Radialistas pela cultura livre

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Os Radialistas Apasionados – coletivo de rádio latino-americano, um dos organizadores do Festival da Cultura Livre (2013) que participamos, em Quito – lançou semana passada uma radionovela sobre a cultura livre. Trata-se de “¡Utopía va por la libre!” e conta a história de uma banda (Utopia) que se vê no dilema de apostar no “sistema” das gravadoras ou seguir pelo caminho livre através das licenças Creative Commons.

São 5 capítulos com episódios de 6 a 12 minutos, todos muito bem produzidos em espanhol de fácil entendimento, inclusive para aqueles que não são hispano-hablantes. É um trabalho muito interessante para explicar a cultura livre para um público mais amplo, fora da “bolha” da cultura digital e da contracultura. Segue aqui abaixo o texto de abertura da radionovela e os links para escutar na Radioteca, uma rede social de radialistas da América Latina que disponibiliza o áudio em streaming, para baixar e também com o roteiro completo para ler (e baixar em PDF, se quiseres fazer uma versão na tua própria aldeia). Tudo livre, sob uma licença CC BY SA.

Cada vez son más las músicas, artistas y escritores que “van por la libre”, al margen del sistema, ajenos a discográficas o editoras, huyendo de los intermediarios porque no los necesitan. Apuestan por el conocimiento abierto y la cultura libre.

Creen que el conocimiento se genera colectivamente y lo que crean lo devuelven a la colectividad de forma abierta y libre. Esta nueva generación se sirve de Internet para difundir su trabajo. Ganan dinero en los conciertos, con charlas y así pueden seguir creando. Exploran otros camino, no ven la cultura como una mercancía y son apoyados por nuevas discográficas que quieren ayudar más que hacerse ricas.

Es un nuevo mundo,… ¡el mundo libre!

Para quienes habitan en esa utopía hemos grabado esta radionovela. Con ella queremos animar a las nuevas agrupaciones musicales, a los escritores y artistas a “ir por la libre”, como “Utopía”. Una banda de rock que se enfrenta a la disyuntiva de rendirse ante “sistema” o apostar por las licencias Creative Commons.

Música, sueños, amor, utopías y mucho copyleft. Escucha ¡Utopía va por la libre!

CAPÍTULO 1 – SUEÑOS SIN DINERO

CAPÍTULO 2 – NACISTE PARA CANTAR

CAPÍTULO 3 – BASTA DE ROMANTICISMOS

CAPÍTULO 4 – USTEDES SON LOS ELEGIDOS

CAPÍTULO 5 – SIEMPRE LIBRES

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O trabalho dos Radialistas em prol da cultura livre vai muito além dessa radionovela. No portal RadioLivres estão cursos livres, uma biblioteca com referências de software livre a produção radiofônica – inclusive, um completo manual urgente para radialistas livres de quase mais de 300 páginas. Além de uma videoteca com diversos filmes (docs, curtas) relacionados ao tema, parecida (mas mais ampla) do que a que mantemos na BaixaTV.

Outros dois trabalhos que vale destacar aqui são os spots de cultura livre, produzidos em agosto do ano passado, chamados “El mito…mata. ¡Mata el mito!” São 6 pequenos (até 1 min.) spots para desmistificar os direitos de autor e a cultura livre. Bem bom pra mostrar praquele seu amigo cabeça dura que acha que cultura livre é “tudo grátis” ou a “mata de fome” os artistas. Confere aqui abaixo que vale a pena:

1. MÚSICA Y DERECHOS DE AUTOR

2: LIBROS Y DERECHOS DE AUTOR

3: COPYLEFT VS COPYRIGHT

4: ORIGINALIDAD Y CULTURA LIBRE

5: CULTURA LIBRE NO ES UN “TODO GRATIS”

6: ACCESO AL CONOCIMIENTO EN LAS UNIVERSIDADES

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Por fim, e não menos importante, outro material fundamental produzido pelos Radialistas em formato de guia: 10 mitos sobre la cultura libre y el acceso abierto al conocimiento. Editado por Santiago García Gago, espanhol radicado na América Latina e nos Radialistas faz alguns anos, é um texto essencial para informar corretamente sobre a cultura livre, com argumentos básicos pra não propagar mentiras como verdades absolutas. Confira os 10 mitos aqui abaixo, em tradução para o português, e descarregue o guia, em PDF, que destrincha cada um deles.

