Música eletrônica globoperiférica

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Ronaldo Lemos já é figura carimbada por aqui, o que me faz dispensar apresentações. No Overmundo, site em que ele é um dos criadores e que também tem dois posts do BaixaCultura circulando por lá (“Uma voz do Presente“, sobre Wado, e “O Escritor Coletivo“, sobre o Wu Ming, ambos de Reuben) , Lemos publicou um texto em que faz um interessantíssimo apanhado do que ele chamou de “música eletrônica globoperiférica“. O texto, inicialmente escrito para a exposição I/Legítimo do Museu da Imagem e do Som em São Paulo, na qual Lemos fez a curadoria musical, é uma lista com diferentes, digamos, “tipos” de música que tem pipocado nas periferias mundiais nestes primeiros anos do século XXI, muito (totalmente, vamos dizer) por conta do barateamento da produção e da circulação, o que vem a ser resultado inequívoco da proliferação da internet em todos os confins desse mundão. Nas palavras de Lemos,

Nos últimos anos, por causa da disseminação da tecnologia digital, grande parte das músicas mais pop(ulares) do mundo passou a ser produzida eletronicamente, com equipamentos cada vez mais baratos e acessíveis. Essa música nova anima das festas portuárias de Rotterdam, aos bairros pobres de Belém, das “villas miserias” de Buenos Aires às emissões piratas das rádios de Londres, sem falar nos DJ´s canadenses (alô Paul Devro) ou americanos (alô Diplo) que surfam nessas ondas.

Eis aqui abaixo os estilos, apresentados nas palavras de Lemos, com videos auto-explicativos editados por mim (menos o tecnobrega e o funk carioca, mais que conhecidos por aqui) e mais alguns pequenos acréscimos (em itálico). Cabe, numa próxima postagem aqui mesmo ou em qualquer outro lugar que você queira ver, um aprofundamento sobre o funcionamento de cada uma dessas cenas, inclusive uma entrada em questões como os direitos autorais, a circulação de dinheiro (quem ganha, e como ganha, e porquê ganha) e o esquema de produção. Desconfio que todas cenas – inclusive o tecnobrega, que já tratamos por aqui, e o funk carioca, muito apreciado no exterior e (ainda) detonado no Brasil – tem muito a nos ensinar sobre o que vai ser esse planeta musical num futuro próximo.

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Champeta – fenômeno cultural colombiano (que inclui a música) derivado sobretudo dos descendentes negros na região de Cartagena. Apesar do termo ser usado há mais de 90 anos (quando tinha caráter depreciativo), a champeta consolidou-se como um ritmo musical nos anos 80, e nos últimos anos vem-se tornando cada vez mais eletrônica e dançante. Hoje produz hits de estádio, como a faixa “Mueve la Colita” (a do vídeo logo acima).

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Kuduro – Originado de angola (mas agora bastante presente também em Portugal), o kuduro significa exatamente o que sua sonoridade portuguesa indica (“cu duro” ou “bunda dura” para nós brasileiros). O termo diz respeito à forma como o ritmo é dançado. O kuduro, que remonta aos anos 80, tem influências do zouk e da soca, e mais recentemente, do funk carioca também. Este blog é um bom achado pra quem quiser saber mais sobre a cena kuduro, vindo diretamente de Luanda.

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Tecnobrega – Desdobramento da poderosa e antiga cena do brega paraense, o tecnobrega nasceu da fusão da música eletrônica com o brega tradicional. Antecedido na década de 90 pelo bregacalypso (também resultado de uma fusão), o gênero do tecnobrega se renova sem parar. Atualmente, há diversas vertentes: cybertecnobrega, brega melody e o novo e empolgante eletromelody (de nomes como Maderito & Joe e Banda Eletro Melody).

