse episódio?

Sunde – Ele não liga para democracia. É um ditador. A mesma coisa ocorre na Itália. E são essas pessoas que estão decidindo como as pessoas se comunicam. Os governos conseguem maneiras fáceis de fazer vigilância, como ocorre na China ou na Coreia do Norte. Eles não entendem sobre liberdade e democracia, e sim sobre dinheiro e controle.

Folha – A política o atrai?

Sunde – Não. Não entraria na política porque nunca seria organizado. Uma das coisas que eu mais quero combater é aqueles que dizem que somos [o Pirate Bay] organizados. Não somos. Somos desorganizados como o diabo. Acredito que não posso falar sobre os valores de outras pessoas nem sobre o que elas acreditam, por isso não poderia ser candidato. Quero que as pessoas pensem por si mesmas, se imponham.

Folha – Você costuma baixar muito conteúdo? Tem uma conexão rápida e muito espaço no disco rígido?

Sunde – Baixo o que me der vontade. Minha conexão é bem rápida, como a da maioria das pessoas na Europa. Acho que um desafio de hoje em dia é lidar com a quantidade de informação disponível. Então, nem sempre armazeno tudo –baixo de novo quando dá vontade.

Folha – Se você fosse ouvido pela indústria do entretenimento, que conselho daria para que ela saia do estado em que está?

Sunde – Diria para eles se inspirarem no Swedish Model, organização que reúne gravadoras para repensar o futuro da música. Em vez de brigar com a internet, eles querem usar as mil possibilidades que ela oferece. E, claro, conseguem ganhar dinheiro assim.

[Leonardo Foletto.]

Crédito fotos:
1),Soy loco por ti

Semana de movimento

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Esta semana dois eventos importantíssimos para o noticiário baixacultural vão acontecer em Porto Alegre. Em primeiro lugar,  o grandioso 10º Fórum Internacional de Software Livre, que começa na quarta e vai até sábado. O fisl10 é como uma Campus Party focada no tema software livre, com uma programação bastante ampla e cheia de ótimas atrações.  Em especial, destaco o Festival de Cultura Livre, que na quarta-feira vai trazer um debate sobre “Novas formas de distribuição de conhecimento na internet” com o pirate bay Peter Sundae.

Outro evento legal que vai acontecer em paralelo ao fisl10, também começando na quarta-feira é o I Fórum do Movimento de Música para Baixar, que só pelo nome já indica boa coisa. O Movimento de Música pra Baixar (MPB) é, segundo apresentação no site,” uma inciativa para conectar diversas áreas relacionadas como: música, arte tecnologia e comunicação colaborativa e espalhar suas propostas para o âmbito de diversos territórios, levando suas propostas para o maior numero de pessoas, extrapolando as fronteiras de um determinado gênero musical“. Alguns dos que integram o movimento são Fernando Rosa, editor do grande site Senhor FFernando Anitelli, do Teatro Mágico, que vão participar do FMPB juntamente como figuras como Pablo Capilé, Vice-presidente da Abrafin, Leoni, o eterno onipresente Ronaldo Lemos e mais um monte de gente boa que já toma parte da programação do evento.

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Infelizmente o BC não poderá se fazer presente na capital gaúcha em nenhum dos eventos, por causa das já faladas obrigações paralelas obrigatórias. Mas um monte de amigos e parceiros nossos estarão por lá, então, quem sabe, numa dessas, achamos uma 25º hora do dia para escrevermos algo sobre o evento, de preferência com informações (ou textos) exclusivos. Caso isso não ocorra, vai ter (e já está tendo faz tempo) ótima cobertura em diversos locais da web , inclusive em vídeo, rádio, twitter e tudo o mais, para que possamos acompanhar o evento no aconchego de nossos lares atulhados de coisas na espera para serem organizadas.  Destaco ainda, em especialíssimo, o blog Agência FISL, a ser criado em breve, que pretende agregar toda a cobertura do evento. A ideia do blog vem por uma iniciativa conjunta de diversas publicações de mídia livre: os blogs Outras Palavras e Ponto Livre (São Paulo), o site Soy Loco por Ti (Curitiba) e a  TV Ovo (Santa Maria). Todos estes participaram de alguma forma do Seminário na Cesma, onde, muito provavelmente, foi gestada a criação do blog.

Atualização 24/06: O blog Agência Fisl já está no ar.

[Leonardo Foletto.]