1º mito: As obras culturais são criações completamente originais.
FALSO: toda criação é coletiva.

2º mito: A cultura e o conhecimento sempre foram mercadorias suscetíveis de serem vendidas.
FALSO: a cultura e o conhecimento são bens comuns.

3̣º mito: Os direitos autorais foram criados para proteger os artistas dos que copiavam seus livros.
FALSO: foram criadas principalmente para proteger os artistas dos editores.

4º mito: A cultura livre não protege quem cria e se pode roubar suas produções
FALSO: não há nenhum risco em licenciar as tuas obras de forma livre.

5º mito: A cultura livre promove a cópia e isso é promover a pirataria
FALSO: democratizar o conhecimento não é pirataria. Pirata é quem se apropria de algo que não é seu e o conhecimento é um bem comum.

6º mito: A internet e a cultura livre matam de fome os artistas
FALSO: A cultura livre promove modelos em que as pessoas tem acesso a cultura e os autores vivem de suas criações.

7º mito: Cultura livre é “tudo grátis”
FALSO: o modelo que a cultura livre propõe não é necessariamente o da gratuidade, mas sim o do livre acesso.

8º mito: A cultura livre não tem validade legal
Falso: As licenças livres, como as Creative Commons, tem validade legal na maioria dos países e você pode processar as pessoas que não respeitam os termos que estão em suas licenças

9º mito: Ninguém usa este tipo de licenças
FALSO: Fazem uso das CCs, por exemplo, da Casa Branca ao Banco Mundial, passando por periódicos, blogs e fotógrafos.

10º mito: Não posso fazer nada. A cultura livre não vai comigo.
FALSO: toda a sociedade pode apoiar este movimento e fazer mais acessíveis e livres a cultura e o conhecimento.

P.s: Alguém afim de ajudar a traduzir todo o guia sobre os mitos da cultura livre? Escreva pra baixacultura@gmail.com (ou baixacultura@riseup.net) que a gente tá querendo ajuda pra essa tarefa.

Equador: rumo a uma economia do bem comum?

equador 1Projeto do governo equatoriano junta pesquisadores e ativistas do conhecimento livre em prol da construção de uma economia voltada ao bem comum, baseada no respeito a natureza, no software e na cultura livre

 [Leonardo Foletto]

Quando fui ao Equador, em maio de 2013, para participar do II Festival de Cultura Libre, em Quito, uma das coisas que mais me chamou atenção no país foi o nível da discussão em torno da cultura e do software livre. Só a existência do evento já era digno de nota: uma grande junção de gente da latino-américa, do Uruguai ao México, para discutir, durante dois dias, software livre, formatos abertos, repositórios, crowdfunding, práticas culturais colaborativas e outros temas relacionados ao grande guarda-chuva do conhecimento livre.

Não vou me alongar aqui em relatar o que aconteceu porque isso já foi feito – aqui mesmo no BaixaCultura, no site do Ártica, em relato de Mariana Fossati, e no Global Voices, em texto de Juan Arellano. Mas atento para a participação de Antonio Pardo e Daniel Vázquez, diretores do aLabs e integrante dos Hackativistas, coletivo de ativistas espanhóis que, àquela época, chegava a Quito para começar a desenvolver um trabalho junto ao governo equatoriano. Chegavam para ficar, com ganas e experiência – junto ao movimento 15M – de trabalhos em ferramentas e práticas colaborativas livres, ainda que, naquela semana do evento, estavam sem quaisquer informações do que fariam e mesmo de onde se instalariam.

Pois bem. Passados quase um ano, eis o que os hackativistas, agora já bem instalados na capital equatoriana, ajudaram a plantar: a FLOK (Free/Libre Open Knowledge) Society, um projeto inovador de investigação e desenho participativo para levar o Equador rumo a uma matriz econômica focada no commons, o conhecimento aberto e compartilhado – e que tem Dani Vázquez como um de seus diretores e mentores. É um projeto que se integra a uma série de iniciativas do governo equatoriano em prol do buen vivir, conceito originário do quechua sumak kawsay e que, desde 2008, está incorporado a Constituição do País, sendo inclusive um programa especial do governo.