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Kwaito
– Surgido nas periferias de Johanesburgo na década de 90, o kwaito é o resultado da fusão do hip hop norte-americano, samples de música africana, house music com batidas um pouco mais lentas e linhas de baixo pronunciadas. Muitas vezes cantada em dialeto, o kwaito vem-se transformando de música do gueto a trilha sonora da juventude sul-africana pós apartheid.
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Cumbia Villera
– Originada das “villas miserias” de Buenos Aires (o adjetivo “villera” é depreciativo), é uma variação da cumbia colombiana (que se espalhou por praticamente toda a América Latina). De origem acústica (violão, acordeão, bateria, flautas etc), na sua vertente villera, torna-se cada vez mais eletrônica e se torna notória pelas letras pesadas sobre drogas e sexo. Nos últimos anos, vem-se tornando chic (com noites “fashion” em Buenos Aires) e até mesmo experimental. O blog Dancincg Cheetah dá mais uma explicada no estilo, conhecido popularmente como a cumbia das favelas.

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Funk Carioca – Influenciado pelo Miami Bass, o funk carioca teve origem a partir de versões em português feitas nas favelas cariocas para sucessos do estilo. A partir daí, passou a se desenvolver como um estilo próprio, incorporando elementos afro-brasileiros (como o tamborzão, atribuído ao candomblé), ao mesmo tempo em que absorve rapidamente as últimas novidades em termos de tecnologia (como o uso hoje dos samplers e seqüenciadores MPC´s nos bailes). Apesar de ainda ser referido com o adjetivo “carioca”, está presente hoje em todo o Brasil. [ E me arrisco a dizer que não tem brasileiro que já não o tenha rebolado alguma vez na vida, mesmo  – ou principalmente – em função do alto teor de borracheira].
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Bubblin – Estilo musical eletrônico que conecta o Suriname à Holanda, de batidas eletrônicas secas e arranjos econômicos, é responsável por animar festas de Rotterdam a Paramaribo. O bubblin em geral é acompanhado pelo boeke, fenômeno de dança também cada vez mais popular. Talvez por conta do bubblin ser popular em holandês, é difícil achar alguma coisa mais aprofundada sobre o estilo.

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Dubstep – Originário das periferias de Londres no começo dos anos 2000 e popularizado através de rádios-pirata e mixtapes. O dusbstep é produto da cena Garage na inglaterra. De ritmo lento, sincopado e linhas de baixo profundas e atordoantes, o dubstep é notório também por ser difícil de dançar (e nesse sentido, reinventar as possibilidades da dança). A BBC fez, ainda em 2006, um documentário que dá uma boa apresentada no estilo.

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Coupé Decalé – O coupé decalé é ao mesmo tempo um estilo de música e de dança. Originado dos imigrantes da Costa do Marfim, o ritmo nasceu na França e rapidamente migrou de volta para a Costa do Marfim, onde se tornou sucesso também. O estilo usa fortemente elementos africanos e linhas de baixo bem marcadas, tendo geralmente um tom festivo e otimista. De novo o Dancing Cheetah fez uma postagem mais explicativa sobre o ritmo que vale uma conferida.

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Segundo Lemos, a ideia de periferia tratada aqui não tem muita relação com o tradicional conceito geográfico, embora eu consiga entender que tem sim, pois a própria ideia da compilação desses ditos estilos tem um foco comum, que é o de justamente tratar de novos estilos musicais (eletrônicos) criados em lugares que raramente apareciam no disputado e massivo mercado musical mundial (Hermano Vianna diz que que o “centro” está se tornando cada vez mais “a periferia da periferia”, especialmente do ponto de vista simbólico, o que eu tendo a acreditar com um certo pé atrás cético).

Mas mais importante que a discussão sobre o que é e o que não é periferia está a constatação de que assistimos a um incrível boom mundial de cenas musicais bastante distintas umas das outras. Como diz Lemos, basta um computador, criatividade e gente com vontade de dançar que tá feito um estilo altamente dançante, pegajoso, tosco e engraçado, o que não deixa de ser a mais pura e sincera expressão cultural de quem finalmente tem as condições necessárias para poder se manifestar e ser ouvido.

[Leonardo Foletto.]