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Mas o que significa, afinal, esse buen vivir? e como a FLOK se insere nisso? Em poucas palavras, o buen vivir busca trazer o conhecimento ancestral indígena – ecologicamente sustentável, em harmonia com a natureza, focado na comunidade e na cultura colaborativa – para o desenvolvimento econômico equatoriano. O plano do governo de Rafael Correa, presidente do país desde 2006, busca uma transição da matriz produtiva do país, hoje dependente dos recursos limitados (finitos) como o petróleo, por exemplo, para uma matriz de recursos ilimitados (infinitos) tais como a ciência, a tecnologia e o conhecimento. Criar um ambiente “pós-capitalista” em harmonia com a natureza e o conhecimento livre, de menos consumo e mais colaboração, como explica esse artigo de David Boiller, pesquisador e autor de diversos livros sobre a economia do commons.

A questão é que, segundo Michel Bauwens, diretor de investigação da FLOK Society e fundador da P2P Foundation, “o buen vivir é impossível sem um “buen conocer”. Aí é que a FLOK entra, criando políticas e ações em rede, colaborativas e abertas a participação da população, em prol de uma economia do conhecimento aberto. Algumas frases da “Carta Abierta a los Trabajadores del Procomún del Mundo“, publicada no final de 2013, dá uma noção das intenções: “Imagina una sociedad que está conectada al procomún del conocimiento abierto, basada en conocimiento, código y diseño libres y abiertos, que pueden ser utilizados por todas y todos los ciudadanos (…) Imagina una economía ética y sostenible que se basa en la creación de una riqueza común cooperativa basada en la reciprocidad, el mutualismo, la producción entre pares.”

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A proposta contida na apresentação do projeto, e explicada no vídeo acima, é ousada: “las tradiciones indígenas originarias del yachay, de (re)producción de saberes comunitarios y, por otro, las nuevas formas de colaboración del procomún digital de la cultura y la ética hacker. Resuenan los principios de reciprocidad (randi-randi) y organización del trabajo comunitario (maki-maki) en lo que podríamos llamar una Pacha Mama digital del conocimiento (el commons del general intellect)”. Hardware, software e cultura livre articulados com open data, educação e cultura tradicionais. Ética hacker com cultura andina. Yachay com Arduíno. P2P com la minga. Utopia?

Bauwens acredita que não, e dá alguns detalhes concretos do que andam fazendo o grupo de pesquisadores da FLOK Society hoje: “este grupo está planeando pasar los próximos meses investigando, por ejemplo, cómo hacer viable una biblioteca abierta para los colegios del país que substituya el sistema de caros libros de texto privados. También se plantea una comunidad de diseño abierto para máquinas de pequeños agricultores”. O jornalista Bernardo Gutierrez cita, nesta matéria, que José Luis Vivero Pol, da universidade belga de Lovaine, está trabalhando na frente de “comida aberta” da FLOK, que tem a ideia de “plantear una manera de producir, distribuir y consumir alimentos diferente del modelo consumista, extractivista, injusto y sostenible que tenemos”.

Outras ações realizadas são as #beer2peer, conversas informais (ou “desconferências”) em bares de Quito com pesquisadores e experts de diversas áreas – na 2º edição, Jérome Zimmerman, um dos 4 Cypherpunks do programa de Assange que re-publicamos aqui, esteve presente. Outro evento, marcado para o próximo dia 21 de março, é a Minga En Red, um mapeamento do ecossistema colaborativo do Equador. O grupo da FLOK Society, hoje, conta com 9 pesquisadores, dos mais diversos países, além de pessoal de suporte técnico, operacional e administrativo, e está ligado ao Ministério do Conhecimento e Talento Humano, SENESCYT (Secretaría Nacional de Educación Superior, Ciencia, Tecnología e Innovación) e ao IAEN (Instituto de Altos Estudios del Estado). 

Trabalhar com conhecimento aberto supõe, também, trabalhar em defesa de uma internet livre, com cultura e software livre. Pelo menos no que diz respeito ao SL, o Equador já está avançado: existe uma lei federal desde abril de 2008 que obriga a todas repartições públicas a usarem software livre em seus sistemas e equipamentos, o que potencializou a circulação e o desenvolvimento do SL no país. A presença de Julian Assange na embaixada em Londres, que já completou 1 ano e 6 meses, tem inspirado o Equador também a ser considerado a “casa da internet livre”, como apontado neste texto de Rosie Gray no Buzz Feed, tornando a neutralidade da rede – o tema mais polêmico da discussão hoje, março de 2014, sobre o Marco Civil no Brasil – um horizonte real.

Já a cultura livre está sendo acionada desde a ampla adoção de licenças Creative Commons até a discussão sobre os processos da FLOK em wikis e pads, inclusive na produção colaborativa de um Código Orgânico de Economia Social do Conhecimento e na guerra contra o copyright deflagrada pelo governo, como bem afirmou em entrevista ao jornal El Comercio o Secretario Nacional de Educación Superior, Ciencia, Tecnología e Innovación do Equador, René Ramirez:

Va a haber una reestructura completa del IEPI (Instituto Ecuatoriano de Propiedad Intelectual). Este Instituto ha tenido una perspectiva ‘hiperprivatista’ del conocimiento, cuando lo que necesitamos es la difusión del conocimiento, que exista desagregación tecnológica que permita que la industria nacional desarrolle productos que, con poco esfuerzo, otros países lo están haciendo.

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O projeto da FLOK Society – e, de resto, o buen vivir  do Governo Correa – tem sido bem recebido no cenário internacional, como mostra a lista de textos produzidos sobre o projeto no site oficial. Fala-se do caráter inovador de uma política de estado adotar diretrizes que, em suma, vão “contra” ao capitalismo de mercado, ainda que muitas práticas não sejam de todo contrárias a ele, como escreve o jornalista Oliver Bach em matéria no The Guardian. Pega-se o caso do consumo, por exemplo: o que se defende é o consumir menos, “Small is beautiful”, como diz um dos coordenadores do projeto Eduardo Gudynas:

“Small-scale production has a number of benefits: it’s more likely to reflect and enhance local culture, to include local people and to protect the local environment. Importantly, it also has a higher probability of serving local needs too. The days of industrial agriculture geared for export would be numbered therefore”.

Antes que você queira colocar o Equador junto do Uruguai na rota possível de migração do Brasil, há alguns pontos ainda não esclarecidos e contraditórios nas iniciativas equatorianas. A transparência e a liberdade de expressão estão em desacordo com a polêmica Lei de Medios, muito criticada pelo excessivo controle estatal, por exemplo. A internet livre, outro ponto fundamental para a FLOK Society, fica em cheque com a intenção do governo de montar sua própria agência de vigilância ao estilo “NSA”, como diz o BuzzFeed, citando documentos que comprovam a procura por equipamentos de espionagem de empresas israelenses -e, também, afirmam que o Governo Correa monitora seus adversários políticos. 

Em final de maio (27 a 30) a FLOK Society vai realizar um encontro internacional de ativistas e pesquisadores do conhecimento livre, uma ocasião em que estas contradições certamente serão debatidas. Será a vez de ver o quanto avançou o pensamento e, principalmente, a prática do conhecimento livre no Equador desde aquele dois dias do final de maio de 2013, na Biblioteca da Flacso, onde o II Festival de Cultura Libre tomou parte.

Imagem: 1: Luke Macgregor / Reuters (Buzzfeed)

Pormenores da cultura livre latino-americana

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Passou mais de uma semana, e o relato do congresso de Cultura Livre realizado no final de maio em Quito, no Equador, tardou mas vem agora.

A ideia do congresso, que realizou sua 2º edição e teve organização de FlacsoUnesco y Radialistas, era de gerar  “un espacio de debate e intercambio de experiencias sobre el acceso universal al conocimiento, la creación artística y cultural, la gestión de la cultura, el uso de las tecnologías abiertas y libres, la producción colectiva, el acceso abierto a producciones científicas, el uso de licencias alternativas, los nuevos modelos pedagógicos y las ventajas para la ciudadanía”.

Sem puxa-saquismos, mas foi isso que realmente aconteceu. Já foi importante só o fato de juntar gente de toda a América Latina para trocar experiências sobre iniciativas de cultura, software e mídia livre. Em determinado momento, contei estar em mesas/rodas com gente de Argentina, Uruguai, México, Colômbia, Venezuela, Perú, Chile, Bolívia, Espanha, além de Equador. Foi bom de ver que há gente por toda a região com iniciativas interessantes nesta área.

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Como são muitas as coisas a se falar, vou dividir o relato em dois, de acordo com os dias do evento. O de hoje vai sobre cultura livre, tema do 1º dia, e educação aberta e repositórios livres ficam para a semana que vem.

A quinta feira de congresso teve uma programação diversificada, que conseguiu intercambiar este “mundo novo” (nem tão novo assim) da cultura livre sob a perspectiva dos já iniciados e dos que não conheciam. A conferência de abertura foi “Gestión pública de la cultura en tiempos digitales, a cargo de Jorge Gemetto y Mariana Fossatti, de Ártica Centro Cultural 2.0. Mostraram bastante exemplos de iniciativas de cultura digital, das quais cito LaLulula.tv, “uma curadoria de videos para compartir” bastante interessante organizada por um artista argentino, La Exposición Expandida, uma proposta oriunda da Espanha de ampliar uma exposição tradicional de arte para os blogs e redes sociais, e o “Tiranos Temblad“, canal no Youtube com resusmos bem humorados dos acontecimentos uruguaios da semana.

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Jorge y Mariana de Artica

O trabalho do Ártica é diversificado: oferecem cursos online dos mais diferentes, de WordPress para projetos culturais a iniciação a pintura digital, além de consultorias de gestão de conteúdos e vendas de produtos culturais na web, dentre outros que não cabem nesse post.  Não tem uma sede fixa, mas em tempos de redes distribuídas isso não é empecilho para fazer uma série de trabalhos importantes. Funcionam na prática o que se identificam em conceito: ser um centro cultural 2.0.

Na sequência da programação, rolaram três painéis simultâneos, com vários convidados cada um: “Propiedad Intelectual y Cultura Libre”, “Iniciativas artísticas y culturales Libres” y “Cultura, Diseño, Música y Audiovisuales con Hardware y Software Libre”. Eu participei do segundo e me surpreendi com algumas falas, especialmente a do equatoriano Diego Morales Oñate, que relacionou a cultura livre com os fanzines – foi bom ver que não somos os únicos a pensar que há uma estreita ligação entre as duas partes, relação que fizemos ao chamar o Zinescópio para participar do dia da cultura livre na Casa da Cultura Digital Porto Alegre.

Coffe break disputado
Coffe break disputado

Diego me apresentou também “La minga“, uma antiga tradição andina, especialmente dos altiplanos peruanos e equatorianos, de trabalho colaborativo comunitário com fins de utilidade social. É uma atividade que está na pré-história do trabalho colaborativo e que vem sido resgatada com as novas possibilidades de colaboração via rede, junto com o mutirão brasileiro, do ayni andino e do tequio mexicano, entre outras práticas que colocam a américa latina como precursora do mundo 2.0, como aponta e lista Bernardo Gutierrez nesse artigo.

Outro destaque desse painel foi a fala de Simona Levi, importante ativista baseada na Espanha, que citou diversas iniciativas da qual faz parte, como o FC Fórum – fórum de acesso ao conhecimento – e o X-net, do singelo slogan: “internet libre o barbarie”. Simona encerrou com uma convocação a batalha contra o copyright: “acabou a lógica da propriedade, estamos na lógica do acesso“.

Depois do recesso do meio dia, três conversas paralelas foram realizadas no evento: “Proyectos artísticos en Copyleft”, “Arte y crowdfunding” y “Nuevos modelos de negocio y competencias y su relación con la CL”. Participei de uma roda enxuta mas produtiva sobre arte e crowdfunding, que foi interessante também por apresentar diversos sites de crowdfunding em língua castelhana: Goteo.Org, plataforma baseada na Espanha bastante conhecida e 100 % aberta; Idea.me, a mais difundida na américa latina; Kifund, focada em projetos audiovisuais; e Verkami, para projetos criativos/artísticos.

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Talles de arte y crowdfuding

Deu para sacar que o crowdfunding é visto o como uma novidade grande – e, portanto, é visualizado com relativa desconfiança em alguns países da região, especialmente o Equador: “aqui não dá certo”, “como fiscalizar o dinheiro doado?” foram algumas das perguntas ouvidas. Falei de algumas experiências que tive com as plataformas brasileiras, sobretudo o Catarse.me, e disse que por aqui o financiamento coletivo tem cada vez mais se consolidado na área cultural, principalmente como estratégia de venda antecipada – citei casos como o de Vitor Ramil no Traga seu Show, Nei Lisboa no Catarse, além dos que participei mais proximamente, como as 3 vezes do BaixoCentro e o Ônibus Hacker. Fiquei com a impressão de que o Brasil está na ponta de lança nessa seara aqui na américa latina.

Ao final do dia, este que vos fala teve a honra de fazer uma charla sobre “Creación y difusión cultural en la era hacker” – aqui tem a apresentação pra baixar. Fiz um balanço de algumas iniciativas que participo ou participei, caso de Casa da Cultura Digital, BaixoCentro, Ônibus Hacker, além do BaixaCultura. Apontei também os princípios da ética hacker e como eles, na minha visão, tem influenciado alguma coisa destes trabalhos todos. Ao fim, mostrei algumas fotos e um vídeo do BaixoCentro (o da abertura) para ilustrar um pouco da ideia de que a cultura hacker está presente para além dos dispostivos tecnológicos – também está nas ruas, para “hackear las calles”, como disse em portunhol.

Yo e Santiago García, dos Radialistas, coordenador do evento.
Yo e Santiago García, dos Radialistas, coordenador do evento.

A parte final da apresentação, da cultura livre nas ruas, foi a que me rendeu mais perguntas ao fim. Em conversas posteriores, tive a impressão de que os movimentos da sociedade civil – como o BaixoCentro, a Marcha das Vadias e os recentes organizados em função dos aumentos das passagens de ônibus – e a sua atuação “apartidária”, organizada sem hierarquias (muito) aparentes e com a intenção de ocupar as ruas e reinvindicar seus direitos, são o que de mais forte o Brasil tem apresentado para a latino-américa. Ou, pelo menos, o interessante parece ser a relação destes movimentos com a cultura livre, caso específico do BaixoCentro e nem tanto dos relacionados aos outros aqui citados.

Ainda fui entrevistado pelo El Comércio, jornal de maior tiragem do Equador, na segunda seguinte ao evento. Teve alguns erros de lugares (citaram São Paulo, sendo que hoje estou em Porto Alegre), algumas atropeladas em respostas – colocar o que falei sobre o BaixoCentro numa pergunta sobre propriedade intelectual. Mas não é fácil organizar informações sobre tantas coisas distintas em uma entrevista curta de jornal, então até que não foi de todo mal. Em geral, falei o que falo sempre por aqui: “La originalidad está más ligada a cómo se organizan las cosas que a la creación de una idea única“.

[Leonardo Foletto]

P.s: As apresentações feitas durante todo o evento estão disponíveis aqui. E mais relatos sobre o congresso tem com os uruguaios de Artica e com o peruano Juan Arellano, editor do Global Voices na América Latina.

P.s 2: Sobre Crowdfunding no Brasil, vale a pena ver este mapeamento colaborativo das ferramentas brasileiras com mais de 30 iniciativas.

As fotos são do Flickr do Congresso, por Carlos Vizuete y Beatriz Elguero.

A cultura livre em debate no Equador

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Depois do Dia da Cultura Livre na Casa da Cultura Digital Porto Alegre e do Conexões Globais, a maratonade cultura digital & livre segue em Quito, Equador, no II Congreso Internacional Cultura Libre.

É a segunda edição de um evento importantíssimo que visa discutir a cultura livre na prática cotidiana de países de toda a América Latina. É organizado pela FLACSO (Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais) do Equador, Radialistas (uma ONG que trabalha com rádio digital em Quito) e pela Unesco de Quito, com apoio do Ministério da Cultura do Equador.

A programação (mais abaixo) traz no primeiro dia uma série de debates e conferências sobre cultura livre e gestão cultural, e no 2º dia uma conversa mais focada em educação, cultura livre e recursos abertos. Há gente de longa história na área participando, como Antonio Pardo dos Hackativistas, da Espanha, um dos principais grupos de ativismo mundial, e Cristával Cobo, investigador do Instituto de Internet na Universidade de Oxford, que vai falar sobre livre acesso ao conhecimento – para citar apenas dois entre dezenas de pessoas interessantes que você pode ver aqui.

Estaremos nosostros do BaixaCultura falando sobre “Creación y difusión cultural en la era de las TIC” encerrando o 1º dia de evento – e depois é certo que faremos um relato pormenorizado do que aconteceu em Quito.

Segue a programação completa aqui abaixo. Algumas mesas do evento serão transmitidas por streaming, fica ligado no site do congresso.

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